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sábado, 17 de março de 2018

Alguns filmes da semana


Como escrever no blog está se tornando uma tarefa mais rara, decidi atualizá-lo semanalmente com curtos comentários sobre os filmes vistos durante a semana (e geralmente meus comentários também podem ser acompanhados no meu letterboxd). 

Veneno (Poison, Todd Haynes, 1991) ★★★★


Primeiro filme do cineasta Todd Haynes. Uma delícia. Praticamente é como se fosse Sem Fôlego só que com três linhas de narrativa distintas intercaladas que não compartilham conexões diretas umas com as outras, embora pareçam dividir da mesma intensidade e energia ao longo do filme. Interessante é que este trabalho foi influenciado por trabalhos do escritor francês Jean Genet. Provocativo, forte e necessariamente pesado: foi um ótimo prólogo para o mestre que Haynes se tornaria alguns filmes após este. Escolhi (sem saber) uma cópia VHS e me surpreendi com o quanto isso ajudou na atmosfera perversa e bizarra do longa. Há também alguns aspectos de filme de horror, evocados em diversos momentos tensos da trama, o que influencia no fato do filme ser, no geral, um tanto incômodo quando trata da liberdade sexual, do aprisionamento, dos limites aos quais somos impostos e o quanto sofremos por eles. O impacto foi demasiado. Há grandes atuações, uma trilha inspirada e, é claro, uma condução de deixar qualquer um fora de si. 

The Fits (Anna Rose Helmer, 2016) ★★★½


É muito interessante e mais interessante ainda é que se trata de um filme de uma diretora estreante. Os níveis que a mise-en-scene atinge são desnorteantes. E ainda mais quando se tem em cena uma atriz mirim tão talentosa como a Royalty Hightower, cuja brilhante atuação, na pele de uma menina que fica dividida entre as lutas de boxe e as aulas de dança no centro em que frequenta, foi tão pouco reconhecida (como o próprio filme que, embora tenha caído nas graças da crítica, teve pouca divulgação e quase ninguém fala sobre). Transita entre uma diversidade de elementos dramáticos mas nunca perdendo o próprio ritmo que a história carrega. E mesmo numa variação tão limitada de espaços, o balanço dramático e espacial que a diretora encontra é riquíssimo. Dos maiores destaques do cinema indie americano recente. 

A Garota do Café (The Girl in the Café, David Yates, 2005) ★★★


Filmezinho simpático esse. Talvez eu tenha gostado mais do que eu poderia prever. Especialmente por conta da química entre os atores principais, os ótimos Bill Nighy e Kelly Macdonald, aqui fazendo um par romântico bem atípico e gostoso de se observar. Eu posso entender as intenções do roteiro de Richard Curtis até por envolver certos pontos diplomáticos em seu contexto (um filme sobre um economista que trabalha para o governo britânico indo em uma cúpula do G8 e levando em sua companhia uma mulher que ele conheceu recentemente), mas parece que as respostas dadas parecem ser tão simples para questões tão complexas, embora seja nobre o quanto são humanas as mesmas intenções que esse roteiro desenha. Enfim, eu gostei. Serve mais como uma distração romântica do que como uma crônica política. 

bônus:
Roads of Kiarostami (Abbas Kiarostami, 2006) ★★★★½


Achei este curta inédito de meia hora do nosso querido Abbas Kiarostami e me deliciei com tamanha simplicidade. Temos uma série de imagens (fotografias tiradas pelo cineasta em estradas, caminhos e paisagens que ele visitou) seguidas por uma narração do mesmo e uma trilha belíssima. É a perfeita definição do que cinema poético é. Mesmo com pouco, Kiarostami extrai desses simples gestos de combinar imagens, palavras e música algo tão forte e cinematograficamente poético que nossa única reação é ficar ali, parado, abismado e encantado com a disposição. É calcado na sutileza de um olhar, mergulhado na paixão de quem encontra numa fotografia o monumento para uma vida. 

domingo, 23 de outubro de 2016

Os Destaques da Semana | 16 a 22


Vou comentar aqui alguns filmes que vi esse semana. Não deu pra ver muita coisa. Minha lista na Netflix continua abarrotada de filmes, várias recomendações, mais outros vários filmes que baixei, e por aí vai. É tanto filme que não acaba mais. Em novembro vou tentar dar uma apressada e ver alguns mais atuais também. O pessoal fala de tantos lançamentos, e tanta coisa já saiu, mas o tonto do Lucas ainda não viu quase nada. 


"Tá legal. Uma Aventura Lego não deve ser grande coisa.". Eu nunca pensei que diria isso, mas estava enganado. E fico entristecido por ainda existir preconceito em mim em relação a filmes de animação. Mas, depois de Uma Aventura Lego, a gente se sente até motivado a procurar mais trabalhos tão dedicados e primorosos como esse. 

Pode não parecer, mas Uma Aventura Lego fala muito sobre quem nós somos, o mundo em que vivemos, a manipulação da sociedade, o aprisionamento do sistema, a verdade sobre o que está acontecendo com nós e como estamos nos tornando vítimas das mentiras de quem está por trás de tudo tentando controlar nossos pensamentos, atitudes e vontades. 

A conclusão, tida por muitos como decepcionante, é excepcional. O filme se encaixa em muitos níveis, e se aprofunda em diversas camadas. Inesperadamente, é um filme imensamente satisfatório e pra lá de bom. Um estímulo bastante convincente para que a criançada e os jovens descubram e se interessem mais a desvendar a realidade sobre o nosso mundo. Uma crítica social feroz, Uma Aventura Lego é magnífico.

Uma Aventura Lego (The LEGO Movie)
dir. Phil Lord, Christopher Miller - 


Faz um bom tempo, peguei Johnny & June passando na TV. Peguei uma cena bastante interessante, que acabou me hipnotizando naquele exato instante. Johnny & June é o que poderia se esperar de uma cinebiografia regular. O grande quê do filme é a atuação extraordinária de Joaquin Phoenix, uma das melhores do ator que sempre aparece com uma ótima interpretação atrás da outra. No filme, ele interpreta o renomado cantor Johnny Cash, um dos mais famosos e aplaudidos astros da música americana do século passado, e seu relacionamento tempestuoso com June Carter, interpretada por Reese Witherspoon numa performance básica, doce e amarga, natural, mas sem atrativos. Comparada às outras candidatas naquele ano, Reese não merecia o Oscar de Melhor Atriz, mesmo que seja uma intérprete tão talentosa. Não me levem a mal, a atuação dela não é ruim em nada, mas é simplesmente superestimada. Por outro lado, deveriam ter premiado o Phoenix, que está excelente. 

O filme é tecnicamente bombástico, mas seu roteiro é fraco, não consegue se sustentar por muito tempo. As intrigas de Cash retratadas aqui chegam a tal ponto que fica sem graça acompanhar a jornada do cantor e o espectador perde a fé na relação entre ele e June. Faltou tom, e um ritmo mais acentuado, que acompanhasse melhor a história. Johnny & June é longo demais, e pouco inventivo. Segue um padrão de cinebiografias cansativo e atrasado, embora preze por chamar a nossa atenção loucamente com uma premissa atrevida, mas que no final é praticamente transparente.

