terça-feira, 28 de abril de 2015

Adeus, ANTÔNIO ABUJAMRA (1932 - 2015)


Morre, nesta terça-feira (28), em São Paulo, o ator e diretor de teatro Antônio Abujamra. Segundo informações, a morte do querido Antônio - ícone da dramaturgia nacional - teve como causa um infarto do miocárdio. Segundo a própria família, Abujamra não fazia nenhum tratamento especial, e que a morte "chegou subitamente". O diretor foi encontrado morto em sua casa, no bairro Higienópolis, pela cuidadora. O grande artista deixa dois filhos e dois netos.

Tio das atrizes Clarisse Abujamra e Iara Jamra, do cineasta Samir Abujamra e pai do músico e ator André Abujamra, Antônio - famoso por suas diversas e inúmeras contribuições ao teatro brasileiro, também tendo atuado nas áreas cinematográficas e televisivas com menor destaque - deixará saudades. Abujamra trouxe ao Brasil os engenhosos métodos dramatúrgicos de Bertrolt Brecht e Roger Planchon, sendo seu percursor mais notável. Formado em filosofia e jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, além de ator e diretor de teatro, Abujamra também atuou como crítico teatral, mais especificamente antes de ter iniciado-se como ator e diretor, libretista e produtor. Nos primeiros anos, atua em produções de autoria de vários escritores, tais como Fernando Pessoa, Tennessee Wiliams, Eugène Ionesco, Georg Büchner, Arnold Wesker, Augusto Boal, Carlos Henrique Escobar e Lope Vega. Em 1965, dirigiu uma das melhores e mais influentes peças da dramaturgia, da autoria de Dias Gomes, a primeira montagem de O Berço do Herói, mais tarde adaptada para a teledramaturgia. Abujamra dirigiu, em palco, vários atores, entre eles Antônio Fagundes, Nicette Bruno, Paulo Goulart entre outros.

"Eu tive mais de cem fracassos e pra mim não tem a mínima importância. Para um artista, o fracasso e o sucesso são iguais. Os dois são impostores"


- Antônio Abujamra

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Adeus, RICHARD CORLISS (1944 - 2015)


Falece, em Nova York, nesta quinta-feira (23) o crítico de cinema da revista americana TIME Magazine Richard Corliss, aos 71 anos. O crítico, que trabalhou por mais de trinta e cinco anos na redação da revista, e que também já foi o editor-chefe da Film Comment, morreu à noite por complicações no decorrer de um infarto. Deixando um legado de importância para a crítica, Corliss consagrou-se como um dos mais ativos críticos da história, tendo feito por diversos anos resenhas de vários filmes. Corliss, além de crítico, também foi autor de alguns livros especializados sobre o universo cinematográficos, entre eles o best-seller "Talking Pictures", publicado em 1974. Abaixo, a revista TIME Magazine, numa homenagem a um de seus melhores membros publicada nessa sexta, disponibilizou alguns reviews do crítico, entre eles o de E.T. - O Extraterrestre e Poltergeist, filme s considerados por Corliss como alguns dos melhores já feitos.

"Era uma vez, havia um pequeno menino chamado Steven, que morava num mítico lugar chamado subúrbio. Sua casa era como a casa de todos nós; o carro da sua família, seu cachorro e sua piscina também. Mas os sonhos do pequeno Steven eram diferentes. Ele sonhava em contar histórias de sua estranha terra - maravilhosos contos sobre seu lar e sua escola, seus pais e especialmente seus amigos - e fazê-los brilhar como novos. Então toda noite ele deveria, na ponta dos pés, sair de sua casa estilo-fazenda e fazer um pedido à estrela que mais brilhava no céu suburbano. Mais e mais ele sussurrava: 'Me ajude a contar uma história.'"


