sexta-feira, 31 de julho de 2015

Crítica: "ZODÍACO" (2007) - ★★★★★


Hoje estava muito confiante em relação à Zodíaco. Queria ver muito o filme. Faz uma semana, comecei a vasculhar meus arquivos para ver se achava uma cópia que meu irmão possuía do filme e ano passado eu tinha pego para ver. Depois de tanto procurar, acabei ali mesmo me convencendo de que tal cópia estava perdida. Foi ontem que a achei no mesmo lugar que já havia antes procurado, talvez desatento. Reservei esta tarde especialmente para ver Zodíaco. E, em resumo, é um ótimo filme. Talvez, a narrativa medianamente lógica possa ter atrasado a resolução do crime em tela, mas é inegável dizer que trata-se de uma obra extremamente valiosa e importante. 

Há muita gente que andou falando por aí que Zodíaco tem uma história confusa. Pensando bem, eu mesmo não posso negar isso. As idas e vindas da investigação que Zodíaco investiga, em determinados momentos, confunde a cabeça do espectador. Sendo tal confusão proposital ou não, pouco creio que ela é prejudicial para o entendimento da proposta e trama apresentadas no longa. O que realmente vale em Zodíaco é a fórmula conduzida por David Fincher a fim de conseguir recriar a época e as dimensões existentes no contraste entre o crime e as investigações em cima do ainda irresolvido caso do Zodíaco. Ainda essa semana, vi outro filme bem semelhante à Zodíaco, sobre um caso criminal irresolvido, mas cujo título e fama leva o nome de sua vítima: Dália Negra. Lá, no entanto, a realidade foi transformada pela ficção, já que o próprio filme do De Palma tratava-se da adaptação de um romance que se inspirou no fatídico crime no objetivo de recriar uma outra atmosfera para ele, desta vez onde o mesmo fosse resolvido. Aqui em Zodíaco, que também trata-se de uma adaptação, tal resultado é obtido de duas maneiras, se bem que o próprio final fica bem ambíguo, inexplicado.

O conto, que analisa os passos de uma investigação criminal com base no tenebroso caso de um misterioso serial killer, auto-apelidado de "Zodíaco" em uma de suas mensagens aos jornais de São Francisco, e os crimes que precedem um segundo evento, cujo um jovem casal sofreu tentativa de assassinato, tendo a mulher morrido e o outro jovem sobrevivido. Isso em 1969. O primeiro evento, o assassinato de um casal, tendo ambos morrido, aconteceu no natal de 1968. Quem diria, ali naquele tempo, que a investigação ultrapassaria um limite absurdo de tempo, tendo durado vinte anos e alguma coisa? E o pior é que o caso é de uma profusão tão assombrosa e incompreensível que ver os esforços de Robert Graysmith (autor do livro que originou este filme) e sua obsessão constante em buscar as respostas para o crime, mesmo anos depois de sua origem, chega a perpetuar o próprio espectador a uma tortura silenciosa e invisível, mas que causa certo desconforto, já que a certa altura nos encontramos tão perdidos quanto essas respostas. Chega em um ponto que parece impossível descobrir quem é o assassino, logo que o suspeito idêntico (que no final volta para assombrar as nossas expectativas) é dispensado por falta de provas. 

E, embora a confusão e a duplicidade do roteiro sejam problemáticas e um pouco dolores, Zodíaco, sob nenhum pretexto sequer, deixa de ser um filme extraordinário, e simplesmente marcante. Não chega a superar, por exemplo, Seven - Os Sete Crimes Capitais, mas é um trabalho muito bem feito, e um dos melhores de Fincher, que, pelo incrível que pareça, não possui nenhuma aparente ou gritante falha até o momento em sua filmografia. A influência de Hitchcock, aqui novamente presente, não deixa de provar mais uma vez aquilo que, praticamente, tá estampado na cara: a competência de David com o suspense, e sua tão cedo maestria. Além disso, como não esperar de Zodíaco, um thriller excepcional, certa inspiração de Alfred Hitchcock, ainda mais quando seu próprio diretor foi um dos alunos mais dedicados dele? Muito provável que David Fincher seja, em uma pequena partezinha, nosso mais novo Hitchcock. A fotografia do falecido Harris Savides, colaborador de Gus Van Sant, é tremendamente bela e ágil, uma vez que ela penetra de uma forma tão esplendora nos cenários e os transporta para as suas respectivas épocas num piscar de olhos. A trilha sonora de David Shire é outra dádiva a ser comemorada. E o elenco é um espetáculo. Jake Gyllenhaal, como protagonista, mostra-se, como de sempre, um ator excelente, sendo o melhor membro deste grande elenco. Robert Downey Jr., aqui testando seu talento dramático, não se livra do ar meio bonachão que sua face tanto lembra. Mark Ruffalo, cuja voz me é um pouco desconcertante, e Chloë Sevigny também possuem performances fortes.

Zodíaco (Zodiac)
dir. David Fincher - ★★★★★

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Crítica: "O SEGREDO DAS ÁGUAS" (2014) - ★★


Nunca entendi muito a filmografia de Naomi Kawase. Pra falar mesmo a verdade, vi poucos filmes dirigidos pela japonesa. Seus pretextos poéticos e filosóficos quase sempre, pra não falar toda vez, resultam em fracassos. Alguma coisa sai errado. Neste O Segredo das Águas, a mesma coisa se repete. Não há flexibilidade, a certo modo. Tal predileção, já característica do cinema de Naomi, falha em sua tentativa de maravilhar, comover, estabilizar o espectador, e só tende a causar cansaço e retalhar uma grande história, transformando-a em um conteúdo inútil, sem precisão. O Segredo das Águas, do que mais tem de belo, acaba errando feio em sua proposta ambiciosa e inicialmente mágica, mas que vai perdendo a força quando alguns elementos vão se dissolvendo incessantemente na narrativa. 

Uma grande pena ver que este lindo filme, que eu tanto esperava gostar, acabou se transformando tão rapidamente numa tediosa perda de tempo. Talvez, o melhor a se ver em O Segredo das Águas é a delicadeza e constante beleza da fotografia, de Yutaka Yamazaki, frequente colaborador de Hirokazu Koreeda, tendo participado de Ninguém Pode Saber, o ótimo Andando e Depois da Vida. Por que de resto, nada de bom vejo. 

Em Cannes, Kawase revelou: "Esta é a primeira vez que digo algo do tipo à um filme. Depois da Camera D'Or e do Grand Prix, não há nada mais que eu queira do que a Palma de Ouro. Eu não tenho olhos pra mais nada", ao dizer que O Segredo das Águas é a sua "grande obra-prima, merecedora da Palma de Ouro". Bem, não posso em nenhum ponto discordar que tal afirmação tem cabimento para Naomi, por que para mim, não é a mesma coisa não. Se não fosse o clima distorcido, a mudança repentina de gêneros, os clichês pouco inventivos e os atalhos mal-feitos do roteiro, em alguma parte até poderia concordar com Naomi, mas O Segredo das Águas é demais para o meu gosto.

De todo, não é um filme sem sentido. O erro de O Segredo das Águas, o principal deles - pelo menos - é a sua falta de comprometimento com a dramatização, em minha opinião. A reflexão de Kawase, calma e pura, inspira os efeitos lisonjeiros da natureza e leva na história como cenário ela própria. O título mesmo sugere que um dos temas explorados na trama deste longa seja a natureza. Só que O Segredo das Águas deixa de ser produtivo por se apegar demais à suas próprias invenções. É nesse ponto que o filme passa a ficar chato, sem controle da situação e acaba concluindo-se num fracasso absoluto e impulsivo. 

Nem vou falar da confusão que é essa parte metafórica da história. Ô coisa cansativa. Sem querer dizer que não estive em algum momento interessado por tal segmento, mas, até nessa parte, que naturalmente deveria oferecer certo interesse ao espectador, Naomi não só se rebaixa como também acaba de vez com o realismo do filme, misturando a própria conexão de tramas com a falta de credibilidade dos clichês. Ufa, ainda bem que temos em tela uma fotografia estonteante, em cores rígidas, ora quentes, ora frias, que, embora possuam certa tenacidade e contraste, não perdem em algum segundo a visibilidade. Senão, odiaria por completo O Segredo das Águas!

O Segredo das Águas (Futatsume no mado)
dir. Naomi Kawase - ★★

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Crítica: "GUERRA AO TERROR" (2008) - ★★★★★


Um dos melhores e mais impactantes filmes sobre a guerra feitos ultimamente, além do candidato nº1 a melhor filme sobre a Guerra do Iraque, Guerra ao Terror é um emocionante retrato desse desgraçado episódio, que destruiu e afetou a vida de vários envolvidos. Fugindo dos repetitivos clichês e da monotonia narrativa, Guerra ao Terror destaca-se dentre os outros filmes de seu gênero e ganha uma notoriedade especial e absolutamente merecida, em minha opinião. Bom elenco, um sublime roteiro, uma inigualável equipe técnica, e uma diretora dedicadíssima e talentosa - uma das mais gratificantes revelações cinematográficas de nossa época, Katheryn Bigelow -. Guerra ao Terror, diante de tanto auxílio do bom e do melhor, impossivelmente, sob qualquer ângulo, poderia resultar num fracasso. 

