sábado, 31 de janeiro de 2015

FESTIVAL DE BERLIM 2015 - SELEÇÃO OFICIAL


A 65ª edição do Festival de Berlim acontecerá do dia 5 ao dia 15 de fevereiro deste ano, e já foi anunciada a lista dos filmes selecionados e do júri. O Festival deste ano será presidido pelo cineasta americano Darren Aronofsky, diretor de Cisne Negro e Réquiem para um Sonho.

Três filmes brasileiros foram selecionados para o Festival de Berlim este ano, entre eles Que Horas Ela Volta?, Ausência e Sangue Azul. Entre os nomes famosos que estarão no Festival, estrelam Terrence Malick, Kenneth Branagh, Wim Wenders, Werner Herzog, Isabel Coixet, Jafar Panahi, Bill Condon, Ava DuVernay e Joshua Oppenheimer. 

JÚRI DO FESTIVAL

Darren Aronofsky (cineasta americano, Cisne Negro) - presidente
Daniel Brühl (ator alemão, Bastardos Inglórios)
Bong Joon-ho (cineasta sul-coreano, Snowpiercer)
Martha De Laurentiis (produtora americana, Hannibal)
Claudia Llosa (diretora peruana, A Teta Assustada)
Audrey Tautou (atriz francesa, O Fabuloso Destino de Amèlie Poulain)
Matthew Weiner (ator e diretor americano, Are You Here e Mad Men - TV)

FILMES EM COMPETIÇÃO

- 45 Years, dir. Andrew Haigh
- Aferim!, dir. Radu Jude
- As We Were Dreaming, dir. Andreas Dresden
- Cha và con và, dir. Dang Di Phan
- Cialo, dir. Malgorzata Szumowska
- Chasuke's Journey, dir. Sabu
- Journal d'une femme de chambre, dir. Benoît Jacquot
- Eisenstein in Guanajuato, dir. Peter Greenaway
- Gone with the Bullets, dir. Jiang Wen 
- Ixcanul Volcano, dir. Jayro Bustamante
- Knight of Cups, dir. Terrence Malick
- Nobody Wants the Night, dir. Isabel Coixet
- Queen of the Desert, dir. Werner Herzog
- Vergine Giurata, dir. Laura Bispuri
- Taxi, dir. Jafar Panahi
- El Club, dir. Pablo Larraín
- The Pearl Button, dir. Patricio Guzmán
- Under Eletric Clouds, dir. Aleksei Alekseivich German
- Victoria, dir. Sebastian Schipper

FILMES FORA DE COMPETIÇÃO

- 13 Minutes, dir. Oliver Hirschbiegel
- Cinderella. dir. Kenneth Branagh
- Every Thing Will Be Fine, dir. Wim Wenders
- Mr. Holmes, dir. Bill Condon

PANORAMA

- 54, dir. Mark Christopher
- 600 Miles, dir. Gabriel Ripstein
- Ausência, dir. Chico Teixeira
- Angelica, dir. Mitchell Lichtenstein
- Bizarre, dir. Étienne Faure
- Sangue Azul, dir. Lírio Ferreira
- The Blue Hour, dir. Anucha Boonyawatana
- Mariposa, dir. Marco Berger
- Chorus, dir. François Delisle
- Dora or the Sexual Neuroses of Our Parents, dir. Stina Werenfels
- Dyke Hard, dir. Bitte Andersson
- The Fire, dir. Juan Schnitman
- How To Win at Checkers (Every Time), dir. Josh Kim
- I Am Michael, dir. Michael Kelly
- The Last Summer of the Rich, dir. Peter Kern
- Love, Theft and Other Entanglements, dir. Muayad Alayan
- A Minor Leap Down, dir. Hamed Rajabi
- Murder in Pacot, dir. Raoul Peck
- Nasty Baby, dir. Sebastián Silva
- Necktie Youth, dir. Sibs Shongwe-La Mer
- Ned Rifle, dir. Hal Hartley
- Ode to my Father, dir. Yoon Je-kyoon
- Out of my Hand, dir. Takeshi Fukunaga
- Out of Nature, dir. Ole Giaever, Marte Vold
- Paradise in Service, dir. Doze Niu
- Petting Zoo, dir. Micah Magee
- Pioneer Heroes, dir. Natalia Kudryashova
- The Sea is Behind, dir. Hicham Lasri
- Que Horas Ela Volta?, dir. Anna Muylaert
- The Summer of Sangailé, dir. Alanté Kavaïté
- Thanatos, Drunk, dir. Chang Tso-Chi
- Tough Love, dir. Rosa Van Praunheim
- Why Me?, dir. Tudor Giurgiu

BERLINALE SPECIAL GALAS


- Cinquenta Tons de Cinza, dir. Sam Taylor-Johnson
- 1992, dir. Giuseppe Gagliardi
- Better Call Saul, dir. Colin Bucksey, Adam Bernstein, Vince Gilligan
- Blue Eyes, dir. Henrik Georgsson, Fredrik Edfeldt, Emiliano Goessens
- Blochin, dir. Matthias Glasner
- Bloodline, dir. Johan Renck
- Breathe Umphefumlo, dir. Mark Dornford-May
- False Flag, dir. Oded Ruskin
- Deutschland 83, dir. Edward Berger, Samira Radsi
- Follow the Money, dir. Per Fly
- Love and Mercy, dir. Bill Pohlad
- Selma, dir. Ava DuVernay
- Woman in Gold, dir. Simon Curtis
- Life, dir. Anton Corbjin
- Virgin Mountain, dir. Dagur Kári
- La Bohème, dir. Mark Dornford-May
- The Misplaced World, dir. Margarethe Von Trotta
- The Seventh Fire, dir. Jack Pettibone Riccobono
- The Memory of Justice, dir. Marcel Ophüls
- Many Wars Ago/Uomini Contro, dir. Francesco Rosi
- Greenery Will Bloom Again, dir. Ermano Olmi
- Are You Here, dir. Matthew Weiner
- The Look of Silence, dir. Joshua Oppenheimer

BERLINALE CLASSICS (Clássicos da Berlinale)

- The Cat Has Nine Lives, dir. Ula Stöckl
- 007 - Goldfinger, dir. Guy Hamilton
- Born in '45, dir. Jürgen Böttcher
- In Cold Blood, dir. Richard Brooks
- Variety, dir. Ewald André Dupont

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Crítica: "GRANDES OLHOS" (2014) - ★★★★


O mais agradável e surpreendente de Grandes Olhos é que esta se trata de uma (inimaginável) história exclusivamente real, por mais bizarra que seja. É fato de que a nova obra de Burton não é totalmente fiel à história de Walter e Margareth, já que o roteiro assinado por Scott Alexander e Larry Karaszewski também mantém alguns elementos fictícios, mas isso não é problema num filme que por si só já é bom demais. Grandes Olhos também trata-se de um marco na carreira de Burton, que pela segunda vez na história de sua carreira, filma uma cinebiografia, que por sinal, é excelente como a primeira: Ed Wood. Esta é mais uma valiosa e contundente prova da imensa versatilidade de Tim Burton como diretor. É claro, o que eu quero concluir aqui é que mesmo longe de casa, Tim Burton ainda é capaz de montar filmes gloriosos mantendo as clássicas características de seus longas anteriores que o consagraram tanto neste universo cinematográfico, que ainda na mais poderosa transformação, guarda um lugar bem especial para Burton. 

