terça-feira, 13 de outubro de 2026

Parceiros de Jogo (2015)


De início estava achando o filme um tanto maçante, no entanto ele começou a crescer depois de introduzida a dupla Ben Mendelsohn e Ryan Reynolds. Na trama, Ben vive Gerry, corretor de imóveis que tem um problema sério de vício em apostas (ludopatia), está mais endividado que tudo, encontra-se separado da mulher e não vê muito a filha que tem com ela. Ele vive de mesa de pôquer em mesa de pôquer, arriscando tudo em nome de uma recompensa casual. Ele se junta a Curtis (Reynolds) para tentar a sorte em diversos cassinos, quase como um killing spree, só que de apostas. 
 
O filme de início tem um tom bem seco, é como se ele retratasse as rodadas de jogos até com uma certa sobriedade, ou distanciamento, porém aos poucos essa sobriedade vai dando lugar a um desconforto mais acentuado, ao vermos o que acontece com os personagens mais de perto. E ele é bem convincente no retrato de Gerry e seu vício, em como que é característico da ludopatia a pessoa perder o controle das coisas. 
 
No primeiro ato, o filme dá uma ênfase maior ao lado mais buddy, "coisa de camaradas", dessas saídas. Tipo, "vamos para Las Vegas, vamos jogar, aproveitar, etc". Já no segundo ato, há uma transição, e vemos o foco redirecionado aos problemas familiares que ele adquiriu por causa do vício, as dívidas contraídas, etc, como se esse segmento simbolizasse a "ressaca" dessa compulsão maníaca por apostas e jogos.
 
A gente vai entendendo que o filme é um estudo de personagem sobre Gerry, sua compulsão por apostas e um certo desespero psicológico que há por trás dessa atitude. É uma análise comportamental: no começo, ele ignora os transtornos que isso traz para ele, desde que ele esteja se entretendo os riscos passam a ser "toleráveis", fazem parte da diversão. No segundo ato, vemos que isso tem um efeito contrário, e a realidade de descompromisso e impulsividade entra em cena. 
 
A direção do longa é da dupla Anna Boden e Ryan Fleck, que também entregaram o belo Half Nelson, com Ryan Gosling, que trata de um professor que trabalha em um bairro pobre do subúrbio de Nova York e tenta transformar a realidade de problemas sociais dos alunos através do ensino. Em Parceiros de Jogo, a atuação de Ben Mendelsohn como Gerry merece destaque. 

Mortalmente Perigosa (1950)


Hoje considerado um clássico do gênero noir, Mortalmente Perigosa, de Joseph H. Lewis, à época foi recebido como um filme escandaloso. É um exemplo notável da aurora do cinema independente americano, que até então, em 1950, ainda era dominado ostensivamente pelo sistema de grandes produções saídas da máquina hollywoodiana, e havia bem menos espaço para produções de baixo orçamento em comparação com a atualidade.

Com roteiro de Dalton Trumbo, que, na época, estava banido de trabalhar em Hollywood após ser incluído na infame blacklist dos acusados de serem afiliados comunistas, Mortalmente Perigosa aborda o envolvimento de Bart (John Dall) com uma mulher de meios suspeitos, típica femme fatale, Laurie (Peggy Cummins), quem ele conhece em um festival de atrações. Após entrarem em atrito com o chefe do festival, eles partem e dão início a uma verdadeira jornada criminosa, começando a assaltar bancos e trocar tiros com a polícia. Inicialmente temeroso de manipular armas, por conta de um trauma de infância, Bart se vê seduzido pela agressividade de Laurie que, nas palavras dela, "só aprendeu a matar".

A história assume contornos de Bonnie e Clyde, com o casal delinquente levando uma vida louca, só querendo saber de cometer roubos e infringir a lei. Mortalmente Perigosa foi controverso por colocar como protagonistas dois jovens transgressores, numa época em que o cinema era mais conservador ao retratar marginais fora-da-lei, levando em conta como os costumes morais eram estritamente rígidos nos anos 50. Aqui, temos um filme de ação que nos coloca no calcanhar desses dois personagens, nos forçando a acompanhar do ponto de vista deles essa odisseia delinquente, bem como seu envolvimento romântico. 

A obra tem uma visão trágica do casal, mostrando que a vida desses personagens é permeada por um senso de urgência constante e calamidades. Eles sempre estão em fuga, sempre "no corre", e se por um lado a adrenalina é disparada a todo instante, pelo outro nunca encontram um momento de sossego.

