quinta-feira, 31 de março de 2016

Crítica: "NO CORAÇÃO DO MAR" (2015) - ★★★


Se eu me apegar aos clássicos e às revisões demais acabo esquecendo que terminei 2015 com uma dívida enorme de filmes pra ver. Enquanto o calendário de lançamentos segue morno, estou aproveitando para tentar dar uma olhada no que não vi, ou até mesmo alguns filmes que ignorei durante o ano e que foram as estrelas de listas de melhores e etc. E amanhã já é abril, mês 4, então preciso apressar e quitar essa lista senão vou ficar sobrecarregado. Vi no início desse mês No Coração do Mar, o mais novo filme de Ron Howard. Se é um filme bom? Olha, bom é. Tem umas coisinhas, mas até que é bom. O que eu não garanto é uma obra-prima, o que No Coração do Mar está bem longe de ser. Ainda sim, à parte certos defeitos, o filme é um trabalho muito bonito e estonteante, por mais mediano que seja.

Ultimamente, os filmes de Howard são mais odiados do que amados. É claro, há exceções (Rush e Frost/Nixon, por exemplo), mas os críticos no geral desceram o cacete em No Coração do Mar, O Código da Vinci & sequência (Anjos e Demônios), A Luta pela Esperança, O Dilema... Muito embora estes sejam títulos defeituosos, não são filmes tão ruins a ponto de serem péssimos. 

O caso de No Coração do Mar é um pouco confuso. O filme carrega uma trama interessante, mas que perde a textura com o passar do tempo. A estranheza é indecifrável. É como se a história perdesse a graça, sabe? O elenco não consegue sustentar e a gente começa a prever que o filme será uma grande de uma bagunça. E é isso que ele é. Uma bagunça. No Coração do Mar começa bom e fica maçante. 

E isso necessariamente não transforma o filme numa total perdição, levando em conta a direção excelente do Ron Howard, a fotografia triunfal do Anthony Dod Mantle, a trilha sonora, sem contar que o filme é por si só um espetáculo de magia e potência visual admirável. No Coração do Mar é insustentável mas belo, gracioso, sensível. 

Mas simplesmente não dá pra não ficar no mínimo chateado com a seleção do Chris Hemsworth para o papel principal. Que coisa, hein? Nada contra o Chris, mas é tão chato, tão chato o filme com ele como protagonista. Não sei se já é porque eu mesmo acho o Chris um pouco maçante, mas não dá pra engolir a atuação tosca dele, me desculpem. Fosse qualquer outro, mas o Chris Hemsworth não encaixou. 

Não é que eu ache o filme muito parado ou coisa do tipo, mas é que ele fica desinteressante, azedo, sem graça. Podia ter sido um baita de um filme, mas não foi. Ô, seu Howard, aí não dá, né? Ainda sim, há esperança para o próximo projeto de Howard, que chegará aos cinemas esse ano, Inferno, que encerra a trilogia do Robert Langdom. Será que vão gostar do filme? Enfim, No Coração do Mar é assim, bonitinho, bem-feitinho, bem dirigidinho, mas que não passa disso, e por outro lado é uma grande de uma chatice. Não vou impedir ninguém de ver, até porque não chega a ser um filme péssimo, mas que tem umas coisinhas irritantes, ah, isso eu não vou negar.

No Coração do Mar (In the Heart of the Sea)
dir. Ron Howard - 

quarta-feira, 30 de março de 2016

Crítica: "SONHANDO ACORDADO" (2006) - ★★★★


Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças foi uma experiência cinematográfica alucinante e absolutamente encantadora. Foi no filme de 2004 que conheci o francês Michel Gondry, outrora diretor de clipes musicais pop e que agora faz um enorme sucesso do cinema, sendo dono deste título que é muito provavelmente um dos melhores filmes que eu já vi na minha vida. Apesar de não ser tão glorioso quanto, Sonhando Acordado me interessou bastante da primeira vez que fui conferir (e terminei não terminando). É bem mais esquisitão que Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças. E isso, em partes, é bom. 