Mas, como já foi dito, se você espera uma biografia autêntica de Margareth Keane e que envolva todo o seu processo de arte e tudo mais o que for imaginado acerca disto, é melhor perder as esperanças. O único objetivo aqui é contar o conflituoso caso de Margareth e Walter Keane diante da falsificação das obras dela, cuja autoria original ficou desconhecida ao público por mais de dez anos. Pois é. A história contada aqui é bem conflituosa e peculiar. A mulher faz grandes obras de pintura, o marido as vende, e o público o aclama. É nesse ciclo onde se situa a base do filme. Há cenas em que o público poderá ser automaticamente levado para Edward Mãos-de-Tesoura, por conta do cenário bem colorido e charmoso. Em outras, muita gente vai voltar atrás em Peixe Grande, mas o inevitável deste filme é a presença detalhista de Tim, pois todas as características aqui apresentadas não são nada desconhecida á seus espectadores. Ele é a estrela deste filme. Não consigo ver Grandes Olhos na visão de outro cineasta. Grandes Olhos é puro Burton! Meus olhos instantaneamente se apaixonaram por Amy Adams nesta película. Numa versátil atuação, é totalmente incompreensível a Academia ter deixado Amy Adams de fora da corrida do Oscar. Confesso que ao alarde criado pela confusão pré-Oscar, até desacreditei no talento de Amy neste filme, mas como já era previsto, eu estava erradíssimo ao usar tal afirmação sobre ela, que neste filme, ganhou mais um fã. Pelo menos, eu acredito sim que Amy se saiu melhor em Grandes Olhos do que em Trapaça. Mas enfim, mesmo por não ter recebido todo o reconhecimento que lhe cabia, ou até mesmo uma indicação ao Oscar, isso não significa que Adams não deu um show ao interpretar Margareth Keane. Aliás, todo mundo. Os dois grandes roteiristas, Larry e Scott. A trilha sonora de Danny Elfman (em mais uma parceria fantástica com Tim). O figurino de Coleen Atwood. Enfim, vocês sabem, seus ajudantes. Até mesmo Christoph Waltz foi ignorado, e olha que por não ter criado expectativas anteriores quanto à sua performance, a atração principal foi ele. Mas, independente de todo o ocorrido, eu gostei muito de Grandes Olhos, assim como (eu acredito) que muita gente poderá apreciar um pouco do novo trabalho do diretor americano. Esta é a minha opinião final: por mais rara que sejam suas falhas, não é em Grandes Olhos que ela será encontrada. Burton conclui mais um trabalho digno e majestoso, e por mais que não seja seu melhor filme, é sofisticado e brilhante.

Grandes Olhos (Big Eyes)
dir. Tim Burton - ★★★★

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Crítica: "LEVIATÃ" (2014) - ★★★★


Mesmo que inexistente, o único defeito de Leviatã provavelmente seria sua lentidão. Mas como esta história, que progride suntuosamente ao ser contada por Zvyagintsev, consegue ser bem maior do que os próprios objetivos impostos pela suposta lentidão que embaraçou meus sentidos, é claro, e que igualmente desfrui de alguns elementos bem montados, este pequeno "problema" foi ficando invisível ao passar do longo tempo da exibição do longa. 

Leviatã é bem simplista. Deixa tudo bem resumido e descomplicado para a fácil compreensão do público, algo que dificilmente vem ser interrompido, mas que com uma magnitude, torna-se eficiente para a história. Sinceramente, há momentos no filme que me deixaram confuso, mas foi bem passageiro. Em algumas partes, o filme é bem infiel á sua intenção, mas garanto que isso possivelmente não causará nenhum transtorno. De fato, o importante aqui não é nem mesmo a compreensão, pois se fosse, o diretor com certeza usaria mais técnicas para aperfeiçoar a película. O importante aqui é a analise delicada dos conflitos morais que surgem com uma força impiedosa, e que também lideram nossa atenção. É recomendável também não criar muitas falsas expectativas quanto à história, pois ela intencionalmente engana, e também não aguardar sentimentalismo. Só para destruir esse clima de previsões errôneas sobre o filme: seu final não é lá feliz.  Mas é bem particular do longa: a transformação. Sem esse "jogo", acredito que Leviatã não faria nenhum sentido. Ou até mesmo sem a desconstrutora tragédia da qual os personagens participam.

Andrey Zvyagintsev revela um dos melhores filmes do cinema russo atual, que recentemente, atravessou uma fase bem complicada. Zvyagintsev também revela seus truques para a simplicidade desta obra: o abuso de diálogos no roteiro, de sua co-autoria; a pouca movimentação da câmera nas cenas; paradoxos nas tramas, algo que embora pareça clichê, aqui soa positivamente inovativo. É claro, tudo isso com a ajuda (também destacando) da fotografia maravilhosa. Leviatã não é tão imensamente colorido, mas há uma combinação perfeita das cores, algo que realça mais sua estrutura dramática intensa. É algo tão natural, que acaba por conquistar nossos olhos, que majestosamente dá uma beleza ao filme.

Leviatã tem um elenco pequeno, mas talentoso. Algo que me atraiu profundamente, principalmente por serem atores desconhecidos das telonas. Bem, mesmo que esteja elogiando potencialmente Leviatã, isso não precisamente signifique que compartilhei sua vitória (apesar de merecida) no Globo de Ouro em Melhor Filme Estrangeiro contra Ida (meu favorito). Falando da corrida do Oscar, Leviatã pode ser considerado um vencedor, mas ainda que tardia, a vitória de Ida continua sendo minha previsão, por mais que arriscada. Mas é um trabalho glorioso, e que, vencendo ou não, é merecedor. Andrey mostra seu controle sob a película, que para nós, parece tão incerta, mas que ao seu evoluir, se concretiza de uma forma inquestionável. Inevitavelmente inesquecível, Leviatã é uma obra-prima de primeira, e certamente recomendável aos apreciadores de um cinema mais refinado.

Leviatã foi indicado ao Oscar em Melhor Filme Estrangeiro (Rússia), e como dito, venceu o Globo de Ouro na mesma categoria, e concorre ao BAFTA.

Leviatã (Leviathan)
dir. Andrey Zvyagintsev - ★★★★

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Crítica: "A HORA MAIS ESCURA" (2012) - ★★★★


Em duas horas e meia, A Hora Mais Escura lidera uma capacidade comovente de conduzir-nos ao extremo. Repleto de uma significativa simbolismo que o torna mais eficiente entre as produções do cinema americano atual. A Hora Mais Escura é um filme belíssimo. Nunca um filme mostrou tanto impacto ao abordar de forma tão avassaladora o pós 11 de setembro, um dos episódios mais fatídicos da nossa história. Acho que nesse quesito, A Hora Mais Escura perde apenas para United 93, de Paul Greengrass. 

É necessários lembrar-los que este filme é cheio de pontos fictícios, ou seja, sua história, embora narrada em ordem cronológica, não é totalmente fiel aos acontecimentos que sucederam a Guerra ao Terror. Esta é a segunda vez em que Bigelow impõe a moralidade do terrorismo e do patriotismo americano em uma película. Muitos a conhecem por Guerra ao Terror, sua magnum opus. É óbvio, A Hora Mais Escura não é como Guerra ao Terror, todavia que seja um filme com uma história muito semelhante ao drama vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2010. 

A narrativa tem como foco uma agente americana que encontra-se no Paquistão realizando investigações acerca de Osama Bin Laden e o Al-Qaeda, enquanto ao mesmo tempo, também sente que está envolvida sentimentalmente com essa operação, que tanto a afeta. Mas em sua inteligente visão, as consequências são apenas são o reflexo da intensidade de seu esforço. Aqui, a história analisa de forma mais precisa e metódica a guerra entre o terrorismo e o governo americano em capítulos bem-divididos. A Hora Mais Escura é naturalmente envolvente por esse clima que ele cria. 

Há algumas performances que ganham destaque ao longo do filme. A revelação de Jessica Chaisten é maravilhosa. Apesar de ter dado uma atuação bem cativante em Histórias Cruzadas, Chaisten colocou-se á toda força ao atuar como a agente americana Maya em A Hora Mais Escura. É uma performance tão grande que palavras são independentes ao fazer um retrato mais preciso de Chaisten nesse filme. Talvez, apenas um único substantivo a defina neste filme: talento. E para quem atuou nesse filme, o trabalho não foi lá tão fácil. Quando o filme interpreta elementos mais internos do que externos, utilizando artifícios da realidade e da ficção ao mesmo tempo, há alguns aspectos que refletem o quão difícil foi fazê-la. Por ser um trabalho bem desenvolvido do que outras produções, A Hora Mais Escura foi um trabalho que necessitou acima de tudo coragem e dedicação, e isso é visto constantemente no filme a todo tempo. O elenco, a direção, o roteiro. Tudo se fecha num ciclo cujo resultado é seu sucesso astronômico. 