Será que Katheryn herdou esse fenomenal dom, na separação de bens, de seu ex-marido James Cameron, que, tendo lançado o bilionário Avatar no mesmo ano, teve que ceder ao sucesso de sua antiga mulher, até sendo obrigado a aceitar Oscars de Filme e Diretor (risos)? Estou, obviamente, brincando. Talvez Katheryn, enquanto casada (ela já era diretora à altura), poderia ter aprendido alguns truques do marido, e até pode ter os trazido para cá em Guerra ao Terror. Nisso, me refiro à audácia, ao perfeccionismo, à expansiva austeridade da obra e do relato. Disso, até posso falar. O filme que transformou a carreira desta diretora, que pouco tempo antes de Guerra ao Terror era uma cineasta pequena, não poderia ter sido melhor, em minha opinião. Tudo o que tenho à dizer para Katheryn é: "parabéns". Fico abismado ao assistir Guerra ao Terror, assombrado e encantado por cenas carregadas de uma profunda tensão e uma fúria atenuante, ao som do espírito amedrontador da coragem. Filme exagerado? Muito pelo contrário. A realidade é um alvo iminente, senão, muito superestimado em Guerra ao Terror. Vá lá: Guerra ao Terror, se não fosse pelo elenco, pela câmera lenta e pelos efeitos catastróficos, de trilha, de fotografia, de som, de montagem, e tudo o mais, praticamente seria um documentário. Mesmo que a ficção seja um ingrediente-chave, nada impede Guerra ao Terror de ser uma exposição viva. 

Lembrando que este não é um filme sobre heróis e vilões. É um filme sobre a guerra. Afinal, tal visão explorada, no ponto de vista que a narrativa abrange, seria muito negativa e injusta. Toda guerra funciona como uma moeda. É cara e coroa. Nosso herói pode ser o vilão do outro. Filme sobre moralidade? Bem, depende de você. Isso igualmente funciona como uma moeda. Há algum tempo vi no cinema Sniper Americano. No entanto, lá era uma coisa totalmente diferente, já que em certos pontos o filme protestava o Iraque e seus atos terroristas imperdoáveis, responsáveis por danos fatais, e, naquele mesmo caso, o filme apoiava e andava lado a lado com o patriotismo fanático que o clima da história não só inspirava, como também seu próprio criador, Clint Eastwood, carregava em seu estilo como uma forte marca. E, de qualquer forma, vocês não acham que um filme iraquiano falando sobre essa guerra também não usaria a América como vilã para formular um argumento? É aí que a moeda se instala. Só que Guerra ao Terror não está falando sobre o patriotismo. Em nenhum momento eu vi alguma referência muito clara que me pudesse identificar a presença de tal artifício. Por favor, não pensem que estou julgando o patriotismo. Estou apenas tentando divulgar as extremidades do retrato de Guerra ao Terror. Como eu dizia, Guerra ao Terror é um filme diferente, sobre homens comuns em suas missões. Poderia ser qualquer guerra ali. Qualquer nacionalidade. O que realmente importa e vale em Guerra ao Terror é como ele quer visionar seus integrantes e suas vidas não apenas afetadas pelos contrastes da guerra, mas seus rumos difundidos pelas suas atividades, sozinhas.

Guerra ao Terror até apela para o sentimentalismo, mas funciona. Nem sai feio nem sai bonito. Um bom segmento do filme é quando James (spoiler) encontra o corpo do menino que havia feito amizade antes. Nessa parte vemos o forte lado das estratégias e fundamentos da guerra. Mas é aí que vemos que tudo é espelhado. Assim como americanos possuem seus truques, iraquianos possuem os deles. A Guerra do Iraque, ainda atual, é cheia de prós e contras. Mas deixemos isso de lado, ou terei o risco de causar alguma confusão. Estou aqui em nome de Guerra ao Terror, tentando argumentar e cumprir a minha própria missão, que é fazer o público acreditar em minha comoção, nesta situação. Se nisso fui bem, agradeço demais. Caso discordam de minha adoração ou da minha opinião em alguma parte, agradeço também. Significa que não somos únicos, e eu também, né? E isso é só o início. Quando peguei esta tarde Guerra ao Terror para ver, não apenas esperava, em certo aspecto, me emocionar por sua qualidade interior, mas também pela sua qualidade exterior.

Fotografia belíssima de Barry Ackroyd encorpora os quentes tons do Oriente Médio nada sutilmente, em constante bege. A trilha sonora temporária de Marco Beltrami e Buck Sanders desnorteia em determinados momentos. Os efeitos sonoros (puxa vida!) são inteiramente incríveis. Avatar ter sido duplamente derrotado no Oscar 2010 por este filme nas categorias de Edição e Mixagem de Som é até pouco aceitável, mas que os efeitos sonoros de Guerra ao Terror são deslumbrantes, é inegável. O elenco é equilibrado e dá um enorme show. Jeremy Renner mostra seu autêntico talento na pele do desarmador de bombas William James. Outro que também estava fantástico aqui nesse filme foi o Anthony Mackie, de quem eu nunca tinha ouvido falar antes, mas cujo nome, depois deste longa, não tão facilmente esquecerei. Pensei que veria mais de Ralph Fiennes aqui neste filme (lá vem spoiler), de acordo com que vi certa vez (nem comentarei para difamar o coitado), mas o homem só aparece numa única cena, como um militar amigo que é confundido com iraquianos, e, dois minutos em seguida, com pouquíssimas falas, logo leva um tiro e cai no chão, sem mais nem menos. Eu, primeiramente, não acreditei. Mas é só isso. Enfim. Acho que o único erro de Guerra ao Terror foi esse. Ter desperdiçado Ralph Fiennes (risos). Se bem que o já tão cedo lendário Ralph tá topando tudo (só não sei se é por dinheiro!). 

E Katheryn... Que diretora! Nada estranho ela ter recebido o Oscar de Melhor Diretor em 2010, tendo derrotado os marmanjões da categoria (entre eles o Sr. James), e tornado-se a primeira mulher a vencer o prêmio na história, e a quarta indicada. Tal honra para Bigelow não pode ser melhor definida do que como merecida, por que, de fato, Guerra ao Terror é um filme maravilhoso, uma obra-prima visionária e atordoante, bela e singular em todos os sentidos. Além de Katheryn, outra revelação extraordinária de Guerra ao Terror, pela segunda vez consecutiva arrecadando aplausos, depois de No Vale Das Sombras, foi o jornalista Mark Boal, correspondente da Guerra do Iraque, cuja experiência e competência serviram de base para o versado e bem-feito roteiro desta película. Guerra ao Terror é memorável. Mais que isso, presumo. É impressionante.

Guerra ao Terror (The Hurt Locker)
dir. Katheryn Bigelow - ★★★★★

FESTIVAL DE VENEZA 2015: SELEÇÃO OFICIAL


Logo um dia depois do anúncio da seleção oficial do Festival de Toronto, são anunciados os filmes que estarão este ano no Festival de Veneza, e seu júri, presidido pelo cineasta mexicano Alfonso Cuarón. Alguns filmes anunciados ontem em Toronto estão aqui em competição em Veneza. Grandes títulos, e grandes diretores também, entre eles Martin Scorsese, Tom Hooper, Amos Gitai, Aleksandr Sokurov, Atom Egoyan, e por aí vai. Tudo provando que este será mais um fantástico e imperdível festival. Do dia 02 até o dia 12 de setembro, esses filmes serão apresentados no Festival, e daí saberemos no fim quem levará o Leão de Ouro e os outros prêmios. Aqui está a seleção oficial do Festival de Veneza deste ano:

JÚRI:

Alfonso Cuarón, diretor mexicano (presidente)
Elizabeth Banks, atriz e diretora americana
Diane Kruger, atriz alemã
Emmanuel Carrère, autor francês
Nuri Bilge Ceylan, diretor turco
Pawel Pawlikowski, diretor polonês
Franceso Munzi, diretor italiano
Hao Hsiao-Hsien, diretor taiwanês 
Lynne Ramsay, diretora e roteirista britânica

ORIZZONTI (Júri):

Jonathan Demme, diretor americano (presidente)
Alix Delaporte, diretor e roteirista francês
Paz Vega, atriz espanhola
Fruit Chan, diretor chinês
Anita Caprioli, atriz italiana

LUIGI DE LAURENTIIS (Júri):

Saverio Costanzo, diretor italiano (President of Jury)
Roger Garcia, produtor chinês
Natacha Laurent, crítica de cinema e historiadora francesa
Charles Burnett, diretor americano
Daniela Michel, jornalista mexicana