- Trecho da crítica de Richard Corliss ao filme dirigido por Steven Spielberg E.T. - O Extra-Terrestre

domingo, 19 de abril de 2015

Crítica: "A INVENÇÃO DE HUGO CABRET" (2011) - ★★★★★


Eu profundamente gostaria de expressar aqui a importância de A Invenção de Hugo Cabret, assistido por mim pela não-sei-lá-mais-qual vez. Este é necessariamente um dos filmes mais belos e particularmente doces, gostosos, primorosos, feitos ultimamente no circuito cinematográfico. E digo isto por que é apenas a não-sei-lá-mais-qual vez que o assisto. Diante de tal tesouro, às vezes nem é preciso dizer muito. Mas eu preciso, no entanto, expressar nestas palavras o quanto eu gostei de Hugo, mesmo o longa tendo apresentado abusos e excessos. Primeiramente, é preciso lembrar que filmes deste gênero na carreira do cineasta Martin Scorsese - mestre da violência, do sangue e da verborragia - aparecem, de fato, uma única vez. Vale igualmente lembrar que, tratando do filme como "deste gênero", especifico: destinado ao público infantil, por mais que meramente remeta ao público adulto em algumas partes. 

Filmes assim fascinam. Eles possuem algo que transmite felicidade e compaixão ao mesmo tempo, sem deixar de ser minimamente interessante e valioso, sem exagerar ou ser petulante, como muitos, do seu tipo, costumam ser. Aqui, há a essência e o prazer. Eu não sei qual instrumento elementário teve maior influência nessa valorização. Fico em dúvida entre a visão de Scorsese, a história de Selznick e a mágica lendária de Méliès, apesar de ter forte certeza que a mistura de todos é o resultado desse instrumento elementário tão difícil de se descrever. A questão é que: A Invenção de Hugo Cabret, tanto o filme quanto o livro - lido anteriormente - possuem tão gratificante domínio e percepção sobre a arte de George Méliès, pai e promissor inventor da arte de fazer filmes. Acredito que, além de tudo, é isso o que mais satisfaz em ver esse conteúdo de primeira.

Aqui comento o filme, nem tão diferente do livro, que segue na reta uma trajetória incomum e verdadeiramente encantadora narrando as aventuras e peripécias de um garoto chamado Hugo Cabret, que vive na Paris da década de 20 cuidando sozinho dos relógios da grande estação. Hugo estabelece, à sua maneira, uma relação delicada e altruísta com um - pela primeira vista - antipático e rabugento dono de uma loja de brinquedos da estação (George Méliès, interpretado inesquecivelmente por Ben Kingsley), de quem vive roubando pequenos acessórios mecânicos a fim do conserto de um robô autônimo - criação não-finalizada de George, resgatada de um museu por sei pai, morto no incêndio do estabelecimento supracitado. Desse ponto inicia-se uma inteligente, saudável e curiosa trama que prende e emociona seu espectador até o final.

É claro, sem citar que toda a equipe técnica também teve uma enorme, significativa participação neste feito. Destaco, de todas as mais, três. A fotografia extraordinária de Robert Richardson (trabalhou anteriormente com Scorsese em O Aviador e Ilha do Medo, tendo mantido colaborações com Tarantino em Kill Bill, Bastardos Inglórios e Django Livre); a imobilizante trilha sonora de Howard Shore (talentoso compositor de outros grandes filmes como A Mosca, Ed Wood, Filadélfia, Dúvida, além de frequentes outras mais colaborações com Martin em Gangues de Nova York, O Aviador, Os Infiltrados e também com David Cronenberg em Uma História de Violência, Um Método Perigoso e Mapas para as Estrelas); e a tocante direção de arte, autoria maravilhosa dos mestres imortais Dante Ferretti e Franchesca LoSchiavo. Além mesmo da edição, dos figurinos de Sandy Powell, é importante destacar estes três pontos. Destaco também o formidável elenco, formado por Ben Kingsley, Sacha Baron Cohen, Jude Law, Emily Mortimer e, as crianças, Asa Butterfield e Chloë Grace Moretz, enfatizando um pouco mais a atuação de Moretz, já que Butterfield, demasiadamente precoce e inexperiente ator mirim à altura de interpretar um protagonista de Scorsese, saiu-se muito nervoso e seriamente comportado em seu papel, que não necessitava tanto dessas duas características, apesar de eu mesmo ter gostado da aparição do garoto. 