É interessante traçarmos paralelos com outros filmes, como Scarface, de Howard Hawks, que também revolucionou ao colocar o bandido no centro da história, Bonnie & Clyde, de Arthur Penn, que mais tarde seria considerado o estopim do movimento da Nova Hollywood, que lançou as carreiras de gente como Scorsese, Coppola, Spielberg e Bogdanovich; e por fim Inimigos Públicos, de Michael Mann, que traz no centro da narrativa a figura emblemática de John Dillinger, gangster que tocou o terror na era da Grande Depressão com seus assaltos a banco e confrontos agressivos com a polícia. 

Em Busca do Ouro (1925)


Meu interesse pela obra do Chaplin foi renovado depois que fiz revisões a O Grande Ditador e Tempos Modernos, em novembro de 2025. Aliás, o caso de Tempos Modernos foi bastante especial, porque a revisão teve um efeito quase pessoal mesmo. A impressão é de que o filme estava falando diretamente comigo, quando parecia que eu estava como o trabalhador da fábrica, à beira de um colapso nervoso. E o filme também me fez pensar sobre a distopia insana que estamos vivendo, com o advento da IA e o risco que isso representa para os trabalhadores, de perder seu meio de sustento para a automação. Chaplin já estava atento a tudo isso lá em 1936. Dito isso, outro trabalho dele que eu mais sentia a necessidade de rever era Em Busca do Ouro.
 
Trata-se de outro grande exemplar de sua filmografia, abordando a ida de Carlitos ao Alasca, na ocasião da corrida do ouro. Chegando lá, ele nada encontra e passa fome, como muitos prospectores que, sem sorte, viajaram rumo ao norte no intuito de prosperar e acabaram de mãos vazias. 

Uma sequência em particular que me impressionou muito, e que eu não lembrava da força dramática que ela tinha, era a cena da comemoração do Ano Novo. Enquanto Carlitos está na cozinha da cabana, sentado à mesa sozinho, sonhando em ter um pão para comer, outros estão reunidos bebendo e festejando com toda a pompa em um salão. É incrível como o Chaplin conseguiu capturar esse contraste, e de um modo tão sutil e poético. Também são notáveis as cenas em que ele se alimenta de um sapato, ou da casa quase despencando do penhasco. 

É interessante observar que quando se está retratando situações de aperto, "sufocos", as cenas são mais cômicas, escrachadas, porém o filme inesperadamente ganha um tom dramático quando se aborda a fome ou a disparidade social. É um acerto e tanto, em como ele consegue equilibrar com leveza e bom humor condições precárias (como o Carlitos colocando sal em uma vela, ou brigando com Big Jim por comida), e ao mesmo tempo tem sensibilidade para tratar das injustiças sociais.

É como se fosse uma mensagem de otimismo, para as pessoas escolherem enxergar com descontração as dificuldades dessa jornada, os apertos, de forma a amenizar a insanidade disso tudo. Afinal de contas, para Chaplin, o valor real parece estar mais na dinâmica das relações humanas, que, ainda que imperfeitas, resistem os problemas e percalços, do que no ouro material, que embrutece as pessoas e as transforma em seres irracionais, destituídos de humanismo. Que bom é termos Chaplin para nos lembrar de que ainda pode existir fé no calor humano e no riso. 

A Batalha por Cidadão Kane (1996)


Para quem é fã do filme clássico, é indispensável conferir este documentário A Batalha por Cidadão Kane, que contém imagens de acervo e depoimentos de diversas personalidades, como o diretor Peter Bogdanovich, retratando os bastidores da produção de Cidadão Kane. O documentário faz uma exposição das carreiras de Welles, um artista arrebatador que havia conseguido sucesso em todos os meios pelo qual passou (teatro, rádio e cinema), e Hearst, magnata herdeiro e chefão da indústria midiática, implacável, e que não media esforços para impor seu poder. Primeiro de tudo, é interessante observar os paralelos entre a biografia de William Randolph Hearst, e a trama do filme. Orson Welles se inspirou em Hearst para compor o hoje clássico personagem de Charles Foster Kane.
 
