terça-feira, 16 de junho de 2015

Crítica: "007 - QUANTUM OF SOLACE" (2008) - ★★★


Cada dia que passa, ficamos mais próximos do lançamento de 007 Contra Spectre. E, este ano, estou realizando a "promessa" de ver os três últimos filmes estrelados por Daniel Craig na franquia. Em março, revi 007 - Operação Skyfall. Futuramente, reverei 007 - Casino Royale, que tanto influenciou a trama deste filme, Quantum of Solace. Para quebrar o suspense e a fúria causadas pelo título não-traduzido, Quantum of Solace, aqui facilito suas vidas: o título, se viesse a ser traduzido para o português, funcionaria mais ou menos como 007 - Quântica do Consolo, o que, no final das contas, faz um baita sentido.

E, até que o filme não é tão ruim quanto eu pensei que seria. Lógico, não é como 007 - Casino Royale, mas, sob nenhum aspecto, chega a ser um filme desapontador, digamos. Recomendo: no caso de algum de vocês quererem ver este filme, vejam primeiramente 007 - Casino Royale, justamente para não deixar de compreender este além de evitar um astronômico spoiler do final de Casino Royale. Nesta missão, Bond é monitorado para seguir os passos de uma corporação criminosa, algo que o leva a vários pontos de sua última tenebrosa missão, e o faz mais ainda revoltado e cheio de vingança. 

007 - Quantum of Solace poderia ter melhorado muito. Não sei se é só impressão minha ou se Marc Foster exagerou e errou feio na receita. Talvez, por conta da inexperiência com filmes de ação, este projeto não tenha se saído tão ótimo. Seria aceitável. Só que, ainda por cima, Foster decidiu esconder sua inexperiência debaixo do tapete e usou a mal-feita edição do filme para encobrir todo o caos de seu "não-talento" com filmes de ação nas cenas de grande porte, incluindo a abertura meia-boca, que, se percebermos bem de perto, é totalmente dependente da edição, novamente, mal-feita.

Marc Foster é um sujeito cuja "ficha" possui muitos trabalhos "prós" e muitos trabalhos "contra". Recentemente, vi aquele que considero "seu melhor filme": Mais Estranho que a Ficção. E isso por que até hoje não tive a oportunidade de ver um de seus longas mais aclamados, A Última Ceia, que deu o Oscar a Halle Berry. Vi Em Busca da Terra do Nunca mas fiquei tremendamente dividido. Enquanto, em partes, o achei muito interessante e bem construído, por outro lado fiquei decepcionado com a falta de seriedade e compromisso da equipe que o fez. O Caçador de Pipas, melhor não dizer nada. Quanto à 007 - Quantum of Solace, digo muito alto: "nada mal!".

Daniel Craig está tão bom aqui quanto esteve no bombástico e altamente talentoso 007 - Cassino Royale. O melhor do ator é que ele se encaixa brilhantemente em James Bond. É incrível. Sei que pode ser cedo demais para afirmar, mas é preciso qualificá-lo à altura das grandes performances dos lendários Roger Moore e Sean Connery como Bond. Craig é espetacular. Acho que nem mesmo o último James Bond, Pierce Brosnan, foi tão competente como esse aqui. Parece mesmo que Daniel se entregou de corpo e alma - parece não, é! - à Bond no fim de transformá-lo em seu personagem mais reconhecido.

Elogios à parte, volto a debater Foster com a falsidade com a qual ele comprometeu as criativas cenas de ação desse longa. Posso estar errado, mas é muito artificial. E estúpido, aposto. Não dá pra sentir gosto, adrenalina, em cenas tão ausentes de alma e poder. A fúria do personagem Bond quase nunca se é percebida, ao não ser especialmente no complexo final. O roteiro de Paul Haggis chantageia emoções por um punhado de tiro, porrada e bomba, o que, aqui, não pegou bem. A tensão acentuada da trama é desculpa pelos dramas internos ocasionados pelos diversos problemas que acometem o olfato (des)apurado do filme. Além disso, quase não vi as bond girls. A belíssima Olga Kurylenko entra no início, sai de campo no meio, e retorna (invisivelmente) no final. E nem rola uns "amassos" (sim, estou excedendo beijos). Só com a tal Mrs. Fields (Gemma Arteton), assistente britânica do MI6 e que trabalha na embaixada boliviana, que se deita com Bond durante a estadia dele em La Paz, só que é tão rápido, mesmo que uma boa referência à 007 Contra Goldfinger esteja metida nesse meio. Nem parece que é (e, pra mim, coisa que não pode faltar em filme de 007 é bond girl, senão perde a graça, "risos"). 

