domingo, 11 de outubro de 2026

Phil Spector, Angel-A, Com 007 Só Se Vive Duas Vezes

 
Phil Spector (2013)
 
Lançado como telefilme, Phil Spector, de David Mamet, documenta o controverso caso judicial envolvendo o aclamado produtor de música Phil Spector. Considerado uma lenda do meio musical, Spector produziu trabalhos de ninguém mais e ninguém menos que os Beatles, Ike & Tina Turner, as Ronettes, os Ramones, e Leonard Cohen. O longa aborda os bastidores processuais dos escândalos envolvendo celebridades de Hollywood, com cenas do advogado fixer (Jefrrey Tambor) andando freneticamente pelo escritório atrás de informações, e a burocracia legal em que essa galera com bastante dinheiro se mete. No caso, o foco do filme é o polêmico assassinato de Lana Clarkson, morta na mansão de Spector em 2003, em um caso marcado por lacunas e contradições. O ponto alto do filme são as atuações ótimas de Al Pacino (como Spector) e Helen Mirren, que interpreta Linda, advogada de Phil. O filme se divide entre as cenas que mostram os diálogos entre Phil e Linda, no qual os dois reconstroem a noite do crime, e ele se defende das acusações de ter causado o assassinato de propósito, e flashbacks que exibem comportamentos extremos do produtor, como quando ele está em uma sessão de gravação, invade a cabine, começa a xingar os integrantes da banda e atira para cima. Aliás, a paixão dele por armas gera um debate interessante em uma das cenas. 
 
No mais, trata-se de um retrato curioso do que acontece por trás das cortinas em Hollywood, e em como a indústria tem todo um aparato de public relations para lidar com ocorrências de violência, algo que notadamente sempre gera muita controvérsia, já que no geral todos esses casos judiciais são seguidos de um grande escrutínio por parte do público e da grande mídia.
 
 
Angel-A (2005)
 
Dirigido por Luc Besson, Angel-A traz Jamel Debbouze (dos ótimos Dias de Glória e Fora-da-Lei) como André, um homem entupido de dívidas, que começa a ser perseguido por agiotas determinados a fazê-lo pagar de um jeito ou de outro. Desesperado, ele começa a considerar se matar, quando encontra uma mulher na ponte, com o mesmo objetivo que ele, o que o faz repensar a atitude e recuar. Daí em diante, o filme acompanha essas duas figuras, de André e Angel-A (a modelo Rie Rasmussen), enquanto transitam por Paris em busca de oportunidades e de respostas para suas angústias pessoais e financeiras. André começa a agir quase como um cafetão da mulher, embora em todas as ocasiões ela sempre consiga se safar sem precisar se prostituir, algo do que ele duvida. Mais tarde, vemos que ela o revela em um café que na verdade é um anjo enviado em uma missão na Terra para ajudá-lo. Apesar de alguns momentos mais mornos, Angel-A em geral tem algumas sequências profundas, como quando Angel-A e André estão na frente do espelho, e ela o confronta sobre sua falta de auto-estima e auto-respeito, que o conduziram até aquela situação sórdida de dívidas e empobrecimento. Em muitas cenas o filme é capaz de provocar a identificação do espectador, que muitas vezes pode se encontrar em situações parecidas, ao lidar com as desventuras da falta de dinheiro, e as tensões da vida moderna, que empurram as pessoas até o limite. Tornou-se um dos meus favoritos de Luc Besson.
 
