Dirigido por Lawrence Kasdan, também autor de Corpos Ardentes, O Reencontro e O Turista Acidental, Grand Canyon: Ansiedade de uma Geração precedeu outros trabalhos semelhantes, como Magnólia, Huckabees, Crash e Babel, que também buscaram lidar com a temática espinhosa da fragmentação da sociedade americana através de um mosaico de personagens interconectados, com um misto de exame existencialista do individualismo urbanizado pós-moderno, e a brutalização como consequência da escalada de problemas coletivos reforçados pelas diferenças de classe, como a crise dos opioides e as incidências dramáticas de violência urbana nos anos 1990.
No período, a região de Los Angeles em específico foi palco de uma série de protestos raivosos após a crise envolvendo Rodney King, homem agredido em um episódio de violência policial que chocou o país e revitalizou o debate a respeito do racismo nos EUA na era pós-direitos civis. As consequências desta crise perduram 30 anos após, e ficaram mais nítidas após o recente caso do assassinato de George Floyd em Minneapolis, ocorrido em 2020. O filme aborda esta e uma miríade de dilemas sociais que interferem na vida destes personagens que vivem em LA.
Na cena que marca o encontro inicial dos personagens de Kevin Kline e Danny Glover, o personagem de Kline fica sem gasolina em uma área mais abandonada da cidade, à noite, e se vê abordado por uma gangue de rua, que passa ao lado em outro carro. Para seu alívio, Simon (Glover) aparece para rebocar o carro, amenizando a tensão inicial do encontro. Simon tenta dialogar com um dos homens, dizendo não querer complicações, e que quer apenas apenas fazer o seu trabalho.
Durante a conversa, um dos rapazes da gangue, antes de sair de cena, diz que "sem arma, não tem respeito", dando a entender que para eles a violência é um mecanismo de manutenção de poder e influência, é uma via de afirmação e imposição. Na camiseta do rapaz, há uma bandeira dos EUA, no que talvez seja uma metáfora sobre a própria violência dos americanos no geral, que agem como policiais do mundo através do militarismo.
A partir daí, nos próximos encontros entre os dois personagens, são abordadas questões mais filosóficas sobre as dificuldades de viver diante de tanta fragmentação, como quando Glover diz, "eu e minhas preocupações, uma piada para o Grand Canyon". Mais tarde, aprendemos que ele está longe da filha surda, que está estudando em Washington, e com quem ele se comunica apenas à distância, em uma versão mais analógica do computador. Ele diz para Kline que é importante tentar "aprender a controlar seus medos", diante das circunstâncias fronteiriças em que às vezes a sociedade parece caminhar.
Em outra cena, Glover orienta o sobrinho mais novo, um jovem do subúrbio, a "parar de andar com gente esquisita". Mais tarde, a casa desse sobrinho é metralhada, enquanto a mãe e a irmã estão dentro, e por pouco escapam ilesas dos disparos. Além do comentário sobre o caos social existente ali, o filme também ilustra os dilemas da vida privada vivenciados por outros personagens secundários, contrastando as duas realidades.
Mack (Kline) está envolvido em um rolo com a secretária (Mary Louise-Parker), porém está dividido, já que é casado com Claire (Mary MacDonnell), com quem tem um filho adolescente, Roberto (Jeremy Sisto), que está amadurecendo e se tornando independente. Em meio a isso, Claire encontra um bebê abandonado na rua, e o leva para dentro de casa, desenvolvendo um afeto maternal por ele enquanto lida com o amadurecimento do filho mais velho. Em outra sequência, vemos Mack fantasiando com a secretária, e então a imagem se fragmenta, com um efeito de espelho quebrando em vários pedaços, cortando para Claire deitada dormindo. Há uma sequência com uma ideia similar em Não Estou Lá.
No desfecho do filme, vemos Mack conversando com outro amigo, um diretor de cinema (Steve Martin), que sofreu sequelas físicas após ser baleado em um assalto, e que está frustrado com o projeto que está fazendo. Ele diz acreditar que faz filmes que refletem o que acontece no mundo, que os filmes são retratos dos acontecimentos e da vida das pessoas.
Mais recentemente, o longa foi alvo de críticas, acusado de entregar uma abordagem superficial dos problemas raciais dos EUA contemporâneo, provavelmente devido às divisões do roteiro, que dá uma certa ênfase para questões individuais e pessoais vividas por personagens brancos (white people problems), como a mãe que está sentimental com o filho entrando na adolescência, enquanto ao abordar a vivência de personagens negros, vemos cenas em que o menino, ao amadurecer, é orientado a "se afastar de criminosos", e vemos a casa da família ser alvejada por tiros. Há outra cena em que a mãe fecha a porta na cara de um vendedor de seguros, que a alerta para "se proteger" diante do aumento da violência no bairro.
O filme pontua todos esses contrastes, e esta é uma leitura possível, de que talvez ele tenha sido extremista, ou parcial demais nesse retrato, mas não deixa de ser curioso perceber que talvez a intenção de Kasdan fosse justamente chocar, provocar o público, ao delinear todos esses contrastes gritantes entre a realidade de famílias brancas de bairros mais abastados, e famílias negras de bairros do subúrbio de Los Angeles, mais sujeitos a sofrer ataques de violência das gangues, fazendo um questionamento dessa situação adversa.
Vale lembrar também que o filme foi feito no início dos anos 1990, numa época em que essas diferenças de classe estavam explodindo contra um cenário de caos político iminente, colocando em teste a ideia de que os EUA haviam superado os conflitos gerados pela segregação racial, que marcou o movimento dos direitos civis. Naquele momento, Los Angeles estava sendo palco de mais uma revolta, como Selma foi décadas antes, sinalizando uma repetição dos mesmos padrões de opressão contra a população negra.
É interessante perceber como que, 30 anos depois, a sociedade de certa forma ainda permanece imersa em um estado de hipervigilância semelhante, senão maior, e muitos desses contrastes sociais e raciais ainda estão aqui. Casos de violência policial continuam acontecendo com uma frequência assustadora. Eu diria que Grand Canyon é uma cápsula do tempo sobre essa ebulição política. Talvez o filme tenha sido mais profético do que se pretendia, ao retratar essa epidemia de fatalismo, e a incerteza gerada pela fragmentação, seja através da violência, ou da opressão sistêmica.
Por outro lado, o filme parece também lançar um olhar mais intimista para o efeito que isso tem no campo pessoal, em como que esses conflitos se refletem de maneira única na individualidade de cada personagem, mostrando que é inevitável que a violência marque essas pessoas de forma completamente única, devido à oposição de contextos e situações em que elas se encontram. Para mencionar outra obra que faz um paralelo interessante com Grand Canyon, Faça a Coisa Certa, lançado dois anos antes, evocou os mesmos sentimentos ao abordar o crescente atrito entre brancos e negros em Nova York, e o acerto do filme de Lee se dava justamente na tentativa de mostrar como que a corda acabava arrebentando do lado dos negros, que se viam encurralados entre a violência policial e a desigualdade sistêmica.





