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segunda-feira, 12 de novembro de 2018

PACTO DE JUSTIÇA (2004)


A prova de que o cinema americano ainda é capaz de produzir bons faroestes quando quer. Sob a direção de Kevin Costner, Pacto de Justiça é exemplar seguro do gênero que traz velhos clichês em filtros novos, com autenticidade e fluidez bastante originais. Costner, que também traz na autoria Dança com Lobos, flerta com a história, a admiração meditativa da paisagem e os clássicos do velho oeste ao recontar a viagem de quatro vaqueiros independentes que sofre uma interferência face à aproximação a uma cidadezinha, e um dos rapazes "aprendizes" desaparece. Um destino trágico sela a rivalidade do vil xerife da cidade e os dois vaqueiros "patrões", interpretados por Costner e Robert Duvall, em estado de graça, que procuram vingança. 

Falemos agora do quanto o filme me tocou. É um trabalho, sem dúvidas, dono de uma grandeza que faz jus às comparações com os westerns da Hollywood dos anos 50-60, com Hawks, com Peckinpah, com Ford, e, de um cinema faroeste mais recente, dos anos 90, Eastwood. Costner parece saber exatamente o que deseja ao moldar os planos desnorteantes do seu épico do velho Oeste, arquitetado com uma força deslumbrante, uma força de cinema mesmo, que resulta em sequências vibrantes e muito bem-feitas, que certamente merecem comparação com as mais altas categorias desse gênero. Tudo, desde a fotografia até o som, está em sintonia com a grandeza que emana das atuações, da trilha, e enfim do western, esse gênero que sempre foi nota 10 em ser grandioso, abrangente, colossalmente vivo, como Pacto de Justiça é, capaz de despertar emoções e sentimentos tão profundos, em especial quando se fala de homens que levam a vida de maneira simples e digna. E, nesse sentido, pode-se dizer que também é um filme que dialoga sobre o que há de mais digno na amizade, no companheirismo e no amor, e na missão de honra desses valores. Visto assim, Pacto de Justiça é um filme muito, muito bonito. 

Pacto de Justiça (Open Range)
dir. Kevin Costner
★★★★

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Crítica: "A MULHER É O FUTURO DO HOMEM" (2004) - ★★★★


Uma das minhas maiores descobertas cinematográficas esse ano foi o cineasta coreano Hong Sang-soo. Ainda em maio, tive a oportunidade de conferir Certo Agora, Errado Antes, filme que certamente estará na minha lista de melhores de 2016 em dezembro. Bem, desde então eu estive imerso em uma onda de encanto e atração por esse diretor com um estilo tão próprio e interessante, às vezes bastante enigmático.

A Mulher é o Futuro do Homem é um filme pontual, não definitivamente divertido ou cômico, mas que encontra um equilíbrio entre seus dramas. É sobre um triângulo amoroso sob diferentes ângulos e pontos de vista. Falas se repetem, cenas parecidíssimas se contrastam, papéis se invertem. Não fique confuso caso achar que uma certa sequência ou fala é familiar. Quem conhece Sang-soo sabe que a repetição é uma fórmula recorrente em seus filmes, seja para desmistificar o clichê ou simplesmente dar um nó na cabeça do espectador. Não pense que só porque seus filmes tem uma estética simplista que suas histórias também saíram assim prontas. E é essa uma das razões porque seu cinema é tão preciso e importante. A manipulação estética e as sobressaídas do roteiro.

A Mulher é o Futuro do Homem não segue uma ordem cronológica. É um quebra-cabeça. Um professor de artes e um cineasta se reencontram e se recordam de um antigo amor, uma moça por quem eles dois eram apaixonados no passado. O filme parte dessa premissa. O interessante é que este é o primeiro filme de Hong Sang-soo com uma cena de sexo que eu vejo. Até agora, nenhum de seus filmes tinham cenas de sexo explícitas. Que eu me lembre, só A Visitante Francesa, mas nem era uma cena de sexo, só mostrava os dois personagens na cama, ou melhor, numa barraca, então nem sei se posso considerar.

Aliás, o filme discute bastante sobre questões relacionadas ao sexo, falando tanto do ato quanto da mulher e do homem em si, como o título pode definir. Os homens sempre acham que estão no controle da relação e que "mandam" em suas mulheres no campo sexual, mas quando o inverso acontece, o homem se rebela e quer destruir a relação com todas as suas forças. Mais uma vez, Hong Sang-soo faz um filme inteligente e textualmente complexo e vibrante focado na natureza trôpega das tumultuadas relações humanas. Super recomendo.

A Mulher é o Futuro do Homem (Yeojaneun namjaui miraeda)
dir. Hong Sang-soo - 

domingo, 9 de outubro de 2016

Crítica: "APENAS UM BEIJO" (2004) - ★★★★


A carreira do cineasta Ken Loach é bastante sólida. O homem, que é conhecido por filmes focados em críticas à sociedade britânica e temas de cunho socialista e trabalhista, vez ou outra (e muito raramente, digamos) foge dessa cartilha adentrando outros caminhos, mas ainda com um pé na vértice socialista que tanto demarca o seu estilo independente e simplista de fazer cinema.

É o caso de Apenas um Beijo, que é uma comédia romântica centrada em um casal de apaixonados: um paquistanês e uma irlandesa. O filme é perfeitamente sagaz na representação desse contraste cuja simbologia faz referência às diferenças culturais e como isso afeta a relação amorosa dos personagens principais, ainda mais quando o rapaz está comprometido com uma outra mulher, escolhida pela sua família tradicionalista. 

O interessante de Apenas um Beijo é que Ken consegue fazer com que o espectador compreenda e se sensibilize tanto com o casal quanto com a família do cara paquistanês, sem fazer muito esforço. O filme em si consegue traçar um impasse, provocando o público e o desafiando a interpretar a situação, a aceitar a ausência de julgamentos para o que acontece.

Se por um lado o filme consegue elaborar uma trama repleta de riqueza narrativa e caracterização genuína como ninguém mais consegue além de Loach, do outro o filme corre o risco de cansar o espectador repetidas vezes com a enfatização e reconstrução dos detalhes mais pífios. A conclusão irregular também pode causar estranhamento a quem não está familiarizado com o estilo de Ken Loach.

A narrativa disseca duas perspectivas, dois olhares totalmente diferentes e os engloba em um só – talvez essa seja a definição conclusiva mais propícia do filme, mas também vale considerar que o final aberto é uma mera questão de respeito e compreensão ao que ambos os lados estão defendendo, ou até mesmo apenas a representação de que não existe uma resolução ideal ou justificada para essa trama tão difusa – para nos fazer entender os pontos de vista e seus propósitos distintos.

Ken Loach e seu estilo cinematográfico dotado de inerência sempre centrado em riquíssimos retratos ideológicos, que por vezes representam não só o que acontece dentro do Reino Unido ou da Irlanda, mas que também acabam por se universalizar. Seus filmes retratam histórias cabíveis, construções humanistas de contrastes ideológicos e padronistas seja de épocas passadas (Ventos da Liberdade, Jimmy’s Hall, Terra e Liberdade) ou do presente (Pão e Rosas, Mundo Livre, A Parte dos Anjos) que, de uma forma ou de outra, fazem-se necessários, essenciais, importantes para refletir sobre a sociedade.

