Mostrando postagens com marcador 2014. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador 2014. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 6 de julho de 2017

OLMO E A GAIVOTA (2014)


O mais interessante é que, apesar de ser um documentário, Olmo e a Gaivota tem um atmosfera de ficção bem onipresente, a ideia de ser um filme documental chega a ser um pouco distante, até. Às vezes a gente esquece que são pessoas reais e passamos a enxergá-los como atores imersos em personagens, dando a noção de uma lógica invertida do cinema-teatro, do body of work de um intérprete. Legal também essa questão do filme ser trabalhado quase todo dentro de um apartamento, ou em cenários internos, relevando esse aspecto teatral tão característico que o filme exala. É uma proposta tentadora, mas a câmera minimalista consegue extrair momentos de pura beleza.

Olmo e a Gaivota
dir. Petra Costa & Léa Glob
★★★

terça-feira, 20 de junho de 2017

CALA A BOCA, PHILIP (2014)


Uma comédia de desajustes, em que o inaturável personagem-título acaba sendo o alvo de um estudo meio desacertado, intangível, que se confunde entre perspectivas que não se justificam, por outro lado atinge um humor sólido, com extrema naturalidade e fluidez. Chega a ser engraçado o quanto ele é insuportável e irritante, e mesmo que as pessoas ao seu redor se esforcem para não dar muita bola, sua lembrança funde sentimentos contraditórios e sua presença é motivo de desconforto, no fim das contas ele é a causa de toda a sua insatisfação. É claro, a construção do personagem é irregular, exagerada, até nesse ponto de ser egocêntrico, há uma relevância desnecessária, quase arbitrária. Na questão da narrativa, deve ser o mais simbólico dos filmes do Alex Ross Perry, inevitavelmente lembrando Woody Allen, principalmente na trilha sonora jazzística e nos personagens meio perdidos, desencontrados.

Cala a Boca, Philip (Listen Up, Philip)
dir. Alex Ross Perry
★★★

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Crítica: "DO QUE VEM ANTES" (2014) - ★★★★★


A memória de um cataclismo

Aos poucos, os filmes de Lav Diaz vão chegando ao circuito, de forma lenta e remota, e nesse mesmo ritmo o público brasileiro tem acesso à filmografia do cultuado diretor filipino que a cada filme se supera. Ano passado, quem assistiu Norte, o fim da História, cujo lançamento atrasado permitiu aos espectadores uma introdução desafiadora e essencialmente necessária ao estilo de Diaz, já pôde reconhecer desde então um traço determinante do cinema de Diaz que é tido como sua marca registrada: a duração. Nove, oito, seis, quatro horas... Seus filmes são extensivamente duradouros e requerem um certo tipo de disposição, digamos, por parte do espectador. No caso de Do Que Vem Antes, a sessão dura cinco horas e quarenta minutos.

À medida em que sua filmografia é explorada, passam a ser reconhecidos aspectos mais desenvolvidos e pungentes de seu estilo magistral, que vão desde a desconcertante maturidade dramática até a belíssima composição de planos demorados e caprichosamente marcantes, cobertos pela brilhante e complexa dimensão narrativa que o diretor ostenta, e que transforam o ato de assistir em uma experiência dilacerante, transcendente e única. 

Seu (nem tão) novo trabalho Do Que Vem Antes chegou ao circuito atrasado, em fevereiro, como aconteceu com Norte..., que demorou dois anos para ganhar uma estreia por estas bandas. Entretanto, é bastante compreensível que os filmes do filipino tardam a chegar nos cinemas. São poucos os que se dispõem a distribuir um longa seu correndo o risco de fracasso comercial, sem falar em outros problemas que acabam por acarretar nessa lenta distribuição e comprometem a chegada do filme ao público cinéfilo, e quase que logicamente sempre fica limitada ao circuito de arte quando concretizada. É uma pena, porque esses filmes foram feitos para serem vistos na telona. Visto que são pouquíssimos seus filmes disponibilizados na internet, alguns caso não forem conferidos no cinema, talvez nunca cheguem aos olhos de um cinéfilo que não possui acesso ao circuito mais afastado e restrito. 

Nas primeiras horas de Do Que Vem Antes, somos introduzidos aos personagens, moradores de um vilarejo quase isolado numa região litorânea em Filipinas. A história se passa no começo da década de 70, quando o país estava sob o rígido comando do ditador Ferdinand Marcos. Neste pacato local, coisas estranhas começam a acontecer. Vacas são misteriosamente assassinadas, as pessoas começam a ficar assustadas com acontecimentos tenebrosos envolvendo os habitantes da vila e um clima de terror é instalado, provocando tensão e medo em todos. 

Entre um plano e outro, Diaz costura vagarosamente sua genial trama, que aos poucos vai se enchendo de detalhes e elementos, enquanto os personagens ganham foco e firmeza. Cenas de um cotidiano aparentemente vazio se misturam a sequências desesperadoras, de uma força estremecedora, e que estão ali tanto para nos impactar quanto para causar um certo estranhamento àquele ambiente que transparece tranquilidade, mas na realidade é o palco de bizarrices e tormentos desta crônica hostil.

O suspense meteórico fica evidente nos atos dos personagens, suas ações e reações, verdades e mentiras, segredos que ficam cravados no tempo e no horror. Apesar das demoradas sequências que preenchem este monumento cinematográfico magistral, Diaz segue um padrão narrativo clássico. A trama é enriquecida pela excelência do roteiro, a ótima construção e análise dos personagens e do espaço onde a história se passa, bem como os acontecimentos que rondam o vilarejo e os mais exuberantes truques da linguagem cinematográfica, desfrutados com astúcia e esmero. O domínio de Lav Diaz sobre a história que ele conta é estremecedor e plausível.

O elenco está formidável, simplesmente maravilhoso. Diaz, que também é ator, prova, mais uma vez, que sabe dirigir atores como ninguém, e este é um mérito maior de seu cinema repleto de riquezas. Dentre as performances de destaque, merecem menção: Mailes Kanapi, que já havia dado um show em Norte, o fim da História; Karenina Haniel (provavelmente a melhor do elenco) que interpreta uma jovem com problemas mentais que tem o poder de curar os doentes da vila, e Hazel Orencio, que interpreta a irmã desta jovem que se esforça para cuidar dela. 

Mais uma vez, o genial Lav Diaz prova que sabe fazer cinema como ninguém. O cara foi feito para contar suas histórias e é um mestre nessa arte. As metáforas, as cenas inesquecíveis, os traços mais peculiares e minuciosos deste conto sobre uma sociedade atormentada pelo terror de uma cruel ditadura não apenas política, mas também moral e étnica, e os efeitos mais escabrosos da alienação. Lav se confirma como o cineasta filipino mais importante da atualidade, cujo cinema merece ser revisitado e apreciado em grande escala. E este filme, provavelmente seu melhor, uma obra-prima de puro êxito cinematográfico, uma meditação sobre o sofrimento, os valores humanos e a existência, é um presente para os cinéfilos.

Do Que Vem Antes ganhou o Leopardo de Ouro no prestigiado Festival de Locarno em 2014. O filme mais recente de Lav Diaz, A Mulher Que Se Foi, que conquistou em setembro o Leão de Ouro em Veneza, tem data de estreia no Brasil prevista para 2017, embora já tenha sido apresentado no Festival do Rio recentemente. Enquanto isso, o também atual Canção Para um Doloroso Mistério, que conta com uma duração de incríveis oito horas, segue sem previsão, ainda que tenha participado da Mostra de SP em outubro. 

Do Que Vem Antes (Mula sa kung ano ang noon)
dir. Lav Diaz - ★★★★★

domingo, 30 de outubro de 2016

Crítica: "THE SEARCH" (2014) - ★★★½


Se por um lado o promissor The Search não é como poderíamos esperar de alguém que dirigiu um filme tão bonito como O Artista, pelo menos tem alguns acertos bastante convencionais e mencionáveis dentre alguns defeitos que causaram tanto incômodo à crítica internacional. The Search, aliás, foi recebido com chutes e pontapés no Festival de Cannes, há 2 anos, onde estreou na linha competitiva. O longa segue sem data de estreia nos EUA, apesar de ter estreado por lá nos festivais de Palm Springs e Sonoma ano passado conforme consta no IMDb. A direção de Hazanavicius é um mérito maior em si. Algumas das cenas mais memoráveis de The Search os são por conta da sublime realização de Michel. 

