sábado, 28 de fevereiro de 2015

Crítica: "UM SANTO VIZINHO" (2014) - ★★★★


Feitiço do Tempo, Encontros e Desencontros, Um Santo Vizinho: Bill Murray continuará sendo um dos meus grandes heróis não importa qual personagem faça. Afinal, entre nós, só um mesmo já faz fama por si: o velho tranquilão convencido. Murray é um dos meus atores prediletos, até por que é um dos melhores. Vê-lo nos filmes é uma coisa que está se tornando raridade, salvo por sua participação nos longas de Wes Anderson, sendo o último O Grande Hotel Budapeste. Fora sua parceria com o cineasta, o vi mesmo em Caçadores de Obras-Primas e Broken Flowers, e agora em Um Santo Vizinho.

Foi bom, confesso. Gostei desse filme. Pode ser tal moralista, tal pedante, mas é um filme que tem uma certa elegância. É divertido, bem além do engraçado. Bill Murray se saiu fantasticamente ótimo em Um Santo Vizinho. Um personagem novo dele, também. Um lado que eu, assim  como muita gente, não havia visto dele. O veterano ranzinza e bêbado é incomparável aos personagens que estamos acostumados a vê-lo interpretar. 

Gostei do elenco, bem escalado, sem muito exagero. Naomi e Melissa merecem destaque. O jovem Jaeden, que interpreta o, segundo Vincent, "nanico" Oliver, também consegue agradar o espectador. Talvez estar ao lado de Bill Murray seja tão significante quanto uma influência na atuação. Talvez deva ser muito nervoso estar ao lado dele. Ele é uma lenda, no final. Até mesmo o diretor, Theodore Melfi, tenha tido um pouco de receio em escrever o personagem. Na estreia, ainda por cima. 

O roteiro tem pontos estratégicos, utilizando alguns truques básicos, mas não é nada para levar em caso. Piadas de conteúdo, humor de qualidade, não dá pra reclamar do filme nessa parte. Seria praticamente desnecessário. A direção tem algumas falhas, nada para levar em conta igualmente, já que este é a primeira vez de Melfi. O elenco, como já foi dito, de parabéns. Nada mais a notar sobre. 

Compartilhei Um Santo Vizinho. Competente, sem divergir da trama. Engraçado, o que é a base primordial do sucesso desta película. Enfim, eu achei Um Santo Vizinho bem precioso. Um filme com cara de família, se não fosse por alguns elementos e cenas. Concordo que a moralidade pode irritar um pouco o espectador. Não é algo tão grande assim, vai. Um Santo Vizinho é alem de tudo, nostálgico. Ver um Bill Murray velho, mas ainda potente e talentoso, já pode agradar bastante.

Um Santo Vizinho (St. Vincent)
dir. Theodore Melfi - ★★★★

Crítica: "RELATOS SELVAGENS" (2014) - ★★★★


Esplêndido! Não me estranha Pedro Almodóvar ter colocado dinheiro numa obra tão excelente como esta. Crítica social, crítica econômica, sátira, comédia dramática, antes de tudo isso, Relatos Selvagens primeiramente é um filme moderno. Apesar de não ser tão complexo, o que pode ter desapontado quem esperava isso no final, Relatos Selvagens é delicioso. Engraçado e dramático em alguns pontos, mas sempre com o foco em seu padrão. 

Assustador, brevemente. A cada segmento, há suspense. Há humor, há desastre, há sátira. É bizarro, por isso, é tão louco. Logo no primeiro episódio, pessoas dentro de um avião descobrem algo em comum: todas conhecem Gabriel Pasternak. O mistério se precede até quando descobre-se que Pasternak é um doente psiquiátrico e sua vingança é esta: matar a todos que atrapalharam sua vida, inclusive ele mesmo, num acidente de avião. O mais curto (precede os créditos, como uma "introdução"), mas o mais simbólico.

O filme foca-se em vingança. Tudo se resolve com a vingança. E aí segue. Desse sentimento nasceu todo o furioso talento em impactar de Relatos Selvagens. Seus personagens querem sangue. São movidos a sangue. Vidas cinzas em busca de um vermelho entonado. Traição, ódio, repulsa, vivacidade, personalidade.

É bem lógico. O espectador pode ter desconsiderado a falta de procedimento das histórias. É como se não houvesse final. Pode ser feita uma pequena observação: a cada episódio, com a exceção do terceiro, o diretor "corta" o final, deixando um clima de ambiguidade no ar. Peculiar, mas legal. Funcionou, é o que nos importa. Quem não imaginou Pedro Almodóvar dirigindo Relatos Selvagens? O filme é a cara dele. Pode não ser aquele clássico Almodovariano, cheio de brega e cores quentes, mas o estilo é familiar, por que é todo dele. Inspira.

Meu episódio favorito foi o final, mesmo que eu ainda tenha gostado muito do terceiro, por ter mais humor ou, sei lá, o desafio de ausentar a sensibilidade. O último me agradou muito. Tem tudo, ou melhor, ele resume toda a ambição do filme de Szifrón. É o mais irônico e ousado. Empolgante e revoltado. Alegre e triste. Cinza e vermelho. Almodóvar. Merecedor de aplausos também é o nervoso segundo, que pode ter deixado muitos à flor da pele. Ricardo Darín e Erica Rivas dão as melhores performances do filme.

O filme mostra o ridículo mundo em que vivemos, cheio de interesse, desordem, incapacidade, crime e pecado. Aborda a impaciência do ser humano em tudo, nos grandes e pequenos fatos: uma briga de trânsito, uma cadente traição, um insurgente reencontro. Mudar já não é mais possível. O jeito é perder o controle. Temos que aprender a perder o controle para sobreviver neste mundo. Senão, não teremos transformação. Não teremos clímax. Não teremos a liberdade.

Relatos Selvagens (Relatos Salvajes)
dir. Damián Szifrón - ★★★★

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Crítica: "VIOLÊNCIA GRATUITA" (2007) - ★★★★


Louco. Obsessivo. Gratuito. Violência Gratuita é assim. Pode ser traduzido para a sensação mais eufórica em pouquíssimas palavras, isto por que trata-se da análise da refilmagem do mesmo filme de 1997. Tudo bem que é um remake, mas desde que seja escrito e dirigido pelo mesmo autor da versão original, aqui Michael Haneke, que depois de dez anos do lançamento de uma de suas obras mais cordiais, decidiu revendê-la ao público com um elenco americano, é totalmente aceitável.

Confesso que Violência Gratuita me superou. Só pelo elenco, Naomi Watts, Tim Roth e Michael Pitt, já tinha uma noção do que seria, mas não pensei que Michael levaria tão á sério a questão da "fidelidade", entende? De qualquer forma, Violência Gratuita é uma das melhores refilmagens que eu já vi, sem medo e sombra de dúvida. Todo o impacto que envolve a trama de 1997 é presente, reprodução magnífica! Não irão se surpreender muito com relação ao que é contado, por que a história, pra quem assistiu ao original, é a mesma, em tudo, até nas cenas, nos detalhes das cenas, com pouquíssimas (mesmo) mudanças. Na verdade, pra ser bem sincero, os dois filmes são idênticos. É quase surreal. É claro, trabalhos vindos de um mestre incomparável como Haneke, não há como duvidar da excelência. 

Achei que nessa refilmagem do suspense austríaco para o cinema americano, Michael poderia aproveitar a oportunidade e colocar Isabelle Huppert, sua musa, no papel principal, o que eu acharia esplêndido. Naomi, no entanto, conseguiu encantar aqui como protagonista solenemente. Ela e Tim Roth. Ela, Tim Roth e Michael Pitt. Estão todos bravíssimos. 

E pensar que esta história poderia acontecer a qualquer um em qualquer lugar... É uma coisa esquisita, e ao mesmo tempo, carente de perspectiva: os dois jovens, aparentemente do nada, instalam um pânico viral contagioso. E no final de tudo, Violência Gratuita espelha mais uma vez a grandiosidade da obra de Haneke e sua genialidade cinematográfica. De tudo, acharia que este, de 2007, não funcionaria se não fosse por ele. Mas isso questiona, afinal, se tivéssemos nas mãos uma obra-prima valiosa e inteligente que no lançamento não teve reconhecimento suficiente, não poderíamos muito bem refilmar cena por cena, diálogo por diálogo, mudando apenas os atores? Esperto foi Haneke. Sete milhões a mais rende bastante. Resumindo: é a tradução de uma bem-feita, mas subestimada, obra-prima. E o mais audacioso desta versão se encontra justamente na proposta de refilmar quadro a quadro o anterior, com um sucesso tão extenso quanto.