Johnny & June (Walk the Line)
dir. James Mangold - 


O filme que inicialmente deu fama e reconhecimento à hoje internacionalmente conhecida e aclamada Jennifer Lawrence. A performance corajosa, imbatível e poderosamente furiosa da atriz, na época bastante jovem e matura o suficiente para incorporar uma personagem tão multifacetada e exigente. O desempenho arrebatador da jovem Lawrence é o que sustenta esse filme com traços dramáticos tão relevados e marcantes. 

Uma jovem à procura do pai desaparecido num lugar aparentemente no meio do nada devastado pelo frio. Resistindo fervorosamente ao alvoroço da população local e aos ataques dilacerantes dos contrários, Ree (Jennifer) cuida sozinha dos irmãos e da mãe que está debilitada, não se cansa de procurar e procurar pelo pai, um sujeito envolvido com o tráfico. Essa busca quase frenética a leva a um destino muito perigoso e atormentador.

Segundo as minhas expectativas, seria um filme mais agudo, chocante, afiado. E não que não seja. Inverno da Alma trabalha bem sua proposta e seus objetivos estão bastante claros. Não é um filme defeituoso. Talvez, se a gente for pensar mais em relação a ele, a conclusão talvez soe descompromissada, mas é algo ligeiramente subjetivo.

Muita gente fala dos trabalhos de Lawrence, mas visando apenas a franquia Jogos Vorazes e filmes recentes da era pós-Oscar da atriz, e se esquece desse trabalho tão importante da carreira dela, que conta com uma de suas interpretações mais plausíveis e memoráveis, quão essencial e primorosa. Me lembrou bastante do excelente Rio Congelado.

Inverno da Alma (Winter's Bone)
dir. Debra Granik - 

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Crítica: "A LULA E A BALEIA" (2005) - ★★★★


E aos poucos Noah Baumbach vai me conquistando. O primeiro filme dele que vi foi o razoável Enquanto Somos Jovens, que pra mim é perfeitamente definido pela frase "é o que tem pra hoje", e que não me surpreendeu quase em nada, se formos levar em conta as expectativas. Já a segunda vez foi com Mistress America, um bocado melhor e mais divertido que o anterior. A Lula e a Baleia é o terceiro filme dirigido por Baumbach que vejo. E o melhor dos três. Confesso que não achava que ficaria tão maravilhado. Meu gosto por Noah Baumbach finalmente se elevou e agora estou mais interessado na filmografia do diretor. É intenso e suave, simples e completo, um filme de qualidade rara e magnífica.

Baumbach fascina no lugar do diretor e no lugar do roteirista. Antes um cineasta por quem eu nutria pouquíssima admiração, ele me fisgou com esse filmão. Seu cinema está no auge em A Lula e a Baleia. Despertou em mim uma imensa curiosidade em descobrir e degustar seus outros filmes, como Margot no Casamento e O Solteirão. A Lula e a Baleia é garantia de entretenimento e deleite. Mais que isso, é um singelo convite a acompanhar e conhecer Noah e seu cinema mais de perto e com (devida) atenção. E, a cada filme dele a mais que assisto, expõe-se seu talento inegável e sua marca de autor. Seu estilo é aconchegante e visionário, e faz dele um dos cineastas mais importantes do cinema contemporâneo.

A Lula e a Baleia é uma combinação autêntica de competência e riqueza fílmica. É uma oportunidade única de testemunhar as artimanhas do estilo cinematográfico de Noah Baumbach e suas pequenas, algumas quase imperceptíveis, obsessões narrativas geniais. Não me estranha o filme ter recebido logo uma (justa) indicação ao Oscar de Melhor Roteiro Original em 2006. O roteiro é extraordinário. É unanimidade entre esses três filmes do Noah que vi: os roteiros sempre são fenomenais, caprichadíssimos. É quase como Woody Allen ou o Wes Anderson, camarada do Noah (e produtor do filme).

A Lula e a Baleia foca na crise familiar que se instala entre pais e filhos durante um período de divórcio. Laura Linney e Jeff Daniels estão sensacionais na pele do excêntrico casal Bernard e Joan, duas das melhores performances de suas carreiras. Não sou muito fã do Jesse Eisenberg, mas ele está excelente. A revelação do filme é Owen Kline. Embora eu admire bastante o Jeff Daniels, e ele esteja excepcional aqui, sinto um tantinho de curiosidade em saber como o Bill Murray, que foi cotado para o personagem na época, se sairia. 

Pela brilhanteza de Noah Baumbach, pelo elenco impecável, pelo humor, pela singularidade, pela fotografia exótica em 16mm de Robert Yeoman, pelas referências ao cinema francês e à Nouvelle Vague, pela atmosfera equilibrada e pelo ritmo vibrante, vale a pena ver A Lula e a Baleia. A compreensão do título não é de graça, e é aí é que está a graça dele. A Lula e a Baleia tem o visual de uma crônica culta e o espírito de um filme soberbo. Se um dia por acaso eu topasse com o Noah, lhe diria: "Obrigado por A Lula e a Baleia, cara!".

A Lula e a Baleia (The Squid and the Whale)
dir. Noah Baumbach - ★★★★

terça-feira, 5 de julho de 2016

Crítica: "MARIA" (2005) - ★★★★★


Abel Ferrara é um diretor subestimado. Se tem algo de que estou certo neste mundo é de que Abel Ferrara é um cineasta rejeitado, embora seja dono de grandes pérolas do cinema, como este Maria, o perspicaz Pasolini, visto ano passado, o subestimadíssimo Bem-Vindo a Nova York, com Gerard Depardieu, Go Go Tales, O Rei de Nova York, Vício Frenético e outros mais. É um nome que deveria ser tratado com mais carinho e atenção. Maria, que é seu melhor filme (dentre os que eu vi até o momento) prova que ele tem todas as qualidades e o talento de um verdadeiro mestre do cinema. Posso estar exagerando, mas eu não arriscaria dizer que estou exagerando. Afinal, há de se concordar: Abel Ferrara é um diretor fenomenal. Maria é um exemplo disso, e ainda vai além.

Abel também prova que é capaz de mexer com a gente de maneira tão singular que é quase inexplicável. É dele também a maestria em dirigir espetacularmente um elenco estelar, que traz dos intérpretes mais talentosos e competentes do nosso tempo, como a inegavelmente triunfal Juliette Binoche, brilhando no papel de uma atriz que decide deixar a profissão de lado e conhecer mais de perto o universo religioso; Forrest Whitaker, numa performance excepcional, como um apresentador de TV arrependido pelos seus erros e tentando buscar a redenção; Matthew Modine como um diretor de cinema que só pensa em auto-promoção; sem falar nas participações das lindas Marion Cotillard e Heather Graham. 