Ademais, a relevância de Apenas um Beijo, que até agora é seu melhor filme para mim, é inestimável. Ken Loach é um dos maiores cineastas. Seu cinema é a arma da reflexão, do conhecimento e da representação. 

Apenas um Beijo (Ae Fond Kiss.../Just a Kiss...)
dir. Ken Loach - 

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Crítica: "ESPANGLÊS" (2004) - ★★★


Ainda não sei bem o que achei deste Espanglês. Lembro que, ano passado, quando comecei a assistir numa sessão à noite do Comedy Central, até estava gostando, mas dormi sem terminar de ver. Desta vez eu encontrei ele lá no Netflix, e aproveitei pra ver novamente o começo e o resto que eu não vi. O filme ficou com outra aparência desta vez. Ou talvez só o começo do filme seja bom, porque, com o passar do tempo, ele fica azedo, muda de jeito, de ritmo. Esquisito. 

Confesso que, mesmo assim, não deixa de ser um filme engraçado. Irregular, mas com alguns bons momentos. Só não entendo como podem enxergá-lo como um drama. Na verdade, Espanglês não é nem drama e nem comédia. Comédia dramática? Também não. E por isso é que é um filme tão complicado de se entender, não no sentido de ser complexo, mas sim o que ele quer dizer, sua intenção, a proposta que ele oferece. É um filme bem confuso quando se trata de gênero. 

No entanto, o elenco está ótimo. Adam Sandler, quem eu acho que só esteve realmente bom uma única vez em toda a sua carreira, em Embriagado de Amor, até que está bacana aqui em Espanglês, especialmente naquela cena em que ele surta no carro. A talentosíssima Paz Vega interpreta Flor, uma mexicana que, após o abandono do marido, decide ir para os Estados Unidos viver com a filha, onde acaba trabalhando para o personagem do Sandler, um chef de cozinha. 

Também estão no elenco Téa Leoni, numa performance plausível, como a esposa frenética do Sandler, e Cloris Leachman, como a mãe de Sandler, uma ex-cantora de sucesso, cuja atuação, embora faça o estilo "roubar a cena", foi presenteada com uma indicação ao SAG em 2005. 

Apesar de tudo isso, Espanglês é um daqueles filmes que não tinha que ser feito, ou (aparentemente) não possui razão para ter sido produzido. O filme leva a direção de James L. Brooks, que também escreveu o roteiro. A fotografia é de John Seale e a trilha sonora foi composta por Hans Zimmer. 

Espanglês (Spanglish)
dir. James L. Brooks - ★ 

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Crítica: "MATADORES DE VELHINHAS" (2004) - ★★★


Mês passado eu quebrei meu recorde: 56 filmes. Que eu me lembre, nunca tinha visto tanto filme num só mês. E olha que eu nem estou de férias. Acontece que minha compulsão cinéfila se intensificou de uns tempos pra cá. Agora, por exemplo, estou vendo uns três, dois filmes por dia, enquanto no passado mal via três ou quatro filmes por semana, digamos. Evolui muito nesse quesito. Devo encarar isso como uma qualidade ou como um defeito (compulsão cinéfila)? Bem, espero continuar nesse ritmo. Afinal, filme pra conferir é o que não falta. Esse Matadores de Velhinhas, por exemplo, lembro de ter comprado em 2014, se não me falha a memória, e na época até tentei ver, mas parei logo no início, não lembro o porquê. Depois de ter conferido Kumiko, a Caçadora de Tesouros ontem, me deu uma vontade de ver esse filme. 

Mas conta que eu estava mirando uma comédia (recentemente, não estou com pique para filmes dramáticos) e é isso que, mais ou menos, Matadores de Velhinhas é. Na verdade, é humor negro, gênero que volta e meia é trabalhado pelos Coen (Um Homem Sério, E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?, O Grande LebowskiQueime Depois de Ler), o que não necessariamente quer dizer que seja aquele tipo de filme o qual você irá gargalhar sem parar do primeiro frame até os créditos, muito embora seja um trabalho bastante hilário, embora esquisito (esquisito demais pra ser considerado cômico, ao meu ver). 

Tom Hanks interpreta um criminoso meticuloso e astuto, G.H. Dorr, que se hospeda na mansão de uma idosa reclamona, Marva Munson, para executar seu grande plano, cavar um túnel até um cassino e furtar o cofre da instituição, com a ajuda de outros quatro homens, seus ajudantes. Entretanto, os criminosos terão de aturar a senhora, que acaba atrapalhando o crime perfeito deles. 

Embora não seja o trabalho mais bem-feito dos Coen, Matadores de Velhinhas tem seus prós, e não chega a ser um filme tão fraco, apesar dos defeitos, como muitos disseram. É apenas um filme bom, regular, sem muitos charmes, mas que não chega a ser desprezível.

É raro ver o Tom Hanks numa interpretação cômica tão excelente. O ator acaba sendo um dos grandes destaques do elenco e me surpreendeu bastante, já que eu não esperava vê-lo tão ótimo como ele esteve. Outro destaque é a Irma P. Hall, que faz a senhorinha chata sempre atrapalhando os planos de Dorr. Outras participações notórias são a de Marlon Wayans, numa atuação de valor que acaba roubando a cena, e J.K. Simmons. 

É claro, teve algumas coisas que eu não gostei tanto assim em Matadores de Velhinhas. Já começa pelo título nacional horrendo (não sei porque colocaram "velhinha" no plural se é só uma personagem). A fotografia do Roger Deakins poderia ser mais caprichada. Acho que o trabalho de fotografia ficou muito relaxado, desnecessário. Pensei que encontraria algo mais charmoso. Também não gostei dos clichês de comédia que os Coen adotaram. Dá a impressão de que eles fizeram pensando em homenagear as velhas produções cômicas hollywoodianas (o filme em si é a adaptação do clássico Quinteto da Morte), mas a fórmula, o resultado sai completamente diferente do imaginável. Entretanto, não é aquele filme que passaria em branco. Como dito, Matadores de Velhinhas tem lá suas qualidades. 

Matadores de Velhinhas (The Ladykillers)
dir. Joel & Ethan Coen - 

domingo, 24 de abril de 2016

TRÊS CURTAS DE KLEBER MENDONÇA FILHO


Abaixo, comento três curtas do cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho, diretor de O Som ao Redor.


Vinil Verde

Visto em 25/01 desse ano. Rapaz, nunca saberia que ficaria tão encantado com o lado curtametragista de Kleber Mendonça Filho, cujo longa de estreia (O Som ao Redor) é um baita de um filmaço! Fiquei mesmerizado com Vinil Verde, um dos curtas mais famosos de Kleber e muito possivelmente um dos melhores curtas que eu já vi. É a historinha de uma garota que ganha de presente da mãe um toca-discos. A mãe lhe diz que ela pode tocar quantos discos ela quiser, menos o disco verde. O filme foi realizado no formato fotomontagem, como La Jetée, e é uma maravilha estupenda. Fico imaginando o que o diretor quis passar com esse curtinha tão enigmático e tenebroso. Confesso que até eu fiquei assustado em certos momentos. De qualquer forma, é mesmo um "doce curta de horror para crianças", como o subtítulo sugere. Fiquei instantaneamente estonteado por essa pequena fábula fílmica, adaptação de um conto infantil russo conhecido como "Luvas Verdes". Bonito, estremecedor e encantador. 