007 - Quantum of Solace (Quantum of Solace)
dir. Marc Forster - 

domingo, 14 de junho de 2015

ORANGE IS THE NEW BLACK / 3ª Temporada


Finalmente! Depois de muita ansiedade, a 3ª temporada de Orange is the New Black foi disponibilizada na última sexta-feira pelo canal pago Netflix. E, como eu esperava, o resultado foi tremendamente positivo, como os obtidos anteriormente com a primeira e a segunda temporada. Só que não esperem demais, se forem comparar este temporada com as duas primeiras. Essa é mais suave. Não verão muitos aspectos da primeira e da segunda aqui. Essa terceira temporada fala muito sobre a fé, a família, além de explorar mais afundo as relações entre as prisioneiras, nos sentidos afetivos e emocionais. Talvez seja bem estranho ver esse temporada sucedendo a segunda, a mais violenta já registrada na série, devido aos eventos causados pela detenta Vee, o personagem-central daquela temporada.

Aqui, as tramas estão focadas em outros pontos. Acho que é mais como uma forma de diminuir a tensão provocada pelos eventos já citados ocorridos na 2ª. O bom e, com certeza, o mais interessante a ser visto nessa 3ª temporada é a evolução de identidade dessas personagens. É bom ver que o clima na prisão se alastra, desta vez, para o barco dos funcionários, deixando o barco das detentas mais leve, de fato. Devido às constantes crises no setor, e problemas que levam à prisão de Litchfield à alguns ajustes que acabam favorecendo conflitos econômicos, alguns deles não tão prejudiciais às prisioneiras, mas principalmente aos funcionários.

(Lá vem spoiler) O anúncio (alarme-falso) do fechamento de Litchfield pode causar um pouco de desconforto ao espectador, mas é passageiro, mesmo que as coisas na administração de lá ganhe proporções mais preocupativas. É possível dizer que esta temporada talvez também esteja priorizando o papel e a função deles lá. Muitos tornam-se infelizes com a situação. Outros, extramente preocupados. Enquanto alguns procuram ajudar, outros apenas tendem a complicar, como a chegada de um diretor barra-pesada que causa inusitadas dores de cabeça em Joe Caputo.

Mas, como eu disse, há algo de especial nessa nova temporada: a fé. Li um artigo, não lembro aonde, que dizia que essa nova fase da série exibiria a presença da religião, da fé em geral e da crença em Litchfield, principalmente nas prisioneiras. E é algo onipresente, sim. A 3ª temporada, essencialmente durante os famosos flashbacks da vida pré-prisão das detentas, examina, no estilo de cada uma, o papel da fé. Não a importância, não é esse o objetivo. Mas apenas a fé. Ou então o quanto a fé afetou a jornada daquelas mulheres. O quanto aquilo transformou suas vidas dentro e fora da prisão, ou até mesmo na atualidade. Por que, afinal, a fé é algo que geralmente encontra conexão na prisão. Já vi, por se dizer experiencialmente bem de perto, casos do tipo. A religião é uma fortaleza para algumas devotas que encontram-se por trás das grades e, a maioria delas, busca a salvação por meio de cultos, rezas, promessas e tudo o mais possível.

Piper engrandece sua popularidade nessa temporada. No meio da temporada, uma reviravolta no setor alimentício causa um terrível problema para todos. Com isso, Piper cria um novo plano: esvazia o estoque de macarrões instantâneos da "lojinha", com o fim de lucrar com uma troca, criada por ela: o tempero do "miojo" é capaz de disfarçar o ruim gosto das novas refeições oferecidas pela prisão. Com isso, ela pretende lucrar nesse ramo pedindo as calcinhas das detentas, como modo de fornecer à elas os milagrosos temperos. Com as calcinhas, Piper decide fazer um esquema com seu irmão de levá-las para fora da prisão, através do novo guarda, para que ele possa vendê-las pela internet à tarados (quem viu a 2ª temporada vai lembrar que, no primeiro episódio dela, Piper, em Chicago para o julgamento, tratou um esquema com um detento, e com isso, deu a sua calcinha à ele em troca de um favor). E, no fim das contas, o negócio de Piper lucra imbativelmente. 

