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domingo, 13 de novembro de 2016

Crítica: "À PROCURA DO AMOR" (2013) - ★★★★


O que mais me surpreende é como eu sou vulnerável a comédias românticas feel-good mesmo que eu não seja tão apegado assim a esse estilo de filmes caso comparado a outras pessoas. Eu simplesmente não consigo resistir. E não foi nada diferente com À Procura do Amor, que é uma perfeita representação desse subgênero que eu tanto idolatro. Em tela, os talentosos astros de TV James Gandolfini (este foi seu último trabalho) e Julia Louis-Dreyfus interpretam um casal nesta amável crônica romântica de Nicole Holofcener, diretora da comédia de humor negro Sentimento de Culpa.

Acontece que este filme não apenas me pegou de surpresa como também me fez ficar completamente apaixonado por ele. Estou apto da minha vulnerabilidade já mencionada em linhas anteriores, e o quanto me convenço fácil com histórias de amor desse nível, porém fiquei tão apaixonado por esse filme que, eu não sei, seria capaz de dizer que me alegrou de tal forma capaz de embelezar o meu dia e fazer meu coração bater mais forte. É uma história de amor simples, modestinha, mas que me atraiu muito.

A personagem de Julia Louis-Dreyfus, uma massagista chamada Eva, conhece numa festa Albert, um sujeito divorciado que trabalha em um acervo televisivo e cuja filha está prestes a deixá-lo para ir para a universidade. Eva está passando pela mesma situação com sua filha, Ellen, que vai fazer faculdade em Nova York. Inesperadamente, Eva se apaixona por Albert. Nesse panorama, Eva também faz amizade com uma poetisa (Catherine Keener), que conheceu na mesma festa que se encontrou com Albert pela primeira vez. Uma espontânea coincidência irá unir esses três personagens.

Confesso que gostei mais de À Procura do Amor do que de Sentimento de Culpa. É um filme mais leve, suave, adocicado e digerível. Holofcener é uma grande promessa como roteirista. Ela, que se restringiu mais recentemente à produções televisivas, já demonstrou nas telonas que seu talento é o roteiro. Neste quesito, À Procura do Amor é estarrecedor. O roteiro é um dos pontos fortes dessa comédia romântica inesquecível, que também conta com as duas performances de ouro de Louis-Dreyfus (indicada ao Globo de Ouro de Melhor Atriz, Filme Comédia ou Musical em 2014) e o saudoso Gandolfini (indicado ao prestigiado prêmio SAG na categoria de Ator Coadjuvante), em sua última grande e memorável interpretação.

A partir da segunda parte de À Procura do Amor, a trama fica mais acirrada com a revelação de uma estranha coincidência (vou parar por aqui pois, se eu for mais à frente, talvez eu dê corda a algum spoiler), o ponto-chave para o conflito central da trama. Daí, instala-se um impasse complicadíssimo de se resolver, quase impossível, para dizer o mínimo, de se concluir. Holofcener encontra uma solução irregular, mas que consegue contornar o problema de então dar ênfase à progressão de trama e justificar o caminho que os personagens tomam.

De certa maneira, o encerramento do filme deixa alguns pontos esclarecidos (o destino da personagem de Keener, diga-se de passagem, não é preenchido, e esse vazio pode incomodar a alguns espectadores mais detalhistas e que prezam pela observação minuciosa dos personagens e seus rumos), mas não dá pra negar que é satisfatório. O recurso da metáfora é usufruído com genialidade, e dá substância e carga à potente narrativa (o forte de Nicole Holofcener) em À Procura do Amor, uma comédia romântica de ouro. Ainda estou anestesiado de amor por esse filme maravilhoso.

À Procura do Amor (Enough Said)
dir. Nicole Holofcener - 

domingo, 6 de novembro de 2016

Crítica: "TERAPIA DE RISCO" (2013) - ★★★


Steven Soderbergh ameaçou ser este seu último filme como diretor. Bem, sei lá porque ele foi falar isso, mas não é verdade, visto que seu próximo filme, Logan Lucky já está em fase de pós-produção. O fato é que eu fiquei um pouco desapontado com Terapia de Risco. Esperava mais desse suspense sobre uma mulher deprimida que começa a tomar pílulas que só pioram sua saúde mental. Ao todo, não é um filme ruim. Uma trama instigante e que cria um clima que conspira a seu favor. O resultado peca justamente na satisfação. Seria pedir demais por um final mais bem feito? De uma forma ou de outra, é um exemplar de filme que desperdiça com a maior cara de pau a chance de ser um thriller repleto de reviravoltas fascinantes e um jogo de personagens e situações loucamente tenebrosas, ironicamente o exato contrário do que realmente acontece em Terapia de Risco, cuja resolução irregular está remotamente distante de tais expectativas, infelizmente.

Rooney Mara interpreta uma mulher cujo marido (Channing Tatum) acaba de sair da prisão. Inesperadamente, somos surpreendidos quando ela revela sofrer de depressão, algo que não está muito claro nos momentos iniciais do longa (uma pista extremamente importante sobre o desenrolar da trama confusa). Ela então conhece um psiquiatra (Jude Law) que a receita medicamentos hiper fortes e com uma série de efeitos colaterais. Nada melhora, e isso acaba afetando não só a ela mas também às pessoas ao seu redor. Seu marido é a primeira vítima de sua psicopatia, ou melhor: dos efeitos colaterais dos remédios que ela está tomando. 

A trama é bem construída, de fato. A reviravolta traz uma resolução curiosa. Mas há um vazio em Terapia de Risco. O filme termina, e esse vazio continua bem ali, a ser preenchido. Um filme tão rico em possibilidades desperdiçar a grande chance de ser um estouro é uma decepção do cacete. Estamos falando de Steven Soderbergh, um cara adorado e odiado por muitos com uma filmografia repleta de pérolas (e também de alguns títulos podres). Ele trazer um filme tão mediano assim, e dizer (mesmo que falsamente, gente) que é seu último poderia ser não apenas desmerecedor mas também um sinal de ingratidão. Mas como foi tudo desmascarado, olhemos para o outro lado.

A performance de Rooney Mara é excelente. Sua personagem ambivalente também merece menção. A cada filme que eu assisto estrelado por ela, mais me encanto com seu talento radiante e insuperável, e concretiza-se a certeza de que ela é uma das maiores intérpretes dessa geração. Sua atuação neste suspense bagunçado e multifacetado é o que o faz valer a pena, por isso devo dizer que esse desempenho é um presentão. Catherine Zeta-Jones, que anda meio sumida das telas, está ótima em todas as cenas que aparece, em especial uma de destaque. Jude Law interpreta aquele mesmo personagem certinho de sempre. Um ator tão bom se meter em personagens tão parecidos esteticamente é quase um crime. Por isso nem ouso dizer que me alegrei com sua atuação, por mais esforçada e eclética que seja. 

Terapia de Risco (Side Effects)
dir. Steven Soderbergh - 

sexta-feira, 22 de julho de 2016

3 COMÉDIAS + 1 DOCUMENTÁRIO + 1 FILME SOBRE CULINÁRIA


Roman Polanski: A Vida em Filmes (Roman Polanski: A Film Memoir)
dir. Laurent Bouzereau - 

