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domingo, 22 de outubro de 2017

MANIFESTO (2015)


É num filme como Manifesto que a gente começa a refletir sobre como a presença de um determinado intérprete em cena pode fazer toda a diferença, em diferentes aspectos, no que diz respeito à construção de um trabalho cinematográfico. É aí que entra a gigante Cate Blanchett, que já provou (várias vezes, inclusive) que é uma das maiores atrizes dos nossos tempos, em um de seus papéis mais emblemáticos e curiosos no cinema. Neste filme, que sem sombra de dúvida é um achado na filmografia da australiana, ela alterna entre diferentes personagens numa alegoria que questiona os valores, os fundamentos e princípios da arte na vida humana, na história e na filosofia. Projetado inicialmente como uma instalação (que não chegou a vir para o Brasil) e depois "traduzido" para a linguagem de cinema, Manifesto é um desses filmes bizarros que acabam pegando a gente pela sua iminente estranheza e cativante interação com o espectador, e por isso mesmo não deixa de ser uma experiência no mínimo inovadora e quase chocante até pra quem está do lado de cá da tela. 

Blanchett figura nas treze esquetes deste projeto vivendo personificações distintas em monólogos riquíssimos e repletos de questionamentos à arte em si, envolvendo famosos manifestos de artistas, filósofos e pensadores aclamados. A alternância pode surpreender pelas pitadas inesperadas de humor, pela bizarrice frontal ou pela exuberância da atuação, fato é que, por mais irregular que seja, Manifesto consegue conspirar sua atmosfera em torno de Blanchett de uma maneira que raramente se viu, e é por isso mesmo que vale dizer que vale a pena conferi-lo justamente pela presença dela, num de seus momentos mais inspirados e tentadores e que é prato cheio pra quem acompanha ela há algum tempo e nutre uma certa admiração por seu talento. 

Sim, o filme é interessante, tem um quê bem mais experimental do que propriamente narrativo, mas não há como deixar passar que existe aqui uma pretensão em dar conta de um conteúdo extensíssimo e muito variado, repleto de referências, códigos e contextos próprios, que vão se atropelando para dar lugar a outros. Há um discurso bastante rico sobre a arte, mas é imaginável (e o filme deixa isso claro) que é um trabalho bem mais compatível à uma instalação artística do que um longa-metragem em si. Ainda sim, é notável que Blanchett esteja numa de suas performances mais celebráveis e talentosas, com suas mil faces, transformações fascinantes que já dão motivo de sobra pra valer uma conferida. 

Manifesto
dir. Julian Rosefeldt
★★★

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

AS MIL E UMA NOITES (2015)


Comentarei sobre os três filmes da maravilhosa trilogia do cineasta Miguel Gomes As Mil e uma Noites


Por incrível que pareça, o primeiro filme (ainda que seja o melhor dos três) demorou um pouco pra me pegar, confesso que no começo ainda tive um certo receio de não "embarcar na viagem", mas esse sentimento foi passageiro. É o mais delicioso e relevante dos filmes da trilogia, Miguel Gomes também está participando, que é bem mais denso, tem uma ótima síntese de construção narrativa e o trabalho com a câmera é destaque. Pra quem não estiver no pique, pode ser um pouco difícil seguir a linha desse aqui, entretanto é um trabalho mais que encantador. Ali naquele olhar crítico pra crise em Portugal (que é o tema central dos três longas), o Gomes encontra brechas pra fazer comentários ainda mais desconcertantes e inserir ordens que parecem não estar muito conectadas às principais atenções do filme, e que gradativamente vão se fazendo importantes e essenciais. O elenco está em ótima forma, não tem do que reclamar, certas cenas de diálogos são deveras exímias e nestas os atores estão impecáveis.

As Mil e uma Noites: Volume I, O Inquieto
★★★★


A cena genial do julgamento já diz muito sobre o que este filme vem a abordar, e está entre as sequências mais importantes e hilárias desta trilogia (se não for a mais). Aliás, humor aqui neste filme recebe um tratamento bastante diferenciado, talvez porque esteja mais explícito do que no primeiro, e ainda sim nesse aqui um senso de comédia impressionante se apropria do formato crítico do filme, mas de forma alguma o drama é desvalorizado, até acho que existem certas passagens que encontram uma ótima expressão dramática. Notáveis presenças de atores já recorrentes à filmografia do Gomes (inclusive de Tabu) e do filme anterior. Por vezes é vertiginoso, a presença da comédia primeiramente se torna um aliado desse comentário do diretor e segundamente é a ferramenta pela qual o elenco acaba acessando uma certa liberdade e rigor excepcionais, e os diálogos ficam ainda mais interessantes com essa inserção. O segmento do cachorrinho também merece menção. Este é, sem dúvida, o mais original dos três filmes, destaque pela abordagem inventiva que já se denotava no primeiro.

As Mil e uma Noites: Volume II, O Desolado
★★★½


Este filme, embora apontado como o menos relevante, tem a cena mais linda entre os três trabalhos, que é da Crista Alfaiate (cujas performances ao longo da trilogia são excelentes) cantando "Perfidia", me emocionou profundamente. Há de se perceber que, no que diz respeito ao filme, esse deve ser mesmo o menos impressionante e nem por isso é ruim. Foi falado que há muita irrelevância no conto dos passarinheiros, que pra mim tem ótimos momentos, mas é fato que isso pode deixar muita gente impaciente. Há cenas memoráveis, como o senhorzinho que acaba caindo na armadilha de um passarinheiro (hilária) e entre outras, a cena do encontro de Sherazade e de um homem na praia com seus filhos. Trata-se de um segmento desolador, não menos tocante, ainda que cometa certos deslizes sim, especialmente na estrutura.

As Mil e uma Noites: Volume III, O Encantado
★★★½

quinta-feira, 22 de junho de 2017

ROMANCE À FRANCESA (2015)


A doçura de filmes como Romance à Francesa, este belo conto de Emmanuel Mouret, remete a um cinema cuja leveza acaba influindo em um astral bastante suave, requintado, e que adocica as histórias de amor e a vida dos personagens, mesmo diante de alguns eventos desastrosos que acabam por surgir, mas que nunca deixam de ser regados a emoção e sentimento. Ainda mais na presença de duas das maiores revelações do cinema francês recente, as talentosas beldades Virginie Efira e Anaïs Demoustier, simplesmente não dá pra resistir um filme com ares tão inspirados, e de uma índole tão romântica e vivaz. 

Mouret parece emular Woody Allen, à seu próprio modo, é claro, com seu estilo autoral de realizar filmes carregados pela leveza e com foco em aventuras e desventuras amorosas de seus personagens. É também uma constante na filmografia do diretor os personagens masculinos meio atrapalhados e que acabam se envergonhando, mesmo que tão infantilmente, frente ao amor, o que acaba por gerar um certo clima de benevolência e amabilidade no espectador, tão inocente e tão honesto. 

As personagens femininas geralmente são mulheres fortes e determinadas que, em distintas relações, acabam dando mais amor do que recebem, e em outras situações acabam recebendo mais do que dão, como é o caso deste filme, em que o personagem de Mouret, um homem divorciado, é fã de uma atriz de teatro (Efira) de quem ele não perde uma apresentação. Os dois se aproximam quando ela decide ir à escola em que ele trabalha procurando um professor para seu sobrinho. Eles acabam marcando um encontro, e repentinamente se apaixonam. 

E, quando tudo parece estar funcionando, Mouret, que ama profundamente a atriz, acaba por ser o grande amor de uma outra mulher, também atriz (Demoustier) mas nem tão reconhecida quanto, que o encontrara repetidas vezes no teatro em várias apresentações, como se fosse uma sina do destino que eles dois se encontrassem. Ele não está interessado nela, por mais amável, gentil e graciosa que ela seja com ele e demonstre sentimentos tão verdadeiros quanto os que ele sente pela outra mulher. 

O desfecho certamente é de cortar o coração, Mouret faz uma história focada dualmente no amor sob diferentes perspectivas, o amor que é correspondido e o amor que não é correspondido, quase como se fossem duas histórias independentes se entrecruzando, gerando essa trama de amor tão contundente, devastadora em seu final tão emocionante, mas linda como um todo.