Violência Gratuita (Funny Games)
dir. Michael Haneke - ★★★★½

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Crítica: "TRAPAÇA" (2013) - ★★★★


Intento que o título de Trapaça, traduzido literalmente do inglês, me atraiu bastante. Farsa Americana ou Fraude Americana talvez pode até não mudar tanto, mas soa bem. Por isso, quero tratar de Trapaça como American Hustle, já que "discordei" do título oficializado pelas produtoras brasileiras aqui no Brasil. Assisti o último filme de David O. Russell exatas seis vezes. A primeira foi em dezembro de 2013, e a última, neste ano. E no final, gostei da comédia, mesmo que muitos já tinham me advertido que a mesma resumia-se em "sem-graça", "baixo" e "irrelevante". Gostei do elenco, gostei da direção, gostei da caracterização (o que na minha opinião é o melhor). Gostei de tudo. Tive que contrariar as opiniões de fracasso e abraçar os elogios. Esse disco misturado com jazz, e as cores vivas me deixaram enfeitiçado. Resumindo: American Hustle é um filme embriagador.

Amy Adams e Christian Bale formam um casal como nenhum outro. A bela e sexy dama e o gordo e romântico vagabundo. É lógico, dando uma ênfase à poderosa transformação de Bale, velho coadjuvante de O Vencedor, em Irving Rosenfeld, cuja merecia, se não fosse por Matthew McConaughey em sua desoladora atuação dramática em Clube de Compras Dallas, uma vitória no Oscar. Adams também se deu bem, com suas Sydney e Edith, que tanto me apaixonaram. Jennifer Lawrence estava fantástica, como de costume. Claro, a segunda parceria da atriz com David O. Russell implicou em algo bem mais maturo do que O Lado Bom da Vida ao colocá-la na personagem de Rosalyn, uma vulgar desvairada atrevida que apela para uma vilã insolente. Eu até poderia pensar, se fosse aprofundar mais uma expectativa prévia do filme, que Lawrence não se sairia bem, e eu com certeza me enganaria. Bradley também ganhou minha aprovação. Há momentos de conflito em que seu personagem "viaja" na proporção da estabilidade e da razão, cenas das quais surgiram os instantes mais espetaculares do épico. Ou seja: o elenco está de parabéns.

David O. Russell e Eric Warren Singer são autores de um roteiro complexo e cativante, a base do filme. Qualquer caso, quem tiver a oportunidade de ler, é só pesquisar a cópia legal em pdf disponível do filme online. De forma certa, será bem experiencial lê-lo, intencionalmente os diálogos, onde instala-se um clima onipresente de tensão e ao mesmo tempo humor, o que simbolicamente é reproduzido no filme. Quem prestar a atenção, vai conseguir codificar. 

Em American Hustle, nem a fotografia (belíssima) e nem a trilha sonora (sublime) receberam o prêmio de destaque, mas sim, dois outros elementos técnicos essenciais para a montagem do clímax romântico: a direção de arte e os figurinos. Detalhes profundos e sensíveis que o transforma num clássico instantâneo, e afinal, por que não? Não vi motivos para discordar da oração. American Hustle é um trabalho de arte excelente, exercido com uma maestria singular da parte de Russell em seu melhor filme até agora, uma surpresa para alguém como eu que só o tinha visto até O Lado Bom da Vida: uma fase criativa, porém extremamente limitativa. Muito bom. Tremendamente bom. Recomendo. Reassistível.

Trapaça (American Hustle)
dir. David O. Russell - ★★★★

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Crítica: "ONDE OS FRACOS NÃO TEM VEZ" (2007) - ★★★★★


Há duas coisas que eu admirei bastante ao assistir Onde os Fracos Não Tem Vez: a utilização de metáforas no roteiro e as cenas de violência extrema. Algo bem familiar das obras de Joel e Ethan Coen, mas que aqui sofrem um destaque notório. Um dos filmes mais aclamados dos últimos tempos, Onde os Fracos Não Tem Vez me chamou a atenção bastante de um curto tempo pra cá depois de ler em algum lugar um elogio a partir da performance de Javier Bardem. Um elogio bem chamativo, que utilizou adjetivos como "estrondosa", "memorável", "astuta" e "talentosa". que confesso, me deixaram curioso para então assistir. Não resisti e procurei-o, encontrando em DVD. E ao fim da exibição, tais adjetivos foram cabíveis tanto á atuação de Bardem, cuja comentarei a pouco, quanto ao filme em si.

Mas esta é uma obra tão boa que mal consigo descrever como foi a experiência de vê-la, o que não me impossibilita de fazer uma boa revisão dela a partir do que achei. O que mais posso fazer senão elogiar, como o próprio texto que me sugeriu a procurá-la? Com certeza, é um dos melhores filme dos Irmãos Coen. Não sendo o melhor, em minha opinião, talvez um segundo melhor, perdendo para Fargo. Tem uma audácia cativante, exuberadamente passível, quase atormentadora. Inicia-se as razões de ter adorado-a, mais precisamente são cinco, equivalentes a cada estrela que o filme fez por merecer:

Onde os Fracos Não Tem Vez conta com um elenco pequeno, a maioria personagens masculinas, porém fortes, novamente citando Javier Bardem. Eletrizante. Monumental. Agressivo. Íntegro. Nunca vi algo tão bom na carreira dele quanto ao que ele fez neste filme. Aliás, este foi o filme que o introduziu no cinema americano, pois atualmente, o vi bastante nos filmes da indústria. De passagem na fase espanhola, dos melhores dele vi o clássico de Almodóvar Carne Trêmula e o vencedor do Oscar Mar Adentro. 

A direção magnânima e equilibrada dos irmãos Coen. A ambição em dirigir um drama tão necessitado de competência e audácia. Uma adaptação tão corajosa, e tão difícil, no fim, conseguiu ser realizada graciosamente por eles. Tudo conclui-se em formalidade.

Com uma certa ligação ao filme, é digno e preciso reconhecer o trabalho magnífico de Cormac McCarthy em escrever a base, afinal este filme não seria nada, literalmente, sem ele: o livro No Country for Old Man. Ainda vou procura-lo. 

O estilo. Outra vez é preciso autenticar os Coen. Num nível de violência categoricamente falando alto, Onde os Fracos Não Tem Vez possivelmente não seria tão emocionante se o estilo do qual ele foi filmado, um obscuro faroeste da atualidade, se ausentasse. Desculpem se descordarem disto, mas a partir do meu ver, a graça desta película se centralizou clima que ela reproduziu. É inevitável para quem assiste. Não confundir isto com ação. Estou falando de sangue, e é bem diferente, apesar dos dois, aqui combinados, serem belíssimos.

E por fim, a excelência técnica. Em tudo, principalmente o elenco, destacando desta vez um Josh Brolin plausível e meticuloso (good job!) e um Tommy Lee Jones versátil e humano (good job!). A fotografia de Roger Deakins: good job! A edição de Roderick (irmãos Coen): good job! O roteiro dos irmãos Coen: fucking great wonderful job! Mesmo sem ter lido o romance de McCarthy, já confesso aqui minha preferência de elogiar desde já o script do filme. Vencedor de 4 Oscars em 2008, Onde os Fracos Não Tem Vez é sim um dos melhores finalistas a Melhor Filme, premiado com justiça, num título muito viável para este recheado western moderno.

Resumindo tudo: nota 10!

Onde os Fracos Não Tem Vez (No Country for Old Man)
dir. Joel Coen & Ethan Coen - ★★★★★

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

OSCAR 2015 (87th Academy Awards)


★ A Noite do Homem-Pássaro ★

Chegamos aos créditos da 87ª edição do Oscar. E, que edição, caros amigos. Na certeza, os resultados da premiação não agradaram nem um pouco as expectativas anteriores sobre ela. Birdman, do diretor mexicano Alejandro González Iñárritu faturou quatro estatuetas e derrotou o favorito Boyhood, que levou apenas uma pra casa, entristecendo quem apostou tudo nele (eu).

A noite começou com a apresentação musical infantil, mas deliciosa de Neil Patrick Harris acompanhado da atriz Anna Kendrick e Jack Black. Com cores, luzes e vozes extraordinárias, o espetáculo de abertura do prêmio foi de uma excelência cativante. O comediante soube equilibrar as piadas internas sem cometer as gafes de Seth MacFarlane, e ainda comandou a platéia estonteantemente, como no Emmy. Fiquei satisfeito. Tudo bem que foi bem fingidinho por causa do luxo extravagante, mas foi divertido e excitante. Ok, também vou considerar a paródia de Birdman, por mais envergonhante que foi, tornou-se cômico.

O primeiro prêmio da noite, como de costume, foi Melhor Ator Coadjuvante, encarado com a vitória já prevista de J.K. Simmons pela estrondosa performance em Whiplash - Em Busca da Perfeição. Apesar de tê-lo como principal aposta, ainda tinha uma esperança em Edward Norton, uma surpresa. O Grande Hotel Budapeste faturou quatro prêmios importantíssimos, todos técnicos, incluindo Trilha Sonora (perfeita) e figurino para Milena Canonero, estilista italiana que conquistou sua quarta estatueta esta noite pelo trabalho glorioso no filme. As outras categorias foram Melhor Direção de Arte e Melhor Maquiagem e Penteados.