FILME DE ABERTURA:

Everest, de Baltasar Kormákur

FILMES EM COMPETIÇÃO:

Abluka, de Emin Alper
Heart of a Dog, de Laurie Anderson
Sangue Del Mio Sangue, de Marco Bellocchio
Looking for Grace, de Sue Brooks
Equals, de Drake Doremus
Remeber, de Atom Egoyan
Beasts of No Nation, de Cary Fukunaga
Per Amor Vostro, de Giuseppe M. Gaudino
Marguerite, de Xavier Giannoli
Rabin, The Last Day, de Amos Gitai
A Bigger Splash, de Luca Guadgnino
The Endless River, de Oliver Hermanus
The Danish Girl, de Tom Hooper
Anomalisa, de Charlie Kaufman, Duke Johnson
Behemoth, de Zhao Liang
L'Attesa, de Piero Messina
11 Minutes, de Jerzy Skolimowski
Francofonia, de Aleksandr Sokurov
El Clan, de Pablo Trapero
Desde Allá, de Lorenzo Vigas
L'Hermine, de Christian Vincent

FILMES FORA DE COMPETIÇÃO:

Winter on Fire, de Evgeny Afineevsky
Go With Me, de Daniel Alfredson
Human, de Yann Arthus-Bertrand
De Palma, de Noah Baumbach, Jake Paltrow
Janis, de Amy Berg
Non Essere Cattivo, de Claudio Caligari
Black Mass, de Scott Cooper
Lao Pao Er (Mr. Six), de Hu Guan
Everest, de Baltasar Kormákur [filme de abertura]
The Event, de Sergei Loznitsa
Gli Uomini Di Questa Città Io Non Li Conosco, de Franco Maresco
Spotlight, de Tom McCarthy
Afternoon, de Tsai Ming-Liang
L'Esercito Più Piccolo Del Mondo, de Gianfranco Pannone
La Calle De La Amargura, de Arturo Ripstein
The Audition, de Martin Scorsese
La Vie Et Rien D'Autre, de Bertrand Tavernier
In Jackson Heights, de Frederick Wiseman

terça-feira, 28 de julho de 2015

FESTIVAL DE TORONTO 2015: SELEÇÃO OFICIAL


É com uma imensa honra que eu falo do Festival de Toronto deste ano. Trazendo consigo ótimos filmes, alguns deles já exibidos em outros festivais, como o de Cannes, muitos outros novos projetos que ainda estão na pós-produção, e até alguns que já tiveram divulgação oficial. A lista dos filmes que entram no festival este ano é grande, cheia de títulos apetitosos que prometem muito. Vejamos se então cumpriram. E quando eu menciono títulos apetitosos procuro mencionar The Danish Girl, The Program, The Lobster, Lolo (o novo filme da Julie Delpy), The Martian, Youth, Anomalisa (projeto de Charlie Kaufman) entre outros. Esse ano o festival marca a volta de cineastas como Michael Moore e Claude Lelouch; O certo é que o festival vem cheio de surpresas. Esperemos por setembro. Junto, veremos o Festival de Veneza, também, bem de perto. Abaixo, os filmes anunciados nas suas respectivas seleções para o Festival de Toronto 2015:

FILME DE ABERTURA

Demolition, de Jean-Marc Vallée

GALA PRESENTATIONS

Beeba Boys, de Deepa Mehta
Eye In The Sky, de Gavin Hood
Forsaken, de Jon Cassar
Freeheld, de Peter Sollett
Hyena Road, de Paul Gross
Lolo, de Julie Delpy
Legend, de Brian Helgeland
The Man Who Knew Infinity, de Matt Brown
The Martian, de Ridley Scott
The Program, de Stephen Frears
Remember, de Atom Egoyan
Septembers of Shiraz, de Wayne Blair
Stonewall, de Roland Emmerich
The Dressmaker, de Jocelyn Moorhouse

SPECIAL PRESENTATIONS

Anomalisa, de Charlie Kaufman and Duke Johnson
Beasts of No Nation, de Cary Fukunaga
Black Mass, de Scott Cooper
Brooklyn, de John Crowley
Colonia, de Florian Gallenberger
The Danish Girl, de Tom Hooper
The Daughter, de Simon Stone
Desierto, de Jonás Cuarón
Dheepan, de Jacques Audiard
Families, de Jean-Paul Rappeneau
Guilty, de Meghna Gulzar
I Smile Back, de Adam Salky
The Idol, de Hany Abu-Assad
The Lady in the Van, de Nicholas Hytner
Len and Company, de Tim Godsall
The Lobster, de Yorgos Lanthimos
Louder Than Bombs, de Joachim Trier
Maggie's Plan, de Rebecca Miller
Mountains May Depart, de Jia Zhang-ke
Parched, de Leena Yadav
Room, de Lenny Abrahamson
Sicario, de Denis Villeneuve
Son of Saul, de László Nemes
Spotlight, de Tom McCarthy
Sunset Song, de Terence Davies
Trumbo, de Jay Roach
Un Plus Une, de Claude Lelouch
Victoria, de Sebastian Schipper
Where to Invade Next, de Michael Moore
Youth, de Paolo Sorrentino

Crítica: "DÁLIA NEGRA" (2006) - ★★★★★


O melhor filme em tempos do mestre Brian De Palma não só trata-se de thriller envolvente e absurdamente inteligente, como também é um trabalho de arte sensacional e incrível, que merece ser revisto, pois sua qualidade é de uma profusão tão atordoante, que não é totalmente captada se o filme for visto uma única vez. Talvez esse seja um dos motivos nos quais Dália Negra foi recebido com impetuosas críticas negativas em seu lançamento. Ou, a única explicação para tal fracasso seja mesmo o azar. Nem todos apreciarão Dália Negra mesmo. Mas, mesmo vendo as imperfeições, poucas, existentes nesse filme, há algo que me deixou totalmente obcecado em relação à ele, algo que me impede de não apreciá-lo. E isso é algo muito pessoal meu. Dália Negra, em minha mais sensata opinião, é um triunfo cinematográfico exímio. Um presente estonteante e inesquecível de Brian, que nos devia tal regalo há muito tempo.

Inicialmente, pelo título e pelos eventos que vão acontecendo por toda a trama, Dália Negra mais soa como a história do chocante crime, que é real, onde a jovem atriz Elizabeth Short foi brutalmente assassinada e esquartejada, encontrada num terreno baldio em Los Angeles - o crime, até os dias de hoje, não foi desvendado -. Mas na verdade não é tanto não. Decerto o insano assassinato ganha a tela e constrói a trama, mas a história gira em torno de dois detetives, ocasionais boxeadores e grandes amigos, Dwight Bleichert e Lee Blanchard. Após serem promovidos, Dwight e Lee passam a participar de grandes investigações, e em todas elas obtendo um enorme êxito. No entanto, quando o assustador e enigmático assassinato de uma aspirante à atriz de 22 anos ocorre na cidade, a vida desses dois detetives vira de cabeça para baixo. 

O misto de delicadeza e intensidade com o qual Brian De Palma vai conduzindo Dália Negra é de uma formosidade fabulosa. Não é tão à toa que Dália Negra possui um clima tão Hitchcock. O filme, que bebe da fonte do estilo do grande Alfred, não está tão longe da comparação com um filme do lendário cineasta. Dália Negra é um longa instruído de uma perfeição tão excêntrica e invejável. Talvez o roteiro deixe escapar certos artifícios e até crie confusões na mente do espectador, mas nada é tão grave a ponto de justificar o ódio intolerante com o qual o filme foi acolhido. É tremendamente assustador, e ao mesmo tempo peculiar, por que Dália Negra não é um filme ruim.

E, como em todo bom noir, ainda mais neste aqui, realizado à moda antiga, em Dália Negra não faltou mistério, máscaras, ilusão e mentira. Esses ingredientes, juntos, numa receita arriscada e ambiciosa, terminam em um resultado excelente. Bem, até confesso que De Palma poderia ter se saído melhor, dado passos maiores - chances ele teve -. Quem sabe reciclar os elementos e as pistas de uma forma mais meticulosa do que a feita? Não estou falando que estou decepcionado com o resultado, de jeito algum! Só digo que, embora o resultado seja atrativo e ótimo, nada o impedia de ser melhor. 

Que elenco... A junção em grupo de atores tão privilegiados num filme só com tantos personagens engenhosos é um prato cheio. A sensual Scarlett Johansson, aqui no frágil, porém estabelecido papel de Kay Lane, é um recheio desnorteante. Pensara eu que ela seria a femme fatale de Dália Negra, e não a Hilary Swank, que encarna o personagem-chave da trama, de forma bem plausível, mas que não é tudo aquilo. Swank possui força, mas sua interpretação um tanto quanto óbvia da femme fatale é devidamente demais esquisita pro meu gosto. Quem dera fosse Scarlett. Se bem que seu personagem amável e carinhoso mais serve de consolo emotivo à obscura narrativa, onde quase todo mundo tem uma ligação com o crime. 