Mouret, Efira e Demoustier estão excepcionais. Não haveriam melhores atores para este triângulo amoroso e para tais personagens. Emmanuel confirma seu status de Woody Allen do cinema francês recente com mais um conto apaixonante sobre desilusões amorosas e sentimentos que se concretizam, e não se concretizam ao mesmo tempo. 

Romance à Francesa (Caprice)
dir. Emmanuel Mouret
★★★★

sábado, 31 de dezembro de 2016

Crítica: "BOI NEON" (2015) - ★★★★


Estou devendo essa há muito tempo. Devia ter escrito quando vi o filme, há alguns meses. Enfim, minha recordação é bastante positiva. Boi Neon continua vívido na minha memória, suas cores, suas intenções, seu frescor característico e seu jeito requintado. Gabriel Mascaro, diretor que já havia se destacado com o longa de ficção Ventos de Agosto e o documentário Doméstica, consagra-se com um w

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Crítica: "NINGUÉM DESEJA A NOITE" (2015) - ★★★


Isabel Coixet é uma diretora com um estilo cinematográfico em progresso, cujos filmes sempre oferecem algo de interessante para o espectador, seja na abordagem narrativa, na construção didática de personagens, no contexto feminista evidentíssimo ou na qualidade técnica (que é o caso deste seu trabalho), mas que são irregulares, trôpegos, distantes de obras ou coisas do gênero. Vez ou outra, Isabel dá seu recado e consegue nos surpreender com tramas que fogem do estandarte trivial e que até revelam, numa certa medida, cadente importância, mesmo que não sejam grandes trabalhos. Se por um lado Ninguém Deseja a Noite é repleto de falhas, por outro é um dos filmes mais bem produzidos, em termos técnicos, dessa diretora espanhola que a cada filme se supera. 

Quase dois anos após sua estreia controversa no Festival de Berlim, Ninguém Deseja a Noite chega aos cinemas nacionais. É um filme que merece ser conferido na telona, pela dimensão da fotografia abismadora e que capta belíssimos momentos deste longa, de Jean-Claude Larrieu, colaborador frequente de Coixet, pela direção de arte primorosa, pelos figurinos estilosos de Binoche, e principalmente pela ambição e audácia de Coixet ao retratar uma história tão arriscada como a de Josephine Peary, esposa do renomado explorador americano Robert Peary, que decide sair à procura do marido no Ártico sozinha.

Josephine, encarnada excepcionalmente por Juliette Binoche, numa atuação de pleno destaque mas que fica longe de ser uma das melhores da maravilhosa intérprete francesa, segue em seu caminho pela neve, enfrentando as rajadas de vento, o frio agressivo, as turbulências de um cenário gelado e pálido, até que se encontra com uma esquimó (Rinko Kikuchi) com quem fica presa em uma cabana no meio de uma perigosa tempestade de neve. 

Corajosa, resistente, desbravada e teimosa, Peary é mais uma representação da figura feminina e o empoderamento das mulheres que já virou um tema bastante recorrente da filmografia de Coixet, feminista assumida, inclusive de outro trabalho seu bem recente, Learning to Drive, estrelado por Ben Kingsley e Patricia Clarkson. 

Um dos problemas mais incômodos de Ninguém Deseja a Noite é sua duração. E não é a primeira vez, inclusive, que tenho problemas com durações cansativas de filmes da Isabel, por mais que sejam elegantes e íntegros. É nessa duração exigente e fadigosa que também nota-se o prezo de Isabel pela total penetração do espectador em suas tramas difíceis de digerir, e anti-modéstia que empurra o audacioso propósito deste filme e deixa clara, então, a vontade da diretora em querer deixar tudo muito grande, muito rico, seja em sequências cruéis, devastadoras, geladas e que indiretamente trazem a impaciência ao espectador.

O legal é que Isabel está sendo cada vez mais reconhecida por seu trabalho e seus filmes e, quem sabe no futuro a gente não vê uma grande obra-prima vinda dela? Ninguém Deseja a Noite é completamente envolto em uma exuberância técnica e mimos visuais que parecem nunca acabar. Binoche comanda a sessão com talento, astúcia e coragem.

Ninguém Deseja a Noite (Nobody Wants the Night/Nadie Quiere La Noche)
dir. Isabel Coixet - ★★★

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Crítica: "ONDE VAMOS INVADIR AGORA?" (2015) - ★★★


Diante da recente e controversa vitória de Donald Trump frente à presidência dos Estados Unidos, o blogueiro Ailton Monteiro, que escreve para o "Diário de um Cinéfilo" comentou em sua timeline no Facebook: "E o Michael Moore vai encontrar combustível pra fazer mais filmes de maior repercussão". A frase irônica reflete que em um provável futuro Moore, o "polêmico" documentarista político diretor de alguns dos mais impactantes e irreverentes exemplares do gênero, sendo ele considerado por muitos um dos maiores documentaristas americanos, e com razão.

O novo filme de Michael, embora esteja bem longe de ficar entre os melhores já realizados por ele, trata-se de um exemplar maturo e convincente de seu cinema autoral. Em mais uma crítica à sociedade americana e baseado em uma convicção fortemente anti-patriota, Moore faz um tour pela Europa fingindo estar "invadindo" os países para conseguir ideias que possam melhorar os Estados Unidos de nações europeias, ou como o próprio diretor diz, "roubar ideias". 

Os filmes de Michael Moore possuem uma estrutura bastante parecida, comparável, e o diretor nunca renova seu padrão de filmar e contar histórias que criticam o sonho americano e o 'american way of life', como volta a acontecer (e triunfalmente) neste ótimo Onde Vamos Invadir Agora?. E não que isso seja um defeito dos filmes dele. Muito pelo contrário. A fórmula é bastante crível e raramente falha, o que demonstra um certo domínio de Michael sobre o seu material cinematográfico. Consequentemente, o teor crítico de seus filmes resulta em um efeito catastrófico e que disseca minuciosamente os mais sórdidos defeitos da "maior nação do mundo". 

Para o público brasileiro, muitas das coisas que são abordadas e exploradas em Onde Vamos Invadir Agora? trarão uma idealização bastante distópica, digamos, dos EUA atualmente. Nessa viagem a Europa, Michael visita diversos países e recolhe deles qualidades e méritos. O interessante é como Michael fica abismado com alguns dos privilégios desses países que até em um país tão politicamente fodido como o Brasil já é uma realidade invicta, como o "décimo terceiro" (salário extra), licença-maternidade paga e universidades públicas, alguns dos nossos "luxos" que estão restritos aos americanos. 

Se por um lado há a surpresa de quem mora aqui no Brasil ao constatar esse contraste, triplica-se essa surpresa quando nos deparamos com luxos de outros países europeus ainda mais requisitados, como o sistema de educação da Finlândia (o sistema escolar foi restaurado, e hoje a Finlândia é o país nº1 em educação), o sistema carcerário da Noruega, a alimentação escolar na França. Enfim, o diretor pega vários desses itens e os pressiona contra a realidade dos EUA nos dias de hoje.

Por outro lado, há um grave problema em Onde Vamos Invadir Agora?: Moore minimiza os problemas das nações europeias (crise de imigração, xenofobia, desemprego, crise econômica) para criar um padrão do que seria a "nação ideal" visando os principais "acertos" desses países comparados aos problemas políticos e sociais dos EUA. 

Em um certo momento desse documentário, Moore visita Portugual, onde o porte de drogas é legalizado. E lá, surpreendentemente, poucas pessoas consomem drogas. Michael diz que "levará" essa lição adiante aos EUA, onde o tráfico de drogas é um problema muito mais sério do que em Portugal, o número de usuários de drogas é praticamente incomparável. Enfim, comparar EUA e Portugal no quesito problemas com drogas é algo completamente hipócrita, visto as diferenças entre essas duas nações e como seus sistemas lidam com esse ponto. Ou melhor, lidaram e continuam lidando.