Eletrodoméstica

Esse eu conferi hoje. Trata-se de um curta engenhoso e tão enigmático quanto Vinil Verde, embora, se formos ver de perto, bastante simplista e sem exageros. Outra semelhança com Vinil Verde é a qualidade. Eletrodoméstica lembra bastante uma sequência de O Som ao Redor, dando a entender que o diretor praticamente retirou aquela cena, estrelada pela dona de casa entediada (Maeve Jinkins), deste curta. Como a personagem da Jinkins em O Som ao Redor, a protagonista de Eletrodoméstica é uma dona de casa que realiza tarefas da casa durante o dia e que cultiva certas "diversões" e rituais em seu cotidiano doméstico, bem como "masturbar-se na máquina de lavar" e "baforar no aspirador de pó". É um trabalho bastante curioso e interessante, uma observação inquietante e perceptiva sobre a solidão e a rotina. Embora a Maeve não estrele o curta, temos a atriz Magdale Alves, tão talentosa e memorável quanto, no papel da dona de casa. Aliás, quem interpreta a filha dela neste curta é a mesma atriz que fez a menininha de Vinil Verde, Gabriela Souza (taí outra semelhança com Vinil Verde). A direção de fotografia do curta é extraordinária (taí outra semelhança com Vinil Verde).


Recife Frio

O melhor dos curtas de Mendonça Filho que conferi foi, certamente, Recife Frio. Ah, como eu amei Recife Frio. Um curta futurista, Recife Frio pode bem ser considerado o La Jetée nacional. Embora esteja distante do clássico quanto ao formato, Recife Frio, que já em sua introdução nos lembra La Jetée, se baseia numa premissa bastante graciosa e estranha: Recife, num futuro próximo, ser abalada por um profundo transtorno climático, que deixa o litoral de Pernambuco sob um frio intenso e incessante, extinguindo o calor e alterando a vida da população. Mas, diferentemente do que poderia se esperar, Kleber brinca genialmente com os elementos da trama, dando a ela um gostinho mais cômico e inesperadamente delicioso. Quase o curta inteiro é como se fosse uma pequena reportagem televisiva, com um jornalista hispânico (?) debatendo e discutindo a onda de frio que abala o litoral do Nordeste e que transforma os hábitos da população pernambucana, inclusive dos cidadãos de Recife, como é analisado. A maior parte do tempo a trama é explorada com um olhar afiado e minucioso, de forma com a qual o diretor aborde diversas temáticas, como desigualdade (a sequência do apartamento dos ricaços, onde um adolescente expulsa a empregada do quartinho dela, é uma das minhas sequências prediletas), turismo, choque social... A sátira e a crítica estão presentes, mas também há a impressão de que tudo seja mesmo uma grande brincadeira, uma grande de uma descontração, com momentos de comicidade excêntrica e agradáveis simbolismos, que não passam de uma grande brincadeira do diretor, uma perspectiva cômica e sarcástica sobre os hábitos e os problemas da sociedade dos tempos atuais. Ainda sim, é um filme bastante especial e que merece atenção. Eu gostei pra caramba. É pura perfeição. O formato é genial, as sacadas do roteiro são brilhantes, a direção do Kleber é formidável. Recife Frio é primoroso. Eu adorei, sinceramente. Um trabalho fabulosamente bem-feito. Ah, e só pra constar, o curta foi dedicado a Chris Marker e Terry Gilliam, o que explica um pouco as referências a La Jetée e ao trabalho do Gilliam em geral (Monty Python, Brazil, 12 Macacos...) e o climão sci-fi debochado. 

-- "Socialite revela: 'Agora os pobres estão mais 'chic' passando frio'". 

terça-feira, 15 de março de 2016

Crítica: "CLOSER - PERTO DEMAIS" (2004) - ★★★★


Já vai fazer dois anos que o inigualável gênio do cinema Mike Nichols nos deixou. Inacreditável. O mestre, em um período que corresponde a um longevo meio século de atividade, presenteou-nos com alguns dos maiores e mais importantes filmes já feitos (A Primeira Noite de um Homem e Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, por exemplo) e que raramente consegue decepcionar, mesmo sob projetos considerados menores, como aconteceu com Jogos de Poder (seu último filme) e A Difícil Arte de Amar (quase comprei a cópia em DVD uma vez, mas pisei na bola e agora o único jeito parece ser apelar pro torrent). Closer, o antepenúltimo filme realizado por ele, e talvez o mais popular (pelo público), é um filme intenso e voraz, poderoso a todo custo. Mike assume a direção de um trabalho thought-provoking eletrizante. O elenco talentosíssimo e inspirado é a atração principal de Closer - Perto Demais.

Julia Roberts, Jude Law, Clive Owen e Natalie Portman encarnam quatro personagens (uma fotógrafa, um jornalista, um médico e uma stripper, respectivamente) culminados a uma trama romântica repleta de desencontros e reviravoltas inusitadas. Traição, passado, intriga, verdade, mentira, obsessão, ilusão, Closer explora os limites das relações humanas e seus detalhismos e a natureza do estranho. O roteiro genial de Patrick Marber, adaptação da própria peça dele (conheci Marber no excepcional e inesquecível Notas sobre um Escândalo) capricha nos diálogos afiados, inteligentes e formalmente observadores. É difícil não se maravilhar com tamanho trabalho. A escolha de Nichols está bem clara, uma vez que Marber filosofa sobre a traição, tema recorrente na filmografia do cineasta, com sensibilidade e complexidade fenomenais. 

Falando em teatro, o filme bem que se parece mesmo com uma peça, viu? As cenas duradouras, os diálogos bem estruturados, a fotografia pálida e discreta, a valorização do elenco, a câmera, entre outros recursos que transformam Closer em um filme-teatro. Não me estranha o filme ter sido tão finamente elogiado pelo elenco. Clive Owen e Natalie Portman arrecadaram duas indicações ao Oscar. E eles estão certamente brilhantes. Ainda sim, os quatro estão igualmente dispostos e ótimos. Quem se destaca mesmo é a Natalie Portman, aqui estonteante e simplesmente gloriosa em todos os sentidos. Se tem alguém aqui que merece ser chamado de "o melhor" é ela. O Clive Owen também está formidável, mas quem realmente merecia a indicação, e possivelmente a vitória, era o Jude Law, também excelente. Isso pra não esquecer a Julia Roberts, numa das melhores atuações da carreira dela. 

Não acho mesmo que Closer seja um filme esquecível, como muitos proclamaram, mas creio que se trata justamente do contrário. Closer é memorável. Não é o melhor do Mike Nichols, mas é um trabalho notável e que merece respeito. E por último mas não menos importante, a trilha musical é primorosa. De Beethoven a Bebel Gilberto, a seleção é íntegra e combina perfeitamente com o clima do filme. A canção-tema, que abre e encerra Closer, "The Blower's Daughter", de Damien Rice, é melancolicamente belíssima (Ana Carolina e São Jorge produziram a versão nacional da canção, "É Isso Aí", tão emocionante quanto). 

