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terça-feira, 5 de abril de 2016

Crítica: "MIAMI VICE" (2006) - ★★★★


Um dos cineastas mais cultuados dos tempos recentes, Michael Mann a cada novo filme que traz busca revigorar seu estilo, aprimorar a sua ação, imortalizar as suas obsessões. Confesso que no passado não cultivava esse apreço que hoje tenho por Mann e sua filmografia excepcional. É claro, não cheguei a ver todos os títulos dele, mas certamente vi o suficiente para reconhecer seu padrão e sua dignidade fílmica, o ritmo e outros aspectos marcantes de seu cinema, que vão desde o visual cadente à primorosidade das sequências de ação. 

Há muitas coisas que fazem a gente ficar fascinado com Miami Vice. O filme tem seus defeitos, mas é um trabalho tão bem-feito, pulsante e novo que simplesmente não dá pra deixar passar em branco. Chega a ser, arrisco, um dos melhores filmes do Mann (levando em consideração que ainda não conferi certos filmes bem badalados do diretor, como Fogo Contra Fogo -- vergonhoso eu não ter visto, né? --, Ali e O Último dos Moicanos, só pra citar alguns). Pra ser mais exato, só vi, dos filmes dele, de Colateral Hacker (à exceção deste, gostei de todos). E, já que mencionamos Colateral, Miami Vice fica um pé atrás do filme de 2004, que pra mim é, até agora, o melhor filme de Mann. Muito embora seja rítmico, estiloso e charmoso, Miami Vice não consegue alcançar a qualidade de Colateral.

Michael Mann foi, originalmente, produtor executivo do Miami Vice na década de 80, seriado que inspirou esse filme. Confesso que desconhecia a existência do programa até então, mas vou ver se o encontro mais tarde na internet (estou aberto a sugestões). O que interessa é que Miami Vice já é por si só um trabalho de primeira. Curioso ver que a maioria dos críticos caiu detonando no filme, que recebeu várias críticas negativas em seu lançamento, e teve uma aclamação bem turbulenta e, em consequência, também negativa. E o mais curioso de tudo isso é que Miami Vice está longe de ser um filme ruim. Tem seus defeitos, como eu já disse, mas não é tão grave assim.

Um dos maiores méritos de Miami Vice é a competente dupla de protagonistas, Colin Farrell e Jamie Foxx, que fazem dois detetives envolvidos em um sistema de contra-inteligência perigoso e complexo, envolvendo um contrabandista, e chefão do cartel de drogas colombiano conectados com um grupo neo-nazista, membros da Comunidade Ariana. 

O interessante de Miami Vice é que não se trata apenas de um filme de ação. A trama é mais que um desfecho de ação mastigado. Os diálogos são poderosos. A complexidade dos esquemas estabelecidos, o desencontro de personagens, o clímax enigmático. Sem falar na fotografia magnífica e exburante do Dion Beebe. Ainda que seja um extravasador filme de ação, não vale deixar de fora certos pontos de enorme contribuição para a qualidade de Miami Vice.

Miami Vice
dir. Michael Mann - 

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Crítica: "COLATERAL" (2004) - ★★★★


Rapaz, tenho um punhado de filmes do Michael Mann separados aqui pra ver. Noite passada pensei em pegar Miami Vice, mas lembrei que Colateral tava pintando lá no Netflix. Faz uns anos o filme passou na Globo e eu comecei a ver bem no meio, mas acabei dormindo. O último filme que vi do Mann fora esse foi Hacker, e digamos que ele não me agradou muito. Ver Colateral já era uma dívida há tempos. E eu até que gostei, viu. Mais do que imaginava. Michael Mann capricha na condução de um filme de ação equilibrado e de tirar o fôlego, temperado pelas performances incríveis dos protagonistas Tom Cruise e Jamie Foxx (que até foi indicado a um Oscar, em 2005, pela sua performance aqui). 

O filme começa e o já típico recurso câmera tremida do Michael Mann nos recebe (é o que eu mais adoro no cinema do Mann, pra ser objetivo). Não demora muito e o público é exposto à ação radical e extrema, da velha e boa ida do cinema de Mann. É uma sensação tão gostosa que é um crime pausar a sessão sob qualquer circunstância. 

O Jamie Foxx interpreta um motorista que trabalha em turnos noturnos como taxista, e que dá uma corrida a um tempestuoso assassino (Tom Cruise), que foi encomendado para matar cinco pessoas naquela noite, e que usa o taxista como cúmplice do crime, forçadamente. O taxista se vê sem saída, confinado àquela situação deplorável sem ter para onde correr. Apesar dos esforços, ele nunca consegue encontrar um escape. E somado à seu nervosismo, tudo só piora. É aí que ele começa a reagir violentamente, à sua maneira, aos abusos do matador, buscando a cada momento tentativas de se livrar do impiedoso Vincent. 

