Mostrando postagens com marcador TV. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador TV. Mostrar todas as postagens

sábado, 26 de outubro de 2019

OLHOS QUE CONDENAM (2019)


Intenso, revoltante, instigante, esta é "Olhos Que Condenam", a grata produção da Netflix que é uma das melhores coisas que alguém vai poder encontrar no catálogo esse ano.

É a confirmação definitiva de Ava DuVernay como diretora de grandes trunfos, tanto com um cinema ativista, que se dedica a todo instante a narrar as injustiças que o sistema comete contra o povo negro, e imprimindo na tela toda a revolta e os sentimentos de raiva e indignação que permeiam a condição do afro-americano na sociedade dos EUA: a hierarquia racista e xenófoba de uma nação com um passado escravocrata e um presente "branco", quanto na mise-en-scène, que a cineasta soube trabalhar seu material com tamanha habilidade e precisão.

É de certa forma uma sequência ao 13ª EMENDA, que falava sobre o encarceramento da população negra, e como o sistema penitenciário guarda a infeliz herança da escravidão (e da segregação), manifestada em outros moldes nos dias de hoje: a marginalização, a criminalidade, a negação às oportunidades e a prisão. Talvez seja muito simples apenas pontuar isso, mas é algo muito mais complexo, que está enraizado na construção da nação americana.

"Olhos que Condenam" me deixou vidrado... acho que há muito tempo eu não via uma minissérie que me deixasse tão atento assim. E ao mesmo tempo me vi ali junto com os personagens, acompanhando o drama da condenação injusta. A injustiça é sem tamanho e a indignação é recorrente, também há uma necessidade de mostrar o que acontece no interior com esses rapazes, expostos à injustiça e forçados e lidar com o encarceiramento tão novos, como isso se torna um divisor de águas na inocência de adolescentes despreocupados que se tornam criminosos convictos e ganham a atenção da mídia graças a um processo fraudulento, apressado e forjado pela polícia.

O tom de denúncia é latente, e há plena consciência do quanto é forte do que a minissérie se trata, e da importância que ela tem, seja ao trazer para a tela uma história que traz cinco rapazes que são, eles próprios, as provas vivas da injustiça, do racismo e das falhas de um sistema desumano e despreocupado com a real justiça, tanto quanto para configurar uma forte crítica ao governo de Trump, que inclusive é mencionado como tendo proposto à época que os cinco garotos fossem sentenciados à pena de morte por um crime que não cometeram.

Make America White Again? A "América branca" foi construída debaixo do genocídio de indígenas, da escravidão de negros e da violência de conflitos sangrentos. Pra mim essa minissérie também é, essencialmente, um retrato de como a América é colorida por essa violência, na sua história e na cultura do racismo e do preconceito. A violência está fortemente presente porque a opressão das autoridades é a principal marca do sistema ianque. DuVernay traz para este trabalho a tristeza e a indignação, e de alguma maneira o descontentamento com a vileza de um governo que parece assentir com as injustiças que acontecem no país. Há uma urgência, e "Olhos que Condenam" incorpora bem o sentimento do qual a população negra está impregnada: justiça.

Com um elenco admirável, um grupo de atores que estão excelentes e merecedores de reconhecimento, "Olhos que Condenam" merece destaque. E Ava DuVernay merece ser celebrada como uma das melhores cineastas em atividade hoje nos EUA. Essa minissérie é imperdível.

Olhos que Condenam
When They See Us
dir. Ava DuVernay
★★★½

domingo, 14 de janeiro de 2018

TOP OF THE LAKE


Agora é a minha vez de comentar um pouco sobre o mais novo trabalho da cultuada cineasta Jane Campion, que na verdade não é diretamente ligado ao cinema, mas que se trata de uma minissérie (na verdade duas minisséries distintas): Top of the Lake (2013) e sua continuação, Top of the Lake: China Girl (2017), criação dela em parceria com o roteirista Gerard Lee. 

Top of the Lake (2013)
diretores: Jane Campion & Garth Davis
★★★★


Começa com o retorno de uma detetive de Sydney, Robin Griffin (interpretada majestosamente por Elisabeth Moss, uma das maiores atrizes do momento) à sua cidade natal, um lugarzinho escondido no interior da Nova Zelândia, e prossegue com o desaparecimento de uma adolescente grávida de 12 anos e o desembaralhamento de uma trama que envolve diversos temas e histórias capturadas numa complexa rede de revelações que conectam os personagens uns aos outros, criando um laço fortíssimo entre cada um deles. 

É uma história de redenção, principalmente, mas que para chegar nesse ponto atravessa muitos perrengues. Até porque a destemida Robin Griffin, que assume o caso da jovem desaparecida, Tui, é uma mulher forte, resistente, indomável, que dá cara à tapa para poder afirmar seu lugar num mundo dominado pela figura masculina que sempre (ou quase sempre) é retratada com muito ódio, pintados como emissores do mal e da vilania (e as mulheres, que aqui são retratadas como seres machucados e à procura da liberdade, são as vítimas dessa vilania, e que, nesta trama, tem seus caminhos definidos pelas feridas provocadas pelos homens nas suas histórias particulares e os rumos delas). Inclusive um dos personagens, interpretado por Peter Mullan, pai da garota desaparecida, é um sujeito tão desagradável que a maior parte do tempo é visto com muita antipatia e um certo rancor e o seu comportamento brutal, quase animal, que se manifesta não só na forma como ele trata as mulheres mas também os homens, como é o caso dos seus filhos, que também são vitimados (e foram moldados) pelo comportamento irascível e odiável do pai. 

Se há um vilão na história, é ele. E se há uma heroína, bem, temos então Robin Griffin, a detetive cuja missão (inicial) é re-estabelecer a paz e a segurança na cidadezinha e resolver o misterioso caso de Tui (isso antes dela desaparecer, quando sua gravidez é descoberta e existe um grande risco dela ter sido vítima de estupro, embora a menina não se pronuncie a respeito disso, quase não diz uma só palavra, muito contida, reservada).

