Adaptação da peça clássica de William Shakespeare, O Mercador de Veneza traz Al Pacino como Shylock, usurário judeu no centro de uma intriga envolvendo a dívida não resolvida de Bassânio, jovem cristão de Veneza. Shylock faz um acordo com Antonio (Jeremy Irons) que, caso a dívida não for quitada no prazo, ele lhe cobrará a taxa de uma libra de sua carne. Antonio consente, e o desfecho do caso é crítico. Enquanto isso, a filha de Shylock foge, deixando-o ainda mais possesso e vingativo.
O filme é uma adaptação competente de uma das obras mais famosas de Shakespeare, com um elenco de atores inspirados, destaque para Joseph Fiennes (no papel de Bassânio), e Lynn Collins, no papel de Pórcia. Em geral, o longa segue uma linha mais tradicional das adaptações shakespearianas, respeitando a formalidade do texto denso, que navega entre o trágico e o cômico, e é uma obra que originalmente foi concebida para o meio de expressão do teatro.
São várias as cenas marcantes observadas no longa, como a cena que mostra as diferentes reações dos homens decepcionados ao abrir a caixa do tesouro e não encontrar ouro. Enquanto um fica mais triste e chora, o outro explode de raiva e indignação, ao passo que o terceiro, poeticamente, se comove ao encontrar o retrato de Pórcia no baú, simbolizando que a arte é o verdadeiro tesouro.
Também é interessante observar os comentários a respeito do tratamento dado aos judeus naquela época, lembrando que no período medieval o antissemitismo atingiu proporções dramáticas na Europa, e em vários momentos do longa, como nos diálogos com Shylock, há a inserção de questionamentos a respeito do sofrimento imposto ao povo judeu, quando Shylock acusa a hipocrisia dos cristãos ao se referirem a ele como "cão", mas depois pediam clemência se sofriam com dívidas e juros.
Aliás, uma das grandes discussões a respeito de O Mercador de Veneza é justamente se Shakespeare foi ou não antissemita em seu retrato do personagem Shylock, pintado como vingativo e avarento. No entanto, trata-se de um texto com camadas de complexidade, e que no geral desenvolve uma fábula sobre as falhas humanas tanto da parte de Shylock, que, ao se projetar como um imperador, acaba encontrando na lei um entrave às suas ambições, como também da parte dos cristãos que, ao perseguirem e difamarem os judeus, caíam em contradição quando estavam em necessidade e recorriam justamente a eles em busca de alívio.
Clemência, justiça e vingança são temas bastante evocados ao longo do texto, que atinge um grau mais filosófico com a agoniante sequência do julgamento de Antonio, em que, momentos antes da sentença em que lhe retirariam um naco de sua própria carne ser proferida, ele é intercedido pelas figuras de um advogado e seu assistente (que são Pórcia e Nerissa disfarçadas de homens) para ajudá-lo a sair daquela situação drástica. É uma tirada conhecida das obras de Shakespeare, em que ele provoca o caos invertendo os gêneros das personagens. A direção é de Michael Radford, que dirigiu 1984 (adaptação de Orwell) e O Carteiro e o Poeta.