Já havia sido feito, e recentemente, um documentário sobre o querido cineasta polonês Roman Polanski (Roman Polanski: Procurado e Desejado, de Marina Zenovich, ano: 2008). Este Roman Polanski: A Vida em Filmes, lançado um tempinho mais tarde, em 2011, se baseia numa premissa um pouco diferente da versão de 2008. Andrew Braunsberg, produtor (Muito Além do Jardim, O Inquilino) e grande amigo de Polanski, é recebido na casa do cineasta na Suíça, onde ele cumpriu pena depois de ter sido preso em 2009, e o documentário se instala numa conversa entre Polanski e Braunsberg sobre a trajetória e a carreira do diretor. Trata-se de um dos documentários mais interessantes que eu vi de uns tempos pra cá, se bem que eu não ando vendo muitos documentários ultimamente. Enfim, é certamente um filme fascinante e interessantíssimo. E, para fãs do Polanski como eu, Roman Polanski: A Vida em Filmes é obrigatório. Achei muito curioso quando o Andrew perguntou qual era o filme que o Polanski considerava ser o melhor dele e ele disse que era O Pianista, que, de fato, é um dos melhores trabalhos dele. Aliás, O Pianista, apesar de ser a biografia de Władysław Szpilman, tem um toque autobiográfico por parte do Polanski, que experienciou de perto o terror e a agonia durante a guerra. Durante o documentário, ele fica emocionando inúmeras vezes, ao lembrar da família, do pai, que foi para um campo de concentração quando ele ainda era criança e quem ele milagrosamente reencontrou anos depois (Polanski chega a relatar que, depois que o pai foi levado pelos nazistas, vivia confundindo outros homens com ele, na esperança de ele continuar vivo), da ex-esposa Sharon Tate, que foi brutalmente assassinada às vésperas de dar à luz pela "família Manson" em 1969. Polanski teve uma vida muito difícil. Surpreendentemente, a carreira dele começou no rádio, beirou o teatro, até que ele se firmou no cinema, como um figurante, depois fazendo curtas, até se tornar o grande diretor que é, dono de alguns dos melhores filmes já feitos, como Chinatown, A Faca na Água, O Pianista, Tess, O Bebê de Rosemary, Repulsa ao Sexo, entre outros. Visto na Netflix (17/07).


Julie & Julia
dir. Nora Ephron - 

Há quem diga que Nora Ephron era a versão feminina do Woody Allen. Aclamada pelo trabalho de roteirista (indicada 3 vezes ao Oscar de Melhor Roteiro Original por Silkwood, Harry & Sally e Sintonia de Amor, não tendo vencido nenhuma vez, injustamente e infelizmente), e mais tarde celebrada como diretora (Sintonia de AmorMens@gem pra Você e Bilhete Premiado estão entre os filmes que Nora assina como diretora/roteirista), Nora nos deixou cedo demais, há quatro anos. Muito triste. Julie & Julia foi o último trabalho da talentosa Nora tanto como diretora e roteirista. Não é a obra-prima dela, mas é um filme encantador. Eu diria que é quase como um feel-good, daqueles de adoçar o nosso imaginário e dançar valsa com nossas emoções. A irretocável Meryl Streep entrega uma performance deliciosa, apaixonante, brilhante, no ponto, tudo o que se espera de uma atuação dela: um espetáculo. Amy Adams, que de talentosa tem de sobra, também não está nada mal na pele de uma blogueira, Julie, que escreve sobre culinária e que idolatra a cozinheira Julia Child, sua musa e inspiração. O filme se equilibra em dois planos, o da Julie e o da Julia, duas mulheres se aventurando no mundo da culinária e compartilhando diversas coincidências e acasos, embora sejam separadas pelo tempo. O roteiro é fenomenal. Stanley Tucci e Chris Messina ganham espaço como coadjuvantes. Não dá pra reclamar de Julie & Julia. Visto em DVD (dia 24/06).


Para Maiores (Movie 43)
dir. vários - 

Ô filmezinho ruim da bexiga! Quer dizer, ruim é pouco. Para Maiores é uma porcaria de filmes. Simplesmente um lixo. Entraria fácil numa lista de "piores filmes já feitos". É aquele tipo de filme que só os idiotas gostam. Aliás, é uma ofensa ao paladar fílmico das pessoas idiotas dizer que esse é o tipo de filme que lhes agrada. Para Maiores é um filme baixo, muito baixo. Quase odiável. A reunião de um elenco realmente invejável (Naomi Watts, Kate Winslet, Hugh Jackman, Emma Stone, Halle Barry, Liev Schreiber, Anna Faris, Chris Pratt, Richard Gere, Jack McBrayer, Uma Thurman, Katrina Bowden, Bobby Cannavale, Chloë Grace Moretz, Gerard Butler, Terrence Howard, Elizabeth Banks, e por aí vai). Na verdade, o filme é uma reunião de curtas (taí o porquê do elenco gigantesco) de diferentes diretores que os filmaram ao longo de um certo tempo para esse projeto. E, mesmo assim, isso não justifica a escolha dos atores, já que cada sequência é mais ridícula e menosprezível que a outra. Seria dinheiro? Pouco crível, já que o financiamento foi relativamente baixo (tá na cara porque ninguém quis produzir isso). Seria por entretenimento? Improvável, já que de divertido Para Maiores não tem é nada. Seria pela arte? Impossível. É vergonhoso e inútil. Dá vergonha de assistir a uma porcaria dessas. Repugnante, na mais franca das hipóteses. Visto na Netflix (16/07).


O Amor Custa Caro (Intolerable Cruelty)
dir. Joel Coen, Ethan Coen - ★★★

Os irmãos Coen são gênios. Apesar de estar longe de estar entre os melhores filmes da dupla, Amor a Todo Custo é um exemplar veemente de competência e vigor dessa incansável dupla que de filmes bons tem a filmografia lotada. George Clooney vive um advogado que come na mão de uma mulher manipuladora caçando o marido "ideal". É um de seus trabalhos mais divertidos e tenazes. Os desempenhos de Catherine Zeta-Jones e George Clooney são imperdíveis. Mesmo sendo um filme mais incomum , não deixa de ser caprichadíssimo, em especial a fotografia de Roger Deakins, sempre pulsante. O Amor Custa Caro fascina pela originalidade. Cativante, sem deixar de ser profundo. Leve, sem deixar de ser preciso. Engraçado, sem ser imaturo. Irônico, sem ser desrespeitoso. Mais uma vez, os Coen mostram que dominam o gênero comédia e são bons no que fazem. Não há razão para ser tão subestimado e ignorado. A crítica pisoteou e desperdiçou o filme. Uma pena, pois é excelente, e merecia ter um reconhecimento à altura. Visto na internet (24/06).


Procura-se um Amigo Para o Fim do Mundo (Seeking a Friend for the End of the World)
dir. Lorene Scafaria - ★★

Este eu estava devendo ver há um tempão. Na época em que o descobri, ano passado, fiquei extasiado quando soube que nele Steve Carell, um comediante que eu considero um cara fenomenal, e Keira Knightley, uma das atrizes mais bonitas e talentosas dos últimos anos, estavam contracenando. A história também é bastante curiosa. Um homem (Carell) é abandonado pela namorada, e pra completar o fim do mundo se aproxima. Ele e a vizinha (Knightley) decidem resolver alguns assuntos pendentes juntos, e partem em uma viagem bastante excêntrica enquanto um meteoro se aproxima da Terra. É um filme que tem seus pontos positivos mas que é extremamente maçante. A dupla Keira e Steve é sensacional. Inconvencional e ocioso, Procura-se um Amigo para o Fim do Mundo tem seus momentos, mas é, na maior parte do tempo, desgastante e supérfluo. Visto na Netflix (11/06).

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Crítica: "ÁLBUM DE FAMÍLIA" (2013) - ★★★


Não deixa de ser um filme interessante, mesmo com todos os seus defeitos, esse Álbum de Família. A questão é que trata-se de um projeto cativante, mas sem força, facilmente esquecível, passível, sem novidades. Álbum de Família segue a cartilha dos filmes com famílias perturbadas, até se entregando a certos clichês toleráveis do subgênero com certo charme. Não traz nenhuma inovação e está bem longe de ser notável, mas bem que merece certa atenção se formos levar em conta o elenco, por exemplo, e outros quesitos menores.

O elenco é, sem dúvida, o grande atrativo de Álbum de Família. Julia Roberts, Chris Cooper, Ewan McGregor, Margo Martindale, Sam Shepard, Julianne Nicholson, Juliette Lewis, Abgail Breslin, Benedict Cumberbatch... E, é claro, a excepcional Meryl Streep, cuja performance no fim das contas acaba sendo a melhor coisa desta produção. Nem mesmo Julia Roberts, em uma atuação enormemente plausível e indicada ao Oscar, foi capaz de superar a querida Meryl, mais uma vez brilhante na pele de uma matriarca problemática enfrentando os conflitos familiares que surgem embutidos a um tempestuoso reencontro. 