Sarcasmo e a boa oratória de Michael Moore para explicar e categorizar as divergências entre as nações driblam os defeitos de Onde Vamos Invadir Agora?. Com bom humor e perspicácia, o diretor traz, mais uma vez, um desafio à moral civil americana e uma crítica repleta de ironia e senso de dualismo sempre instigante e brilhante. Moore é um cara carismático, do povão. Seus documentários socialistas trazem uma visão do que está acontecendo de ruim nos Estados Unidos, para nós aqui de fora que sempre temos na cabeça uma imagem de que os EUA é a terra dos sonhos. Na verdade, não é bem assim. E Michael Moore nunca se cansa de explorar esse emblema em seus filmes, sem medo de repetir sua clássica a infalível fórmula. 

Onde Vamos Invadir Agora? (Where To Invade Next)
dir. Michael Moore - 

sábado, 5 de novembro de 2016

Crítica: "A ACADEMIA DAS MUSAS" (2015) - ★★★★★


Esse eu vi já faz algum tempo. Me tocou profundamente. Só chegou ao Brasil esse ano e quem perdeu no cinema perdeu muita coisa. Provavelmente a experiência de ver um filmão desses na telona deve ser incrivelmente espetacular. Uma aula de filologia com José Luis Guerin. O cara é um gênio. A Academia das Musas é uma obra-prima magistral, inesquecivelmente bonita e sagaz. Um filme que vem para ficar. 

sábado, 22 de outubro de 2016

Crítica: "UM DIA PERFEITO" (2015) - ★★★


Muito mais do que eu jamais poderia imaginar sobre um filme com uma temática tão envolvente e abrangente. Aranoa renova a fórmula de um gênero clicherizado por natureza com pura genialidade, e de uma forma tão honesta que torna maravilhosa a experiência de vê-lo. No filme, Um Dia Perfeito, um grupo de missionários na Iugoslávia na década de 90, quando o país atravessava duros conflitos políticos, tenta retirar um cadáver jogado em um poço que contaminou a água de um vilarejo, mas logo se veem confrontados por outros problemas, como a falta de recursos e a ilegalidade da retirada do corpo. 

Um Dia Perfeito extrai humor e simpatia de uma história cujo tema quase que automaticamente sempre tende a atrair uma atmosfera de seriedade, sem desrespeitar os propósitos da temática abordada e seu caráter anti-cômico, digamos. O elenco é em sua maioria formado por celebridades internacionais que fizeram sucesso em Hollywood recentemente, como o porto-riquenho (ele não é mexicano, pessoal) Benicio de Toro, a francesa Mélanie Thierry (talvez a menos conhecida, ainda que tenha estrelado alguns filmes recentes notórios, como O Teorema Zero) e a ucraniana Olga Kurylenko. A única personalidade americana do filme é Tim Robbins, em uma atuação escancarada e descontraída. 

Aliás, descontração é uma boa definição do estado do elenco de Um Dia Perfeito. Todos os personagens convivem entre si levando na "esportiva" tudo o que acontece ao redor deles, apenas com a exceção da personagem novata de Thierry, desacostumada àquele universo e as táticas de trabalho, o que frequentemente a causa espanto e incômodo, enquanto é visto de forma diferente pelos colegas já experientes, que vez ou outra brincam sarcasticamente com as reações dela em torno das situações que encaram.

O que é justamente o grande acerto do filme às vezes acaba se tornando um complicado defeito. Esse astral anti-diplomático que pinta em Um Dia Perfeito em certas cenas faz da resolução algo bastante confuso, incerto. A neutralidade que essas sequências passam ajudam a evidenciar uma certa falta de segurança em relação à conclusão da trama, enquanto devem ser tidas, ao mesmo tempo, como uma grata surpresa num filme que rompe as expectativas e traz algo realmente novo e interessante de se ver, ainda que cause confusão em determinados momentos. Então, pode-se dizer que o grande mérito de Um Dia Perfeito é que o filme não se leva a sério. E, acreditem, isso é fantástico. 

Um Dia Perfeito (A Perfect Day)
dir. Fernando León de Aranoa - 

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Crítica: "DEMOLIÇÃO" (2015) - ★★


Depois de dois trabalhos tão interessantes e, de certa maneira, bem finalizados, o canadense Jean-Marc Vallée retorna com um filme menor, provavelmente o seu pior até agora. Que filme mais cansativo, confuso e sem sentido, viu? Uma decepção total. O filme não vale a pena nem pelo elenco. Apesar das figuraças Jake Gyllenhaal e Naomi Watts estrelarem o filme, o melhor dentre eles é Chris Cooper, para se dizer o mínimo.

O filme em si, fora isso, não dá quaisquer motivos para ser louvado ou lembrado. É fácil de esquecer. A experiência de vê-lo pode ser resumida em duas palavras: caótico e exótico. Demolição aborda a história de um cara que perdeu a esposa num acidente de carro, mas que nunca a amou de verdade, e por isso age de forma indiferente a esse acontecimento. As pessoas ao seu redor percebem essa indiferença, mas a interpretam como luto. Eventualmente, ele conhece uma mãe solteira (Naomi Watts) e seu filho (Judah Lewis), com quem faz amizade. Enquanto isso, seu sogro (Chris Cooper) passa por uma fase terrível de luto.

Sabe o que eu acho? Demolição teria funcionado perfeitamente como uma comédia negra, sabe? A história de um cara que reage indiferentemente à morte da mulher daria uma boa de uma comédia negra, ou um filme do tipo, até porque essa premissa tem ousadia de sobra, bem como as possibilidades que a seguem. E não que Demolição não tenha seu humor.

Tem duas sequências, só para citar as que eu lembrei, que são extraordinárias ao meu ver (é claro, separadas do resto do filme), que é a cena do médico, e a cena final. O filme traz diversas perspectivas curiosíssimas de se ver, mas que são incapazes de sustentar a mensagem que o mesmo quer nos transmitir – e que, ao final, não fica muito bem esclarecida –.

O filme explora as situações com um olhar distante e abafado, de forma a ser impossível identificar a síntese dos personagens e a dimensão do roteiro. Eu acho que até mesmo Livre, filme anterior de Vallée (e que muita gente detestou, pelo que eu me lembro), foi um filme melhor, digamos. Demolição é um trabalho fraquíssimo, com poucos pontos positivos. 

Demolição (Demolition)
dir. Jean-Marc Vallée - 

domingo, 25 de setembro de 2016

Crítica: "DE PALMA" (2015) - ★★★★


Muito interessante esse documentário sobre o cineasta americano Brian De Palma. Muito interessante mesmo. É raro a gente encontrar um material assim de qualidade sobre um diretor revendo a sua filmografia e comentando sobre a experiência de fazê-las e detalhando o trabalho em si. E, no caso da filmografia do De Palma, serve tanto pra gente se lembrar e celebrar alguns dos maiores sucessos da carreira dele e também para denotar a opinião própria dele quanto a esses filmes. No meu caso, há um ponto extra: como não vi nem a metade de seus filmes, essa "revisão" serviu também de introdução à sua filmografia inicial e alguns filmes não assistidos, como Carrie – A Estranha ou O Pagamento Final.

Em um certo momento do documentário, De Palma diz que como um “aluno” do Hitchcock, foi um dos poucos a conseguir fielmente emular o padrão hitchcockiano e seguir a fórmula dos filmes do mestre do suspense. Há quem diga que isso seja um tanto egocêntrico da parte do De Palma. Mas, pra mim, a questão é justamente o contrário dessa hipótese. É bastante honesto ele dizer isso, visto que o Hitchcock foi o verdadeiro e invicto mestre, e tantos outros tentaram copia-lo ou imita-lo, mas acabaram desrespeitando a filmografia e o legado do Hitch. O mesmo já não pode se dizer do De Palma, que, aluno fiel do mestre, acabou se tornando um também, à sua própria maneira.

O documentário abre com o Brian discutindo a intenção de Hitchcock ao fazer Um Corpo que Cai (confesso que desconhecia tal premissa, e achei curiosíssimo) que era simular o trabalho de um diretor durante um filme. Genial. E essa não é a única vez em que Hitchcock é referenciado. Muitos dos grandes trabalhos do De Palma indicam uma certa influência hitchcockiana, pra não dizer quase todos os suspenses tem uma certa marca hitchcockiana. 