Whiplash também surpreendeu levando Melhor Edição (vencendo Boyhood) e Melhor Mixagem de Som pra casa, totalizando três prêmios para o longa independente do novato Damien Chazelle. Sniper Americano também teve seu momento, ganhando uma estatueta em Edição de Som, merecida.

Ida, meu favorito em Melhor Filme Estrangeiro, levou o prêmio na categoria. O diretor Pawel Pawlikowski, dando um discurso bem esforçado foi ligeiramente interrompido pela "musiquinha apressadora de fundo", mas não cedeu á cronometragem da produção e continuou discursando rapidamente num inglês bem puxadinho, mas compreensível, sendo venerado por toda a plateia que caiu de admiração pelo discurso do cineasta polônes, um orgulho. A mesma situação repetiu-se em outras categorias. Operação Big Hero venceu o favorito do prêmio de Melhor Animação, Como Treinar o Seu Dragão 2, merecidamente. Pulei da alegria quando a vitória do filme foi anunciada. CitizenFour venceu o documentário O Sal da Terra, que indicou o brasileiro Juliano Salgado Ribeiro ao lado do cineasta alemão Wim Wenders.

Mas, sinto muito, se teve uma coisa que eu não aprovei nesta edição do Oscar foram as interpretações musicais de "Everything is Awesome" e "Grateful". "Lost Stars" e "Glory" até foi bem legalzinho, mas olha, não sustentei os brilhos luxuosos das performances dos cantores. Não sei se foi o exagero ou a inconsequência dos números, só sei que foi tedioso.


Adorei a belíssima homenagem de Lady Gaga à Julie Andrews, bem pertinho do final. Uma das partes mais memoráveis do show, e uma surpresa constante. O melhor foi assistir a premiação, pela primeira vez, em HD, e presenciar essa belíssima apresentação. "Glory", que levou a plateia ás lágrimas, foi outro momento de destaque do prêmio, favorecendo um dos melhores discursos da noite feito pelos compositores John Legend e Common vencedores do único prêmio de Selma, em protesto á liberdade, um assunto que era esperado, e nem mesmo foi citado aqui. E a vingança de Idina Menzel... A gargalhada da noite!

Meryl apresentou o In Memorian desse ano, que fez bem ao lembrar de Alain Resnais, Robin Williams, Lauren Bacall, Anita Ekberg e até mesmo Gabriel García Marquez, só que desapontou ao esquecer Roberto Goméz Bolaños, José Wilker e a querida Odete Lara.


Na única vitória de Boyhood, Patricia Arquette, vencedora de Melhor Atriz Coadjuvante, defendeu os direitos femininos num discurso plausível apoiado fielmente por Meryl Streep. Imperdoável única vitória, outro erro injusto do Oscar deixar Boyhood com apenas um prêmio. Birdman, surpreendeu levando quatro estatuetas pra casa, três do diretor mexicano Alejandro González Iñárritu, ganhador em Melhor Roteiro Original, Melhor Diretor e Melhor Filme. Mesmo que merecido pelo fantástico trabalho feito no filme, quem realmente deveria estar com o prêmio era Boyhood. E mais ainda meu favorito O Grande Hotel Budapeste, cujos prêmios técnicos soam mais como consolação para a falta de prêmios de Wes Anderson, que nem Roteiro Original levou. Desolador, mesmo que convincente e apropriado. No entanto, bem no final da corrida, Birdman ganhou um fortíssimo apoio dos sindicatos e tudo favoreceu a promoção cinematográfica, que influenciou tanto o desempenho da comédia dramática no Oscar. Wes e Richard saíram de mãos abanando. Michael Keaton, no entanto, foi vencido por Eddie Redmayne. Julianne Moore finalmente conseguiu seu primeiro Oscar por Para Sempre Alice, mesmo que tenha derrotado minha musa, Marion Cottilard.


E é isso aí, encerrou-se nesta noite mais uma turbulenta e grandiosa edição do Academy Awards. Nos resta esperar por 2015 e o que ele nos trará afinal, no final de tudo, até que valeu a pena ter um grande cuidado em participar de todo esse circuito. Aplausos para todos os vencedores e indicados da premiação, e especialmente à Birdman, nosso grande vencedor. Esperemos um melhor Oscar 2016.

Mr. Turner, Vício Inerente, Garota Exemplar, Livre, Foxcatcher, O Abutre e Invencível não venceram nenhum prêmio.

PONTUAÇÃO DAS APOSTAS: 14/24

vencedores:

MELHOR FILME
Birdman

MELHOR ATRIZ
Julianne Moore - Para Sempre Alice

MELHOR ATOR
Eddie Redmayne - A Teoria de Tudo

MELHOR DIRETOR
Alejandro González Iñárritu - Birdman

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Patricia Arquette - Boyhood

MELHOR ATOR COADJUVANTE 
J.K. Simmons - Whiplash - Em Busca da Perfeição

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Birdman

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
O Jogo da Imitação

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
Ida - Polônia

MELHOR FILME DE ANIMAÇÃO
Operação Big Hero

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Glory" - Selma

MELHOR TRILHA SONORA
O Grande Hotel Budapeste

MELHOR DOCUMENTÁRIO
CitizenFour

MELHOR FOTOGRAFIA
Birdman

MELHOR EDIÇÃO
Whiplash - Em Busca da Perfeição

MELHOR FIGURINO
O Grande Hotel Budapeste

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
O Grande Hotel Budapeste

MELHOR MAQUIAGEM E PENTEADOS
O Grande Hotel Budapeste

MELHOR CURTA-METRAGEM
The Phone Call 

MELHOR CURTA-METRAGEM - DOCUMENTÁRIO
Crisis Hotline: Veterans Press 1

MELHOR CURTA-METRAGEM - ANIMAÇÃO
O Banquete

MELHOR MIXAGEM DE SOM
Whiplash - Em Busca da Perfeição

MELHOR EDIÇÃO DE SOM
Sniper Americano

MELHOR EFEITOS VISUAIS
Interstellar

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Crítica: "FOXCATCHER - UMA HISTÓRIA QUE CHOCOU O MUNDO" (2014) - ★★★★


Na distribuição brasileira, Foxcatcher recebeu o título alternativo de Foxcatcher - Uma História que Chocou o Mundo, para dar aquele "toque" chamativo nos espectadores, afinal, Pegador de Raposas não seria lá um título tão sugestivo. E no final, até que o título escolhido não está tão errado. Realmente, Foxcatcher é uma história forte cheia de pontos altos e reviravoltas. Tem mil e uma razões para chocar o público e ilustrar um pânico desolador das mais diversas maneiras.

Eu gostaria de começar a falar de Foxcatcher a partir de Steve Carell. E confesso que gostei muito da performance do comediante americano que até agora só tinha me impressionado em The Office e Uma Noite Fora de Série. É o primeiro filme onde o vejo numa atuação consistente, matura e decidida. O que mais impressiona aqui a quem o assiste é a sua dedicação em se transformar tão impecavelmente no seu personagem, John Du Pont, um frio e metódico treinador de luta greco-romana, algo estupendo par a o que já vimos de Carell em outros filmes que incluem besteiróis clichês e comédias medianas.

Mark Ruffalo e Channing Tatum também não estão ruins, se formos avaliar de perto. O grande problema de Foxcatcher é, surpreendentemente, sua ambiguidade. A ambiguidade é algo que não cai bem, ou seja, falar dela especificamente depende de tanta autoridade e técnica, meio que limita as opções de filmá-la. Há uma certa hora em que o espectador se perde na instabilidade do gênero abordado, mesmo doce que seja. Bennett Miller, ao contrário de seus dois filmes anteriores, soube, no entanto, equilibrar drama e biografia. Exceto algumas falhas, que talvez nem sejam lá problemas, Foxcatcher é de uma percepção aguçada e visivelmente potente. Ainda dá pra engolir a direção de Bennett Miller, avulsa por patriotismo e inconsequente fidelidade, mas que consegue conduzir perfeitamente as cenas de conflito e intensidade do filme, além de dirigir bravamente todo o elenco.

Quem assiste a Foxcatcher não acredita mesmo que o filme tem base numa história incondicionalmente real, e até mesmo universal. É possível, mas é tão impactante que o clima gerado por toda a subsequencia dos acontecimentos acaba inquietando o pensamento. Não é lá usual ver o que é narrado aqui. Nem um pouco. Mesmo que isso não tenha me convencido tanto, gostei da ideia, e comprei-a. Filme vai, filme vem, Foxcatcher pode atrair quem procura por algo um pouco mais pesado e competente.

Foxcatcher - Uma História Que Chocou o Mundo (Foxcatcher)
dir. Bennett Miller - ★★★★

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Crítica: "TANGERINES" (2014) - ★★★


Todas as produções indicadas ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro este ano, com a exceção de Relatos Selvagens (Argentina), são europeias. E dentre estas produções, Tangerines é um destaque primordial. Com pouquíssimos recursos utilizados em seu fraco financiamento, o filme demonstrou-se avançado se comparado ao que nele foi colocado. Pelo contrário do que alguns pensaram sobre, Tangerines não está retratando a crise que empurrou a Europa para um chão desmoronado da economia, e sim, analisa de uma forma peculiar e inteligente um outro capítulo pouco mostrado no cinema, e que aqui funcionou lindamente: a Guerra da Abecásia, um conflito instalado durante 1992 até 1993 entre as autoridades georgianas e abecásias. 