A famosa mansão Xanadu, imortalizada na obra, era uma representação do que na vida real era o castelo de Hearst em San Simeon. Como Kane no filme, ele também tentou se eleger, sem sucesso, a cargos políticos, derrotas que são retratadas como grande fonte de ressentimento para o magnata. Das coisas que Hearst poderia ter, de todas as propriedades e bens materiais deixados como herança pela família, o que ele escolheu foi gerir o jornal, algo que veio da sua paixão pelo teatro. E assim ele se transformaria em um magnata da mídia, graças à enorme influência que ele exerceu no meio, conseguindo convocar jornalistas de outros jornais para o seu e aumentando expressivamente as vendas e circulação. 
 
Como o sucesso de Hearst se deu antes da chegada de veículos de comunicação audiovisuais de massa - na virada do século 19 o cinema e o rádio ainda estavam apenas em gestação, ou não tinham ainda o formato sofisticado que teriam vinte anos depois - Hearst foi essencialmente um magnata da mídia impressa, do meio jornalístico que era, no início do século 20, o veículo de comunicação dominante. É meio estranho falarmos isso hoje, 120 anos depois, já que os jornais físicos viraram praticamente uma raridade. 
 
O documentário mostra como que Hearst comandava com mãos de aço seu veículo de imprensa, e seu peso era tamanho que ele tentava interferir até mesmo em acontecimentos políticos nacionais apenas para beneficiar a comercialização do jornal. Também mostram que é graças a Hearst que surgiram as primeiras colunas de fofoca da imprensa escrita. Ao mesmo tempo, o filme também aborda a vida de Orson Welles, o sucesso dele com Cidadão Kane, e a história impressionante por trás da realização desafiadora do filme, boicotado por retratar a vida de Hearst. 
 
A ambição de Welles nas produções teatrais de NY era tanta que ele quase chegou a matar um dos atores durante uma apresentação, tamanha a sua intensidade e ardor em cena. O homem foi alçado a Hollywood depois da transmissão histórica de Guerra dos Mundos, de H.G. Wells. Tratou-se de um sucesso tão avassalador de público no rádio que logo após, com o efeito que o programa teve nas pessoas, que realmente acreditaram se tratar de uma invasão alienígena (como foi retratado em Dias de Rádio), imediatamente o deram carte blanche para trabalhar no cinema. 

Ironicamente, apesar de hoje ser visto como um clássico indiscutível, tendo ocupado as primeiras posições de listas que vão da Sight & Sound à Cahiers du Cinema, Hearst odiou tanto Cidadão Kane que se empenhou ferrenhamente em destruir a divulgação da obra e arquivá-la em definitivo. A inflamação foi tamanha que uma de suas colunistas de fofoca foi encarregada por Hearst de encabeçar a campanha de difamação contra o longa, sinalizando que ele tinha uma vasta rede de conexões disposta a levar a cabo o que quer que ele propusesse.
 
Outra polêmica que colocou lenha na fogueira da perseguição à obra foi a respeito de Marion Davies, atriz e esposa de Hearst, na personagem de Susan Alexander Kane. Na obra, Davies é pintada como uma cantora alcoólatra, algo que encolerizou ainda mais o magnata, que se sentiu pessoalmente ofendido pela comparação.
 
Ele tentou "matar" o filme, obrigando o estúdio RKO a impedir o lançamento sob a ameaça de que ele iria esculhambar com várias carreiras e expor os "podres" da indústria. Por exemplo, uma das ameaças de Hearst, simpatizante de Hitler e opositor de FDR, era de expor a condição de imigrantes refugiados do regime nazista de personalidades judias em Hollywood.
 
Como consequência, a carreira de Welles foi definitivamente prejudicada pelo caso, mostrando que, ao invés de abocanhar todas as indicações principais do Oscar, como merecia, ele ganhou apenas a de roteiro, e não emplacou outro projeto tão bem-sucedido como o de Cidadão Kane, exceto com produções independentes e de orçamento menor. Sobre a realização de Soberba, outro trabalho para o qual ele assinou contrato com a RKO, Welles perdeu o direito ao "final cut" do filme, que é de uma qualidade magistral, tão importante quanto Kane. O gesto é visto até hoje como um dos maiores crimes da história do cinema, visto que o longa foi editado e alterado contra a vontade dele. 
 