Mas também tem um filme que o De Palma fez, no comecinho da carreira, que ele alega ter sido influenciado pela Nouvelle Vague, que foi Quem Anda Cantando Nossas Mulheres, quando ele e o Robert De Niro, protagonista do filme, ainda eram praticamente desconhecidos. Creio que o Baumbach, um dos idealizadores do documentário, ficou bastante entusiasmado com essa específica parte dele comentando sobre Godard e Truffaut.

Outra coisa bem curiosa é como o De Palma comenta a maioria de seus filmes visando o espírito comercial deles. Aliás, achei bastante esquisito ele comentar sobre Um Tiro na Noite, cujo eu considero seu melhor filme, com um certo ar de insatisfação, visto que o filme foi um fracasso nas bilheterias, porém é o trabalho mais potente e visionário dele.

Engraçado ele comentando sobre os bastidores de Os Intocáveis, outro filmaço, e mencionado aquela famosa sequência da escada (a melhor do filme todo) que é uma referência a uma cena em particular do clássico do cinema mudo O Encouraçado Potemkin, de Eiseinstein. Sean Connery, que interpreta Malone no filme, não gostou da cena em que metralhado, segundo o De Palma. O ator ficou bastante incomodado. Enquanto comenta, o De Palma ri, dizendo que acha irônico ele ter sido o James Bond em tantos filmes, mas se irritar ao ser baleado. E, de fato, o James Bond só foi baleado 2 vezes em toda a saga, que conta com uns 50 filmes, eu creio.

Sissy Spacek, antes de ser a Carrie no famoso filme homônimo, talvez o mais famoso do De Palma, foi assistente de figurino em um filme anterior dele, O Fantasma do Paraíso. Já o filme que De Palma considera seu melhor é O Pagamento Final. Tenho o dvd, mas nunca vi. Confesso que o interesse em conferi-lo cresceu após esse comentário.

É um pouco triste ver como o diretor olha com pesar à filmografia mais recente, que não tem sido muito bem aceita pela crítica em geral. E peculiar o fato de nenhum filme dele ser produção americana autêntica desde Missão: Marte, fracasso crítico e de bilheteria. Até mesmo Dália Negra, que se passa em Los Angeles, teve a maioria das cenas rodadas na Bulgária e na Itália, e foi financiado por uma produtora estrangeira. Embora tenham sido alvejadas pelos críticos, essas obras recentes do De Palma, como Femme Fatale, Dália Negra, Guerra sem Cortes e Passion estão entre os maiores filmes dele. Esses críticos sem alma sempre acabam com tudo!

Parece que ele não está mais filmando Lights Out, também rodado no exterior, que estava previsto para ser lançado ano que vem. Agora parece que o De Palma está focando em outro projeto, The Truth and Other Lies, adaptação de um livro. É esperar pra ver.

Enquanto seu próximo filme não vem, o documentário De Palma é uma pedida obrigatória para fãs do diretor e cinéfilos. Talvez o único ponto negativo de De Palma é a distância e a falta de intimismo. Mesmo assim, é um trabalho fascinante e que deve ser visto. 

De Palma
dir. Noah Baumbach, Jake Paltrow - 

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Crítica: "O PLANO DE MAGGIE" (2015) - ★★★



Amanhã o blog faz dois anos. Como o tempo passa rápido... Parece que foi ontem. Amanhã também começa a primavera – e com essa nova estação vem a expecativa do frio sumir de vez – e o ano vai chegando ao fim. O mês mal começou e já estamos no dia 21. Daqui a pouco vai ser outubro, daí novembro, dezembro, e 2017. O tempo é uma coisa louca.

Enfim, vi o novo filme da diretora independente Rebecca Miller, O Plano de Maggie, que foi tanto adorado quanto odiado pelos críticos, e que já tinha chamado a minha atenção há um tempo. É o primeiro filme dirigido pela Rebecca que eu vejo, embora ela tenha em sua filmografia outros títulos mais famosos e reconhecidos, como A Vida Íntima de Pippa Lee, O Tempo de Cada Um e O Mundo de Jack e Rose. Ela dirigiu todos os seus roteiros, à exceção de um: A Prova, dirigido por John Madden. O mais irônico é que eu conheci ela como a esposa do Daniel Day-Lewis. Só mais tarde foi que eu soube que ela também era diretora e roteirista.

O Plano de Maggie é seu quinto longa-metragem. Pode-se dizer que é facilmente confundível com um filme do Woody Allen, devido à ambientação, fotografia, narrativa com traços quase inconfundíveis e completamente assemelháveis ao estilo autoral do mestre, personagens riquíssimas e com personalidade forte e inconstante atravessando crises amorosas. Não me surpreenderia caso logo abaixo o crédito de direção ou roteiro estivesse o nome do Woody.

Em O Plano de Maggie, a talentosa Greta Gerwig (a nova queridinha do cinema indie americano) interpreta a Maggie do título, uma mulher decidida e simpática na casa dos 30 que deseja ter uma criança, mas que não quer envolvimento em nenhum relacionamento. Ela acaba conhecendo John Harding (Ethan Hawke), um escritor de sucesso que acaba se apaixonando por ela. Não demora muito (literalmente) e ele e Maggie se casam, e ela dá à luz a uma menina. Enquanto isso, Maggie tenta manter uma amizade consistente com a ex-esposa de John, a também escritora Georgette (Julianne Moore).

Um defeito (se é que se pode dizer que é um defeito) do filme é que o mesmo tem um andamento super rápido. Os personagens da história são introduzidos, e aos vinte minutos de filme uma transição agressiva altera os rumos da trama inicial e a premissa entregue é desconstruida e reformulada em um passo extensivamente longo. Não é difícil de acompanhar esse ritmo acelerado e quase irresponsável da narrativa, mas a resolução se dá de forma tão descompromissada e rasa que, enfim, não dá pra simplesmente “não notar” ou “deixar passar” esse pulo. O Plano de Maggie peca em profundidade. Mas, como eu disse, esse tal “defeito” é bastante subjetivo. Eu achei que foi muito bruto, largado, mas tem gente que reclama mesmo que às vezes o filme fica chato com ditos “diálogos desnecessários”, “encheção de lingüiça” ou “repetição/re-enfatização”.

Outra coisa curiosa, mas que não chega a ser necessariamente uma coisa prejudicial, é que o filme começa sem um “início” e termina sem um “fim”, dando a entender que o mesmo é praticamente um “meio”. No entanto, a propósito, no literal o começo e o final do filme ficam claros, percebíveis, indentificáveis, mas fogem do padrão da narrativa que a trama assume, da exigência de um começo promissor e de um final conclusivo. A surpresa é que o filme termina de uma forma bem simples, mas que não pode ser considerado um encerramento propriamente dito, ainda que a gente tenha uma leve impressão do que está por vir, ou ainda da previsibilidade da troca de olhares entre os personagens. Seria uma marca dos filmes da Rebecca? Achei interessante. É meio arriscado e irregular, mas soa exótico. Talvez possa até mesmo ser considerada uma espécie de desafio à narrativa lógica, “certinha”, quem sabe?

O ponto forte do filme é, indiscutivelmente, seu elenco. Greta Gerwig está fabulosa no papel de Maggie. A atriz, cuja presença já por si só costuma me agradar bastante, cada vez mais revela ser uma das intérpretes mais exímias, talentosas e empenhadas dos últimos anos. Ethan Hawke também está numa performance celebrável, como um escritor que está sempre trabalhando, obcecado com seu livro. Julianne Moore, quem muitos sites recentemente estão apontando ser uma das prediletas a Melhor Atriz Coadjuvante no Oscar 2017, está inegavelmente excelente, como é de esperar de uma atuação vindo de uma atriz tão exemplar como ela, mas nem de longe esta fica entre as melhores performances dela, ou muito menos faz-se notável o suficiente para concorrer a um Oscar.

Rebecca Miller é certamente uma diretora promissora e talentosa, mas que ainda tem um longo caminho pela frente. Eu gostei de O Plano de Maggie. É bem resolvido, bem escrito, bem atuado, mas não passa muito disso. De qualquer forma, é engraçado em certos momentos. Uma comédia romântica reverente.