Katheryn Bigelow repete uma fórmula ao dirigi-lo, é inevitável, mas aqui, Bigelow não utiliza os mesmos ângulos. É isso o que principalmente a torna mais consistente: Bigelow recicla um gênero para inventar novas formas de cinema. E com certeza, Bigelow tem muito mais a nos mostrar, e já conseguiu provar muitas vezes o que é capaz. Dela, eu não tenho medo. Confiei totalmente nela ao assistir este filme. Ela também me introduziu a confiança que criei por Chaisten, e Mark Boal ao longo deste triunfal jornada. Não, talvez mais do que isso. Um épico inventivo. Um clássico instantâneo!

A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty)
dir. Katheryn Bigelow - ★★★★

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Crítica: "HOMENS, MULHERES E FILHOS" (2014) - ★★


O que mais deixou a desejar em Homens, Mulheres e Filhos, foi, com certeza, sua instintiva ambiguidade. Por um lado, o filme faz o retrato de como nossas vidas estão caminhando ao declínio na ascensão da internet. De outro ponto, ele quer analisar o quão presente ela é nas nossas vidas. Apesar de ser bem-filmado e executar triunfantemente alguns elementos que tornam a narrativa bem mais compreensiva e persuasiva, Homens, Mulheres e Filhos é abusivamente exagerado, além de desfocar alguns padrões necessários para construir a história.

Jason Reitman é um cineasta sem limites, capaz de fazer qualquer história que lhe vêm à cabeça, independente de processo ou gênero. Mas é aí que cria-se o problema: por uma falta de experiência significativa, ou até mesmo pela imaturidade de suas obras, Reitman ainda não se consagrou, apesar de ter chegado bem perto disso em algumas vezes. Seus filmes são bons. Pra ser sincero, a única vez que Reitman me convenceu foi em Juno. Uma obra sublime, por vezes que boba ou aparentemente sem fôlego, é intensamente deliciosa. Reitman se esforçou muito em Juno, e esse esforço foi aceito pela crítica e pelo público. Mas anos depois, surgiu minha decepção. Amor sem Escalas não me ganhou. O filme foi até bem escrito e teve uma grandiosa direção de Reitman, sem contar na participação essencial do elenco talentoso, mas pra mim, poderia ter sido bem melhor. Três estrelas seriam suficiente para definir Amor sem Escalas, que por uma nada gentil coincidência, é a obra mais matura de Reitman. Na verdade, Reitman se sai melhor em filmes com uma temática mais adolescente do que com histórias como Amor sem Escalas.

Em Homens, Mulheres e Filhos somos introduzidos á uma série de conflitos e tramas, o que não dá um resultado muito bom. Não consigo compreender se é por conta da diversidade das histórias que nos são mostradas, ou por conta da impaciência do diretor em filmar uma grande obra que atrapalharam sua produção, mas algo com certeza aconteceu com Homens, Mulheres e Filhos, o que já foi detalhadamente abordado aqui. Entretanto, a história pode resumir-se em pouquíssimas linhas: "Pessoas que vivem conectadas á internet cujas vidas inversas e melancólicas são tenuemente interrompidas pelos problemas que surgem quando esta conexão torna-se bem mais pública do que privada", ponto. Dois adolescentes apaixonados que não podem ter um relacionamento por decorrer da privação dos pais. Uma jovem sensual e ambiciosa em busca do sucesso, mas que apenas está interessada em si e descarta as possibilidades que á sua frente surgem, o que a atrapalha. Um casal que vê o casamento perdido, e com isto, utilizam a internet como forma de interação sexual, impossibilitando a comunicação entre eles. E uma adolescente anoréxica que, na procura desesperada por independência e popularidade, comete os atos mais inimagináveis. Ponto. Era muito possível filmar uma grande história com esta história. Mas Reitman não soube conduzi-la corretamente (e olha que um elenco de primeira esteve ao dispor dele). Em alguns pontos, a jornada dos personagens abandona o propósito de chegar ao final destination. É isso: a história é muito fechada, e isso impede que consiga-se ter uma visão mais amplificada do que se é mostrado dentro dela. A inflexibilidade de Reitman ao utilizar tais temas misturados com artifícios bem modernos e chamativos para ganhar alguma aprovação (que não existe) refletem o resultado desvirtuado da catástrofe que seu mais novo filme se tornou.

Homens, Mulheres e Filhos (Men, Women and Children)
dir. Jason Reitman - ★★

domingo, 25 de janeiro de 2015

Crítica: "OS BOXTROLLS" (2014) - ★★★


A magia do stop-motion ainda me deixa fascinado. Hoje, a animação stop-motion foi aprimorada em decorrer de toda a tecnologia de seu processo, mas alguns dos trabalhos mais primitivos de stop-motion, como Wallace & Gromit e A Noiva Cadáver podem ser observados de perto como duas obras fantásticas da animação. Os Boxtrolls, apesar de infantil, é uma experiência cativante, principalmente para alguém que tanto ama filmes como este. Sim. Além de apreciador constante de roteiros cinematográficos, fã incondicional de Woody Allen e um amante do cinema clássico, também sou um admirador de animações, ainda mais destas que usufruem de uma técnica tão difícil, e ao mesmo tempo, tão deliciosa. 

Assistindo á Os Boxtrolls, me senti com cinco anos novamente, numa fase onde desenhos são uma forma de interação superiores e quase onipresentes. Ri, me emocionei e me encantei com os personagens desta fábula sensacional. Algo que, para mim, é raríssimo. Mas é claro, com uma produção destas, é bem fácil cair na profunda admiração por seu trabalho. É bem simples, de fato. Mas o segredo de seu maravilhoso sucesso, como já foi citado, é a inventiva técnica da qual o filme foi feito. Os Boxtrolls foi intensamente produzido pela Laika Animation, que eu conheço desde Coraline, um filme que muita gente também teve a oportunidade de apreciar esta técnica. Mesmo não sendo tão grande quanto á grande Aardman, de quem eu tenho a total confiança e um enorme apreço em relação á animação, essa pequena produtora americana vem se destacando em alguns longas, entre eles, Os Boxtrolls.

Bem, as crianças vão adorar Os Boxtrolls. É atrativo, tem um design bem chamativo, utiliza artifícios criativos e inteligentes, ou seja, para uma criança, o universo desta película é algo reconfortador e suntuoso. Algumas, é claro, irão estranhar alguns elementos presentes aqui, como o uso de uma fotografia obscura ou até mesmo seus personagens, que a causaram uma pavorosa sensação de terror. Mesmo assim, Os Boxtrolls é uma animação sem igual, que deveria ser assistida pelo público infantil, pois consideravelmente, aos olhos das crianças, esta película é dona de um charme memorável e de uma singularidade artística encantadora. Certamente, alguns adultos também poderão ter a chance de reproduzir os mesmos sentimentos de uma criança ao assistir á animação, mas é claro, de uma visão de uma ingênua criança á um adulto maturo, há intensas diferenças internas. Porém, para ambos os públicos, o filme é glorioso. É quase impossível resistir aos encantos de Os Boxtrolls. É tudo bem bonitinho, bem-feitinho, detalhado com uma paciência incrível. Eu gostei muito de Os Boxtrolls, e esta é sim uma das melhores animações do ano, e ainda segue como minha principal aposta ao Oscar de Melhor Filme de Animação, mesmo com duas animações fortes na corrida, Operação Big Hero 6 (o mais possível vencedor) e Como Treinar o Seu Dragão 2 (o inevitável favorito), Os Boxtrolls tem uma garantia de esperança da minha parte.

Os Boxtrolls (The Boxtrolls)
dir. Anthony Stacchi, Graham Annable - ★★★

Crítica: "UMA LONGA VIAGEM" (2013) - ★★


Esforçado, mas pouco convincente. Parcialmente, Uma Longa Viagem revela que é bem-intencionado em reproduzir um retrato fiel e contundente, mas algumas falhas presentes ao longo da película podem causar uma certa estranheza aos olhos mais experientes. No entanto, como já foi citado, empenho é o que não falta no filme. Outro fato que me ocorreu, que antes mesmo de assisti-lo, senti meu sonho realizado por ver pela primeira vez Colin Firth e Nicole Kidman juntos num filme, algo que ainda não tinha se concretizado para mim, embora fosse uma ideia muito primitiva. Apesar de terem pouquíssimas cenas juntos no filme, a durpla me deixou extasiado (na verdade, Kidman é mais uma coadjuvante no filme do que protagonista). 