Maria é sobre nossas dúvidas, nossos questionamentos, o vazio que nos consome, a falta de esperança no mundo e a salvação através da crença, o poder da fé em transformar e reestruturar a nossa esperança num amanhã melhor, a transformação, a incerteza diante da mudança e da tentação. Por outro lado, é (indiretamente) sobre a força e o poder da sétima arte (pensem nisso!). Maria nos faz redescobrir e refletir sobre o mundo que nos cerca, os medos que nos prendem, o desejo que nos engrandece e engana. Achei interessante a proposta do diretor em "globalizar" o nome Maria em diversos sentidos, sendo o título do filme em inglês "Mary", o nome da personagem da Juliette "Marie Palesi", e a tradução para o título nacional "Maria", e por aí vai. Seria esta uma proposta subliminar, ou ele apenas quis metaforizar a globalização, como acontece em outros certos momentos do filme?

Pretendo rever o filme em breve. Aliás, acreditem ou não, demorei 3 dias para assistir esse filme inteiro, que tem uma duração de mais ou menos 1 hora e 20 minutos. E a questão não é nem impaciência. Como eu sou uma pessoa muito sonolenta e preguiçosa (até demais da conta), ficar deitado é sempre um convite ao sono. E, nos dias em que o sono me pega de jeito, se bobear até sentado eu durmo. Por isso, quando fui ver sexta, passados os 20 minutos do filme, não resisti a tentação e acabei dormindo. Mas, fiquem calmos, não é porque o filme dá sono ou coisa do tipo que eu acabei dormindo, mas é que isso acontece comigo com qualquer coisa mesmo. Se eu estiver vendo um filme do 007 (quem me conhece sabe que sou fã das aventuras do agente um bocado e que não paro pra nada quando eu estou assistindo um filme da saga), à noite e debaixo dos cobertores é bem provável que eu vá dormir. Sábado vi só um pedacinho, até porque fiquei o dia inteiro fora e também fui conferir outro filme no cinema. A sessão só foi terminar domingo -- à noite -- já que eu passei também o dia inteiro fora no apartamento do meu irmão. Maria não é o tipo de filme que dá sono, e sim o exato contrário disso. Maria é interessantíssimo. Provoca, ousa, instiga, questiona, maravilha e fascina.

Depois de Maria, eu fiquei até mais curioso em conhecer os outros longas da filmografia de Ferrara, já que são poucos os filmes que vi dele. Talvez alguns não sejam tão tocantes ou profundos como Maria, mas sempre há um tesouro perdido tão tocantes ou profundos da mesma forma de Maria, mas é muito provável que o sr. Ferrara tenha mais acertos e tesouros escondidos em sua gigantesca filmografia. Só sei que Maria foi uma experiência magnífica. Já baixei meu próximo filme do cineasta, Go Go Tales, com Willem Dafoe e Asia Argento, que verei muito em breve.

Maria (Mary)
dir. Abel Ferrara - 

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Crítica: "SRA. HENDERSON APRESENTA" (2005) - ★★★


Já pelo trailer, Sra. Henderson Apresenta aparentava ser um filme visualmente rico e tecnicamente vislumbrante. E, de fato, é tudo o que se possa esperar de um filme com a direção de Stephen Frears, Judi Dench como principal e uma qualidade técnica invejável. A impressão que fica depois que a gente termina de ver Sra. Henderson Apresenta é que poderia ser um filme melhor, mesmo que seja tão empenhado em sê-lo. De qualquer modo, é basicamente impossível dizer que é um filme mal-feito. Irregular em determinados aspectos (o roteiro, por exemplo), mas nunca um filme mal-feito. O resultado final deixa a desejar um bocadinho, mas Sra. Henderson Apresenta acumula pontos pelo capricho, pelo talento dos intérpretes e pela direção formidável de Stephen Frears. 

E como a Judi Dench se encaixa bem em papel de viúva! É espantosamente gracioso. A atriz interpreta a personagem do título, Laura Henderson, uma recém-viúva que herda a grana do marido falecido e decide comprar um teatro em Londres, o "Moinho de Vento" (Windmill Theatre). A mulher coloca o local nas mãos de Vivian Van Damm (Bob Hoskins, numa atuação plausível), um produtor teatral que planeja uma nova atração e quer ter controle total do teatro independente das decisões dos outros, inclusive de Henderson, com quem tem vários desentendimentos. Não demora muito e o espetáculo de Van Damm fracassa, até que Laura dá a ideia de exibir mulheres nuas para ganhar mais público (e, logicamente, a ideia dela funciona plenamente).

Há pontos positivos e negativos em Sra. Henderson Apresenta. A proposta do filme em si é tanto confusa quanto astuta. O filme é mais uma atração visual e técnica com uma certa disposição teatral do que material cinematográfico. É um projeto decorado por falhas, mas com uma autenticidade notória. 

O filme recebeu duas merecidas indicações ao Oscar 2006 nas categorias de Melhor Atriz (Dench) e Melhor Figurino (Sandy Powell, uma das melhores profissionais do ramo -- os figurinos de O Aviador, A Jovem Rainha Vitória e dos recentes Carol e Cinderela são suas criações, magníficas). Também recebeu 3 nomeações ao Globo de Ouro em Melhor Filme e Atriz - Comédia ou Musical e Ator Coadjuvante e outras 4 ao BAFTA, em Atriz, Roteiro Original, Figurino e Trilha Sonora.  

Sra. Henderson Apresenta (Mrs Henderson Presents)
dir. Stephen Frears - 

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Crítica: "ORGULHO E PRECONCEITO" (2005) - ★★★★


Alguns filmes chegam a ser tão bonitos, tão sofisticados, tão refinados que é bem difícil o espectador não ficar maravilhado, ou se sentir lisonjeado, presenteado com o filme, sem conseguir conter a emoção. É o que acontece quando a gente vê Orgulho e Preconceito, um filme que de bonito tem pra dar e vender. Imaginem um filme bonito, cheio de gente bonita, uma fotografia lindíssima, cenários e figurinos lindos de deixar a gente tonto, filmado num lugar paradisíaco, trilha sonora impecavelmente maravilhosa, assim que é Orgulho e Preconceito. Um filme simplesmente belo, em todos os sentidos. 

Adaptação do clássico romance inglês homônimo da Jane Austen, Orgulho e Preconceito, estreia de Joe Wright como diretor, traz a irresistível beldade (e igualmente talentosa) Keira Knightley no papel de Elizabeth Bennet, uma jovem cujo pai planeja casar ela e suas outras quatro irmãs com homens ricos e bem-sucedidos da região onde vivem. A jovem e teimosa Elizabeth Bennet logo implica com um certo Sr. Darcy, um homem extremamente bem de vida (não lembro agora se ele é um lorde no filme?) que desperta nela desprezo e repulsa. Mal sabe ela do que o futuro a reserva ao lado do homem, que será seu grande amor.

Confesso que nunca li o clássico da Jane Austen. E olha que eu já tive a oportunidade antes (tinha baixado em PDF de algum lugar para o meu celular, mas nunca tive muita paciência para e-books, e nem cheguei a ler, ou sequer imprimir uma cópia). Depois de ver Orgulho e Preconceito, até que deu vontade. Será que eu acho em algum site, se já não estiver esgotado, como vários outros clássicos?