 
Com 007 Só Se Vive Duas Vezes (1967) 
 
Da longa franquia de filmes do James Bond, talvez esse seja o que menos me entusiasmou. E olha que em geral eu tenho apreço até mesmo por filmes tidos como menos inspirados da saga, como Quantum of Solace, da fase de Daniel Craig. A parte da franquia protagonizada pelo escocês Sean Connery é, no geral, impagável. Lembro de ter ficado bastante satisfeito com Dr. No e 007 Contra Moscou, ambos vistos em 2016, e recentemente, em março, fiquei contente de ter visto 007 Contra a Chantagem Atômica, um espetáculo. Neste aqui, parece que boa parte das sequências de ação ficam reservadas para mostrar o agente interagindo com invenções, e acho que o filme perde um pouco do fôlego por conta desse foco excessivo nas máquinas. Na trama, 007 viaja até o Japão para acessar segredos de espionagem em uma multinacional, que estão ligados à rede terrorista Spectre. É destaque, no entanto, a canção-tema do longa, interpretada suntuosamente por Nancy Sinatra.

O Planeta dos Macacos (1968)


É difícil não lembrar de 2001: Uma Odisseia no Espaço, lançado no mesmo ano que este, e que tratava de temas bastante similares, abordando a evolução da espécie humana na Terra e o advento da exploração espacial, que nos anos 60 chegou a novos patamares com a competição entre EUA e União Soviética pela conquista espacial, e a chegada do homem à Lua em 69. O Planeta dos Macacos e 2001 tiveram um timing impressionante trazendo à tona histórias nas quais o homem expandia contra as fronteiras do espaço sideral, e ao mesmo tempo se deparava com novos dilemas com a incursão. 
 
É curioso observar como que embora ambos os filmes tivessem um forte apelo blockbuster, feitos para lotar as salas de cinema, 2001 de Kubrick se tornou o mais idolatrado dos dois, ao passo que O Planeta dos Macacos ficou mais eclipsado pelo sucesso estrondoso deste, que praticamente se tornou naquele momento a obra-prima definitiva do Kubrick, e um marco revolucionário para o gênero de ficção científica.
 
Não é inapropriado dizer, no entanto, que O Planeta dos Macacos possui muitas qualidades em comum com ele, e eu diria que merecia ser tão lembrado quanto, especialmente por ser um retrato de como uma viagem espacial e a chegada a um planeta distante causam abalos sísmicos para a humanidade. Apesar de sua narrativa ser amplamente hipotética, o filme faz comentários afiados sobre o que estava acontecendo naquele período. Por exemplo, no início, com os astronautas refletindo sobre estarem a anos-luz de distância da Terra. Eles debocham da bandeira dos EUA perto da "vastidão cósmica" do espaço, como que numa tirada sarcástica do patriotismo doentio dos norte-americanos. 
 
A chegada no planeta provoca uma reversão do status do ser humano como "criatura máxima" do lugar, posto ao qual estavam acostumados na Terra. Eles então se veem sob o domínio de criaturas mais parecidas com macacos, que agem como administradores daquele planeta, como eles eram da Terra. Ironicamente, essas criaturas se comportam de forma muito parecida com os seres humanos, sendo capazes de reflexão crítica sobre ciência, direito e até mesmo troca de afeto. A cena do julgamento, por exemplo, é muito memorável, com a discussão de valores humanos e o discernimento sobre certo e errado enquanto analisam aquela criatura de outro mundo, o homo sapiens.
 
Mesmo sendo um filme de aventura/ação, crowdpleaser, é inegável que O Planeta dos Macacos lança diversas questões filosóficas e metafísicas, sobre o evolucionismo, e em como aquela jornada espacial reflete as ambições existenciais do homem, de sua busca por respostas, provocando um debate sobre a civilização, ou a noção do ser humano como criatura civilizada, pontuando a hipótese de como esse ser humano moderno e explorador espacial se comportaria diante de uma espécie competidora extraterrestre, que tentasse dominá-lo e subjugá-lo se valendo da mesma violência que os humanos empregam uns contra os outros na Terra.
 
Nesse aspecto, o filme faz uma análise da violência do ponto de vista evolutivo do ser humano, tecendo uma reflexão sagaz sobre a dimensão contemporânea da violência, e uma crítica aos riscos do militarismo presente. O desfecho premonitório soa o alarme para o risco de aniquilação nuclear na era moderna, algo que persiste, com a escalada nas provocações militares ao redor do mundo. 
 