Essa 3ª temporada, além de conter essas e muitas outras mais mudanças significativas, também explora a vida de outras mais detentas nos flashbacks. As chamadas secundárias. Muitas delas, principalmente algumas das que surgiram na 1ª temporada (ex. Alex, Suzanne, Taystee, Poussey, Daya, Gloria, Tiffany, Nicky, Lorna, Cindy), agora nesta terceira temporada são protagonistas. No entanto, a série oferece justiça às novas, e algumas antigas, secundárias que não tiveram a chance de integrar o grupo acima.

E, como a própria Alex diz num dos episódios, é tanta confusão que mal quase você tem a oportunidade de ver as outras detentas, já que Piper fica confusa e surpresa por ver a quantidade de detentas à sua frente que há pouco tempo a era desconhecida. Algumas dessas secundárias estão na série desde os primeiros episódios (ex. Sophia, Flaca, Big Boo, Norma, Leanne, Yoga Jones), e que ganharam certo apoio na segunda, mas nessa terceira atuam não mais como recorrentes, mas sim como efetivas (o que é verdade). E é bom ver essa evolução, digo, de caracterização da série. O elenco, que já era grande, ganha reforços e fica bem melhor (na minha percepção).

O drama tem pouco espaço nessa temporada. Mesmo que alguns traços, como a triste mudança da "querida" detenta Nicky para a segurança máxima e a gravidez conflituada de Daya, que há tempos nos vem deixando com rugas na testa, reforcem o cunho dramático da temporada, a comédia mostra-se mais forte, algo que era visto nas duas primeiras temporadas, mas talvez com bem menos amplitude, tanto que eu anteriormente via Orange is the New Black mais como um drama do que como uma própria comédia. Vale ressaltar esses detalhes. Vi muita gente disfarçando desgosto pela série dizendo que era um "pseudo-drama" (nem sei de que lugar essa expressão emergiu). Enfim, só sei que estou muito feliz com a chegada dessa terceira temporada. E, mal posso esperar pela quarta, que promete vir com tudo em 2016. 

3ª TEMPORADA: 
MELHOR EPISÓDIO: Fear and Others Smells (E8) - 
MENÇÕES HONROSAS: Mother's Day (E1) - / Don't Make Me Come Back There (E12) - 

sábado, 13 de junho de 2015

Crítica: "SAMBA" (2014) - ★★★★



O talentoso francês Omar Sy, que em 2011 interpretou Driss no grande sucesso Intocáveis, dirigido por Eric Toledano e Olivier Nakache, retorna a fazer uma atuação incrivelmente maravilhosa nessa comédia dramática excelente, que marca mais uma parceria entre a dupla cineasta e este talento virtuoso. Samba é uma obra deliciosa. Simplesmente deliciosa em todos os imagináveis ângulos. 

Consigo traz a história desoladora e marcante de um imigrante ilegal senegalês chamado Samba Cissé que realiza pequenas tarefas quando surge a oportunidade. Vivendo com o tio Lamouna, que possui visto, Samba acaba sendo preso devido a um imprevisto em função de sua legalidade como imigrante no país, o que faz com que ele vá parar diante de Alice, uma agente do governo depressiva que trabalha numa ONG. Alice simpatiza com Samba e quer que ele consiga seu visto, apesar dos inúmeros conflitos que acabam por transtornar a jornada de ambos. Após sair da prisão, eles iniciam um relacionamento amigável, marcado por situações de risco e muitas emboscadas.

A imigração é um assunto que vem ultimamente sendo primorosamente retratado no cinema. Dheepan, dirigido por Jacques Audiard, que venceu a Palma de Ouro em Cannes esse ano, retrata o mesmo tema de Samba: a imigração. Não sei ainda Dheepan, mas Samba realiza um feito extraordinário e sucessivamente bem-realizado sobre o tema, equilibradamente. Meio drama, meio comédia, não demora muito para que Samba inicie a despertar no espectador as emoções mais afloradas em virtude de sua intensa trama. 

