Talvez o que eu achei mais genial em Titane seja o mais óbvio. O potencial incendiário desse filme reside no fato de que ele é, antes de mais nada, muito simples na sua premissa. Eu não vejo com maus olhos a tentativa da diretora de mexer com as expectativas do público com uma narrativa que está em constante mutação.
O que chama atenção é que há, certamente, um tom dominante ao longo do filme de recusa em se desculpar, o que parece refletir até mesmo a própria rebeldia da personagem principal, que comete vários atos criminosos e segue para o próximo de forma quase inabalável, como se não fosse nada. É como se essa "delinquência serial" contaminasse até mesmo a própria condução da narrativa.
Para todas as discussões que Titane levantou, eu acho que ele surge num momento em que há uma grande ressignificação acontecendo do cinema, da experimentação com a linguagem e com o gênero. É interessante porque, na mesma medida em que a diretora tenta dar conta de um mar de convergências, e ela o faz com certo sucesso, fica muita coisa em aberto. O que pode ter um efeito positivo, porque o filme fica na nossa cabeça depois da sessão.
É interessante voltar a Raw, tão perigosamente carnal e "gore" quanto Titane, e que guarda tantas semelhanças com ele, especialmente por ser um filme que trabalha elementos do gênero horror com temáticas sexuais. Eu diria que Julia Ducournau, que ganhou a Palma de Ouro por esse filme, é um nome para ficar de olho.
