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terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Crítica: "CRASH - NO LIMITE" (2004) - ★★★


– O que é tão engraçado?"
– As pessoas, cara!"

Crash - No Limite é muito provavelmente um dos filmes que mais me dividiram que eu já vi. Eu gosto e não gosto. Quer dizer, pra falar a mais pura verdade, eu nem odeio Crash e também não o idolatro. É love it or hate it. E não é que eu esteja tirando a razão de quem gosta e quem não gosta, mas quem gosta tem bons motivos assim quem odeia também tem bons motivos. É um filme ambíguo, difícil de digerir e tortuosamente constante, sem freio. De qualquer modo, Crash certamente merece ser visto. 

O então roteirista Paul Haggis, que fora descoberto por Clint Eastwood em Menina de Ouro, 2004, aventurou-se não só no roteiro mas desta vez na direção de um filme complicado, discutindo sua produção, e que exige de um profissional com punhos de ferro e determinadíssimo. Como diretor, Haggis apenas tinha no currículo Red Hot, pouco falado título independente co-estrelado por Carla Gugino. Digam o que quiser sobre o filme, mas não mexam na direção-revelação de Paul Haggis. Certas sequências são tão inacreditáveis de bem-feitas. Não sei o que é maior: a condução bem-vinda de Paul ou a edição de Hughes Winborne, o braço direito da direção. 

Falando nisso, acho o Oscar de Melhor Filme a Crash, há dez anos, injustíssimo, mas acredito que os outros dois prêmios entregues na noite ao filme (Roteiro Original e Edição) foram merecidíssmos. Sei que fica meio estranho colocar dessa forma, mas o roteiro de Crash é bom apesar das fraquezas. 

A firmeza da narrativa, os diálogos ácidos e quase sempre desconfortáveis que confrontam o público e reforçam a ideia de "denúncia ao preconceito", a exposição de diversas histórias entrelaçadas, uma conexão nada particular e bastante inteligente. A construção das pistas que vão lentamente unindo os elementos, os personagens e as mensagens é cuidadosa e nutritiva. 

Minhas sequências favoritas em Crash são três: o acidente de carro (que cena avassaladora!), a cena do tiro (vocês não imaginam a minha reação da primeira vez que vi o filme, foi realmente chocante) e a cena da carona do policial (aquela é de sofrer). 

Vale mencionar que Crash é um baita de um melodrama. Quem é mais emotivo tem tendência a se emocionar com o desfecho final, mesmo que lotado de defeitos. É claro, quem mais ajuda nisso é o elenco show. Dos que lembro: Terrence Howard, Don Cheadle, Sandra Bullock, Michael Peña (que no ano seguinte fez um papel pequeno num filme bem próximo de Crash quanto à temática abordada, que foi Babel), Ludacris (sim, o rapper, e diga-se de passagem a performance dele, mesmo que curta, é extraordinária - acho que até merecia uma indicação ao Oscar mais do que o Matt Dillon), Thandie Newton (vencedora do BAFTA, e, já que entramos no assunto, fez falta no Oscar 2006), Ryan Phillippe, Brendan Fraser, e por aí vai...

Se por um lado Crash até possui certas qualidades, do outro é totalmente imperdoável quanto às falhas. O longa possessa-se se de erros tão gritantes que é quase irreal crer na imensa quantidade de elogios que a crítica americana dirigiu ao filme. Quero dizer, não é impossível nem proibido, mas é um filme que tinha tudo pra ser desvalorizado até a última gota, e teve tanta aclamação. É de encorajar qualquer a botar qualquer produção meia-boca nos trilhos e ver funcionar com tanta glória. Bom, talvez seja algo geográfico - quem sabe? 

Crash se repete tanto que dá a impressão do filme ser uma avalanche imparável, realmente sem freio. O filme não tem vida. Do começo ao fim, tudo posto em tela, cada cena, é um exemplar gêmeo do outro do preconceito, da dor, do ódio, da ignorância, da falta de amor em geral como um só. Estaria o diretor metaforizando o preconceito como efeito geral da ignorância à afeição e à humanidade? 