É um filme que choca, provoca. Mais do que uma simples comédia, ou um profundo drama... é um retrato, absurdamente real da vida de não só Samba, mas de um gigante grupo de pessoas que atravessa exatamente a mesma situação que ele. Um bom exemplo é um colega próximo de Samba, um argelino que usa uma identidade falsa, Wilson, para trabalho, e com essa identidade a nacionalidade de brasileiro, que o força a se comportar como um e até mesmo falar como um. 

Apesar da seriedade do retrato, Toledano e Nakache esculpem na tela algo bem mais otimista do que a própria realidade em si, algo que pode deixar o espectador em certos momentos chateado. Mas Samba, confesso, em certos momentos me lembra intensamente de Ferrugem e Osso, também de Audiard. O filme não retrata a imigração, nem nada do que se possa igualar a Samba, mas eu senti, brevemente, uma conexão entre eles. Talvez tenha sido algo emotivo. Samba, sobretudo mostrando a relação amorosa de Alice e Samba, me lembra fielmente de Apenas uma Vez, do fabuloso romance não-assumido do músico e da florista. 

Samba, no fundo, soa bem mais como comédia do que drama, pensando bem. A tragédia é presente, só que ainda sim permanece no fundo, esteticamente constante mas encoberta pelo humor da situação e do jeito como a história transparece. Não acredito que Samba seja um filme superficial por conta disso. Muito pelo contrário. O filme é nesse ponto genial, justo por saber equilibrar de maneira tão excêntrica e cordialmente inteligente a comédia, o drama e o romance presentes dentro da história de Samba.

Não acho a história superficial, só que com certeza ela poderia ter ido bem além de onde ela terminou. Digo, a história poderia ter cavado mais fundo. Arriscar mais possibilidades, ou atenuar o conflito, sinceramente seria bem preciso. Não acuso o filme de superficialidade, mas que era possível ter ido além, era. Omar Sy, que estava brilhante ao lado de François Cluzet na infalível tragicomédia Intocáveis, o maior filme dirigido até o momento por Olivier e Eric, aqui faz um personagem, talvez, mais sério do que o realizado no longa que o deu um César em 2012. Bem que ele poderia receber outro esse ano por sua interpretação como Samba, que, acredito ser tão boa quanto a que ele deu anteriormente em Intocáveis.

A bela Charlotte Gainsbourg é uma atípica surpresa deste longa. Até que seu melancólico papel carrega consigo pontos engraçadíssimos ao longo de tanta confusão e tensão que tanto embalam e sacodem o percurso da história. Inevitável dizer que a francesa está incrível como Alice (merece atenção especial no final meticulosamente enigmático e divertidamente irônico). Protetora e maior "fã" do imigrante Samba, ela demonstra caridade, paixão e admiração por ele, a quase todo momento do filme desde o início, protagonizando ao lado dele cenas intensas e bem confortáveis. 

Um milagre Samba ter chegado aqui no Brasil. Há pouco tempo, nem havia previsão de estreia. O longa atualmente está sendo exibido no conceituado Festival Varilux de Cinema Francês, do qual tive a grande chance de participar neste ano. A estreia nacional do filme pela Califórnia Filmes está datada para o dia 9 de julho. Ver Samba não teve preço. Aliás, teve sim. É um filme que totalmente faz jus ao preço do ingresso, que, por essa sessão, merecidamente deveria valer bem mais. Samba é um filme por demais precioso. Recheado com uma agradável humanidade, além de cenas espirituosas e dramáticas, Samba é um longa naturalmente primoroso, tanto por seu dedicado elenco, tanto pela forte história, quanto por sua qualidade inestimável.

Samba
dir. Eric Toledano & Olivier Nakache - 

Crítica: "SOB O MESMO CÉU" (2015) - ★★


Nunca gostei muito dos filmes de Cameron Crowe. Acho que um dos únicos que realmente me cativou dentro da filmografia dele, e que destaca-se naturalmente dos outros foi Quase Famosos. Fora este, nunca realmente tive apreço pelos projetos de Crowe. Nunca encontrei um motivo, talvez. Acho seus trabalhos primorosamente retratistas mas absolutamente sem-graça, cartões postais de um cotidiano perfeito, na maioria das vezes, como nos foi apresentado em seu pior longa, o ridículo Compramos um Zoológico, que não conseguem interagir com o público além de não apresentar nada de qualidade.