A experiência única e radiante de ver Dália Negra me proporcionou uma grande satisfação. Já fazia uns tempos que queria ver o filme. Desde que vi Passion, o mais recente filme de Brian, e que também foi uma experiência pra lá de magnificente. Além disso, meu desejo só aumentou depois que comecei, mês passado, a pesquisar sobre o tremendamente bizarro assassinato de Elizabeth Short, que é horrendo (as imagens originais do acontecimento são indescritíveis - no pior sentido da descrição -). Levando em conta que trata-se de um filme de ficção, e que o assassinato de Short terminou como caso perdido, Dália Negra, adaptação do romance homônimo de James Ellroy (sim, o mesmo autor do livro que originou Los Angeles - Cidade Proibida, filme que aborda uma temática muito semelhante da de Dália Negra), remonta o crime em traços meticulosos e vibrantes, que só reprisam seu sucesso. O roteiro fenomenal de Josh Friedman, também roteirista de Guerra dos Mundos, e do já anunciado Avatar 2, é um dos maiores destaques deste filme.

A única, das várias que merecia, indicação ao Oscar que Dália Negra recebeu foi em Melhor Fotografia, nomeação dada à Vilmos Zsigmond. E que bem merecida indicação... Vilmos Zsigmond lidera a direção de fotografia de Dália Negra com uma bravura excepcional e uma majestosidade ainda mais poderosa. Muito difícil de escrever o efeito que seu trabalho causa, que faz de Dália Negra um filme bonito e ainda mais cativante e valioso. Não só a fotografia de Vilmos, me engano. Dante Ferretti, o melhor diretor de arte da indústria cinematográfica atual, realiza em Dália Negra mais uma invencível aventura, com cenários muito bem-feitos, que praticamente dão vida à Dália Negra e intensificam o quê épico da trama. A trilha sonora do pouco conhecido Mark Isham é tocante. Os figurinos da britânica Jenny Beavan são tocantes. Dália Negra, rodeado por tanta eficiência, muito dificilmente não me conquistaria. É mais uma grande obra, belíssima e visionária, dirigida por Brian De Palma, esse mestre cuja perícia é inteiramente genial e esplendorosa. Em Dália Negra, De Palma prova, como sempre, a celebridade de seu cinema.

Dália Negra (The Black Dahlia)
dir. Brian De Palma - ★★★★★

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Crítica: "LE CHAMBRE BLEUE" (2014) - ★★


Le Chambre Bleue, o mais novo filme do ator francês Mathieu Amalric, que muito ultimamente tem se aventurado na direção, não chegou aqui no circuito nacional e provavelmente não chegará, já que até na França foi lançado bem timidamente, e o que dirá aqui em nosso país. Exibido no Festival de Cannes ano passado, na seção Un Certain Regard, este drama, que mais tem cara de noir, poderia ser bem melhor. Enfim, o grande erro deste longa é que ele compra aquilo que não pode pagar. Le Chambre Bleue (O Quarto Azul) começa enganando, apresentando alguns elementos que já começam a dar nó na cabeça do espectador, que no fim vai começando a compreendê-los de perto. Mesmo assim, com todo o cuidado que Amalric vai costurando a história, de trás pra frente, de uma maneira bem perspicaz e inventiva, alguns elementos escapam e ficam perdidos, sem resposta. Como eu disse: Le Chambre Bleue tem cara de noir. No fundo, até que é. Mas o final é muito pequeno comparado às expectativas em torno dele.

Baseado no romance de Georges Simenon, cujo mais futuramente procurarei, o filme acaba caindo na destreza e, mesmo que cegamente, desrespeita o público de maneira severa, arriscando passos e errando feio na jogada. Le Chambre Bleue, de tão resumido que é, acaba virando um filme pequeno demais para aquilo que propõe, e isso acaba influenciando um pouco em seu fracasso. No fim, é um filme confuso, por que não entendemos direito a sua proposta. Até parece que o próprio roteiro tenta encobertar o crime, que bem no finzinho vem à tona, e mesmo assim nem causa tanto impacto. 

O filme, que dura menos de 70 minutos, é rápido demais, em minha opinião. Digo, rápido demais a ponto de fazer o espectador perder a noção do espaço, uma vez que os flashbacks se misturam muito rispidamente aos depoimentos enigmáticos do protagonista. Um dramalhão girado em torno da jornada de dois amantes, que acabam se separando no decorrer de um evento, e acabam se reencontrando quando esse evento gera um crime abominável, Le Chambre Bleue conta com a belíssima fotografia Christophe Beaucarne, a salvação desta perdição, e com um elenco comportado, mas ainda sim demais introvertido pro meu gosto. Esperava mais de Amalric, tanto na direção, quanto na adaptação e atuação. A trilha sonora de Grégoire Hetzel também tem seu momento de glória em Le Chambre Bleue.

Le Chambre Bleue
dir. Mathieu Amalric - ★★

Crítica: "BATMAN - O CAVALEIRO DAS TREVAS" (2008) - ★★★★


Nunca pensei que gostaria de Batman - O Cavaleiro das Trevas como eu gostei. Nunca fui muito fã do personagem, e mesmo assim, sem ser um ávido fanático, o considero o melhor de todos esses heróis fantásticos da ficção, embora sequer tenha o acompanhado muito de perto. E este Batman - O Cavaleiro das Trevas é uma surpresa deliciosa. Não é aquele filmaço que tanto prometeu ser, mas é um filme muito bom. O segundo e mais popular filme da trilogia Batman, de Christopher Nolan, possui pontos fortes e pontos fracos. Surpreende por muitos motivos. Um deles é a sua sobrevivência intacta do mal dos filmes de seu gênero, que muito tendem a ser demais repetitivos, exagerados e antipáticos. Também se livra da insegurança e dos possíveis atalhos pseudo-climáticos, que poderiam destruir a perspectiva dramática da trama do filme por inteiro. E, por que não dizer que O Cavaleiro das Trevas é um filme, finalmente, maturo, a certo modo? 

Ação pra cá, e ação pra lá, Christopher Nolan presenteia o espectador com um original e espetacular trabalho de arte. Não é "apenas" um filme de super-herói. Engloba todo um significado por trás de tal rótulo e acaba tornando-se algo maior. O som repetitivo que o filme logo de cara aparenta, na verdade é um falso cognato por trás do sucesso astronômico que esconde em si. E isso nada mais é o que O Cavaleiro das Trevas representa: uma bomba, que logo mostra-se efetivamente desarmada. Decerto há algumas imperfeições e indecifráveis incógnitas em O Cavaleiro das Trevas. Mas, por favor, primeiro vejamos o que o filme traz de bom, a real inovação - que é rara -, e depois analisamos os erros, que são mais comunais aos outros filmes, mas aqui não são grande coisa - que também é raro -. Afinal, why so serious? 

O moralismo perfeccionista de O Cavaleiro das Trevas é o menor dos problemas. O que realmente conta é a novidade. O que é melhor, de fato, em um filme senão sua inovação? O bom deste é que, principalmente, os clichês são reduzidos microscopicamente, e as muitas inovações são gigantes. Contemos primeiro com tal avanço para chegar à conclusão final. A primeira grande inovação de O Cavaleiro das Trevas é seu elenco, extraordinário. Se isso era preocupação, aliviados saímos do cinema em tal ponto. Heath Ledger explica tudo. A competência e versatilidade do ator são colocadas à prova aqui neste filme, e, como resultado, recebemos uma atuação maravilhosa. Não foi em O Segredo de Brokeback Mountain, nem em Casanova, muito menos em Não Estou Lá, mas aqui, em O Cavaleiro das Trevas, que Ledger concebeu a sua melhor performance, e talvez a maior de todas, mesmo que poucas, delas. O Oscar póstumo foi mais que merecido para Ledger. O prêmio nem consegue simbolizar ao todo o grande talento de Heath no papel do Coringa. Elogiar sua performance não é suficiente. Ela é totalmente indescritível.

Ironicamente, o membro do elenco que mais me desapontou foi Christian Bale. E não é a primeira vez. Bale, naturalmente, tem um ar frágil, fraco, meio sem graça, vazio, frio. Mesmo que seu currículo seja preenchido por grandes filmes, e indicações ao Oscar por longas como O Vencedor e Trapaça, Bale só consegue surpreender pela facilidade surreal de fazer tão diversos papéis, e encarná-los de forma tão inusual, quebrando, não raramente, seu lado natural. Se por um lado Bale soa muito parado, no outro quem ganha espaço é essa sua capacidade de camaleão, que sempre positivamente nos agrada, e rebeldemente ataca sua personalidade comunal. Não entendam mal. Gosto dele. Possui um dom único, e incrível para atuar. Só que pra mim, Bale funciona como o Harvey Dent: é um duas-caras. Num lado é um tanto vazio, por que assim foi assim que ele nasceu, afinal, não é possível escolher nossa cara, e no outro é fascinante, por que é dedicado e tem um enorme talento. Em O Cavaleiro das Trevas, o lado vazio é quem constantemente toma conta da tela. Afinal, o sujeito anda o tempo todo com uma máscara enquanto encarna o Batman, e enquanto Bruce, que já é bem friozinho, a confusão bate. Fica difícil de saber se é ele ou se é um dublê. E fica difícil saber se é o Batman ou se é o Bruce Wayne. Essa parte aí é meio complicada, viu.