Closer - Perto Demais (Closer)
dir. Mike Nichols - 

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Crítica: "CRASH - NO LIMITE" (2004) - ★★★


– O que é tão engraçado?"
– As pessoas, cara!"

Crash - No Limite é muito provavelmente um dos filmes que mais me dividiram que eu já vi. Eu gosto e não gosto. Quer dizer, pra falar a mais pura verdade, eu nem odeio Crash e também não o idolatro. É love it or hate it. E não é que eu esteja tirando a razão de quem gosta e quem não gosta, mas quem gosta tem bons motivos assim quem odeia também tem bons motivos. É um filme ambíguo, difícil de digerir e tortuosamente constante, sem freio. De qualquer modo, Crash certamente merece ser visto. 

O então roteirista Paul Haggis, que fora descoberto por Clint Eastwood em Menina de Ouro, 2004, aventurou-se não só no roteiro mas desta vez na direção de um filme complicado, discutindo sua produção, e que exige de um profissional com punhos de ferro e determinadíssimo. Como diretor, Haggis apenas tinha no currículo Red Hot, pouco falado título independente co-estrelado por Carla Gugino. Digam o que quiser sobre o filme, mas não mexam na direção-revelação de Paul Haggis. Certas sequências são tão inacreditáveis de bem-feitas. Não sei o que é maior: a condução bem-vinda de Paul ou a edição de Hughes Winborne, o braço direito da direção. 

Falando nisso, acho o Oscar de Melhor Filme a Crash, há dez anos, injustíssimo, mas acredito que os outros dois prêmios entregues na noite ao filme (Roteiro Original e Edição) foram merecidíssmos. Sei que fica meio estranho colocar dessa forma, mas o roteiro de Crash é bom apesar das fraquezas. 

A firmeza da narrativa, os diálogos ácidos e quase sempre desconfortáveis que confrontam o público e reforçam a ideia de "denúncia ao preconceito", a exposição de diversas histórias entrelaçadas, uma conexão nada particular e bastante inteligente. A construção das pistas que vão lentamente unindo os elementos, os personagens e as mensagens é cuidadosa e nutritiva. 

Minhas sequências favoritas em Crash são três: o acidente de carro (que cena avassaladora!), a cena do tiro (vocês não imaginam a minha reação da primeira vez que vi o filme, foi realmente chocante) e a cena da carona do policial (aquela é de sofrer). 

Vale mencionar que Crash é um baita de um melodrama. Quem é mais emotivo tem tendência a se emocionar com o desfecho final, mesmo que lotado de defeitos. É claro, quem mais ajuda nisso é o elenco show. Dos que lembro: Terrence Howard, Don Cheadle, Sandra Bullock, Michael Peña (que no ano seguinte fez um papel pequeno num filme bem próximo de Crash quanto à temática abordada, que foi Babel), Ludacris (sim, o rapper, e diga-se de passagem a performance dele, mesmo que curta, é extraordinária - acho que até merecia uma indicação ao Oscar mais do que o Matt Dillon), Thandie Newton (vencedora do BAFTA, e, já que entramos no assunto, fez falta no Oscar 2006), Ryan Phillippe, Brendan Fraser, e por aí vai...

Se por um lado Crash até possui certas qualidades, do outro é totalmente imperdoável quanto às falhas. O longa possessa-se se de erros tão gritantes que é quase irreal crer na imensa quantidade de elogios que a crítica americana dirigiu ao filme. Quero dizer, não é impossível nem proibido, mas é um filme que tinha tudo pra ser desvalorizado até a última gota, e teve tanta aclamação. É de encorajar qualquer a botar qualquer produção meia-boca nos trilhos e ver funcionar com tanta glória. Bom, talvez seja algo geográfico - quem sabe? 

Crash se repete tanto que dá a impressão do filme ser uma avalanche imparável, realmente sem freio. O filme não tem vida. Do começo ao fim, tudo posto em tela, cada cena, é um exemplar gêmeo do outro do preconceito, da dor, do ódio, da ignorância, da falta de amor em geral como um só. Estaria o diretor metaforizando o preconceito como efeito geral da ignorância à afeição e à humanidade? 

De qualquer forma, Crash tenta impressionar. E impressiona. O problema do filme é que ele não anda, ele não retrata. O que o Crash faz é ilustrar pessimamente o mundo em que vivemos como abrigo do preconceito e da discórdia, um mundo em que todos nós praticamos o preconceito visível ou invisivelmente. Quer dizer, eu, tu, ele, nós, vós, toda a porra do planeta é preconceituoso. O grande quê é que Crash pinta esse quesito como uma doença, um "parasita dos tempos modernos": quem é preconceituoso, quem denuncia o preconceito, que nem sabe o que é preconceito, quem repudia o preconceito, quem propaga o preconceito: todo mundo, querendo ou não, tem o preconceito no sangue, isso aos olhos de Crash. Los Angeles virou a Terra: ninguém te toca, todos estão atrás do vidro e do metal. 

Por outra via, essa ideologia movimenta uma reflexão interessante: o preconceito oprime a evolução de pensamento e de convivência. O preconceito é, de fato, algo maior do que a nossa mente pode projetar. Esse mal consome a liberdade, consome o direito de ser e de viver em harmonia. Paz? O que significa paz? Do título Crash (verbo "colidir" em inglês) vem o curto discurso que abre o filme (pelo personagem do Don Cheadle). Em Crash, estórias se cruzam e colidem umas com as outras. Essa interconexão é o efeito colateral de um impacto fatal. Agora, se é um filme bom ou ruim: Crash depende do público, da nossa relação com o preconceito e da nossa visão acerca o preconceito e o seu impacto no mundo e na atualidade. 

Crash - No Limite (Crash)
dir. Paul Haggis - 

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Crítica: "COLATERAL" (2004) - ★★★★


Rapaz, tenho um punhado de filmes do Michael Mann separados aqui pra ver. Noite passada pensei em pegar Miami Vice, mas lembrei que Colateral tava pintando lá no Netflix. Faz uns anos o filme passou na Globo e eu comecei a ver bem no meio, mas acabei dormindo. O último filme que vi do Mann fora esse foi Hacker, e digamos que ele não me agradou muito. Ver Colateral já era uma dívida há tempos. E eu até que gostei, viu. Mais do que imaginava. Michael Mann capricha na condução de um filme de ação equilibrado e de tirar o fôlego, temperado pelas performances incríveis dos protagonistas Tom Cruise e Jamie Foxx (que até foi indicado a um Oscar, em 2005, pela sua performance aqui). 

O filme começa e o já típico recurso câmera tremida do Michael Mann nos recebe (é o que eu mais adoro no cinema do Mann, pra ser objetivo). Não demora muito e o público é exposto à ação radical e extrema, da velha e boa ida do cinema de Mann. É uma sensação tão gostosa que é um crime pausar a sessão sob qualquer circunstância. 