Este Sob o Mesmo Céu até que conseguiu me agradar, só que senti a falta de alguns elementos cuja participação na estrutura da história e do desenvolvimento do conflito seria de tamanha importância. Sob o Mesmo Céu é um clichê de Crowe, pois, como eu vi, novamente é um cartão postal sobre um cotidiano perfeito, final feliz, coroado com vitórias e bem-estar. Não levem a mal, como se eu não gostasse de tais características dentro de um filme. É só que, aqui, ao estilo de Crowe, me irrita, mesmo que ele esteja trabalhando numa trama tão interessantemente boa, que é essa. O desenrolar dos acontecimentos cansa, pois, em seus intervalos, o diretor/roteirista procura introduzir segmentos que mais se parecem com "comerciais". É como se Sob o Mesmo Céu fosse um programa de TV, e, quando a história chega em algum momento crucial, entram chatos segmentos que  só a atrasam, pra (não) segurar a atenção do público, demorar o filme e ainda encurtar a curiosidade, que, na minha percepção, é fruto relevante de qualquer história, mas que aqui, existe em bem pouca quantidade.

Bradley Cooper interpreta um militar chamado Brian Gilcrest, que, após falhar numa missão em Cabul, recebe comandos para retornar ao Havaí e preparar-se para a manutenção e a supervisão do lançamento de um satélite. Ao desembarcar na ilha, ele reencontra um antigo amor com quem teve um duro fim, e quem não via há mais de dez anos, além de estar sempre na companhia de uma piloto da Força Aérea. História vai, história vem, ele se apaixona perdidamente por essa piloto, mesmo que esse amor esteja dividido pelo trabalho de Brian, e cada vez mais ele se vê próximo de um segredo de família perpetuado por muito tempo por sua ex, que está relacionado ambiguamente ao fim da relação deles e também ao novo marido dela, Woody, colega de Brian.

Como militar, gostei mesmo de Bradley Cooper no forte e comentado Sniper Americano. Aqui, seu personagem de militar não tem gosto nem cheiro, muito menos ação e identidade. Não é possível perceber traços de um homem que tenha executado serviços tão severamente cruéis, além de ter tido tanto sofrimento durante tais missões, em especial a última realizada, neste fraco Brian Gilcrest feito por Cooper nesta comédia romântica embaçada. Já em Sniper, havia controle e atuação; Bradley encarnou com realidade e talento Chris Kyle, de maneira com a qual seu personagem sempre estava se vendo contracenando com o triste passado da guerra com o qual foi presenteado, levando a culpa dos assassinatos e da crueldade vista por lá para o resto de sua jornada fora daquelas terras. Talvez, se Brian tivesse sido melhor desenvolvido por Cameron durante a projeção do roteiro, não teria tanto desgostado da interpretação de Cooper como ele.

Rachel McAdams não serve em papéis do gênero: mãe boazinha, caridosa, ex respeitável, compreensiva, e tal... Gosto dela mesmo interpretando vilãs, sujeitas-mal-caráter, traiçoeiras, impossíveis, como as feitas em Meia-Noite em Paris (embora com muito romantismo) e no sangrento Paixão, de Brian De Palma, embora eu mesmo minto em tal afirmação, já que adorei a bela Rachel no papel de Becky Fuller em Uma Manhã Gloriosa. Achei-a muito sem sal como a ex namorada de Brian. Emma Stone até que conseguiu controlar com certo desempenho sua personagem, uma bela capitã aérea. Romântica e belíssima, embora seu cargo tenha a exigido muita bravura e rigidez, ela é insubstituivelmente maravilhosa (mal posso esperar para vê-la em Homem Irracional).

Senti também em Sob o Mesmo Céu a ausência de visual. As cenas, embora passadas num lugar tão colorido e cheio de vida como o Havaí, ainda sim me parecem muito monocromático, no sentido de ter visto excessivamente tudo muito em uma só cor, ou uma série de cores paradas. Não há vermelho, amarelo, azul, rosa... E, pra mim como espectador, é essencial ver um bom jogo de cores e cenários dentro de histórias locadas em paisagens turísticas tão recheadas de beleza e sinfonia visual, como o Havaí.

Sob o Mesmo Céu (Aloha)
dir. Cameron Crowe - 

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Adeus, CHRISTOPHER LEE (1922 - 2015)


Pouco após completar 93 anos no dia 27 do último mês, faleceu em Londres o lendário e querido ator britânico Christopher Lee, no último domingo, dia 7. A morte do artista só foi anunciada na manhã desta quinta, que, com certeza, termina bem mais triste com essa lamentável notícia.