Outra personagem bastante interessante da trama (e enigmática, digamos) é a G.J., interpretada misticamente por Holly Hunter, uma mulher com espécie de poderes espirituais que se trata de uma espécie de guia para um grupo de mulheres que está acampando numa região chamada Paradise. As falas dela são incríveis e a atuação da Hunter valoriza bastante o poder que essa personagem tem. 

Campion, que já dirigiu filmes como O Piano, lida com o brutal e o amargo com um puro brilhantismo na sua condução repleta de energia e domínio. Sabemos que se trata de uma minissérie, mas é ótimo quando temos uma cineasta por trás do projeto, que recebe um tratamento mais cinematográfico, o que é bastante especial. E Campion, dos cineastas que estão "migrando" para a TV, é um dos principais destaques com este belo, sensível, cruel e duro conto sobre encontros entre passado, presente e futuro e as cicatrizes que carregamos nas nossas vidas, e a(s) história(s) por trás dessas cicatrizes. Comparações foram feitas entre Top of the Lake e Twin Peaks, o que de fato não deixa de ter sua parcela de verdade.

Top of the Lake estreou no Festival de Sundance e também foi exibido no prestigiado Festival de Berlim, em 2013.

Top of the Lake: China Girl (2017)
diretores: Jane Campion & Ariel Kleiman
★★★★★


Se em Top of the Lake as revelações da personagem Robin Griffin ganharam uma atenção diferenciada ali pros últimos episódios, em China Girl temos um foco ainda mais extenso dentro dessa personagem, que desde a primeira minissérie, quando passamos a saber mais os detalhes do seu trágico passado, já tinha uma abordagem mais diferenciada dos outros núcleos da trama, afinal é o núcleo dela que guia (e conecta) os outros, e aqui vemos uma continuação disso só que com um certo amadurecimento da construção dramática de Griffin.

Agora o cenário é outro. Saímos da cidadezinha do interior e entramos na metrópole oceânica Sydney, na Austrália, onde Griffin agora trabalha como detetive no mesmo departamento de abusos e crimes sexuais. Já se passaram quatro anos desde os eventos na Nova Zelândia, e muitas coisas se passaram desde então: Griffin, que ia se casar com Johnno, o deixou depois que descobriu, no dia de seu casamento, que ele a traia; com isso ela ruma a Sydney, ainda partida, talvez procurando uma forma de se redimir. É aí que entra a filha de 17 anos dela, Mary, que tem problemas com a sua mãe e que está prestes a se casar com um homem bastante problemático, um ex-professor chamado Alexander, que vive dentro de um bordel onde ensina prostitutas asiáticas "a falar inglês". O pensamento "revolucionário" dele acaba contaminando Mary, quem ele acaba incentivando a entrar na prostituição.

Robin começa a investigar um estranho assassinato em quem uma jovem asiática foi encontrada morta numa mala. E ao mesmo tempo, inicia uma nova relação com sua filha biológica, quem ela nunca tinha encontrado antes, e aos poucos vai se tornando uma presença forte na sua rotina. Outra pessoa que também vai marcar esse novo capítulo é Miranda, a policial que acompanha Robin em suas investigações, com quem ela inicialmente não compactua, apesar de desenvolverem uma amizade inusual e até um pouco cômica, às vezes.

Se aqui Campion vai mais fundo no que diz respeito à abordagem (dissecação) das temáticas que surgem nas tramas interligadas (prostituição, adoção ilegal, barriga de aluguel, etc.) pode-se dizer que o mesmo acontece na narrativa, que de certa forma se aprofunda, em especial com os personagens, e por um outro lado dramaticamente também. Pode-se dizer que este trabalho é superior ao anterior, mesmo que os dois tenham méritos que os qualifiquem quase que igualmente. Campion prova que a delicadeza também pode nascer da brutalidade e da crueldade da vida, tão desnorteantes são as suas histórias que, no final, se provam mais humanas do que poderíamos prever. Top of the Lake é, então, um trabalho sobre humanidade, sobre descobrirmos através das nossas próprias feridas e de como lidamos com elas, a capacidade de amar. E de como transformamos as pessoas com quem convivemos. Elenco gigante, China Girl é uma pequena grande obra-prima da TV.

Foi exibido fora de competição no Festival de Cannes 2017, como parte da seleção especial do aniversário de 70 anos. 

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

TWIN PEAKS – THE RETURN


É, chegou ao fim. Foi difícil dizer adeus a Twin Peaks – The Return, o tão aguardado, tão esperado delicioso, maravilhoso e arrepiante comeback de uma das maiores séries já produzidas – ou melhor dizendo, a maior série de televisão de todos os tempos, creio eu – depois de um intervalo de 25 anos desde que "how's Annie?" intrigou os espectadores ao final de uma 2ª temporada (e o "see you in 25 years"). 

O retorno. A cidade. Laura Palmer. O mistério. O bem e o mal. David Lynch há anos não entregava um trabalho assim, de um pique tão estupendo, é a volta do mais consagrado, famoso e popular feito da carreira desse mestre que, ainda com a sua filmografia (única), curioso perceber que nenhum filme obteve tamanho sucesso (em termos de popularidade) como o de Twin Peaks, um eco, um marco, a revolução da televisão norte-americana, de uma grandeza ímpar.


Também vale lembrar que é o próprio comeback do diretor também, que está sem dirigir um longa-metragem desde 2006 (há 11 anos) quando entregou Império dos Sonhos (tido por ele próprio, recentemente, como seu "último" longa), ou seja, estamos falando de um regresso duplo, de Lynch e de Twin Peaks. E, ainda, de Lynch a Twin Peaks. Sem falar dos espectadores, é claro.