O Jamie Foxx interpreta um motorista que trabalha em turnos noturnos como taxista, e que dá uma corrida a um tempestuoso assassino (Tom Cruise), que foi encomendado para matar cinco pessoas naquela noite, e que usa o taxista como cúmplice do crime, forçadamente. O taxista se vê sem saída, confinado àquela situação deplorável sem ter para onde correr. Apesar dos esforços, ele nunca consegue encontrar um escape. E somado à seu nervosismo, tudo só piora. É aí que ele começa a reagir violentamente, à sua maneira, aos abusos do matador, buscando a cada momento tentativas de se livrar do impiedoso Vincent. 

Colateral, no geral, é um deleite. Mais que isso, um prestígio. Quanto às sequências de ação, cada uma mais excepcional do que a outra. A ação em Colateral tem gosto de rush, é decorada por sustos e pulos, e deixa qualquer um à beira da poltrona. Não tem como reclamar desse filme brilhante. Simplesmente não há como. 

O roteiro (escrito por Stuart Beattle) é o ponto forte de Colateral. A todo instante, o filme nos transmite a sua pulsante adrenalina, mixando energia e ritmo ao seu bombástico clímax. A química que se constrói entre o assassino de aluguel (Vincent) e o taxista (Max) fixa uma amizade corrompida e temperamental entre ambos que perdura por todo o filme, e que é divertidamente atenuante de se acompanhar. Dois homens, cinco paradas, um só destino. Colateral é um filme astuto e vigoroso. Ação pra todo canto. Michael Mann mais uma vez prova-se o mestre da ação com esse glorioso monumento em seu currículo. Por último, merecem destaque as rápidas performances do ainda pouco conhecido Mark Ruffalo e da Jada Pinkett Smith. 

Colateral (Collateral)
dir. Michael Mann - 

sábado, 10 de outubro de 2015

Crítica: "HUCKABEES - A VIDA É UMA COMÉDIA" (2004) - ★★★★★


Necessariamente complicado, mas brilhante, Huckabees - A Vida é uma Comédia, o melhor trabalho até o momento do David O. Russell, é uma obra constantemente desafiadora, que busca interpretar o sentido da vida humana e a nossa posição dentro de uma sociedade manipuladora e preenchida por falhas, e ao mesmo tempo pretende teorizar nossos transes de personalidade, a carência do ser por atenção, sucesso e lazer, e a falta de limites da nossa ambição particular: a ambição pelo prazer. É um filme que foi desnecessariamente ridicularizado e desperdiçado, tanto que é quase impossível encontrá-lo hoje em dia. Rende uma ótima sessão, autenticamente thought-provoking e minimalista, cheia de desafios e emblemas.

No início do filme, somos introduzidos a uma figura de comportamento melancólico e totalmente pessimista: o ativista e poeta iludido Albert, interpretado por Jason Schwartzman, que contrata um casal de "detetives existencialistas" para investigar uma coincidência estranha e quase irreal, impossível. O casal de detetives é feito por Lily Tomlin e Dustin Hoffman, que estão convencidos de que é apenas uma boba coincidência, embora Albert viva metendo na cabeça deles de que não é tão simples quanto aparenta. Tal coincidência envolve um rapaz africano, com quem Albert topou numa loja de fotos para autógrafos, mas cujo ele também voltou a encontrar na portaria de seu próprio apartamento e também quase o atropelou no estacionamento de uma das filiais da Huckabees, "a loja que vende tudo". É nessa coincidência que é germinada uma conexão existencialista e non-sense que aparentemente pode soar confusa e maçante, mas que, revista, pode mudar opiniões conforme vai se tornando a profunda raiz do longa, que é movido por essa simples coincidência.

O elenco é grande, formado por Jason, Lily, Dustin, Naomi Watts, Jude Law, (o surpreendentemente talentoso) Mark Wahlberg, Isabelle Huppert (que, ainda na faixa dos 60, continua excepcionalmente radiante, isso por que o filme é de 2004, quando a atriz estava com 51 - Huckabees também é a rara oportunidade de ver Isabelle num papel falado em inglês) entre outros, incluindo iniciantes como Isla Fischer e Jonah Hill. O elenco tem um papel super fundamental no funcionamento do filme. É a partir da elaboração destes personagens que surge toda a grande movimentação desta poderosa trama. 

A síntese filosófica de Huckabees gira em torno da nossa própria identidade, relacionada com o mundo ao redor. Será que estamos no papel certo? Não será essa vida uma grande falácia? É tudo mesmo um acaso? As questões estão aqui para serem desvendadas. E o filme justamente por isso gera múltiplas interpretações. Talvez o que eu tenha visto aqui não seja o mesmo que você viu, até porque o filme, além de debater essa reflexão ideológica sobre o nosso ser trabalhando dentro de um círculo social compulsivo e cada vez mais imprevisível, também busca compreender os limites da corporação e do sistema capitalista na atualidade, tal como os efeitos desse sistema em nossa vida pessoal quanto a sua influência na construção das nossas ideias e, consequentemente, nas ações. 

A figura do homem dentro desse sugador plano é de uma ciência duvidosa e que exige certos cuidados, uma vez que nele é tudo muito avulso, com caminhos cruzados e estratégias alternativas. O que, de fato, explica sua maior expansão e ocupação de espaço em nosso cotidiano é a isolação dos recursos e a exatidão da tecnologia, que torna mais viável a conquista de quaisquer bens. Dawn Campbell, a garota-propaganda da Huckabees, é uma pessoa que esconde por trás de um rostinho bonito, um corpo sensual e malhado, o sorriso atraente e o olhar charmoso uma angustiada tensão, acumulada em excesso no seu subconsciente, que, quanto mais alto grita, menos frequentemente é ouvido. Consequências de um vício que, à medida que enfraquece nossa estima, vai se tornando mais irreversível. É aos poucos que Dawn, claramente perturbada emocionalmente, percebe a farsa que sua vida se tornou, e o quanto ela foi batizada com mentiras para se iludir com uma vida que posa com o sucesso, mas não engana um astral corrompido e traumatizado.

Albert, de tão solitário que é, não vê uma razão para sustentar a sua vida, até por que seus protestos ambientalistas já não mais correspondem à busca dele por esse sentido. É nessa coincidência, efeito colateral de seu espírito fragilizado pelo destino, que ele vê a chance de mudar de vez a sua vida, a chance de encontrar o real significado dela, e de poder se conectar com os outros ao redor. E, ao mesmo tempo, ele procura ser visto, ser percebido. A falta de alguém já é bastante intolerável. A falta de algo, então, só ajuda as coisas a piorarem. É nesse distópico fundo do poço, num lugarzinho grotesco e curioso chamado Huckabees, é que ele finalmente vai escalando para o topo, pela primeira vez. E, quando ele vê a queda de seu arqui-inimigo Brad Stand, o ricaço e bem-sucedido funcionário da loja, é aí que cai a ficha. Ele retorna ao topo do poço. Afinal, é nesses momentos mesmos, observando o próximo falir, que vemos refletido ali naquela desgraça nossa própria jornada, e uma identificação. Afinal, somos todos iguais. É o que o lençol metaforiza. Tudo na vida é a mesma coisa. Mas, naturalmente, vemos tudo distorcido, diferente da realidade estética. 