Muito embora seja a adaptação de uma peça, o filme em si não é nada, digamos, teatral, ou adequável ao ambiente teatral. E isso dá corda para certas limitações, que complicam o andamento do filme e transtornam um pouco as coisas, e isso inclusive afeta um pouco o elenco, que fica desproporcional. Apesar disso, a autora do roteiro adaptado é a mesma que escreveu a peça, Tracy Letts. O diretor do filme é John Wells, que coleciona, contando com este, três filmes. John trabalha mais como diretor de TV. Seu primeiro longa foi A Grande Virada, com Ben Affleck. Seu mais recente é o odiado Pegando Fogo, que ainda não conferi.

Embora digam que é um drama, Álbum de Família está mais para comédia, o que explica um pouco terem nomeado a Meryl em Comédia/Musical ao Globo de Ouro ano retrasado, nomeação que causou espanto, já que muitos levam a interpretação dela para o lado dramático. Mas acho que não dá pra dizer se é dramática ou se é cômica. Digo cômica porque a maior parte do tempo lá estava eu rindo das presepadas da personagem doida dela cujas bizarrices são engraçadíssimas, ainda que o clima dramático pinte no ar em certos momentos. O diretor de fotografia do filme é o brasileiro Adriano Goldman (ele já trabalhou em filmes como Jane Eyre, Trash, 360 e no cinema nacional Xingu e O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias). A trilha sonora é de Gustavo Santaolalla. Enfim, Álbum de Família deixa a desejar um pouco quanto a certos aspectos, porém acaba sendo uma maravilha, muito por conta do elenco, que só tem gente fina e talentosa. A escolha não poderia ser melhor. E a Meryl está excelente, novamente. 

Álbum de Família (August: Osage County)
dir. John Wells - 

domingo, 6 de março de 2016

Crítica: "NEBRASKA" (2013) - ★★★★


Lembro de ter acompanhado avidamente e com energia o Oscar 2014, do início ao fim, desde as previsões baratas pós-Oscar 2013 até o anúncio dos indicados ao Globo de Ouro, prêmios de sindicato & cia. Creio até que o Oscar 2014 foi a edição mais badalada que eu já segui, se bem que eu sou novo no ramo então não posso afirmar mais. Também foi a 1ª edição que eu vi pela TV, inteira, desde o tapete vermelho até o anúncio do vencedor de Melhor Filme. No Oscar 2013, dormi bem no começo, e estava acompanhando pelo celular, vejam só! Peguei o Oscar 2012 bem no meio, e só deu pra conferir alguns vencedores. E lembro de só ter conferido alguns flashes do Oscar 2011 (vale lembrar que sou um cinéfilo de tempo recente, pessoal). Enfim, voltando ao que interessa: em compensação, um montão de filmes indicados ficaram pra ver depois do prêmio na época (fiquei dando atenção para as categorias menores e esqueci os fortões). De 2014 pra cá, desde que consegui uma cópia de Nebraska, tentei ver um bilhão de vezes e nunca terminava. Até hoje. 

Dirigido por Alexander Payne (é estranho, mas o Payne não tem nem 30 anos de carreira - às vezes, dá a impressão de que, com aquela filmografia, o cara é um veterano), Nebraska é uma reflexão intensa e simplista sobre a velhice, o tempo e as singelezas que a vida nos apronta. Nebraska é muita coisa ao mesmo tempo. E é também uma obra pra lá de espetacular. Na minha opinião, o melhor filme do Payne continua sendo Sideways - Entre Umas e Outras, muito embora eu não tenha conferido ainda nem Os Descendentes nem As Confissões de Schmidt (esse eu vi parcialmente, confesso), mesmo assim Nebraska tem sua importância e devido lugar na filmografia do americano.

É a história de um idoso, Woody (Bruce Dern, numa performance absolutamente incrível), que recebe uma carta que diz que ele recebeu 1 milhão de dólares. A carta, no entanto, é a propaganda de assinatura de uma revista (marketing). O homem então decide partir para a cidade de Lincoln, em Nebraska, para "buscar" a tal fortuna. O filho dele (Will Forte), que trabalha numa loja de aparelhos eletrônicos, ciente da presepada, decide fazer uma viagem só para distrair a mente dele. 

Apesar do desenrolar contido e pouco conflituoso, a narrativa de Nebraska é de ouro. O roteiro, magistral, leva a assinatura de Bob Nelson. O astral melancólico do filme proporciona momentos confortáveis dramáticos bem como certos destaques cômicos (a atuação excepcional da June Squibb, por exemplo), muito embora o filme esteja bem distante de ser uma comédia propriamente dita. É um road movie com pitadas de drama, mas que também não é um drama propriamente dito. É difícil descrever a qual gênero Nebraska pertence. Comédia dramática? Sim, sim, acho que ficou melhor dessa forma.

A fotografia em P&B, de tons cinzentos e prateados, ampliam a sintonia com um clima melancólico e vagaroso assumido pelo filme. As paisagens, os cenários, os espectros antiquados... Nebraska é visualmente potente, sem sombra de dúvida. Um prato cheio pra quem aprecia um filme bonito e bem filmado. Alexander decidiu trabalhar novamente ao lado de Phedon Papamichael (de Sideways), e o resultado é delicioso. A fotografia é uma das melhores coisas de Nebraska, presumo. A indicação ao Oscar foi muito justa, e caso vencesse melhor ainda seria, mas era impossível alguém daquela lista bater a fotografia maravilhosa de Gravidade.

Leva um tempo pra compreender mais profundamente Nebraska. O filme vai amadurecendo na nossa memória com o passar do tempo. A influência do cinema pensante de Yasujiro Ozu é notória, como de costume (é possível encontrar a referência em outros exemplares dirigidos por Alexander). A história de passos lentos e largos de um homem procurando "sarna pra coçar" filosofa sobre a emergência do tempo e contempla a busca e seu significado, as raízes da reflexão e a desconstrução da glória e da bondade, da harmonia entre as relações humanas e do medo por aquilo que está perdido.

Seja pelo elenco sadio (além dos ótimos Bruce Dern e June Squibb, Will Forte também tá imperdível), pelo roteiro plausível do estreante Bob Nelson, o Alexander Payne, a fotografia de Papamichael, a trilha sonora divina (Mark Orton), Nebraska é um filme precioso, de muitas maneiras. Rende ver. Um carrossel cinematográfico completo, visionário e bem-feito. Pode não ser marcante, mas é inestimável, essencial. Um olhar complexo e delicado sobre a vida ao redor. 

Nebraska
dir. Alexander Payne - 

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Crítica: "O MENINO E O MUNDO" (2015) - ★★★★★


Que Horas Ela Volta?, escolhido nacional para competir por uma vaga em Filme Estrangeiro, ficou de fora da shortlist em dezembro do ano passado e entristeceu a quem mantinha nele uma aposta firme de forte concorrente. Eis que nos surpreende entre os indicados ao prêmio a produção nacional O Menino e o Mundo, nomeado a Melhor Filme de Animação. O primeiro representante nacional nato há 13 anos, desde Cidade de Deus (apenas os produtores britânicos de Lixo Extraordinário foram indicados em 2011; apesar do diretor e dos compositores indicados brasileiros, Rio é uma animação americana, falada em inglês; O Sal da Terra nomeou uma produtora brasileira, mas é um filme totalmente não-brasileiro - por exemplo, a maior parte do tempo em tela, o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado fala em francês) é uma delícia de filme. Que bela surpresa é O Menino e o Mundo. É um orgulho e tanto ter o filme, maravilhoso, como representante do cinema brasileiro nessa edição do Oscar. 

E o que mais dá orgulho nisso tudo é que temos um filme animado nos representando no prêmio. Animado. São raros os exemplares de animação nacionais nos tempos atuais. Eu mesmo não consigo me lembrar agora de um. Outra coisa bastante inusitada é ver que o primeiro indicado brasileiro a Melhor Animação não foi o Carlos Saldanha (risos), que sequer dirigiu na vida uma animação aqui no Brasil (também, como o pobre coitado iria financiar a produção?). Saldanha teve sorte no exterior e pôde trabalhar dentro de uma das empresas de animação mais ativas da atualidade, a 20th Century Fox Animation, nos representou também como indicado ao prêmio uma vez, lá em 2004, no mesmo ano de Cidade de Deus, em Melhor Curta-Metragem de Animação (Carlos foi indicado por Gone Nutty, um curtinha do personagem Scrat).