Se formos compreender Twin Peaks – The Return como um filme de 18 horas, vale a pena pensar que trata-se de uma das experiências mais incríveis que Lynch já produzira com a imagem, com a câmera. Mas, principalmente, é um retorno aos princípios da arte televisiva. A TV é subestimada? Superestimada? Lynch procura atenuar uma provocação da linguagem televisiva ao inserir uma atmosfera tipicamente cinematográfica (percebe-se na construção de planos evocativos, que pensam além da tela e convidam o espectador a uma dimensão introspectiva) e trabalhá-la com um frescor tão benévolo que não há quaisquer distinções imagináveis entre a imagem de TV e a imagem de cinema. Mas, afinal, são imagens.


Lynch é um mestre das imagens, ele sabe como manipular cada fragmento e cada elemento disposto em tela, ele compreende a subexistência de uma ilusão que se alterna a cada piscadela. O olhar é ilusão, mas o olhar é real. E a imagem é um veículo pelo qual Lynch monta, desmonta e remonta visões, pontos de vista, o puro ilusionismo imagético.

Se há mentira no que é visto, há também a verdade do sentimento (o que os olhos não veem, o coração não sente) mas onde é que entra a compreensão? Sim, a busca por um sentido. Afinal, não é esta a principal "reclamação" dos queixosos de Twin Peaks? "O que quer dizer isto, aquilo?". Quem conhece David Lynch sabe que interpretar seus trabalhos como meros "enigmas a serem desvendados", "quebra-cabeça a ser montado" é no mínimo um puta de um insulto. E isso não quer dizer que não é preciso significado, mas é preciso sentido? Precisamos mesmo de um sentido para entender tudo o que está acontecendo ao nosso redor? E porquê?

Lynch junta todos seus esforços para nos fazer sentir, sentir mais e sentir no volume máximo, mas não compreender – e isso parece ser a causa da frustração de muita gente que, ainda num final arrebatador daqueles, procura um sentido, pra quê? Em tempos onde razão fala mais alto, coração é desvalorizado, incompreendido, rejeitado. Sabemos compreender. Sabemos sentir? Discernir a mentira da verdade, e a doce ilusão que é estar diante do desconhecido?


David entrega mais perguntas do que respostas, e se o incômodo que isso pode gerar talvez afaste uma plateia com gostos mais convencionais, por outro ensina que uma pergunta pode ser uma resposta também. A nova temporada de Twin Peaks tem um foco especial no detetive Dale Cooper, desaparecido há 25 anos, cujo paradeiro ninguém sabe no que deu.

Eis que somos apresentados a duas versões de Dale Cooper, os "duplos", um cara que realiza trabalhos sujos e tem contatos no mundo do crime – o doppelganger – bem como possui certos "poderes" estranhíssimos, e do outro lado um homem de família, que trabalha em uma empresa de seguros e que também está envolvido em confusão, mas a sua identidade trapaceira acaba sendo trocada – na verdade meio que filtrada – pela de um personagem adorável, o mais adorável da série: Dougie, um sujeito de quem conhecemos muito pouco mas aprendemos a gostar dele ao percebermos a inocência de seus atos e o seu jeito meio sonolento e pacato de ser, como se fosse um velhinho, emitindo um misto de fofura e humor.


No decorrer da série – permeada por estranhos eventos dentro e fora de Twin Peaks – há experimentalismos dos mais diversos, o universo lynchiano e o estilo surrealista do diretor, entre as provocações que surgem nesse ínterim, completam e preenchem a tela. Há referências diversas a filmes que ele dirigiu, por exemplo Cidade dos Sonhos (há algumas cenas que inclusive parecem ter sido gravadas em um lugar muito semelhante ao Club Silenzio, e a participação de Rebekah del Rio, de "Llorando", ao final de um episódio), Veludo AzulEraserhead e inclusive Twin Peaks Os Últimos Dias de Laura Palmer, o famoso filme da personagem.

Nesta temporada, alguns personagens secundários da trama da série de outrora retornam com mais amplitude, por exemplo o Gordon Cole, interpretado pelo David Lynch (numa das atuações mais importantes do seriado), a Diane (que não chegou a aparecer nas duas temporadas anteriores, mas era mencionada com frequência pelo Dale Cooper em mensagens num gravador – e que nesta temporada é interpretada belamente pela sempre fascinante Laura Dern), Sarah Palmer, mãe de Laura, que também está com um foco maior, principalmente nos episódios derradeiros; entre outros.

Há também novas personagens nesta geração, além do já mencionado Dougie, temos a sua esposa, Janey E. (Naomi Watts, em mais uma parceria triunfal com o mestre), uma mulher de punhos de ferro e que não tem medo de enfrentar ninguém, e o filho deles dois, Sonny Jim; Steven Burnett, um rapaz perturbado que mantém uma relação tempestuosa com a jovem Becky, filha de Shelly Johnson e de Bobby Briggs, formando uma lista de personagens das mais fartas e interessantes.

Se houver uma quarta temporada – e se ela chegar, Lynch com certeza não a fará para dar respostas, mas sim para criar perguntas ainda mais excepcionais – será muito gratificante, até porque sempre que tem algo de novo do Lynch é uma grande honra para nós, os espectadores. Com este retorno triunfal, ele prova não só que continua em controle pleno de sua arte como também está cada vez mais aberto a experimentar em novos terrenos, desta vez, por exemplo, com a fotografia digital (tecnicamente falando) que está muito bem construída e tem uma funcionalidade incrível; e também com uma índole construtiva bem mais liberal, e uma linguagem visual com aprofundamentos impressionantes (isso se dá à fotografia magistral de Peter Deming).