Enquanto a maioria das pessoas fugiram de suas moradias na região onde a guerra se instalou, uma pequena população continuou a viver lá. Ivo é um deles. Ivo trabalha numa plantação de tangerinas em uma fazenda ao lado de Marcus, um fiel ajudante. Num certo dia, um embate entre alguns soldados georgianos com outros chechenos acaba na morte de vários integrantes de ambos os grupos. Apenas dois, de lados separados, sobrevivem, e cabe á Ivo e Marcus, ao lado de outro médico cujo nome não me vêm à cabeça, cuidar desses sobreviventes inoportunos, que dentro da pacata casinha rural do fazendeiro, travam uma rivalidade limitada pelo pacífico plantador.

Como visto, a proposta da história é bem aberta, o que possibilita mais oportunidades e saídas rentáveis, algo que na película é indispensável. Não se preocupe com a duração, pois para o diretor/escritor Zaza Urushadze, oitenta minutos foram o suficiente para reunir todo o essencial da jornada (isso pode ser visto como um desempenho fenomenal).

Tangerines, mesmo que esteja atrás de Ida e Leviatã, os concorrentes mais prováveis á vitória no Oscar, ainda sim tem uma considerável grande chance de levar a estatueta de Melhor Filme Estrangeiro para a Estônia, logo na primeira indicação do país. A categoria em questão é a mais incerta de todas (excluindo curta-metragem e documentário). Talvez por que a eleição dentro dela envolva uma massa de votantes estrangeiros maior do que nas outras, ou seja, a votação é  mais "universalizada". Por isso que há tanta divergência nessa mesma categoria em outras premiações, como o Globo de Ouro, BAFTA, etc...

Na minha opinião, Tangerines é um espetáculo. Através de uma moral bem resolvida e sem muito exagero, o drama apresenta observações qualificadíssimas quanto á guerra em geral, não só a específica tratada diretamente na trama, mas o significado das ações por trás dela. Filmes de guerra sempre tendem a ser interessantes, e sinceramente, se você procura um novo e bom filme sobre o assunto que lhe reserve uma reflexão adequada, entre os aconselháveis estará, com certeza, Tangerines. Tocante e valiosa, a obra garante uma experiência cinematográfica profunda e memorável, e além de tudo, humana.

Tangerines (Tangerines/Mandariinid)
dir. Zaza Urushadze - ★★★

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Crítica: "SNIPER AMERICANO" (2014) - ★★★★


Sinceramente, não vejo o por que de implicar com o patriotismo de Clint Eastwood. O que salvaria a obra toda dele senão seu patriotismo? Que mania. Deixa o tio Clint viver a vida em paz, estampando bandeiras americanas nos posters de seus filmes. Ouvi (e vi) muita gente criticando sua mais recente obra-prima. Sniper Americano é maravilhoso. Mais um filme de destaque para a carreira de Eastwood, um professor de história que a cada aula torna-se mais eficiente e vitorioso. Para aqueles que se "enojaram" de Sniper Americano, apenas saibam que não viram nada para alguém que já dirigiu outras obras bem mais pesadas do que estas, como Os Imperdoáveis e J. Edgar. De fato, é controverso e apológico, mas seu significado vai bem além destas proporções preconceituosas dos espectadores dele.

Chris Kyle é o maior franco-atirador do exército americano de todos os tempos. O "mito" da Guerra do Iraque, Kyle matou mais de 150 pessoas dentre crianças e mulheres durante sua jornada no Oriente Médio. No filme, ele é um herói. Capaz de atropelar a própria família para salvar sua honra, Kyle é um mito, talvez, questionável. Não é possível que tudo no filme seja real. É bem provável que o tio Clint ajudou com um pouco de ficção para quebrar a imoralidade do personagem e da história. 

Sniper Americano, para muitas pessoas, pode ser uma completa confusão. Pra mim, foi fácil compreende-lo por que a experiência que ao público é mostrada já foi vista em muitos outros filmes, não só de Clint. Quem conhece o cineasta de perto vai se lembrar (sim) de Gran Torino. Não vejo muita diferença entre esse sniper americano com o ranzinza e frio veterano da Guerra da Coréia memoravelmente interpretado pelo diretor em 2008. Há cenas que me lembraram muito Guerra ao Terror, apesar do drama de Katheryn Bigelow ser bem mais profundo e amplificado do que este quando o assunto é "falar da guerra".

Aliás, há quem diga que Chris Kyle é só mais um personagem assemelhável a todos os outros mais de filmes anteriores dele: Frankie Dunn em Menina de Ouro; Will Munny em Os Imperdoáveis; J. Edgar em J. Edgar; Jimmy em Sobre Meninos e Lobos; Todos os filmes de Clint tem um pouquinho (e um tantão) de patriotismo. E só alguém bem pobre de conhecimento sobre ele para dizer que Sniper Americano é uma película inferior. De modo algum. 

Se alguém aqui que merece ser reverenciado e aplaudido por seu trabalho é Clint. E Bradley, afinal, ser indicado pela terceira vez consecutiva ao Oscar não é para qualquer um. Bradley Cooper é um dos atores mais badalados dos últimos tempos. Desde sua indicação em 2013 por O Lado Bom da Vida, o mesmo conseguiu outras duas até agora: Ator Coadjuvante por Trapaça e novamente Ator Principal por Sniper Americano. Mesmo tendo tomado o lugar pertencente à David Oyelowo (Selma) ou Jake Gyllenhaal (O Abutre), o desempenho de Bradley neste drama é igualmente impecável se comparado às duas performances citadas acima. 

Além de responsabilidade, Bradley mostra certa maturidade e envolvimento neste filme mais do que os outros dois pelos que recebeu suas duas primeiras indicações ao Oscar. Esforçado e digno, Bradley é insuperável neste filme. Sienna Miller também tem seus momentos como coadjuvante, mas não chamou minha atenção tanto quanto Bradley. 

Clint e o roteirista Jason Hall se esforçam para manter fiel o filme à vida de Chris Kyle. Não tive a oportunidade de ler a autobiografia que baseou a película, à venda na Livraria Cultura, por isso, não posso realmente dizer que tudo o que foi apresentado em Sniper Americano é o que realmente aconteceu, mas como já falei antes, a presença de elementos ficcionais aqui é basicamente existente. Se fosse uma ficção, talvez não gerasse tanto conflito quanto gerou. Mas a questão aqui, o que ainda quase ninguém principalmente conseguiu perceber, não é a moralidade que muitos buscam sem vitória, mas sim o retrato da influência e a natureza da guerra na vida das pessoas que atentamente acompanharam o doloroso e triste 11 de setembro. Mas, se no fundo a reflexão surgir: não foi algo justo o feito dos americanos contra os terroristas? Afinal, vamos lá Beatrix Kiddo: "a vingança é um prato que se come frio". A maioria das pessoas ignora essa possibilidade e apenas encaram a consequência como dado. É recomendável conhecer um pouco sobre a história realantes de assistir ao filme, que além de proporcionar instantes de tirar o fôlego, quão perplexos, ainda é uma instigante aula de história. E Clint, mais uma vez, mantém seu legado e importância para o cinema.

Sniper Americano foi indicado ao Oscar em Melhor Filme, Melhor Ator (Bradley Cooper), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Edição, Melhor Mixagem de Som e Melhor Edição de Som.

Sniper Americano (American Sniper)
dir. Clint Eastwood - ★★★★

Crítica: "SELMA - UMA LUTA PELA IGUALDADE" (2014) - ★★★★★


Lindíssimo. Uma grande jornada, um grande filme. Não é surpresa que Selma tenha demorado tanto para sair do papel, pois já filmar a vida de alguém como Martin Luther King Jr. é de tamanha ambição quase inimaginável (ou não?) para se retratar no cinema. No entanto, Ava DuVernay soube conduzir perfeitamente a película como ninguém poderia fazê-lo. Só duas pessoas, fora Ava, poderiam filmar Selma na minha mais constante opinião: Steven Spielberg (estabilidade) e Spike Lee (originalidade). Esses dois diretores habilidosos fariam uma dupla incrível se dirigissem esse filme juntos. Ou um trio, com Ava, que soube combinar atentamente as qualidades anteriores com certa inovação, algo que pode ser bem arriscado para alguém com pouquíssima experiência no meio cinematográfico, o que a leva ter um reconhecimento merecido. 

A ideia me deixou um pouco entusiasmado. Principalmente agora, onde o racismo e a escravidão são os temas que mais compram público e crítica na atualidade. E pelo contrário do que se pensa, essa evolução é boa. É preciso citar 12 Anos de Escravidão, último vencedor do Oscar de Melhor Filme. Foi a hora certa para a estreia de Selma, sucedendo o filme de mais êxito do ano passado ao de seu lançamento. E não poderia vir em melhor hora. 