A trama segue caminhos distintos e vaga por subtramas, contando as histórias de pessoas afetadas drasticamente pela guerra na Chechênia após a invasão do país pela Rússia em 1999. Um menino cuja família é brutalmente assassinada foge de sua casa com um bebê. Um soldado recém-chegado que sofre maus tratos por parte dos militares. Uma mulher desesperada à procura dos irmãos. Uma voluntária francesa que "adota" um garoto checheno aparentemente mudo. Histórias e personagens da guerra que se entrelaçam num filme que extrapola os limites do gênero (no bom sentido), sem deixar de se apegar à clichês "renovados" e inocentes que conferem ao longa um toque de frescor e emoção. 

A edição e a fotografia são excepcionalmente fabulosas. Se fosse para favoritar uma cena, favoritaria aquela cena dos soldados debaixo do helicóptero. Sei que não é provavelmente a melhor sequência, mas é a minha predileta, justamente por causa da montagem dela. A narrativa, embora trôpega e por vezes vaga demais, tem seus poucos pontos positivos ainda que opte por um padrão mais tradicional, convencional de se contar histórias e que talvez decepcione a quem procura complexidade e, digamos, sofisticação. Mas não dá pra dizer que é um filme ruim. Os trauma da guerra são explorados acidamente com uma distância perplexa, mas que se faz precisa. Hazanavicius mais e mais nos conquista com um cinema que enamora e enaltece o cinema em si e a arte de contar histórias, seja na intenção de nos emocionar, chocar ou provocar reflexão. 

The Search
dir. Michel Hazanavicius - ★★★½ 

domingo, 23 de outubro de 2016

Os Destaques da Semana | 16 a 22


Vou comentar aqui alguns filmes que vi esse semana. Não deu pra ver muita coisa. Minha lista na Netflix continua abarrotada de filmes, várias recomendações, mais outros vários filmes que baixei, e por aí vai. É tanto filme que não acaba mais. Em novembro vou tentar dar uma apressada e ver alguns mais atuais também. O pessoal fala de tantos lançamentos, e tanta coisa já saiu, mas o tonto do Lucas ainda não viu quase nada. 


"Tá legal. Uma Aventura Lego não deve ser grande coisa.". Eu nunca pensei que diria isso, mas estava enganado. E fico entristecido por ainda existir preconceito em mim em relação a filmes de animação. Mas, depois de Uma Aventura Lego, a gente se sente até motivado a procurar mais trabalhos tão dedicados e primorosos como esse. 

Pode não parecer, mas Uma Aventura Lego fala muito sobre quem nós somos, o mundo em que vivemos, a manipulação da sociedade, o aprisionamento do sistema, a verdade sobre o que está acontecendo com nós e como estamos nos tornando vítimas das mentiras de quem está por trás de tudo tentando controlar nossos pensamentos, atitudes e vontades. 

A conclusão, tida por muitos como decepcionante, é excepcional. O filme se encaixa em muitos níveis, e se aprofunda em diversas camadas. Inesperadamente, é um filme imensamente satisfatório e pra lá de bom. Um estímulo bastante convincente para que a criançada e os jovens descubram e se interessem mais a desvendar a realidade sobre o nosso mundo. Uma crítica social feroz, Uma Aventura Lego é magnífico.

Uma Aventura Lego (The LEGO Movie)
dir. Phil Lord, Christopher Miller - 


Faz um bom tempo, peguei Johnny & June passando na TV. Peguei uma cena bastante interessante, que acabou me hipnotizando naquele exato instante. Johnny & June é o que poderia se esperar de uma cinebiografia regular. O grande quê do filme é a atuação extraordinária de Joaquin Phoenix, uma das melhores do ator que sempre aparece com uma ótima interpretação atrás da outra. No filme, ele interpreta o renomado cantor Johnny Cash, um dos mais famosos e aplaudidos astros da música americana do século passado, e seu relacionamento tempestuoso com June Carter, interpretada por Reese Witherspoon numa performance básica, doce e amarga, natural, mas sem atrativos. Comparada às outras candidatas naquele ano, Reese não merecia o Oscar de Melhor Atriz, mesmo que seja uma intérprete tão talentosa. Não me levem a mal, a atuação dela não é ruim em nada, mas é simplesmente superestimada. Por outro lado, deveriam ter premiado o Phoenix, que está excelente. 

O filme é tecnicamente bombástico, mas seu roteiro é fraco, não consegue se sustentar por muito tempo. As intrigas de Cash retratadas aqui chegam a tal ponto que fica sem graça acompanhar a jornada do cantor e o espectador perde a fé na relação entre ele e June. Faltou tom, e um ritmo mais acentuado, que acompanhasse melhor a história. Johnny & June é longo demais, e pouco inventivo. Segue um padrão de cinebiografias cansativo e atrasado, embora preze por chamar a nossa atenção loucamente com uma premissa atrevida, mas que no final é praticamente transparente.

Johnny & June (Walk the Line)
dir. James Mangold - 


O filme que inicialmente deu fama e reconhecimento à hoje internacionalmente conhecida e aclamada Jennifer Lawrence. A performance corajosa, imbatível e poderosamente furiosa da atriz, na época bastante jovem e matura o suficiente para incorporar uma personagem tão multifacetada e exigente. O desempenho arrebatador da jovem Lawrence é o que sustenta esse filme com traços dramáticos tão relevados e marcantes. 

Uma jovem à procura do pai desaparecido num lugar aparentemente no meio do nada devastado pelo frio. Resistindo fervorosamente ao alvoroço da população local e aos ataques dilacerantes dos contrários, Ree (Jennifer) cuida sozinha dos irmãos e da mãe que está debilitada, não se cansa de procurar e procurar pelo pai, um sujeito envolvido com o tráfico. Essa busca quase frenética a leva a um destino muito perigoso e atormentador.

Segundo as minhas expectativas, seria um filme mais agudo, chocante, afiado. E não que não seja. Inverno da Alma trabalha bem sua proposta e seus objetivos estão bastante claros. Não é um filme defeituoso. Talvez, se a gente for pensar mais em relação a ele, a conclusão talvez soe descompromissada, mas é algo ligeiramente subjetivo.

Muita gente fala dos trabalhos de Lawrence, mas visando apenas a franquia Jogos Vorazes e filmes recentes da era pós-Oscar da atriz, e se esquece desse trabalho tão importante da carreira dela, que conta com uma de suas interpretações mais plausíveis e memoráveis, quão essencial e primorosa. Me lembrou bastante do excelente Rio Congelado.

Inverno da Alma (Winter's Bone)
dir. Debra Granik - 

terça-feira, 26 de abril de 2016

Crítica: "AS VOZES" (2014) - ★★


A estreia live-action da iraniana Marjane Satrapi, diretora da belíssima animação Persepolis, é uma grande decepção, pra não dizer que é um total desastre de vez. Levando em consideração o resultado catastrófico desse filmezinho maçante e sem pé nem cabeça, o debut internacional de Satrapi é um fracasso. E a culpa nem chega a ser dela, mas sim do roteirista inexperiente (Michael R. Perry), já que o único crédito da Marjane é o de direção. Quer dizer, a premissa até que aparenta ser bem promissora, mas ao fim não supera tais expectativas (nem um pouco, pra ser mais exato). É um filme que tinha tudo para dar certo. À primeira vista, é claro. 

O filme nem chegou a ser lançado nos cinemas (consta-se apenas que o filme foi lançado diretamente em vídeo). Fui ver no NET Now nesse feriadão e tinha em mente boas expectativas quanto a ele, tudo em vão. Ryan Reynolds é Jerry, um rapaz esquizofrênico que mora em uma pequena cidadezinha do interior pacata, onde ele é empacotador. Ele é convidado para uma festinha do escritório, e, sabendo da presença de Fiona, uma linda contadora, ele logo se interessa em comparecer ao evento. Jerry e sua obsessão pela moça acaba por desencadear num destino fatal para a beldade. Completando as doideiras, o cara ainda conversa com seus animais de estimação, um gato e um cachorro, que "refletem" os pensamentos e as emoções do personagem, como culpa, satisfação, medo, arrependimento, maldade...

O Ryan Reynolds finalmente entrega uma boa performance, ainda que num filme tão desprezível. Anna Kendrick, quem eu há pouco tempo detestava, veio ganhando mais a minha atenção desde que conferi Amor sem Escalas. Ela até que está boa também. A Bond girl Gemma Arterton, embora seja belíssima, nem está tão sedutora assim no filme. Se bem que as bizarrices do filme atrapalham um pouco esse quesito, anyway.