Entre outros aspectos técnicos desta nova temporada, também se sobressai a montagem, que é de uma valorização sublime (e dá pra acreditar que teve gente que ainda criticou a edição dos episódios?). Há também o uso fascinante de efeitos visuais por diversas vezes (e maneiras). Lynch sempre foi um mestre no quesito "causar visualmente" e os recortes e impressões que ele realiza ao inserir objetos em cena e os experimentalismos das técnicas de efeitos são realmente deliciosas.

Embora seja uma temporada com um foco disperso entre muitos artifícios de gênero, em dado momento temos o horror, o pânico, o suspense; e dado outro, temos o romance, a beleza, o sentimentalismo, uma naturalidade imensa que recaí para um senso de humor aguçadíssimo (principalmente no núcleo de Dougie, o núcleo "benévolo" da bondade, reconciliação, fraternidade, graça e alegria) e pelo outro lado temos núcleos mais tensos, desestabilizados, perturbadores, que acabam evocando no público a estranheza, o medo, o choque, e também a raiva (como é o caso do núcleo do Richard Horne, um personagem com um tom mais vilanesco).


Entre retornos e novas chegadas, Twin Peaks – The Return deixa uma marca no nosso coração, e um suspiro que já alerta a saudade. E aquele final... Os gritos de Sheryl Lee... Dale Cooper... E os gritos, e os cochichos. Puxa vida. Aquilo sim é um final. Quem dera eu pudesse agradecer à Lynch e também à Mark Frost, esses dois gênios, por uma criação tão singular como esta. E parabenizar, é claro. Twin Peaks – The Return é inesquecível, é simplesmente um estouro, maravilhoso. E eu mal posso esperar pra rever essa obra máxima.

Twin Peaks – The Return
★★★★★

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Twin Peaks – Segunda Temporada


Eis que ninguém esperava que a 2ª temporada de Twin Peaks fosse ser tão longa e a ansiedade em saber quem é o assassino de Laura Palmer cresce mais a cada episódio, com o mistério mantido desde a primeira temporada. Uma pena que a série foi cancelada pelos produtores da ABC, mesmo que tenha um final tão desconcertante e misterioso, um tanto obscuro, majestoso, que deixa a gente morrendo a descobrir seus porquês. Nesta temporada, vemos o desenrolar e um foco maior nas subtramas de Twin Peaks, dos triângulos amorosos, das relações entre os moradores e dos envolvidos no assassinato de Laura Palmer e os afetados e possíveis suspeitos. 

A revelação do assassino me deixou em dúvida, mas fez um completo sentido, até porque o modo como ele é revelado, à frente de tantos outros episódios, pode deixar muita gente em dúvida se foi ele mesmo que matou a Laura. No episódio final, mais revelações são feitas e mais questões são abertas (e, infelizmente, deixadas em branco). É a segunda temporada que afirma esse status de trabalho artístico de Twin Peaks, com grandes episódios muito bem dirigidos e alguns experimentos incríveis (em especial no último episódio, marcante em sua concepção). 

É nesta temporada que passamos a descobrir mais sobre Laura Palmer e os seus lados "bom" e "ruim", a jovem mocinha que todos da cidade tinham o maior carinho e mal sabiam que tinha um envolvimento sério com prostituição, drogas e crime. A questão da dualidade é trabalhada com afinco por toda essa temporada, e pode ser muito bem observada tanto nas relações dos moradores da cidadezinha (os triângulos amorosos de Ed e de James Hurley) e como estes acabam se refletindo e contextualizando caso postos frente a frente, como um espelho. 

É também nesta temporada que, em seu desfecho enigmático, propositalmente desarmador, que é possível observar mais de perto o detetive Cooper, em sua bondade e generosidade, sendo corrompido pela maldade, no último episódio, quando este entra em contato com o espírito de Bob, um personagem que também é observado com mais proximidade nesta temporada, e é nesta que passamos a saber quem ele é e qual papel desempenha na vida de personagens como Leland Palmer e, posteriormente, de sua filha, a assassinada Laura.

O bem e o mal. Os picos gêmeos. Lynch e Frost criaram uma das maiores (se não é a maior, creio) série da história da TV, alados de um time de diretores e roteiristas competentes. Enfim, nunca é demais elogiar Twin Peaks, e sim celebrá-la é um ato tentador a ser feito com palavras. Se a primeira temporada já tinha sido um estouro, a segunda foi ainda mais extasiante, embora eu ache que o seu único defeito seja mesmo a quantidade de episódios que matam a gente de ansiedade, mas no final, olhando para trás, a gente observa quantas coisas vimos no caminho e podemos aprender. 

Twin Peaks
2ª Temporada
★★★★★

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Twin Peaks – Primeira Temporada


Uma pequena cidadezinha. O corpo de uma jovem adolescente enrolado em plástico à beira de um rio. Um detetive idiossincrático do FBI. Uma pergunta que não cala: "quem matou Laura Palmer?". Eis que surge aquela que é (justamente) considerada por muitos a maior série de TV dos anos 90 e a mais revolucionária produção da televisão americana: Twin Peaks. A televisão nunca mais foi a mesma depois que David Lynch e Mark Frost criaram esta maravilhosa série, que já em seus primeiros episódios é capaz de fazer o espectador vibrar, se emocionar e ao mesmo tempo questionar e também ser pego de surpresa (ou talvez não, para os admiradores do diretor) pelos elementos surrealistas inseridos na obra por Lynch. É um trabalho muito único tanto dentro da filmografia de David quanto na própria TV em si. Foi Lynch que deu traços de arte à TV americana tão fadigada e regurgitada de reinserir os mesmos padrões e as mesmas técnicas que não davam muita relevação para a sua arte. E o mais genial é que em Twin Peaks vemos o encontro magnífico (a ressaltação, a lembrança de que TV também é um conteúdo artístico) entre estes dois picos: a TV e a arte. 