John Logan, roteirista de O Aviador, obra original de Scorsese, adapta aqui o livro de Brian Selznick A Invenção de Hugo Cabret, publicado em 2008 nos Estados Unidos e vindo ao Brasil apenas em 2012, um ano após o lançamento do filme (acaso?). Tive a oportunidade de ler o livro, bem antes de assistir pela primeira vez o filme e confesso que apesar de diferenças, senti-me confortável em relação à essa questão de fidelidade e tudo mas, afinal, o material de A Invenção de Hugo Cabret não é tão sério assim. Scorsese tem e deve brincar sim com a adaptação. Foram pouquíssimas diferenças, para ser mais exato em apenas duas cenas - e não altera nada se relacionado à interpretação. O que vale mesmo é assistir o filme despreocupado, com a cabeça livre, sem exigir muito e nem levar tudo à constantemente a sério. Luxo, beleza, pompa, esplendor e magia não faltam em A Invenção de Hugo Cabret. Obviamente, a película é uma homenagem - fantástica - ao brilhante George Méliès, um dos pais do cinema, aquele que trouxe à imagem a fantasia e a cor, a luz e a majestosidade, produtos hoje em dia tão apreciados e valorizados em nossa variada produção. E além de tudo o mais, deixe-se levar pela inspiração infantil que a jornada traz. A Invenção de Hugo Cabret, inteiramente em si e mais basicamente incorporando, é uma fábula, para crianças, para adultos, para velhos, para qualquer público que dispor-se a ver. 

A Invenção de Hugo Cabret (Hugo)
dir. Martin Scorsese - 

sábado, 18 de abril de 2015

Crítica: "MORTDECAI: A ARTE DA TRAPAÇA" (2015) - ★★


Mortdecai: A Arte da Trapaça traz de volta Johnny Depp depois dos fiascos que foram os filmes O Cavaleiro Solitário e Transcendence, agora em um plano bem mais fantasioso e cômico se comparado aos outros filmes citados. O único problema é: Mortdecai também é um fiasco. Um fiasco imperdoável. Mortdecai é tortuosamente cheio de falhas e clichês idiotas e bobos que não conseguem arrancar nada do público a não ser cansaço e desapontamento.

O filme já começa mal quando começa a misturar espionagem e comédia de uma forma tosca e improvável. Piora quando inventa artifícios metódicos para fazer com que seu protagonista escape de suas emboscadas quase ileso. E assusta quando coloca seu elenco à prova, da maneira mais grotesca imaginável. Assim é Mortdecai: um filme detestável. Uma pena para o diretor David Koepp, de quem vi a grande comédia romântica Ghost Town com Ricky Gervais e Téa Leoni. 

Mortdecai pode divertir e até muito bem garantir uma porção de gargalhadas, mas ainda sim não é convincente. Falta dramatização em sua encenação. Falta conflito. A ausência destes elementos essenciais é o que o faz chato e ridiculamente tedioso. Mas a história é exclusivamente boa. Temos aqui Johnny encarnando Charles Mortdecai, um mestre do plágio e falsificador atenuante, caloteiro de mão cheia que vive se metendo em empreitadas sem saída no mundo da trapaça. Recebe a calorosa missão de descobrir onde esconde-se um quadro valioso de Goya vindo a Londres para um pequeno reparo, e roubado por um gigantesco incidente que deu vista a outros mais. Mortdecai, acompanhado do fiel escudeiro Jock e parcialmente da bela esposa Johanna, parte em sua jornada instigante ao encontro da obra.

Aqui no elenco destaca-se a participação de Paul Bettany, na única atuação que realmente parece dar trunfo ao filme, ainda que seja ela vista em pouquíssimos segmentos, a maioria deles de ação. Bettany, que já esteve ao lado de Depp em O Turista, faz aqui Jock Strapp, acompanhante e criado-quase-mudo (nas palavras do próprio Mortdecai) do mestre que quase sempre é responsável por salvar seu patrão e ir à luta por ele, enfrentando seu público criminoso. A trilha sonora também não é tão ruim. 

Mortdecai é um filme de truques. Ora comédia, ora drama, ora romance, ora aventura, ora caos. Mortdecai é demais compulsivo por truques e de menos dedicado ao conflito, o que acentua e traça o caminho do original Mortdecai na série de quadrinhos homônima, autoria do inglês Kyril Bonfiglioli, reproduzidos no final do meio ao final da década de 70. Em Mortdecai, a emoção e o emotivo não ganham desenvolvimento. Parece que todos só querem chegar ao final e encerrar a trama, o que é terrivelmente errôneo, e acaba destruindo todo o clima da história. Depp nova e infelizmente não sai ileso da produção, tendo seu personagem terminado num total fiasco. Tenhamos esperança para que o ator volte, brevemente, em algo melhor, quando só mesmo parece que o velho e bom Burton o salvará da perdição. 