Enfim, só sei que ter visto Orgulho e Preconceito me transmitiu muito interesse em ler o livro da Austen. O charme da Inglaterra vitoriana, a beleza das paisagens e da natureza do lugar, os personagens e a construção delicada das personas dentro de cada um deles, Se o filme é tão bom assim, só pode ser sinal de que foi bem adaptado. Mal posso esperar para reimaginar essa mesma história nas palavras de Jane Austen.

Eu adorei o filme. Tem algo de espontâneo nele, e ao mesmo tempo muito delicado e suave, único. Maravilhoso, de todas as maneiras possíveis. Intenso, amável, precioso, excelentemente bem produzido, sem falar que é um dos registros de época mais sublimes, encantadores e comoventes realizados nos últimos anos e traz como protagonista uma das atrizes mais versáteis e belas da geração numa performance de ouro.

Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice)
dir. Joe Wright - 

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Crítica: "A PASSAGEM" (2005) - ★


Argh. Ô filmezinho mais desnecessário e irritante esse A Passagem. Às vezes eu me pergunto como é que os produtores tem a coragem de financiar um projeto babaca desses. Eu, hein... Nem a belíssima Naomi Watts consegue salvar esse bagulho. Onde já se viu? E não que eu não goste de Marc Forster, mas é que esse filme é completamente insuportável. A fotografia de Roberto Schaefer até que tem alguns momentos bons, mas não é suficiente. Se o filme fosse no mínimo bom, não precisava ser uma obra-prima. Mas é ruim demais. Não dá pra elogiar. Nada e ninguém. Nem Ewan McGregor, nem Ryan Gosling... Ninguém é capaz de salvar essa porcaria. E aquela reviravolta no final? Quer dizer que acaba daquele jeito? É inaceitável. Simplesmente uma bomba. Que decepção, sr. Forster! Um diretor tão capaz entregando um filme péssimo desses? Mal dá pra acreditar.

A Passagem (Stay)
dir. Marc Forster - 

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Crítica: "TERRA FRIA" (2005) - ★★★


O que dizer sobre Terra Fria? Olha, até que não é nada mal. No fim, fica a impressão de que é um daqueles filmes que querem ser importantes, relevantes, mas cujas imperfeições limitam a possibilidade. Certamente, é um filme irregular, mas não ruim. Merece ser visto pela seriedade e maturidade da temática, a competência da diretora Niki Caro e o elenco magistral.

Charlize Theron interpreta Josey Aimes, uma mulher e mãe de duas crianças que arruma um emprego numa mina e que se depara com diversos problemas em relação ao preconceito e desrespeito dos trabalhadores homens com as trabalhadoras mulheres do local, e é duramente criticada quando se rebela e decide processar a empresa por desacato, enfrentando até mesmo a desaprovação do pai, minerador.

O filme é baseado numa história incrivelmente real e chocante. Acho que se tivesse sido melhor feito, o resultado seria mais satisfatório e a trama do filme mais interessante. Achei a narrativa fraca demais. E isso prejudica o filme de muitas maneiras. Terra Fria, sobretudo, merece ser lembrado pela força da protagonista Charlize Theron, numa das melhores e mais impactantes performances de sua carreira, sublimemente indicada ao Oscar de Melhor Atriz em 2006, Frances McDormand também abocanhou uma indicação ao prêmio em Atriz Coadjuvante pelo seu papel, Glory Dodge, colega de trabalho de Josey, justíssimo. No elenco, ainda figuram Richard Jenkins, Sissy Spacek, Jeremy Renner, Sean Bean, Woody Harrelson, Corey Stoll, Amber Heard, entre outros. No entanto, é a atuação poderosíssima de Charlize que faz Terra Fria valer a pena, sem sombra de dúvida.

Terra Fria (North Country)
dir. Niki Caro - 

domingo, 24 de abril de 2016

TRÊS CURTAS DE KLEBER MENDONÇA FILHO


Abaixo, comento três curtas do cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho, diretor de O Som ao Redor.


Vinil Verde

Visto em 25/01 desse ano. Rapaz, nunca saberia que ficaria tão encantado com o lado curtametragista de Kleber Mendonça Filho, cujo longa de estreia (O Som ao Redor) é um baita de um filmaço! Fiquei mesmerizado com Vinil Verde, um dos curtas mais famosos de Kleber e muito possivelmente um dos melhores curtas que eu já vi. É a historinha de uma garota que ganha de presente da mãe um toca-discos. A mãe lhe diz que ela pode tocar quantos discos ela quiser, menos o disco verde. O filme foi realizado no formato fotomontagem, como La Jetée, e é uma maravilha estupenda. Fico imaginando o que o diretor quis passar com esse curtinha tão enigmático e tenebroso. Confesso que até eu fiquei assustado em certos momentos. De qualquer forma, é mesmo um "doce curta de horror para crianças", como o subtítulo sugere. Fiquei instantaneamente estonteado por essa pequena fábula fílmica, adaptação de um conto infantil russo conhecido como "Luvas Verdes". Bonito, estremecedor e encantador. 


Eletrodoméstica

Esse eu conferi hoje. Trata-se de um curta engenhoso e tão enigmático quanto Vinil Verde, embora, se formos ver de perto, bastante simplista e sem exageros. Outra semelhança com Vinil Verde é a qualidade. Eletrodoméstica lembra bastante uma sequência de O Som ao Redor, dando a entender que o diretor praticamente retirou aquela cena, estrelada pela dona de casa entediada (Maeve Jinkins), deste curta. Como a personagem da Jinkins em O Som ao Redor, a protagonista de Eletrodoméstica é uma dona de casa que realiza tarefas da casa durante o dia e que cultiva certas "diversões" e rituais em seu cotidiano doméstico, bem como "masturbar-se na máquina de lavar" e "baforar no aspirador de pó". É um trabalho bastante curioso e interessante, uma observação inquietante e perceptiva sobre a solidão e a rotina. Embora a Maeve não estrele o curta, temos a atriz Magdale Alves, tão talentosa e memorável quanto, no papel da dona de casa. Aliás, quem interpreta a filha dela neste curta é a mesma atriz que fez a menininha de Vinil Verde, Gabriela Souza (taí outra semelhança com Vinil Verde). A direção de fotografia do curta é extraordinária (taí outra semelhança com Vinil Verde).