Jacki Weaver faz a psiquiatra do homem. Pra começar, eu nem sabia que ela estava no elenco do filme, o que me surpreendeu um pouco. Não tenho muito o que dizer de As Vozes. De fato, há certas coisas que me agradaram, mas trata-se de um filme muito transparente e incompetente para ser considerado, no mínimo, um bom trabalho. Quero dizer, acho que a única coisa que realmente me agradou em As Vozes foi a sequência final, dos créditos, com a canção "Sing a Happy Song" de fundo, que é uma sequência um tanto engraçada e que combina com o clima bizarro do filme. Fora isso, nada impressiona muito. O diretor de fotografia de As Vozes é o mesmo do suspense Maníaco, com Elijah Wood, visto há algum tempo.

As Vozes (The Voices)
dir. Marjane Satrapi - 

sexta-feira, 25 de março de 2016

Crítica: "AMOR PARA A ETERNIDADE" (2014) - ★★★


Amor para a Eternidade, o mais novo projeto do cineasta chinês Zhang Yimou, que sequer chegou aos cinemas nacionais (o filme foi lançado em DVD há pouco), marca mais um trabalho vigoroso na filmografia exemplar de um dos maiores diretores orientais de todos os tempos. O filme é excelente. Me pergunto porque não foi lançado. É cada uma que as distribuidoras brasileiras aprontam, viu? Zhang, outrora diretor dos ótimos Lanternas Vermelhas, Tempo de Viver, Operação Xangai, Amor e Sedução e também recentes como Herói, O Clã das Adagas Voadoras e A Maldição da Flor Dourada, instiga e maravilha o espectador com uma tocante história de amor, família e desencontros. 

No filme, um homem, detido durante a Revolução Cultural Chinesa, é afastado da família. Após fugir, ele tenta reencontrar a mulher, mas é preso numa estação de trem. Quase duas décadas mais tarde, ele é solto. No entanto, a esposa já não mais o reconhece por um problema de memória (a tal doença é retratada no filme como uma forma de amnésia, mas talvez tenha sido desenhada como Alzheimer). Junto da filha, uma ex-bailarina, que abandonou o sonho, o homem tenta diversas vezes convencer a esposa de quem ele realmente é, ainda que sempre que ele se aproxima ela fica horrorizada, pensando que ele é uma outra pessoa, um tal de Fang, que perto do final é revelado.

Melodrama sem ser espalhafatoso, Amor para a Eternidade carrega uma narrativa competente e sem muitos luxos, simples mesmo que monótona, às vezes. O problema desse filme é que ele não é engajado. E muitas vezes há um certo incômodo no desenrolar da trama, desenrolar esse sem vida. Não me levem a mal, o elenco é primoroso e tecnicamente falando Amor para a Eternidade é super potente. Mas trata-se de um filme sem vida, que poderia ser algo maior do que é se não fosse tão encharcado, dramaticamente miúdo.

E, mesmo com tanta coisa boa aqui, como o elenco já mencionado (as performances são sublimes, exatamente no ponto), a direção sempre irreparável do Zhang Yimou, a trilha sonora impactante, reluto em me restringir à fotografia excepcionalmente bela de Zhao Xiaoding (o mesmo de O Clã das Adagas Voadoras, que foi indicado ao Oscar em 2004 na categoria de Fotografia). O cara é fenomenal. Em mais uma parceria com Yimou, Zhao fabrica um trabalho de fotografia majestoso e inesquecível. Não à toa é a melhor coisa desse filme, que de força técnica tem de sobra.

Ah, Zhang Yimou, falando nisso, está prestes a lançar como diretor The Great Wall, filme sobre a construção da Grande Muralha, que leva no elenco Matt Damon e Willem Dafoe.

Amor para a Eternidade (Gui lai / Coming Home)
dir. Zhang Yimou - 

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Crítica: "AS MEMÓRIAS DE MARNIE" (2014) - ★★★★


Recentemente, o Studio Ghibli anunciou que iria encerrar as suas atividades. As Memórias de Marnie, o vigésimo filme da produtora, é o ponto final dessa que é uma das maiores e mais importantes produtoras de animação da história do cinema. O desenho é dirigido por Hiromasa Yonebayashi, diretor do recente Arriety, assinado pelo Studio Ghibli. Ainda não vi o tal, mas confesso que me deliciei com As Memórias de Marnie. Nem de longe é o melhor ou o que podia ser melhor vindo da produtora Ghibli, mas tem uma marca forte dos filmes da empresa e se consagra como um trabalho razoável. Além disso, trata-se de um filme muito bonito com uma história emocionante e que prende a atenção. É bom mesmo.

Na animação, Anna, uma menina de 12 anos solitária e que tem um jeito de depressiva, sofre de asma e, após um ataque na escola, é enviada à casa dos tios no interior. Lá, a garota fica fascinada com uma casa no lago. É aí que ela descobre Marnie, uma garota mestiça (spoiler?) que parece ter vindo de outra época, e que se torna a melhor amiga de Anna, que se apaixona pela guria. 

As Memórias de Marnie carrega um astral de melodrama romântico que desvanece com o final do longa e quando a gente descobre o que é o quê e quem é quem, mas enquanto se estende, na maioria do tempo, é sensacional. A dinâmica da trama nos envolve e ajuda na composição de um desfecho triunfal. O melancólico As Memórias de Marnie, no fim, é um trabalho digno. Não consegue superar as expectativas mas está de bom tamanho. Quem é fã do Studio Ghibli vai gostar. É garantia. Os traços não enganam. E a indicação ao Oscar também foi super merecida, embora esta animação esteja aquém dos dois indicados anteriores do Studio Ghibli na categoria (O Conto da Princesa Kaguya em 2015 e Vidas ao Vento em 2014).

As Memórias de Marnie (Omoide no Mânî)
dir. Hiromasa Yonebayashi - 

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Crítica: "99 CASAS" (2014) - ★★★★


O Oscar é domingo e todo o mundo está acompanhando de perto o calor do evento e cultivando a ansiedade. No mais, já disse um bilhão de vezes e volto a repetir, esse foi um Oscar bem confuso. Não me levem a mal, a maioria dos candidatos são certos, e essa até que é uma edição mais organizada, comparada a outros anos, mas a falta de variedade dos filmes nomeados, a previsibilidade... Já tivemos coisa melhor. E ainda, enquanto o planeta já se vê comemorando a 1ª vitória certeira do DiCaprio, estou procurando ficar psicologicamente relaxado nesses dias (sem sucesso) para evitar dores de cabeça com as possíveis decepções que a noite de domingo me trará, como aconteceu no ano passado (terem deixado Boyhood com uma só estatueta foi uma injustiça vergonhosa). E, do Oscar desse ano, a categoria mais injustiçada e quebrada foi a de Melhor Ator Coadjuvante. São muitos os motivos.

Ainda que muitos atores importantes, donos de performances exímias, tenham sido deixados de fora, a categoria de Ator Coadjuvante até que conseguiu ser bastante equilibrada, assim como a de Atriz Coadjuvante, mesmo a par de injustiças (Oscar sem injustiça é como um rádio sem o botão de volume). Dos que não conseguiram finalizar, estão, entre os principais: Idris Elba (Beasts of No Nation), Paul Dano (Love & Mercy) e o Michael Shannon, por 99 Casas. Eu gostei de todos os indicados, e não trocaria ninguém por ninguém, mas deveriam ter nomeado o Michael. Ele está ótimo aqui. E, nessa levada, seria muito justo terem nomeado também o Andrew Garfield, que está ainda mais excepcional que o Shannon. 

Em 99 Casas, Garfield vive um trabalhador que faz pontas em construções e que é despejado de sua casa por um inescrupuloso agente imobiliário, vivido por Michael Shannon. Por coincidência, os dois se reencontram e Dennis Nash (Andrew) começa a trabalhar para Rick Carver (Shannon), no intuito de sustentar sua mãe (Laura Dern) e o filho e recuperar a sua casa, tomada pelo governo. Porém, nem tudo são rosas no novo trabalho de Dennis. 

Aos poucos, Dennis vai substituindo o chefão e passa a despejar em nome da corporação. O protagonista enfrenta um dilema moral: inevitavelmente ele passa a se solidarizar com as figuras que vai encontrando e conhecendo: pessoas inseguras, sem pra onde ir, totalmente perdidas e que estão profundamente abaladas e traumatizadas pela crise no ramo imobiliário nos Estados Unidos (lembra bastante A Grande Aposta, tirando toda aquela complexidade Wallstreetiana & cia.). Enquanto isso, ele não enxerga outra alternativa senão trabalhar despejando pessoas: o cara não tem formação acadêmica, largou a escola antes de finalizar os estudos, e que antes mal conseguia sustentar a família com baixos salários nos trampos de carpinteiro/mecânico/encanador...