Quem não estava esperando uma (grande) cinebiografia de Martin Luther King Jr.? Até Clint sustentou a ideia por algum tempo, mas optou por algo bem menos americano depois do sucesso de A Troca, filmando (por sinal, belo) Invictus. E quem estava esperando até agora por esta tão aguardada cinebiografia, sem concordar ou não, pôde sentir um gostinho de contentamento no the end. É difícil filmar uma cinebiografia, e essa é uma das razões para o atraso desta. O gênero exige bem mais do que os outros. É compreensível. Mas quanto ao resultado: é excelente. Quase nunca filmes deste tipo falham, e se falham, ainda são salvos pelo elenco e/ou equipe técnica. Sempre. 

Aqui, temos dois talentos fulminantes (esnobados ao Oscar), David Oyelowo e Carmen Ejogo em atuações profundas e marcantes. Ambos ganharam minha aprovação quanto ás suas respectivas interpretações. DuVernay igualmente aprovada, dona de uma competência harmônica. A trilha sonora, aquietou a alma daqueles enfeitiçados pelo clima de tensão constante apresentada em algumas cenas rigorosas. A fotografia, sem palavras. Não há motivos existentes para tanta esnobação no Oscar 2015. Melhor Filme e Melhor Canção Original (de apelo!)? É inacreditável que de todas as categorias que merecia estar tenha aparecido justo nestas duas. E olha que Selma é um filme pra lá de óscariano. Vai entender. Pelo menos, o Globo de Ouro o reconheceu nas categorias adequadas. Independente desses pequenos detalhes que envolvem Selma em algumas polêmicas questionáveis, o drama é um dos melhores feitos no ano passado e ecumenicamente impecável. Equilibradamente fiel e meticulosamente sensível, o filme mais recheado de humanidade e caráter da temporada é inquestionável em sua atenção ao cuidar de algo tão necessitado de visão e autoridade. Selma - Uma Luta pela Igualdade foi indicado ao Oscar em Melhor Filme e Melhor Canção Original.

Selma - Uma Luta pela Igualdade (Selma)
dir. Ava DuVernay - ★★★★★

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Crítica: "A TEORIA DE TUDO" (2014) - ★★★


Stephen Hawking é um dos homens mais geniais que já viveram. Saí da projeção desnorteado com a fantástica jornada de vida do físico inglês, e decidi aprofundar meus tão poucos conhecimentos sobre ele logo iniciando uma pesquisa a partir de seu casamento com Jane. Se você está procurando uma cinebiografia sobre o trabalho de Hawking, aqui não é o lugar. Há pouquíssima informação no filme sobre sua carreira e suas descobertas científicas. O foco principal do drama é sua relação com Jane Wilde, estudante de poesia medieval espanhola que conheceu em Cambridge na década de 60 e anos depois que veio a se tornar mãe de seus três filhos. Realmente, eu me surpreendi com a história de Stephen Hawking. Há anos não vi uma cinebiografia tão bem atarefeda, embora tenha certos exageros  e imperfeições. A Teoria de Tudo ou O Tudo da Teoria? Eu, como já disse, não sabia quase nada sobre ele, e A Teoria de Tudo, além de narrar algo que vai bem além do superficial (minha pré-conclusão máxima sobre o filme), é suficientemente esclarecedor. Para aqueles que estão buscando saber mais sobre sua vida, A Teoria de Tudo é, na perspectiva narrativa, o melhor filme.

No entanto, ainda estou indeciso quem é que mais merece a estatueta de Melhor Ator no Oscar. Michael Keaton e Eddie Redmayne dividem minha aposta. Porém, se fosse algo direto, acho que ficaria sem dúvida com Eddie. Por mais que Keaton tenha ganhado meu apoio nos últimos tempos na corrida, esta noite Redmayne me provou o improvável com uma performance arrebatadora e cautelosa, necessária e rigorosa. O par do ano. Eddie Redmayne e Felicity Jones fazem o par do ano ao atuarem juntos tão simbolicamente em A Teoria de Tudo. De forma contrária: o filme não é nem tão excessivo nem tão vazio. Define-se entre essa diferença, pois nele há uma plenitude tão instável que os erros (poucos, mas existentes) são cobertos. 

James Marsh é um documentarista exímio. Em 2008, fez O Equilibrista, talvez seu melhor trabalho até hoje. A qualquer hora falarei sobre o longa que aborda a vida e a grande realização do equilibrista Philippe Petit. É claro, A Teoria de Tudo não é e nem poderia ser um documentário enquanto drama, mas a ideia de fazê-lo seria um tanto quanto divertida e visionária. Este é o quarto longa ficcional de Marsh, e não seu mais sucessivo filme apenas perdendo para o documentário já citado. 

Seria um imperdoável erro não citar os elementos internos e técnicos do filme. O roteiro, em primeiro de tudo, é o tudo da teoria. Assinado por Anthony McCarthen e adaptado da biografia Travelling to Infinity: My Life with Stephen (curiosamente) escrito por Jane Wilde, é a base categórica e essencial do drama. Num embate com O Jogo da Imitação em Melhor Roteiro Adaptado, a vitória no BAFTA talvez não leve ao filme uma vitória no Oscar, por mais triunfal. A trilha sonora conduzida brilhantemente por Jóhann Jóhannsson me deixou nas alturas. A fotografia, suprema, de um trabalho cordial de primeira. Não me surpreende que o dono deste feito seja o francês Benoît Delhomme, que trabalhou em outras películas, fracas, como O Menino do Pijama Listrado e Um Dia. A edição, a direção de arte, o figurino. A preciosidade dos efeitos técnicos é imprescindível. Bem, acho que não esqueci nada sobre A Teoria de Tudo, ou seja, tudo basicamente se resume em: Assista, você não vai se arrepender (ou vai?)!

A Teoria de Tudo foi indicado ao Oscar de Melhor Filme, Melhor Ator (Eddie Redmayne), Melhor Atriz (Felicity Jones), Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Trilha Sonora. 

A Teoria de Tudo (The Theory of Everything)
dir. James Marsh - ★★★

Crítica: "PARA SEMPRE ALICE" (2014) - ★★★★


Dentre as cinco indicadas ao Oscar de Melhor Atriz deste ano, mesmo com a performance desoladora de Marion Cottilard, Julianne Moore é a que mais se destaca quando o assunto é boa atuação e possibilidade máxima de vitória. Felizmente, pois Moore passou por maus bocados em sua carreira. Já é raro vê-la num filme, e vê-la numa obra prima é algo... expressivo. Estrela de Longe do Paraíso, As Horas e o mais recente Minhas Mães e Meu Pai, nada é impossível para ela. Nem mesmo interpretar uma vítima do Mal de Alzheimer num estado devastador da doença, o que para qualquer um é muito difícil. Até Brando, acredito. Só que aqui, Moore age com uma fragilidade intensa e cativante, como uma reflexão direta. 

Não é exagerada, nem tão restrita. É leve, normal, sutil. Não há duvidas de que a performance de Julianne Moore neste filme é uma das melhores deste ano, e o melhor desempenho de toda a sua carreira (até agora, é claro). Ainda não assisti á Mapas para as Estrelas, outro filme de Moore que também foi bem criticado e deu um prêmio para a atriz em Cannes este ano, mas depois deste filme, estou ansioso para ver o resultado da parceria de Julianne com Cronenberg.

Com cinquenta anos e um rosto de trinta, para alguém que nunca sequer fez uma plástica é algo realmente admirador. Moore soube conservar-se. Talento e fisicamente. Provou que divida é divida. Esnobada por bem mais de diversas vezes no Oscar, este ano ela chegou para desmoralizar aqueles que a ignoraram dando uma performance intensamente plausível, e quem não se rendeu á ela? Apesar de Cottilard ser uma das minhas prediletas ao prêmio, Moore ganhou minha aposta ao Oscar, que acontecerá próximo domingo (e a ansiedade aumenta). 

Rosamund Pike já foi esnobada só por que seu filme apareceu apenas na categoria de atuação feminina em papel principal. Cottilard, infelizmente também. A película dos irmãos Dardenne foi ignorada em Melhor Filme Estrangeiro, e como "consolo" (apesar de merecida), Marion foi indicada. Ainda não tive a chance de assistir ao novo longa de Reese, mas mantenho nela uma confiança ímpar, só por vê-la em Eleição e Johnny & June. Nem Felicity Jones, outra que também garantiu minha curiosidade na atuação em A Teoria de Tudo, outra polêmica óscariana por envolver Keaton e Redmayne num embate decisivo em atuação masculina num papel principal. 

E olha que o longa nem é tão longo assim (para narrar algo tão difícil): Com quase cinco minutos de créditos, Para Sempre Alice tem um pouco mais de noventa minutos, o que torna a experiência de assisti-lo mais tentadora. E o mesmo para Moore: enfrentar esse desafio de colocar sua pele contra á de uma personagem num processo de retardamento mental grave. É tão furiosamente emocionante, que mal consigo organizar minha opinião sobre ela. 