O Plano de Maggie (Maggie's Plan)
dir. Rebecca Miller - 

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Crítica: "CERTO AGORA, ERRADO ANTES" (2015) - ★★★★★


O primeiro filme de Hong Sang-Soo que vi foi A Visitante Francesa, no ano passado. Na época, tinha escolhido o filme por causa da Isabelle Huppert. Estava fazendo um tour pela filmografia da atriz e fiquei bastante interessado com o título. Para a minha surpresa, o filme foi encantador. Instantaneamente, desenvolvi um enorme interesse por Sang-Soo, suas obsessões e seu cinema esquisitão que tanto me fascinara nessa tão especial primeira vez. Há alguns meses, assisti Certo Agora, Errado Antes, o mais novo e elogiado trabalho do coreano. Virei fã.

Dono de um estilo despretensioso e ao mesmo tempo profundo, Hong Sang-Soo (ou o inverso – nunca sei a ordem correta dos nomes dos cineastas orientais) foge dos clichês genéricos do cinema e reinventa a si mesmo e a seu estilo cinematográfico ao brincar sutilmente com a nossa compreensão com filmes que podem ser vistos tanto como novas experiências quanto como desafios à lógica e ao padrão. Não restam dúvidas de que ele é um diretor extremamente dotado em originalidade, um dom que poucos cineastas contemporâneos dominam, e raramente com tanta leveza e astúcia, o que o torna não somente uma exceção, mas também um diretor único dentre os demais. 

Como já tinha acontecido antes em A Visitante Francesa, Sang-Soo trabalha com um filme de “subtramas multiplicadas”. A repetição é o elemento-chave desses dois filmes. Se em A Visitante Francesa tínhamos 3 histórias diferentes com a mesma atriz e personagem homônima, em Certo Agora, Errado Antes, temos duas histórias dividas com os mesmos personagens e desfechos distintos, embora compartilhem algumas semelhanças entre si.

Em ambas as histórias, temos um cineasta que se encontra com uma pintora numa pequena cidadezinha. As duas histórias são contadas de maneiras diferentes, fatos distorcidos, elementos parecidos e diálogos misturados, que sempre resultam em deleite e contentamento por parte do espectador. Sem exagerar ou transparecer óbvio demais, os dois segmentos seguem ritmos proporcionais, embora pintem certas mudanças na narrativa, e nos tons alternados – o que, ocasionalmente, pode confundir o público.

Ainda sim, o traço fílmico de Sang-Soo é constante, presente nas duas divisões, de formas um pouco descoincidentes, mas a tal diferença é tão pouca que chega a ser irreparável. O filme navega nas possibilidades, nos pequenos detalhes que influenciam nossas atitudes no dia-a-dia, e como mesmo aquela mínima mudança, quase invisível, pode fazer toda a diferença. 

O segundo ato do filme é muito mais cômico e bem-humorado do que o primeiro, que, embora tenha uma percepção cômica aguçada, é mais irônico e sarcástico, e às vezes beira tons dramáticos não-assumidos, de forma com que seja bem mais gostoso assistir à segunda versão do que a primeira, embora as duas sejam igualmente ricas.

A dupla de protagonistas, os excelentes Jung Jae-young e Kim Min-hee, estão maravilhosos, impecáveis. A química do casal, essencialmente na cena do jantar e na cena da despedida, é virtuosa, inevitável, a ponto de provocar a simpatia. Sorrisos vão, sorrisos vem, o título de cena mais engraçada (e que talvez proporcione algumas gargalhadas) fica com a sequência do “strip” do personagem do diretor.

Certo Agora, Errado Antes é um filme bastante simples, embora eventualmente adquira uma certa complexidade, mas sempre com um olhar desprovido de pretensões, ainda que minimalista. O filme explora uma ótica totalmente inovadora adentro os relacionamentos confusos e os amores inexplicáveis e trôpegos. É uma comédia leve, que deve ser vista com despretensão, leveza – de maneira a corresponder à despretensão e suavidade com a qual o filme trata sua temática. 

Não há como negar que há um quê de Woody Allen nesse Certo Agora, Errado Antes (até dá pra comparar com um filme do próprio Woody, Melinda e Melinda, que também apresentava duas versões diferentes de uma mesma história), tanto nos lances narrativos quanto no contar da história, com um romance atrapalhado e honesto como pivô da trama, e personagens delicadamente aflorados e espirituosos decorando a berlinda da história. Também foram feitas diversas comparações a Eric Rohmer, Abbas Kiarostami, e por aí vai. Mesmo assim, diante de tantas possíveis influências, resplandecem algumas das características mais particulares de Sang-Soo, que novamente confirmam a singularidade do coreano (o andamento lento, a repetição, as tomadas monótonas, planos regados a simplicidade e naturalidade, e etc.). E a cada filme que entrega, Hong Sang-Soo evidencia a força e a grandeza de seu cinema autoral, provando ser um dos mais importantes e notórios diretores do cinema contemporâneo.

Certo Agora, Errado Antes (Jigeumeun-matgo-geuttaeneun-tteullida)
dir. Hong Sang-soo - 

domingo, 28 de agosto de 2016

Crítica: "DECISÃO DE RISCO" (2015) - ★★★★


Filme de ação com gostinho de suspense, Decisão de Risco é o mais novo acerto do diretor Gavin Hood (o mesmo que dirigiu o espetacular Infância Roubada), traz uma trama interessante e bem-montada que gira em torno de um grupo de profissionais da Inteligência Britânica que estão prestes a efetuar um ataque em uma cidade somali. Com performances incríveis, um roteiro excepcional e uma direção absolutamente marcante, Decisão de Risco é segura e certamente um dos melhores filmes do ano. 

A premissa do filme vai além do previsível ou até mesmo imaginável para um filme sobre intriga diplomática, e por isso deve ser visto como uma grande surpresa dentro do gênero. Cativante, pulsante e feroz. Três adjetivos que definem muito bem o clima muito bem exercitado de Decisão de Risco. A combinação ação com suspense funciona com uma perfeição tão única que chega a ser excêntrica, mágica. Decisão de Risco também acumula muitos pontos pela elaboração de uma atmosfera estratégica, mirabolante, quase hipnotizante, que fisga a atenção de quem vê.

Helen Mirren brilha numa de suas melhores performances dos últimos tempos. Ela mantém durante o filme todo uma seriedade incontida, um status de controle e de autoridade. A pose fria de sua personagem, uma coronel da inteligência, a exige uma constante transparência de rigidez e dureza. Eu sempre considerei a Helen uma atriz bastante séria, uma característica bastante comum entre as personagens que a atriz interpreta, mas em todas elas há algo de diferente, singular, a forma que ela entra no personagem é tão profunda e absurdamente extasiante que fica difícil não admirá-la, contempla-la, mesmo quando suas personagens sejam tão semelhantes, à mercê da mesmice. De uma forma ou de outra, Mirren sempre nos surpreende. É isso que a faz uma completa e definitiva diva da atuação. O talento e a formalidade de Helen estão intensamente expostos nesse que é um desempenho mais que esforçado e minimalista da intérprete britânica, e que, mais uma vez, merece ser ressaltado como um dos mais importantes e dignos dela, ainda que ela não seja a principal.

Alan Rickman, em sua última performance, está louvável. A atuação dele se sobressai pela honestidade. É um resultado bastante previsível (no bom sentido da definição) vindo de um grande ator como ele, que fará muita falta. Barkhad Abdi (indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante em 2014 por Capitão Phillips) rouba a cena como um agente "infiltrado".

Porque não dizer que Decisão de Risco é uma caixinha de surpresas? Ao meu ver é um trabalho estupendo, repleto de momentos memoráveis e, de certa forma, inesperados. Muitas coisas no filme foram surpresa. Gavin Hood, mais uma vez, prova que é um cineasta excepcional. Decisão de Risco é um filme cuja importância não tem tamanho. Enquanto trata-se de um monumento cinematográfico engenhoso e magnificamente bem-feito, é ao mesmo tempo uma visionária crônica multifacetada sobre conflitos políticos, espionagem e militarismo. Enfim, Decisão de Risco é um filme brilhante. Talvez o melhor filme de ação do ano.