Mortdecai: A Arte da Trapaça (Mortdecai)
dir. David Koepp - 

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Crítica: "PIAF - UM HINO AO AMOR" (2007) - ★★★★


Do tresloucado submundo parisiense aos luxuosos palcos do Carnegie Hall, Edith Piaf - cujo centenário celebra-se em dezembro deste ano -, uma das maiores lendas de todos os tempos da música, e a maior representante feminina do music hall francês, possuiu uma história de cunho tão comovente e forte que por si só já é bastante fantástico ver um filme onde ela é encenada. E lindamente aqui, sua história entona-se perfeitamente na melancolia e no talento de Marion Cottilard ao encarná-la.

Piaf - Um Hino ao Amor pode parecer à primeira vista um filme exageradamente belo, colorido, vivo, passional e doce... Na realidade, não é totalmente assim. O filme parcialmente é triste, cinza, dramático, monótono, rigidamente doloroso e depressivo. Ele analisa categoricamente a tortura que a vida de Piaf foi, tal como também aprofunda o calor de sua pessoa diante das diversas situações. Desde a pobre e suja infância até a agoniada e solitária morte. No entanto, ainda sim não deixa de ser um filme belo, para se dizer a verdade. A beleza encontra-se na caracterização, que por sinal, é excelente. Só que devo, primeiramente dizer que o filme sobressaí-se mais por conta da querida Cottilard, vencedora e indicada a inúmeros prêmios, incluindo o Oscar e o Globo de Ouro, dos quais venceu, pela sua fabulosa atuação, até agora a melhor de toda a sua curta carreira.

Na dor, no sofrimento, no pânico, na doença, no desespero, na ingratidão, na infelicidade... Piaf cantou. Cantou com o coração, a cada vez como se nunca mais iria fazê-lo. Cantou a paz, a paixão, a ilusão, uma vida melhor, enfim... Admiro muito essa dama, e principalmente guardo um fascínio incandescente por sua jornada nada fácil de vida. Aprecio o modo de como ela lhe deu àqueles à sua volta que a desprezaram e não acreditavam que ela então um dia alcançaria o sucesso, e até mesmo o estrelato. Non, je non regrette rien, dizia a cantora, corretíssima na afirmação que diz "não volto atrás". Até hoje, me inspiro nas canções interpretadas pela voz da lendária Edith, de personalidade firme e consciente, fraca por miséria e confusa por erros acometidos por todo um caminho. E mesmo carregando consigo o deplorável passado que tanto a sufocou, não perdeu a graça, o estilo e a alegria de viver, celebrando cada minuto, como se fosse o último. 

E minha admiração pela cantora só mesmo ajudou na boa recepção desta película, ainda quando em equipe temos Piaf sendo interpretada por outra grandiosa artista, Marion Cottilard, de quem sou fã. Piaf - Um Hino ao Amor é uma obra que impossivelmente ou raramente deixará seu público insatisfeito, afinal, não vejo o por que. A película nos envolve tão singularmente na história que a emoção acaba por tomar conta de nós mesmos. Há cenas aqui que, tanto nos fazem refletir quanto nos deixam esmagados de tristeza, como o segmento onde Piaf descobre a morte do prezado amante, ou então uma das últimas - me emociono só de lembrar - que reporta a última noite de Edith. Cada cena perfeitamente filmada; cada take cheio de trunfo. 

E olha que, garanto, não precisa ser um tal lá mestre da área musical ou coisa do tipo para conseguir fisgar do filme o mais assombroso e elegante impacto. Compreendo aqueles que consideram a biografia chata, cansativa e parada, mas não há como não assumir que talvez tenha alguns momentos que conseguem falar mais alto e quebrar então esse preconceito do espectador em acompanhar filmes mais complexos do que o normal, talvez mais intelectuais ou impopulares. E olha que sendo sincero, Piaf é um filme bem pra lá de universal. A dor é universal. O amor é universal. A esperança é universal. A musica - por favor! - é universal. Se seu medo é esse, perca-o, por que esse filme é uma boa oportunidade de adquirir conhecimento sobre a cantora, além de também fornecer um ótimo contento cinematográfico. 

