Para quem é fã do filme clássico, é indispensável conferir este documentário A Batalha por Cidadão Kane, que contém imagens de acervo e depoimentos de diversas personalidades, como o diretor Peter Bogdanovich, retratando os bastidores da produção de Cidadão Kane. O documentário faz uma exposição das carreiras de Welles, um artista arrebatador que havia conseguido sucesso em todos os meios pelo qual passou (teatro, rádio e cinema), e Hearst, magnata herdeiro e chefão da indústria midiática, implacável, e que não media esforços para impor seu poder. Primeiro de tudo, é interessante observar os paralelos entre a biografia de William Randolph Hearst, e a trama do filme. Orson Welles se inspirou em Hearst para compor o hoje clássico personagem de Charles Foster Kane.
A famosa mansão Xanadu, imortalizada na obra, era uma representação do que na vida real era o castelo de Hearst em San Simeon. Como Kane no filme, ele também tentou se eleger, sem sucesso, a cargos políticos, derrotas que são retratadas como grande fonte de ressentimento para o magnata. Das coisas que Hearst poderia ter, de todas as propriedades e bens materiais deixados como herança pela família, o que ele escolheu foi gerir o jornal, algo que veio da sua paixão pelo teatro. E assim ele se transformaria em um magnata da mídia, graças à enorme influência que ele exerceu no meio, conseguindo convocar jornalistas de outros jornais para o seu e aumentando expressivamente as vendas e circulação.
Como o sucesso de Hearst se deu antes da chegada de veículos de comunicação audiovisuais de massa - na virada do século 19 o cinema e o rádio ainda estavam apenas em gestação, ou não tinham ainda o formato sofisticado que teriam vinte anos depois - Hearst foi essencialmente um magnata da mídia impressa, do meio jornalístico que era, no início do século 20, o veículo de comunicação dominante. É meio estranho falarmos isso hoje, 120 anos depois, já que os jornais físicos viraram praticamente uma raridade.
O documentário mostra como que Hearst comandava com mãos de aço seu veículo de imprensa, e seu peso era tamanho que ele tentava interferir até mesmo em acontecimentos políticos nacionais apenas para beneficiar a comercialização do jornal. Também mostram que é graças a Hearst que surgiram as primeiras colunas de fofoca da imprensa escrita. Ao mesmo tempo, o filme também aborda a vida de Orson Welles, o sucesso dele com Cidadão Kane, e a história impressionante por trás da realização desafiadora do filme, boicotado por retratar a vida de Hearst.
A ambição de Welles nas produções teatrais de NY era tanta que ele quase chegou a matar um dos atores durante uma apresentação, tamanha a sua intensidade e ardor em cena. O homem foi alçado a Hollywood depois da transmissão histórica de
Guerra dos Mundos, de H.G. Wells. Tratou-se de um sucesso tão avassalador de público no rádio que logo após, com o efeito que o programa teve nas pessoas, que realmente acreditaram se tratar de uma invasão alienígena (como foi retratado em
Dias de Rádio), imediatamente o deram
carte blanche para trabalhar no cinema.
Ironicamente, apesar de hoje ser visto como um clássico indiscutível, tendo ocupado as primeiras posições de listas que vão da Sight & Sound à Cahiers du Cinema, Hearst odiou tanto Cidadão Kane que se empenhou ferrenhamente em destruir a divulgação da obra e arquivá-la em definitivo. A inflamação foi tamanha que uma de suas colunistas de fofoca foi encarregada por Hearst de encabeçar a campanha de difamação contra o longa, sinalizando que ele tinha uma vasta rede de conexões disposta a levar a cabo o que quer que ele propusesse.
Outra polêmica que colocou lenha na fogueira da perseguição à obra foi a respeito de Marion Davies, atriz e esposa de Hearst, na personagem de Susan Alexander Kane. Na obra, Davies é pintada como uma cantora alcoólatra, algo que encolerizou ainda mais o magnata, que se sentiu pessoalmente ofendido pela comparação.