Recife Frio

O melhor dos curtas de Mendonça Filho que conferi foi, certamente, Recife Frio. Ah, como eu amei Recife Frio. Um curta futurista, Recife Frio pode bem ser considerado o La Jetée nacional. Embora esteja distante do clássico quanto ao formato, Recife Frio, que já em sua introdução nos lembra La Jetée, se baseia numa premissa bastante graciosa e estranha: Recife, num futuro próximo, ser abalada por um profundo transtorno climático, que deixa o litoral de Pernambuco sob um frio intenso e incessante, extinguindo o calor e alterando a vida da população. Mas, diferentemente do que poderia se esperar, Kleber brinca genialmente com os elementos da trama, dando a ela um gostinho mais cômico e inesperadamente delicioso. Quase o curta inteiro é como se fosse uma pequena reportagem televisiva, com um jornalista hispânico (?) debatendo e discutindo a onda de frio que abala o litoral do Nordeste e que transforma os hábitos da população pernambucana, inclusive dos cidadãos de Recife, como é analisado. A maior parte do tempo a trama é explorada com um olhar afiado e minucioso, de forma com a qual o diretor aborde diversas temáticas, como desigualdade (a sequência do apartamento dos ricaços, onde um adolescente expulsa a empregada do quartinho dela, é uma das minhas sequências prediletas), turismo, choque social... A sátira e a crítica estão presentes, mas também há a impressão de que tudo seja mesmo uma grande brincadeira, uma grande de uma descontração, com momentos de comicidade excêntrica e agradáveis simbolismos, que não passam de uma grande brincadeira do diretor, uma perspectiva cômica e sarcástica sobre os hábitos e os problemas da sociedade dos tempos atuais. Ainda sim, é um filme bastante especial e que merece atenção. Eu gostei pra caramba. É pura perfeição. O formato é genial, as sacadas do roteiro são brilhantes, a direção do Kleber é formidável. Recife Frio é primoroso. Eu adorei, sinceramente. Um trabalho fabulosamente bem-feito. Ah, e só pra constar, o curta foi dedicado a Chris Marker e Terry Gilliam, o que explica um pouco as referências a La Jetée e ao trabalho do Gilliam em geral (Monty Python, Brazil, 12 Macacos...) e o climão sci-fi debochado. 

-- "Socialite revela: 'Agora os pobres estão mais 'chic' passando frio'". 

terça-feira, 19 de abril de 2016

Crítica: "FLORES PARTIDAS" (2005) - ★★★★


Sério, eu não achava que esse negócio de Impeachment era pra valer. A Dilma? Sofrendo impeachment? Isso jamais passou pela minha cabeça, de verdade. Desta vez, eu estava bem desinformado. E não que eu seja um petista ou simpatizante do governo dela, mas impeachment é, no mínimo, uma decisão repreensível e pra lá de absurda. Tirar a Dilma? Pô, cara, quanta anti-democracia! E acreditar que a maioria é a favor da saída dela. Que país é esse, alguém me explica? É tanta frustração, tanto medo do futuro (como disse um amigo meu), que eu mal posso descrever em palavras o que sinto em relação a esse processo. É muito doido. Enfim, domingo à noite, justo quando dei um pause em Flores Partidas, bem após os créditos, no comecinho do filme, passei pela sala de estar e me deparei com a insana votação do Impeachment acontecendo. Foi um momento particularmente estranho pra mim. Eu paralisei na hora e comecei a acompanhar, me esquecendo completamente de Flores Partidas. Com todos aqueles infames ali reunidos numa cena horrorosamente lamentável exibindo orgulho em discursos patéticos, me recusei a acompanhar -- sei lá, bateu um nojo, uma repugnância de testemunhar aquele acontecimento horrendo. Ainda bem que deu pra ver o filme antes do domingo terminar, lá para as onze da noite. A questão é que eu ando ficando com sono muito cedo de uns dias pra cá, rapaz, e se logo ponho um filme à noite é certeza que eu irei, de uma forma ou de outra, acabar cochilando, independente da qualidade do longa. E olha que, quando eu tinha terminado de ver Flores Partidas, a votação ainda estava rolando.

Mas, enfim, o filme. Flores Partidas leva a direção e o roteiro do celebrado Jim Jarmusch, diretor dos ainda mais cultuados Estranhos no Paraíso, Daunbailó, Homem Morto e Sobre Café e Cigarros. Creio que Flores Partidas seja seu filme mais famoso, no entanto. A comédia dramática estrela Bill Murray no papel de um mulherengo 'Don Juan' (o nome do cara, Don Johnston, é uma referência), que trabalha no ramo da informática e que, certo dia, recebe uma carta rosa dizendo que ele é pai e que seu filho está à sua procura, carta essa provavelmente da autoria de uma de suas ex-amantes. 

Don, "incentivado" pelo carismático vizinho Winston (Jeffrey Wright), parte em uma viagem pelo país reencontrando suas antigas namoradas para desvendar esse misterioso paradeiro. A jornada do homem pelo país, indo de casa em casa, visitando ex-amantes, é desconstruída com um astral meio melancólico, um ar parado, que geralmente não vemos sendo atribuído a típicos road movie. Ainda sim, o mistério agita a trama e não deixa ela azedar. A gente também vai observando, nos pequenos detalhes, o desvanecimento daquele Don Juan que outrora foi um mulherengo cobiçado e que hoje se sustenta em casos quebradiços e insatisfatórios, em olhares vazios e desejos inversos. A perspectiva desanimada por sobre a natureza dos relacionamentos humanos nunca foi tão anti-bon vivant como em Flores Partidas.

O elenco é notável. Flores Partidas é decorado por participações (muito) especiais de diversas estrelas, como a Sharon Stone, a Jessica Lange, a Frances Conroy e a querida Tilda Swinton (muito linda, por sinal, apesar da rápida aparição), que interpretam as ex-amantes do homem, a Chloë Sevigny, que faz a secretária de uma das ex-amantes do homem, e que quase não tem falas, a deusa Julie Delpy (a Celine da trilogia Antes) que também conta com uma rapidíssima aparição bem no comecinho do filme, o Jeffrey Wright, que também não tem muitas cenas... O filme é praticamente o Bill Murray. E não à toa a performance dele é primorosa.

Flores Partidas é um trabalho graciosíssimo e uma figura radiante dentro da filmografia de Jarmusch. O andamento lento proporciona ao espectador sequências deliciosamente estonteantes e exímias. O desempenho de Bill Murray é certamente adorável, e prova mais uma vez o talento de Murray como intérprete, numa das atuações mais potentes da carreira do mesmo. Ora melancólico, ora dono de uma doçura discreta, o personagem Don Johnston não dificilmente remete ao Bob Harris de Encontros e Desencontros (muito embora este último seja bem mais melancólico, convenhamos), reforçando o conceito de grande atuação que esta exala comparada à performance que nomeou o grande Murray ao Oscar, na (injustamente) única indicação do ator ao prêmio até a data.

Eis um filme que merecia mais atenção e reconhecimento do que obteve. Não chega a ser um filme menosprezado (ufa!), mas foi esquecido e deveria ser, digamos, enaltecido e comemorado, o que ao meu ver não é. De qualquer maneira, a presença de Bill Murray faz toda a diferença. O cara é um ator fabuloso, um dos meus prediletos, e vê-lo em boa forma num filme tão brilhante como esse me deixa muito emocionado.

Flores Partidas (Broken Flowers)
dir. Jim Jarmusch - 

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Crítica: "A FEITICEIRA" (2005) - ★★


Em A Feiticeira, Kidman interpreta Isabel Bigelow, uma bruxa que é descoberta por um ator decadente, Jack Wyatt, que está participando de um remake do seriado A Feiticeira, uma das maiores produções já feitas da TV americana. Isabel acaba se apaixonando instantaneamente pelo homem, mas o amor deles é posto à prova em uma montanha russa de confusões e mal-entendimentos. A promessa de magia, humor e charme do filme não duram muito. O resultado é desastroso.