A irreal viagem adentro as loucuras de um rapaz metade mexicano metade francês (o ótimo Gael García Bernal, numa das melhores performances de sua carreira) que, com a morte do pai, viaja para a França para trabalhar numa empresa que produz calendários. Lá, ele descobre a farsa do emprego arranjado pela mãe e se apaixona pela nova vizinha, uma excêntrica mulher (Charlotte Gainsbourg) com quem ele apronta as maiores e dá asas à criatividade. Aliás, criatividade é o que não falta em Sonhando Acordado, filme com uma premissa criativa sobre um cara com várias ideias criativas em seu universo criativo. Talvez essa premissa não tem lá a complexidade de um Charlie Kaufman, mas é interessante observar o cinema de Michel Gondry por ele mesmo, desse jeitinho. 

O francês solta a imaginação e usa e abusa de truques criativos fílmicos e fabrica um trabalho tanto surreal quanto gostoso de se ver e cativante. O filme não só brinca com o nosso pensamento e nos coloca dentro um jogo ao mesmo tempo mágico e elétrico como também nos faz refletir sobre a natureza dos relacionamentos humanos nos dias de hoje e sobre a estética dos sonhos literalmente e figuradamente, mas sem deixar o tema maçante ou irritante. Também é bem bacana ir observando os atores entrando no ritmo da brincadeira, se descontraindo com a trama leve e sensível de Sonhando Acordado, em especial o protagonista de garra Gael García Bernal, que vai tecendo o personagem Stephane com amabilidade e engenhosidade de uma maneira peculiarmente sensacional.

Também se destaca a formidável Charlotte Gainsbourg, que faz o papel da mulher por quem Stephane se apaixona, que por sua vez se chama Stephanie. Os dois compartilham juntos uma porção de momentos engraçados e no geral graciosos e a química é inevitável quão proporcional. 

Não sei se sou só eu, mas eu achei o filme uma delícia. Quero dizer isso não como se eu fosse a única pessoa a ter gostado de Sonhando Acordado, ainda que muita gente tenha odiado o filme, mas sim como se ele fosse mesmo mágico assim. Acho que é coisa minha mesmo. Me envolvi fácil à história, sem falar no elenco, e todas as palhaçadas do Gael... É verdade, o filme pode aborrecer muita gente, mas eu amei. É lindo. Nunca vi uma comédia romântica tão onírica e estilosa funcionar tão bem como Sonhando Acordado funcionou. É uma exceção deliciosa dentro do gênero. 

Ao mesmo tempo, Michel Gondry, se já havia demonstrado ser em Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças um diretor exímio, em Sonhando Acordado, além da direção preciosa, é também a oportunidade de Gondry de se revelar como um roteirista espetacular (Gondry foi creditado como roteirista de Brilho Eterno, mas cá entre nós sabemos que o Charlie Kaufman praticamente fez tudo quanto ao roteiro do filme).

De um lado os brilharecos de Gondry e do outro as artimanhas de um elenco talentoso, Sonhando Acordado é inesquecível. É quando você termina que vem a vontade de ver de novo, e de novo, e de novo. Digam o que quiser, mas é um filme caprichado e me ganhou. Não dá pra comparar com Brilho Eterno, mas é certamente um belo de um deleite. Mágico, fantástico... O mundo dos sonhos é um universo surreal, cheio de enigmas, personagens inusitadas, paralelos incógnitos e uma diversão extasiante. Sem desaprimorar o lado obscuro do mundo onírico, Gondry fantasia a ilusão do universo dos sonhos e o decora com uma história romântica apaixonante. A leve complexidade da trama ajuda em muito a construir um clima de um mix de futurismo com arcaísmo inexplicavelmente fascinante. E o melhor de tudo é que toda essa brincadeira funciona genialmente.

P.S.: Favor não confundir com Sonhando Acordado [Jake Paltrow, 2007]. Apesar de não ter sido lançado no Brasil, consta no IMDB que o título em português é Sonhando Acordado, ainda que em certos veículos de informação o filme esteja como Sonhando Mesmo Acordado