Quer dizer, como se vive assim? O único jeito é ignorar. É cada um por si. Pode soar egoísta, mas a tática é sobreviver. E a gente sobrevive como pode, custando isso o que custar. O cineasta metade persa metade americano Ramin Bahrani fez sucesso em 2007, com seu hit indie Chop Shop, aclamadíssimo e que conquistou de primeira o renomado crítico Roger Ebert, que o nomeou um dos melhores filmes não só da década mas de todos os tempos. Ele é o diretor/produtor/roteirista de 99 Casas.

O retrato da história inspirada em fatos reais distancia-se dos clichês popularmente coniventes ao subgênero e revela-se um poderoso trabalho crível e sublimemente singular. O elenco é pequeno (na verdade o filme é praticamente apenas Shannon, Garfield e Dern) mas forte o suficiente para impressionar e deixar a sua marca. A potência dramática de 99 Casas é surpreendente. A sequência final, por exemplo, é chocante de tão poderosa. O diretor independente Ramin Bahrani se confirma como uma das apostas mais promissoras da temporada. A dupla protagonista é perplexamente talentosa. 99 Casas é um filme maravilhoso. Recomendável. Não chegou ainda em solo nacional.

99 Casas (99 Homes)
dir. Ramin Bahrani - 

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Crítica: "LEARNING TO DRIVE" (2014) - ★★★


É bem chato encerrar a temporada de férias. E não é nem por preguiça que digo isso, já que até mesmo dentro desse período nem tenho tanto descanso quanto se pode imaginar, levando em conta minha personalidade agitada e repleta de anseios. Voltar à ativa tem certos benefícios e malefícios. Não é tão complicado se re-acostumar ao cotidiano. O problema tá no tempo. Ele passa rápido e a gente quase não vê. Daqui a exatos cinco meses lá estarei eu celebrando mais um intervalo nas minhas atividades e proclamando a vocês essas mesmas palavras. Uma coisa interessante é que a nossa perspectiva sobre o tempo em si quase nunca costuma brecar ou mudar. Enfim, enquanto todo mundo tá ainda saboreando os indicados ao Oscar desse ano & companhia, eu, já tendo adiantado nessas férias a minha cota de filmes do prêmio, muito embora ainda tenham ficado pra trás muitos outros candidatos importantes, vou tentando esvaziar aos poucos a minha superlotada lista de filmes para ver. 

Isabel Coixet é um caso à parte. A diretora espanhola, possivelmente uma das melhores cineastas mulheres em exercício dos últimos tempos, possui uma filmografia invejável, tendo a mesma já trabalhado ao lado de intérpretes do naipe de Tim Robbins, Rinko Kikuchi, Gabriel Byrne, Penélope Cruz, Miranda Richardson (ok, fui num curta, mas não deixa de ser concorrível), Sarah Polley, Mark Ruffalo, Maria de Medeiros, Alfred Molina, Julie Christie e mais recentemente Juliette Binoche (em Nobody Wants the Night, que nem deu sinal de vida quanto a lançamento internacional, quem dirá em território nacional; parece que o filme só foi lançado na Espanha, estando ele indicado a um bocado de Goyas nesse ano). Embarcam, nessa mesma ida de atores extraordinários que colaboraram com Coixet, os dois protagonistas de Learning to Drive, a ótima Patricia Clarkson e o sempre memorável Ben Kingsley.

Em Learning to Drive, Patricia vive uma crítica literária desolada com o abandono repentino do marido, pouco após a revelação de adultério. As meras coincidências da vida a levam até um motorista hindu, que trabalha como taxista e também dá aulas de direção. Convencida pela filha, que mora no campo, a mulher decide levar à frente aulas de condução com o gentil indiano, Darwan, que parece ser a única pessoa no mundo capaz de aturar as frenesis e o temperamento conturbado de Wendy, que sempre anda distraída e nervosa, sem se concentrar direito, ainda mais quando a mesma adentra as negociações do pedido de divórcio (ela até tenta seduzir o marido numa cena, a fim de encerrar a separação). 

Ainda que Learning to Drive seja um trabalho menor na carreira de Isabel, frágil e liricamente pedante, não deixa de ser gostoso acompanhar o ritmo da trama, e o desenrolar da amizade entre o motorista e a crítica de literatura. Learning to Drive fica apenas dividido entre o gênero romântico e a comédia dramática, o que pode em vezes confundir a cabeça do espectador, ou até de quem é atraído pelo filme na esperança de ver uma comédia romântica, o que pode ser bastante desapontante. A doçura da história, a naturalidade em seu caminhar, o humor discreto e o clima bon vivant podem conquistar quem busca por um filme mais leve e descontraído. De qualquer maneira, não há como detestar Learning to Drive. Pode até ser uma produção pequena, mas tem lá seus momentos. A dupla Kingsley (numa atuação impecável, por via das dúvidas) e Clarkson numa química imperdível. Learning to Drive também não foi lançado (ainda, quem sabe?) no nosso circuito. Chega a ser até vergonhoso pra distribuidora, que poderia ganhar uma nota bancando o longa nos cinemas nacionais (sucesso financeiro o filme muito provavelmente seria).

Learning to Drive
dir. Isabel Coixet - 

domingo, 10 de janeiro de 2016

Crítica: "SENTIMENTOS QUE CURAM" (2014) - ★★★


Sentimentos que Curam é um filme feel-good avassalador. É certo que não é perfeito, mas tem suas qualidades. Ele teve uma passagem discreta pelos cinemas nacionais ainda no ano passado, e tem rosto de produção mainstream apesar do tratamento que recebeu e, com esforço, creio que poderia ter lotado as salas daqui. É um filme simples, gostoso de se acompanhar, descomplicado e bastante cômico. Trata-se de um drama familiar atipicamente equilibrado que narra as (des)aventuras de um pai problemático quando recebe a missão de cuidar das duas filhas crianças enquanto a mulher retorna à universidade, em Nova York, para conseguir um trabalho e dar às filhas uma educação de qualidade. 

O filme de estreia da pouco conhecida roteirista Maya Forbes, que escreveu para o cinema a terceira sequência de Diário de um Banana, a animação Monstros vs. Alienígenas, a comédia O Roqueiro (dirigida por Peter Cattaneo) e a comédia romântica Pecado Consentido, não é com certeza aquele primor de filme, mas, salvo seus encantos, é um destaque. Apesar de ser um filme independente (o orçamento foi de seis milhões de dólares), a trama é ambientada na década de 70, se passa em Boston, e, caso não fosse o elenco magistral, seria difícil cair na enganação da diretora. 

É até compreensível essa questão do baixo orçamento, e dos esforços necessários para se recriar um espaço de outra época dentro de condições tão apertadas, mas quem realmente ajuda aí é o elenco, que consegue ocultar fascinantemente esses pequenos transtornos que vão surgindo, e tornam a nossa compreensão quanto ao período em que o filme se passa menos complicada e turbulenta. 

A começar com o Mark Ruffalo, uma das grandes surpresas entre os indicados ao último Globo de Ouro, cujos vencedores serão revelados hoje, justamente nomeado por Sentimentos que Curam, que estreou nos Estados Unidos só em 2015. O ator, antes conhecidíssimo por trabalhos na comédia, veio a se firmar como um intérprete de peso graças a outros trabalhos que, ainda que não afastados do gênero que o consagrou e levou seu nome à glória, representam sua ascensão, centralmente marcada por duas recentes indicações ao Oscar, em ordem cronológica por Minhas Mães e Meu Pai e Foxcatcher.

Brilhando nessa performance plausível que sustenta Sentimentos que Curam, Mark se confirma um dos nomes mais seguramente talentosos e fortes de Hollywood. É bem improvável que ele receba o Globo de Ouro, mas a performance dele, dentre os indicados vistos, é a melhor. Ainda que apareça pouco, a Zoe Saldana, divinamente bela, também tem seus momentos de brilho. Paparicações à parte, as protagonistas mirins Imogene Wolodarsky e Ashley Aufderheide estão ótimas. 

