sábado, 29 de agosto de 2026

Bad Day at Black Rock

        De uma fotografia Cinemascope impressionante, Bad Day at Black Rock traz no elenco Spencer Tracy, Ernest Borgnine, Anne Francis e Lee Marvin. Nele, Tracy intepreta um veterano da 2ª Guerra Mundial (Tracy) que chega a uma cidade pequena do interior, cidade esta que esconde um segredo abrasador a respeito do desaparecimento de um morador. Ao longo do filme, o soldado veterano, que sofreu sequelas no conflito, é recebido como forasteiro pelos habitantes da cidade, e inicia uma inquisição para desvendar o sumiço, enquanto é assediado e encurralado pelos outros moradores, consumidos por um ódio febril. A obra é um retrato tenso da fragmentação doméstica nos EUA no período pós-Pearl Harbor, com seu foco central sendo o clima hostil e eufórico dos EUA na esteira da guerra. 

Dolly Parton

        Um tributo à grande Dolly Parton, uma artista completa, fenomenal, e que realizou sucessos marcantes da música, tanto como intérprete e como compositora também. Em 2016, fiquei maravilhado com a letra de "Travelin' Thru", a canção que ela compôs para o filme Transamérica, e que a rendeu uma indicação ao Oscar de canção. Em 2018, fiquei comovido com o trabalho de Parton na música country, através das faixas feitas entre os anos 1970 e 1980, como a incisiva "9 to 5" e as românticas "Jolene" e "Islands in the Stream". Vale também mencionar a clássica "I Will Always Love You", cuja letra ela escreveu, e que nos anos 1990 viria a ganhar uma versão aclamada na voz de Whitney Houston (e muito provavelmente é a canção que definiu a carreira desta artista). Entre 2020-2021, durante a pandemia, ouvi a belíssima "Coat of Many Colors", que remete às origens humildes da artista no Sul dos EUA, e uma de suas composições mais sensíveis e profundas. Também vale mencionar "Here You Come Again", e dois duetos de que eu gosto pra caramba: "Creepin' In", com Norah Jones, e a charmosa "Baby, It's Cold Outside", com Rod Stewart. Enfim, apenas uma amostra da genialidade desta artista única e cujas músicas fazem parte da trilha sonora de muita gente. 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Uma Noite na Ópera


Dá para entender porque o Woody Allen homenageou tanto os irmãos Marx nos filmes dele, com sequências memoráveis de filmes como BananasHannah e Suas Irmãs e Todos Dizem Eu Te Amo sendo inspiradas nos filmes do grupo. Os filmes desses caras são extremamente inteligentes, sagazes, em termos de humor e cinema, e Uma Noite na Ópera representa bem a verve humorística e a criatividade da trupe. A dose de humor subversivo, escrachado, sem nenhuma vergonha, é fatal. A risada é certa. Cada ideia apresentada parece se superar. Cada gag é uma obra individual. Uma Noite na Ópera encontra um equilíbrio muito genuíno, puro, entre o humor e a emoção. Muito provavelmente entra na minha lista de comédias favoritas, já que se trata de um exemplar definitivo do gênero. 

segunda-feira, 30 de outubro de 2023

TITANE


Talvez o que eu achei mais genial em Titane seja o mais óbvio. O potencial incisivo desse filme reside no fato de que ele é, antes de mais nada, muito simples na sua premissa. Eu não vejo com maus olhos a tentativa da diretora de mexer com as expectativas do público com uma narrativa que está em constante mutação, e que demanda do espectador um pouco de prudência em rever seus próprios conceitos.

O que chama atenção é que há, certamente, um tom dominante ao longo do filme de recusa em se desculpar, o que parece refletir até mesmo a própria rebeldia da personagem principal, que comete vários atos e segue para o próximo de forma quase inabalável. É como se essa "rebeldia contínua" contaminasse até mesmo a própria condução do filme, é o seu fio condutor.

Para todas as discussões que Titane levantou, eu acho que ele surge num momento em que há uma grande ressignificação acontecendo do cinema como retrato. É interessante porque, na mesma medida em que a diretora tenta dar conta de um mar de convergências, e ela o faz com certo sucesso, fica muita coisa em aberto. O que é bom, porque o filme fica na nossa cabeça depois da sessão, e talvez por isso é que seja necessário voltar a Raw, tão perigosamente carnal e incontido quanto Titane, e que guarda tantas semelhanças com ele. Eu diria que Julia Ducournau é sim um nome pra ficar de olho.

sexta-feira, 7 de julho de 2023

UM CASAMENTO À INDIANA (2001)


Sucesso indiano de 2001, vencedor do Leão de Ouro, narra os acontecimentos dentro de uma "família moderna" de Nova Deli na ocasião de um casamento. Tem tudo o que se permite a uma típica comédia romântica, e é interessante no geral por conta do elenco, que está ótimo, ao mesmo tempo em que faz uma série de comentários sobre as diferenças culturais entre americanos e indianos e parece estar bastante consciente desse dimorfismo cultural existente em praticamente todo lugar do mundo com a influência da globalização, mas, também possui seu interesse próprio de contar a história e acentuar a essência própria da Índia, da cultura indiana. Pra mim o filme deixou a desejar em alguns aspectos, muito embora a narrativa seja bastante enxuta, mas é inegável que ele funciona bem de certa maneira, e é um destaque na filmografia de sua diretora, Mira Nair. 

O CONGRESSO FUTURISTA (2013)


Do israelense Ari Folman, um filme um tanto antecipatório, que estava bastante adiantado ao refletir preocupações dentro da indústria do cinema americano, em especial a respeito da representação da mulher, e que se ampliaram com o #MeToo, e também sobre outros adendos como os serviços de streaming, o CGI. No geral, aqui se fala sobre um mundo em transformação, em mudança, e o que isso significa para quem já estava aqui antes. O filme tece uma série de comentários a partir da narrativa emblemática do envelhecimento de uma atriz e, como pano de fundo, a mutação pela qual passa a indústria do cinema, e o planeta em uma escala maior, com as mudanças climáticas, em paralelo. Seu tom distópico, carregado de pessimismo e um certo desconforto que fica evidente pela personagem da Robin Wright, criam uma atmosfera de melancolia e frieza, e reforça os comentários que o diretor parece querer fazer de que a indústria do cinema e o mundo caminham rumo ao cataclismo.

HANYO, A EMPREGADA (1960)


Clássico do cinema sul-coreano, de Kim Ki-young, narra a chegada de uma empregada um tanto idiossincrática na casa da família de um professor de música, onde moram ele, sua mulher, que está grávida, e dois filhos. A presença da mulher na casa dá lugar a uma série de acontecimentos imprevisíveis e drásticos. Sozinho o filme já é um marco, mas é interessante salientar que ele serviu de inspiração para o recente estrondo Parasita, e é no mínimo curioso como os dois guardam uma série de paralelos bons de serem estudados, visto que tratam, centralmente, das diferenças de classe social e posição afetando as estruturas das relações hierárquicas de poder e dominação presentes na sociedade. Tanto pelo comentário ácido quanto pelo fenomenal trabalho na construção de uma atmosfera um tanto difícil de ser concebida, Hanyo é um filme necessário pra caramba, bombástico, e o mesmo pode ser dito do seu parente nem tão distante Parasita, que bebeu bastante de sua fonte e, enfim, faturou o Oscar de filme em 2020, sessenta anos após a sua realização. E parece que agora o filme pode receber o reconhecimento internacional merecido.