Admiro muito a Nora Ephron, mas não consegui embarcar na brincadeira de A Feiticeira. A comédia romântica, livremente inspirada no clássico seriado homônimo dos anos 60 (o Chaves americano), é simpática e conta com o auxílio de uma dupla de protagonistas sensacionais, a belíssima Nicole Kidman e o Will Ferrell, mas ao mesmo tempo não escapa do clichê e das bobeiras medonhas de um roteiro defeituoso e infantil. 

O possível pior filme de Nora enquanto diretora e roteirista é uma comédia complicada que provavelmente apenas rende pelo bom elenco, que além das já mencionadas estrelas, marcam presença também Shirley MacLaine, Michael Caine, Jason Schwartzman, Stephen Colbert e Steve Carell (numa rápida participação como Tio Arthur, personagem da série original). O roteiro é assinado pela Nora, pela sua irmã (Delia) e pelo cineasta/roteirista Adam McKay (diretor de A Grande Aposta). Ainda que conte com essa trupe talentosa, A Feiticeira é um fiasco. Filme mediano, bons cochilos. 

A Feiticeira (Bewitched)
dir. Nora Ephron - 

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Crítica: "GUERRA DOS MUNDOS" (2005) - ★★★★★


É em filmes como Guerra dos Mundos que vemos o quão magnânima e interminável é a genialidade deste fenomenal carinha chamado Steven Spielberg, dono de uma filmografia de ouro, cobiçada, com certeza, por qualquer cineasta e adorada por todo tipo de espectador, do tímido mainstream ao mais cult possível. Pelo contrário do que se imagina, Hollywood passa por uma boa fase atualmente, que vem se dividindo em produções autênticas e tão cedo lendárias e sucessos de bilheteria que alimentam os grandes estúdios, sendo a boa parte destas últimas boas. Deixando de lado os podres do centro cinematográfico americano, é com certeza uma época de acertos, como eu disse tanto comercial quanto em qualidade. Guerra dos Mundos é um dos últimos melhores filmes que se destacam dessa fase e se encaixa duplamente em ambos os grupos, sendo o melhor filme do Steven fabricado na última década, o que é algo consideravelmente grande falando de um dos diretores mais importantes da história. E nós temos uma baita sorte por estarmos vivenciando não o auge, mas uma das fases mais produtivas dele, e também sucessiva, já que nenhum filme realmente ruim tem circulado por sua lista de realizações desde então. E será que Spielberg alguma vez já errou?

Parte de uma suposta trilogia pós-11 de setembro, segundo boatos idealizada por Spielberg no trio de filmes O Terminal, este e Munique, que estariam conectados à uma lógica, em cada filme diferente, conexão ao evento. Mas creio que, ao invés do Steven estar ao lado de um renegável patriotismo, tão afirmadamente contestado nestes três filmes, ele quer mesmo é explorar o frágil espírito da nação americana e o medo, a paranoia, instalados no país desde então, anos duros para qualquer dito americano, que desenvolveu uma trágica neurose quanto ao terrorismo após os fatídicos atentados, e um preconceito despontado pra todo lado ainda maior. É na humanidade e verdade de Guerra dos Mundos, na ambiciosa proposta de Spielberg em adaptar o clássico romance homônimo do H.G. Wells e no primor dessa obra que encontramos esta que é uma pérola cinematográfica única, recheada com entretenimento e uma grande intensidade, bem exposta nos efeitos visuais perfeccionistas e no som estremecedor, na fotografia desoladora do Janusz Kaminski, numa das melhores últimas colaborações com o mestre Steven.

O roteiro excelente escrito por David Koepp e Josh Friedman demonstra a mão boa que Spielberg tem para selecionar roteiristas dispostos e sempre estupendos, e também de proporção. O furioso clima apocalíptico grava no espectador uma frenesi eletrizante e tão claustrofóbica quanto a personagem de Rachel, filha de Ray Ferrier, que trabalha num porto e, ao voltar para casa, recebe a visita dos filhos que teve com a ex-mulher, Rachel e Robbie, e durante essa visita acaba recebendo outra visita maior: uma catástrofe alienígena caótica. Desesperado e imensamente confuso, sem acreditar no que testemunhou, a única saída de Ray é a todo custo garantir a segurança e proteção dos filhos, ainda que esse dependente cuidado acabe desencadeando em uma crise familiar gigantesca, principalmente tensionada entre o filho mais velho de Ray, Robbie, que quer ajudar no exército a combater as aterrorizantes máquinas de destruição vindas-de-outro-espaço, mas o pai bate o pé e não quer que ele vá. Ao contrário do que se imagina acerca desse encontro, que bem poderia simbolizar a re-união da família, há uma desavença ainda maior. Mas Spielberg monta bem a peça e guarda essa construção para um final um tanto "aliviador". Guerra dos Mundos, sendo a adaptação de um clássico magistral da literatura, reimagina esse universo com uma fábula original.

De forma a afastar os clichês viáveis a filmes-catástrofe e de destruição, Spielberg é minucioso na sua proposta e fabrica um marco na sua carreira, nem tão icônico quanto E.T. - O Extraterrestre, mas sutilmente próximo do status de um dos maiores clássicos do diretor (e com os extraterrestres de Guerra dos Mundos significantemente menos gentis, fofos e amáveis do que este, com o próprio diretor tendo contestado este filme o primeiro onde ele aborda os seres extraterrestres como malignos). Embora não seja lá o melhor do Tom Cruise, há certo destaque para a Dakota Fanning, ainda menina quando fez o papel, bem talvez o maior da sua carreira (favor não confundir com sua irmã, Elle Fanning, igualmente talentosa). Cada cena mais impactante e apocalíptica que a outra. Ambos Wells e Spielberg acertaram em Guerra dos Mundos. Uma história de caos e fúria, sensibilidade e família, coragem e desespero. Ray não é um herói. É um cara comum. Assim como todo aquele bando de gente, correndo destemida por cima do carro de Ferrier durante uma das cenas mais intensas do longa, mas depois que ele saca a sua arma, todos se afastam com uma enorme cautela. Todos ali não passam de gente comum. Gente como eu e você, que com certeza reagiria da mesma forma, sendo de um lado ou de outro. E quem é que tem, nessas horas, alguma moral para julgar o que é certo ou não?

Guerra dos Mundos (War of the Worlds)
dir. Steven Spielberg - ★★★★★

domingo, 30 de agosto de 2015

Crítica: "MUNIQUE" (2005) - ★★★★


Ficar dois dias sem a internet pode ser desgastante e muito angustiante. Minha experiência, cuja já tive várias outras vezes, realmente me fez ver o quão o mundo está dependente dessa conexão. Chega a ser desesperador. O século 21 é desesperador. Enfim, só em apenas dois dias perdi muita coisa. E fiquei atrasado. Nesse intervalo de dois dias vi Munique, do Steven Spielberg, um de seus trabalhos mais ambiciosos, arrasadores e belos. Munique, muito elogiado, tem motivo de sobra para ser considerado um dos filmes mais maturos feitos por ele. O diretor de clássicos como E.T. – O Extraterrestre, A Lista de Schindler e O Resgate do Soldado Ryan até pode ter conseguido certo reconhecimento com obras intensas, de cunho dramático profundo (também citando A Cor Púrpura), mas nenhum desses filmes tão pesados como Munique, onde o diretor revela que também é mestre dessa exploração violenta do mundo criminal e que consegue lidar com as façanhas do estilo da produção com glória e talento, com a garantida prova da competência de seu cinema. Munique é uma obra maior de Spielberg. Não a maior, mas com certeza ingressa na lista. O melhor do cineasta está presente aqui. Esqueça as produções mais “livres” que ele fez. Nem mesmo parece que Munique é um filme dele, e o mérito instala-se justamente aí. Pra mim o diretor que consegue dominar esse propósito, uma forma de afastar-se da sua comum zona de conforto, já é considerado um gênio. Sorte a nossa ter Spielberg, esse gênio cujos filmes tardam, mas não falham. Um bom exemplo é Munique.