Decisão de Risco (Eye in the Sky)
dir. Gavin Hood - 

sábado, 27 de agosto de 2016

Crítica: "THE SEA OF TREES" (2015) - ★★★


Por incrível que pareça, The Sea of Trees não é um filme ruim. Não é uma obra-prima, mas também não é um filme tão desprezível e vil como os críticos estavam dizendo. The Sea of Trees é mediano. Tem seus momentos. A sensação que fica quando o filme acaba é de que poderia ser bem melhor. Mesmo com falhas, dá pra digerir The Sea of Trees. De qualquer forma, não dá pra negar que é um trabalho menor de um grande cineasta.

Um professor americano (Matthew McConaughey) viaja ao Japão com destino à floresta de Aokigahara, conhecido por ser um lugar de preferência a pessoas com tendências suicidas, que geralmente escolhem se matar na floresta, apelidada de "mar de árvores" (o título do filme em inglês, The Sea of Trees) por ser uma região bastante vasta e larga. Lá, ele acaba se encontrando com um homem japonês (Ken Watanabe) bastante machucado que falhou ao tentar se matar e quer sair da floresta. O problema é que os dois agora estão perdidos e não conseguem encontrar a saída.

Daí, a gente passa a compreender melhor o que está acontecendo com Arthur Brennan, vivido por McConaughey, a crise em seu casamento, e o que o levou a Aokigahara. O uso de recursos narrativos como flashback ajudam a criar um suspense em torno do personagem principal, bem como nos fornece uma dimensão bastante fugaz da insegurança do homem quanto às suas escolhas e seus sentimentos. 

O suícido em Aokigahara não passa de uma metáfora, que faz alusão à culpa e ao arrependimento de Arthur em relação aos erros que cometeu em seu casamento, e o quanto ele está "perdido" sem a esposa. Tudo o que ele enxerga é o vazio e a insignificância, o reflexo e a consequência dos atos passados dos quais ele se envergonha, o remorso. O suicídio seria o caminho que ele encontrara para "apressar" seu reencontro com a mulher.

Certamente é um filme irregular, mas não um filme ruim. De jeito algum. É um trabalho muito interessante, aliás, que cresce à medida em que a gente pensa e reflete sobre as suas possibilidades e interpretações. E tem certas cenas excelentes, como a sequência do acidente. A fotografia de Kasper Tuxen (diretor de fotografia de Toda Forma de Amor) é excepcional. 

Não é o que eu esperava de um filme dirigido por Gus Van Sant, mas, enfim, não dá pra reclamar. The Sea of Trees acabou de ser lançado lá nos E.U.A., pela A24 (produtora de Ex-Machina, O Homem Duplicado, O Quarto de Jack), mais de um ano depois de ter estrado em Cannes, onde foi massacrado pelos críticos. Ainda não estreou aqui no Brasil, mas já dá pra baixar em torrent, e em HD. A legenda eu peguei em inglês no Open Subtitles.

The Sea of Trees
dir. Gus Van Sant - 

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Crítica: "MEMÓRIAS SECRETAS" (2015) - ★★★


Depois do insucesso crítico de À Procura, Atom Egoyan retornou às telas com Memórias Secretas, estrelado por um dos atores canadenses mais queridos, Christopher Plummer, na pele de um senhor idoso que foge do asilo onde foi internado para se vingar da morte da esposa, Ruth. Alguns andam dizendo que é o melhor filme de Egoyan em anos. E, não vou negar, é um trabalho muito bem-feito que, apesar de simples, guarda em sua proposta uma séria complexidade. Embora eu seja um completo leigo no que diz respeito à filmografia de Atom Egoyan, admiro enormemente seu Memórias Secretas, mesmo que seja tão defeituoso algumas vezes. 

Creio que é unanimidade entre os que viram que a atuação de Plummer é impecável, solene, inesquecível. Mais uma vez, Christopher nos prova seu talento e sua dedicação, num desempenho comovente e realista, desesperador e trágico. Martin Landau, quem eu não via tão bem assim faz um bom tempo, aparece como um mero coadjuvante, cujo personagem adquire uma certa importância com o final chocante. 

Um filme bastante perspicaz e inteligente sobre vingança, personalidade, consequência, culpa, arrependimento e perspectiva. Memórias Secretas deixa a desejar em certos quesitos, mas é inegavelmente um trabalho primoroso, sensato, exímio, com um significado tão potente e tocante que chega a ser aterrorizante, tanto quanto a facilidade com a qual somos enganados, algo realmente assustador de tão poderoso. 

A sequência final é de uma força tão impactante que é impossível não ficar abalado diante de tamanha dolorosa revelação. Os lados se invertem num piscar de olhos, e o filme expõe com uma lenta frieza seu poderoso jogo de manipulação, para a nossa iminente surpresa e choque. Deste momento, tudo se esclarece, novos horizontes sobre a temática e o que é abordado em tela se revelam. E, é claro, a certeza dos elogios a Christopher Plummer, numa das melhores interpretações de sua carreira, e Atom Egoyan, um diretor que conheço muito pouco por quem, depois desta experiência atordoante, nutro interesse e curiosidade. Vou tentar ver, em breve, À Procura e O Preço da Traição, que são os únicos filmes dele que eu possuo em DVD. 

Memórias Secretas (Remember)
dir. Atom Egoyan - 

domingo, 31 de julho de 2016

Crítica: "MEU REI" (2015) - ★★★★


Hoje é meu último dia de férias. Agora é definitivo. Amanhã é dia de voltar à mesma rotina de sempre, os mesmos horários, as mesmas tarefas... Mas não posso reclamar de nada. Até porque, como sempre foi, tenho uma porrada de filmes pra ver. E quando a gente termina de ver essa porrada de filmes, chega mais outra porrada de filmes, lançamentos, clássicos, recomendações, inéditos que a gente vai descobrindo na internet, e por aí vai. O número cresce a cada dia. Bem, vamos lá. Estou aqui para falar de Meu Rei, o mais novo filme da cineasta francesa Maïwenn (diretora de Políssia), que estreou ano passado em Cannes e lá levou o prêmio de Melhor Atriz, entregue a Emmanuelle Bercot, a protagonista do longa, que por sinal está impecável. 

Em Meu Rei, Bercot interpreta uma advogada chamada Tony, que se apaixona por Georgio, um charmoso e engraçado que logo se revela um completo cafajeste. O filme se divide em dois planos: o acidente de esqui sofrido por Tony e sua estadia num spa fisioterapêutico, e as lembranças de sua relação tempestuosa cheia de altos e baixos com Georgio. A forma com a qual o filme trata desse relacionamento, explorando-o minuciosamente e expondo as fraquezas e os desafios do casal, focando no ponto de vista da personagem Tony, abalada e sufocada pelos problemas conjugais e pela instabilidade da relação, é potente e interessantíssima.

As performances de Emmanuelle Bercot e Vincent Cassel (ambos estão excelentes, em especial a Bercot) intensificam a consistência do retrato que o filme se dispõe a mostrar do desgaste da relação de seus personagens com o passar do tempo, isso levando em conta que os dois estão primorosos. Não é exagero dizer que são dois dos atores mais competentes e talentosos do cinema francês na atualidade. Aliás, o Vincent Cassel, reconhecido internacionalmente, muita gente já sabe que é um ator fenomenal. A surpresa foi com a Emmanuelle Bercot, atriz pouco conhecida e que também é uma diretora excepcional (ela é quem dirigiu o magistral De Cabeça Erguida, que abriu o Festival de Cannes ano passado). A interpretação dela é, sem sombra de dúvidas, a melhor coisa de Meu Rei. Ela está absolutamente fantástica, uma das melhores atuações dos últimos anos. 

Emmanuelle transmite com perfeição ao espectador os anseios e as angústias de Tony, que passa por maus bocados nas mãos de Georgio, seu amor incondicional. Enquanto ela está sendo sufocada, pressionada, destruída emocionalmente e dolorosamente estraçalhada psicologicamente pelo seu relacionamento com o homem, ela também se sente confusa, perdida, descontrolada, porque ainda sente amor por aquele cara imprestável e que só a maltrata amorosamente. São sentimentos profundos, que ela não consegue esconder e que vai aos poucos a consumindo e desolando. 