O personagem do Mark, um bombeiro que, após os atentados terroristas às torres gêmeas em 2001, ficou neurótico e obcecado com o episódio a fim de maldizer o petróleo, indo trabalhar até de bicicleta. Na cena em que ele anda de carro com o Albert, vemos que nem sempre, no nosso mais profundo instinto, é possível segui-lo até mesmo cegamente, e nesses contrapontos somos enganados por nós mesmos, do nada. É a auto-ilusão, uma ação quase auto-imune. A figura do bombeiro representa o ser em foco, caminhando na escuridão na intenção de encontrar uma faísca de luz que lhe guie por meio de toda uma onda de dúvidas. 

É um filme muito bom mesmo. Vale ver. Me deixou encucado com algumas coisinhas, mas é inegavelmente uma pérola. Huckabees - A Vida é uma Comédia, o horrendo título que as distribuidoras nacionais tiveram a pachorra de dar a I Heart Huckabees (Eu Coração Huckabees), rima filosofia e comédia no ponto perfeito. E tenho a coragem de dizer que é o melhor filme do Russell, que só agora veio a ter o devido reconhecimento, com a realização de bons longas como O Lado Bom da Vida, O Vencedor Trapaça, nenhum deles grande o suficiente quanto este aqui, creio. É maravilhoso. Tem a fotografia inspirada do Peter Deming, que trabalhou com David Lynch no que é considerado um dos filmes mais complexos da história do cinema, Cidade dos Sonhos, o roteiro excelente do David com a parceria de Jeff Baena. Esse elenco, demais. Pra quem for ver, recomendo também a revisão, nem tudo pode ser digerido num só gole. Afinal, entre umas e outras, a vida é literalmente uma comédia. Uma experiência mais que devastadora e maravilhosa. 

Huckabees - A Vida é uma Comédia (I ♥ Huckabees)
dir. David O. Russell - ★★

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Crítica: "MELINDA E MELINDA" (2004) - ★★★★


Uma bela surpresa esse Melinda e Melinda, tímida obra de Woody Allen que não é muito comentada, mas merece ser vista, principalmente por sua inteligente abordagem. O grande elenco, as piadas geniais que entonam o lado cômico dessa trama e a fotografia obscura e sempre lindíssima de Vilmos Zsigmond que oferecem um gosto azedo e equilibrado ao lado trágico de Melinda e Melinda. Quem já viu Blue Jasmine não ficará surpreso em nada com o desfecho dramático do filme, basicamente plagiado pelo de 2013, ainda que com uma maior imaginação e evolução. Um grupo de escritores se reúnem numa chuvosa noite num bistrô em Nova York, onde começam a argumentar sobre tragédia e comédia. Um deles dá a ideia de contar uma história, e os outros escritores tem de palpitar se ela é um drama ou uma comédia. Essa passagem de abertura recorda demais Broadway Danny Rose, só como nota.

Muita gente odiou Melinda e Melinda. E eu entendo. Talvez o filme lá não faça tanta lógica, ou ainda por cima seja totalmente oblíquo, desnecessário. Mas eu gostei demais da conta. Afinal, o cara é Woody Allen, e sou um mega fã do diretor. Certamente minha obsessiva paixão pela carreira dele no cinema e por seu estilo tenham me guiado nesse caminho, onde muito dificilmente digo "não" à seus filmes, ainda mais aqueles considerados fracassos, como este - que na minha sincera opinião de fracasso não tem nada -, o último do diretor filmado em Nova York antes da temporada europeia dele, que começou com Match Point - Ponto Final e foi terminar com Para Roma Com Amor, num breve intervalo com Tudo Pode Dar Certo, outro tímido título da carreira de Woody, que voltou a ser filmado em Nova York, com o dinheiro da Sony Pictures Classics. 

Uma das coisas mais interessantes e incríveis de Melinda e Melinda é seu elenco, formado por Will Ferrell, Chloë Sevigny, Amanda Peet, Wallace Shawn e Jonny Lee Miller, que, apesar de não ser tão conhecido, é muito talentoso, e a grande maioria dessa nova safra de atores conseguiu acompanhar o ritmo de Allen muito bem. O mais incrível ainda é a tal Radha Mitchell, de quem eu nunca ouvi falar, mas que se sobressai de forma tão autêntica aqui que não ressaltar sua importância para Melinda e Melinda seria um erro trágico. Ela funcionou bem em ambos os planos, mas acredito que o trágico combina mais com ela do que o cômico. 

Chiwetel Ejiofor, Zak Orth, Steve Carell e Josh Brolin fazem pontas pequenas aqui no filme, e achei bem estranho da parte do casting tal desperdício. Falando em Carell, o ator substituiu o sacana do Bruce Willis no novo filme do diretor, que estreia ano que vem. Willis abandonou as filmagens do nada sob a desculpa de que estaria trabalhando na adaptação para a Broadway de Misery, do Stephen King, conhecido como Louca Obsessão nos cinemas, filme que deu o Oscar a Kathy Bates.

Woody esbanja seu melhor em dois contos que só são diferentes pelas impressões que deixam. Afinal, a vida é um espelho, cujos lados refletem a tragédia e a comédia, e mesmo que não sejam tão parecidos, no final são praticamente a mesma coisa. A vida, o amor, o cotidiano. É assim que o cinema de Woody Allen funciona. E que a nossa vida é uma tragédia, ou comédia, por opção. É como a personagem de Radha Mitchell, que em determinada cena se emociona ao ouvir uma canção no piano e, quando questionada o porque de estar chorando pelo pianista, responde que a música tocava quando ela conheceu um homem. O pianista volta a perguntá-la se eram lágrimas de dor ou felicidade. E ela responde: "não são a mesma lágrima?". É aí que encontramos o conceito de Woody: sendo dor ou felicidade, é a mesma lágrima. Momentos bons ou ruins sempre passarão, e depois deles sempre vem algo pior ou melhor. É essencial se acostumar a esse fato. Talvez esse conceito até funcione como resposta à crítica, que nos últimos tempos veio reformulando o estilo do cineasta a partir do gênero de suas obras. A aparência e o gosto não são os mesmos, mas a receita sim. 

Comprei no início do ano Adultérios, um dos livros escritos pelo Woody, que vem com três peças nele. Melinda e Melinda facilmente poderia virar uma peça daquelas, ainda mais quando o vivant clima teatral dá um realce especial nas cenas da película. E, realmente, me surpreendi. É um filme pequeno do cineasta, mas é elegantíssimo e delicioso como qualquer outro. O sublime roteiro de Allen, um dos melhores escritos pelo diretor nos últimos tempos, a Radha, o resto do elenco, a trilha sonora que rima clássica (tragédia) e jazz (comédia) com perfeição... Digam o que quiser, mas esse filme pediu minha adoração. 

Melinda e Melinda (Melinda and Melinda)
dir. Woody Allen - 

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Crítica: "FAHRENHEIT 11 DE SETEMBRO" (2004) - ★★★★★


14 anos. Sim, há catorze anos o mundo todo junto assistia a um dos mais sangrentos, tristes e fatídicos genocídios de todos. E depois desse tempo todo, muita coisa - ainda sim - continua cheirando esquisito e confuso. Por isso, ver Fahrenheit 11 de Setembro, um dos filmes mais falados do Michael Moore (qual dele não é?), aliviou um pouco essa dúvida, e ainda sim nos deixou com muita coisa pra pensar, e é aí que a confusão volta - no bom sentido. Será mesmo tudo uma farsa? Será essa versão de Michael a correta? Não há porque não. Tudo faz sentido. Não tem como negar nada do que ele apresentou aqui. É a mais pura verdade sobre esse evento, e as provas deixam tudo bem esclarecido. Mas a consciência não se livra do pesar da confusão, e depois de visto o documentário ainda continuo um pouco abismado e perdido, assim como esse mundo em que habitamos. 