O Menino e o Mundo, ao contrário dos projetos de Saldanha, é uma produção bem menos comercial e tecnicamente rica. Os recursos técnicos, aliás, são baixíssimos, mas Alê Abreu, o diretor/roteirista, transforma simplicidade em grandiosidade com genialidade (olha, rimou!). E criatividade (rimou de novo!) E isso é o que não falta aqui. 

No desenho, um garoto do interior, entristecido, vai à procura do pai, que saiu para trabalhar na cidade grande, e dá de cara com uma realidade distinta. A história é de aquecer e cortar o coração ao mesmo tempo. O Menino e o Mundo ostenta de uma beleza e ingenuidade tão simbólicas que chamá-lo de encantador é pouco. Fábula realista, talvez, mas nem tão realista assim, suavizado com um toque de magia, diria. 

As sequências quase oníricas são prazerosas de se ver e emocionantes. O Menino e o Mundo é mais que rabiscos, é mais que uma revolução, é mais que uma vitória... É uma experiência única e indescritível por si só. É enfeitiçante. Alê Abreu trouxe ao mundo um trabalho forte e importante que merece ser conferido por todos. Se levasse o Oscar, seria bonito demais... Merecido com certeza é. 

O filme é quase mudo, não possui muitas falas, mas tem uma extravagância, uma certa força, que nenhum diálogo jamais poderia reproduzir. É selvagem e mundano, idealista e direto. Espetacular. É um presente do "Deus do cinema". Triunfal. Ou mais que isso. Ou tudo de bom. De onde vem todo esse barulho, toda essa riqueza, todo esse brilhantismo? Vem da leveza? Vem da tenacidade? Vem do doce? Vem da lembrança? Só sei que O Menino e o Mundo é lindo demais. Lindo, lindo, lindo, lindo, e mais incondicionalmente lindo ainda. É mais lindo que o lindo do lindo. 

Esqueça a animação computadorizada. Esqueça todos esses mecanismos modernos e a tecnologia que os abraça. Esqueça tudo. Veja O Menino e o Mundo. O grande quê de ver essa animação é seu tecnicismo manual riquíssimo. Arrisco: é uma das animações mais visualmente bonitas que eu já tive a chance de ver em toda a minha vida. E não, não é exagero dizer tal coisa, arrisco. É impossível comparar. O Menino e o Mundo é do jeito que é e ponto. Nunca houve um filme assim. 

O malabarismo de cores é um deleite imenso. Outra coisa que tem e de sobra em O Menino e o Mundo: cor. Traduzindo: vida. Há uma sobreposição bastante interessante, quando se opta por uma transição atribulada: quando o menino deixa o seu lar rural, o visual do filme se transforma drasticamente. O cinza das fábricas, da melancolia e da, então, falta de vida, azeda a jornada do pequeno garotinho protagonista assim que o mesmo adentra às sombras de um centro quebradiço e ordinário: a cidade. A imperfeição de uma realidade chula e bizarra.

O choque da realidade com a humanidade é um contraste devastador. A ausência de opções e chances é sufocante. Viver num mundo onde reina a ignorância e o poder intransitivo é triste demais. A recusa à aceitação encarna resultados desagradáveis. O conforto nas memórias de um passado perfeito. A paternidade. A distância. O sonho. A verdade. A ilusão. A destruição. A partida. Alê Abreu introduz em O Menino e o Mundo um complexo e multifacetado mix de temáticas que tem muito a nos ensinar, dos mais distintos ângulos. 

A representação filosófica de um sistema doentio e apocalíptico: uma prisão. Quem não se enquadra às demandas desse planeta absurdo premissa uma cruel marginalidade. Os padrões de vida de uma sociedade consumista que hoje em dia tem o mesmo impacto das leis. A isolação como privação. O êxodo. A procura existencialista por melhores condições de vida. Os trajetos. O abandono. A desigualdade. A dor. O mal dos tempos modernos. 

O menino. O mundo. A criança. O adulto. O ingênuo. O sofredor. Quem dera ser menino para sempre, desconhecer o triste mundo em que habitamos, esse ninho de ratos, não ter problemas nem saber o que é a tristeza. 

O Menino e o Mundo, com toda a sua magia, beira a doçura e a escuridão. Afinal, é feito para crianças e para adultos. É um retrato verdadeiro e excepcional do mundo atual. Não dá pra esquecer tão facilmente. É uma aquarela de emoções vibrante. Cabe a nós decidir quem seguir: o menino ou o mundo. Na dúvida, eu já sei a quem seguir: O Menino e o Mundo, poesia em forma de registro cinematográfico. Profundamente belo, é uma obra memorável, um rodamoinho de atrações. Corra pra ver, meu filho! Uma crônica tocante, interminavelmente admirável. Ganhou meu voto. E ponto final. Ah, já falei pra vocês que é um filme lindo?

O Menino e o Mundo
dir. Alê Abreu - 

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Crítica: "CLUBE DE COMPRAS DALLAS" (2013) - ★★★★


Em primeiro lugar, Clube de Compras Dallas é um filme muito deprimente. Não querendo dizer que seja deprimente de ruim, mas sim porque conta uma história bem deprê mesmo, de contagiar o espectador. E, ainda que seja assim, não chega a ser um melodrama, de chorar e tal, mas continua sendo um filme bastante difícil de encarar, pela questão da profundidade e do rigor dramático. Um eletricista texano, Ron Woodroof, que ocasionalmente participa de rodeios, descobre ter AIDS e sua vida muda drasticamente.

Ele aprende a ignorar o preconceito alheio quanto à doença e segue pesquisando, até que, após parar numa clínica no México, ele descobre que o medicamento dos hospitais para os pacientes com AIDS está retrocedendo a cura do vírus. Após receber da clínica uma porrada de remédios e vitaminas, ele transporta para os E.U.A. e monta, ao lado da travesti Rayon (Leto, o próximo Coringa), o "Clube de Compras Dallas".

Clube de Compras Dallas levou um tempão pra sair do papel. O roteirista Craig Borten entrevistou Woodroof em 1992, um ano antes de sua morte, e escreveu o roteiro. Oito anos mais tarde, ele o reescreveu ao lado de Melisa Wallack e o vendeu para o produtor Robbie Brenner. De 2000 pra cá, foram incontáveis as tentativas de colocar o projeto nos trilhos. Em 2009, McConaughey foi escalado e não mais tarde o cineasta canadense Jean-Marc Vallée, que na época havia dirigido A Jovem Rainha Vitória, adentrou o projeto. As filmagens começaram em novembro de 2012 e o filme entrou em cartaz um ano depois, em novembro de 2013.

Estrategicamente, o lançamento do filme logo fez par com a temporada de premiações, tendo a dupla Jared Leto e Matthew McConaughey ganhado diversos prêmios de 2013 para 2014, incluindo os Óscares nas categorias de Ator e Ator Coadjuvante, sem falar no prêmio de Maquiagem e Penteados. Vale ressaltar que Clube de Compras Dallas, no entanto, é mais que apenas um filme de Oscar. Definitivamente não é o melhor trabalho, mas se trata de um bom filme na maioria dos aspectos aqui presentes.

Pra começar, o elenco é avassalador, com destaque especial às performances excepcionais da dupla Jared e Matthew. Nunca se viu uma dupla mais competente em papéis tão exigentes. Jennifer Garner na melhor performance de toda a sua carreira, ainda que coadjuvante, e que na minha opinião merecia uma indicação ao Oscar, se bem que nem é essa a preocupação quando se fala de reconhecimento, já que de injustiças o Oscar tem até o talo. A criticada mulher do Ben Affleck encarna uma personagem forte e equilibrada, uma médica que tenta buscar soluções para o tratamento dos pacientes, e que conquista o nosso protagonista.