Não há palavras suficientes para descrever o que foi feito nesta obra, na questão de abordar tão abertamente essa doença silenciosa e que misteriosamente é ausente de causa. Aos poucos, a Dra. Alice Howland perde a visão de um mundo, inteiramente por si. Cada dia é uma página em branco, que se encerra como uma página em branco. Dona de um Alzheimer raríssimo, hereditário, Alice abandona a noção e a lógica das coisas, basicamente tudo o que é necessário para manter uma vida, tanto que a mesma passa a depender das funções de seu telefone celular para estabelecer-se. Um roteiro singular, adaptado de um romance homônimo belíssimo, serve de base para o drama. 

Achei muito prestativo Para Sempre Alice ser escolhido como título alternativo para a distribuição aqui no Brasil, mas ainda continuo achando que Continua Alice seria uma forma mais original de concretizar a trama, ou até mesmo focalizar na consistência de Julianne Moore ao interpretar dignamente a vítima desse mal instigante e perplexo, o que toca tanto seu espectador. Gostei muito de ver novamente aqui Kristen Stewart atuando impecavelmente como fez em Acima das Nuvens de uma maneira bem mais realista e crucial do que a apresentada na tortuosa saga vencedora de bilheteria e fracasso Crepúsculo. Agora sim Stewart, com a maturidade, aprendeu a atuar. Gostei de ver. Alec Baldwin é um coadjuvante maravilhoso. Melhor que em Blue Jasmine, onde estava seco demais pro meu gosto. Aqui, a sensibilidade ajudou na notoriedade de sua participação como marido de Alice.

Para Sempre Alice foi indicado ao Oscar em Melhor Atriz (Julianne Moore).

Para Sempre Alice (Still Alice)
dir. Wash Westmoreland & Richard Glatzer - ★★★★

FESTIVAL DE BERLIM: "TAXI" de Jafar Panahi ganha o Urso de Ouro



Taxi, novo filme do cineasta Jafar Panahi, ganhou o Urso de Ouro neste domingo. O longa dirigido, produzido, interpretado e escrito pelo diretor iraniano ganhou atenção da crítica em sua exibição no Festival, e já era esperado como um vencedor. O prêmio foi aceito pela sobrinha de Panahi, Hanna Saeidi, que se emocionou ao aceita-lo. O diretor é dissidente do regime iraniano, ou seja, é incapacitado de sair do país e viajar para outras nações, sendo obrigado a filmar todos seus filmes no país de origem. Taxi, já considerado um dos filmes mais importantes do Festival, pode se destacar como filme estrangeiro e aparecer lá no Oscar, o que ainda é bem imprevisto (o governo iraniano e tudo mais), mas é possível. 

O Grande Prêmio do Júri, equivalente ao Urso de Ouro, foi entregue á El Club, de Pablo Larraín, outro longa que deu o que falar no festival desde sua exibição. O Urso de Prata de Melhor Roteiro foi entregue ao documentário El botón de nácar, de Patricio Guzmán.

O Urso de Prata de Melhor Ator e Atriz foram dados aos protagonistas de um único filme: 45 Years, até aqui, fora do nosso circuito de prediletos. Charlotte Rampling e Tom Courtenay receberam o prêmio de atuação feminino e masculino respectivamente. O Urso de Prata de Melhor Direção foi dividido por Radu Jude (Aferim!) e Malgorzata Szumowska (Body).

O Brasil também ganhou espaço em Berlim. O drama Que Horas Ela Volta? ganhou o prêmio principal da seção Panorama. O longa, antes de sua estréia em Berlim, havia sido exibido no Festival de Sundance, onde Regina Casé ganhou Melhor Atriz.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Crítica: "FORÇA MAIOR" (2014) - ★★★★


Força Maior é excepcional em todos os ângulos. Foi de muita apreciação assistir ao filme, uma das melhores obras do cinema sueco contemporâneo. Enquanto ele foca num espírito emocional-dramático, também busca analisar a crise de um casamento impróspero e as condições psicológicas do ser humano diante de uma considerável grave situação, é claro, exigindo o máximo de atenção possível do seu público. O que pode não funcionar com quem não o compreenda.

Tudo se inicia com uma avalanche. Nas "férias perfeitas", uma família sueca, durante um jantar num restaurante, presencia uma tortuosa mas incapaz avalanche, que por pouco, não invade o estabelecimento. Assustada, a mãe, tentando justificar os problemas conjugais culpa o marido por sua instintiva reação de fuga ao ataque, abandonando a mãe e os dois filhos. Mesmo que nada tenha acontecido, a mãe ainda persegue o capítulo colossalmente, o que cada vez mais provoca a apartação entre todos ao redor. O que realmente afeta os dois é que nessa relação ambos tem culpa por que também são responsáveis por tudo o que ocorreu. A mulher, por mais frágil que ambiente ser, ainda sim de alguma maneira procura incriminar o homem e fazê-lo ter dó de si mesmo na frente de todos os outros, e quando não é correspondida, despreza a afetividade, e se finge de vítima. Já o homem é mais seguro de si, porém não compreende as necessidades da esposa e não tem a precisão de declarar isso á ela por que já é bastante claro que a ausência de conexão entre eles culmina na desgraça, e por mais que ele demonstre um amor puro por ela, ainda sim vê a obrigação de aceitar a repulsão que ela sente por ele. O objetivo aqui não é defender ninguém, mas sim, amplificar o que o público realmente precisa reconhecer neles: a falta de carinho, privacidade e honestidade.

Este filme soa algo bem familiar, mesmo que eu infelizmente não seja capaz agora de identificar qual elemento usado na película que a deixa bem mais reconhecível para mim. Não é Bergman, diretamente, apesar do próprio filme ter uma forte influência do clássico Vergonha. Não sei por que, mas há uma cena em que um casal amigo de Ebba e Tomas discutem o conflito ocorrido e interpretam misticamente de uma forma sensacional, cuja minha memória retornou em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, numa cena muito especial para mim protagonizada por Woody e Diane. Enfim, Força Maior ganhou um pouquinho mais de autoridade com essa efusiva identificação por minha parte, e foi algo que eu compartilhei na produção estrangeira. 

A trilha sonora baseada em "Quatro Estações" de Vivaldi foi algo que profundamente introduziu ao filme um clima interior de tensão e propriedade, destacando o suspense da jornada (o que eu adorei). A fotografia é sublime, principalmente por combinar e equilibrar tão bem as cores frias, como o azul, o cinza e o evidente branco. Ás vezes me emociono ao dizer que Força Maior me alegrou, por tal impacto que nenhum filme mostrou este ano. Algo bem único dele, que consegue pôr perfeitamente em ordem a transformação dos cinco dias abordados em tão (consideráveis) curtas duas horas. Força Maior é, resumindo, brilhante, dando aos seus espectadores a experiência singular de observar metodicamente a vida de uma família através de uma viagem aos Alpes, que modificou precisamente tudo o que as expectativas dele criou, refletindo sobre a infelicidade do matrimônio e a instabilidade do ser.

Força Maior (Force Majeure/Turist)
dir. Ruben Ostlund - ★★★★

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Crítica: "O JOGO DA IMITAÇÃO" (2014) - ★★★★


Um dos filmes que mais me chamou a atenção nos últimos dias foi o comentado e aclamadíssimo O Jogo da Imitação. Uma série de elogios, avaliações de cinco estrelas e indicações ao Oscar qualificam ao drama um tom de ostentação. E para ser bem sincero, e esclarecer tudo logo no início do post, não há como reclamar de O Jogo da Imitação, mesmo que eu ainda descorde dele em algumas partes. A obra é primordial, feita em sequências belíssimas, que nos capacitam a experiência triunfal de assistir a um dos épicos mais sensacionais do ano. De um elenco fantástico á uma direção inovadora, O Jogo da Imitação usufrui dos elementos mais requisitados para se transformar num filme digno de aplausos e reconhecimento. A capacitada história real do criptoanalista inglês Alan Turing, que durante a Segunda Guerra Mundial desenvolveu uma máquina para desvendar um enigma nazista, é incrivelmente de "tirar o fôlego". 

Para facilitar a compreensão do meu apreço pelo filme, vou começar pelo elenco. Citando, é claro, Benedict Cumberbatch. What an actor, what an actor! No início, desconfiei da performance do britânico, que me deu palpites o suficiente para estranhar a acidez da atuação. Mas no final, esclarece-se o porque da aparição de Cumberbatch em cada lista de indicados na categoria de Melhor Ator Principal este ano. E nenhuma vitória (é claro, "embriagada" pelos favoritos Michael Keaton, de Birdman e Eddie Redmayne, de A Teoria de Tudo, ainda na minha lista de desejados, ambos lutando pelo Oscar este ano). 