Depois do fatídico atentado em Munique, nas Olimpíadas, o governo israelense decide selecionar um grupo de cinco homens para exterminar outro grupo de onze, responsáveis pela morte dos atletas israelenses no atentado. A trama centra-se no líder desse grupo, que tem uma mulher grávida e ainda aprende sobre os essenciais valores da família e como esse ensinamento deve guiar a sua missão. Mas, afinal, o que Munique fala sobre? Inegavelmente, há uma clara conexão (lá vem spoiler) desse evento com o 11 de setembro. Quem percebeu no final, com o plano de fundo das torres gêmeas em Nova York, os créditos iniciam com uma frase que diz “dos onze culpados, apenas nove foram mortos”. Talvez essa que seja a ligação mais clara do filme (11 de setembro, setembro é mês 9) seja de perto a menos imperceptível das outras mais que surgem no decorrer da narrativa e nos levam a testemunhar a série de conflitos que se interligam e ganham um sentido. Essa conexão não é certamente o objetivo principal de Munique, mas a teoria de que esse mundo escondido, deixado para trás, abandonado em sofrimento e desolação, um lar completamente desalmado, que é o Oriente Médio buscou com esses eventos a nossa possível atenção é devastador. Não é apenas sobre injustiça, mas como tudo se trata da nossa própria ignorância. Somos todos culpados pelo caos. O maior e o menor. Um na luta pelos mesmos direitos do outro. O mundo é e certamente sempre será desse jeito. E quanto mais não aceitarmos isso, mais haverá caos. E daí começa tudo de novo.

Um elenco surpreendente. Da lista, só mesmo conhecia dois ou três, entre eles o Daniel Craig, Geoffrey Rush e Mathieu Amalric (isso se não são os únicos que eu conheço). Eric Bana, Mathieu Kassovitz, Hanns Zischler, atores simplesmente extraordinários. Bom ver que essa lista não conta com Hanks ou nenhum dos outros colaboradores de Spielberg (o que pode ser visto muito bem como parte dessa “evolução”). Se bem que em A Lista de Schindler ele tinha apostado alto no elenco internacional também. Mas John Williams e Janusz Kaminski continuam presentes. A eterna parceria, e que tem funcionado pra caramba, de Steven com esses dois outros grandes gênios é inquebrável mesmo numa brusca e singular transformação dessas. Outra prova de que a trilha e a fotografia dos filmes de Steven não seriam as mesmas sem esses dois.

A ação em Munique é eletrizante. A cena da explosão no hotel é de deixar qualquer um com o coração saindo pela boca, como foi no meu caso, e que também é a cena da qual eu acredito que é a mais pulsante do longa inteirinho. Não estranharei alguém ter um ataque cardíaco durante a sessão de Munique. Cardíacos, recomendo que vocês não vejam Munique. É isso aí. Eu gostei de Munique. Não só possui uma trama forte e consequentemente reflexiva como também é de um caráter único, razões pelas quais já expliquei e estão diretamente relacionadas ao fato deste filme ser uma peça rara da carreira de Steven Spielberg, com certeza uma lenda viva e um dos maiores realizadores cinematográficos que já viveram. E ele é quem sai ganhando em Munique, pois o filme automaticamente se transforma numa prova dessa sua autoridade imbatível.

Munique (Munich)
dir. Steven Spielberg - ★★★★

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Crítica: "CACHÉ" (2005) - ★★★★★


Com certeza não posso afirmar que Caché é mais assustador do que Violência Gratuita, mas tem a mesma incrível quantidade de impacto e violência. A história mais enigmática já feita por Haneke é um thriller psicológico que foca na jornada de uma família diante de uma invasão de privacidade repentina: fitas misteriosas são enviadas à casa dos Laurent, o que faz com que um clima constante de medo e pânico instale-se em cada um deles devido aos emergentes transtornos precipitados pela inimaginável espionagem, atrapalhando e desgovernando a relação dos familiares um com os outros, colocando à tona segredos escondidos (daí o nome Caché, que, se traduzido, significa "escondido"). A excelência com a qual o roteiro é conduzido por Michael Haneke, e a dedicação de um elenco bravíssimo fazem com que este filme transforme-se numa contemporânea meditação sobre a culpa e a privacidade, e como ambas podem ser invadidas devido à uma exposição perigosa. 

Vale ressaltar ao espectador desinformado que Caché não é um filme qualquer. O longa te engana. Profundamente. Desde os primeiros diálogos até o desenrolar dos créditos, que podem facilmente desapontar àqueles que não estejam interessados em refletir nos pontos apresentados pela trama, propositalmente, difícil e complicada, porém bem-feita e extremamente interessante. E o bom de Haneke é que ele é um diretor que nunca mostra-se com receio de experimentar novas formas de nos apresentar seu revolucionário e absurdamente genial cinema. 

Caché apresenta inúmeras qualidades. E nenhum defeito aparente ou significante. Com certeza é uma obra atípica, mas que também apresenta inúmeros desafios a fim de fazer com que o próprio espectador participe da trama junto com os personagens e experiencie a tensão que o medo e a culpa, juntos, proporcionam. E, quem sabe, você mesmo não se identifique com a própria história de Georges Laurent, e sua infância "malévola" (e bota aspas nisso, por favor). A intensidade com a qual a família Laurent, em especial Georges e Anne, é posta em prova contrasta com a igualmente intensa falta de provas para representar a tensão instalada entre cada um deles devido às mensagens que andam os corrompendo pouco a pouco: fitas de vídeo são entregues à eles, e nessas fitas de vídeo acompanham-se filmagens do exterior da casa deles, mostrando-os saindo para o trabalho, etc... E a partir daí avança: as filmagens passam a aprofundar e detalhar questões pessoais dos Laurent, tal como a casa onde Georges foi criado, na fazenda, onde também é locada uma das cenas mais chocantes do longa. 

E no fim, toda a tensão que a família inicialmente criou foi em vão, simplesmente desse jeito, já que o jogo virou-se contra eles e, no final, nada da família foi perdido, ninguém se feriu, nada se partiu. Tudo continuou do mesmo jeito. No entanto, não teve como esse episódio, que se encerra meio sem explicação, afetar deliberadamente na relação de Anne, Georges e Pierrot. Os laços familiares, às escondidas, se rompem, pois a desconfiança gerada pela série de mentiras escondidas, que ironicamente revelam lados comprometedores de seus piores segredos. Georges abre mão de um passado culposo (na infância, Georges narrou diversas mentiras à seus pais para fazer com que seu irmão adotivo fosse mandado à um orfanato), Anne, a infidelidade e até mesmo o jovem Pierrot abre mão de ficar na casa de um colega escondidamente, sendo esse capítulo um dos mais preocupantes e aterrorizadores do filme.