Mas, digo com certeza, se O Cavaleiro das Trevas fosse um céu, não seria nada difícil enxergar brilhantes e incontáveis estrelas nele. Além de Heath e Christian, ainda temos a ótima performance de Aaron Eckhart, Morgan Freeman, Michael Caine, Maggie Gyllenhaal, Gary Oldman, Cillian Murphy (coadjuvante em Batman Begins, aqui mais coadjuvante do que nunca, aparecendo em pouquíssimas cenas). É muita gente. E Nolan? O que dizer de Nolan? Qual é o papel de Nolan em O Cavaleiro das Trevas? É um papel desleixado? Ou bom? É um papel bem silly? Ou um papel bem strong? Christopher Nolan, um dos diretores mais desafiadores e divididos dessa geração talvez também seja como Harvey Dent. Seja, não: é. Foi excelente em A Origem, excepcional em Amnésia, talvez seu melhor filme, e ambicioso em O Grande Truque (e em todos os outros filmes de sua carreira, incluindo este, mas O Grande Truque foi o auge). Não vi ainda Interestelar (não, eu não tô brincando), mas pelo que eu vi é bem mediano. E como Nolan é em Batman - O Cavaleiro das Trevas, e nos outros dois filmes da trilogia? Ele é grande. Muito grande. Gigante, o que funciona de uma forma um pouco diferente de ambicioso. Gigante no sentido de verossímil, esforçado. A audácia também é grande, mas não no sentido dessa giganteza que vos apresento. Detalhista? Duvido muito. Algumas cenas de O Cavaleiro das Trevas, muito nitidamente, fornecem imperfeições catastróficas. Não acredito que detalhista seja a melhor coisa a se dizer de Nolan em O Cavaleiro das Trevas. Ele é grande, e ponto.

E, sendo grande ambiguamente na direção e no roteiro, poderosíssimos, Christopher acaba fazendo desta película uma grandiosidade peculiar. E isso é bom. Como em Chicago: "and that's good, isn't it grand? Isn't it great? Isn't it swell? Isn't fun, isn't it?". O Cavaleiro das Trevas é definido por tal adjetivo: grande. E isso, minha gente, é o que faz dele uma pérola preciosa. Um tremendo sucesso (não só de bilheteria, digo). Levem em consideração que este filme me agradou apesar de seu gênero, que não excede nem um pouco horríveis fracassos. E acabou abrindo a minha mente e mudando minha ideia sobre ele. Me fez ver que nem toda produção de seu porte é um lixo, e que no fundo tudo o que me afetava sobre elas era um preconceito ávido. No final, O Cavaleiro das Trevas, dentre as várias morais que fabricou, fez uma que em sua concepção é totalmente especial para mim, e que é a responsável por esta opinião: why so serious?

Batman - O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight)
dir. Christopher Nolan - ★★★★

domingo, 26 de julho de 2015

Crítica: "INIMIGOS PÚBLICOS" (2009) - ★★★★


O mais triste deste domingo é que começa a última semana de minhas férias. Na verdade, os últimos dias dela, já que quinta-feira retornarei à ativa. E, mesmo que eu tenha visto uma porrada de filmes nesse intervalo, não acredito que o recesso foi tão bom assim. Fiquei gripado logo no meio dele, e em seguida, veio a bronquite. Fiquei em casa o tempo todo, e não saí para quase nenhum lugar, à exceção do cinema, ainda tendo visto pouquíssimos filmes que entraram em cartaz ultimamente. Bem, em comparação com as férias de junho/julho do ano passado, esta vence, já que na época, em virtude da Copa, as férias não duraram nem ao menos um mês. Mas eu queria ter saído mais. No fim de tudo, passou tão rápido. Enfim, foi o que teve pra hoje. Espero que o próximo recesso de dezembro/janeiro, que é bem mais longevo, me renda o mesmo que as últimas férias de dezembro/janeiro renderam, já que foram ótimas. Elas sempre são. 

E chegamos ao segundo semestre de 2015. Tomara que ele passe bem rapidinho. Mas, mesmo nesse melancolia toda, até que fico feliz por voltar ao meu cotidiano. Mesmo que as férias sejam tão ótimas, se afastar do dia-a-dia não é a minha pretensão, e talvez nem será. Fechando as minhas férias, que ainda não se encerraram ao todo, vejo este belo drama estrelado por Johnny Depp, e dirigido pelo grande Michael Mann, cheio de atrativos e uma natural competência, mas que não escapa das imperfeições. Inimigos Públicos, filme que há muito tempo andava em meus pensamentos, de todo não é um filme ruim. Até que é legalzinho. As sequências de ação são lindíssimas, as performances, manejadas e feitas por um elenco afiadíssimo, são graciosamente espetaculares, e a reprodução técnica da época em que o filme ambienta-se não pode, ao todo, ser resumida num único adjetivo senão relatada meticulosamente, o que eu farei em breve.

A história real do assaltante de bancos John Dillinger é recontada com maestria em Inimigos Públicos. Desde a planejada-com-esperteza fuga da prisão de John até os momentos finais de sua carreira como assaltante, Inimigos Públicos faz uma detalhada e sensível revisão. O que se ausentou aqui em Inimigos Públicos, especialmente na hora da narração, foi o clímax. Quando ele surge, surge do nada e às vezes causa transtornos para o espectador, criando confusão e, em seguida, caos. Os movimentos ágeis e repentinos da câmera também contribuem para esse clímax invertido, algo que, se por um lado contribui, dando ao filme um aspecto mais realista, por conta da dimensão fotográfica, até "futurista", nesse outro nem tanto. 

Embora não seja superficial, Inimigos Públicos deixa uma impressão de que é. E isso incomoda um pouco, por que no fundo não é um filme ruim, mas parece que ele mesmo se esforça ao máximo para ser, e não consegue, o que é bem estranho, convenhamos. Tiro, porrada e bomba mata a sede do público por ação e adrenalina, mas não cala o desejo de ver uma trama de qualidade na tela. Não que Inimigos Públicos não tenha uma boa trama. Mas eu sinto que falta só um pouco de força nela - a timidez da narrativa, que aparenta estar apenas destinada a tomar conta dos fragmentos estéticos do longa, complica -. 

Bem, pra quem desconhece o paradeiro de Dillinger, como eu, que até ver o filme igualmente não sabia nada sobre o caso, o desfecho da história e o final, centralmente, poderão ser bem intensos e surpreendentes. Johnny Depp tem uma baita participação nisso. O ator, em uma performance desoladora e realmente corajosa, vence mais uma vez os obstáculos existentes em fazer personagens históricos (clichês, falta de retrato e conexão com a realidade, superficialidade) e nos convence, como sempre, da autenticidade de seu talento e sua unicidade artística. E, como descontração para a extrema violência do trabalho de John e seus audaciosos e perigosos planos, temos a lindíssima Marion Cotillard contracenando com ele, fazendo seu par romântico perfeito, que oferece à criminosa história um quê amoroso, que conforta e, por sua vez, simboliza a única paz de John.

A trilha sonora do vencedor do Oscar Elliot Goldenthal, sem medo, traça um clima de fúria e tensão a todo instante no longa. Isso contribui para a profundidade épica do filme, que toma espaço nos arredores de Chicago da década de 30, durante a Grande Depressão. A fotografia de Dante Spinotti, que, como eu já descrevi, tem uma baita importância aqui em Inimigos Públicos, e coloca o público à frente da situação, como se nós estivéssemos presenciando cada segundo, cada movimento, cada tiroteio, gravado pela película. E isso é o melhor dessa fotografia empenhada e fabulosa. Os figurinos, os cenários, o som... Tudo é controlado com cautela e talento pelas mãos excepcionais de Michael Mann, que já apresentou trabalhos maravilhosos como Fogo Contra Fogo, Miami Vice, Falcão Negro em Perigo e O Informante, traz na tela mais um trabalho prazeroso que, se não corresponde totalmente às expectativas quanto à ele, pelo menos é um retrato bem feito de um crime e o homem por trás dele, Dillinger.