Sonhando Acordado (La science des rêves)
dir. Michel Gondry - 

EXTRAS / 1ª Temporada


Olha, se existe uma série que me deu trabalho para encontrar foi Extras. E isso há um bom tempo. E vejam que é uma série boa, não tem como negar. É incompreensível como, nos dias de hoje, é tão difícil encontrar esses conteúdos na internet. Raridade. E o pior é que agora estou ficando sem memória aqui no computador e vou ter que dar um jeito de me organizar e apagar alguns arquivos para disponibilizar mais espaço. Faz uns dias, graças à "tecnologia" torrent, consegui baixar as duas temporadas de Extras, a aclamada série do comediante britânico Ricky Gervais, um dos meus favoritos. O programa foi o auge da carreira cômica de Ricky, que deslanchou com a primeira versão de The Office (se a versão americana já é um achado, imagine a inglesa, que delícia que deve ser, ainda mais protagonizada pelo Ricky). Apesar das 2 temporadas (2005-2006), cada uma com 6 episódios, sem contar 1 episódio especial de Natal, a série inglesa Extras repercutiu o suficiente para conquistar Globo de Ouro, Emmy e o gosto dos críticos, que adoraram o seriado. E não é por acaso. A série é realmente boa. Mal eu a terminei e já amo.

Ricky Gervais interpreta Andy, um figurante aspirante a ator que leva uma vida de azar e insucessos. Pra se ter uma noção, o caso do homem é tão sério que ele passa os episódios perambulando pelo set de filmagens mendigando falas para grandes atores e diretores também. Pode parecer até bizarro do jeito que eu tô falando, mas a verdade é que é tão ridiculamente engraçado, sabem? E certas vezes essas situações até refletem na nossa realidade, e como a gente tem de enfrentar certas coisas com garra e, se não, o desespero vira a nossa arma. Nos breaks das gravações, ele faz piadas com a amiga, Maggie Jacobs, também figurante. Os dois se metem em cada presepada. É de gargalhar!  E, como se não bastasse mendigar falas, ou ele não sai na gravação, ou ele é cortado, ou ele faz alguma coisa de errado e acaba ficando de fora... Vou confessar, é bem engraçado!

O interessante da série é ver como o Ricky Gervais consegue trabalhar bem um estilo de humor difícil e que predispõe de uma visão mais excêntrica e detalhista como a do Ricky mesmo. A delícia desse humor é que ele te pega de surpresa. A complexidade das piadas, o arranjo discreto dos personagens, a armação do conflito... É bem legal ver que por trás de um episódio há toda uma realização.

E a série funciona. Ricky Gervais se vira na direção, na atuação e no roteiro da série impecavelmente. O cara sabe fazer humor como ninguém. Singular. Uma pena que Extras não tenha passado da 2ª temporada. Seria lendário. Acho que vou dar um intervalo daqui da 1ª para a 2ª temporada e vou tentar baixar ou assistir em algum lugar a versão inglesa de The Office. Caso não, vou dar uma espiada na mais recente série do Ricky, Derek, que rendeu a ele indicação tanto ao Globo de Ouro quanto ao Emmy. Ouvi elogios de amigos quanto à performance premiada dele. Tô doido pra conferir.

Cada episódio da série leva o nome de uma celebridade, que geralmente é o/a protagonista ou principal de um filme onde Andy é figurante. Vocês não tem a noção do quão engraçado é.

1. Ben Stiller

Andy Millman e sua amiga, Maggie Jacobs, estão figurando num filme de guerra dirigido por Ben Stiller. Andy acaba virando amigo do homem que inspirou o filme, um refugiado checheno (?) cuja mulher foi assassinada em virtude da guerra. Nesse mesmo episódio, ele e Maggie vão a uma festa e acabam se metendo em encrenca: Andy tenta reverter racismo, Maggie fica sem saber o que fazer quando um homem com uma perna menor que a outra quer sair com ela... E pra acabar tem um bate-boca no final entre o Andy e o Ben Stiller, uma das melhores cenas.

2. Ross Kemp / Vinnie Jones

Esse episódio eu não consegui entender muito bem (acho que foi aquela legenda toda desorganizada que me fez perder a concentração), mas tem partes engraçadas. Já na primeira cena, o Andy, após terminar uma gravação, ouve de um dos diretores: "Ok, só temos que retirar aquele gordo patético da cena...". Não é o melhor da temporada, mas tem coisas boas.