Em sua divertida e humana trama, Sentimentos que Curam contextualiza a difícil relação entre pais e filhas, como aqui é visto no relacionamento inusual e cheio de altos e baixos, mas sempre delicioso, entre o personagem de Cameron Stuart e suas duas filhas pequenas, Amelia e Faith, frutos do seu namoro com Maggie, uma mulher independente que sustenta as filhas de longe e teme a distância e a ausência no crescimento delas enquanto estuda afastada. Pelo comportamento causado pela sua doença (psicose maníaco-depressiva, ou bipolar, sei lá), ele é impedido de trabalhar, e nisso é sustentado pela família rica.

As empreitadas engraçadíssimas do homem tentando ser amigável com os vizinhos, de uma maneira bem esquisita, e tentando se enturmar ao cotidiano das filhas, fermentam o longa e nos deixam alegremente cativados. O filme põe em prática um pensamento que idealiza bem o femininismo e o lugar das mulheres dentro da sociedade, e ainda que tal retrato seja mínimo não deixa de ser interessante analisar o filme por sobre essa perspectiva. Sentimentos que Curam termina e eu ainda sim continuo impactado pelo talento enorme do Mark. Que ator competente. Demais.

Sentimentos que Curam (Infinitely Polar Bear)
dir. Maya Forbes - 

sábado, 19 de dezembro de 2015

Crítica: "JAUJA" (2014) - ★★★★


2015 vai acabar e eu ainda aqui com uma lista gigantesca de filmes pra ver, em apenas onze dias, corridos, antes de seu fim. Já risco da minha lista um que há tempos estava prometendo a mim mesmo que veria, mas nunca tirava tempo, já que este se trata de um filme que exige bastante do espectador, e em diversos quesitos (algo que vou muito proximamente relatar): Jauja, certamente um dos filmes mais belos, visualmente falando, que vi esse ano. 

Sendo em sua grande maioria filmado na Argentina, o longa, quinta produção do pouco conhecido diretor hermano Lisandro Alonso, consegue ser ambiguamente espetacularmente bonito e detonadoramente enigmático, afinal, este é um filme que mais deixa perguntas do que as responde. Mas o segredo para apreciá-lo está em ver não só o que está na tela. É preciso enxergar o antes, o depois e o durante. É preciso compreender que não há sequência lógica, não há explicação racional para bater seu enigma. Apenas o antes, o depois e o durante. 

Jauja, do mais, pode até ser visto como um filme difícil, pela sua complicada trama e o nosso difícil acesso a uma teoria razoável para a explicar, mas, pra mim, nem de tudo trata-se de um conteúdo tão complicado, já que Jauja usa mais os olhos do que a mente. E, de fato, nós necessitamos mais dos olhos do que da mente em Jauja

O interessante é o que filme demora pra sair da cabeça. É algo mágico. Talvez um feitiço, até. Mexe com o inconsciente. Quem sabe lá no fundo a gente saiba a resposta, mas há um obstáculo nos impedindo de agarrá-la. É como uma porta. Estamos do lado de dentro, e estamos sem chave. Não há como abrir a fechadura, e sem abri-la não há como passar para o lado de fora. Mas a gente sabe como é que é lá fora. Afinal, para entrarmos aqui estávamos lá. Sim, esse pensamento é confuso, mas resume bem como a compreensão está para Jauja

Jauja é narrado em forma de fábula. Começa com uma explicação acerca seu título. Segundo uma antiga lenda, Jauja era um lugar muito semelhante a um paraíso, onde só havia felicidade e os mortais nunca precisariam se preocupar em ter ou criar problemas. Eles não teriam. Partindo desse prólogo, o filme abre com a imagem iconizada pelo poster acima, numa cena de beleza indescritível, onde um capitão norueguês busca conseguir um tratado com um exército local na Argentina, e que cria diversos emblemas consigo mesmo com o desaparecimento da jovem filha, Ingeborg, que desperta desejo nos soldados da região e o enfurece loucamente. Ingeborg, na verdade, foge com um dos soldados do exército, visto sua paixão por ele. Numa busca vagarosa e monótona, seu pai se depara com estranhíssimos pretextos, que reforçam a ideia de misticidade por sobre a fábula surreal.

A lentidão da narrativa, quase inerte, é motor da beleza constante de Jauja, beleza incessante, inimaginável e redondamente peculiar. É algo que disputa com a sua própria complexidade, que no fim de tudo acaba sendo mais um charme do que uma charada a ser resolvida. E imprevisível também. Seria Jauja a representação da Terra, o desenvolvimento dos diversos grupos e nacionalidades, e a evolução da ambição humana? 

Seria um conto que visa explorar a procura do homem por algo que nutra o vazio dentro dele, o eterno instinto de sair em busca de um significado para a nossa jornada, num universo cada vez mais sem sentido e razão? Ou apenas uma história de amor que consegue vencer os limites impostos a tempo e espaço, e até mesmo que esse amor possa custar o sentido da vida? Na sua mista ambiguidade e irrealidade, Jauja desafia o público em uma aventura lúdica, cheia de simbolismos e segundas intenções. O que vale, e rende, é contemplar a sua beleza magnânima e sem igual, que certamente dá vida à toda essa história incompreensível, no bom sentido da coisa, já que ela só tende a evoluir no nosso entendimento com o passar do tempo. Jauja pode ser um cofre cuja senha pertence ao seu proprietário, mas certamente é também uma joia preciosa, raríssima, de valor incalculável. E não vão pensando que me esqueci do Viggo Mortensen. Ator mais que competente esse, não acham?

Jauja
dir. Lisandro Alonso - 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Crítica: "UM AMOR A CADA ESQUINA" (2014) - ★★★


Finalmente! Apenas começo a desfrutar da minha almejada temporada de férias, que iniciou nesta glorificada semana, com um sorriso quilométrico estampado na cara e uma lista vergonhosa de filmes ainda não visto que devem ser conferidos até o cessar de 2015. Cara, vou te contar, chegou a tempo. 2015, nas questões de ofício, foi um ano pra lá de cansativo. E não tem jeito melhor de iniciar essa folga com uma comédia engraçadíssima, pra lá de extasiante e burlesca, certamente uma das melhores desse ano. Primeiro filme (realizado para distribuição cinematográfica) do cineasta americano Peter Bogdanovich em 14 anos (desde O Miado do Gato), Um Amor a Cada Esquina é um jeito leve e classicista de voltar à ativa selecionado pelo cineasta - que não melhor poderia fazê-lo - sem mencionar que é pura diversão, em todos os aspectos, e bem refinado. Trata-se também da evidência de um forte guarnecido do Peter: o roteiro, que há tempos não é visto tão bem trabalhado e desenvolvido, muito embora falhas estejam expostas. E só aumenta as expectativas quanto ao próximo longa dele, One Lucky Moon, western previsto para 2017 estrelando Cybill Shepherd.

Não tenho muito o que reclamar de Um Amor a Cada Esquina. O que importa é que há uma porrada de elogios para fazer. Falhas é o de menos - felizmente. Comédia escrachada, Um Amor a Cada Esquina retrata o efeito do fantástico no ser e a transformação da ilusão em realidade, com direito a teorizações terníssimas acerca dessa evolução, ditadas pela personagem Izzy, atualmente atriz de cinema que está dando uma entrevista, e que recorda do seu passado e o que sequenciou sua ascenção à nata do mundo das celebridades. Outrora sofisticada e sonhadora garota de programa, a hoje Isabella Patterson, nas idas de um encontro com um renomado diretor de teatro, Arnold Albertson, vê seu desejo se realizar misticamente com a frenesi romântica de Arnold, que a garante um cachê de trinta mil dólares naquela mesma noite, com o diretor a humanizando, e apenas a prometendo a grana caso ela parasse de seguir com aquela vida e então rumasse seus sonhos. 

O que desencadeia essa primeira parte preenchida por ludíbrios devaneios românticos pode parecer suave para que a precede. Os amargos e pseudo-sérios personagens que vão tomando conta da tela e da trama após os delicados momentos iniciais reverte automaticamente o senso de parcimônia cômica e enaltecimento romântico que tanto parecem dar vida ao filme, muito embora esse teor não seja praticamente dizimado. O mais incrível de toda essa rebobinagem ao não bobinado é que de forma alguma atrapalha na interpretação da história, que continua objetivando conscientizar o paradigma lúdico da fantasia e da nossa eterna luta, aqui vitalmente filmada de um ponto lúdico para o espectador tendo como fundo o acelerado crescimento da tola Izzy, protagonista, pela concretização das nossas ambições, impossivelmente inalcançáveis quando nós nos encontramos embebidos no elixir da ilusão, aqui fortuna para os personagens dessa louca história de amor e sonhos. 