Então, antes de buscar respostas para as questões que envolvem o filme, procure primeiramente refletir e pensar nas questões que Haneke nos entregou. Pensar nelas pode mudar todo o sentido do filme em ser claramente um drama ou até mesmo um thriller psicológico, fazendo-o ser mais como um retrato de uma família em pânico quando uma situação acaba pondo em risco seus detalhes escondidos. No entanto, aí vem um "presentinho" de Michael Haneke: as respostas ficam à nosso critério. Cabe à nós, o público, procurar avaliar a melhor interpretação possível para estas questões e, então, formular uma resposta cabível à elas. O final, como o próprio Haneke revelou, tem a falta de coerência como propósito. Algo que nos leva a imaginar: "será que Pierrot foi o autor das fitas, tornando toda a situação funcionar como uma mera brincadeira de mau gosto?" ou "tudo foi uma armação do subconsciente preenchido por culpa e receio do sr. Laurent?", "será que Majid e seu filho estavam falando apenas a verdade ou mentindo ao afirmarem veemente que não foram eles os autores das tais fitas?", todos os personagens, que são poucos, ficam marcados como suspeitos. Todos. A excentricidade de Caché encontra-se aí: é um filme que, mesmo tendo como resultado uma situação ocasional e até mesmo "alarme", torna-se rigidamente assustador e, novamente entre aspas, "traumático", a ponto de deixar seu espectador profundamente afetado pelo clima constante de instabilidade e tragédia. 

Caché é um filme brilhante e triunfal! Merece ser visto e aplaudido. Visão autêntica de Michael Haneke por cima dos preceitos burgueses de uma família cujos segredos desencadeiam numa tragédia irreversível, Caché é uma obra marcante que consegue pôr seu próprio público diante de uma experiência que, por si só, já é demasiadamente provocadora e angustiada. 

Caché
dir. Michael Haneke - 

domingo, 28 de junho de 2015

Crítica: "MANDERLAY" (2005) - ★★★★


Quem vê Manderlay logo acha que Lars Von Trier é fascista, sem mesmo antes refletir sobre o que foi colocado em pauta pelo diretor nesse drama acirrado. Segmento de Dogville, Manderlay, projeto que encerrou prematuramente a trilogia de Von Trier "E.U.A. - Terra das Oportunidades", que havia iniciado com o já mencionado longa de 2003, é um dos filmes mais provocadores, desconfortáveis e perturbadores desse polêmico cineasta dinamarquês, chegando a ter me deixado bem mais desconfortável do que seu comentado filme Anticristo, embora também seja uma de suas obras mais inteligentes, maturas e profundamente sensíveis. O caso é que tal desconforto é bem proporcional da parte de Lars Von Trier, algo que já é notório desde Dogville, mas que aqui se apresenta com mais força, talvez intensidade, justo por ter colocado em discussão um assunto tão marcante, importante e polêmico como o racismo de uma maneira tão ousada da parte do diretor.

Depois dos eventos ocorridos em Dogville, Grace (interpretada aqui talentosamente por Bryce Dallas Howard) e seu pai, aqui feito por Willem Dafoe, vão parar numa fazenda no meio do nada no Alabama, chamada Manderlay, cuja ainda funciona o regime escravista, depois de quase setenta anos do fim do mesmo. Com a morte da mestra da fazenda, interpretada por Lauren Bacall, Grace e sua humanidade quase surreal decide agir e impor liberdade aos negros ali mantidos. Após algum tempo, Grace decide passar um tempo em Manderlay, e, em sua estadia, acaba se acostumando servindo e trabalhando na fazenda, enquanto tenta solucionar os muitos problemas que surgem lá, da forma na qual os leva à uma desgastante decadência moral.

Já não é tão desconhecido a característica principal do estilo notório cinematográfico de Lars Von Trier, que busca explorar de forma dolorosa e dramática o sofrimento feminino. Aqui, não é diferente. Algo que até deixa o desenvolvimento da narração mais profunda, pesada. E esse sentimento constante de culpa e angústia gerados pela história e pela posição com a qual a personagem principal Grace é imposta ao longo da jornada até que nos deixa de certo modo um tanto quanto fascinados, assustados e desconfortáveis, como disse. 

Mas o que me deixa mais estabilizado e emocionado em relação à Manderlay é a precisão e a delicadeza com a qual Von Trier, de quem sou um grande fã, cuida dos detalhes narrativos e dos elementos, além da condução tocante do roteiro. Quem diz que Manderlay é teatro filmado engana-se, parcialmente. É bem notável que, assim como Dogville, Manderlay possui um set único, no qual os cenários estão divididos, separados por linhas brancas e, desta vez, grades, como é o caso dos portões da assombrada fazenda Manderlay, onde paira a imensa obscuridade da fraqueza e da insensibilidade humana. Mesmo que tudo indique que Manderlay é basicamente um teatro filmado, pode-se notar que a edição (propositalmente) picotada de Molly Marlene Stensgard separa desfuncionalmente os takes e as cenas justamente na função de deixar bem avisado: "isto não é um teatro!", embora exista, como eu disse "parcialmente", uma certa acomodação teatral nesses dois singulares filmes, e na maioria das obras de Lars, se visto de perto.

A experiência de ver Manderlay, que no fim até me agradou, me deixou muito pensativo quanto à questão do racismo e da escravidão. Mesmo que as intenções de Von Trier neste longa tenham à seu modo certo propósito "comunista" (risos), não deixa de ser um deleite ver a visão deste dinamarquês que "tem medo de tudo na vida, exceto filmar" sobre um dos assuntos que mais tem gerado tabu nos últimos tempos, além de ser um dos mais frequentes, já que tocamos no tema. Contrariando o propósito de que a América é a "terra dos sonhos" através de um conto que analisa a influência escravista atual na socialização e na convivência de brancos e negros na atualidade. Em Dogville, a mensagem explicitada por Lars era a da expansividade da violência no território, algo que aqui tem certa participação, mas em menor síntese. Vale também explicar que Manderlay é um filme cujos fortes centram-se em seu poderoso elenco (não temos Kidman nem Caan aqui fazendo os papéis de Grace e seu pai, mas sim os igualmente dadivosos Bryce Dallas e Willem Dafoe, acompanhados de Danny Glover, Jean Marc-Barr, Isaach de Bankolé, Mona Hammond, John Hurt (o narrador), entre outros, tal como a gloriosa Lauren Bacall) e no roteiro excêntrico e sempre brilhante de Lars, que, a todo projeto, nos promete e cumpre em intuitos de oferecer à comunidade cinematográfica obras de qualidade, como Manderlay, que completa dez anos. 

Manderlay
dir. Lars Von Trier - ★★★★