Não é um filme grande, apesar de ser um grande filme. Fahrenheit 11 de Setembro poderia ser muito bem um filme realizado em Movie Maker, por exemplo, e talvez isso explique o por que foi tão rápido prepará-lo. Mas, em compensação, sua importância, essencialmente para a melhor compreensão do evento-título e do governo Bush, na minha opinião, é de uma dimensão absolutamente enorme, quão obrigatória. Coitados aqueles, vítimas da suave ignorância, que creem que as causas do 11 de setembro param justamente na culpa dos terroristas, sem quaisquer envolvimento da própria política americana. E a força do cinema de Michael Moore aliado a uma história chocante e indubitavelmente provável resulta em Fahrenheit 11 de Setembro, o maior filme já realizado até o momento sobre o tema, que desde então veio gerando muito burburinho - e não culpo ninguém por isso. 

A narrativa explicitamente cômica de Michael Moore é motivo de gargalhada no cinema. Do começo ao fim, embora o clima trágico, que se sobressai na segunda parte do longa, também nos traga um sentimento muito intenso de dor e pena, rir é a alternativa assinalada por ele, e que está presente em todos os seus documentários. E esse "cinema desconstrutor" dele também não engana não. Muito fácil assemelhar Fahrenheit 11 de Setembro com o anterior, Tiros em Columbine, justamente por ambos abordarem a situação dos Estados Unidos de um ângulo usualmente ignorado, ou melhor falando ocultado. O título deste, Fahrenheit 9/11, em inglês, remete ao polêmico discurso de Michael no Oscar, enquanto ele recebeu o prêmio pelo já citado Tiros em..., no qual ele falou sobre a "nação fictícia" que Bush promovia em seu governo, o qual foi recebido com aplausos e vaias pelo público. O título vem justamente do filme de François Truffaut, Fahrenheit 451, no qual o cenário era um estado totalitário futurista. 

E muitas cenas imortalizam esse documentário como um exemplo raro do cinema documental de qualidade. Ele, ao lado de um militar, pedindo para que os políticos em Washington alistarem seus filhos no exército, ou a mãe de um dos soldados, entrevistada por Moore, em Washington debatendo com uma mulher que defende o presidente, e que gera consequentemente uma tensão lascada, e muito abaladora. Ou também o segmento que exibe uma região beira-mar desprotegida em Oregon, com o depoimento da polícia. Ver o quanto a verdade é escondida e a mentira propagada me deixa profundamente entristecido, e realmente é uma amostra autêntica de que a América não é um mar de rosas. 

Tá bem que a situação no Brasil não tá nada legal, mas imagine ter no controle um alguém do escalão de Bush? E quem acaba desfavorecido é o americano (os soldados que vão para uma guerra com nenhum objetivo, muitos dele nem voltando à pátria que inicialmente estariam protegendo). Mas que coisa louca, não? Por isso, rende ver Fahrenheit 11 de Setembro. E sorte a nossa, e a do cinema, de ter Michael Moore na liderança. Essa revelação precisa ser vista. É necessária para qualquer um. Porém, infelizmente nem todos vão escutar à Moore. Mas ele já deixou seu recado, e isso é o que importa, acima de tudo, no mundo documental. Uma grande obra é como termino essa crítica e classifico Fahrenheit 9/11

Fahrenheit 11 de Setembro (Fahrenheit 9/11)
dir. Michael Moore - 

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Crítica: "A VILA" (2004) - ★★★★★


Uau. Mesmo que eu idolatre freneticamente O Sexto Sentido como o melhor filme de M. Night Shyamalan, tal posto muito bem pode ser ocupado por A Vila, que me deixou bem mais surpreso e mobilizado, apesar do final surreal que o grande clássico do cineasta leva. E os motivos são muitos. A Vila não só capricha num roteiro extraordinário, que tende a ser a marca registrada dos filmes de Shyamalan, como também é um trabalho máximo da curta filmografia do diretor, que em outubro nos apresentará mais um filme, A Visita

Se no fim A Vila não é tão tenebroso ou assombroso como as expectativas já protestavam, guarda consigo uma mensagem muito profunda e bem feita. Mas visto de um ponto mais literal A Vila não foi feito para assombrar. Certo que em determinados momentos do filme dá um medo lascado, só que não é por muito tempo. É só pra dizer que teve um pouco. Como já é conhecido da parte do diretor, A Vila usufrui do inteligente twist ending, a especialidade do mestre em questão, já experimentada em O Sexto Sentido e outros. O twist ending especificamente de A Vila não só abrange um amplo significado em sua inteira composição, de uma forma distinta dos outros filmes do diretor quero dizer, como é uma espécie de evolução. A decisão do diretor diz muito pelo filme, e isso é uma das melhores coisas dele. Bem, vou parar de falar por aqui para não dar um spoiler attack

E vocês não imaginam a minha luta para achar essa cópia de A Vila... Tenho uma sorte incrível para achar filmes impossíveis de se achar. Embora seja muito fácil encontrar A Vila na internet, todos os sites em que achei o filme é dublado e sou bastante enojado com isso. Encomendei com um amigo que trabalha numa locadora para ver se ele podia achar o filme pra mim e passá-lo para um DVD virgem, isso há aproximadamente um mês (ainda estava de férias). Foi nesse sábado ele me contatou pela rede social e me disse que tinha achado a bendita cópia com outro amigo, e tinha feito outra no DVD virgem que lhe dei. A sensação de alívio e prazer que te invade nesses momentos é de uma perfeição surreal e indescritível. E não é a primeira vez não. Olha, há razão em falar que eu tenho alguns momentos de azar em minha vida, mas é raro em minha cinefilia. Se há algo faltando em minha cinefilia é azar (e que continue faltando, por favor).

O maior televisor aqui da minha casa é ainda de tubo, Philips, que fica no quarto dos meus pais. Não estou cego nem nada do tipo (a correção da minha miopia está em andamento) mas acredito que a qualidade desse televisor médio, que não é nem tão grande assim, é excepcional. O modelo é o "Power Vision Stereo", e sem dúvidas funciona perfeitamente. Enquanto isso, meu novo aparelho de DVD, que foi trocado, fica com uma qualidade horrível no televisor LCD (vai saber porque!). Certamente ver este filme no cinema resultaria numa belíssima experiência, mas não torna dispensável a sessão dele na TV tubo, que foi incrível. Nunca fui de confiar nesses padrões da TV, mas ajustei em "cinema" e a imagem ficou maravilhosa. O imbatível Roger Deakins melhor como nunca, dando-nos uma prova simples e justa de seu incalculável legado. A câmera não se movimenta muito. Baseia-se em um ou dois enquadramentos no máximo por cena, com breves exceções em outras. Alguns ângulos, a maioria deles frontais e de cenário, limitam inicialmente alguns segmentos do enquadramento perfeito, mas o final responde por esses enquadramentos de uma forma brilhante. Seria um erro catastrófico deixar de reconhecer a visionária perspectiva e direção de M. Night Shyamalan (hoje eu tô spoilerento que só!). 