3. Kate Winslet

O melhor episódio dessa temporada. Andy e Maggie estão trabalhando num épico sobre o Holocausto. Indiretamente, eles acabam fazendo amizade com a Kate Winslet, protagonista que faz uma freira no filme, e que "ensina" Maggie a dizer besteiras para o affair da moça, um outro figurante. Nesse episódio a Kate Winslet faz um discurso mega engraçado, mas verdadeiro, sobre os vencedores do Oscar, dizendo que é só você fazer um filme sobre o Holocausto ou guerra e eles te dão um Oscar (ela dá exemplos, como O Pianista e A Lista de Schindler). Ironicamente, a Kate venceu o Oscar de Melhor Atriz em 2009, alguns anos depois, por O Leitor.

4. Les Dennis

Se por um lado a primeira temporada de Extras traz participações de estrelas como Kate Winslet, Patrick Stewart e Samuel L. Jackson, participações bem interessantes, surpreende trazendo alguns nomes até então desconhecidos, como o Les Dennis, quem eu nunca tinha ouvido falar de até esse episódio. E ele está bom aqui. Nesse episódio, ele faz um ator que contracena com Andy na versão teatral de Alladin. Que raiva daquele agente do Andy, viu? Ô carinha incompetente (quem interpreta ele -- e eu não sabia -- é o co-roteirista e co-diretor da série, Stephen Merchant). O episódio, em si, é engraçadíssimo.

5. Samuel L. Jackson

Maggie marca um encontro com um rapaz e faz de tudo para não soar racista ao lado do homem, que é negro. Andy consegue uma fala com Samuel L. Jackson através de um outro figurante, que o chama para sair. O Samuel L. Jackson aparece em umas três cenas, ele quase nem tem falas, chega até a ser o próprio figurante do episódio.

6. Patrick Stewart

Último episódio da 1ª temporada. Andy entrega pessoalmente a Patrick Stewart a cópia de um roteiro televisivo seu para Patrick avaliar e tentar enviá-lo à BBC. O Andy consegue uma reunião com dois caras, produtores de comédia da emissora, e fica encarregado de desenvolver os episódios ao lado de um homem escandaloso que acaba o tirando do sério (e isso acaba tirando o outro homem, gay, do sério também). Uma das coisas mais engraçadas desse episódio é o encontro do Andy com o Patrick Stewart, e o Patrick contando para o Andy um filme que ele escreveu, sobre um homem que tem o poder de realizar tudo com a mente, como o famoso personagem de Stewart, o Professor Xavier. É hilário.

★ 

sábado, 26 de março de 2016

Crítica: "NOITES DE CABÍRIA" (1957) - ★★★★★


Fellini é mais que um mestre. O homem é dono de alguns dos maiores e mais importantes filmes de todos os tempos. Sua filmografia de ouro resume-se a obras-primas escandalosamente excepcionais do cinema italiano, exemplares originais de sua autenticidade e genialidade inesgotáveis. Federico Fellini revolucionou a 7ª arte e a enfeitou com películas primorosas e inesquecíveis. É só ver um filme dele para confirmar. Não houve ninguém como ele. Fellini é único. E é em vezes em que a gente vai ver um filme seu e acaba se deliciando inesperadamente, como foi o caso de Noites de Cabíria, um dos melhores filmes dele e que o internacionalizou, levando seu nome à fama mundo afora como um dos ícones eternos do cinema, fama que vive até hoje pelas mentes cinéfilas da Itália ao resto do planeta. 

Enfim, falemos de Noites de Cabíria, essa delícia de filme que me encantou pra caramba. E muito se deve à Giulietta Masina, a Cabíria do título, uma prostituta italiana iludida pelos fracassos amorosos que vaga sensualizando pelos becos de Roma e arredores à procura do grande amor entre seus clientes, com um alto percentual de insucessos. A sequência inicial já é uma pérola: Cabíria, passeando com o "namorado", um tal de Giorgio, é trapaceada pelo rapaz, que rouba a sua bolsa e a joga num rio. Cabíria quase morre afogada, mas, após acordar do desmaio, sai toda desvairada atrás do amado ladrão. 

Esse prólogo tragicômico já diz muito sobre a nossa protagonista: uma prostituta escandalosa e iludida, sem rumo e sem expectativas, à espera do grande amor que irá tirá-la da vida de miséria que leva. Apesar de quase sempre aparecer como uma "donzela" rude, mal-humorada e barraqueira, Cabíria esconde sua personalidade ingênua, tenra e doce por trás do olhar de doida que carrega e o jeitão todo desajeitado e boçal. 