Christopher foi dono de uma incomparável extensa filmografia, que calcula aproximadamente mais de duzentos longas-metragens, como ator. Entre estes filmes, figuram clássicos como O Expresso do Horror, A Múmia, 007 contra o Homem com a Pistola de Ouro, Drácula, A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça, A Volta ao Mundo em 80 Dias, O Conde Drácula (outra versão), Moulin Rouge (versão de John Huston), Aeroporto 77, As Férias do Sr. Hulot, Hamlet, A Vingança de Milady, O Dia do Juízo Final, Os Três Mosqueteiros, Poderes Ocultos, O Metrô da Morte, Essência da Maldade, A Vida Íntima de Sherlock Holmes, Júlio César, O Juiz Sanguinário e As Bodas de Satã, além de ter feito muitos personagens em filmes atuais. Christopher fez Saruman na trilogia Senhor dos Anéis e nos três filmes da franquia O Hobbit, Conde Dooku em Star Wars - Episódio III: A Vingança dos Sith, Dr. Wonka na adaptação de 2004 de Tim Burton de A Fantástica Fábrica de Chocolate, e outros papéis mais em A Bússola de Ouro, Alice no País das Maravilhas, A Invenção de Hugo Cabret, Sombras da Noite e Trem Noturno para Lisboa.

Christopher parte e deixa marcada na história do cinema uma jornada simplesmente arrebatadora e exemplar. Um ator como nenhum outro jamais pôde ser, Lee encarnou dos mais diferentes tipos de personagens, das mais diversas versões de Drácula e dos mais encantadores longas. Em sua memória, sua vida fica dentro dos rolos cinematográficos. E que, futuramente, essa carreira lendária seja amplamente celebrada mais do que atualmente ela já é. Adeus, Christopher. Não se preocupe. Você, de jeito algum, poderá ser esquecido algum dia, se era esse seu medo. Goodbye, Saruman. 

"As pessoas fazem a história, mas raramente se dão conta do que estão fazendo"


- Christopher Lee

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Crítica: "SCOOP: O GRANDE FURO" (2006) - ★★


Todos nós cometemos erros. Até mesmo Woody Allen, um de meus diretores prediletos e quem eu considero um inestimável gênio da sétima arte. Mas, é compreensível. Afinal, todo cineasta tem fracassos. Scoop: O Grande Furo não só não me agradou como também me deixou terrivelmente desapontado. É um filme completamente inverso ao grande sucesso de Allen Match Point - Ponto Final, filmado um ano antes desta película. Engana-se quem pensa que verá uma grandiosa obra sucedendo uma obra ainda maior como nesta relação poderia ser fácil de encontrar.

Eu não sei. Como eu não vi a filmografia inteira de Woody até agora, não posso desqualificar e nomear Scoop como seu pior filme. Claro, com certeza não é o melhor. A ideia do longa é ótima: uma estudante de jornalismo americana vai à Londres e, após se candidatar à voluntária de um dos truques de um excêntrico mágico chamado Sid Waterman, durante o truque ela vê o fantasma de um falecido repórter britânico, Joe Strombel, que a avisa sobre o paradeiro do assassino das cartas de tarô, um serial killer que, por algum tempo, deixou os tabloides e a polícia de Londres de cabeça para baixo em meio às suas incômodas brutalidades. Com isso, o repórter revela à Sondra que esse assassino é um rico milionário de nome Peter Lyman. Após esse evento, Sondra contata o cômico Sid e parte em busca de provas em uma desoladora aventura. O único problema é que se Sondra encontra-se perdidamente apaixonada por Peter, que cada vez mais a parece menos assassino e bem mais sedutor.

O bom deste longa só mesmo é Woody. Visto pouco - muito raramente - atuando em seus filmes, atividade que foi se deteriorando com a chegada da velhice de Woody no final da década de 90, creio eu, vê-lo em Scoop é realmente uma preciosidade, nesse ponto. Como diz o personagem de Hugh Jackman, "muito irônico"... Mesmo que este não seja o pior filme, é um fracasso e tanto. Sem dúvidas, é o pior roteiro já escrito por Woody. Os detalhes vão se perdendo com o desenvolvimento da história. Parece que os detalhes vão desaparecendo para Woody. E incrivelmente não pelo público. Esse é um raro momento onde o espectador foi capaz de superar a inteligência e os mágicos truques de Woody. 