Por muitas vezes, me senti confuso em algumas partes do filme. Seus elementos são bem claros, mas eles começam a se apagar quando o filme começa a misturar drama épico com romance, enfatizando os longos flashbacks e desnivelando alguns encaixes. No entanto, é bem compreensível que Uma Longa Viagem tenha tido alguns problemas na produção, aliás, contar uma história dessas necessita um trabalho mais aguçado. Não que eu esteja confirmando que a história poderia ser melhor do que a que foi contada aqui, mas oportunidades de fazer uma produção maior do que esta o diretor Jonathan Teplintzky tinha, e com um elenco desses, poderia ter caprichado mais ainda. A maioria das performances são fracas. Até mesmo Colin Firth não consegue se consagrar no papel dramático de Eric Lomax, por mais autêntico que tente fazer parecer seu personagem, tudo sai fora do planejado para ele. Nicole Kidman parece estar indiferente: ultimamente a atriz está "desligada" do cinema, fazendo papéis pequenos como este, ou atuando como coadjuvante. 

No final, Uma Longa Viagem é bem atrativo, mas me decepcionou um pouco. Este sim é um filme que poderia abusar dos mais instintivos artifícios, ou utilizar as mais diversas técnicas possíveis, mas é esta falta de diversificação que prende Uma Longa Viagem á uma desconfortável desvantagem: ele torna-se chato. A história é maravilhosa, mas o filme, como não é tão diverso quanto poderia ser, acaba se tornando chato, e os 100 minutos do filme tornam-se cansativos ao público. 

Sim, para aqueles que ainda estão um pouco desnorteados com as informações semelhantes á "épico" ou "retrato fiel" apresentadas ao longo do post, este é um filme de época, e mais precisamente, se passa durante a Segunda Guerra Mundial e narra a aventura do soldado britânico Eric Lomax ao ser capturado pelo exército japonês. O filme inicia na atualidade, e Eric é membro de um grupo de veteranos. Após seu casamento, ele começa a ser questionado sobre seu passado assombroso na guerra, e com a impaciência da esposa e a motivação dos colegas veteranos, ele inicia uma busca através dos obscuros tempos que enfrentou durante sua captura. Notem que falando do filme só por sua sinopse já é demasiadamente interessante. E foi essa uma das causas para minha iminente decepção ao assiti-lo: a falta de consideração com a história. É claro, este filme é forte, e há cenas bastante pesadas, o que mais me chamou a atenção, mas nada mostrado nestas cenas é desconhecido ao público mais experiente. Lançado no Festival de Toronto de 2013, o longa só chegou ás telonas brasileiras ano passado (totalmente desconcertante para os fãs de Kidman e Firth), mas o atraso não foi de tanto impacto assim. Enfim, minha conclusão em relação ao filme é: recomendável, mas não precisamente necessário. Um ótimo filme para aqueles que realmente tem um apreço por películas épicas ou monumentais, por menos que sejam convincentes ou geniais. Uma Longa Viagem é um filme mais adequado ao entretenimento. Se você procura filmes de observação ou reflexão, Uma Longa Viagem não é o lugar, mas poderia ser.

Uma Longa Viagem (The Railway Man)
dir. Jonathan Teplitzky - ★★

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

THE OFFICE / 8ª Temporada



Qualquer cinéfilo, ao longo de um certo tempo, adquire um gosto por televisão. Em meu caso, a paixão por esse meio de comunicação que não se afasta tanto da minha querida sétima arte surgiu principalmente nos seriados.. Em meus primeiros tempos como cinéfilo, já tinha um especial gosto por televisão, centralmente falando: as séries.

The Office é um seriado americano que teve sua estreia em 2005. The Office ganhou diversos prêmios e foi aclamado pela crítica e pelo público televisivo em pouco tempo após sua estreia. Em nove temporadas, conquistou todo um público enfeitiçado com aquele universo singular de personagens bem humorados e suas "vidas de escritório". Em The Office, o foco é a relação entre as diversas pessoas dentro de um determinado local de trabalho: suas divergências, seus passatempos, suas discussões, e isto mais. Me interessei pela série logo que fui assistindo os primeiros episódios, ainda lá da temporada inicial, com o elenco ainda pequeno. Minha paixão por ela, com o tempo, se amplificou. Me transformei em um fã. 

Isso ocorreu, como dito, há um considerável pouco tempo, pra ser mais sincero, há um pouco mais de um ano. Por isso, uma das temporadas mais recentes que eu tive a oportunidade de assistir (completa) foi a oitava, encontrada no Netflix. É claro, antes disso, eu já tinha um breve contato com os episódios de The Office: a série já foi transmitida em TV aberta e frequentemente seus episódios eram exibidos pelo canal fechado FX, que deixou de exibir a série no início de 2014, com o fim de sua transmissão na América. 

The Office é uma série com um público pequeno no Brasil. Por ter um humor mais requintado, ausente de alguns artifícios humorísticos que mais atraem as pessoas, como aquele já instituído pastelão, The Office teve uma curta passagem pela TV aberta, mais especificamente pela Rede Record, onde também foi um colega de Um Maluco na TV (30 Rock), outra série americana que não fez sucesso nas telinhas brasileiras, e por isso, não demorou muito para ter sua exibição adiada. Talvez, o fato do fracasso televisivo aqui no Brasil dessas duas séries é o conteúdo mais "americanizado". Muitas das piadas são incompreensíveis ao público nacional, que não consegue se identificar com os personagens por conta dessa diferença, ou até mesmo por alguns dos elementos mais próprios envolvendo cultura (sem incitar a ignorância e o desrespeito daqueles que desconhecem esses padrões culturais da série, e sem mais nem menos, a criticam pela inexistência de prazer, o que me aborrece demais). Mesmo assim, acredito que não precisa ter uma certa identificação com The Office para simplesmente ama-la. The Office, Louie, Um Maluco na TV, Monk, e outras séries com uma estrutura mais voltada à cultura americana foram ocultadas do nosso público pela ausência significativa de audiência. 

Enfim, ao assistir seriamente á The Office em sua oitava temporada, pude observar de perto a delicadeza com a qual a série é feita. Num estilo de pseudo-documentário, muita gente se lembrará de Modern Family, uma cópia dessa técnica originalizada pela série. Em The Office, há uma certa combinação de elementos que me causam uma certa intriga e ao mesmo tempo, conduzem o resultado da minha preferência por ela. Steve Carell mostra seu inconfundível talento nesta série, e que é bem perceptível em cada episódio do qual ele é a estrela principal. Jenna Fischer faz uma coadjuvante implacável, sem deixar de comunicar-nos o bom humor de sua personagem. Porém, confesso aqui que meu apreço foi com o personagem singular e enigmático de Rainn Wilson, Dwight Schrute. É claro, cada um tem seu nível de "bizarrice", só que o mais bizarro é sem sombra de dúvida Dwight! Ed Helms foi outra grande surpresa merecedora de aplausos, com o personagem Andy Bernard. Na oitava temporada, uma personagem feminina também me chamou a atenção: Ellie Kemper, atriz que só tive a oportunidade de assistir no filme Missão Madrinha de Casamento. Com ele, ficam meus aplausos e minhas gargalhadas mais efusivas. Entre outras, os vinte e quatro episódios da oitava temporada de The Office são simplesmente divertidíssimos. Uma das maiores séries cômicas da televisão americana, The Office me ganhou profundamente, e também adquiriu de mim um reconhecimento enorme, por tudo: o roteiro, a direção, o elenco. Tudo em The Office é muito bem feito, fruto de um trabalho magnífico feito por toda a produção, do elenco á equipe técnica. Todos estão de parabéns por terem feito algo tão concreto e digno de elogios como The Office, ainda mais nesta temporada.