Por fim, talvez a grande mensagem de O Planeta dos Macacos seja sobre a resistência do espírito humano, mesmo em um ambiente inóspito e hostil, como um sinal de esperança. No longa, a simplicidade do amor terreno, que o personagem de Charlton Heston encontra naquele planeta distante na figura de sua conterrânea Nova (Linda Harrison), acaba provando ser um instrumento potente de sobrevivência, o que não deixa de ser irônico pensar que, em meio a tantos avanços tecnológicos modernos, o simples amor, por mais primitivo e analógico que seja, continua sendo a "tecnologia" mais forte nesse sentido.
 
É como se o filme fizesse um libelo do amor romântico à raça humana como uma chance de esperança para a humanidade, provando que, mesmo após tantas mudanças e transformações, o coração do ser humano ainda é movido pelo mesmo espírito de renovação presente em todas as eras, ou seja, uma força transcendental que nos acompanha desde tempos imemoriais. Com uma mensagem tão universal, eu diria que o filme cumpriu sua missão de refletir os novos dilemas daquela época de tensão espacial-nuclear, sem perder o velho bom senso crítico sobre a ingenuidade da megalomania dos homens.

sábado, 10 de outubro de 2026

Grand Canyon: Ansiedade de uma Geração (1991)


Dirigido por Lawrence Kasdan, também autor de Corpos Ardentes, O Reencontro e O Turista Acidental, Grand Canyon: Ansiedade de uma Geração precedeu outros trabalhos semelhantes, como Magnólia, Huckabees, Crash e Babel, que também buscaram lidar com a temática espinhosa da fragmentação da sociedade americana através de um mosaico de personagens interconectados, com um misto de exame existencialista do individualismo urbanizado pós-moderno, e a brutalização como consequência da escalada de problemas coletivos reforçados pelas diferenças de classe, como a crise dos opioides e as incidências dramáticas de violência urbana nos anos 1990. 
 
No período, a região de Los Angeles em específico foi palco de uma série de protestos raivosos após a crise envolvendo Rodney King, homem agredido em um episódio de violência policial que chocou o país e revitalizou o debate a respeito do racismo nos EUA na era pós-direitos civis. As consequências desta crise perduram 30 anos após, e ficaram mais nítidas após o recente caso do assassinato de George Floyd em Minneapolis, ocorrido em 2020. O filme aborda esta e uma miríade de dilemas sociais que interferem na vida destes personagens que vivem em LA. 
 
Na cena que marca o encontro inicial dos personagens de Kevin Kline e Danny Glover, o personagem de Kline fica sem gasolina em uma área mais abandonada da cidade, à noite, e se vê abordado por uma gangue de rua, que passa ao lado em outro carro. Para seu alívio, Simon (Glover) aparece para rebocar o carro, amenizando a tensão inicial do encontro. Simon tenta dialogar com um dos homens, dizendo não querer complicações, e que quer apenas apenas fazer o seu trabalho.
 
Durante a conversa, um dos rapazes da gangue, antes de sair de cena, diz que "sem arma, não tem respeito", dando a entender que para eles a violência é um mecanismo de manutenção de poder e influência, é uma via de afirmação e imposição. Na camiseta do rapaz, há uma bandeira dos EUA, no que talvez seja uma metáfora sobre a própria violência dos americanos no geral, que agem como policiais do mundo através do militarismo. 
 
A partir daí, nos próximos encontros entre os dois personagens, são abordadas questões mais filosóficas sobre as dificuldades de viver diante de tanta fragmentação, como quando Glover diz, "eu e minhas preocupações, uma piada para o Grand Canyon". Mais tarde, aprendemos que ele está longe da filha surda, que está estudando em Washington, e com quem ele se comunica apenas à distância, em uma versão mais analógica do computador. Ele diz para Kline que é importante tentar "aprender a controlar seus medos", diante das circunstâncias fronteiriças em que às vezes a sociedade parece caminhar. 
 