Às vezes dá raiva da ignorância de Ron Woodroof. A gente sente pena da desgraça da doença que o acomete, e ao mesmo tempo dá vontade de entrar na tela e dar um murro pra ver se ele acorda de vez e larga de palhaçada, de ir procurar um rumo e parar de se perder mais do que já está. Sem querer insinuar spoilers, a certa altura do filme ele até dá uma segurada. É legal ir percebendo como ele vai aprendendo a respeitar a travesti Rayon, quem ele tanto xingava e maldizia, e como a relação deles dois vai crescendo a partir da criação do "Clube de Compras Dallas".

Com um trabalho formidável desses, Vallée se consagra como um diretor de peso (a regência do elenco, a condução das sequências, a idealização em geral), mas que ainda tem muito o que mostrar. Ou seja, ele ainda não conseguiu se libertar do status de promissor. Mas que ele é um bom diretor, isso eu não posso negar.

Clube de Compras Dallas tem certos defeitos, mas é um filme sem sombra de dúvida único, que soma qualidades, difícil de esquecer. De certa maneira, é tão perturbador quanto o filme seguinte de Vallée, que também tinha como protagonista uma pessoa perdida e desencontrada, sem rumo, que vai aprendendo a se render, Livre. Clube de Compras Dallas é impactante.

Clube de Compras Dallas (Dallas Buyers Club)
dir. Jean-Marc Vallée - ★★

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Crítica: "NORTE, O FIM DA HISTÓRIA" (2013) - ★★★★★


Parece que o único jeito vai ser fechar 2015 sem ver todos os títulos ainda pendentes na minha lista de desejos (só pra vocês terem a noção, ainda falta ver o primeiro volume de As Mil e Uma Noites, Straight Outta Compton, Macbeth, e uma porrada de longas). Estes últimos dias foram corridos, rapaz. Mas, enfim, um dos filmes mais importantes dessa lista, e um dos mais obrigatórios, diria, era esse maravilhoso Norte, o fim da História, que chegou do nada no nosso circuito nesse mês, depois de dois anos na espera, e já veio chegando pra ficar. Trata-se do primeiro filme do cineasta filipino Lav Diaz a ser distribuído comercialmente no Brasil. 

O nome do diretor fez sucesso ano passado durante a Mostra de Cinema de Sampa, onde o mesmo abocanhou o prêmio maior do evento com seu comentadíssimo Do Que Vem Antes. Dá até água na boca falar dessa produção, que dura quase seis horas, se eu não me engano, e tem uma sinopse bastante interessante. Enquanto este último não chegou no nosso circuito (ainda, com esperança), dá pra satisfazer a curiosidade em Norte, o fim da História. E, é claro, não dá pra esquecer a primeira vez. Fantástica. Sublime. Lav Diaz é promissor. Logo na estréia, apresenta uma obra-prima extraordinária, riquíssima em todos os sentidos, tocante por dentro e por fora. 

A filmografia de Lav Diaz tem uma marca registrada: as durações, sempre longas. Norte, o fim da História, num todo, e em relação à duração, é um desafio ao espectador. Não é todo dia que a gente encontra um trabalhão desses, de 250 minutos, mais de quatro horas de filme. É bastante admirável. Mas também diminui um pouco as expectativas. Tanto na questão de imaginar o que o filme poderia reunir, visto a sua longa duração, e o surgimento da dúvida desse longa ser ou não bom. Duração é um perigo, meus caros. Lav Diaz sabe bem o que faz em Norte, não deixa rastro algum de imperfeição e constrói uma obra extraordinária, que abraça um universo de filosofias, pensamentos acerca a sociedade contemporânea, histórias entrecruzadas, personagens fortes e um elenco mais que versátil.

A história gira em torno de três personagens, que são focalizados de maneiras distintas durante as quatro horas de filme, e o andamento vagaroso da narrativa. Fabian é um estudante de direito que deu uma pausa na universidade, homem de opinião firme e consistente, que passa um terço do longa discutindo ética, sociedade e história ao lado de professores, colegas da faculdade e amigos diversos. Esconde, por trás do seu rosto de intelectual, façanhas de gênio e a boa lábia para conversar e discutir assuntos politico-sociais, um passado turbulento e irresolvido. 

Centralizados na segunda hora do longa, os personagens Eliza e Joaquin são casados, vivem numa área pobre do país, e levam a vida humildemente, com seus dois filhos. É seguindo um ato de vingança e justiça por parte do personagem de Fabian à uma agiota suja do local que Joaquin vai preso, sentenciado à prisão perpétua, e tem de deixar sozinha a família pobre. 

Eliza segue os anos trabalhando numa barraquinha de vegetais, e sustenta pesarosamente os filhos e a irmã mais nova, chegando até, numa cena, cogitar a possibilidade de matar as crianças em fim de minimizar o sufoco da vida que leva. Ela é uma pessoa fraca, mas que segue adiante sem se lamentar ou reclamar da vida, educando os filhos da forma certa e lhes norteando a verdade e a não terem vergonha do pai, preso. 

Enquanto isso, na prisão, Joaquin, enfermeiro, cria amizade com um dos presos, e mais tarde tem de enfrentar com ele a ira de um chefão da prisão, Wakwak, que castiga até mesmo a quem o olha errado. Joaquin não escapa da punição dele, mas, mais tarde, é o único a permanecer a seu lado, quando ele se fere, oferecendo ajuda médica. É aí que notamos a humildade e a bondade no homem, de bom coração, e que reserva seu tempo na prisão a ajudar os presos doentes e seguir com as memórias da família, e a saudade. O tal chefão, Wakwak, se revela o oposto do que nos era conhecido. O cara vem se desculpar com Joaquin pelas atrocidades que fez a ele. Um sinal de redenção, e de quem ele realmente é fora dali. 

O caminhar monótono de Norte também implica na quantidade de elementos que há para absorver dentro da obra, os muitos contrastes. Nem tudo pode ser captado de uma só vez. É bom ver o filme repetidamente (se possível). Ou, de repente, pensar mais nele. Ele só tende a crescer com o tempo. Afinal, o que mais esperar de 250 minutos? Obviamente teríamos bastante para digerir. 

Às vezes natural e às vezes surreal. Após cometer um crime sangrento, Fabian entra num estado de choque profundo, atribulado, em constante perturbação. Tudo só intensifica quando ele retorna à cena, depois de algum tempo longe, com uma visita à irmã religiosa, um dos mais profundos capítulos de Norte. É aí que é revelado seu passado, a sua infância e o porquê do afastamento da família. É esse capítulo que contém uma das cenas mais intensas que eu já tive a chance de ver, em tempos, pelo menos para causar em mim um arrebatamento inevitável: a do estupro. Os gritos são atordoantes. E, mesmo que a tal cena não seja completamente exibida, é totalmente amedrontador.

O que fascina em Norte é essa sua autoridade, em ser tão ambíguo e despontar em repletos sentidos, o que faz dele uma peça mística e adorável. A vingança é uma faca de dois gumes. Nem sempre fazendo o bem se recebe o bem. Nem sempre fazendo o mal se recebe o mal. Nem sempre perdoando seremos perdoados. A cultura e o estado da Filipinas, aqui visado superficialmente pelo Lav Diaz, mas no ponto certo a fim de causar influência na história, mostra-se, em aspectos, semelhante à do Brasil. Uma cultura excessivamente religiosa, que vê em Deus a figura maior, "o pacificador e redentor, aquele que filtra os erros e tem o poder de purificar". Todos colocam tudo nas mãos desse Deus, onde buscam a realização de seus sonhos, de suas ambições em geral. Veem nessa figura um justiceiro fiel. 

Norte também é um trabalho de beleza visual irreparável e memorável. Certamente, não é o mais belo filme que vi em 2015, mas destaca-se. Lav Diaz ainda tem muito o que nos mostrar. O cara é show. Se em Norte ele já faz maravilhas, imagine daqui em diante? Mas, enfim, louvemos o presente. Norte, o fim da História é um filme inesquecível. Divaga nas profundezas da alma humana, cativa com sua simplicidade, complexa ao mesmo tempo, encontra nas suas muitas reflexões sobre a participação da reviravolta em prol da justiça o sublime.  Não dá pra reclamar. Em nada. Singular. Espetacularmente singular. Nunca visto. Lav Diaz é o cara.