Uma hora, o filme diz isto. Outra hora, desmente tal revelação. Outra hora, faz invenções hipócritas acerca dos acontecimentos e reverte todo o mistério, o que é, talvez, a decepção mais dolorosa da sessão. Não há equilíbrio entre o suspense, o drama e a comédia da história: outro ponto extremamente inusual para um longa dirigido por alguém do nível de Allen (posso estar errado, mas acredito que o humor, mesmo que seja bom e de ótima qualidade, matou o suspense da trama, o clima central de toda a história, e, acredito eu, acabou matando a essência da película). Quando digo humor, digo os diálogos/debates imprescindíveis protagonizados pela belíssima Scarlett Johansson (na segunda das três colaborações com o gênio) e o próprio Woody. Diálogos tremendamente engraçados. Porém, não ajudou muito. 

Já em Match Point isso não aconteceu. Muito pelo contrário. Os elementos foram regidos por Allen com uma excepcional excelência e divina genialidade. Nada ficou "ao ar", algo que é frequente visto aqui. Além disso, o suspense e o drama tinham enorme consistência. Não sei o que houve no longa sucessor deste, O Sonho de Cassandra, que se parece bem mais sério do que este (nova missão: ver O Sonho de Cassandra). Mas é com tamanha infelicidade e tristeza, com um misto de desapontamento, que termino esta resenha alcunhando Scoop um dos longas mais imperdoavelmente ruins já dirigidos e, principalmente, escritos por Woody. Muito triste. Esperemos por Homem Irracional, e uma possível salvação.

OBS.: Não cometam a insensata gafe de ver Scoop dublado, como eu fiz. Mais um longa cuja dublagem destrói completamente tudo.

Scoop: O Grande Furo (Scoop)
dir. Woody Allen - ★★

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Crítica: "A ESPIÃ QUE SABIA DE MENOS" (2015) - ★★★★


Há muita coisa de Missão Madrinha de Casamento que revi aqui em A Espiã que Sabia de Menos. Não apenas a qualidade, mas também a forte característica feminina da história e o tresloucado humor, além do talentoso elenco. Novo longa de Paul Feig, que revelou-se em 2011 dirigindo o longa acima citado, que estrelava um ótimo cast feminino estrelado pela brilhante comediante Kristen Wiig, repete aqui uma experiência gloriosa e maravilhosa assumindo a direção, e desta vez o roteiro de A Espiã que Sabia de Menos, livremente "inspirado" nos clássicos filmes de espionagem, agora com um toque a mais de modernidade (vê-se no pôster a referência ao clássico de James Bond 007 Contra Goldfinger, um dos meus favoritos).

Muitos por aí dizem que o título em português do longa é uma referência ao longa de Hitchcock O Homem que Sabia Demais, apesar de que acredito que o título seja uma clara direta ao recente O Espião que Sabia Demais, já que seria muito fácil receber da distribuidora nacional um título referenciando o mestre do suspense. Porém, não criem expectativas anteriores quanto aos filmes citados. O longa é uma simples paródia, apesar de bem-feita e muito bem-humorada (e bota bem-humorada nisso...). A Espiã que Sabia de Menos é um longa pra lá de hilário. Mesmo que a boa maioria, pelo menos cinquenta por cento, das gargalhadas geradas pelo filme sejam de origem vulgarmente chamada "pastelona". Não vale muito ligar pra isso. O que vale é curtir o estilo do longa e a sua trama inteligente que nos deixam curiosos e tremendamente cativados, ainda mais pelo humor. 

Mas confesso que, apesar das mil e uma qualidades que tanto me lembram da obra Missão Madrinha de Casamento aqui presentes, quem mais surpreende e quem mais agrada dentre essas mil e uma qualidades sem dúvida alguma é a queridíssima Melissa McCarthy, que anteriormente já havia recebido uma mega aclamação por interpretar a desajeitadamente cômica Megan em Missão, que tinha um estilo "espionagem" devido à profissão que ela seguia, mas, embora ali a profissão só mais teria ajudado o personagem a ganhar a simpatia do público e causar um bom humor, aqui não só esses sãos os motivos, mas há maior dentro de tudo isso. Talvez o personagem contenha em si uma espécie de espírito de comprometimento e fidelidade ao serviço, o que tão vimos ultimamente. Certo de que aqui quem impera é o humor, mas vale enfatizar certas qualidades presentes na performance de McCarthy (ainda tenho que publicar aqui no blog a resenha da nova temporada de Mike & Molly, que terminou há pouco). 