Piaf - Um Hino ao Amor (La Môme / La Vie en Rose)
dir. Oliver Dahan - 

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Crítica: "CIDADÃOQUATRO" (2014) - ★★★


Documentários como Cidadãoquatro realmente merecem um destaque maior no meio cinematográfico documentário, digo, na atualidade. Retratos tão bem feitos do mundo moderno em conflito devem ter essa notoriedade. Filmes como Uma Verdade InconvenienteO Ato de Matar, Dirty Wars, The Square, Trabalho Interno, as grandes obras de Michael Moore (exigindo, por favor, Tiros em Columbine), são aqueles que precisam ser disponibilizados ao público básico. Documentários com maior utilidade, força, (de certa forma) impacto são aqueles que cada vez mais ganham espaço no meio hoje em dia. Documentários mais culturais, universalizados, especiais resumindo, como o último que assisti Life Itself e o que ainda planejo ver O Sal da Terra, são aqueles que são e devem ser mais reservados àqueles com visão mais amplificada sobre os assuntos.

Cidadãoquatro, último vencedor do Oscar de Melhor Documentário, é inegavelmente um documentário excelente, excitante e vibrante. Uma obra do gênero que basicamente é essencial para o entendimento de todo um caso que agitou o mundo nos últimos tempos, de tão solene estrondo quanto o 11 de setembro. Retratos assim são raros, minha gente. Os documentários são a evolução da indústria cinematográfica, e, quando já é raro ver um filme de qualidade tratando de assuntos sérios e recentes, ainda é bem mais difícil fazê-lo. A tarefa de Poitras, ao dirigir, co-estrelar e montar a película, é sim transportar seu público ao universo que sedia as intrigas e os segredos por trás do caso de espionagem do ex-membro da CIA, Edward Snowden, refugiado em autoridades exteriores por via de seus crimes. Acredito que, se lançado lá em 2013, quando o caso estava bem em alta, o filme seria bem mais "polêmico" e requerido. Cidadãoquatro narra a jornada de Laura Poitras, documentarista americana, ao conhecer Snowden, e assim iniciar a filmar seu diário escondido e os efeitos de suas ações no mundo inteiro. É, praticamente, um documento de importância Cidadãoquatro. Um documento que requer atenção e exigiu prática em seu conceito estrutural. Não falo dos episódios em Hong Kong ou dos eventos aqui no Brasil. Eu falo da concepção, e não da montagem - desta vez, faço uma exceção. 

É disso que eu estava falando! Um documentário que, novamente, pudesse exibir ao seu espectador toda a força da imagem e do registro sobre a história e o tempo. Algo concreto, eficaz, memorável e rico em informação. Algo que, tratando-se do gênero, não via desde Trabalho Interno, ou, há quem diga, Fahrenheit 9/11. Cidadãoquatro, a cada sequência, deixa uma marca de sua personalidade consistente e processiva. Imagino o quão difícil foi para a diretora do filme, a talentosíssima Poitras, que anteriormente à este trabalho, já havia sido indicada ao prêmio Oscar por um outro trabalho de cunho político: My Country, My Country. Imagino sobrenaturalmente como existiu a possibilidade na coragem de esconder toda a filmagem e tudo o que se passava por adentro aos acontecimentos que entonaram o caso, e os diversos riscos submetidos, não só à ela, mas também à equipe. Um documentário revelador e inusual, vezes pacato, vezes suspensivo, sempre admirável. Merecido Oscar, mesmo sem Life Itself

Cidadãoquatro (Citizenfour)
dir. Laura Poitras - 

quarta-feira, 15 de abril de 2015

ORANGE IS THE NEW BLACK / 2ª Temporada



(quantidade feroz de spoilers)