Norte, o fim da História (Norte, Hangganan ng Kasaysayan)
dir. Lav Diaz - 

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Crítica: "TOM NA FAZENDA" (2013) - ★★★


Extremamente curiosa essa safra de jovens diretores que a nova geração está parindo. Um dos maiores e últimos destaques desse vasto grupo é o canadense Xavier Dolan, dono de alguns títulos aclamados internacionalmente e que, em pouco tempo, ganharam a confiança do espectador e também da crítica, muito embora aqui no Brasil sua filmografia ainda seja considerada controversa e tenha dividido muito as opiniões, isso mencionando sua mais recente produção, o espetacular drama Mommy, abraçado por uma tenebrosa onda de negativismo quando de sua estreia nacional, ano passado. Polêmico e sensível ao mesmo tempo, os trabalhos de Dolan isentam-se da porca mesmice que seu estilo pop abriga e carregam consigo uma inovação quase que revolucionária, até por que mesmo não sendo tão surpreendente, ele, com muita facilidade, sabe controlar os exageros da sua abordagem, quase sempre virada para uma dramatização que simboliza a transição do jovem para o adulto, abusando com vontade da homossexualidade, assunto-chave da grande parte de seus longas.

Muito embora Mommy, seu filme mais famoso, não seja diretamente ligado ao clima gay presente, por exemplo, em Amores Imaginários, é possível denotar a sua forte presença dentro de outros, como Laurence Anyways e o pouquíssimo visto (que nem chegar ao Brasil chegou) Tom na Fazenda, suspense que enquadra a visita de um jovem homossexual à fazenda da família de seu falecido amante, morto em decorrer de um acidente. Tal visita o leva a boas e más recordações de seu romance, e ao cortinado passado que traz à tona a interminável depressão da mãe, a instabilidade do irmão e a confusão de um passageiro affair. Num clima totalmente diferente do colorido universo de seus outros filmes, a primeira sessão de Tom na Fazenda é uma cintilante faísca na escuridão, sem coragem o suficiente para se propagar. Talvez se visto pela segunda vez, melhor compreendido será. 

Tom na Fazenda resulta na mal-explicada divisão da história, que contrasta em um pesado drama e um suspense fatal, cruel e fermentado por um episódio que consulta o passado para fabricar um presente. O pior é que, mesmo que essa divisão esteja nítida, é bem difícil captá-la, ainda mais quando as incompreensíveis sacadas finais contrariam ambiguamente essa relação entre drama e thriller, que vão se descosturando até acabarem num melancólico plano que retarda a ação e prioriza diálogos fervescentes, mas infelizmente pouco interessantes. Tom na Fazenda se afoga na sua própria imensidão, um vazio que parece se multiplicar em mais vazio, no intuito de então incorporar o vazio dos personagens, o vazio da história e o vazio do contato humano aqui analisados, ainda que com, no mínimo, bravo esforço. 

Talvez Xavier Dolan tenha feito mesmo o filme não na intenção de exercer mirabolantes técnicas de roteiro, melhor falando as típicas reviravoltas mind-blowing, mas sim de deixá-lo perecer numa textura incompreensível, premeditadamente sem sentido. Afinal, é o que torna a sucessão dos eventos mais atormentadora e palpável. Em Tom na Fazenda, Dolan visa atingir o interesse, isso ausentando compreender ou não sua viagem, rendendo isso um público chutando a poltrona do cinema por insatisfação, quando na verdade ele deveria se sentir invadido por ter chegado até ali por nada, isso a um outro ver. 

Porém, o irresistível forte em Tom na Fazenda, como já não é desconhecido vindo especificamente dos filmes da Xavier, é a sua fotografia lindíssima, que consegue planar com perfeição o ritmo parado e deprê do longa, como se ele se passasse num único momento, sob um céu coberto de nuvens cinzas e um cenário onde habita o obscuro. Duvido muito que o filme, caso filmado em ângulo s estrategicamente diferentes, efetuaria tamanho impacto. A fotografia é simplesmente insubstituível, e com certeza o melhor de Tom na Fazenda. O nome do gênio por trás desse espetáculo técnico? André Turpin, o mesmo de Incêndios e Mommy. Vão vendo. Enquanto já pensam num terceiro Oscar para Emmanuel Lubezki, tem muito diretor de fotografia por aí desvalorizado, e que possuem um talento tão grande quanto o do mexicano, isso sem falar necessariamente do André, mas sim de, só pra constar, Darius Khondji, Bruno Delbonnel, Harry Savides (não mais presente), Peter Deming, Rodrigo Prieto, Matthew Libatique, Christian Berger, Christopher Doyle e uma porrada de gente que custa o mesmo preço (e se formos ver, um até maior). TV a cabo é tudo de bom. Durante uma hora e meia, não houve sequer uma única pausa enquanto eu assistia ao filme, no canal MAX. Sem falar na ótima qualidade da cópia. E, o melhor de tudo: legendada!

Tom na Fazenda (Tom à la ferme)
dir. Xavier Dolan - 

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Crítica: "UMA RELAÇÃO DELICADA" (2013) - ★★★


Ano passado, vi na internet uma entrevista da Isabelle Huppert com o Jô Soares, entrevista que gostei muito e, apesar de ter procurado incessantemente o vídeo da primeira entrevista da francesa com o apresentador do talk-show, que tinha acontecido em 2003, na época quando Isabelle veio apresentar a peça 4.48 Psychosis, de Sarah Kane, não encontrei quaisquer vestígios da existência desse arquivo, nem mesmo fotos (também acho extraordinário esse domínio poliglota do Jô, que tem um sotaque francês bem treinado). Essa entrevista foi bastante revigorante pra mim, que não era tão chegado à atriz quanto sou agora, e me introduziu a dois recentes trabalhos dela: Um Amor em Paris (não achei em nenhum lugar) e este belo Uma Relação Delicada, que marca um dos trabalhos mais interessantes de Catherine Breillat, que é mais famosa pelos seus livros do que pelo cinema, apesar de ser diretora de filmes ótimos como Romance e A Última Amante, além de sua pequena participação no clássico Último Tango em Paris.

O filme, na verdade, é meramente baseado nessa experiência de Breillat, que a deixou seriamente debilitada em 2004, quando a diretora foi vítima de um acidente vascular cerebral. Seguindo esse trágico episódio da vida de Breillat, que no mesmo ano do sofrido tinha acabado de lançar Anatomia do Inferno nos cinemas, ela conheceu um golpista de nome Christophe Rocancourt, a quem ela oferece um papel no longa e uma renda para a produção. O caso aqui relatado é, incrivelmente, verídico ao que aconteceu, já que, na minha mente, até então, Catherine teria cristalizado um pouco a história, acrescentando toques de ficção, o que se prova totalmente o contrário. Breillat, numa rara observação autobiográfica, remonta momentos de tensão, fúria e perigo numa trama que, embora clichê e pouco progressiva, consegue captar a exatidão de cada momento vivido pela diretora. 

E não poderia ser ruim de jeito algum. Afinal, quem faz o papel de Maud Shainberg (a.k.a. Catherine Breillat) é a maravilhosa Isabelle Huppert, numa das mais preciosas atuações dos últimos tempos de sua carreira, que infelizmente não teve o devido reconhecimento em sua curta passagem pelos cinemas, tanto nacionais, quanto franceses e internacionais. O filme, inegavelmente, é sustentado por sua brilhante performance, na pele de uma mulher que, vendo-se obrigada a carregar o fardo de uma tenebrosa reviravolta em sua vida, não resiste à tentação de se entregar à perdição nos braços de um gentil e carinhoso, porém brutalmente maquiavélico, trapaceador, que rapidamente ganha o coração dela. E quando esta vê o erro cometido, já é tarde demais. A vulnerabilidade a traiu, e jogou sua confiança e boa vontade no lixo. É como o título descreve: abuso de vulnerável. 