De qualquer forma, Crash tenta impressionar. E impressiona. O problema do filme é que ele não anda, ele não retrata. O que o Crash faz é ilustrar pessimamente o mundo em que vivemos como abrigo do preconceito e da discórdia, um mundo em que todos nós praticamos o preconceito visível ou invisivelmente. Quer dizer, eu, tu, ele, nós, vós, toda a porra do planeta é preconceituoso. O grande quê é que Crash pinta esse quesito como uma doença, um "parasita dos tempos modernos": quem é preconceituoso, quem denuncia o preconceito, que nem sabe o que é preconceito, quem repudia o preconceito, quem propaga o preconceito: todo mundo, querendo ou não, tem o preconceito no sangue, isso aos olhos de Crash. Los Angeles virou a Terra: ninguém te toca, todos estão atrás do vidro e do metal. 

Por outra via, essa ideologia movimenta uma reflexão interessante: o preconceito oprime a evolução de pensamento e de convivência. O preconceito é, de fato, algo maior do que a nossa mente pode projetar. Esse mal consome a liberdade, consome o direito de ser e de viver em harmonia. Paz? O que significa paz? Do título Crash (verbo "colidir" em inglês) vem o curto discurso que abre o filme (pelo personagem do Don Cheadle). Em Crash, estórias se cruzam e colidem umas com as outras. Essa interconexão é o efeito colateral de um impacto fatal. Agora, se é um filme bom ou ruim: Crash depende do público, da nossa relação com o preconceito e da nossa visão acerca o preconceito e o seu impacto no mundo e na atualidade. 

Crash - No Limite (Crash)
dir. Paul Haggis - 

domingo, 7 de junho de 2015

Crítica: "TERCEIRA PESSOA" (2013) - ★


Que decepção! Não sei se é só impressão minha ou se Paul Haggis decidiu fazer um auto retrato de sua pessoa dentro do personagem de Liam Neeson, Michael, um escritor atravessando uma crise de bloqueio. Só pode por que, é muita falta de criatividade. Não é possível. Ele só pode ter feito de propósito. E pensar que um cara desses já escreveu belíssimas obras do cinema, que vão de Menina de Ouro até Crash - No Limite. Puxa, é muito decepcionante. Terceira Pessoa, além de ser confuso e cansativo, exagera nos clichês e apenas reutiliza uma técnica com insuficiência e insensibilidade. 

Terceira Pessoa demorou pra chegar no Brasil (depois da sessão, vê-se o porque). Lançado em 2013 nos EUA, o longa só chegou no território nacional, bem timidamente, só em março deste ano, em circuito selecionado. E por mim, filme deste tipo podia muito bem permanecer por lá, já que aqui não teve nenhum aparente impacto. Só atrapalhou. Estranho a PlayArte, produtora que tem tido bons longas em sua seleção, ter logo decidido trazer ao Brasil um longa tão inconveniente e insensato como esse, que, além de não trazer um pingo de lucro à ela, desaponta o espectador e não traz novidades.

Terceira Pessoa não faz sentido. Simplesmente isso. Não dá pra dizer ao certo se o estilo da trama é o mesmo estilo de interconexões já utilizado brilhantemente por Haggis em Crash - No Limite ou se trata apenas de uma antologia. É muito sem sentido, sem nexo, sem aparentemente conexão. Sem porra alguma. O filme é puramente nada. Nada, nada, e mais nada. As histórias parecem desligadas umas das outras, apesar de Paul fazer uma questão idiota de intercalar uma nas outras através da edição talentosa de Jo Francis, que apenas faz com que esse anseio de Paul em intercalá-las apenas transpareça como uma antologia, o que é mais ainda odiável.