Inimigos Públicos (Public Enemies)
dir. Michael Mann - ★★★★

sábado, 25 de julho de 2015

Crítica: "À FRANCESA" (2003) - ★★★


À Francesa, por um lado, pode ser um filme bem tosco, mas pelo outro é sensato, intenso, simpático, bem-contado e belíssimo. Se, de tudo, não conseguiu agradar nem um pouco a crítica em seu lançamento (o filme, que relata de modo forte e profundo a relação entre franceses e americanos, não foi bem recebido à altura, lembrando do conflito que França e E.U.A. travaram devido ao 11 de setembro no tempo), pelo menos não é tão enfadonho quanto eu pensava que seria, na questão da história, que pelo enredo já soa demais problemática - o que, para a minha surpresa, não é, não -. Afinal, é doce, tenro, gostoso de se ver. O filme oscila entre o drama e a comédia, mas a todo instante, mesmo em cenas tensas, a pureza e a beleza da vista não deixam de ser radicalmente apreciáveis e enternecedoras. 

Descartado em Cannes, mas aceito em Veneza, este filme, pelo incrível que pareça, se salva do cansaço e da mesmice, e do possível fracasso, ao dissolver minuciosamente as diferenças existentes entre duas culturas tão distintas de uma forma que não é ao certo nova, mas também não é nada tão ruim como muita gente andou protestando por aí. À Francesa, logicamente, não tenderá a agradar todo um público da mesma forma. É um filme que, sim, depende do olhar. Desastroso? Devagar? Inútil? Decepcionante? Perda de tempo? Que nada. Desculpa velha de quem não entendeu ou não teve a intenção de interpretar os objetivos da narrativa por preconceito ou falta de aptidão. Bem, como eu mesmo disse: nem todos gostarão de À Francesa.

Até eu entrei no ritmo, já que detesto Kate Hudson, mas aqui a graça da bela atriz é inegável. E de Naomi Watts, então, nesse papel delicado e bem sutil, que carrega a melhor atuação deste filme, que possui um grande número de estrelas. À Francesa conta a chegada de uma moça americana, chamada Isabel Walker, em Paris, que está na cidade para cuidar da irmã grávida, uma poetisa chamada Roxeanne, e também para encontrar um trabalho. No dia de sua chegada, Isabel descobre que o parceiro de Roxeanne está a deixando por um motivo desconhecido. Isabel tenta reanimar a irmã, enquanto ela permanece tristonha e tensa o tempo todo, ainda mais quando descobre que o amado sacana armou um plano com o advogado para tirar dela uma valiosa pintura.

O maior e fatal erro de À Francesa é o roteiro de Ruth Prawer Jhabvala, vencedora de dois Oscars por trabalhos anteriores com James Ivory, diretor de épicos fabulosos como Vestígios do Dia e Retorno a Howard's End. O roteiro, enquanto apresenta inúmeras falhas, quão absurdas, ainda sim comete o inaceitável desfeito que coloca o próprio roteiro na frente do público, como se o público fosse uma opção descartável para o roteiro, e que ele não dependesse da compreensão do público para a sua própria compreensão. À Francesa faz questão de deixar tudo mastigado por nada. Nesse ponto, o filme perde a graça, por que o conflito abandona a oportunidade de submeter-se à dimensões maiores. Ruth, aqui em À Francesa, autoria um trabalho deteriorado e repleto de imperfeições. Embora tais erros acometam na resolução final do roteiro, as sacadas criativas que Ruth introduz durante o filme, como forma de lesionar ainda mais a aproximação cultural entre França e Estados Unidos, são simplesmente geniais.

Sem fazer um filme desde 2009, James Ivory conquista o coração e dança com nossas emoções num tango agitado e contorcionado neste filme lindíssimo. À Francesa, embora não seja um filme femininista, chega bem perto de tal identificação, já que é mesmo um filme destino à plateia feminina. A aventura das irmãs numa Paris romântica e encantada apenas tende a aumentar tal destinação. O público masculino, bonachão, achará de À Francesa um filme besta, ruim, sem quaisquer perspectivas de sua própria história, e ridiculamente meloso - o que é uma baita mentira -. Por um lado, o público feminino, aceitará sem reclamar os segmentos preenchidos pelas paisagens francesas líricas e audaciosamente versáteis, e por sua vez criará certo laço de reconhecimento com as personagens principais, seja com Isabel ou com a Roxeanne. O certo é que as damas apreciarão a bom porte À Francesa. Meu conselho aos machões em particular é que procurem uma obra de Sergio Leone para substituírem por À Francesa, por que o tempo de vocês será perdido em tal sessão. À Francesa, no entanto, apesar dos erros fatídicos do roteiro, possui performances plausíveis e acalentadoras, em especial a da Naomi Watts, aqui mais linda e triunfal do que nunca, e uma direção dedicada, embora não seja perfeita pelas inadequações, de James Ivory, e não deixa de ser em nenhum momento um bom filme, que emociona, faz rir e encanta. Só digo uma coisa sobre como achei À Francesa: não foi nem um pouco fácil. Por uma sorte lascada, cuja até agora me é totalmente bizarra, achei esta cópia de À Francesa dando sopa numa banca de jornal, pouco tempo depois de ter procurado o filme para ver em torrent. Pois é... A coisa é do mal!

À Francesa (Le Divorce)
dir. James Ivory - ★★★

Crítica: "MANGLEHORN" (2014) - ★


À parte da presença de Al Pacino, Manglehorn, longa exibido em competição no Festival de Veneza do ano passado, onde o ator recebeu, a boa parte delas, críticas positivas por sua interpretação, trata-se de uma bomba fatal. Fortíssimo concorrente à pior filme do ano, o longa, que erra tanto quanto O Último Ato, com Pacino, visto em abril, é um decepcionante fracasso que se deixa levar pelo falso moralismo e também não respeita em nenhum ângulo as necessidades do conflito da trama. É bem parado, inútil e sem nenhum valor. Holly Hunter não faz absolutamente porra nenhuma, assim como o resto do elenco. Manglehorn vale mesmo pela atuação de Al Pacino que, apesar de não ser lá uma grande, ótima performance, como a crítica fez questão de exagerar lá em Veneza, ajuda a esconder o gosto amargo deste horrível lixo.

Olha que eu estou sendo muito otimista elogiando aqui a atuação de Al, por que eu, sinceramente, não gostei nem um pingo de Manglehorn. Sequer por um segundo. Começa bem leve, engana o público, mas aí se perde no vão que separa sua comédia de seu drama, e por aí a confusão já se instala, desnorteando o filme e o fazendo cada vez mais pesaroso de se ver. Tem uma hora em que você só quer que ele acabe. Só isso. Sua duração pequena de noventa minutos prolonga-se numa tortura cansável. Manglehorn, que já no início aparentava ser bem monótono, só vai intensificando essa característica, até transformá-la no mal mais irritante do longa. Odeio falar disso, mas Manglehorn segue a linha padrão dos dramas convencionais e práticos, que apenas querem aproveitar da confiança do público mais comunal para ganhar atenção, principalmente naquelas cenas melodramáticas. É mais uma daquelas histórias de superação embaralhadas que, no final, não resolvem metade do que propuseram, e se auto-descartam quando mantém a trama embaralhada, ocultando alguns detalhes que bem seriam propícios ao conhecimento do espectador.

Chega a ser engraçado, por que parece de propósito. Parece que o diretor quis fazer um filme de merda e transformá-lo em algo sem nenhum significado. Gastar elenco, gastar personagens que, numa armação diferente, poderiam ter dado certo. Mas, infelizmente, Manglehorn não passa de uma bomba. Conta a história de um solitário senhor que não possui uma relação muito boa com o filho rico, que mora distante, é desprezado por alguns outros, e é obcecado com um passado que, até o fim do filme, continua sem fazer o mínimo sentido, justo por que o roteiro não abre ao todo seu leque, limitando informações e fazendo uma completa confusão destas. Quem é mais inocente, e se deixa levar pelo bondoso carisma do protagonista, logo se apaixonará pelo longa. Caso contrário (no meu caso), Manglehorn é chato, meloso pra caramba e maçante. 

E, nessas horas, minha tristeza chega a ocupar um espaço bem maior do que a raiva, por que, é a segunda vez este ano, e a milésima, de uns tempos pra cá, que eu vejo Al Pacino estrelando uma porcaria. Talvez, a melhor performance do ator até o momento estava no recente Não Olhe para Trás, um filme muito bonito e sensato, uma "revanche" de Al. Quanto à Manglehorn, que, durante a sua temporada em Veneza até me tinha deixado com esperança, entra para a lista dos grandes fracassos feitos por Pacino ultimamente. Mas, até que faz lógica odiar tanto assim Manglehorn. A boa parte dos diálogos de Al são entre seu personagem e a cadelinha dele, que, numa parte do filme, fica doente e é operada, sendo afastada de Angelo. Pô, assim não dá. Até entendo que o ato de conversar com os cachorros simbolize certa meiguice e espírito, só que - é preciso ver para entender - em Manglehorn isso ultrapassa os limites. Manglehorn, o chaveiro, vive se desculpando com a cadelinha. Certa noite, fez o maior barraco em casa depois de ter bebido "umas", e na manhã seguinte começou um baita confessionário com a cachorrinha. Sei que isso é comum, só que a sensação que isso deu em Manglehorn foi de que era algo muito bizarro. Enfim, acho que é melhor terminar por aqui. Prefiro deixar que vocês vejam a tragédia que esse filme é. Muito ruim.