Em outra cena, Glover orienta o sobrinho mais novo, um jovem do subúrbio, a "parar de andar com gente esquisita". Mais tarde, a casa desse sobrinho é metralhada, enquanto a mãe e a irmã estão dentro, e por pouco escapam ilesas dos disparos. Além do comentário sobre o caos social existente ali, o filme também ilustra os dilemas da vida privada vivenciados por outros personagens secundários, contrastando as duas realidades.
 
Mack (Kline) está envolvido em um rolo com a secretária (Mary Louise-Parker), porém está dividido, já que é casado com Claire (Mary MacDonnell), com quem tem um filho adolescente, Roberto (Jeremy Sisto), que está amadurecendo e se tornando independente. Em meio a isso, Claire encontra um bebê abandonado na rua, e o leva para dentro de casa, desenvolvendo um afeto maternal por ele enquanto lida com o amadurecimento do filho mais velho. Em outra sequência, vemos Mack fantasiando com a secretária, e então a imagem se fragmenta, com um efeito de espelho quebrando em vários pedaços, cortando para Claire deitada dormindo. Há uma sequência com uma ideia similar em Não Estou Lá.
 
No desfecho do filme, vemos Mack conversando com outro amigo, um diretor de cinema (Steve Martin), que sofreu sequelas físicas após ser baleado em um assalto, e que está frustrado com o projeto que está fazendo. Ele diz acreditar que faz filmes que refletem o que acontece no mundo, que os filmes são retratos dos acontecimentos e da vida das pessoas. 
 
Mais recentemente, o longa foi alvo de críticas, acusado de entregar uma abordagem superficial dos problemas raciais dos EUA contemporâneo, provavelmente devido às divisões do roteiro, que dá uma certa ênfase para questões individuais e pessoais vividas por personagens brancos (white people problems), como a mãe que está sentimental com o filho entrando na adolescência, enquanto ao abordar a vivência de personagens negros, vemos cenas em que o menino, ao amadurecer, é orientado a "se afastar de criminosos", e vemos a casa da família ser alvejada por tiros. Há outra cena em que a mãe fecha a porta na cara de um vendedor de seguros, que a alerta para "se proteger" diante do aumento da violência no bairro.
 
O filme pontua todos esses contrastes, e esta é uma leitura possível, de que talvez ele tenha sido extremista, ou parcial demais nesse retrato, mas não deixa de ser curioso perceber que talvez a intenção de Kasdan fosse justamente chocar, provocar o público, ao delinear todos esses contrastes gritantes entre a realidade de famílias brancas de bairros mais abastados, e famílias negras de bairros do subúrbio de Los Angeles, mais sujeitos a sofrer ataques de violência das gangues, fazendo um questionamento dessa situação adversa.
 
Vale lembrar também que o filme foi feito no início dos anos 1990, numa época em que essas diferenças de classe estavam explodindo contra um cenário de caos político iminente, colocando em teste a ideia de que os EUA haviam superado os conflitos gerados pela segregação racial, que marcou o movimento dos direitos civis. Naquele momento, Los Angeles estava sendo palco de mais uma revolta, como Selma foi décadas antes, sinalizando uma repetição dos mesmos padrões de opressão contra a população negra. 
 
É interessante perceber como que, 30 anos depois, a sociedade de certa forma ainda permanece imersa em um estado de hipervigilância semelhante, senão maior, e muitos desses contrastes sociais e raciais ainda estão aqui. Casos de violência policial continuam acontecendo com uma frequência assustadora. Eu diria que Grand Canyon é uma cápsula do tempo sobre essa ebulição política. Talvez o filme tenha sido mais profético do que se pretendia, ao retratar essa epidemia de fatalismo, e a incerteza gerada pela fragmentação, seja através da violência, ou da opressão sistêmica.
 