A dinâmica da construção dos personagens catalisa a força de um elenco riquíssimo, todo em conjunto, uma vez que os muitos núcleos amorosos em torno da trama complexamente enrolada une esses atores, em especial numa das cenas perto do fim, onde há um conglomerado de gente reunida nos ensaios da peça do Arnold, como os pais da Izzy, o detetive, a terapeuta e seu "cliente tarado" - cena irrealmente cômica, uma das melhores do filme, empatado muito provavelmente com a cena do hotel com o desencontro entre as prostitutas e a esposa. De fato, como muitos tem atestado, é uma comédia que remete ao antigo estilo de se fazer comédias, um mix de Buster Keaton, os Marx e Chaplin, que, mesmo nem tão satisfatório ou completo quanto devia, é milagrosamente remetente, e portanto, minimamente, fiel. As comparações ao Woody Allen, no entanto, são mais válidas ainda, já que Um Amor a Cada Esquina bebe na fonte de A Rosa Púrpura do Cairo, meu favorito, com a Isabella daqui se assemelhando com a Cecilia de lá, apesar dos distintos destinos que ambas as figuras tomam, isso lembrando que a personagem da Isabella tem como tema a ilusão.

Quanto ao elenco, estrelam aqui importantes amostras de humor de qualidade, já conhecidos do público (Owen Wilson, Jennifer Aniston, Will Forte, Richard Lewis, Austin Pendleton) e algumas outras que, ainda que conhecidas, mostram, primitivamente, talento na área (Kathryn Hahn, Rhys Ifans), e aquela que é o destaque e a graça do filme: a deliciosamente engraçada e ainda mais linda Imogen Poots, cuja existência só me veio a ser denotada no conhecimento de Um Amor a Cada Esquina, ainda que a beldade esteja no aguardadíssimo Cavaleiro de Copas, próximo do Terrence Malick que teve a sua estreia para esse mês adiada por tempo indeterminado. Droga! 

Outra participação interessante, mesmo que bem menor, é a de Lucy Punch, outra deusa que faz aqui um papel de prostituta, numa sequência hilária. A primeira coisa que subiu à minha cabeça foi de que a atriz nunca esteve mais familiar. Acontece que essa é a segunda vez que ela faz um papel de meretriz, pelo que eu conheço, já que há pouco tempo a vi imperdível em Você vai Conhecer o Homem dos seus Sonhos - do Woody Allen. Fica a sensação de que essa garota ainda nos tem muita coisa pra mostrar. E porque diabos o título She's Funny That Way (Ela é Engraçada desse Jeito)? Eu ainda acho que Squirrel to the Nuts ficaria show (a frase, expressão que diz "esquilos para as nozes" é quase um bordão do personagem Arnold). 

Um Amor a Cada Esquina (She's Funny That Way)
dir. Peter Bogdanovich - 

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Crítica: "JORNADA AO OESTE" (2014) - ★★★


"Como uma estrela, uma miragem, como a visão de uma lâmpada, como ilusões, gotas de orvalho, como bolhas n'água, como um sonho, um relâmpago, uma nuvem, assim é que cada um deve ver o que lhe está condicionado". Jornada ao Oeste encerra-se com essa inspirada reflexão, as únicas palavras proferidas pela legenda durante o filme todo, sem contar o título no início. Curta-metragem do aclamado diretor considerado hoje símbolo do cinema oriental contemporâneo, Tsai Ming-liang, Jornada ao Oeste surge da simples proposta da filmagem de sequências protagonizadas por um monge e um homem comum, sequências marcadas pela lentidão do caminhar dos atores Lee Kang-sheng e o francês Denis Lavant e o surrealismo do conteúdo. Não se deixem enganar por "simples proposta". Digo isso pela leveza com a qual o filme é conduzido, a pureza dos detalhes. É muito provavelmente o filme mais enigmático e complexo que vi neste ano. Carrega na sua incomum natureza non-sense uma beleza extraordinária e regada pelo desejo do desconhecido. Em apenas 50 minutos que no final transparecem como um mega-metragem de quatro horas, Jornada ao Oeste vem para testar o público, desafiando os princípios cinematográficos do tempo, e colocando em pauta a importância desse elemento para uma realização de tal nível. 

À exceção do começo, cuja abertura data oito minutos com um close-up na melancólica face de Lavant, e a sequência que segue essa é ainda mais monótona, a maior parte restante do filme devaneia o contraste entre o rápido fluxo de parisienses, com a sutileza dos movimentos e da câmera, um a um brevemente comovido com o vagaroso andar do monge e sua inquebrável concentração, nem mesmo eclipsada pela euforia de poluição sonora que corre solta enquanto ele, numa escadaria, vai proporcionando incômodo a quem tenta passar por uma das vias da escadaria, sendo um segundo lado totalmente ocupado pelo monge. Essa cena, que tanto identifica o desconforto geral da platéia enquanto o filme era exibido (uma das moças perto de mim espreguiçou-se perto do fim com tanta fervorosidade que quase pulei da poltrona) é também agente do desconforto, quando vemos a glamourosa fotografia e a sensibilidade representada pela passagem sendo aniquilada com a população, no fundo, fabricando discussão, e uma garotinha infernalmente irritante atazanada pelo inusual episódio, que é visto como diversão por certas pessoas, indiferença e também artística, uma romantização particularmente bela vinda do respeitável espectador. 

É certo que, em partes, o filme gera tédio. Mas com um propósito. Estabelecer um equilíbrio lógico acerca do timing perfeito e do timing exagerado, o que já é invasão de um território totalmente diferente: a técnica. O bom de Jornada ao Oeste é que ele produz distintas interpretações. Pode ser tanto uma crítica, um desafio, um exemplar técnico, filosofia surreal, beleza experimental, ou a mistura de todos esses fatores. A complexidade e poder deste filme está em intimidar, e contaminar seu auditório de claustrofobia apenas por focar um rosto durante oito minutos seguidos ou apresentar a filmagem estonteante de dois homens em perfeita sincronia numa lenta e incompreensível trilha ao oeste da tela, provocando impaciência a quem vê portando como escudo uma nova e estranha experiência.

Jornada ao Oeste (Xi You)
dir. Tsai Ming-liang - ★★★

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Crítica: "EU ESTAVA JUSTAMENTE PENSANDO EM VOCÊ" (2014) - ★★★★


2015 tá chegando ao fim. Mal dá pra acreditar. E, enfim, novembro é o mês de ficar sobrecarregado até não poder mais e atingir o limite do cansaço. Não dá pra dormir direito, comer direito, ver o que eu tenho que ver, sem falar nos irresolvidos problemas pessoais, o ódio que não cessa e a vontade de mandar todos à merda de uma só vez. Essa semana já feri meu pé, tive torcicolo, e desde que contraí a maldita intoxicação alimentar no mês passado estou com uma gripe ferrada que acabou desembocando em uma crise de bronquite. Sem falar que meu nariz tá estranho esses dias. Não há paz, resumindo. Manter o controle e a sanidade tá bem difícil. Ah, eu já falei da falta de tempo? Pois é. O que salvou essa quarta foi ter visto os dois engraçadíssimos primeiros episódios da 4ª temporada de Curb Your Enthusiasm (em exibição no HBO Signature) e o belíssimo Eu Estava Justamente Pensando em Você, comédia romântica protagonizada por uma dupla certamente inesquecível e que leva em si influência de outros grandes filmes do gênero, e uma síntese inovativa que convida o espectador a embarcar numa experiência diferente de qualquer outra, com um especial viés que conecta uma peculiar rede suspensa de tempo e espaço dentro de um relacionamento amoroso entre dois personagens. 

A primeira cena detalha Dell todo desengonçado enquanto tenta decidir se segura ou não um buquê, parecendo estar à espera de alguém. Um flash transporta o público para outra cena, o encontro inesperado de Dell com Kimberly, com ambos eles, desconhecidos, aguardando uma chuva de meteoros. Nas cenas seguintes, o filme monta uma descentrada trama que vai narrando a engraçada e romântica relação entre os dois, as desavenças, opiniões e frenesis, já que ambos são dois desnorteados loucos. O ponto forte do filme é justamente esse estilo de narrativa bem descontraído e sem uma ligação direta, que aos poucos vai formando a imagem na cabeça do espectador, o que distancia a história de um clima clichê, batido. Muito pelo contrário. Quase todos os cenários, fechados e pouco explorados, dando a impressão de que foram filmados 100% em estúdio, e isso também faz do filme algo extraordinário, já que tal isolamento proporciona maior intensidade e foco aos diálogos. 