Impossível acreditar na minha bobeira. Cliente do Netflix há tanto tempo, só agora venho a conhecer Orange is the New Black, série original do canal que até este mesmo mês sequer tive coragem de dar uma olhadinha. Vou aprender a ignorar de vez em quando minhas expectativas com relações a estes trabalhos e checar de vez sem medo. E, depois de ter visto e revisto a primeira fantástica temporada do seriado, e agora terminando a segundo, não possuo dúvidas do quão enorme e bom é esse conteúdo. Semana passada, não demorei a achar a autobiografia de Piper Kerman, Orange is the New Black: My Year in a Women Prision aqui em São Paulo (e olha que eu não achava que ia ser tão fácil). Ainda não li o livro (comprado junto a Para Sempre Alice, de Lisa Genova, a versão integral de Crime e Castigo e a série de peças Adultérios, de - adivinhem quem! - Woody Allen), mas pelo que vejo é uma produção tão ótima quanto sua adaptação televisiva, que tanto me surpreendeu de um tempinho pra cá.

Comento aqui, desta vez episódio por episódio, toda a segunda temporada da série, temporada que irá concorrer ao Emmy este ano. Concluo, antes do review já supracitado de cada ep., que a segunda temporada não se distancia tanto da primeira, apesar de não ser melhor. Na segunda temporada, novos personagens são introduzidos ao público (Soso, Vee...), novas situações (a saída tempestuosa de Mendez e a igual despedida de Alex), novos emblemas (rigidez dos carcerários e a relação de Piper e Larry), algo que pode deixar o espectador bem satisfeito pela presença extrapolada de informação e ao mesmo tempo confuso pelo numeroso trânsito de tramas presentes neste capítulo da história. Temporada que não deixa de ser interessante e valiosa, necessária e plausível.

S2E1 - "Thirsty Bird" - 

Bom episódio. Dirigido pela Jodie Foster, que anteriormente já havia dirigido o episódio Lesbian Request Denied, neste episódio que sucede o decisivo fim da primeira temporada Piper viaja para Chicago para o julgamento do chefe de Alex Vause. Intrigas vão, intrigas vem, basicamente Vause entrega a namorada ao confessar o crime.

S2E2 - "Looks Blue, Tastes Red" - 

Voltando a Litchfield, este episódio enigmático conta a trajetória de Taystee (Tasha), tal como sua prisão e sua vida ao lado de Vee, a poderosa ex-chefona da prisão que retorna à ela. Taystee demonstra habilidades durante uma entrevista de emprego. Episódio cômico com uma cara bem rígida de drama. Não deixa de ser um episódio importante, tão necessário a compreender os episódios que se sucedem. Piper, pela primeira vez, ausenta-se no episódio.

S2E3 - "Hugs Can Be Deceiving" - 

Piper retorna a Litchfield, e traz consigo a mágoa e a desilusão das situações que anteriormente presenciou. Desolada, a pobre coitada Chapman nem desconfia o que lhe está à frente. Boas performances de Yael Stone, até então recorrente na série, Kate Mulgrew e novamente Danielle Brooks, destaque do episódio anterior.

S2E4 - "A Whole Other Hole" - 

Interessante passagem, e bastante cômica. Enquanto Sophia dá aulas para as detentas a partir da anatomia feminina, Lorna é o foco. Durante a sessão de quimioterapia de uma detenta, Morello foge na van carcerária e visita a casa do ex-namorado - a qual ela ainda acredita ser seu amor verdadeiro - e alguns detalhes da vida da detenta são revelados, mostrando a real face dela (melhor parar por aqui... spoilers, não?)

S2E5 - "Low Self Esteem City" - 

Vee mostra que está de volta e é a dona do pedaço, mas Glória não quer aceitar seu retorno e inicia uma conflituosa guerra fria com a detenta. Nessa mesma faixa, Piper recebe tristes notícias (é só o começo). Episódio, mais uma vez, com um tom dramático acima do normal, quase que ultrapassado para o espírito da série. Não deixa de ser bom, mas pode ser cansativo.

S2E6 - "You Also Have a Pizza" - 

Episódio mediano, apesar de curioso e cômico. O passado de Vee e de Red é recontado (com direito a boas atuações tanto de um lado quanto do outro) em flashbacks pesados que arrancam lágrimas. Bennett não quer que Mendez, afastado, se aproxime à distância de seu amor, Daya, à beira de uma crise de nervos com a gravidez. As detentas, nesse episódio que leva como tema o Dia dos Namorados, fazem depoimentos quando questionadas sobre "o que é amor". Belo episódio.