8º TEMPORADA - ★★★★★

O MELHOR EPISÓDIO: Christmas Wishes (ep.10) - ★★★★★
MENÇÃO HONROSA: Trivia (ep. 11) -  ★★★★

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Crítica: "ADEUS À LINGUAGEM" (2014) - ★★★★★


Há vezes em que uma obra não precisa ser necessariamente compreendida para que sua intenção seja claramente percebida. Em Adeus à Linguagem, há uma complexa mistura de sons e imagens, distorcidos e muitas vezes alterados, mas que não atrapalham sob nenhuma circunstância a história humilde e sutil que Godard quer transmitir ao seu público, cheia de momentos triunfais. É raríssimo ver Godard fazendo filmes atualmente, e mesmo assim, quando surge uma verdadeira obra como esta, uma rara oportunidade de rever o cineasta que na década de 60 renovou o mundo cinematográfico com a nouvelle vague ao lado de Alain Resnais e François Truffaut, o circuito brasileiro o exclui, e sua distribuidora adia a estreia de sua mais nova obra, e isso torna mais difícil o encontro de Adeus à Linguagem em outros meios. 

Felizmente, tive a maravilhosa chance de assistir Adeus à Linguagem. Neste filme, Godard realiza uma experiência rara e emotiva em sua carreira. Abandonando suas técnicas mais usuais, Godard, como já foi citado, faz um particular alinhamento de sons e imagens, algo que me despertou uma intensa curiosidade em assisti-lo, logo pelo trailer. Este é um filme de uma compreensão leve, por conta dessa estrutura experimental e incomum presente nele, e por isso, muitas pessoas poderão não entendê-lo. Pois é. Este é um filme que não é feito para o entendimento, e apenas para a apreciação dos elementos. Quem conhece Godard, sabe que ele é capaz de tudo, até mesmo de Adeus à Linguagem. 

Com um elenco pequeno, que inclui um cachorro, Adeus à Linguagem narra a história de uma mulher e um homem, que não falam a mesma língua, e isso causa um intenso desconforto em sua relação. Um cachorro é o símbolo dessa relação: a constante ausência de comunicação. Algo bem interessante que merece ser visto aqui são as citações á guerra nos minutos iniciais, um assunto do qual Godard parece estar fascinado, há muito tempo, o que pode ser percebido em alguns de seus filmes anteriores, como Elogio ao Amor e Nossa Canção. 

Diferentemente desses dois filmes, Godard é único em Adeus à Linguagem, reconstrói um gênero incomum. Para alguém que foi vaiado diversas vezes por filmes pequenos, Adeus à Linguagem é uma vitória digna e merecida. De fato, este filme também é pequeno. Tão pequeno que além de curto, até uma câmera de celular é usada diante de uma cena. Mas é em sua pequenez e simplicidade que encontra-se sua importância e singularidade. Godard, um dos nossos professores cinematográficos mais talentosos nos ensina os valores da comunicação, e depois, a falta dela, em alguns dos ângulos mais primitivos: de sonhos peculiares até as situações reais onde ela é mais precisa. Em Adeus à Linguagem a comunicação é visual. Por essa razão, sua compreensão é fraquíssima. Através desse conteúdo visual belíssimo e poético, Godard nos introduz a uma de suas melhores películas: quer nos fazer entender o inexistente. Como isso é possível? Apenas a magia surpreendente e brilhante de Godard consegue construir tais truques, tão encantadores a ponto de serem inevitavelmente memoráveis, e que comprovam que sua maestria continua intacta.

Adeus à Linguagem (Adieu au Langage)
dir. Jean-Luc Godard - ★★★★★

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Crítica: "BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS" (2004) - ★★★★★


Charlie Kaufman é um dos maiores autores de Hollywood, e da história do cinema, provavelmente. Seu talento é visível em suas quatro atuais obras, de forma igual, pelas quais ele ganhou uma fama bem qualificada no universo cinematográfico. Uma dessas quatro obras é a fantástica e inteligente Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, a possivelmente maior de Kaufman. O interessante de assistir ao filme pela primeira vez é que ele te engana facilmente, e a história é contada reversalmente, revelando os elementos principais pouco a pouco, até chegar a um ponto onde todos se encontram efusivamente, como pura atração. É chamado de processo tempo não-cronológico, famoso por filmes como Pulp Fiction, que consagrou o gênero. No entanto, esta história não trata-se de um Pulp Fiction. É algo um pouco mais tentador e bem menos violento: a trama se centra em um casal, o que torna bem mais difícil o uso desse artificio, que já é por si uma mecânica demasiadamente complicada. É preciso prestar atenção para conseguir compreendê-la da forma mais contundente imaginável. E felizmente, eu tive a maravilhosa oportunidade de captar o processo apresentado ao longos dos pouquíssimos cem minutos da película. 

Joel escuta um ruído no meio do nada e desperta. O filme se inicia. Joel está melancólico e mal-humorado: dia dos namorados. Confuso e sem ideias, Joel, quase por impulsão (como ele mesmo descreve), falta ao trabalho, indo para uma praia deserta em pleno inverno para, talvez, pensar um pouco nas consequências de seu fatídico cotidiano, iniciando uma busca por ele mesmo dentro do turbilhão de pensamentos de sua mente; Joel encontra uma mulher. Ponto. Essa cena é o ponto de partida crucial da trama. A partir daí, uma jornada alucinante e belíssima, que mistura alguns pontos do passado com pontos do presente, sem a ausência do místico e irreal, é contada através de capítulos misturados um nos outros, o que pode ocasionar um pequeno problema de comunicação entre o filme e seu público. Mas para encontrar a solução desse problema, é preciso prosseguir assistindo-o até o final.

Jim Carrey e Kate Winslet fazem um casal surpreendentemente bom, em minha opinião. Para quem tinha expectativas bem baixas em relação á isso, a performance dos dois resulta numa química brilhante, quase surreal, para ser sincero. Jim Carrey atua impecavelmente em uma das melhores atuações de sua carreira, que perde apenas para O Show de Truman. Na pele do inseguro e sensitivo Joel, um desintencionado, porém de bom coração, que apenas não consegue aceitar o fato de ser tão sozinho. A unica conexão de Joel a um possível, porém inexistente circulo social é Clementine, interpretada triunfantemente por Kate Winslet, numa performance bem inusual. Enfim, para evitar alguns spoilers em relação á película a partir das declarações daqui, é melhor encerrar a discussão sobre a relação de Joel e Clementine por aqui. 

Uma das mais convenientes verdades que você poderá saber sobre Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças é que, de qualquer forma, ela irá te fascinar. Não precisa ter motivos tão profundos ou racionais. Com um elenco talentoso, uma direção marcante (conduzida inerravelmente pelo francês Michel Gondry, que alguns se recordaram por Rebobine, Por Favor ou O Besouro Verde.), e um roteiro genial e marcante (é claro, vindo de Charlie Kaufman, não necessita-se causas adicionais para justificar o uso de tais grandiosos adjetivos), já existe um pouco de curiosidade e anseio em assistir. 2004, ano em que este filme foi lançado, foi o ano da comédia romântica. Não é só por causa de Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, mas há um pouco do trabalho de Antes do Pôr-do-Sol na afirmação. Ao pensar nos dois filmes, imagino-me coberto por um extenso manto de fantasia e prazer, que me aproxima mais do gênero. Sim, confesso que além de ter uma paixão ávida e compulsiva por roteiros cinematográficos, filmes estrangeiros, animações clássicas, Woody Allen e ainda por cima um documentário bem filmado, as comédias românticas também me atraem, e muito! O mais triste é que atualmente filmes do gênero estão perdendo aquele substrato mágico que compõem sua originalidade, onipresente em Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças. O mais ingênuo sobre mim em relação á este filme é que sou tão inesperadamente inspirado por sua complexidade incomum que sou capaz de considerá-lo uma das maiores películas já filmadas na história do cinema. Sim, por que não? Contar histórias não era o objetivo do cinema? Este filme, por si, já conta uma história e tanta. E olha que existem tantos bônus. Além de tudo isso, também existe uma espécie de amor por este filme. É tão visualmente recheado de tantos artifícios monumentais que em poucos minutos sua beleza é evidente ao público. É impossível não ser seduzido e impactado por este filme. Seus detalhes e sua jornada memorável me introduziram aos encantos inabaláveis que possui: uma história de amor única e visionária.  

Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind)
dir. Michel Gondry - ★★★★★

domingo, 18 de janeiro de 2015

Crítica: "MOONRISE KINGDOM" (2012) - ★★★★


Uma das razões para eu ter amado Moonrise Kingdom é a inconfundível autoria de um dos maiores cineastas da atualidade, Wes Anderson, que a cada filme, tem mostrado uma maestria singular e autoral. Nem mesmo sua recente película O Grande Hotel Budapeste (por mais sofisticada e genial que seja) não conseguiu superar Moonrise Kingdom, um real clássico instantâneo, tão belo por ser tão simples e modesto.

Moonrise Kingdom conta a história de dois adolescentes, um escoteiro órfão e uma garota problemática, que se apaixonam e planejam fugir. O que eles não planejaram era a catástrofe que a situação se tornaria, causando um intenso pânico na pequena ilha de New Penzance, onde os moradores locais e a polícia entram em um complicado conflito na busca dos dois amantes. Bem, pra iniciar, quem conhece Wes Anderson sabe muito bem que ele é um diretor que filma por temporadas (de dois a quatro anos para lançar um novo filme), e estes diretores quase nunca tem um fracasso no currículo. No caso de Anderson, existem apenas (tecnicamente) dois fracassos presentes em sua carreira de oito (atuais) filmes: o pretensioso e abusivo A Vida Aquática com Steve Zissou e o imaginativo, mas inconsciente Viagem a Darjeeling. Moonrise Kingdom segue o mesmo padrão dos filmes de Wes Anderson: guiados por uma mística e colorida fotografia e um roteiro criativo e poderoso.

Neste filme, a atração ficou com o elenco, a maioria formado por atores mirins, entre eles, os protagonistas de destaque: Jared Gilman e Kara Hayward. Entre outras, a maioria do elenco é estrelado por alguns dos colaboradores mais frequentes de Anderson: Bill Murray, Edward Norton e Jason Schwartzman (é lógico). Outros dois atores que também, mais tarde, se tornariam colaboradores de Anderson (em O Grande Hotel Budapeste) estão aqui: Tilda Swinton e Harvey Keitel. Independente de colaborações ou referências, o elenco é outro ponto forte do filme. A consistência das performances é algo que torna ainda mais viva e original sua trama. 

Nesta comédia excepcional, Wes Anderson filma sua primeira história de amor, de uma forma bem diferente do visto. Como já foi citado, os protagonistas são dois atores mirins, que interpretam um casal de crianças vivendo um romance juvenil na década de 60. O filme acompanha a vida, os problemas e os desejos de duas crianças apaixonadas, ou seja, não trata-se de uma história qualquer. Para construí-la é preciso ter uma complexa noção do que irá se descrever e o que irá se passar. Para isso, Wes Anderson teve uma ajuda bem especial de Roman Coppola, o (talentoso) filho de Francis Ford Coppola, igualmente cineasta como a filha do diretor, Sofia Coppola. Aqui, Roman não co-dirige o filme, mas sim, co-escreve o roteiro. 

Acredito que além de ser de Anderson, uma outra causa para minha paixão por este filme é sua estrutura épica: a fotografia monumental, o figurino bem desenhado, a direção de arte fenomenal, e é claro, todos os outros mais elementos que ajudam as obras de Wes Anderson a serem tão profundamente belas no quesito produção estão presentes aqui. O enquadramento de cada cena, a câmera fixa (uma característica onipresente em todos os filmes seus filmes), e a delicadeza volumosa. Enfim, todos os aceitáveis artifícios que Anderson utiliza para magnetizar seu público são os mesmos usados em Moonrise Kingdom, só que numa versão bem mais adaptada ás necessidades da história. 

E mais uma vez, Wes Anderson paralisa o público contando uma história tão bela e sutil como esta de uma maneira tão particular dele. Na mais indestrutível capacidade, Moonrise Kingdom brilha a cada fala. Moonrise Kingdom é uma fábula sensacional, e imperdível, por sua vez. Momentos em que Anderson, aguçadamente inspirado pelo passado, faz uma obra-prima igualmente cheia de inspiração, mas autenticamente encantadora no presente, que no futuro, torna-se conceituadamente memorável.

Moonrise Kingdom
dir. Wes Anderson - ★★★★

Crítica: "TUDO PODE DAR CERTO" (2009) - ★★★★


Nos últimos anos, a carreira de um dos maiores cineastas da história, Woody Allen, foi preenchida por filmes mal criticados, com baixo orçamento e menor bilheteria, e com histórias, de fato, ruins - segundo a crítica -. Talvez, essa necessidade do diretor de criar uma conexão com a geração atual e a modernidade tenha o causado alguns problemas, cinematograficamente - tudo aos olhos da crítica -. Poucos filmes recentes de Woody tem ganhado sucesso - novamente, aos olhos da crítica -. Vicky Cristina Barcelona, Meia-Noite em Paris, Match Point - Ponto Final, Blue Jasmine e por que não Tudo Pode Dar Certo. Entre os fracassos críticos e públicos do cinema atual de Woody, o melhor filme entre estes ruins pode ser Tudo Pode Dar Certo, ao lado de O Sonho de Cassandra. 

Muitos desses filmes ruins apresentam novas experiências do cineasta: suspenses, dramas, épicos, e é claro, algumas comédias românticas. A que mais se destaca é Tudo Pode Dar Certo. O filme me lembrou misticamente Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, por ter seu protagonista, Larry David, se pronunciando ao público em diálogos bem semelhantes ao de Alvy Singer. Nesta película, Woody Allen focaliza na relação de uma jovem sulista ignorante e um intelectual nova-iorquino. O que os separa tanto de uma possível conexão é a diferença de idade. E pela aparência, é uma história simples. Pura e divertida, não há pretensões ou padrões em Tudo Pode Dar Certo. Parece que Woody filmou a película apenas como uma forma de entretenimento, sem nenhuma razão específica. São esses filmes do diretor que mais me atraem, ou de certa forma, me causam surpresa: filmes com uma estrutura fraca, mas com personagens bem definidos e tramas cordiais. É melhor ver o bom senso de Woody numa película tão característica como esta do que vê-lo desesperado tentando refilmar o sucesso de um filme anterior, o que pode ser muito bem visto no recente filme de Woody, Magia ao Luar.

Larry David mostrou-se fiel e competente ao personagem. Com doses bem altas de neurose e outras mais ainda de sarcasmo, é inevitável aceitar que Woody fez uma boa escolha quando colocou David para interpretar seu clássico protagonista intelectual, cético e frio. Pra ser sincero, talvez essa escolha seja uma das melhores que Woody já realizou. David coube perfeitamente. Há uma grandiosa equivalência entre Woody e Larry. Ambos são celebridades cômicas, cujos personagens celebraram a cultura artística americana até os dias de hoje. Outra coisa que atravessou minhas ideias foi Woody protagonizar o filme. Ultimamente, o cineasta vem evitando sua presença em seus próprios filmes (o que era uma coisa tão usual na década de 70/80/90), e mais tecnicamente, sua última aparição em um filme de sua autoria foi em Para Roma Com Amor. Vê-lo novamente em Tudo Pode Dar Certo seria um magnífico triunfo. Acredito que esse filme também tenha um pouco de inspiração na vida real de Woody Allen: sempre tem. Os mais experientes e, como popularmente se diz, "entendedores" conseguiram captar que a história narrada aos 91 minutos do filme é bem próxima á história verdadeira do relacionamento polêmico de Woody Allen e sua filha adotiva na década de 90, o que resultou em seu divórcio conflituoso com Mia Farrow, cujo impacto permanece até os dias de hoje, e no seu casamento com Soon-Yi Previn. 

Quem conhece Woody Allen bem de perto vai desconhecer, mas concordar com Tudo Pode Dar Certo. O estilo de Woody mais uma vez prova-se capaz de produzir diversas histórias filmadas nos mesmos ângulos. É por isso que a cada filme, Woody Allen torna-se mais compreensível, e eu me torno mais inspirado e relacionado à ele. Por sua contribuição, Woody ainda tem o poder de encantar através dessas pequenas, mas satisfatórias tramas que se desenvolvem no mais belo contexto que Woody já representou em toda a sua carreira: o amor.