A primeira temporada resume-se a 8 episódios especialíssimos que acompanham os acontecimentos seguintes à morte de uma jovem popular e conhecida por praticamente todos os habitantes de Twin Peaks chamada Laura Palmer, e a chegada de um simpático detetive do FBI encarregado de investigar o seu assassinato e encontrar o autor, Dale Cooper. Vemos estes dois personagens e o desenrolar das situações nesta estranha e aparentemente pacata região, como também acompanhamos os enlaces amorosos de outros personagens da trama e os triângulos que se instalam. 

Nem todos os episódios são dirigidos por David Lynch (e alguns nem são escritos por ele também) mas nota-se uma qualidade e um empenho extraordinários por parte do talentoso time de diretores e roteiristas por trás da produção da 1ª temporada além de Lynch e Frost. Interessante como alguns episódios flertam com o horror, e outros que são mais românticos e suaves, mas sempre sob um clima de tensão, e às vezes até cômico. 

O primeiro episódio é fascinante, comovente, acompanhar a dor e o sofrimento dos pais e daqueles próximos e conhecidos e Laura Palmer, como amigos e também de outras pessoas que conviviam com ela rotineiramente, é um clima misto de tragédia, tensão e tristeza que toma conta do episódio, deixando o espectador com um ar de melancolia. 

Entre os ótimos episódios desta bem-sucedida temporada, que conseguiu atrair uma legião de seguidores e admiradores e até mesmo pôde ser exibida com muito sucesso aqui no Brasil, na década de 90, na TV aberta (primeira vez na Globo, com uma exibição cheia de cortes e, enfim, depreciativa do material original, e posteriormente pela Record), acho que devo ressaltar alguns que me tocaram de maneira muito especial, que são, além do já mencionado episódio-piloto de 90 minutos: Zen, or the Skill to Catch a Killer, dirigido pelo próprio Lynch, e que temos a "aparição" de um dos grandes momentos surrealistas e pivôs desta temporada, Rest in Pain, o episódio em que acompanhamos o velório de Laura Palmer, e The Last Evening, o episódio maravilhoso que encerra esta temporada e abre um caminho para a segunda temporada ainda mais enigmática e repleta de suspense.

Muito interessante poder ser introduzido a uma lista tão rica de personagens e subtramas que dão vida a esta pacata cidadezinha de Twin Peaks chocada pelo assassinato brutal de uma jovem que todos tinham tanto respeito e admiração, mas que, a partir da segunda temporada, passa a ter um retrato ainda mais duvidoso quando estamos cientes de que a jovem não era completamente quem aparentava ser. O filme dela, que viria dois anos após, Fire Walk With Me, é ainda mais assustador nesta questão do retrato do lado obscuro da personagens e de sua personalidade perturbada. 

Twin Peaks
1ª Temporada
★★★★★

domingo, 7 de agosto de 2016

CRISIS IN SIX SCENES, a nova série de Woody Allen


A tão esperada série de Woody Allen acaba de ganhar um nome! O primeiro seriado do cineasta foi batizado de Crisis In Six Scenes, e a estreia está marcada para o mês que vem, setembro, dia 30. Infelizmente, a série ainda não tem previsão de lançamento aqui no Brasil. Só se sabe que ela será disponibilizada através do serviço de streaming Amazon Prime, apenas disponível nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Alemanha. 

O seriado terá 6 episódios, e contará com a presença de Elaine May, Miley Cyrus, John Magaro, Rachel Brosnahan e o próprio Woody, que vive no seriado um personagem de nome Sidney Muntzinger. Segundo a sinopse, a série se passa na década de 60 e acompanha uma família de classe média dos E.U.A. e como o cotidiano deles é afetado pela chegada de uma convidada bastante inusitada. Cada episódio terá meia hora de duração.

Por outro lado, Woody Allen revelou que a série só terá essa temporada, a primeira e a única de Crisis In Six Scenes. Aliás, quem acompanhou as filmagens e as notícias envolvendo os bastidores da série, que esteve em produção desde o ano passado, sabe que o Woody estava bem insatisfeito e incomodado com o projeto, tendo até dito que "tinha cometido um erro catastrófico ao assinar o contrato com a Amazon", numa entrevista ano passado em Cannes. 

Café Society, o mais novo filme do diretor, já estreou nos E.U.A. e teve sua estreia adiantada aqui no Brasil. Antes previsto para outubro, agora o filme irá estrear dia 25 desse mês, dentro de algumas semanas. O filme teve uma recepção bem calorosa por lá. Alguns até andam dizendo que o filme é bem melhor que alguns sucessos recentes dele, como Meia Noite em Paris ou Vicky Cristina Barcelona. Para os críticos, que nos últimos anos andaram metendo o cacete nos filmes dele, estarem gostando tanto assim, coisa boa deve ser. 

quarta-feira, 30 de março de 2016

EXTRAS / 1ª Temporada


Olha, se existe uma série que me deu trabalho para encontrar foi Extras. E isso há um bom tempo. E vejam que é uma série boa, não tem como negar. É incompreensível como, nos dias de hoje, é tão difícil encontrar esses conteúdos na internet. Raridade. E o pior é que agora estou ficando sem memória aqui no computador e vou ter que dar um jeito de me organizar e apagar alguns arquivos para disponibilizar mais espaço. Faz uns dias, graças à "tecnologia" torrent, consegui baixar as duas temporadas de Extras, a aclamada série do comediante britânico Ricky Gervais, um dos meus favoritos. O programa foi o auge da carreira cômica de Ricky, que deslanchou com a primeira versão de The Office (se a versão americana já é um achado, imagine a inglesa, que delícia que deve ser, ainda mais protagonizada pelo Ricky). Apesar das 2 temporadas (2005-2006), cada uma com 6 episódios, sem contar 1 episódio especial de Natal, a série inglesa Extras repercutiu o suficiente para conquistar Globo de Ouro, Emmy e o gosto dos críticos, que adoraram o seriado. E não é por acaso. A série é realmente boa. Mal eu a terminei e já amo.