O filme analisa essa relação de Maud com o tal canalha por quem ela tem uma definitiva queda, de forma com a qual a inocência de Maud quanto ao perigo e às possibilidades deste relacionamento dizimarem as suas esperanças seja diretamente exposta ao público. O sofrimento da personagem, encarnado com força por Huppert, rende segmentos pesados e tristes ao longo dos noventa minutos de exibição. É um filme que dá dó, não por conta do fim que leva a cineasta, mas sim pelo tamanho de seu sofrimento, e como ela busca a distração nesse misterioso homem. A Isabelle não só tem de incorporá-la psicologicamente como também fisicamente, devido às deformidades e às sequelas do acidente. 

Embora esteja defendendo a recusa do filme à sensibilidade vendida e seu destruidor poder dramático, não nego que fiquei um tantinho decepcionado com o resultado, por que eu esperava algo maior, aquilo que tanta gente elogiou nele. Não vi tanta coisa assim não, mas o filme é certamente íntegro e responsável, e cumpre seu dever. Incrível como a Breillat, mesmo após o acidente, que ocorreu há onze anos atrás, ainda continua produzindo, como o Jô Soares disse na entrevista, firme e forte, tendo, desde lá, somado mais quatro filmes à sua filmografia, incluindo este aqui e um filme feito para a TV. Há quem estranhe a ausência da tão liberal e exposta pornografia reservada aos longas de Breillat. Mesmo assim, numa trama onde a ingressão pornográfica faria um bem danado ao desenvolvimento do roteiro, mas por outro lado faria com este caísse na mesmice, faz bem ver Breillat numa versão mais contida e visualmente retraída, ainda que tal ausência (evidentemente incômoda) seja marca registrada de seu estilo.

Uma Relação Delicada (Abus de Faiblesse)
dir. Catherine Breillat - ★★★

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Crítica: "ELA" (2013) - ★★★★★


Belamente romântico e inesquecível, Ela me chamou ontem para uma revisão mais que obrigatória e eu tive que aceitar muito logicamente. Tal revisão rendeu mais do que eu imaginava, já que fazia quase um ano que eu tinha visto Ela, e ficado profundamente apaixonado pela obra de Spike Jonze. Um light futurista ainda que impactante e muito intenso, Ela narra a vida de um escritor de cartas chamado Theodore, que se apaixona e cria uma relação excessivamente afetiva com um sistema operacional de inteligência artificial que é capaz de sentir e conversar com o dono, além de realizar várias tarefas computacionais. Inicialmente sem acreditar, Theodore, à medida em que a sua existência passa a depender da existência de Samantha, vê que é impossível deixá-la de lado. 

O romance de Theodore e Samantha também muito nos faz questionar. Angustiado e reprimido pela falha de relacionamentos anteriores, Theodore é um cara sozinho, de poucos amigos, que encontra na tecnologia um refúgio irreparável. A chegada de Samantha faz com que a sua visão do mundo se renove, e ele passa a se adaptar das condições do sistema operacional como humanas. A fantástica realidade de Samantha inspira e agrada o melancólico Theodore. Ao mesmo tempo em que você consiga muitas das vezes se relacionar com a relação deles, é triste ver a solidão que acomete Theodore, e a falta de rumo que o mundo futurista abriga. Sem a tecnologia, diante daquele final inegavelmente chorável, o mundo mergulha num estado bem "pra baixo". Afinal, seremos daqui a alguns anos desse jeito? Tão solitários a ponto de precisarmos de um computador para satisfazer as nossas energias amorosas? Eu gostaria, na verdade, de ter uma experiência do estilo. Theodore e Samantha parecem como um casal qualquer. E seriam se o fato dela ser um computador fosse revertido. É apenas isso. Como ela mesmo protesta pelo filme todo, só lhe faltava um corpo.

Será o fim do relacionamento entre humanos? A perfeição da tecnologia superará algum dia a força da paixão? Impossível isso em nenhum ponto é. Vale esperar. Ver Ela é o mais próximo possível da observação de um relacionamento amoroso entre robô e homem. Spike Jonze grita incansavelmente: "Chega dessas ficções-científicas que apenas procuram explorar um mundo em evolução dentro de um inesperado conflito com a extrapolação de um determinado sistema. Aqui vos trago nutrida de um novo ideal, uma comédia romântica com perspectivas voltadas para o amor no futuro. Mais especificamente, o amor entre máquinas e homens no futuro". Parece que é assim. E o melhor: é assim. 

Depois de filmes como Quero Ser John Malkovich, Adaptação e Onde Vivem os Monstros, Spike nos apresenta, sem nenhum Charlie Kaufman para botar defeito qualidade, sua visão: simples assim. E o que é melhor do que uma visão sobre um romance de origens mais complexas e menos remotas? E além disso ele mostra que sem a ajuda desconcertantemente benéfica de Kaufman consegue se virar, à seu jeito. Se com Kaufman seus poucos filmes já eram maravilhas divinas, Ela, que segue Onde Vivem os Monstros (também sem Kaufman), são dotados dessa maravilha divina com algo a mais. Algo mais Jonze excedido da genial loucura de Charlie. 

Ver o cara mais difícil ora bizarro de Hollywood encarnando um personagem tão delicado - talvez o mais delicado de sua carreira - pode render aplausos intermináveis se considerado que além dessa personagem a performance por trás dela é ainda triunfal e talentosa. Joaquin Phoenix (sempre erro o sobrenome, mas acho que agora tá certo), aquele lá da entrevista do David Letterman, apresenta um lado bem romântico de sua persona relaxadona, algo que fora muito bem explorado em filmes como Johnny & June, AmantesO Mestre e o recente Vício Inerente, mas não da forma que aqui é exibida. A mais doce, (mais ou menos) pura e bonita forma. Phoenix é mesmo um ator encantador. Difícil, mas extremamente encantador. 

E Scarlett. Ninguém verá a sua imagem nua como foi pela primeira vez visto lá em Sob a Pele, muito menos a transformação científica-sobrenatural da Lucy, nem as belas sedutoras criadas por Woody Allen feitas pela mulher do século em Vicky Cristina Barcelona Scoop - O Grande Furo. Mas, se nem o rosto dela aqui vemos, somos fragilmente sensibilizados e hipnotizados por sua memorável e aquecedora voz. Nada mais romântico, não? A voz de Scarlett e só apenas é suficiente para levar o espectador ao mais profundo estado de comoção apenas nos primeiros segundos. É demais para o coração. E esse personagem, a Samantha, torna-se um dos melhores da bela Johansson, mesmo na ausência de um rosto ou belas curvas para logo eletrizarem o espectador na primeira vista. 

Amy Adams também é ótima. Rooney Mara, Olivia Wilde... Tanta mulher bonita reunida num só lugar. Coube à Jonze dar o papel de Samantha para Scarlett. Se funcionou? Bota funcionou nisso. A fotografia de Hoyte van Hoytema, em cores leves, traça o futurismo da história e do romance de maneira avassaladora. O roteiro e a direção de Spike Jonze revelam o melhor e maior dele, em seu brilhante momento de liberdade afastado da enlouquecedora frenesi Kaufmaniana. Se ao lado do "Woody Allen 2" ele já era sensacional, imagine agora sem ele. Se havia medo, a surpresa logo o minimiza. Esse aprendiz de Kaufman ainda nos comoverá mais. Depois de Ela, fica a prova. 

Ela (Her)
dir. Spike Jonze - 

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Crítica: "CAPITÃO PHILLIPS" (2013) - ★★★★


Muito embora possua imperfeições, Capitão Phillips não deixa de ser um grande e belo filmaço. Claramente, é difícil não apreciar algo tão bom como esse filme aqui, com um elenco tão ótimo, um diretor competente e uma história (real) pra lá de interessante. Lembrei muito, vendo Capitão Phillips, de Voo United 93, a grande obra de Paul Greengrass, sobre o 11 de setembro, e que fazia uma completa análise e a preparação dos terroristas para com o sequestro do voo. Aqui, logo nas cenas iniciais, onde Rich Phillips desembarca no Omã, com destino à Somália, no mesmo plano entra em ação o cenário de uma aldeia africana, locada na Somália, onde Muse, o líder pirata, é acordado por um garoto. 