Por outro lado, o filme parece também lançar um olhar mais intimista para o efeito que isso tem no campo pessoal, em como que esses conflitos se refletem de maneira única na individualidade de cada personagem, mostrando que é inevitável que a violência marque essas pessoas de forma completamente única, devido à oposição de contextos e situações em que elas se encontram. Para mencionar outra obra que faz um paralelo interessante com Grand Canyon, Faça a Coisa Certa, lançado dois anos antes, evocou os mesmos sentimentos ao abordar o crescente atrito entre brancos e negros em Nova York, e o acerto do filme de Lee se dava justamente na tentativa de mostrar como que a corda acabava arrebentando do lado dos negros, que se viam encurralados entre a violência policial e a desigualdade sistêmica.

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Mestre dos Mares: O Lado Mais Distante do Mundo (2003)


Do mestre australiano Peter Weir, que anos antes nos entregou o excelente O Show de Truman e que traz no currículo clássicos como Sociedade dos Poetas Mortos, A Testemunha e Piquenique na Montanha Misteriosa, Mestre dos Mares acompanha a jornada turbulenta e cheia de percalços dos tripulantes de um navio da marinha britânica durante as Guerras Napoleônicas (1803-1815). O elenco é encabeçado por Russell Crowe, que no começo dos anos 2000 era um dos nomes mais cotados de Hollywood, valendo lembrar suas atuações nos prestigiados Los Angeles - Cidade Proibida, O Informante, Gladiador e Uma Mente Brilhante, além dos ótimos Uma Luta pela Esperança e Os Indomáveis. 
 
Em um dos diálogos mais emblemáticos do filme, Aubrey (Russell Crowe) entra em atrito com Maturin (Paul Bettany), a respeito do propósito da missão militar em que estão, durante o qual Aubrey diz que "não há tempo para hobbies", desencorajando o cirurgião a se dedicar unicamente a seus estudos sobre biologia diante da urgência fatal da ameaça bélica imposta pela França de Napoleão, naquele momento a todo vapor em sua ambições imperialistas de conquista geográfica. 
 
Apesar do aparente abraço militarista feito pelo filme, o retrato da brutalidade da navegação em que os ingleses lutaram contra as tropas de Napoleão, no início do século 19, parece mais soar um alarme premonitório sobre as consequências nefastas da guerra. Mais tarde, o cirurgião Maturin é atingido por um tiro, acidentalmente, por alguém de dentro da própria tripulação, o que reforça o complexo dilema de que os efeitos catastróficos da guerra não se limitam ao antagonismo do campo de batalha.
 
Simultaneamente, o longa faz uma demonstração ímpar da coragem e entrega daqueles homens, que colocaram tudo a perder em nome da pátria, e uma espécie de companheirismo que nasceu entre eles naquele cenário desolador de destruição, incerteza e precariedade, com soldados-meninos obrigados a se comportar como homens antes do tempo, sendo duramente transformados pela violência extrema do embate. Dito isso, o trabalho é um título bastante competente, tecnicamente impecável e marcado por atuações brilhantes de Crowe e Bettany. Seguramente é uma das grandes obras do australiano Peter Weir (e que lhe rendeu o BAFTA de melhor direção em 2004). 

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

O Mercador de Veneza (2004)


Adaptação da peça clássica de William Shakespeare, O Mercador de Veneza traz Al Pacino como Shylock, usurário judeu no centro de uma intriga envolvendo a dívida não resolvida de Bassânio, jovem cristão de Veneza. Shylock faz um acordo com Antonio (Jeremy Irons) que, caso a dívida não for quitada no prazo, ele lhe cobrará a taxa de uma libra de sua carne. Antonio consente, e o desfecho do caso é crítico. Enquanto isso, a filha de Shylock foge, deixando-o ainda mais possesso e vingativo. 
 