Ricky Gervais interpreta Andy, um figurante aspirante a ator que leva uma vida de azar e insucessos. Pra se ter uma noção, o caso do homem é tão sério que ele passa os episódios perambulando pelo set de filmagens mendigando falas para grandes atores e diretores também. Pode parecer até bizarro do jeito que eu tô falando, mas a verdade é que é tão ridiculamente engraçado, sabem? E certas vezes essas situações até refletem na nossa realidade, e como a gente tem de enfrentar certas coisas com garra e, se não, o desespero vira a nossa arma. Nos breaks das gravações, ele faz piadas com a amiga, Maggie Jacobs, também figurante. Os dois se metem em cada presepada. É de gargalhar!  E, como se não bastasse mendigar falas, ou ele não sai na gravação, ou ele é cortado, ou ele faz alguma coisa de errado e acaba ficando de fora... Vou confessar, é bem engraçado!

O interessante da série é ver como o Ricky Gervais consegue trabalhar bem um estilo de humor difícil e que predispõe de uma visão mais excêntrica e detalhista como a do Ricky mesmo. A delícia desse humor é que ele te pega de surpresa. A complexidade das piadas, o arranjo discreto dos personagens, a armação do conflito... É bem legal ver que por trás de um episódio há toda uma realização.

E a série funciona. Ricky Gervais se vira na direção, na atuação e no roteiro da série impecavelmente. O cara sabe fazer humor como ninguém. Singular. Uma pena que Extras não tenha passado da 2ª temporada. Seria lendário. Acho que vou dar um intervalo daqui da 1ª para a 2ª temporada e vou tentar baixar ou assistir em algum lugar a versão inglesa de The Office. Caso não, vou dar uma espiada na mais recente série do Ricky, Derek, que rendeu a ele indicação tanto ao Globo de Ouro quanto ao Emmy. Ouvi elogios de amigos quanto à performance premiada dele. Tô doido pra conferir.

Cada episódio da série leva o nome de uma celebridade, que geralmente é o/a protagonista ou principal de um filme onde Andy é figurante. Vocês não tem a noção do quão engraçado é.

1. Ben Stiller

Andy Millman e sua amiga, Maggie Jacobs, estão figurando num filme de guerra dirigido por Ben Stiller. Andy acaba virando amigo do homem que inspirou o filme, um refugiado checheno (?) cuja mulher foi assassinada em virtude da guerra. Nesse mesmo episódio, ele e Maggie vão a uma festa e acabam se metendo em encrenca: Andy tenta reverter racismo, Maggie fica sem saber o que fazer quando um homem com uma perna menor que a outra quer sair com ela... E pra acabar tem um bate-boca no final entre o Andy e o Ben Stiller, uma das melhores cenas.

2. Ross Kemp / Vinnie Jones

Esse episódio eu não consegui entender muito bem (acho que foi aquela legenda toda desorganizada que me fez perder a concentração), mas tem partes engraçadas. Já na primeira cena, o Andy, após terminar uma gravação, ouve de um dos diretores: "Ok, só temos que retirar aquele gordo patético da cena...". Não é o melhor da temporada, mas tem coisas boas.

3. Kate Winslet

O melhor episódio dessa temporada. Andy e Maggie estão trabalhando num épico sobre o Holocausto. Indiretamente, eles acabam fazendo amizade com a Kate Winslet, protagonista que faz uma freira no filme, e que "ensina" Maggie a dizer besteiras para o affair da moça, um outro figurante. Nesse episódio a Kate Winslet faz um discurso mega engraçado, mas verdadeiro, sobre os vencedores do Oscar, dizendo que é só você fazer um filme sobre o Holocausto ou guerra e eles te dão um Oscar (ela dá exemplos, como O Pianista e A Lista de Schindler). Ironicamente, a Kate venceu o Oscar de Melhor Atriz em 2009, alguns anos depois, por O Leitor.

4. Les Dennis

Se por um lado a primeira temporada de Extras traz participações de estrelas como Kate Winslet, Patrick Stewart e Samuel L. Jackson, participações bem interessantes, surpreende trazendo alguns nomes até então desconhecidos, como o Les Dennis, quem eu nunca tinha ouvido falar de até esse episódio. E ele está bom aqui. Nesse episódio, ele faz um ator que contracena com Andy na versão teatral de Alladin. Que raiva daquele agente do Andy, viu? Ô carinha incompetente (quem interpreta ele -- e eu não sabia -- é o co-roteirista e co-diretor da série, Stephen Merchant). O episódio, em si, é engraçadíssimo.

5. Samuel L. Jackson

Maggie marca um encontro com um rapaz e faz de tudo para não soar racista ao lado do homem, que é negro. Andy consegue uma fala com Samuel L. Jackson através de um outro figurante, que o chama para sair. O Samuel L. Jackson aparece em umas três cenas, ele quase nem tem falas, chega até a ser o próprio figurante do episódio.

6. Patrick Stewart

Último episódio da 1ª temporada. Andy entrega pessoalmente a Patrick Stewart a cópia de um roteiro televisivo seu para Patrick avaliar e tentar enviá-lo à BBC. O Andy consegue uma reunião com dois caras, produtores de comédia da emissora, e fica encarregado de desenvolver os episódios ao lado de um homem escandaloso que acaba o tirando do sério (e isso acaba tirando o outro homem, gay, do sério também). Uma das coisas mais engraçadas desse episódio é o encontro do Andy com o Patrick Stewart, e o Patrick contando para o Andy um filme que ele escreveu, sobre um homem que tem o poder de realizar tudo com a mente, como o famoso personagem de Stewart, o Professor Xavier. É hilário.