O resto do elenco, à breve exceção de alguns, não será desconhecido ao espectador que assistiu à Missão. Rose Byrne (novamente como vilã - creio que exista certa semelhança entre seu personagem aqui e o que ela fez em Missão quanto à questão de personalidade), a própria McCarthy, Ben Falcone (marido da Melissa, que fez o marechal - super cômico - em Missão, aqui aparecendo bem curtamente). Dentro do novo elenco, temos Jude Law (que, acredito eu, daria um lendário Bond), Jason Statham (que, em Velozes e Furiosos 7 fez um vilão barra-pesada, aqui faz um agente boca-suja que, em sua completa seriedade, ganha o público pela comicidade e simpatia, particularmente nas cenas onde ele co-protagoniza com Melissa), Miranda Hart, Bobby Cannavale, Allison Janney, Peter Serafinowicz (famoso por ter atuado em Star Wars - Episódio I: A Ameaça Fantasma, aqui fazendo um agente italiano taradão que se apaixona pela Susan Cooper, e que, nas cenas feitas com esta personagem, me fez rir alto no cinema). 

E, apesar de não ser melhor, confesso, do que Missão Madrinha de Casamento, onda havia um certo sarcasmo e iconismo em seu conteúdo - em termos humorísticos -, A Espiã que Sabia de Menos é um filme bem mais maturo tecnicamente do que aquele. Missão tem um ar mais independente, mais particular. Já A Espiã trata-se de algo mais geral, mais aberto, mais "técnico", característica que nunca se encaixaria nos padrões de Missão. Em A Espiã, além da trama mais violenta, bizarra e cheia de ação, temos uma forte equipe técnica por trás dos cenários desconcertantes, figurinos detalhados, fotografia excelente e efeitos visuais de mão cheia. A trilha sonora de Theodore Shapiro surpreendeu. Geralmente, não venho me satisfazendo com as trilhas de Theodore, a quem muito já vangloriei e elogiei. A fotografia de Robert Yeoman (O Grande Hotel Budapeste), também me surpreendeu, por que é ótima (inicialmente, eu acharia que, devido aos badalos do longa de Wes Anderson, Robert não teria se adaptado ao clima espião deste filme - claro, eu estava enganado). Confiar, proximamente, neste grandioso excelente diretor de fotografia não será tão difícil, já que ele mostrou competência ultimamente em seus trabalhos, inclusive esse. 

Achei que me enjoaria da ação presente em A Espiã, algo que primeiramente me deixou irritado no trailer, mas aqui confesso que gostei. E volto a repetir: geralmente não sou tão bom com filmes deste gênero, apesar dele ter trago consigo de uns anos pra cá obras fascinantes. E, por que não A Espiã que Sabia de Menos? É um filme agradabilíssimo, que nos faz rir e chorar, além de ser um filme de espionagem praticamente plausível, em seu todo. Certamente, é uma grande obra fascinante. Além de quebrar ao todo esse preconceito contra as mulheres em filmes de ação, algo que vi em Mad Max: Estrada da Fúria, A Espiã que Sabia de Menos possui um humor próprio particularmente hilariante e simplesmente invencível. Um humor aconchegante, sujo, especial, sensível, insistente e brincalhão, que tem estreita ligação com o truque pastelão que tanto arrancou risos da minha pessoa. Esse truque "pastelão" vai demorar pra deixar de fazer efeito no público, apesar dele já ser bem velho, e até que não, não acredito que ele se perderá com o tempo, mesmo com a exigência e a instabilidade com a qual ele veio sendo recebido pelo público e pela crítica de uns tempos pra cá. É uma espécie de humor única, quão deliciosa. É a mais primária, também. Respeito à ela é totalmente preciso. Mudando de assunto, vejam esse filme, e pensem em Melissa McCarthy. Pensem nela aqui bem mais cômica do que ela foi em Missão Madrinha de Casamento. Raro não adorá-la aqui. A mulher é de um talento genial! 

A Espiã que Sabia de Menos (Spy)
dir. Paul Feig -