Apesar de inicialmente Hearst ter "ganho" a guerra contra Welles, manchando sua carreira após a realização do filme (ele foi vaiado na entrega do Oscar) e conseguindo fazer o estúdio tirar o filme de circulação, a partir dos anos 1950, Cidadão Kane passou a ser reavaliado pelo público, com revistas o colocando no topo das listas e uma validação maior das inovações técnicas e tomadas revolucionárias feitas na produção, com ângulos ainda não explorados pela fotografia da época. Mesmo com todas as tentativas de sabotagem, fato é que Cidadão Kane se tornou a obra-prima do Orson Welles, e o consagrou como um mestre do meio cinematográfico.
 
O documentário também oferece um olhar raro para as opiniões pessoais do próprio Welles sobre o assunto. Nos depoimentos, ele parece guardar uma certa amargura de sua passagem pela indústria de Hollywood, dizendo que suas empreitadas ali se resumiram a "2% de cinema e 98% de politicagem". Ele alega que o cinema é um meio muito caro de se fazer, que "aquilo não é modo de se viver uma vida". Ou seja, ele passou mais tempo duelando e barganhando com o mundo burocrático do cinema, do que se dedicando à criatividade artística em si (o caso de Soberba evidencia melhor isso, em que os executivos terminaram de editar o filme no lugar de Welles). 

Aliás, não é difícil se lembrar de outros muitos casos comparáveis envolvendo cineastas que sofreram interferência na realização de seus trabalhos, como David Lynch, com Twin Peaks e Mulholland Drive (cuja filmagem teve que recomeçar do zero depois que a ABC barrou a produção da minissérie e destruiu os sets), e Jacques Tati, que empobreceu depois de ter atuado como produtor e não ter recuperado o dinheiro investido em Playtime. Também não é difícil perceber as semelhanças de Hearst com Trump, dois magnatas politicamente influentes, mas também envolvidos em uma série de controvérsias e obstinados em perseguir e esmagar seus opositores, seja através da difamação, censura ou intimidação direta.
 
Por esses e outros motivos, A Batalha por Cidadão Kane é uma sessão instigante, pela riqueza de detalhes, pela raridade dos depoimentos, e pela reflexão muito bem-vinda sobre a liberdade de expressão na mídia, e como que muitas vezes o público não percebe o trabalho de parto que é a criatividade artística na indústria do cinema, em que às vezes um filme muito aclamado chegou perto de ter sido completamente impedido de ver a luz do dia. E esse tema da censura infelizmente continua muito pertinente e atual, especialmente nesses tempos tão estranhos, de programas de TV sendo interrompidos (como o de Stephen Colbert) por fazer críticas ao governo, e políticos defensores de ditadores militares sendo ovacionados pelo povo.

Com 007 Só Se Vive Duas Vezes (1967)

 
Da longa franquia de filmes do James Bond, talvez esse seja o que menos me entusiasmou. E olha que em geral eu tenho apreço até mesmo por filmes tidos como menos inspirados da saga, como Quantum of Solace, da fase de Daniel Craig. A parte da franquia protagonizada pelo escocês Sean Connery é, no geral, impagável. Lembro de ter ficado bastante satisfeito com Dr. No e 007 Contra Moscou, ambos vistos em 2016, e recentemente, em março, fiquei contente de ter visto 007 Contra a Chantagem Atômica, um espetáculo. Neste aqui, parece que boa parte das sequências de ação ficam reservadas para mostrar o agente interagindo com invenções, e acho que o filme perde um pouco do fôlego por conta desse foco excessivo nas máquinas. Na trama, 007 viaja até o Japão para acessar segredos de espionagem em uma multinacional, que estão ligados à rede terrorista Spectre. É destaque, no entanto, a canção-tema do longa, interpretada suntuosamente por Nancy Sinatra.

Angel-A (2005)


Dirigido por Luc Besson, Angel-A traz Jamel Debbouze (dos ótimos Dias de Glória e Fora-da-Lei) como André, um homem entupido de dívidas, que começa a ser perseguido por agiotas determinados a fazê-lo pagar de um jeito ou de outro. Ele fica tão desesperado que até cogita se matar, quando encontra na ponte, ao seu lado, Angel-A, com o mesmo objetivo que o seu, o que o faz repensar a atitude e recuar. 
 