O amor é uma coisa extremamente frágil, difícil de ser compreendida, capaz de nos botar nas situações mais inesperadas, de dor, de loucura, de prazer, de satisfação, de perdição. É algo incontrolável, insuperável. No mesmo nível que nos torna mais alegres e contentes, é capaz de nos derrubar e aniquilar. E o filme de Maïwenn exibe isso com uma perspicácia notável e habilidade. O amor é cego, bipolar, cruel, irresistível, um cafajeste. E fazer o quê quando a gente é surpreendido por esse sentimento tão indescritível e fatal? O amor prega peças, é capaz de fazer muitas coisas com o coração e a cabeça da gente.

Os momentos mais engraçados do filme são protagonizados pelo Vincent Cassel, que é ótimo com humor. Na companhia dele, a personagem da Bercot não para de rir por um minuto. E isso ajuda a gente a compreender o lado da Tony, o amor dela pelo cara, já que a gente se simpatiza com o homem e suas atitudes bobas e carinhosas de amor que tanto atraem a Tony. Ela carrega a relação nas costas, passa por poucas e boas, até que a certo ponto não consegue suportar mais os abusos do marido e decide largar tudo, mas depois se redime e retorna aos braços dele. Ele é o único que a faz feliz. E que também a magoa e entristece.

Em seu quarto longa-metragem como diretora, Maïwenn, também atriz, é caprichosa e talentosa, deixa a sua marca e exibe seu talento. Dirigido por ela, é o primeiro filme que vejo, se bem que ela também é bastante conhecida por Políssia, que também conta com a Bercot, e que ganhou o prestigiado Prêmio do Júri em Cannes em 2011. Eu lembro que vi o DVD desse filme faz uns dois anos no mercado e quase levei, mas bobeei e decidi não comprar. Enfim, Meu Rei é um dos melhores filmes do ano. É bem-feito, esmerado, profundo e maravilhosamente brilhante, um filme certamente bastante difícil de se esquecer. Destaque para o desempenho versátil de Emmanuelle Bercot e a direção firme e original de Maïwenn.

Meu Rei (Mon roi)
dir. Maïwenn - 

sábado, 23 de julho de 2016

Crítica: "É O AMOR" (2015) - ★★★★


Minhas férias esse ano passaram voando. Só tenho a semana que vem para aproveitar e descansar e depois voltarei à ativa. Não sei se conseguirei assistir tudo o que eu estava planejando ver em uma semana, mas, enfim, o bom é que ainda tenho um tempinho para relaxar antes de retornar à rotina. Sinto que não fiz absolutamente nada de novo nessas férias. Tive um tempo pra descansar e ver alguns filmes que queria, mas eu sinto que passou muito rápido. Não queria que fosse desse jeito, tão passageiro e fugaz. Mas, como sempre, a vida continua, e lamentar o tempo perdido não adianta em nada. Bem, foi ontem à noite que me deparei com esse trabalho peculiar, embora fascinante, do pouco conhecido cineasta francês Paul Vecchiali. Aliás, É O Amor é o 1º filme de Paul que vejo. Confesso que achei um filme interessantíssimo e com uma trama fértil e deliciosamente sensacional. 

O filme trata de sentimentos, de personagens com problemas amorosos bem como o medo, a insatisfação, o desejo e a peculiaridade que habita em cada um deles. É um filme intrigante, de percepção aguçada, olhar próprio e distinto. O cinema de Paul Vecchiali é sui generis, inédito, e ao mesmo tempo estratégico e complexo. Uma coisa é certa: Vecchiali merece atenção e respeito. É O Amor é repleto de cenas absurdamente marcantes e originais. O elenco é talentosíssimo, cada performance digna de nota. É O Amor é um filme basicamente essencial à sua maneira. Esquecê-lo ou simplesmente ignorá-lo seria quase um crime. 

O filme começa com uma sequência aparentemente trivial, um diálogo entre um homem e sua esposa que estão em crise. A discussão que os dois mantém logo vai se intensificando mas não de maneira agressiva ou espalhafatosa, e sim num diálogo de ritmo constante, invariável. Quase não se nota alteração na voz dos atores, mesmo quando a mulher diz ao marido que desconfia que ele a esteja traindo, como se ambos já tivessem passado por aquele momento, repetidamente e várias vezes. Ela diz que começará a trai-lo com outro homem, e sua reação é imutável. Um diálogo bastante esquisito e inerente, pra ser franco.

Comédia romântica? Comédia dramática? É difícil encaixar É O Amor em um gênero. O que por si só já explica o motivo deste ser um filme tão exótico, inusual, único. Por mais incrível que pareça, é um filme bastante cativante e por vezes engraçado. Tem até um segmento musical, vejam só, que acaba sendo uma das melhores cenas do filme (a mãe boêmia de Odile relembrando os velhos tempos como cantora de cabaré e suas aventuras amorosas). 

O título do filme já diz tudo. O amor nos consome, nos alegra e nos entristece, nos machuca e nos salva, brinca com o nosso coração, mexe com a nossa cabeça, bagunça os sentimentos e a nossa vida. É o amor. O amor faz tudo isso com a gente e muito mais. É O Amor explora esse lado selvagem e incontrolável do amor, de bagunçar com a nossa vida e abalar as nossas certezas. Não chega a ser romântico. É sobre amor, afeto, sentimento, o quem nem sempre chega a ser romântico. 

Uma experiência única é assistir a É O Amor. Um filme diferente, notório, peculiar, e que transmite um estranho misto de curiosidade e surpresa em quem vê. Inesperado, digamos, mas agradável e fantástico. Um exemplar autêntico de cinema de qualidade. Paul Vecchiali também dirigiu Noites Brancas no Píer, que chegou aos cinemas ano passado no Brasil. Ainda não vi, mas pelo que disseram na época do lançamento parece ser um filmaço.

É O Amor (C'est l'amour)
dir. Paul Vecchiali - 

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Crítica: "VISITA OU MEMÓRIAS E CONFISSÕES" (2015) - ★★★★★


"É um filme meu sobre mim próprio. Talvez não se devia fazer um filme assim mas, enfim, está feito." - Manoel de Oliveira sobre Visita ou Memórias e Confissões

Filmado em 1982 (quando Manoel tinha 74 anos) e lançado ano passado, pouco tempo após a morte do diretor em abril, Visita ou Memórias e Confissões, o filme-testamento do mestre do cinema português Manoel de Oliveira é, primeiro de tudo, um presente cinematográfico inestimável. A proposta é mirabolante. sensível, cativante. Sua grandeza é maravilhosa. Seu significado vem acompanhado de uma riqueza absolutamente tenra. Sua beleza é transcendental. Manoel de Oliveira foi um gênio, um "homem de cinema", como ele mesmo se descreve em Visita ou Memórias e Confissões, um de seus trabalhos mais carinhosos e versáteis. 

Com pouco mais de 60 minutos de duração, Visita ou Memórias e Confissões é o registro pessoal de Manoel sobre a sua casa e sua família, seu casamento dentre outras mais experiências que teve durante a sua vida, como sua prisão durante o regime fascista em Portugal na década de 70. "É um filme de Manoel de Oliveira sobre Manoel de Oliveira", enfim. Um casal (vozes de Diogo Dória e Teresa Madruga) encontra uma casa aparentemente sem ninguém, casa essa a de Manoel de Oliveira, e passam a caminhar pelos cômodos e examinar o espaço ao redor. Algum tempo depois, surge Manoel de Oliveira, e nos explica que a sua casa foi vendida, para que ele pudesse pagar algumas dívidas pendentes, e nos concede o privilégio de explorar um pouquinho de seu acervo fílmico particular, onde vemos rápidas filmagens antigas e algumas fotos. 

Nos resta o prazer em assistir a um filme tão comovente e particular como este. Manoel de Oliveira e suas perspectivas e filosofias de vida intensificam a emoção e o deleite de quem vê. É raro encontrar um material cinematográfico à altura de Visita ou Memórias e Confissões, tão tocante e profundo que chega a ser um fenômeno. 

