Woody Allen, desde os anos 80, vem fazendo um filme a cada ano, e raramente o diretor interrompe esse "ciclo". E podemos dizer que três quartos de toda a sua carreira filmográfica seja feita de comédias, tais como Noivo Neurótico, Noiva Nervosa; Manhattan; A Rosa Púrpura do Cairo; Hannah & Suas Irmãs; Meia-Noite em Paris entre outras grandes obras-primas do diretor, que deram fama a Woody em Hollywood e em todo o mundo. Os dramas são poucos presentes no currículo de Woody Allen. Mas, com um especial destaque, Blue Jasmine é, sem sombra de dúvidas, um dos melhores filmes já realizados por ele, e desde Crimes e Pecados, é o melhor drama já escrito por ele. A desconstrução de uma personagem monstra que retorna para os braços de quem um dia já havia rejeitado, sob o pretexto de reencontrar um trouxa para lhe sustentar, resulta num longa espetacular e absolutamente excêntrico.
Protagonizado por Cate Blanchett (numa performance-avalanche vencedora do Oscar, Globo de Ouro e BAFTA), o drama conta a história de Jasmine, uma mulher rica que após perder toda a fortuna, se muda pra São Francisco na casa da irmã. Os problemas da protagonista se intensificam numa narrativa um tanto organizada e complexa, que acompanha as crises nervosas e surtos desesperados da personagem diante da pavorosa e intrigante jornada na cidade e na casa da irmã, provocando alguns pequenos colapsos na vida de sua irmã Ginger, interpretada pela britânica Sally Hawkins (protagonista íntegra e otimista de Simplesmente Feliz, de Mike Leigh).
Ginger, por mais inconsciente que esteja a par da loucura de abrigar a irmã, tende a protegê-la na maioria dos momentos. Só que as duas estão profundamente interligadas na trama. Pois, história vai e história vem - desculpem o spoiler -, Ginger e Jasmine continuam na mesma. Enquanto uma continua com seu mesmo par, apesar das diversas confusões, a outra continua iludida, lunática, no meio do nada, perdida entre a realidade e a fantasia de sua inesperada jornada.
O roteiro de Allen brinca, equilibradamente, com o ritmo desacelerado, porém saudável, do filme, por hora alternando a realidade da Jasmine em bem-montados flashbacks. E não tem erro, já que o espectador vai redescobrindo toda a história a partir dessas curtas intervenções que, apesar do pouco tempo de diferença da atualidade, apresentam um flexível cabimento. Por exemplo, há uma cena na qual Jasmine, ao lado de Ginger, Eddie e Chili, tira uma selfie. Durante um dos flashbacks, onde a Ginger e o marido (naquela época) Augie estavam visitando Jasmine em N.Y., eles vão fazer um tour pela cidade, e pedem para um homem tirar uma foto com uma câmera, hoje em dia um acessório pouco utilizado em meio à moderna safra de telefones celulares, tablets e outros equipamentos que vem com uma câmera acoplada. Woody, de um modo íntegro, afasta um velho estereótipo de que entre a virada e a recaída há uma extensa quantidade de tempo, de forma com que Jasmine tenha ido direto pro saco com a perca da sanidade mental. E não é? Apesar de todo esforço, o tempo nunca reverte uma profunda cicatriz. Quando se está desorientado, sem ninguém e nada, esperar não é o melhor remédio. Um "basta!" à teorização da "cura" pelo avanço do tempo. É provável que esse período reduzido testificado por ele também tenha ligação a seu iminente medo da evolução do tempo, já que o diretor mantém-se o mais afastado possível da degeneração dos anos, que o fazem lembrar de que está um passo à frente em direção ao túmulo, a maior das fobias de Woody.
Woody Allen, dono de uma genialidade perversa e sutilmente aguçada, brilha tanto na direção como no roteiro (indicado ao Oscar) de Blue Jasmine. Desta vez, Woody usa menos artifícios convincentes no roteiro para conseguir fazer a completa interpretação da vida, do estilo, do diário e dos conflitos da personagem Jasmine, onde o filme se centraliza. Talvez, o filme não seja tão simbólico como Meia-Noite em Paris, ou tão vivaz como Vicky Cristina Barcelona, ou tão furioso e astuto como em Match Point, mas todos os elementos são formalmente apresentados ao público, que é impossível não afirmar que Blue Jasmine é dependente do estilo Woody Allen de fazer filmes. Com um toque dramático jamais visto em nenhum de seus filmes, com a presença do desempenho arrebatador de Cate Blanchett, e com um elenco fulminante, Blue Jasmine é o melhor da arte de Woody Allen, e um dos melhores filmes do diretor vistos ultimamente (junto a Meia-Noite em Paris).
Blue Jasmine
dir. Woody Allen - ★★★★