E olha que desperdício... Terceira Pessoa tem um elenco pra lá de bom. James Franco, Maria Bello, Olivia Wilde (que ultimamente vem mostrando-se tecnicamente matura nos filmes em que atua), Mila Kunis (outra que já  vem trocando o gênero besteirol por conteúdo de mais qualidade, digamos, desde que atuou em Cisne Negro), Adrien Brody, Kim Basinger e o prestigiado Liam Neeson! Todos estão, infelizmente, horríveis em Terceira Pessoa. As únicas que se salvam são Mila Kunis, ainda que essa salvação tenha se revelado em pouquíssimas cenas estreladas por ela, e a israelense Moran Atias. Apenas elas. O resto não gerou nada. Nem Neeson.

O filme narra três distintas histórias, que pelo menos de alguma forma pela qual eu não consegui ver, se entrelaçam ao evoluir da trama: na cidade de Nova York, Julia é uma mulher que trabalha como empregada e tenta conseguir a custódia do filho após ter tentado matá-lo durante uma crise. Em Roma, Scott, um americano que falsifica desenhos de figurinos, decide ajudar Monika, uma prostituta que quer salvar sua filha de oito anos do mundo ao qual ela entrou, e para isso, precisa de uma determinada quantia de dinheiro, que só vai aumentando. Em Paris, Michael é um escritor sem inspiração que se baseia na jornada de sua amante, a bela Anna, para escrever um romance. Resumindo: Julia é uma psicopata sem nenhum motivo aparente, já que ela não é pressionada e não é, a nenhum momento do filme, colocada à frente de uma situação de risco que poderia danificar seu estado emocional, excedendo o caso de sue filho. Scott se apaixona pela bela Monika e, para passar uma noite com ela, decide dar dez mil reais a um mafioso para resgatar a filha da prostituta, o que no final fica tão confuso que até é difícil de explicar/dar spoiler. E Michael tem uma amante desolada, e ele parece se sentir inspirado nela ao ponto de usar o desfecho das ações na vida dela como base da história de sua "ficção", que no final mais parece um desabafo pessoal forçado, ou seja, sem sentido algum.

Olha, é tanta decepção que só jogar culpa no filme não adianta. Tem que enfatizar: o filme não faz nada. Nada. Tem que justificar. Não vou ter dó desta vez. O filme é uma besteira. Porém, sempre há um porém  no meio de tanta confusão, para nossa surpresa. Além das performances de Kunis e Atias, a trilha sonora de Dario Marianelli é estonteante. O italiano, autor das trilhas dos grandes sucessos de Joe Wright, incluindo Orgulho e Preconceito, Desejo e Reparação e Anna Karenina, além de também ter sido creditado nas trilhas de Os Boxtrolls, V de Vingança, Jane Eyre, Comer Amar Rezar e Neste Mundo, aqui em Terceira Pessoa merece honradamente o título de herói, isso por que a trilha sonora é algo que aparece secundariamente no longa. Prova de que, mesmo numa bomba, a trilha, a música, o som, pode salvar tudo. Belíssima trilha.  

Fora isso, é preciso voltar à triste realidade que aprisiona Terceira Pessoa. Difícil é ver como esse filme recebeu tanta grana para ser produzido, além de apoio internacional vindo da Alemanha, da França e de outros países. É uma falta de consideração tremenda. E, ainda sim, se neste filme tiver um culpado, sinto em dizer que ele é Paul Haggis. Não é o elenco, nem a produção, nem nada, mas sim Haggis. Dirigindo o filme de uma maneira desconfortável, o roteiro, para a surpresa novamente, é quem assume a culpa do caminho por onde o filme foi dirigido. Não há conflito. Não há reviravolta. Não há emoção. É tudo tão repetitivo. É triste, por que Haggis é um cara de talento. Mas depois de Terceira Pessoa, fica até difícil confiar nele em próximas produções. É muito ruim. Terceira Pessoa é um filme péssimo. Decepção total. E pensar que eu tinha esperanças de ver algo bom nesta porcaria de filme. Muito péssimo. 

Terceira Pessoa (Third Person)
dir. Paul Haggis -