Apesar da ação ser limitada, o que move o filme são as histéricas conversações entre os dois, seja no primeiro encontro ou no pesaroso reencontro, marcantes e também conteúdo. Interessante ver como a interpretação avessa tanto do protagonista masculino quanto da feminina tem uma enorme importância para o desenvolvimento da relação, com uma estética até talvez feminista, já que ela tende a ser uma figura bem mais firme do que ele, na questão do pensamento sempre bem exposto e da vergonha ausente. Já ele é mais fechado, tímido, daqueles que não são de se meter em encrencas, o típico "certinho", cuja vida amorosa é sinônimo de vazio e solidão. Até Kimberly, é claro. Os dois possuem um distanciamento quanto à ideias pessoais o opiniões, até mesmo quanto ao amor, o que é bem declarado por todo o filme, com os dois protagonizando acirradas disputas sobre a existência do amor, com Dell contestando não acreditar que o amor realmente existe, e que toda relação, seja até mesmo o mais duradouro relacionamento, não é para sempre. Já ela, que experienciou na família o longo relacionamento dos pais, diz que que crê na força e na existência do amor, e ela mesmo parece depender desse contexto como forma de temperar, à certo modo, sua transparência quanto à relações. 

Sem falar que o filme é inspiradíssimo em três filmes românticos, com uma profunda recaída no primeiro citado: Antes do Pôr-do-Sol (crítica 1crítica 2), Noivo Neurótico, Noiva Nervosa Embriagado de Amor. Puxa, Eu Estava Justamente Pensando em Você tem muita coisa a ver com a obra-prima do Richard Linklater Antes do Pôr-do-Sol, a começar por alguns segmentos que deixam bem definido essa influência, não só a história de amor de Dell e Kim (que também parece ser inspirada em Antes do Amanhecer e Antes da Meia-Noite), a falar primeiro da cena do trem, onde esses filmes estão polarizadamente reunidos. Pra começar, a cena que Dell ouve de Kim uma suposta atração dela por um produtor executivo da MTV, ele sai, vai para o banheiro do trem e esmurra o espelho, lembrando uma das cenas mais eletrizantes de Embriagado de Amor, onde Barry Egan, nervoso, pede gentilmente licença para a amada Lena e se dirige ao banheiro, repetindo lá um ato até mais violento do que esse, chegando a derrubar portas e se ferir gravemente na mão, como o Dell. 

A cena da fila para ver o cometa, onde Dell e Kimberly se encontram pela primeira vez lembra vagamente da clássica sequência da fila em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, onde Alvy Singer começa a entrar em pânico com a alta conversa de um homem atrás dele, que cita Fellini e Marshall McLuhan, aqui comparado com o homem do encontro de Kim reclamando que Nova York é pior que Los Angeles, e o Dell, na frente, ironicamente o rebatendo para si mesmo. Seja nessas referências maravilhosas ou numa história que encanta e desespera ao mesmo tempo, Eu Estava Justamente Pensando em Você é simplesmente fabuloso.

Eu Estava Justamente Pensando em Você (Comet)
dir. Sam Esmail - 

domingo, 8 de novembro de 2015

Crítica: "A DOCE SEDE DE SANGUE" (2014) - ★★★


Sumido o Spike Lee, hein? Apesar da sua recente refilmagem de Oldboy ter sido lançada no Brasil ano passado, o diretor parece ter desaparecido das telonas, tanto que A Doce Sede de Sangue foi lançado diretamente em DVD esse ano. E parece que desde A Última Noite ele não tem lançado um filme bem-recebido ou aclamado, tanto por lançamento ou crítica, digamos, já que Milagre em Santa Anna, Oldboy e até mesmo o documentário Michael Jackson - Bad 25 não foram lá bem aceitos. E, embora seja um filme compreensivelmente delicado, A Doce Sede de Sangue merecia ter, pelo menos, uma melhor distribuição internacional. Acredito que o impacto de tê-lo visto em casa é pequeno comparado caso o filme fosse lançado no cinema. Metade terror metade suspense, A Doce Sede de Sangue, de tão mal financiado não é aquele filmaço, mas caso melhor produzido daria uma bela obra, e mesmo assim não deixa de ser valioso.

Financiado com o dinheiro de internautas, através de um site organizado pelo próprio Spike Lee, que estava com mega dificuldades para produzir o filme, A Doce Sede de Sangue, bem como eu falei, é mediano por natureza. Seu quê de filme grande tem a intensidade reduzida com a escassa exploração da trama devido à falta de recursos e um tecnicismo falho que certamente surpreende em certos pontos, mas não é aquilo que se pode esperar de alguém do tamanho de Spike Lee, aquele que dirigiu a filmografia de três horas do Malcolm X e o clássico Faça a Coisa Certa. De longe não parece o mesmo diretor. Mas, enfim. É o que tem pra hoje. E não posso dizer que estou decepcionado. Muito pelo contrário. Até acho um trabalho bem enigmático, e por isso interessante. É bom ver que, ainda diante de pobres condições, Lee consegue se virar, razoavelmente.

A história é meio confusa no início, mas vai sendo detalhada com o passar do tempo, resultando numa narrativa bem exercitada e temperada. É sobre um especialista em arte que trabalha com artefatos históricos africanos e que está realizando investigações ao lado de outro curador, homem de temperamento duvidoso e que tem frequentes transtornos suicidas. Num segmento mal explicado, ele tem um surto e acorda esse especialista na tentativa de acertá-lo com um machado. Tentando se proteger dele, Lafayette acaba utilizando um misterioso e amaldiçoado instrumento, supostamente utilizado por uma rainha egípcia sedenta por sangue que acabou dizimando a população de seu reino bebendo seu sangue, matando-o. Ele se mata, mas o outro acaba revivendo, empoderando-se de uma sede insaciável de sangue. Pouco a pouco, ele vai vitimando mais pessoas, que vão integrando sua sociedade de "vampiros".

Termina sem muito sentido, mas é aterrorizante. E, pra quem não via um filme do Spike Lee há muito tempo, A Doce Sede de Sangue é a oportunidade de vê-lo numa fase mais relaxada, ainda que subestimada, onde o diretor parece tecer um olhar renovado sobre as suas perspectivas do universo negro e afro-americano. Enquanto serve de crítica à religião, é também um magistral terror que faz múltiplas conexões, dando diferentes ângulos à complexa trama, que pode ser subentendida de um jeito por mim, e por você de outro. É bem bizarro, mas é simplesmente estremecedor. E, ainda mais num ano onde o terror anda sucumbindo à repetição, ao incompreensível sobrenatural e ao tédio, A Doce Sede de Sangue pode ser visto como um sucesso adentro tantos, de fato, horrores (se é que me entendem) por hora vistos por aí. Sem contar na espetacular trilha sonora, que, como forma de adocicar a melódica sensualidade da peculiar história, leva dois títulos da MPB consigo, bem vistos em duas cenas, uma delas a fervorosa cena de sexo entre o especialista e a sra. Hightower e a sequência final, na voz icônica de Jorge Ben e Milton Nascimento (algo que deve ter uma direta influência com a demorada visita de Spike Lee no Brasil, faz um tempinho já, uma vez que ele veio filmar um documentário passado aqui, que não foi lançado, se eu não me engano).

A Doce Sede de Sangue (Da Sweet Blood of Jesus)
dir. Spike Lee - ★★★

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Crítica: "DOIS LADOS DO AMOR" (2014) - ★★★★★


Por que diabos não lançaram aqui no Brasil os dois primeiros filmes da trilogia, que são The Disappearance of Eleanor Rigby: Him e Her, em vez de apenas terem trago o último (Them), ainda que seja este seja a "junção" (editada) dos outros dois primeiros, sob o título Dois Lados do Amor?. O Him discute a história na visão do protagonista masculino, Conor Ludlow, e o Her a perspectiva da personagem do título, Eleanor Rigby (nomeada assim por conta da famosa música do Beatles, já que seu pai e sua mãe se conheceram enquanto esperavam juntos por um suposto concerto da banda em Nova York). Se bem que pedir mais depois de Dois Lados do Amor fica até um pouco embaraçoso, já que se trata de um filme espetacular. Multifacetado prisma que espelha a relação de um casal após uma tragédia familiar, Dois Lados do Amor combina, com enorme perfeição, drama e romance, além do elenco sensacional, com especial destaque a Jessica Chastein (num dos melhores papéis recentes dela) e James McAvoy (brilhante, como nunca esteve). 