O que dizer da sequência em que o diretor nos transporta para um set de filmagens? Ou então ao depoimento de sua esposa, Maria Isabel? Visita ou Memórias e Confissões é cheio de momentos triunfais e memoráveis, e isso faz dele um autêntico monumento cinematográfico e um filme essencial para quem aprecia o diretor. 

Visita ou Memórias e Confissões
dir. Manoel de Oliveira - 

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Crítica: "À BEIRA MAR" (2015) - ★★


Vão por mim: a única coisa que faz o novo filme de Angelina Jolie digno de ser visto é, sem dúvida, a fotografia charmosa e deslumbrante de Christian Berger. À exceção disso, é praticamente impossível fazer elogios a À Beira Mar. E pensar que muita gente, inclusive eu mesmo, mal podia segurar a ansiedade pelo novo projeto da atriz, que muitos especulavam ser a "grande obra" dela. Alguns atores-diretores (vá lá, Warren Beatty, Woody Allen, Mel Gibson, George Clooney, entre outros nomes) foram bem-sucedidos. As coisas saíram errado para Angelina Jolie. À Beira Mar, seu 3º longa na direção, é um filme com uma premissa interessante e que tinha tudo para ser um grande filme. É um desastre, infelizmente.

Aliás, um filme no mínimo bom é o que a Jolie nos devia depois do fiasco que foi Invencível, seu detestável longa anterior que foi tão superestimado a ponto de ser indicado a 3 Oscars ano passado (o que os votantes tinham na cabeça, hein?). Não cheguei a ver o primeiro, Na Terra do Amor e Ódio, indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro em 2012. Soube que ela já está preparando um novo filme que deverá ser lançado pela Netflix ainda neste ano (First They Killed My Father: A Daughter of Cambodia Remembers). Rithy Panh produziu o filme, que está em fase de pós-produção. Será que finalmente teremos algo bom com a Angelina Jolie dirigindo?

Não vou negar: no começo, até que estava gostando um pouco de À Beira Mar, afinal, a gente nunca pode adivinhar se um filme é realmente ruim antes de vê-lo inteiro. Passou um tempo, e a ficha caiu. O filme começou a azedar, e eu comecei a ficar enjoado. A linda fotografia de Berger, que comandou a fotografia magistral de A Fita Branca, começa a perder a intensidade. Rapidamente, o filme perde a graça, e o contracenamento do casal Jolie e Pitt começa a ficar absurdamente chato. Não me levem a mal, as performances não estão ruins, mas o problema é que está fora do ritmo, fora de sintonia.

Não demora muito e o meu único desejo era de que o filme acabasse logo ali, mesmo faltando mais de uma hora para seu término. Jolie assume uma direção fraquíssima, uma performance desequilibrada, a ponto de tornarem seu filme um desperdício de tempo. Volta e meia me questionava o porque dela ter feito aquele filme. "Será que ela está em crise com o Brad?", "O que será que ela quer metaforizar?", "Será que ela só queria gastar dinheiro?", "O que diabos ela quer passar?". Eu terminei o filme sem descobrir esse mistério. Porque a Angelina fez esse filme enjoado e sem pé nem cabeça?

De qualquer maneira, quaisquer foram os motivos para que Jolie se dedicasse a À Beira Mar, o resultado é desastroso. Aos primeiros minutos, não há quem negue que há um pouco de charme e sofisticação, mas o encanto perde-se com o decorrer dos tediosos 120 minutos de filme. Como eu disse no começo do post, À Beira Mar promete agradar a quem procura uma fotografia esbanjando beleza a cada frame, mas no fundo é um filme vazio e parado.

À Beira Mar (By the Sea)
dir. Angelina Jolie Pitt - 

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Crítica: "MAIS FORTE QUE BOMBAS" (2015) - ★★★★


Ainda que seja muito cedo para dizer (levando em conta os filmes que eu ainda não vi que estrearam no circuito e os que ainda vão estrear), creio que Mais Forte que Bombas já é um dos melhores filmes de 2016. E o que não falta é motivo para ele estar entre os primeiros da lista. Dirigido pelo norueguês Joachim Trier (diretor de Oslo, 31 de Agosto), o filme traz em seu elenco Isabelle Huppert, Jesse Eisenberg, Gabriel Byrne, Amy Ryan e a revelação juvenil da temporada, Devin Druid. Trata-se de um trabalho visionário, distinto e sobretudo poderoso, pela força de sua trama avassaladora e pelo elenco soberbo. Distante do melodrama e do sentimentalismo barato, Mais Forte que Bombas cativa justamente pelas emoções que transmite ao espectador, com criatividade, gosto e intensidade. É um drama nada fácil, único pela maneira que trata a história, com um olhar simples e tenro, longe de um um possível sentimentalismo clichê, apelativo, forçado. 

O filme explora o impacto da morte de uma renomada fotógrafa, Isabelle Reed (Isabelle Huppert), na vida de seus familiares: o marido (Gabriel Byrne), o filho mais novo (Devin Druid) e o mais velho (Jesse Eisenberg), e como cada um deles lidam com a perda e o luto. focalizando na relação irregular entre Gene, o pai, e Conrad, o filho adolescente, que está passando por uma fase turbulenta, que fica ainda mais complicada com o falecimento de Isabelle.

Não diria que é um filme que faz chorar ou coisas do tipo, mas é definitivamente muito emocionante, não num estilo de emoção comum, pitoresco, mas sim uma emoção própria, aquela da alma, de tocar bem fundo na gente, de nos deixar extasiados. É uma emoção bastante interessante, que interage com a nossa perspectiva em torno do filme. O que realmente importa está na forma como o filme enxerga e interpreta as coisas, e como ele consegue captar e transmitir suas emoções através de uma dinâmica bastante incomum, que chega a ser até rara. 

Um clima de tensão perdura no ar, a destreza da tragédia reforça o medo da consequência, um sentimento inesgotável de remorso pelos fracassos do passado como tônica recorrente. Mais Forte que Bombas é um drama contido sem medo de explorar a angústia e a dúvida por trás dos personagens que eventualmente revelam-se enigmáticos e curiosíssimos, cujos atos se explicam em volta de outros e cujos pensamentos se ligam aos artifícios dramáticos que costuram a trama. 

Em seu 3º longa-metragem, Joachim Trier esbanja maturidade e excelência cinematográfica tanto dirigindo quanto escrevendo este furiosamente belo monumento dramático. A construção dos personagens é minimalista e bem equilibrada. O interessante é que a proposta que ele sustenta mostra-se mais poderosa que a própria trama, certas vezes. É, no mínimo, admirável que um filme funcione tão bem assim sob diferentes espectros e possibilidades. Isso pra não esquecer do elenco, marcado pelas atuações exímias de Gabriel Byrne e Devid Druid, que fazem pai e filho, e, por acaso, são os melhores do elenco. Achei que a maravilhosa Isabelle Huppert apareceria mais, o que me desapontou um pouco, já que sou um grande fã da intérprete francesa, e confesso que vê-la tão rapidamente em curtos fragmentos e flashbacks ao longo do filme me frustrou. No entanto, a participação dela é notável e eu não consigo ver outra pessoa no papel em que ela está.

Bem, não faltam elogios a serem dirigidos a Mais Forte que Bombas, que é seguramente um filme brilhante, fenomenal, único, dotado de uma sensibilidade exótica. É quase inacreditável que tanta gente não tenha gostado desse que eu já considero um filme quase indispensável pra quem é cinéfilo. Pra fechar, não pensam que eu esqueci do visual deslumbrante que o filme carrega, um dos elementos que mais me emocionou e encantou em relação a este filme (a fotografia é da autoria de Jakob Ihre, o mesmo de Oslo, 31 de Agosto, O Fim da Turnê e Começar de Novo -- o 1º filme de Joachim Trier). 

Agora só faltam Dheepan, O Valor de um Homem, Nossa Irmã Mais NovaO Conto dos Contos (já lançados nos cinemas nacionais), Marguerite & Julien, Chronic, The Sea of Trees, Mountains May Depart e Meu Rei pra fechar a lista dos filmes que estrearam em competição em Cannes ano passado. 

Mais Forte que Bombas (Louder than Bombs)
dir. Joachim Trier -