O filme é uma adaptação competente de uma das obras mais famosas de Shakespeare, com um elenco de atores inspirados, destaque para Joseph Fiennes (no papel de Bassânio), e Lynn Collins, no papel de Pórcia. Em geral, o longa segue uma linha mais tradicional das adaptações shakespearianas, respeitando a formalidade do texto denso, que navega entre o trágico e o cômico, e é uma obra que originalmente foi concebida para o meio de expressão do teatro.
 
São várias as cenas marcantes observadas no longa, como a cena que mostra as diferentes reações dos homens decepcionados ao abrir a caixa do tesouro e não encontrar ouro. Enquanto um fica mais triste e chora, o outro explode de raiva e indignação, ao passo que o terceiro, poeticamente, se comove ao encontrar o retrato de Pórcia no baú, simbolizando que a arte é o verdadeiro tesouro. 
 
Também é interessante observar os comentários a respeito do tratamento dado aos judeus naquela época, lembrando que no período medieval o antissemitismo atingiu proporções dramáticas na Europa, e em vários momentos do longa, como nos diálogos com Shylock, há a inserção de questionamentos a respeito do sofrimento imposto ao povo judeu, quando Shylock acusa a hipocrisia dos cristãos ao se referirem a ele como "cão", mas depois pediam clemência se sofriam com dívidas e juros.
 
Aliás, uma das grandes discussões a respeito de O Mercador de Veneza é justamente se Shakespeare foi ou não antissemita em seu retrato do personagem Shylock, pintado como vingativo e avarento. No entanto, trata-se de um texto com camadas de complexidade, e que no geral desenvolve uma fábula sobre as falhas humanas tanto da parte de Shylock, que, ao se projetar como um imperador, acaba encontrando na lei um entrave às suas ambições, como também da parte dos cristãos que, ao perseguirem e difamarem os judeus, caíam em contradição quando estavam em necessidade e recorriam justamente a eles em busca de alívio. 
 
Clemência, justiça e vingança são temas bastante evocados ao longo do texto, que atinge um grau mais filosófico com a agoniante sequência do julgamento de Antonio, em que, momentos antes da sentença em que lhe retirariam um naco de sua própria carne ser proferida, ele é intercedido pelas figuras de um advogado e seu assistente (que são Pórcia e Nerissa disfarçadas de homens) para ajudá-lo a sair daquela situação drástica. É uma tirada conhecida das obras de Shakespeare, em que ele provoca o caos invertendo os gêneros das personagens. A direção é de Michael Radford, que dirigiu 1984 (adaptação de Orwell) e O Carteiro e o Poeta. 

sábado, 29 de agosto de 2026

Conspiração do Silêncio (1955)


De uma fotografia Cinemascope impressionante, por William C. Mellor (também fotógrafo de Assim Caminha a Humanidade e Um Lugar ao Sol, ambos de George Stevens), que valoriza as paisagens épicas do interior americano e ajuda a criar uma composição visual desnorteante para um longa com cenas tensas, Conspiração de Silêncio traz no elenco Spencer Tracy, Ernest Borgnine, Anne Francis e Lee Marvin. Nele, Tracy interpreta um veterano da Segunda Guerra Mundial que, retornando do combate, chega a uma cidade do interior que esconde um segredo abrasador a respeito do desaparecimento de um morador, obstinado a resolver o suspense em torno do sumiço suspeito. 
 
Ao longo do filme, o soldado, John J. Macreedy, que sofreu sequelas no conflito e perdeu o movimento de um dos braços, é recebido não como herói, como se esperaria a um veterano, e sim como forasteiro, no estilo Velho Oeste, e inicia uma verdadeira inquisição atrás do morador desaparecido, sem que saibamos exatamente o porquê dessa procura. Ao mesmo tempo, é constantemente encurralado pelos outros moradores, consumidos por uma desconfiança febril e irracional, e a violência só vai escalando progressivamente ao longo do filme. 
 