S2E7 - "Comic Sans" - 

Episódio que confessa a ausência de idéias da série, ainda que criativa ausência de ideias. Piper reúne algumas detentas e planeja iniciar a redigir um jornal. Vee expande seu negócio ilegal entre as prisioneiras e ganha mais espaço e autoridade. Healy, inconformado com sua relação amorosa com a esposa, já analisada no episódio anterior do dia dos namorados, inicia a consultar uma terapeuta, e utiliza os métodos da doutora para com as detentas. Episódio regularzinho, como dito, sem muitas ideias.

S2E8 - "Appropriately Sized Pots" - 

Episódio forte. Algumas detentas revoltam-se contra Piper por ter conseguido licença para visitar a avó doente, à beira da morte. Caputo, pressionado pela falta de segurança e o constante pânico no ambiente, demite sua paixão secreta, Fischer e inicia mudanças, forçando a equipe carcerária a ser mais firme quanto em relação ás buscas e à administração do sistema. Episódio que pode ser forte, mas ainda sim não enche a barriga do público, mesmo que bom.

S2E9 - "40 OZ of Furlough"

Mendez volta ao trabalho mais enrijecido do que nunca. A tensão aumenta quando a equipe carcerária se dá conta de que não consegue cuidar de tudo o que acontece à sua volta ao mesmo tempo, gerando duras consequências. Piper sai da prisão com a licença e, confusa, decide esclarecer as coisas com Larry durante o velório da avó de uma maneira nem tão formal assim. Larry faz revelações severas a Piper considerando sua traição, o que a deixa um pouco deprimida. Red volta à ativa e decide encarar os fatos e estreitar sua relação com Vee, que cada vez mais mostra-se independente e austera em sua missão. Episódio decisivo e conflituoso, cheio de reviravoltas.

S2E10 - "Little Mustachioed Shit" - 

Um dos episódios mais engraçados dessa angustiada temporada. Piper finalmente descobre por si mesma que Larry a traiu com sua melhor amiga, algo que gera nela repulsão e ao mesmo tempo raiva. Poussey desiste de tolerar as exibições de Vee e a ataca, sendo violentamente agredida pela fiel súdita da chefa, Suzanne.  Mendez é demitido em meio a acusações de assédio, resultando em sua saída (até agora) total da prisão. Flashbacks encenam quente relação de Alex e Piper durante um momento delicado do namoro. Episódio bom, boas performances e bom roteiro. Direção marcante de Andrew McCarthy. Boa interpretação de Yael Stone.

S2E11 - "Take a Break From Your Values" - 

Performance maravilhosa de Taylor, já vista nos episódios Little Mustachioed Shit e o piloto Thirsty Bird. Outro episódio que divide-se entre o drama e a comédia, gerando uma deliciosa tragicomédia. Greve vai, greve vem, Soso ganha apoio moral e religioso de detentas, que começam a aprovar sua greve de fome e protestar seus direitos na prisão. As coisas esquentam proximamente ao fim da temporada.

S2E12 - "It Was the Change" - 

Vee e Red retornam a se confrontar, dessa vez mais decididas do que nunca. A tensão pré-final de temporada aumenta quando o público enfrenta sérias expectativas criadas pelas tramas cruzadas deste antepenúltimo episódio. Destaque teatral para, desta vez, Mulgrew e Toussaint, protagonistas do conflito que instala-se na história.

S2E13 - "We Have Manners. We're Polite" - 

Episódio final. Muito bom. Um pouco melhor do que o último episódio da 1ª temporada. As detentas, em geral, veem-se num beco sem saída quando são obrigadas a enfrentar o futuro de suas vidas na prisão e a influência do presente e do passado nesse futuro. Episódio dramático, equilibradamente cômico e inusual. Vee enfrenta a separação de sua família na prisão e entra em choque. O suspense não poderia ser maior e melhor em outro episódio. A vida em Litchfield mostra-se à parte de previsões.

2ª TEMPORADA: 
MELHOR EPISÓDIO: "Little Mustachioed Shit" (E10) - 
MENÇÃO HONROSA: "Thirsty Bird" (E1) -