Daí em diante, o filme acompanha essas duas figuras, de André e Angel-A (a modelo Rie Rasmussen), enquanto transitam por Paris em busca de oportunidades e de respostas para suas angústias pessoais e financeiras. André começa a agir quase como um cafetão da mulher, embora em todas as ocasiões ela sempre consiga se safar sem precisar se prostituir, algo do que ele duvida, como quando ela visita, junto com ele, o escritório do agiota. Mais tarde, vemos que ela o revela em um café que na verdade é um anjo enviado em uma missão na Terra para ajudá-lo. Alguns desses diálogos são de fato bastante sensíveis, mostrando a empatia que o filme tem para com essas duas figuras desiludidas e sem saber o que fazer, vagando pela cidade à procura de uma resolução. A trama procura entender essas personagens, acolhê-los na sua desesperança, de forma que passamos a torcer para que eles consigam resolver seus tormentos e sair da pior.
 
Apesar de alguns momentos mais mornos, ou piegas, Angel-A em geral é fiel à sua premissa e tem algumas sequências muito tocantes, como quando Angel-A e André estão na frente do espelho, e ela o confronta sobre sua falta de auto-estima e auto-respeito, que o conduziram até aquela situação sórdida de dívidas. Em outro momento, quando André confessa que a ama e não quer deixá-la, Angel-A rebate e diz que ele sofre de "carência afetiva", e por isso "se apega ao primeiro que passa". Em muitas cenas, o filme é capaz de provocar a identificação do espectador, que muitas vezes pode se encontrar em situações parecidas de angústia e tensão ao lidar com a falta de dinheiro, um problema que empurra as pessoas até o limite. Eu diria que o otimismo do filme está na sua fé de que as pessoas podem encontrar alívio em saber que não estão sozinhas, e que juntos podemos ser melhores, tentando atravessar essas dificuldades e percalços. 

Phil Spector (2013)

 
Lançado como telefilme, Phil Spector, de David Mamet, documenta o controverso caso judicial envolvendo o aclamado produtor de música Phil Spector. Considerado uma lenda do meio musical, Spector produziu trabalhos de ninguém mais e ninguém menos que os Beatles, Ike & Tina Turner, as Ronettes, os Ramones, e Leonard Cohen. O longa aborda os bastidores processuais do escândalo,  com cenas do advogado fixer (Jefrrey Tambor) andando freneticamente pelo escritório atrás de informações, e a burocracia legal em que essa galera com bastante dinheiro se mete quando algo sai da linha.
 
No caso, o foco do filme é o assassinato de Lana Clarkson, morta na mansão de Spector em 2003. O caso foi marcado por lacunas e contradições, em que contestou-se que Phil teria sido autor do disparo que vitimou a atriz. O ponto alto do filme são as atuações ótimas de Al Pacino (como Spector) e Helen Mirren, que interpreta Linda, advogada do produtor musical. O filme se divide entre cenas que mostram os diálogos entre Phil e Linda, no qual os dois reconstroem a noite do crime, e ele se defende das acusações de ter causado o assassinato de propósito. Alguns flashbacks exibem comportamentos extremos do produtor, como quando ele está em uma sessão de gravação, invade a cabine, começa a xingar os integrantes da banda e atira para o alto. Aliás, o apreço dele por armas (chegando inclusive a ser um colecionador delas) gera um debate interessante em uma das cenas. 
 
No mais, trata-se de um retrato curioso do que acontece por trás das cortinas em Hollywood, e em como a indústria tem todo um aparato de public relations e agentes legais mobilizados para lidar com escândalos envolvendo a vida pessoal dos artistas, algo que acontece não só em casos de violência extrema, como também em divórcios ou problemas domésticos. Isso notadamente sempre gera muita controvérsia, já que no geral todos esses casos judiciais são seguidos de um grande escrutínio por parte da grande mídia e do público, vide o recente caso envolvendo o ator Johnny Depp e sua ex-esposa, Amber Heard, amplamente dissecado pela mídia americana. 
 
Também é um ótimo exemplo, com precisão quase documental, do que acontece diante da judicialização desses casos, mostrando que, ainda que muito poderosas, as celebridades não estão acima da lei, e no final das contas, perante a justiça, são gente como a gente. Sentam-se diante de advogados do mesmo modo que pessoas comuns. Aliás, eu diria que essa é a grande questão do filme: até onde vai a influência da fama e do dinheiro no tratamento desses inquéritos diante da lei, quando o fato de ser uma celebridade rica não pode ser um "diferencial" na promulgação da sentença?