Mas, vamos dizer o que é true: 2014 é o ano das atuações. E quantos filmes, também, não é? J.K. Simmons, Michael Keaton, Eddie Redmayne, Benedict Cumberbatch, Patricia Arquette, Julianne Moore (de Para Sempre Alice, outro desejado), Amy Adams... Todos estão simplesmente formidáveis, e com certeza memoráveis. Gostei muito de ver Keira Knightley aqui, apesar da performance da atriz não ter me convencido tanto quanto ao seus anteriores destaques impiedosos em Orgulho e Preconceito e Desejo e Reparação. Não sei não. Desta vez, Knightley me deixou um pouco confuso, pois a achei salgada demais. Enfim, acabei considerando o papel de K.K. como a noiva temporária do criptoanalista e sua braço direito, que no final, é bem rentável. Triste por alguns atores terem sido desconsiderados ao Oscar por este filme, por tanto quase merecerem, como Matthew Goode e/ou Mark Strong.  

Independente desses pequenos acasos que tanto ocasionaram minha privada rebeldia ás premiações deste ano, O Jogo da Imitação merece cada indicação que recebeu. E pensar que estava criando algumas falsas previsões do filme, e que todas elas estavam erradas. Mas acontece, aliás, nunca se sabe. O Jogo da Imitação colocou dois atores de um público menor numa película de um público (bem) maior, (não que eu esteja inferiorizando Keira e Benedict); a direção vem do norueguês Morten Tyldum, até agora desconhecido mesmo dos olhos mais atentos, em seu quarto longa, do qual por ter igualmente feito opiniões errôneas, desculpo-me; um roteirista novo numa adaptação seríssima que necessita de um olhar profano ao fazê-la (e Graham absolutamente o fez e mostrou uma lealdade enorme á película). Estes três pontos já eram bastante significativos para mim em relação ao pré-receio do fracasso, que felizmente, não foi. 

Apreciei demais o estilo técnico do épico: colocando em foco a fotografia decente e surreal do espanho Óscar Faura, que infelizmente, não foi indicado á grande premiação do Oscar este ano (algo perceptivelmente irônico). À trilha sonora blindada e verossímel comandada magnificamente pelo mestre (é óbvio) Alexandre Desplat, que nos mobilizou recentemente com O Grande Hotel Budapeste. 

E, ao último, mas não menos importante (e já citado): roteiro. Graham Moore liderou com coragem uma adaptação complicadíssima de Alan Turing: The Enigma, de Andrew Hodges. Mesmo tendo falhado em alguns aspectos básicos mas dispensáveis, o roteirista é um competente co-realizador desta obra de arte. Além de ganhar minha confiança, Moore também ganhou minha aposta ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado. E os previno de conclusão: O Jogo da Imitação raramente deixará seu espectador insatisfeito. É tão espirituoso que por muitas vezes, me afoguei no telão, pego por uma onda de um puro realismo. Ao mesmo tempo, foi interessante avaliar através desta obra que a Segunda Guerra Mundial continua sendo um assunto tratado superiormente no cinema, e isto é uma das coisas que me deixaram feliz ao assisti-la: a competência.

O Jogo da Imitação foi indicado ao Oscar em Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (Benedict Cumberbatch), Melhor Atriz Coadjuvante (Keira Knightley), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Trilha Sonora, Melhor Edição e Melhor Direção de Arte.

O Jogo da Imitação (The Imitation Game)
dir. Morten Tyldum - ★★★★

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Crítica: "A ENTREVISTA" (2014) - ★★★


Se você tem o plano de assistir á A Entrevista, é recomendável descartar todas as possíveis expectativas sobre ele. O bom aqui é o entretenimento, então, tente não exigir muito da película. Se você estiver livre destes propósitos, acredito que terá um bom tempo assistindo-o. A Entrevista gerou uma polêmica mundial no fim do ano passado depois da "censura" da Coréia do Norte e a ameaça de hackers nos Estados Unidos. 

Bem, para ser sincero, motivo A Entrevista tem, mas também não é tão polêmico assim não. Não é nada estranho o cinema americano atual produzir comédias radicadas na sátira. É bem bobo, para ser mais objetivo.

A história é a seguinte: Aaron Rapaport é o produtor de um famoso talk show com um número alto de audiência, estrelado por Dave Skylark (interpretado por James Franco). Porém, o programa é bastante limitado: a sua enorme audiência é gerada pelas celebridades que visitam o programa e nele fazem revelações surpreendentes, como o primeiro convidado, o rapper Eminem, assumindo ser gay depois de citações em uma canção. 

Aaron, apesar de amar o trabalho, vê algo além: deseja trabalhar com algo sério, e não com fofocas ou futilidades, que atrai os espectadores mais ingênuos. Quando Dave é convidado pelo próprio ditador da Coréia do Norte, Kim Jong-un (um confesso fã do trabalho de Skylard) a fazer uma entrevista no país, surge a chance de Aaron para realizar sua grande ambição. E também a da CIA, que os usa para matar o perigoso ditador.

É algo extremamente cativante. Apesar de bobo, ingênuo, flácido, dotado de uma verborragia cautelosamente divergente e ainda mais um senso de humor bem polêmico, o que talvez tenha complicado a situação da comédia diante das autoridades norte-coreanas, A Entrevista pode ser bem exagerado, mas é essencialmente cômico e ricamente divertido. É como eu falei, que é preciso excluir qualquer pré-revisão do filme antes de assiti-lo, pois ele, dependendo de como você o vê, pode prejudicar a formação de uma opinião que o qualifique. 

Nem todos vão gostar das piadas internas envolvendo principalmente sexo, homossexualidade, pop e patriotismo, para antecipar as "reações", pois esta é uma razão que pode muito bem decepcionar o público. Seth Rogen sempre interpretando o mesmo perfil, é algo que funciona e que a cada filme me deixa embriagado de humor. Pagando Bem, Que Mal Tem, É O Fim, O Besouro Verde, Superbad, 50/50, a caracterização do gordinho monumental de Rogen é praticamente memorável a cada performance. James Franco, o ator do momento, mostra pontos bons na comédia, mas ainda não me convenceu tanto no quesito. Não sei onde ele fica melhor: nas gargalhadas ou nas lágrimas, mas mesmo assim, não deixa de ser bem requisitada sua atuação. No entanto, os dois reunidos fazem um par exótico. Espero que no futuro, possa ver mais filmes estrelando os dois, por que esta é uma dupla que poderia, ou ainda pode fazer muito sucesso.

A Entrevista (The Interview)
dir. Seth Rogen, Evan Goldberg - ★★★

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Crítica: "WHIPLASH - EM BUSCA DA PERFEIÇÃO" (2014) - ★★★★★


Quem diria que um filme com tantos poucos recursos poderia se tornar uma grandiosa obra (de uma forma simbolicamente impressiva, quero dizer)? Whiplash é o filme mais tentador do ano, começando pela ambição (e talento) do diretor Damien Chazelle em filmá-lo e a caracterização dos personagens, algo que desde o início provoca o interesse do público. Em Whiplash, não há tramas tão generalizadas, o foco é o personagem principal e sua jornada na perseguição do sonho de ser baterista e como "ajuda", vem um incentivo nem lá tão espontâneo assim de um rígido e imponente professor de um conservatório, que age com frieza e insensibilidade com seus alunos. Não é surpresa um filme de Sundance receber tanta aclamação este ano a ponto de receber uma indicação ao Oscar de Melhor Filme quando trata-se de Whiplash, o segundo filme de um cineasta de vinte e nove anos pródigo e que ainda pode nos mostrar bem além disso. 

Na história, repete-se uma fórmula: o personagem principal extravasa os limites a ponto de chegar ao extremo de seu objetivo. No entanto, esta fórmula não prejudica a autenticidade que o filme reproduz. É de fato interessante saber que esta fórmula intenta a repetição mas não falha. O Abutre, lançado este ano, é outro filme que tratou desta técnica e foi muito bem criticado. Mas o ponto crucial desta fórmula não é vê-la como uma qualidade, mas sim utilizar a base na qual ela é usada como esta qualidade. 

Whiplash não imita nenhum filme, pelo menos, segundo minha percepção. É próprio por si mesmo. Moderno e inusual, para ser verdadeiro. Mas, é claro, um auxílio muito especial empurra a história retratada no filme para algo surpreendente: as performances. Destacando, é claro, J.K. Simmons. Depois de fazer pontas em diversos filmes, finalmente Simmons conseguiu encontrar um lugar para soltar todo o talento que estava preso dentro de si. E não poderia ser melhor. Simmons atua de forma tão esplêndida que o caráter de seu personagem é liderado na ficção com uma soberania feroz no intuito de causar aos seus espectadores uma experiência pulsante diante da telona. É algo que, infelizmente, não pode ser descrito em palavras. Talvez, eu possa estar sendo bastante otimista ao fazer tais declarações em relação á Whiplash, mas posso garantir aqui ou ali que ele é basicamente o que retrato neste texto. Eu apreciei Whiplash. Não houve, por minha parte, nenhum desapontamento. Isto depende muito de opinião. Mas enfim, quem esteja procurando algo razoável sobre o filme, acredito que eu possa ter facilitado essa "concretização". Whiplash pode ter até exagerado (como eu, na resolução dele), mas sua intenção é clara: causar um impacto. E nessa intenção, posso garantir que Whiplash acertou em cheio! A eficiência dos elementos, a maturidade do roteiro, a estabilidade do elenco! Whiplash é ótimo.