Manglehorn
dir. David Gordon Green - ★

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Crítica: "O EQUILIBRISTA" (2008) - ★★★★


Um dos melhores documentários dos últimos tempos, O Equilibrista é uma impecável obra de arte singular e arrebatadora, cuja embalagem é bastante chamativa, mas o conteúdo, inusitadamente, atrai mais. Estou bastante ansioso por A Travessia, de Robert Zemeckis, cujo enredo traça a mesma história do documentário: a fantástica e ambiciosa jornada do equilibrista francês Philippe Petit, e sua famosa apresentação no vão das torres gêmeas em 1974, quando as construções ainda estavam sendo finalizadas. Vencedor do Oscar 2009 de Melhor Documentário, O Equilibrista é um prato muito saboroso e requintado, com leves e doces pitadas de sensibilidade e um confortável aroma de versatilidade. 

Feio demais comparar esse filme belíssimo com o mediano A Teoria de Tudo, que até é um bom filme, mas exagera em certos aspectos e se deixa levar demais pelo melodrama moral, e não vale nem a metade deste aqui, que possui uma estrondosa e eficiente qualidade. A impressão que A Teoria de Tudo, lá no fundo, deixa, é de que ele quer ser desesperadamente tão fiel quanto um documentário, e acaba sendo, só que para um filme dramático, isso não caiu bem. Mas, enfim, O Equilibrista, em certos momentos, leva o espectador ao delírio, e, no fim, ao mais excelente encanto. O trabalho de Petit emociona demais. Em certos pontos, fica até difícil comentar sobre o impacto que sua jornada deixa. 

Afinal, o que faz O Equilibrista tão diferente dos outros documentários? Boa pergunta. Quem sabe O Equilibrista, em um método mais convencional, seja tão forte por sua simples concepção, sem muitos devaneios ou excessos? Quem sabe seja um documentário mais objetivo, que não fica enrolando para não chegar em lugar algum? Ou até mesmo a naturalidade da narrativa, que tem uma certa influência na montagem da jornada dentro do filme? O Equilibrista, por várias razões, pode até ser considerado uma exceção. Um dos documentários mais brilhantes feitos, talvez não só na atualidade mas também na história do cinema, possui uma linha de apresentação muito simplesinha, e surpreendentemente firme, que consegue prender o público à história até o final de seus noventa minutos. Simples assim. Melhor: bem-resolvido. O Equilibrista é um documentário criativo, e demasiadamente inventivo. E aqui não é um problema, por que isso apenas contribui à seu favor.

Embora a maior parte dos arquivos históricos do filme sejam refilmagens feitas por Marsh e um grupo de atores, por conta da pobre existência de vídeos, todos os segmentos que relatam ou interpretam capítulos da grande aventura de Petit são maravilhosos e geniais (a própria concepção da ideia de refilmagem por si só é genial). E, o que poderia ter sido bem chato - a maioria do acervo é formado por fotografias - no que diz respeito à arquivos da época, acabou se tornando um bem inseparável deste longa. O espetáculo e a magia do equilibrista não só são revividos pelos relatos das entrevistas ou das encenações. As imagens possuem um papel importante nisso. Entra entrevista, sai entrevista, especialmente no final, as fotos do grande momento tomam conta de uma emoção inexplicável. Só de ver, e até agora pensar, nas fotografias que exibem o ato de Philippe não só criam e fundamentam uma dimensão do momento como também causam uma incrível vertigem (e olha que eu não sofro do mal). Sinceramente. Ver, não só nas torres gêmeas, mas também em Notre-Dame, e em outras apresentações mostradas aqui no filme, a performance surreal do homem em cima daqueles cabos de aço são capazes de eliminar o fôlego de qualquer um, em qualquer instante.

É simplesmente impossível. Como um ser humano consegue chegar ao extremo limite de poder se conectar tão profundamente ao estado livre e praticamente inalcançável da concentração? Uma coisa de gênio! Tento me colocar no lugar de Petit. Como jamais eu faria uma travessia de sessenta metros, de uma torre à outra, na maldição de um cabo de aço? Como? É simplesmente emocionante. A dedicação e o trabalho louco de Philippe Petit comove insanamente. No final, após a realização da performance por mais de quarenta minutos, Petit foi preso (tal atividade é ilegal), e mais tarde levado à um psiquiatra num hospício. Bem, que a situação exagerada foi exagerada, mas não é possível de nenhum modo negar que fez bem, afinal, há vezes em que não sabemos se o ser é humano ou não... Mas o cara é mesmo brilhante. E muito simpático. Outra declaração, essa do próprio Petit, que veio no final, foi a que ele era constantemente perguntado: "por que você fez isso?", até brincando em um dos fragmentos quando um jornalista o pergunta a mesma coisa e ele responde, cansado: "já me perguntaram mil vezes isso hoje". Agora, você pensa comigo: por que um homem desses faria tal coisa? Atravessar o vão entre os dois maiores prédios do mundo, cuja altura sobrenatural seria capaz de acabar com a vida dele num pequeno segundo? Que ato traz mais prazer, maravilha, e transmite coragem e dignidade? E é tudo pela arte. Tudo pelo significado, ou não, já que muitos, até mesmo colegas, descrevem a ocupação de Petit um tanto quanto incompreensível, mesmo assim, tremendamente fantástica. E a filosofia artística desse brilhante ícone é totalmente sem preço, assim como ver a O Equilibrista. 

O Equilibrista (Man on Wire)
dir. James Marsh - ★★★★

Crítica: "O SONHO DE CASSANDRA" (2007) - ★★★★


Se tem uma coisa que me deixa irado é ver as acusações de que Woody Allen está passando por sua pior fase. Que coisa mais enfadonha. Que pior fase? Homem Irracional foi recebido assim. Ansioso pela estreia do filme, que está marcada para o fim do próximo mês, fiquei muito decepcionado pela quantidade absurda de críticas que desceram o cacete no filme. Bem, se ele é ruim, eu não sei ainda. Veremos em agosto. Mas nem um pouco parece. Bem, enquanto espero para ver os resultados, assisto à O Sonho de Cassandra, o último grande filme de Woody que lida com o crime, assunto que também é apresentado em Homem Irracional, pelo que eu vi, e que de uns tempos pra cá trouxe ao público o melhor do cineasta. Só citando Crimes e Pecados, Match Point - Ponto Final e este excelente O Sonho de Cassandra para a comprovar a existência de tal sucesso no gênero que Woody tão genuinamente conquistara ultimamente.

Depois de uma obra brilhante como Match Point - Ponto Final, que foi muito bem-recebida, Woody Allen arriscou-se outra vez no gênero fabricando outro suspense, mais leve, embora ambicioso: Scoop - O Grande Furo, que não se saiu tão bem assim, mas por outro lado trouxe Scarlett Johansson (resgatada do clima tenebroso da obra anterior) e Woody Allen em performances deliciosas, ambas, a maior parte do tempo, cômicas. Bem, se Scoop - O Grande Furo não conseguiu reproduzir a glória de seu antecessor, O Sonho de Cassandra pagou sua dívida e mais. O longa de Woody, que estreou no Festival de Veneza 2007, não chega a ser melhor que Match Point, mas é uma obra e tanto (e bota obra nisso). Woody deixa o humor usual de seu estilo de lado - o que já tinha feito fantasticamente em Match Point - e prova a majestosidade de sua maestria dando vida à uma história obscura, séria, e de um caráter dramático intenso, tão profundo quanto o de Match Point. Em O Sonho de Cassandra, é a virada de Woody. A virada que teve uma breve pausa em Scoop - O Grande Furo, mas se reergueu aqui. 

Match Point trazia consigo não só o pânico da dúvida moral do protagonista como também colocava em tela uma sensual Scarlett Johansson, em cenas quentíssimas, cujas nenhum filme de Woody Allen jamais tinham exibido. A traição de Chris, por sua vez alimentada pela sensualidade cativante de Nola, não só oferecia à trama elasticidade como também fermentava o pavoroso destino final da história, e era isso que, sobretudo, era ousado e novo na obra. Woody mostrou ali uma outra identidade. Woody nos deu, em Match Point, seu completo misto de Hitchcock e Bergman (identidade do diretor que já era visível no mesmo estilo lá em Interiores, que praticamente era uma ode total ao estilo do sueco). Aqui, tal identidade se aprofunda. Arrisco: evolui, a certo ponto. No entanto, o Bergman de Woody é quem grita mais alto, desta vez. A culpa de Terry (Colin Farrell) chega a angustiar e causar terrível melancolia ao espectador. (spoiler) Ver a dimensão do sofrimento e do aprisionamento dele, efeitos do crime cometido por ele e seu irmão, é de assustar. Nessas partes, lembrar de Bergman não é uma tarefa tão difícil. Lá em Match Point, tinha uma cena perto do final que parecia ter sido feita por Bergman (sério!), onde Chris acordava no meio da noite e encontrava o espírito de Nola, se não estou enganado.