Conspiração de Silêncio é um retrato eletrizante da fragmentação e do medo nos EUA no período pós-Pearl Harbor, com seu foco sendo o clima de hostilidade em relação à população de origem japonesa, que foi sabidamente segregada pelo governo americano durante esse período conflituoso, em que os EUA entraram em atrito direto com o Japão e demais países do Eixo, com muitos cidadãos de origem nipônica sendo internados em campos de concentração no país à época.
 
Este filme, realizado anos depois, em 1955, veio num momento em que o clima político nos EUA começava a ficar impregnado pelo embate com a União Soviética, na recém-iniciada Guerra Fria, e o pânico a respeito da chamada "ameaça comunista" tomava forma com as denúncias paranoicas do senador Joseph McCarthy, que encabeçou a "caça às bruxas comunista" nos anos 50, e virou a figura central do fenômeno anti-comunista. A repercussão dessa época é sentida até os dias de hoje, em que o medo do socialismo tornou-se um tópico bastante polêmico em eleições e debates políticos, sendo um dos pivôs da chamada "polarização" atual que é sentida globalmente entre esquerda e extrema-direita.
 
O tom crítico do filme parece denunciar justamente uma certa tendência dos americanos de se apressarem em condenar quem percebiam como comunistas, do mesmo modo que se apressaram em condenar cidadãos americanos apenas por terem descendência japonesa, na época de Pearl Harbor. Vale lembrar que o filme foi realizado dois anos após a execução controversa do casal Julius e Ethel Rosenberg, sob a acusação de serem espiões para os comunistas soviéticos.
 
Dito isso, Conspiração de Silêncio é um estudo angustiante sobre os ecos da perseguição, e o efeito que a política do medo tem sobre uma população, que, na base do pânico, provoca linchamentos e perseguições gratuitas em nome do ódio e do medo do desconhecido. Ele chega a ser quase profético, ao refletir a que nível de violência e desagregação essa caça às bruxas insana, baseada em convicções políticas cegas, pode chegar. É um exemplar fascinante de um cinema americano maduro, da década de 50, e com atuações inspiradíssimas de grandes lendas, como Spencer Tracy e Ernest Borgnine, que chegam a protagonizar uma sequência de briga arrasadora. A direção é de John Sturges, que viria a dirigir o igualmente excelente Sete Homens e um Destino. 

Tributo a Dolly Parton


Presto meu tributo à grande Dolly Parton, uma artista completa, fenomenal, e que realizou sucessos marcantes da música, como intérprete e como compositora também. Em 2016, fiquei maravilhado com a letra de "Travelin' Thru", a canção que ela compôs para o filme Transamérica, e que a rendeu uma indicação ao Oscar de canção. Em 2018, fiquei comovido com o trabalho de Parton na música country, através das faixas feitas entre os anos 1970 e 1980, como a incisiva "9 to 5", uma crítica bem-humorada aos conflitos de classe do capitalismo, e as românticas "Jolene" e "Islands in the Stream". Vale também mencionar a clássica "I Will Always Love You", cuja letra ela escreveu, e que nos anos 1990 viria a ganhar uma versão aclamada na voz de Whitney Houston (e muito provavelmente é a canção que definiu a carreira desta artista). Entre 2020/2021, durante a pandemia, ouvi a belíssima "Coat of Many Colors", que remete às origens humildes da artista no Sul dos EUA, e uma de suas composições mais sensíveis e profundas. Também vale mencionar "Here You Come Again", e dois duetos de que eu gosto muito: "Creepin' In", com Norah Jones, e a charmosa "Baby, It's Cold Outside", com Rod Stewart. Enfim, apenas uma amostra da genialidade desta artista única e cujas músicas fazem parte da trilha sonora de muita gente, e uma perda bastante sentida para o mundo da música.