Colateral, no geral, é um deleite. Mais que isso, um prestígio. Quanto às sequências de ação, cada uma mais excepcional do que a outra. A ação em Colateral tem gosto de rush, é decorada por sustos e pulos, e deixa qualquer um à beira da poltrona. Não tem como reclamar desse filme brilhante. Simplesmente não há como. 

O roteiro (escrito por Stuart Beattle) é o ponto forte de Colateral. A todo instante, o filme nos transmite a sua pulsante adrenalina, mixando energia e ritmo ao seu bombástico clímax. A química que se constrói entre o assassino de aluguel (Vincent) e o taxista (Max) fixa uma amizade corrompida e temperamental entre ambos que perdura por todo o filme, e que é divertidamente atenuante de se acompanhar. Dois homens, cinco paradas, um só destino. Colateral é um filme astuto e vigoroso. Ação pra todo canto. Michael Mann mais uma vez prova-se o mestre da ação com esse glorioso monumento em seu currículo. Por último, merecem destaque as rápidas performances do ainda pouco conhecido Mark Ruffalo e da Jada Pinkett Smith. 

Colateral (Collateral)
dir. Michael Mann - 

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Crítica: "HACKER" (2015) - ★


Não só confesso que cochilei durante a sessão toda como também fiquei desapontadíssimo com o mais novo filme de Michael Mann, Hacker. Provável candidato a pior filme do cineasta, Hacker é tedioso, insatisfatório, clicherizado demais, fútil e nem sequer parece que é um filme dirigido pelo bom e invencível Mann, uma vez que é bem raro encontrar fracassos na carreira deste que é um dos mais talentosos e privilegiados diretores do cinema americano e o filme não tem o mesmo ritmo dos outros longas dele. Se não fosse pela típica câmera digital dos filmes dele, nem desconfiaria que era de sua autoria. Daria mesmo pra ver de longe que Hacker é do mesmo diretor de Miami ViceInimigos Públicos, O Informante e Fogo Contra Fogo? Impossível. As bem-gravadas sequências de ação aqui apresentadas - talvez duas delas na lista das melhores cenas já dirigidas por Michael Mann - enfraquecem, e ficam invisíveis de forma com a qual a falta de qualidade do filme fale mais alto do que a qualidade dessas cenas. Muito deplorável. 

Há quem diga que estava confiante com o anúncio de Hacker, ainda no ano passado, com a premissa de que seria um trabalho melhor que o anterior, razoável, porém belíssimo, Inimigos Públicos. Eu mesmo tinha apostado muito em Hacker. Até hoje quando o vi, mesmo depois de ter lido uma porrada de críticas ruins sobre ele. Se não for o único fracasso da carreira de Michael, Hacker é o pior deles. Inicialmente o filme é bem interessante, com sequências dotadas de um ótimo clima suspenso que movimenta a trama, além de passagens que em certos aspectos levam a gente direto para Inimigos Públicos. Mas a história fica confusa, os planos pouco definidos e a trama, de uma hora para outra amarga. Um apagão do nada. O suspense cai e nas cenas seguintes o clima desaparece, tanto que a única reação em seguida é sono. Uma ou duas vezes cochilei vendo Hacker na tela da TV (entende-se por que o filme não chegou ao circuito nacional), isso por que mesmo vendo filme em casa não tenho o hábito de cochilar. 

Justamente na cena que prometia ser a mais envolvente do longa, a mistura de uma porção de emoções num só lugar resulta na incompreensão. A câmera nervosa de Michael ajuda muito na adrenalina, se não fosse pela mistureba que a cena vira, e aí perde a graça. Naquele instante dá vontade de apertar a opção "abrir" do aparelho reprodutor, tirar o DVD lá de dentro e quebrar o disco ao meio. Dá raiva demais. E eu só conseguia pensar: "Essa porcaria é do Michael Mann?". E o pior é que no cinema seria bem mais econômico do que o DVD, e talvez não sairia tão irado da sessão por isso, quem sabe? 

Chris Hemsworth não brilha em nada aqui e só está de enfeite mesmo (não diga?). Queria mesmo ver a Viola Davis dando um show aqui, mas ela infelizmente não convence nada no papel de uma detetive sangue bom que entra na operação e pretende ajudar o hacker. Para um intervalo de seis anos desde o último filme, Hacker vem como uma bomba e explode avassaladoramente em nossas mãos, destruindo por completo a esperança de ver mais uma grande obra de Mann, como sempre foi. 