Capitão Phillips, enquanto trata-se de uma jornada de sobrevivência incrível e espetacular, com momentos de tirar o fôlego, também me deixou muito irado e decepcionado, não por conta dele próprio, mas por conta do mundo. Há uma certa frase dita por Muse pouco tempo depois da invasão ao barco, cuja não me recordo ao todo, onde ele diz que, se eu não me engano, "na América tudo é possível", e logo adiante ele também fez um pensamento sobre a grande "terra dos sonhos", ele mesmo falando que tinha um grande interesse em visitá-la, um dia. Mas, gente, o que mais há de sentir desses piratas africanos senão pena, de suas vidas e de seus horríveis trabalhos. Ah, lembrei. Muse fala, depois de sequestrar o capitão Phillips, que é pescador, e fica indignado por que os americanos vivem se alimentando e usufruindo de seus peixes. África, terra sofrida. O que mais dói não é ver o sofrimento de Phillips durante o sequestro, embora tal parte seja de uma agonia bem incômoda, mas, a certo modo, o tratamento com o qual o povo africano é recebido. Se lá em Voo United 93 a América tinha perdido para os terroristas, neste Capitão Phillips ela ganha, derrotando os piratas da Somália, recebendo seu final "feliz". 

Extraordinariamente bem-feito, desgrudar os olhos da tela enquanto se vê Capitão Phillips é uma tarefa meramente impossível. A delicadeza e a inspeção minuciosa dos detalhes é o que mais agrada em Capitão Phillips. Sua invejável excelência técnica é de uma bravura sensacional. Bem, mas nem tudo é felicidade e elogios. Capitão Phillips embora se esforce, não escapa do clichê e das repetições infladas, que bem podem irritar em certos aspectos. E o pior é que esses clichês são prolongados, e se repetem pelo filme várias vezes. A maioria desses clichês estão prioritariamente instalados no roteiro, que em momentos é um grande acerto, de Billy Ray. E é justamente o que mais desagrada. Dentre os pouquíssimos erros daqui, é o frequente clichê, que eu apelidei de "tempo final", que, para o meu desgosto, torna-se uma rústica fraqueza do longa. Até vale comparar esses clichês àqueles programas de TV que, na hora do grande furo, ou da grande apresentação, entra no intervalo para segurar audiência. É quase a mesma coisa aqui. (clichê à vista) Próximo do fim, um dos piratas, que está no bote com o capitão Phillips, fica todo enraivecido, e saca a arma ao ver o capitão escrevendo uma carta de despedida para a família. Em justo o momento que o cara ia atirar em Richard, ele e os outros dois piratas a bordo são baleados pela marinha. Mas, enfim, é muito compreensível. Tal clichê, por muitas vezes, nem é tão irritadiço ou problemático, uma vez que até oferece certo sentido à situação, e desarma aquela provável bagunça que seria. É cinema, minha gente. 

O grande destaque de Capitão Phillips é, sem sombra de dúvidas, o ator somaliano Barkhad Abdi, cujo papel (Abduwali Muse) recebeu uma gigante aclamação, aplausos, um BAFTA e uma indicação ao Oscar. Mas quem também deu um show aqui foi Tom Hanks, de quem eu não via uma performance estrondosa há muito tempo. Esnobado no Oscar, Hanks, encarnando Phillips, enche-se de uma coragem proeminente e emociona demais. Paul Greengrass, e seu estilo bem documental, câmera tremida, de fazer filmes, só tende a impulsionar e intensificar a tensão que perdura dos primórdios do filme até seu fim abalador. Se o Oscar ano passado não tivesse as indicações de Alfonso Cuarón e Steve McQueen, provavelmente quem figuraria e venceria o prêmio seria Paul. Ainda não chegou a hora dele, mas, quem sabe? Que ele nos pode mostrar algo bem maior do que Capitão Phillips, que já é um filme maior, não há preocupação alguma.

Capitão Phillips (Captain Phillips)
dir. Paul Greengrass - 

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Crítica Combo: CINCO CURTAS



O Avião de Papel (Paperman)
dir. John Kahrs - 

Visto há alguns anos, durante a exibição de Detona Ralph, e revisto em vídeo, O Avião de Papel, curta-metragem de animação vencedor do Oscar na mesma categoria em 2013, é mesmo uma preciosidade. Talvez um dos desenhos mais belos e simples que eu já vi em minha vida. Torcia para a sua vitória na edição, e acabou sendo um tanto esperado pra mim. Gostei demais mesmo. A delicadeza dos traços, os efeitos visuais da animação, a fotografia sensível e maravilhosa... Até parece que é feito à moda antiga, com todo o seu esmero e a entonação P&B, mas, salvo alguns pequenos detalhes, incluindo o próprio desenho, que é um mix digital e manual, O Avião de Papel ganha em instantes o coração do espectador, que se emociona diante de uma imagem tão única e bem-feita. 


Lava
dir. James Ford Murphy - 

Quem viu Divertida Mente nos cinemas, com certeza teve também a oportunidade de ver o ótimo curta Lava, que é super bem-feito, e dono de uma qualidade excelente. Produção da Pixar, o curta, que é dirigido por James Ford Murphy, possui desenhos domados pela perfeição, e recheados com vida. A história do amor entre dois vulcões, que é decorada com canções belíssimas, é capaz de deixar qualquer um com o coração aquecido. 


Frozen: Febre Congelante (Frozen Fever)
dir. Chris Buck, Jennifer Lee - 

Frozen: Febre Congelante, sequência divertidíssima e rápida de Frozen: Uma Aventura Congelante, sucesso vibrante da Disney, é um curta bem fofinho, admirável e musical, que não muda em nada da animação de 2013. Estreou aqui nos cinemas nacionais na sessão de Cinderela. Foi exatamente aí que percebi a semelhança entre Frozen e Cinderela, na questão do tempo que ambos os filmes são narrados. Um truque sensacional e inteligente das distribuidoras. Neste curtinha, Elsa, Olaf e Kristoff estão nos preparativos da festa de aniversário de Anna. Com uma forte gripe, Elsa não para de trabalhar, e Anna, insistindo para que ela vá se deitar, dá um "sermão musical", no bom sentido da coisa. O resultado é bem bonitinho, mas não passa disso.


O Banquete (Feast)
dir. Patrick Osborne - 

Um dos curtas mais doces e belos dessa lista é O Banquete, que segue o mesmo estilo de O Avião de Papel, desenhado à mão, porém animado com computação gráfica, talvez seja o curta mais charmosinho daqui. Sua variação de cores é suprema e oferece aos desenhos uma extrema sensibilidade. Sua aptidão fabulosa é inacreditável. Um cãozinho vive mil e uma aventuras ao lado de seu dono, o acompanhando incansável no ritmo badalado de sua vida. Além de bonito, o curta tem classe e é excepcionalmente bem editado. É o último vencedor do Oscar de Melhor Curta-Metragem em Animação. Veio ao Brasil com a sessão de Operação Big Hero.


Hora de Viajar (Get a Horse!)
dir. Lauren MacMullan - 

Vi na sessão de Frozen - Uma Aventura Congelante, isso há um ano. Esse sim é feito bem à moda antiga, mas perto do final é digitalizado e fica mais apreciável ainda. Indicado ano passado ao Oscar, mas perdeu para Mr. Hublot, Hora de Viajar é outro grande trabalho animado da Disney, feito com traços estimulados e surreais. Merece atenção, até por que segue a reta dos velhos curtinhas de Walt e do Mickey Mouse, e está listado como o mais atual deles oficialmente.


La Luna
dir. Enrico Casarosa - 

O meu curta favorito dentre todos esses é La Luna. Levemente inspirado em Hayao Miyazaki, segundo seu diretor, Enrico Casarosa, La Luna é uma obra primorosa. Sua magia, até de falar, me arrepia. Antes de Valente ter começado, La Luna foi exibido. Fiquei tremendamente maravilhado. Lágrimas de felicidades beiraram ambos meus globos oculares. Era demais. E o curta é bem pequenininho, mas sua qualidade é de uma beleza singular. Amei muito. Não foi feito à mão, mas é impossível negar o luxo da computação gráfica aqui neste filme. Seu simbolismo non-sense, recheado com abstracionismo, é ainda mais eletrizante. Também foi indicado ao Oscar, mas infelizmente perdeu.