★ 

quinta-feira, 17 de março de 2016

THE OFFICE / 1ª Temporada


A primeira temporada de The Office, muito provavelmente por ser a mais curta (são 6 episódios no total), é a mais leve das temporadas. E, mesmo sendo também despretensiosa e minimamente introdutória, a temporada inicial de um dos seriados mais aclamados e populares da televisão norte-americana não escapa de certas falhas. Por outro lado, é interessante pra quem começou a acompanhar a série lá nas últimas temporadas (como eu) observar esse pontapé inusitado e acomodado. Se formos ver no geral, até que a 1ª temporada de The Office vale a pena, viu? 

Não sei se já narrei essa história antes, mas meu professor de inglês ficou de me emprestar há mais de um ano, eu acho, o box da versão original do Ricky Gervais (The Office britânico), segundo ele "mais hilário que o americano". Mas o tempo passou e eu acho que ele acabou se esquecendo, muito embora uma hora ou outra ele ainda me lembre. O pior é que na época não consegui achar na internet. Quando eu tiver um tempo, vou tentar procurar em torrent. Enfim, Ricky Gervais leva o crédito de co-roteirista e produtor executivo dessa primeira temporada. Legal a iniciativa dele de ter emprestado a sua criação para os americanos, já que ele não obteve muito sucesso mesmo na TV britânica (a versão original chegou a ganhar um Globo de Ouro, mas a fama foi pouca). 

Foi até inteligente da parte dele, digamos, já que, em comparação ao inglês, o The Office americano foi mil vezes mais bem-sucedido e amplamente recebido e distribuído mundo afora. E, de qualquer forma, o projeto, independente desses aspectos, é uma obra. Eu ainda não vi o britânico, mas o americano é maravilhoso. O reconhecimento à versão americana teria justificado o insucesso da versão britânica? Se foi esse o objetivo do Gervais, pode-se dizer que não houve desapontamentos. E, afinal, que mal há nisso? 

Não há muita coisa a se dizer sobre a 1ª temporada de The Office. O desenvolvimento da versão americana foi lento. A lista de personagens é o básico do básico do básico da lista de personagens da série. O clima satírico impera e em certos momentos até se mostra um tanto incômodo (num bom sentido). Há momentos engraçados? Muitos. Há momentos sem graça? É, tem algumas coisinhas que não colam, mas é pouca coisa. Os seis episódios são todos bem agradáveis e digeríveis. É difícil não gostar.

Steve Carell, que antes de The Office era praticamente um Zé Ninguém (realmente, o seriado fez a carreira de Steve decolar) encarna Michael Scott, gerente regional da Dunder Mifflin, corporação responsável pelo transporte e pela confecção de papel e materiais relacionados, que lidera uma sede da empresa localizada em Scranton, Pensilvânia (sim, essa cidade existe) e mantém uma relação de fraternidade bem complicada com o resto dos funcionários (espectro ora cômico ora decepcionante, no geral mais cômico). A 1ª temporada explora uma fase de downsizing que afeta a Dunder Mifflin e põe em risco a filial de Scranton, que está sujeita a corte de gastos e demissão de empregados. 

Ainda conhecemos Jim Halpert (John Krasinski), um homem que está claramente infeliz com o trabalho tedioso mas que não vê outra alternativa em sua vida, e que tem uma queda pela recepcionista da filial, Pam Beesly (Jenna Fischer), uma garota meio deprimida (por natureza) que vive sendo perturbada por Michael. Enquanto vai levando o emprego chato aos bocejos, Halpert ainda tem que aturar o colega imaturo e bagunçado, Dwight (Rainn Wilson), seu "arqui-inimigo". Há ainda Ryan Howard (B.J. Novak), funcionário novato, Oscar Martinez (Oscar Nunez), Angela Martin (Angela Kinsey), Kelly Kapoor (Mindy Kaling), Kevin Malone (Brian Baumgartner), Meredith (Kate Flannery), Phyllis Lapin (Phyllis Smith) e Stanley (Leslie David Baker). 

Vou confessar: sou frequentemente um grande simpatizante dos personagens do Steve Carell (como ele era gordo, não é?), mas tem certos momentos em que o Michael Stone chega a ser bem irritante, hein? Puxa vida. O cara faz de tudo pra transformar a área de trabalho em um ambiente de diversão e mutualidade, mas só termina em encrenca. E o mais engraçado de tudo é que a gente, indiretamente, acaba se identificando com certas situações em que o personagem se mete, mesmo cientes dos exageros do chefe, sempre muito positivo e brincalhão, mas que chega a ser tão, mas tão descontraído que incomoda pra caramba. E, a certo modo, é bem assim que acaba quando nós tentamos consertar as coisas ou tentar novas coisas. E, é claro, tem aquelas horas que é simplesmente muito, mas muito engraçado. A vida de escritório é mesmo uma aventura. E The Office continua sendo minha série predileta.

1. Pilot

Episódio piloto. Michael Stone e o resto dos personagens são apresentados. Aquele já característico aspecto fílmico de mockumentary infesta a tela. É triunfal. Não é o melhor episódio, mas é uma boa introdução. Começamos a compreender logo por aqui o relacionamento dos funcionários e o comportamento do protagonista, o chefe Michael Stone, que perambula pelo escritório fazendo piadinhas, se exibindo em entrevistas, brincando com os demais personagens, e na maior parte do tempo difamando a ele mesmo, o que acontece com frequência nos episódios seguintes.

2. Diversity Day

Michael decide convidar um palestrante para discursar no "Dia da Diversidade" no escritório. Ele se atrapalha todo tentando deixar bem claro seu "não-racismo", e propõe aos funcionários da empresa um jogo de adivinhação relacionado a raças, culturas e religiões. A sequência do jogo é bem engraçada. Esse episódio é muito bom. Ri bastante. O melhor episódio da 1ª temporada. 