Dois irmãos, apenas em busca da vida, de melhores oportunidades. Um, Terry, é um simpático mecânico, com uma bela namorada, levando uma vida sem problema nenhum, se não fosse pelas suas incansáveis apostas. O outro, Ian, é bem livre, trabalha com o pai no restaurante, mas não é fixo, já que planeja trabalhar com hotéis na Califórnia. Conhece uma bela moça, e logo já é namorado dela. O destino, porém, apenas planeja o pior para ambos os irmãos. Terry, devendo quase cem mil libras, pede desesperado a ajuda de Ian. Os irmãos, sabendo da visita de um tio milionário, que trabalha com negócios e viaja o mundo, com conexões desde a China até Hollywood, se preparam para pedirem à ele algum auxílio. Mas, para a surpresa de Terry e Ian, é o próprio tio que vem lhes pedir uma (fatal) ajuda: com a promessa de recompensa, o tio propõe aos dois irmãos que eles matem um concorrente dele, que está prestes a denunciá-lo para a polícia. Inicialmente recusando, os dois irmãos decidem que é a melhor coisa a se fazer. Só que o horror do crime vai apenas deteriorando a situação.

Enquanto em Match Point Woody teorizava sobre a sorte e nossa imensa dependência dela, aqui é totalmente ao contrário. O Sonho de Cassandra retrata o infortúnio e o azar que envolve o caso dos dois irmãos, e o deplorável destino que suas vidas tomam no fim. É um conto sobre os nossos sonhos colocados em risco na luta contra a regra moral e a gravidade da ambição, sem limites. No roteiro, Woody mais uma vez mostra total controle e exibe, com competência e vivacidade, sua ilustre perícia. No elenco, Colin Farrell e Ewan McGregor são absolutamente fabulosos e esplêndidos, dão um show no que diz respeito à interpretação e nos fazem vibrar, com desempenhos versáteis e especiais. Vale lembrar também do compositor, Philip Glass (Notas sobre um Escândalo, As Horas), cujo trabalho de perfeição e primor dão ao filme um gosto obscuro e autêntico, e só deixam o espectador mais emocionado e eletrizado.

 O Sonho de Cassandra (Cassandra's Dream)
dir. Woody Allen - ★★★★

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Crítica: "CÓPIA FIEL" (2010) - ★★★★★


Difícil conter a emoção ao ver um filme tão plausível e excepcional como Cópia Fiel. A ambição e a força de Abbas Kiarostami, além dos protagonistas talentosíssimos, fazem deste longa uma preciosa obra de arte. Bem, já fazia um bom tempo em que eu andava querendo ver Cópia Fiel, não só por conta de sua aclamação sucessiva mas também pela presença da querida Juliette Binoche, cuja performance havia sido bastante elogiada e condecorada com conceituados prêmios. Mas o interessante de Cópia Fiel é que ele vai bem além em tais quesitos. Não só acerta em tudo no que diz respeito à expectativas como também cria algo a mais, que satisfaz e cria um clima muito favorável à ele.

O filme começa com a palestra de um escritor inglês, James, na Toscana, cujo livro, "Cópia Fiel" - um ensaio sobre arte, mas que teoriza principalmente sobre a cópia e o original -, foi recentemente traduzido e publicado em italiano. Nessa palestra, uma mulher, acompanhada do filho, assiste à ele, e, interrompida frequentemente pela criança, desiste de ver a apresentação, deixando seu telefone com o tradutor de James, pedindo que ele vá à sua galeria de arte, com o objetivo de aprofundar os detalhes da obra do escritor. Após a visita ao local, James convence a mulher a levá-lo para um passeio de carro, onde ele pretende apreciar a vista por perto. Logo mais, após um pequeno debate com a galerista, ele desta vez é convencido por ela a visitar um vilarejo não tão distante dali. É lá que então, após serem confundidos pela dona de um café como casados, eles darão vida à um jogo baseado em tal confusão, com James e a mulher, por toda a viagem, tratando um ao outro como marido e mulher. É nesse jogo que a mulher fala sobre a sua vida e seus medos, e o homem, com criatividade, alimenta a ideia.

Muita gente pode dizer que Cópia Fiel trata-se de uma vibrante meditação sobre a cópia, sobre o original, e sobre o valor de ambas as coisas. Por outro lado, Cópia Fiel também pode simbolizar uma história de amor emergida do destino. Ou ainda sim Cópia Fiel pode ser uma difusão entre os dois pontos. Bem, eu prefiro a última versão, já que, tanto falando de amor, quanto falando da cópia, o filme só mesmo tem a ganhar. Já na cena inicial Abbas Kiarostami apropria-se de signos para então nos explicar a sua opinião sobre a cópia e original. Antes e durante os créditos, a tela é preenchida pela imagem fixa de uma mesa. Em cima dessa mesa vemos dois microfones pendurados e dois copos, com uma garrafa atrás deles. Segundo minha percepção de tal cena, que dura no mínimo, acredito, três minutos e meio, é possível ver que Abbas bem mesmo não tá nem aí para cópia nem original. Ele prefere ser prático em tal quesito. Afinal, os dois copos, que são idênticos, só mesmo possuem uma única função. Os dois microfones, que possuem alguma diferença, sendo um deles curvado e o outro ajeitado, também são vítimas do mesmo caso, pois ambos, tanto quanto qualquer um de sua marca, só mesmo possuem uma - única - função. Outro exemplo de que essa versão possa ser melhor teorizada é quando James e a mulher, caminhando, estão discutindo sobre o livro, e James fala, que até mesmo a obra original é uma cópia: "Da Vinci, ao pintar a Monalisa, teve que se inspirar - copiar - a Gioconda. E o sorriso dela? Você acha que ele não a pediu para sorrir?". Bem, esse assunto, volta e meia no filme, é motivo de discussão entre o escritor e a mulher, e vi mesmo muita gente, ao falar do filme, evidenciar a teoria, que mais serve de pretexto para a conexão das relações humanas. Claro, tal parte pode ser vista como um dos artifícios mais inteligentes do filme, mas é bem claro que, a partir dessa teoria, Abbas busca um caminho para alimentar a trama, e o jogo do casal.

Primeira grande obra estrangeira/não-iraniana de Abbas Kiarostami, autor de filmes singelos e brilhantes como Dez, Gosto de Cereja, Close-up e O Vento nos Levará, Cópia Fiel não só atrai por Juliette Binoche e por toda a conspiração que envolve sua excelente teoria, como também é um belo cartão-postal das regiões de Arezzo e Toscana da Itália. Os belos e prosaicos cenários do longa, que geralmente servem de fundo às conversações e ao jogo do escritor e da mulher, alegram e cativam a vista, nos levando a uma jornada amorosa de teor explicitamente fotogênico e encantador. E Juliette... Que atriz! Mesmo aos cinquenta, à beira da velhice, a lindíssima Juliette não perde a pose, não se deixando levar pelos ares enfadonhos que a idade tão veemente proporciona, sempre muito jovial, conservada, e talentosa. Mesmo que seu papel em Cópia Fiel não a tenha rendido um segundo Oscar - cujo, em minha solene opinião, seria pra lá de bem-vindo à Binoche, ainda mais nas virtuosas circunstâncias apresentadas pela sublime atuação -, ou até mesmo um maior reconhecimento, impossível não deixar de contemplar essa incrível musa, em uma das melhores interpretações de sua carreira, vencedora do prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes em 2010 - mais que merecido -. Confesso que em certas partes de Cópia Fiel, como o jantar do casal em um restaurante do pequeno vilarejo, onde Binoche se arruma para James, mas é ignorada por ele, que a encara com uma atitude fria e insensata, dá um aperto no coração... Cópia Fiel não podia ser melhor, ainda mais quando, vira e mexe, somos transportados à Antes do Pôr-do-Sol, justo quando James, no início do passeio, revela a limitada duração que tal tour deverá ter, uma vez que ele tem um trem para pegar às 21hs, e também não é à toa que os passeios nos pequenos becos sejam tão parecidos com as sequências da grande obra de Richard Linklater (também duvido que seja um acaso James ter a mesma inicial que Jesse). E a lembrança só reforça nossa apreciação. Cópia Fiel é uma obra-prima extraordinária, um dos trabalhos mais tocantes do iraniano Kiarostami, de um inestimável valor, dotado de uma aguçada sensibilidade poética e um livre consenso romântico, intenso e prazeroso.

Cópia Fiel (Copie Conforme)
dir. Abbas Kiarostami - ★★★★★