Vou te falar, esse ano a Chastein chegou com tudo. No início de 2015, carregava consigo glamour e beleza no pesado O Ano Mais Violento, onde enfeitava com doçura e às vezes rigidez sua personagem, esposa e "conselheira" de um bem-sucedido empresário do ramo petrolífero. Um pouco mais tarde, em maio, voltou a encantar na pele de Miss Julie, talvez seu melhor papel e mais radiante visto neste ano. Não tive a chance de conferir Perdido em Marte, ainda, onde a performance da atriz veio recebendo bons elogios. Só tinha sobrado dela, pra ver, Dois Lados do Amor, que chegou tímido aos cinemas, em março. A única palavra para pontuar o desastre de ter perdido o longa no cinemaé pecado. Erro é muito pequeno para identificar o meu desapontamento comigo mesmo por não tê-lo visto à altura, se bem que eu nem sabia de sua estreia até agora.

Ned Benson, que já foi namorado da Jessica antes dela fazer fama, convida o público a acompanhar a trágica e belíssima trajetória de um casal, atravessando um profundo período de luto, cada um reagindo da própria maneira à agitação desse capítulo, de um ângulo inteiramente singular e diferenciado das demais abordagens que se vê por aí. Enquanto vemos na carismática e energética figura de Conor Ludlow um estado de despreocupamento e calmaria, Eleanor Rigby, sua amada, enterra-se num espírito de luto emergente e abalador, provocando seu afastamento do marido e da sua própria vida - de fato, seu desaparecimento -. Após uma falha tentativa de suicídio, ela retorna à casa dos pais onde tenta reconstruir a vida isolada de Conor e de todas as memórias que pudessem a remeter à perda, só que aos poucos ela vai criando alguns problemas com os familiares quando todos parecem coroá-la com um misto de superproteção e preocupação com seu estado psicológico. Se não viram ainda Dois Lados do Amor, não ousem ler nenhuma sinopse ou até mesmo ver o trailer, senão estraga a surpresa e a grande sacada do monumento dramático que é, e até o clima de suspense que fica no ar por conta dos frequentes desencontros entre o tempo atual e os misturados flashbacks, desaparece, e isso talvez influencie no entretenimento. 

Enquanto muitos outros filmes que retratam o luto, e seu catastrófico efeito na vida da gente ao seu redor, reverenciam um incólume, mas caso realizado sem os precisos cuidados inflado, modelo que sempre procura conectar os centrais envolvidos à uma avalanche de revelações, sentimentos contrastados e uma auto-repreensão interminável, mas que são os necessários elementos da composição da trama, em Dois Lados do Amor o espectador vai desvendando os segredos dentro da narração à medida em que o luto não está nitidamente perceptível (ele vai ganhando camadas com a evolução do filme), o que resulta num exemplar protótipo e bem incomum.

Eleanor representa a culpa, a dor e a dúvida do ser emergindo depois do grande break, sentimentos antes encobertos, mas que ressurgem misticamente com o baque. Conor representa o "ir em frente", deixar pra trás, "aprender a conviver com o passado". Como um casal, Conor e Eleanor representam num uníssono essas características na própria pessoa, que determinam o luto. Enquanto uma parte de nós não aceita a verdade e fica preso naquela onda de tristeza e inconsolável melancolia, a outra é forçada, pelo tempo e pelas suas tarefas, a abandonar essa instabilidade. E, enquanto essa relação é a pura demonstração de todo o processo que reúne a aceitação da partida, também há todo um contexto romântico por trás dessa simbolização, a caracterização do amor verdadeiro. É uma história muito bela, cuja impactante sensibilidade me silencia de um veredito contrário a esse. A insuficiência de defeitos, a caracterização, a encarnação. É absolutamente excelente, inesquecível. 

Como eu não tinha ouvido falar muito de Dois Lados do Amor, sequer estar ciente da participação de atores fenomenais à exceção da Jessica e do James, e também da minha eterna diva Isabelle Huppert, no já mencionado indescritível elenco, fiquei abismadamente surpreso com a presença de William Hurt, Viola Davis e o Bill Hader neste mesmo, sem falar na Nina Arianda, que faz uma pequena ponta. O roteiro é maravilhoso, constrói bem as personagens e costura a história com um intransitivo esmero, além da perpetuação de um clima que enverniza bem as performances e o temperamento do relacionamento da Eleanor e do Conor, permeado pela paixão e pela depressão. Vale elogiar a desprevenida entrada de conflitos familiares que, apesar de não ser amplamente observada, rende uma exótica apreciação. Dois Lados do Amor é marcante quão indispensável. É com certeza um dos melhores de 2015. 

Dois Lados do Amor (The Disappearance of Eleanor Rigby: Them)
dir. Ned Benson - 

domingo, 25 de outubro de 2015

Crítica: "PARA O QUE DER E VIER" (2014) - ★★


Seth MacFarlane, Jennifer Aniston, Sofía Vergara, Adam Sandler, Tracy Morgan... É uma estranha coincidência. Às vezes, determinadas personalidades deixam a má impressão de que elas nunca deveriam ter saído da TV e ingressado no cinema, isso sem querer insinuar que os artistas vindos da televisão não prestam ou não possuem qualidade, na intenção de permear a existência de um frequente preconceito quanto a isso, ou até mesmo maldizer as produções e o valor desse circuito. Não é, de fato, um número tão grande assim quanto eu esteja fazendo parecer. Matthew Weiner, o criador do já lendário seriado de sucesso Mad Men, ganha um passaporte de ida para essa lista negra com uma enorme desvantagem, já que o azar que imperou sobre sua estreia cinematográfica, a comédia dramática Para o Que Der e Vier, contraria os quilos de elogios direcionados a Mad Men

Se é que podemos rotular Para o Que Der e Vier como uma comédia dramática, propriamente dizendo. O filme nem se trata de uma comédia quanto menos drama. Não há esforço cômico, e é raro entreter-se em cenas onde esse é objetivo alçado pelo diretor. Quando o clima dramático pesa, não tem sentido ou é insuficiente. O filme parece querer discutir o baixo astral loser de seus principais personagens, mas não alcança tal façanha por falta de nexo e realismo. Até seria melhor se fosse uma comédia de humor negro, o que muito tem cara de. Eu disse fosse, pois, mesmo que na intenção de vingar os resultados negativos das experiências com a comédia e o drama o filme aspirar esse paradigma também não mostra qualquer evolução. É bem parado. Caótico. O filme não se resolve, e quando toca nas questões existencialistas e passa a focar em diálogos duradouros e fadigosos sobre a vida, escolhas, consequências, verdades e mentiras, é aí que ferra tudo. O longa mostra-se tão bipolar e hipócrita quanto o Ben. 

Ben, um escritor que vive enfurnado num trailer à beira de um rio, é grande amigo de Steve Dallas, viciado em drogas e homem do tempo de um pequeno jornal local. A amizade dos dois não é bem analisada pelo fraco roteiro, além de uma severa duplicidade imposta pelo mesmo, que faz com que o espectador se confunda à respeito dessa relação, ora codificada como desconhecidos, outrora amigos e até irmãos. A real e única ligação coerente entre os dois é a paixão pela maconha (a sequência inicial não deixa esse contexto bem direcionado, e só com o desenrolar da trama é que vemos de perto que tal firmamento é sim de uma natureza tocante). O pai de Ben morre, e neste dia ele invade a emissora onde Steve trabalha numa sequência desesperadoramente sem graça, onde anuncia de um jeito maluco a morte dele, com um imenso pesar.

Depois de chegarem atrasados ao velório, dão de cara com a irmã insensata do maluco, que discorda firmemente do relacionamento que o falecido pai manteve nos últimos cinco anos de sua vida ao lado de uma jovem hippie. É essa irmã, perdedora por escolha, que gasta suas energias tentando converter o destino que lhe foi escrito atacando a todos com seu elétrico ódio (essa personagem é interpretada com destaque pela Amy Poehler, num descomunal papel dramático). É nesse núcleo que temporariamente se sustenta o drama do longa. Mas tudo desmorona quando é assumida uma desvigorosa e imponente prepotência, que faz com que os diálogos, pequeníssimos, sejam enaltecidos erroneamente. Não há clima nem ao menos razão em Para o Que Der e Vier. Ele mesmo se trai, em prol de uma ridícula atenuação. No mínimo, vale reconhecer o desempenho de Zach Galifianakis, extremamente irreconhecível sem barba no ato final, e que equilibra bem seu problemático personagem.

Para o Que Der e Vier (Are You Here)
dir. Matthew Weiner -