Hacker (Blackhat)
dir. Michael Mann - 

domingo, 26 de julho de 2015

Crítica: "INIMIGOS PÚBLICOS" (2009) - ★★★★


O mais triste deste domingo é que começa a última semana de minhas férias. Na verdade, os últimos dias dela, já que quinta-feira retornarei à ativa. E, mesmo que eu tenha visto uma porrada de filmes nesse intervalo, não acredito que o recesso foi tão bom assim. Fiquei gripado logo no meio dele, e em seguida, veio a bronquite. Fiquei em casa o tempo todo, e não saí para quase nenhum lugar, à exceção do cinema, ainda tendo visto pouquíssimos filmes que entraram em cartaz ultimamente. Bem, em comparação com as férias de junho/julho do ano passado, esta vence, já que na época, em virtude da Copa, as férias não duraram nem ao menos um mês. Mas eu queria ter saído mais. No fim de tudo, passou tão rápido. Enfim, foi o que teve pra hoje. Espero que o próximo recesso de dezembro/janeiro, que é bem mais longevo, me renda o mesmo que as últimas férias de dezembro/janeiro renderam, já que foram ótimas. Elas sempre são. 

E chegamos ao segundo semestre de 2015. Tomara que ele passe bem rapidinho. Mas, mesmo nesse melancolia toda, até que fico feliz por voltar ao meu cotidiano. Mesmo que as férias sejam tão ótimas, se afastar do dia-a-dia não é a minha pretensão, e talvez nem será. Fechando as minhas férias, que ainda não se encerraram ao todo, vejo este belo drama estrelado por Johnny Depp, e dirigido pelo grande Michael Mann, cheio de atrativos e uma natural competência, mas que não escapa das imperfeições. Inimigos Públicos, filme que há muito tempo andava em meus pensamentos, de todo não é um filme ruim. Até que é legalzinho. As sequências de ação são lindíssimas, as performances, manejadas e feitas por um elenco afiadíssimo, são graciosamente espetaculares, e a reprodução técnica da época em que o filme ambienta-se não pode, ao todo, ser resumida num único adjetivo senão relatada meticulosamente, o que eu farei em breve.

A história real do assaltante de bancos John Dillinger é recontada com maestria em Inimigos Públicos. Desde a planejada-com-esperteza fuga da prisão de John até os momentos finais de sua carreira como assaltante, Inimigos Públicos faz uma detalhada e sensível revisão. O que se ausentou aqui em Inimigos Públicos, especialmente na hora da narração, foi o clímax. Quando ele surge, surge do nada e às vezes causa transtornos para o espectador, criando confusão e, em seguida, caos. Os movimentos ágeis e repentinos da câmera também contribuem para esse clímax invertido, algo que, se por um lado contribui, dando ao filme um aspecto mais realista, por conta da dimensão fotográfica, até "futurista", nesse outro nem tanto. 

Embora não seja superficial, Inimigos Públicos deixa uma impressão de que é. E isso incomoda um pouco, por que no fundo não é um filme ruim, mas parece que ele mesmo se esforça ao máximo para ser, e não consegue, o que é bem estranho, convenhamos. Tiro, porrada e bomba mata a sede do público por ação e adrenalina, mas não cala o desejo de ver uma trama de qualidade na tela. Não que Inimigos Públicos não tenha uma boa trama. Mas eu sinto que falta só um pouco de força nela - a timidez da narrativa, que aparenta estar apenas destinada a tomar conta dos fragmentos estéticos do longa, complica -. 

Bem, pra quem desconhece o paradeiro de Dillinger, como eu, que até ver o filme igualmente não sabia nada sobre o caso, o desfecho da história e o final, centralmente, poderão ser bem intensos e surpreendentes. Johnny Depp tem uma baita participação nisso. O ator, em uma performance desoladora e realmente corajosa, vence mais uma vez os obstáculos existentes em fazer personagens históricos (clichês, falta de retrato e conexão com a realidade, superficialidade) e nos convence, como sempre, da autenticidade de seu talento e sua unicidade artística. E, como descontração para a extrema violência do trabalho de John e seus audaciosos e perigosos planos, temos a lindíssima Marion Cotillard contracenando com ele, fazendo seu par romântico perfeito, que oferece à criminosa história um quê amoroso, que conforta e, por sua vez, simboliza a única paz de John.

A trilha sonora do vencedor do Oscar Elliot Goldenthal, sem medo, traça um clima de fúria e tensão a todo instante no longa. Isso contribui para a profundidade épica do filme, que toma espaço nos arredores de Chicago da década de 30, durante a Grande Depressão. A fotografia de Dante Spinotti, que, como eu já descrevi, tem uma baita importância aqui em Inimigos Públicos, e coloca o público à frente da situação, como se nós estivéssemos presenciando cada segundo, cada movimento, cada tiroteio, gravado pela película. E isso é o melhor dessa fotografia empenhada e fabulosa. Os figurinos, os cenários, o som... Tudo é controlado com cautela e talento pelas mãos excepcionais de Michael Mann, que já apresentou trabalhos maravilhosos como Fogo Contra Fogo, Miami Vice, Falcão Negro em Perigo O Informante, traz na tela mais um trabalho prazeroso que, se não corresponde totalmente às expectativas quanto à ele, pelo menos é um retrato bem feito de um crime e o homem por trás dele, Dillinger.

Inimigos Públicos (Public Enemies)
dir. Michael Mann -