Whiplash foi indicado ao Oscar em Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante (J.K. Simmons), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Edição e Melhor Mixagem de Som.

Whiplash - Em Busca da Perfeição (Whiplash)
dir. Damien Chazelle - ★★★★★

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Crítica: "ACIMA DAS NUVENS" (2014) - ★★★★★


Acima das Nuvens é uma inteligente e incomum reciclagem do clichê. Neste filme, o clichê é algo que funciona belamente e torna-se indispensável, é claro, se formos ver de um lado mais autêntico. Oliver Assayas utiliza a ambiguidade e também simbolismos na arquitetura do filme como desculpa à história bem clicherizada, mas que não deixa de soar inovadora e ainda sim complexa. Não é genial? Eu, pelo menos, achei bem interessante a experiência do francês nesta película. O filme cria um mistério e engana o público, deixando as coisas mal esclarecidas, o que ainda por cima revela um instinto natural da trama: a perplexidade. Mas é óbvio, o clichê é um segundo plano, padrão reversal do roteiro, algo que para um espectador comum, é totalmente invisível. Uma fuga para a sensibilidade interativa de sua trama perturbadora, lotada de impressionismos tímidos e uma força dramática exótica.

Maria Enders é uma atriz em fim de carreira que aceita contracenar com uma atriz mais jovem numa peça a qual ela já interpretou na juventude, e agora, vive outro papel, o principal, de Helena. Claramente, Enders entra num conflito irreversível com sua personalidade, no decorrer dos acontecimentos mais profanos de sua jornada. E nisso, ela atravessa uma crise da qual ela não consegue sustentar o passado e a própria intuição de interpretar a obra da melhor maneira possível, sem falar nas lembranças e na sua percepção de Maloja Snake, o trabalho teatral que a consagrou ainda quando ela tinha 18 anos. Seu refúgio é a sua assistente pessoal, Valentine, que por mais prestativa e fiel à ela seja, não consegue acompanhá-la, e nesse desencontro é possível denotar tanto a existência de um embate de opiniões diversificadas quanto uma amizade pouco a pouco corrompida tanto por esse disparate de visões quanto o clima um tanto obscuro e imprevisível que a trama vai assumindo lá pela segunda parte do filme, que intensifica uma guerra contra a perdição que Maria vai tendenciando.

Embora seja irônico e demasiadamente inverso, o filme tem pontos estratégicos e uma análise metódica da vida dos personagens, algo que com raridade (atualmente) é visto num filme protagonizado por Juliette Binoche, uma atriz que mesmo aparecendo em poucas obras-primas no cinema contemporâneo, carrega um legado inconfundível e maravilhoso por trás de sua máscara. Juliette está ao lado de Kristen Stewart, uma novata que agora começou a aprender a atuar. Quer dizer, a jovem está simplesmente fantástica/deslumbrante/mais-talentosa-que-nunca/brilhante no papel da sobrecarregada Val, assistente sem descanso de Enders. 

Até agora, este é o melhor filme de Stewart, que pra mim, era apenas conhecida pelo errôneo sucesso da saga Crepúsculo. Vejo muito de Stewart na personagem do filme Jo-Ann Ellis (personagem de outra estrela do público adolescente, Chloë Grace Moretz, pra mim, já conhecida por A Invenção de Hugo Cabret): uma atriz arrogante, prepotente, e que geralmente atua em sucessos comerciais do cinema. Mas Stewart, diferentemente desta peculiar personagem, vem mudando muito. Espero que no futuro, ela ainda consiga usar seu talento para algo bem mais prestativo e reconhecedor do que o trabalho feito na já citada saga.

Oliver Assayas, como de costume, faz um trabalho incrível e excelente na direção e no roteiro. E é claro, mais uma vez, rigorosamente abusa da personagem principal de todas as formas possíveis apenas para conseguir a mais plena visão de sua filosofia, um processo que bem feito foi em Carlos, a sucessiva minissérie do cineasta que lhe rendeu o Globo de Ouro em 2011. Como é comunal, a presença de diálogos profundos e duradouros é constante em Acima das Nuvens, fazendo referência a outros mais trabalhos do diretor que abusam de cenas carregadas por palavras e conflitos verbais. 

E perceptivelmente, há um poderoso jogo de cena entre Kristen e Juliette, dando ênfase às cenas de ensaio de Maloja Snake, algo que perdura o filme inteiro. Nessas cenas, houve uma química fabulosa entre as duas atrizes, e as personagens também. Onde se concentrou o clichê, também se concentrou a minha atenção. No filme, Maloja Snake é a peça da autoria de um dramaturgo e cineasta chamado William Melchior. Na cena inicial, indo para Sils Maria, nos Alpes Suíços, Maria descobre o suicídio de Melchior por Val. A partir desse infeliz evento, o que seria uma plausível estadia nos Alpes em função de uma homenagem a ele se torna um virtuoso capítulo de intrigas e dúvidas morais. Como consequência à morte do autor, Maria tem de encarar as mil e uma faces que seu maior trabalho nos palcos carrega, sendo muitos ares de inquietude, memórias sórdidas e desvanecidas, principalmente proporcionadas pelo austero reencontro com o ator com quem contracenou na primeira versão, o odiado por ela, mas idolatrado pela assistente, Henryk Wald (Hanns Zischler), e também desconforto. Quando ela é proposta a atuar na pele da personagem com quem contracenou na primeira versão agora em um remake por um conceituado diretor, ela não consegue negar - por educação e respeito ao trabalho do e recém falecido Melchior - mas também não consegue demonstrar alegria, uma vez da tortura que foi ter de vivenciar os nojos da atriz que a interpretou da primeira vez, e que perturbam sem parar Enders.

Não é à toa que muitas vezes a relação Maria-Val é referenciada na relação entre as personagens protagonistas do texto de Melchior, Sigrid-Helena, mas aqui espelhadas de uma maneira onde a jovem assistente sucumba calada aos mandos da decadente mestra. É claro, há exceções, mas o diretor trabalha tão bem em cima dessa relação que essa sensação perpetua muitas vezes num tom despretensioso e que não facilmente se deixa transparecer pela realidade da situação, como nas cenas onde as duas treinam as falas de Maloja Snake, onde não dá pra saber se são Maria e Val conversando ou se é o treinamento do diálogo entre Sigrid e Helena. O desencontro opinativo delas talvez não explicite com tanta expansão essa intercomunicação entre as personagens. A entrada de uma terceira personagem nessa relação, a atriz Jo-Ann, faz com que o ciclo retorne à seu padrão de origem, formando um triângulo que reflete sobra a cultura etária e a relação entre personalidades em ascensão e queda, sucesso (fama e vida amorosa) e desgraça (esquecimento, alucinações e divórcio). Ou então quando uma tenta imitar a outra, estabelecendo diferentes conexões e sinalizações para uma só relação funcionar como um todo, como se tudo fosse a mesma coisa quando na verdade não é.

A graça de Acima das Nuvens está na atualidade da sua abordagem sem deixar de soar antiquado em certas partes. É nos carregados diálogos que se centra essa idealização de que futuro não se faz sem passado, e de que o novo e o velho estão conectados. Entre essas duas faixas, há uma longa transição entre possibilidades e mudanças. Mas, afinal, o que une esses dois pólos? O excesso de vaidade? A forma de como costumam lidar com a atenção, tratamento que varia de acordo com o contexto? Ou então de como a catástrofe psicológica pode emergir da mesma forma para ambas? Acima das Nuvens pretende comunicar a exauridão e complexidade do ser sob distintos estados de espírito. E como essa estrutura não depende da sua variedade para resignar excentricidades absurdas. A branda e ao mesmo tempo chocante densidade do tempo. 

O trio Binoche, Stewart e Assayas carrega o filme nas costas. Pode ser exagero, mas uma indicação na maior premiação cinematográfica poderia ser algo de grande autoridade a Binoche em compensação ao trabalho feito aqui. Binoche e Cotillard. Duas damas francesas que muito bem poderiam dividir uma indicação neste ano. Uma grande pena a categoria de Melhor Atriz Principal ter apenas cinco finalistas. Mas enfim, o desempenho de Juliette neste drama é algo realmente essencial, e que me impactou demasiadamente. Não só ela merecia uma indicação como também a Kristen, fabulosa pra alguém que porta uma cara de cochilo aonde vai (e aqui não foi diferente - acho que é até primordial destacar que a natural face de preguiça da Kristen ajudou na construção de sua personagem sempre cansada e com aquela dura impressão de insatisfeita, ou até mesmo interrompida). À Binoche, à Assayas, à Stewart, ao filme: uma realização superior do cinema, e brilhante. Um grande “parabéns” e uma salva de palmas ao grande elenco e à dedicada equipe que produziu esta obra de arte. 

Acima das Nuvens (Clouds of Sils Maria)
dir. Oliver Assayas - ★★★★★