O clássico de Fellini combina romance e drama delicadamente. O desfecho é de partir o coração. Fellini decora sua fábula com sensibilidade. A jornada de Cabíria, por mais sofrida que seja, não deixa de ter seus encantos afáveis. O filme é mais drama do que comédia, mas o diretor sabe combinar as duas linguagens com uma organização tentadora. 

A performance da Giulietta Masina, uma das melhores da atriz, é uma das provas mais satisfatórias e certeiras do talento e da competência dessa intérprete magistral, num desempenho fascinante e devidamente memorável. Ela na pele de Cabíria é simplesmente delicioso, um espetáculo inexplicavelmente adorável. 

Assim é Noites de Cabíria. Fellini brinda o cinema com uma obra especial, perspicaz e muito bela. Difícil não ficar comovido, arrasado e presenteado com essa história amável, pra lá de emocionante, capaz de nos mover no demorar de um toque e no intervalo entre uma lágrima e um sorriso. 

Com estilo, Fellini apimenta com um humor próprio e elegância esse trabalho primoroso. Segmentos icônicos, personagens bem construídos... Não tem do que reclamar. Noites de Cabíria é extraordinário e ponto. Assim como é impactante, também é engraçado, verdadeiro e clemente. Noites de Cabíria é simplesmente sublime. Sublime em todos os sentidos. É uma obra inegável, plausível e prazerosa, fantástica e magicamente apaixonante. Um conto sobre amor e ilusão refrescante e intenso, um item valioso dentro da filmografia de um dos maiores cineastas da história.

Noites de Cabíria (Le notti di Cabiria)
dir. Federico Fellini - 

Crítica: "LONGE DELA" (2006) - ★★★★


Certas performances fazem alguns filmes tão poderosos que fica difícil explicar ou redesenhar com palavras a magnitude dessas atuações, o efeito delas sobre nós. Longe Dela é um desses filmes cujo elenco é tão, mas tão talentoso, que todas as outras qualidades da produção são eclipsadas instantaneamente. Em Longe Dela, uma mulher idosa, que padece de Alzheimer, é colocada num asilo pelo marido. A mulher se esquece dele, e acaba se apaixonando por um dos pacientes de lá. É um filme profundo, que certamente não seria o mesmo sem o elenco estrondoso e maravilhosamente potente. 

A diretora/roteirista do filme é a atriz canadense Sarah Polley (aliás, foi indicada ao Oscar de Roteiro Adaptado em 2008 por Longe Dela), que comanda um trabalho cinematográfico de primeira, um filme que transcende emoção e contundência dramática. A maturidade de Sarah em assumir a direção e o roteiro de um projeto tão complicado, ambicioso, e que exige rigor, é extraordinária. O resultado é incrível. O roteiro é inteligente, a adaptação é gloriosa, a direção é estupenda em todos os sentidos. Sarah não erra a mão. Sua obra-prima é um deleite. 

O desdobramento do filme é calmo e lento, de forma com que o espectador tenha a oportunidade de degustar de cada sequência com trunfo e amabilidade, e que a sensibilidade aguçada desta fábula romântica tocante seja captada com proximidade e intensidade. 

A dupla de protagonistas, Julie Christie e Gordon Pinsent, são fascinantes. As atuações de ambos os atores são lendárias, extasiantes, marcantes, vívidas e profundamente emocionantes. Os dois vivem um casal em crise com a doença que afeta a esposa, o mal de Alzheimer. O passado ressurge misticamente nesse meio e o amor entre eles dois é posto à prova com os questionamentos da esposa sobre a fidelidade do marido e com as mudanças que a mulher sofre com a evolução da doença. Do elenco, também vale mencionar a coadjuvante Olympia Dukakis, numa das melhores atuações de sua carreira. 

A abordagem não mente e, apesar de envolver uma história mais particular, interna, não deixa de equilibrar muito bem uma temática séria como o mal de Alzheimer e como a doença afeta o relacionamento de um casal de idosos e o amor. Polley esquematiza com genialidade os traços de uma trama envolvente e tenaz. A estabilidade dramática é excelente e notória. Longe Dela é um longa espetacular, um exemplo de drama, um exemplo de elenco, um exemplo de filme!