Ele tentou "matar" o filme, obrigando o estúdio RKO a impedir o lançamento sob a ameaça de que ele iria esculhambar com várias carreiras e expor os "podres" da indústria. Por exemplo, uma das ameaças de Hearst, simpatizante de Hitler e opositor de FDR, era de expor a condição de imigrantes refugiados do regime nazista de personalidades judias em Hollywood.
Como consequência, a carreira de Welles foi definitivamente prejudicada pelo caso, mostrando que, ao invés de abocanhar todas as indicações principais do Oscar, como merecia, ele ganhou apenas a de roteiro, e não emplacou outro projeto tão bem-sucedido como o de Cidadão Kane, exceto com produções independentes e de orçamento menor. Sobre a realização de Soberba, outro trabalho para o qual ele assinou contrato com a RKO, Welles perdeu o direito ao "final cut" do filme, que é de uma qualidade magistral, tão importante quanto Kane. O gesto é visto até hoje como um dos maiores crimes da história do cinema, visto que o longa foi editado e alterado contra a vontade dele.
Apesar de inicialmente Hearst ter "ganho" a guerra contra Welles, manchando sua carreira após a realização do filme (ele foi vaiado na entrega do Oscar) e conseguindo fazer o estúdio tirar o filme de circulação, a partir dos anos 1950, Cidadão Kane passou a ser reavaliado pelo público, com revistas o colocando no topo das listas e uma validação maior das inovações técnicas e tomadas revolucionárias feitas na produção, com ângulos ainda não explorados pela fotografia da época. Mesmo com todas as tentativas de sabotagem, fato é que Cidadão Kane se tornou a obra-prima do Orson Welles, e o consagrou como um mestre do meio cinematográfico.
O documentário também oferece um olhar raro para as opiniões pessoais do próprio Welles sobre o assunto. Nos depoimentos, ele parece guardar uma certa amargura de sua passagem pela indústria de Hollywood, dizendo que suas empreitadas ali se resumiram a "2% de cinema e 98% de politicagem". Ele alega que o cinema é um meio muito caro de se fazer, que "aquilo não é modo de se viver uma vida". Ou seja, ele passou mais tempo duelando e barganhando com o mundo burocrático do cinema, do que se dedicando à criatividade artística em si (o caso de Soberba evidencia melhor isso, em que os executivos terminaram de editar o filme no lugar de Welles).
Aliás, não é difícil se lembrar de outros muitos casos comparáveis envolvendo cineastas que sofreram interferência na realização de seus trabalhos, como David Lynch, com Twin Peaks e Mulholland Drive (cuja filmagem teve que recomeçar do zero depois que a ABC barrou a produção da minissérie e destruiu os sets), e Jacques Tati, que empobreceu depois de ter atuado como produtor e não ter recuperado o dinheiro investido em Playtime. Também não é difícil perceber as semelhanças de Hearst com Trump, dois magnatas politicamente influentes, mas também envolvidos em uma série de controvérsias e obstinados em perseguir e esmagar seus opositores, seja através da difamação, censura ou intimidação direta.
Por esses e outros motivos, A Batalha por Cidadão Kane é uma sessão instigante, pela riqueza de detalhes, pela raridade dos depoimentos, e pela reflexão muito bem-vinda sobre a liberdade de expressão na mídia, e como que muitas vezes o público não percebe o trabalho de parto que é a criatividade artística na indústria do cinema, em que às vezes um filme muito aclamado chegou perto de ter sido completamente impedido de ver a luz do dia. E esse tema da censura infelizmente continua muito pertinente e atual, especialmente nesses tempos tão estranhos, de programas de TV sendo interrompidos (como o de Stephen Colbert) por fazer críticas ao governo, e políticos defensores de ditadores militares sendo ovacionados pelo povo.