Tudo Pode Dar Certo (Whatever Works)
dir. Woody Allen - ★★★★

sábado, 17 de janeiro de 2015

Crítica: "BIRDMAN" (2014) - ★★★★★


Sublime. Birdman é, de fato, tremendamente maravilhoso, como muitos já tinham me dito. O que eu percebi neste filme é que alguns dos traços são inspirados livremente em Oito e Meio, de Fellini. Duas personalidades cinematográficas em crise, que se afugentam num mundo inexistente para libertar seus extintos. É claro, não que eu esteja falando que Birdman é um Oito e Meio, apesar de ter um certo cabimento nessa afirmação, mesmo que exagerada. Minha intenção em comparar as duas obras é por conta da semelhança própria de seus protagonistas, e foi isso que me levou a associar tanto o novo filme do mexicano González Iñárritu á melhor obra do mestre italiano Federico Fellini. 

Riggan Thomson é um ator de cinema e teatro, que outrora já foi uma sucessiva celebridade, fracassado á beira de uma iminente destruição, cuja sede de fama atrapalha seu trabalho e seu relacionamento com os outros. Divorciado, dono de um talento acabado, pai de uma garota problemática, este é o cotidiano de Thomson, cuja vida vem desabando a cada passo que ele dá. A única esperança dele é a peça em que ele, além de atuar, também escreveu e dirige. Porém, bem antes da estréia da adaptação, alguns problemas visíveis o instigam, o que o faz entrar em delírio total ao notar a presença de um desequilíbrio: um substituto prepotente, irregular e medíocre; falhas que aparecem na peça apenas para causar desequilíbrio á já atormentada alma de Thomson; uma intriga acirrada do público. Motivos para ter um ataque de nervos, ele tem. Por não aceitar um mundo em transformação, aos poucos, Riggan percebe que seu trabalho contém alguns elementos presentes na sua própria vida, e isso torna-se uma razão por ele ter tanta identificação com ela, independente de todas as irregularidades que ele encontra nas tentativas de produzi-las. 

Além de vir falar sobre o mais novo filme de Alejandro González Iñárritu, também vim falar sobre o grande elenco que o compõe. E há muito tempo, confesso que nunca vi tantos talentos reunidos num único filme, até por que o protagonista de Birdman é o lendário Michael Keaton, um desaparecido do cinema de longa data, do público e das premiações. É quase inacreditável pensar que o astro de Robocop já tem sessenta e poucos anos. O tempo voa, e com ele, seus grandes ícones. Michael Keaton é um daqueles atores que depois de um grande sucesso, acabam caindo em perdição e são esquecidos por aqueles que um dia foram seus espectadores. Esta também é a história de Thomson, interpretado por Keaton. Uma estranha coincidência, que não deve ser confundida com falso acaso. 

Deixando um pouco Keaton, e sua performance extraordinária e como ele soube liderá-la profundamente, de lado, volto a comentar sobre o resto do elenco. Em segundo lugar, a surpresa ficou com Emma Stone, um nome que só conhecia por Histórias Cruzadas e o recente Magia ao Luar. Stone se revelou capaz de controlar o personagem, de pontos fortes e características incomuns, a filha de Riggan Thomson, Sam, uma jovem astuta, mas que ainda possui um vício iminente em drogas. Também há um grande destaque para Edward Norton, Naomi Watts, Zach Galifianakis e Amy Ryan como coadjuvantes. 

Apesar de ser considerado uma comédia, Birdman também consegue ser dramático em alguns momentos. Sei que Alejandro González Iñárritu se esforçou bastante para sair da zona de conforto dos dramas, mas tais esforços foram em vão. A estrutura dramática presente em todos seus outros filmes também ganha espaço em Birdman. É claro, há comédia em Birdman, mas é leve e bem frágil, quase invisível aos olhos menos experientes, ou seja, aqueles que não tem afinidade com o humor negro. A história já deixa bem claro isso: seu personagem principal, tais como os outros, são infelizes, problemáticos, nervosos, ambiciosos, competitivos e temperamentais, que caminham sob a fina corda da qual se sustenta a catástrofe em que suas vidas se direcionam, sem volta. Esta obra ainda guarda um tom dramático. Natural para Iñárritu, alguém que passou a carreira inteira dirigindo dramas ausentes de inovação e que só agora veio a universalizar seu cinema. Birdman escapa da superficialidade inconsequente de seus filmes anteriores. Só mesmo A.G.I. e Michael Keaton juntos para transformarem-a numa comédia bem inusitada e espantar o clichê (preconceito).

Os efeitos visuais foram perfeitamente usados nas cenas de desolação e loucura protagonizadas por Thomson, tais como as quais ele tem estranhas conversações com seu maior personagem e outras aonde ele ganha poderes sobrenaturais, algo extremamente fantástico na película. A trilha sonora, surreal. Uma pena que foi rejeitada tão brutalmente ao Oscar. O roteiro, brilhante. Descostumado com a ausência de seu maior colaborador, Guillermo Arriaga, Alejandro González Iñárritu pediu ajuda á outros três roteiristas, eles: Armando Bo, Nicolás Giabone e Alexandre Dinelaris Jr., que conduziram tão genialmente esta trama. González Iñárritu, na direção, permanece o mesmo: dotado de uma visão única, talento de sua maestria cinematográfica. Conheci González Iñárritu no drama Babel, e depois, decidi conhecê-lo mais, assistindo aos poucos filmes presentes em sua filmografia, entre eles Biutiful e Amores Perros. Ao contrário desses dois filmes mexicanos, em Birdman Alejandro González Iñárritu cria uma afinidade maior com o cinema americano, da qual eu vi apenas em 21 Gramas. 

É impossível descrever o que foi melhor ao assistir Birdman. O retorno mágico de Michael Keaton? A direção poderosa e matura de A. G. I.? O elenco indestrutível? A história inabalável? Todos esses grandes elementos transformam Birdman (ou A Inesperada Virtude da Ignorância) numa obra pra lá de inesquecível. Há um extenso oceano de causas para a constante e versátil memorabilidade do filme. Citei acima apenas algumas das mais prováveis. É possível encontrar muitas mais delas ao assisti-lo, num tesouro tão raro como este.

Birdman foi indicado ao Oscar em Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Ator (Michael Keaton), Melhor Atriz Coadjuvante (Emma Stone), Melhor Ator Coadjuvante (Edward Norton), Melhor Roteiro Original, Melhor Fotografia, Melhor Edição de Som e Melhor Mixagem de Som.

Birdman (Birdman or The Unexpected Virtue of Ignorance)
dir. Alejandro González Iñárritu - ★★★★★

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Crítica: "AZUL É A COR MAIS QUENTE" (2013) - ★★★★★


Adèle é uma jovem adolescente. Leva uma vida comum. Sua inexperiência ainda não a permitiu conhecer o mundo de uma visão mais ampla. É claro, Adèle tem suas dúvidas e mantém algumas curiosidades em relação ao mundo aberto em que vive. O que Adèle ainda não conseguiu compreender é que o cotidiano está privando-a de viver a vida. Ela tem que se afastar desse cotidiano para conseguir aprender a conviver na sociedade. Não que o cotidiano esteja a atrapalhando, mas sim, na sua intenção de conhecer melhor o que está à sua frente. E esse cotidiano é evidente influência nos seus pensamentos e ações. Nos primeiros minutos, apesar disso, Adèle demonstra um interesse bem inusual para a sua idade: a homossexualidade. Com o passar do filme, Adèle ganha um pouco mais de curiosidade em sua descoberta, o que a leva até Emma, uma artista lésbica por quem ela ganha uma intensa amizade, que rápido se torna um amor incondicional.