Longe Dela (Away from Her)
dir. Sarah Polley - 

sexta-feira, 25 de março de 2016

Crítica: "AMOR PARA A ETERNIDADE" (2014) - ★★★


Amor para a Eternidade, o mais novo projeto do cineasta chinês Zhang Yimou, que sequer chegou aos cinemas nacionais (o filme foi lançado em DVD há pouco), marca mais um trabalho vigoroso na filmografia exemplar de um dos maiores diretores orientais de todos os tempos. O filme é excelente. Me pergunto porque não foi lançado. É cada uma que as distribuidoras brasileiras aprontam, viu? Zhang, outrora diretor dos ótimos Lanternas Vermelhas, Tempo de Viver, Operação Xangai, Amor e Sedução e também recentes como Herói, O Clã das Adagas Voadoras e A Maldição da Flor Dourada, instiga e maravilha o espectador com uma tocante história de amor, família e desencontros. 

No filme, um homem, detido durante a Revolução Cultural Chinesa, é afastado da família. Após fugir, ele tenta reencontrar a mulher, mas é preso numa estação de trem. Quase duas décadas mais tarde, ele é solto. No entanto, a esposa já não mais o reconhece por um problema de memória (a tal doença é retratada no filme como uma forma de amnésia, mas talvez tenha sido desenhada como Alzheimer). Junto da filha, uma ex-bailarina, que abandonou o sonho, o homem tenta diversas vezes convencer a esposa de quem ele realmente é, ainda que sempre que ele se aproxima ela fica horrorizada, pensando que ele é uma outra pessoa, um tal de Fang, que perto do final é revelado.

Melodrama sem ser espalhafatoso, Amor para a Eternidade carrega uma narrativa competente e sem muitos luxos, simples mesmo que monótona, às vezes. O problema desse filme é que ele não é engajado. E muitas vezes há um certo incômodo no desenrolar da trama, desenrolar esse sem vida. Não me levem a mal, o elenco é primoroso e tecnicamente falando Amor para a Eternidade é super potente. Mas trata-se de um filme sem vida, que poderia ser algo maior do que é se não fosse tão encharcado, dramaticamente miúdo.

E, mesmo com tanta coisa boa aqui, como o elenco já mencionado (as performances são sublimes, exatamente no ponto), a direção sempre irreparável do Zhang Yimou, a trilha sonora impactante, reluto em me restringir à fotografia excepcionalmente bela de Zhao Xiaoding (o mesmo de O Clã das Adagas Voadoras, que foi indicado ao Oscar em 2004 na categoria de Fotografia). O cara é fenomenal. Em mais uma parceria com Yimou, Zhao fabrica um trabalho de fotografia majestoso e inesquecível. Não à toa é a melhor coisa desse filme, que de força técnica tem de sobra.

Ah, Zhang Yimou, falando nisso, está prestes a lançar como diretor The Great Wall, filme sobre a construção da Grande Muralha, que leva no elenco Matt Damon e Willem Dafoe.

Amor para a Eternidade (Gui lai / Coming Home)
dir. Zhang Yimou - 

segunda-feira, 21 de março de 2016

Crítica: "BORAT - O SEGUNDO MELHOR REPÓRTER DO GLORIOSO PAÍS CAZAQUISTÃO VIAJA À AMÉRICA" (2006) - ★★★★


Comédia de fazer a gente rachar de rir, o politicamente incorreto Borat - O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à America ou simplesmente Borat é um daquelas comédias que quando você for ver vai estar dando gargalhadas naturalmente. Uma cena atrás da outra, é impossível não rir e se deliciar com as aventuras desse cara insano acompanhado do seu produtor mais maluco ainda. Aliás, insano é apelido para esse filme. Talvez nunca haverá outro filme como Borat na história do cinema. É sério, não falando da qualidade do filme, que é certamente uma comédia fantasticamente exímia, mas sim me referindo ao formato, ao estilo do humor, às sacadas do roteiro, às sequências brilhantíssimas... Borat é um tesouro genial, no mínimo.