O "elenco de primeiro mundo" também recebe a autoria dos méritos de A Vila: a protagonista Bryce Dallas Howard, naquela época com pouquíssimos papéis no cinema, é certamente a grande revelação de todo o filme, e sua atuação é de uma riqueza tão natural e indestrutível que emociona lembrar dela em ação. Adrien Brody, um formidável e competente coadjuvante (agora sim, spoiler) no papel mais arrasador da trama, e sem dúvida vilanesco. Joaquin Pheonix também não está de se jogar fora. William Hurt, em uma ou duas cenas, dá um show também. Certamente esperava mais da Sigourney Weaver, que aparece pouco nos tão poucos mas suficientes 100 minutos deste longa. Ah, a história? Moradores de uma vilinha isolada temem por um monstro que habita uma mística floresta, a única coisa que destrói a segurança do local. Até que dois moradores, em uma simples busca, iniciam uma jornada adentro à floresta. Simples não? Pois é. A complexa e multifacetada fábula metafórica que se esconde por trás dessa simples sinopse é delirante e surpreendente, e transforma A Vila num dos melhores filmes dos últimos tempos e um trabalho miraculosamente bonito. E, em consequência, seu criador é quem recebe todo o crédito por seu esmerado e genial talento. 

A Vila (The Village)
dir. M. Night Shyamalan - 

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Crítica: "O AVIADOR" (2004) - ★★★★★


O Aviador é uma obra simplesmente imperdível. Já se passaram onze anos do imperdoável de bom O Aviador, gigantesca película de Scorsese que retrata de modo ficcional a vida de Howard Hughes, celebridade nata da Hollywood da década de 20/30, e mesmo assim, passados tantos outros filmes dentro da filmografia de Martin desde lá, tais como A Invenção de Hugo Cabret O Lobo de Wall Street, O Aviador continua intacto, permanecendo como uma das maiores obras já feitas por Scorsese. Arrisco: uma das mais importantes e essenciais.

Indicado a 11 Oscars em 2005, entre eles Melhor Filme (Graham King, Michael Mann), Direção (Scorsese), Ator Principal (DiCaprio), Atriz Coadjuvante (Cate Blanchett) e Roteiro Original (John Logan), tendo vencido cinco estatuetas, por Melhor Fotografia (Robert Richardson), Melhor Figurino (Sandy Powell), Melhor Direção de Arte (Dante Ferretti, Francesca LoSchiavo), Melhor Edição (Thelma Schooonmaker) e Atriz Coadjuvante para Blanchett, acredito que bem mais do que Os Infiltrados, filme que, dois anos depois ganhou o Oscar de Melhor Filme e deu a estatueta de direção (a única até hoje) para Martin Scorsese, ovacionado por todos na platéia no Oscar 2007, O Aviador merecia e deveria ter ganhado Melhor Filme, Direção, Ator, Roteiro e tudo o mais o que lhe estivesse à altura no Oscar 2005, se não fosse pelo fato dele estar competindo com grandes e talentosas obras como Menina de Ouro e Sideways - Entre Umas e Outras, os "queridinhos" daquela edição, idolatrados pelos sindicatos e os mais favoráveis a prêmios maiores nas categorias principais.

Num período de aproximadamente vinte anos, O Aviador reconstrói ambas carreira cinematográfica e aviadora de Howard Hughes, diretor de Hell's Angels e produtor de Scarface - A Vergonha de uma Nação. Mas a reconstrução da vida de Hughes conta não só com fatos, mas também com extraordinárias adições fictícias, que dão sabor e luz à história de maneira peculiar e suntuosamente bonita. O Aviador, em resumo, é um filme abusivo em luxo, beleza e cor. Exageradamente abusivo. O mais exageradamente abusivo possível. Mas, de um lado, esse exagero é bom, por que o filme no final é tremendamente equilibrado. A história não apresenta falhas ao longo de seu percurso quando nela é acrescentado esse demasiado exagero. E é isso que encanta em O Aviador, minha gente. É uma obra que, com sutileza e sensibilidade, consegue ser exagerado na melhor maneira que um filme poderia ser. O exagero respeita o clima da trama. 

Ao mesmo tempo em que é um filme tremendamente colorido e vivo, O Aviador possui um elenco que oferece brilho e calor às necessidades que a vivacidade do filme apresenta. Tudo é meticulosamente interligado, em favor de que o filme funcione perfeitamente, à altura de uma obra. Leonardo DiCaprio, na segunda das atuais cinco colaborações com Scorsese, faz um dos papéis de maior significância de sua carreira. Totalmente "doado" à interpretação de Howard Hughes, é desoladora a transformação de Leonardo no fanático e obsessivo Howard. Cate Blanchett atua na pele da belíssima Katherine Hepburn, com quem Hughes teve um caso em meados da década de 30. Merecem destaque, também, no elenco Alan Alda (Senador Owen Brewster), John C. Reilly (Noah Dietrich) e a lindíssima Kate Beckinsale (Ava Gardner). 

E, no contexto geral, torna-se mais um filme de Scorsese. Uma análise da vida de um ambicioso homem que quer tudo e tudo mais, sem medir limites, e que no final de tudo não se vê apto a sobreviver à medida na qual a força das circunstâncias recai sobre ele. Um típico personagem scorsesiano. Howard Hughes torna-se mais um, dentre Henry Hill, Bill Cutting, Jordan Belfort, Travis Bickle. Não há quase nada inusual em O Aviador. É um filme sobre a ambição, a fúria e o medo, em termos resolutivos.


E ainda para contribuir mais ao sucesso retumbante de O Aviador e oferecer à cinebiografia um quê digno de retrato épico, temos em jogo uma equipe técnica deslumbrante de talentosa e empenhada. Robert Richardson, como sempre, é insubstituível na autoria da confortável direção de fotografia, que oferece um amplo e belo visual à obra. Os figurinos de Sandy Powell caracterizam e imortalizam a época narrada no filme, tal como a brilhante direção de arte de Dante Ferretti e Francesca LoSchiavo, que, como sempre, realizam um formidável trabalho recriando cenários e objetos icônicos. A trilha sonora de Howard Shore é triunfal.

E tal como seu personagem principal, Howard Hughes, que possui uma incessante obsessão de perfeccionismo pela produção de seus filmes (no início do filme, Hughes pede emprestado duas câmeras à produtora MGM para fazer a filmagem de algumas cenas, mais tarde afirmando ter vinte e quatro modelos da câmera consigo), O Aviador possui essa obsessão, pois é impossível notar irregularidades na confecção do retrato. É tudo detalhado com extrema cautela e perfeição. Puxa... com tudo isso, é impossível, seriamente, deixar de reconhecer a importância e a magnitude de O Aviador dentre as produções épicas cinematográficas, talvez, da história do cinema. Muito bom filme!

O Aviador (The Aviator)
dir. Martin Scorsese -