Com Emma, Adèle consegue ver um mundo que não via antes. E no universo tão diferente do qual Emma enfrenta, Adèle vê uma atração especial, quase que uma força natural, um instinto que não consegue reagir ao mais intenso impacto, e isso a causa fascinação. É nesse mundo onde Adèle aprende a viver, libertando sua alma para unicamente amar a Emma, seu amor verdadeiro. A significância desse amor para Adèle é tão grande que ela rejeita seus amigos mais próximos apenas para apartar o preconceito, infelizmente existente na atualidade. 

Também trata-se um ato particular de Adèle, a necessidade de experimentar coisas novas, ou até mesmo preencher o vazio desse dia-a-dia simplório e lento. É em Emma onde ela encontra a verdadeira razão para prosseguir sua jornada. E há um amor melhor do que esse? É possível amar alguém existindo tanto preconceito e limitação? Será que a dúvida atrapalha uma relação tão diferente e singular? São algumas das questões provocantes dirigidas do filme ao seu público, que há de buscar a resposta de cada uma delas dentro dele, através dos elementos preciosos apresentados. 

Aqui vai uma longa confissão: foi difícil resistir ao filme. Não é por causa da duração de três horas nem da questão da homossexualidade (da qual eu já sou consideravelmente acostumado), mas sim, por causa da profunda mensagem que é mostrada ao público. Há momentos em que você é domado pela história, e outros em que você doma a história. Ou então, a delicadeza de alguns momentos torna-se tão real que é quase possível tocá-la. 

Eu, fora da tela, lutei pelo amor de Emma e Adèle. É algo tão extremo que é mágico. Esse amor tão forte, e tão frágil, que nos sufoca tanto por ser imprevisível. É nestes momentos em que percebo seu grandioso contexto, e a genialidade que foi usada para fazê-la. É claro, dando um destaque bem notório à belíssima protagonista já citada Adele Exarchopoulos, na performance desoladora e cativante de Adèle, capaz de render as mais duradouras sessões de aplausos. 

Um dos filmes mais comentados de 2013, Azul é a Cor Mais Quente foi demasiadamente criticado por seu alto teor de sexualidade e cenas implícitas, protagonizadas pela revelação Adèle Exarchopoulos e a talentosa Léa Seydoux. E realmente, o que você ouviu sobre ele em relação á polêmica não estava errado. Algumas dessas cenas foram filmadas realmente, sem o uso de nenhum artifício impedindo o contato dos atores. Bem assustador. Algo que me levou a 9 Canções. Mudando de assunto, independente de tudo, Azul é a Cor Mais Quente é uma obra obrigatória, principalmente por ser tão aproximada da realidade, mesmo se tratando de uma ficção.

A simplicidade da película é o que mais me encantou aqui. Abordar a homossexualidade em ângulos tão ambiciosos e independentes é uma tarefa bastante arriscada para qualquer cineasta. E parece que Abdellatif Kechiche conseguiu captar a homossexualidade da melhor maneira possível, tornando esta obra num dos melhores filmes sobre o tema, tão questionado por ser tão desconhecido, peculiar e proibido para a maioria das pessoas. Mas o desejo de Kechiche é quebrar essa imagem que a homossexualidade tem: proibida a ponto de ser criminosa. Sei que nem todos vão celebrar Azul é a Cor Mais Quente, mas aos olhos certos, esta é transformada em uma obra-prima inovadora e revolucionária do cinema contemporâneo. Moderna por brindar o amor e a liberdade, duas coisas que vem gerando tão profundos debates e até mesmo guerras. Eu realmente acho que o cinema é usado a favor desses meios, de forma bem pacífica. Azul é a Cor Mais Quente é um protesto, contra as regras e estereótipos de autoria da sociedade opressiva. E que forma melhor há de protestar do que através de uma original história de amor? O amor. Apesar de levar para alguns lados mais particulares, o amor é o centro dessa trama. E o amor, intencionalmente, é o passaporte para a liberdade, que infelizmente, nem todos tem acesso (uma das mensagens mais lindas que tive o prazer de observar na película). Azul é a Cor Mais Quente é brilhante. Belíssimo em sua atitude e autenticidade. Eterno clássico instantâneo, um visionário drama de um cineasta que revelou-se um dos melhores de sua geração.

Azul é a Cor Mais Quente (La Vie D'Adele: Chapitres 1 & 2)
dir. Abdellatif Kechiche - ★★★★★

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Crítica: "MISSÃO MADRINHA DE CASAMENTO" (2011) - ★★★★


Se eu tivesse de resumir este filme em uma frase, com certeza ela seria: "Cômico do primeiro segundo até o último.". De fato. Excêntrico e emocionante, Missão Madrinha de Casamento é, verdadeiramente, uma das melhores comédias de todos os tempos, e um clássico do tão requisitado gênero. Este trata-se especialmente de um daqueles filmes que não deixa nenhum elemento escapar aos olhos do espectador, o que faz dele tão fascinante em todos os aspectos presentes, analisando metodicamente a vida e a situação de cada personagem, é claro, sem deixar de ser engraçado em todos os momentos (literalmente).

A história do filme narra a vida de Annie quando, uma mulher parcialmente destruída e infeliz por tudo dar errado em sua tão ingloriosa jornada, é convidada pela melhor amiga, Lilian, para ser dama de honra em seu casamento. Por sua vez, Annie inicia uma turbulenta guerra com a nova rica ajudante de Lilian nos planos do casamento, que também conspira para conseguir o lugar de Annie no casamento, a oportunista e orgulhosa Helen, mulher do sócio do noivo de Lilian, o que atrapalha a tão grandiosa amizade de Annie e ela. 

Hoje em dia, o comércio cinematográfico é recheado por comédias. Um dos maiores motivos é por que estes filmes tem uma imensa demanda cinematográfica, e são bem mais atrativos (comercialmente) do que dramas, por exemplo. A maioria dos filmes produzidos atualmente são comédias. O grande problema das comédias de hoje é que são bem fracas, pois utilizam artifícios clichês para ganhar facilmente o público, o que a crítica desaprova iminentemente. Fazer comédias boas é algo raríssimo hoje em dia. E pra quem realmente aprecia este estilo de filmes, Missão Madrinha de Casamento é mais que obrigatório. Talvez seja uma das comédias mais aclamadas da história do cinema. Não só por conta de seu sucesso inquestionável de crítica, mas por ser tão frágil na intenção de conquistar o público usando como arma principal um roteiro forte e criativo, pobre de clichê. Você irá gargalhar muito aqui, como nunca gargalhou em nenhum filme. Em vez de usar os já citados elementos comunais, Missão Madrinha de Casamento inova e coloca o humor no cotidiano e na desgraça, transformando o que poderia ser dramático em pura comédia.

Além de tudo, conta com a participação de um elenco muito bem formado, a maioria deles artistas de televisão, como nossa protagonista talentosa, Kristen Wiig (aluna do Saturday Night Live junto com Maya Rudolph, também presente aqui), no papel de Annie (e que também atua aqui como uma potente roteirista, indicada ao Oscar em 2012) e a estrondosa Melissa McCarthy, no papel confortador e hiper-hilário de Megan, de quem eu defendi a indicação merecidíssima ao Oscar, que recebeu acusações de " forçada" e/ou "promotiva", mesmo não sendo. McCarthy revelou-se aqui bem mais aguçada e verossímil do que sua personagem no seriado Mike & Molly, que a consagrou no mundo da televisão e a garantiu o Emmy.

Em alguns pontos, há certas coisas que me agradaram na película. Uma delas foi a maneira fortunada de como o filme explora as mulheres e seu universo característico e complexo de forma densamente arrebatadora, o que faz dele dotado de um sentimentalismo femininista inteligente e digno. Não creio que seja um dos melhores filmes da modernidade, mas está bem aproximado disto. A certeza que você pode ter ao assisti-lo é que vai gostar, de qualquer modo, você vai gostar. Pode até discordar de alguns elementos desnecessários, mas é inevitável afirmar seu apreço. No meu caso, foi surpreendente assistir Missão Madrinha de Casamento. Nos primeiros minutos, achei bem fraquinho, só que depois, o filme ganhou um espírito singular e ambicioso, o que o fez bem diferente de todos os outros. Um filme que celebra a vida.

Missão Madrinha de Casamento (Bridesmaids)
dir. Paul Feig - ★★★★