Descobri o filme faz uns dois anos, e da primeira vez que vi era manhã de sábado e minha irmã também viu comigo. Rimos demais. Vendo hoje em dia, dou umas risadinhas e tal... Mas da primeira vez foi uma coisa incrivelmente louca. Eu ri pra caramba, de cena em cena, sem parar, ininterruptamente. Até posso estar exagerando, mas eu garanto que Borat irá te fazer rir, goste-se ou não do tom satírico assumido pelo longa ou pelas piadas de mau gosto que o personagem principal, um repórter vindo do Cazaquistão sem noção que apronta as maiores loucuras em uma visita aos Estados Unidos. 

A loucura em Borat já está na premissa dos criadores: o filme foi inteiramente filmado como um pseudo-documentário, incluindo depoimentos e cenas gravadas ao lado de pessoas reais, que não sabiam que era tudo uma grande brincadeira, e que foram enganadas pela equipe de produção o tempo todo. É tanto que os produtores sofreram diversos processos após a estreia e o comediante Sacha Baron Cohen chegou até a ser investigado pelo FBI na época (Sacha revelou à imprensa que "o FBI recebeu denúncias de pessoas alegando ter visto um terrorista num carrinho de sorvete"). Os caras passaram dos limites... Mas e não é que o filme funcionou, rapaz? Funcionou de tal maneira que, como eu bem falei no começo do texto, muito provavelmente será irrepetível ou irreproduzível. 

Sacha, também roteirista (o controverso humorista inglês recebeu o Globo de Ouro pelo personagem Borat e foi agraciado com uma indicação ao Oscar na categoria de Roteiro Adaptado), brinca com as mais variadas situações e mexe com temas sérios e os desconstrói na vértice de um humor afiadíssimo e vulgar, hilariante e irresistível. O comediante submete o espectador a uma experiência triunfal. A aposta é bem arriscada, mas felizmente a fórmula funciona e o filme é majestoso, dotado de um humor radiante e engraçadíssimo.

Apesar da descontração e do humor piadista, Borat aborda com um olhar fiel e sólido quesitos de vital importância e fundamenta uma sátira política repleta de simbolismos e críticas ao american way of life e à cultura do pós-9/11 e a posição da sociedade americana em relação a temas como homossexualismo. Interessante observar o filme também como um ataque à xenofobia e ao preconceito, sem cair no ridículo. 

Algumas das sequências cômicas de Borat estarão marcadas pra sempre na minha vida cinéfila como as cenas mais engraçadas que eu já vi, como a cena do hotel, onde onde o Borat e seu produtor doidão começam a brigar pelados e acabam invadindo acidentalmente um salão de apresentações (a particularmente cena mais engraçada do filme inteiro), ou também a cena do jantar high society, onde Borat leva uma prostituta à casa de um grupo de burgueses hipócritas... Também há aquele segmento onde Borat e o produtor, antissemitas, passam uma noite na casa de um casal de idosos judeus. Perto do começo, também há a cena onde o Borat entra no metrô e começa a cumprimentar as pessoas, e depois solta uma galinha no vagão. A cena onde ele vai ao lançamento do livro da Pamela Anderson e a "propõe em casamento" também é demais. E várias outras, que não me vem à cabeça nesse momento. Ah, sim, também tem aquela cena onde o Borat vai a um encontro com um grupo de feministas, ou também a cena do rodeio, onde o Borat anima a plateia com comentários de apoio às tropas no Iraque e a Guerra ao Terror, do tipo "...que Bush beba o sangue de todas as mulheres e crianças do Afeganistão!" (a plateia começa a aplaudir incessantemente).

Em muitos aspectos, Borat trata-se de um trabalho louvável. Comédia exemplar, é bem-feito, genialmente engraçado, deliciosamente complexo na sua premissa satírica, e traz um dos comediantes mais talentosos e excelentes dos últimos tempos, Sacha Baron Cohen, no melhor e mais engraçado filme de sua carreira, isso sem falar no diretor, Larry Charles, da série Curb Your Enthusiasm, à frente de um projeto que exige audácia, firmeza, coragem, objetividade e sanidade, sem falar nos inúmeros perigos da produção... Borat é I-M-P-E-R-D-Í-V-E-L.

Borat - O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América
(Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan)
dir. Larry Charles -