3. Health Care

Para reduzir as chances da filial cair em downsizing e economizar dinheiro, Michael coloca Dwight no controle das sistematizações do seguro de saúde dos funcionários. Episódio confuso. Não é lá engraçado, mas apesar de tudo tem seus charmes. 

4. The Alliance

Os empregados ficam paranoicos com a ameaça de downsizing. Dwight propõe uma aliança a Jim, que, ao lado de Pam, o sacaneia. Enquanto isso, Michael está sem ideias para o aniversário de Meredith. Episódio cômico, em especial a cena do aniversário, quando a Meredith e o Michael vão ler o cartãozinho com as piadas. Ri alto.

5. Basketball

Esse episódio é o mais engraçado da temporada, ao lado de "Diversity Day". Para interagir com os funcionários, Michael decide esquematizar uma partida de Basquete com os entregadores. O segmento do jogo é brilhante de tão engraçado. 

6. Hot Girl

Participação (muito) especial da Amy Adams, a moça que nomeou este episódio. Michael faz de tudo para atrair e chamar a atenção de uma vendedora de bolsas, Katy (Amy) que está ocupando uma salinha na filial. Enquanto isso, a Dunder Mifflin irá presentear o melhor funcionário com um prêmio... Até o Michael chegar. Episódio de ouro, bastante engraçado. 

terça-feira, 8 de março de 2016

30 ROCK / 1ª Temporada


A primeira série de 2016. Entre umas e outras, me pegava vendo um episódio de 30 Rock na TBS, mas nunca tomei coragem pra ver uma temporada completa do seriado, uma das séries de comédia mais aclamadas e queridas da TV americana atual. Baixei no fim do ano passado a primeira temporada, e comecei a assistir semana passada. Hoje terminei os 21 episódios. Cara, que show fantástico! E a Tina Fey... Menina de ouro! A primeira temporada de 30 Rock introduz a farta lista de personagens frenéticos que circulam pelos corredores do 30 Rockefeller Plaza (subsidiária da General Electric e estúdio da NBC, rede americana) e os bastidores de um programa de humor.

A protagonista de 30 Rock é Liz Lemon (Tina Fey), roteirista do programa "The Girlie Show" que só faz uma coisa da vida: trabalhar, e trabalhar, e trabalhar mais ainda. A mulher não tem descanso. Mas ela fica a um passo de perder a cabeça de vez quando recebe a escabrosa missão de escrever novas esquetes para um fenômeno cinematográfico, Tracy Morgan (por ele mesmo), que estrelará o "The Girlie Show", agora re-intitulado "The Girlie Show with Tracy Morgan". Lemon também terá de aturar o mulherengo e teimoso, mas gentil, Jack Donoghy (Alec Baldwin), seu novo chefe e diretor da General Electric. 

Liz se mete nas mais desastrosas armações ao lado da sua trupe de roteiristas e de sua melhor amiga, a "decadente" Jenna (Jane Krasinski) a ex-estrela burra do "The Girlie Show". Há ainda o mensageiro ingênuo Kenneth (Jack McBrayer).

Tina Fey, criadora/produtora/Liz Lemon/roteirista/mulher do compositor (Jeff Richmond), faz malabarismos com truques de humor inventivos e complexos. 30 Rock é uma delícia de se acompanhar porque é humor de verdade, é uma comédia admirável e excelentemente bem-feita. As sacadas geniais, o elenco, a Fey... 30 Rock é um trabalho digno e incomparável. Uma dádiva, plausível.

1. Pilot

Descobrimos Liz Lemon, a idealista roteirista do programa "The Girlie Show", exibido no canal NBC. Também são introduzidos os personagens Tracy Morgan, Jack Donoghy e Jenna. A cena da gravação, com o gato arranhando a cara da personagem Jenna, é bastante engraçada. Legal ver também a química rolando entre a Liz e o Tracy. Não é o melhor episódio desta temporada, mas tem suas qualidades.

2. The Aftermath

Donoghy aborrece a Liz Lemon quando renomeia o programa "The Girlie Show" para "T.G.S. with Tracy Morgan", eclipsando a melhor amiga de Lemon. Pra "recompensar" o erro, Tracy dá uma baita festa em um iate, "supostamente" dele. Episódio cool, com boas piadas.

3. Blind Date

Jack Donoghy se solidariza com a Liz  e marca um encontro entre ela e um "amigo" dele. Para conquistar a equipe do roteiro, ele se infiltra num jogo de pôquer. Episódio o.k.

4. Jack the Writer

Jack se convida para Liz para integrar a equipe de roteiristas. A ideia deixa Liz maluca, e apesar dos esforços para mantê-lo longe da equipe, tudo é em vão. Ao mesmo tempo, ela tenta convencer a sua assistente Cerie a se vestir de maneira menos chamativa. Esse episódio é bem engraçado.

5. Jack-tor

Jack vira o protagonista de uma esquete e não está convencido de que sabe atuar, e entra em desespero. Liz teoriza a possibilidade de Tracy não saber ler. Liz reata com seu ex-namorado, Dennis. Outro episódio que tem momentos cômicos memoráveis.

6. Jack Meets Dennis

Dennis, ficante da Liz, invade o espaço de trabalho dela e dá um show de idiotice. Jack demonstra seu repúdio à relação e aconselha Liz a procurar um alguém melhor. Tracy odeia ser normal, e quando vê uma matéria numa revista o "acusando" de ser normal, entra em pânico. Jenna demonstra certa preocupação quanto à sua carreira.

7. Tracy Does Conan

Jack troca Jenny por Tracy Morgan para ser entrevistado por Conan O'Brien novamente, uma vez que Tracy foi desastrosamente ruim numa entrevista anterior. O único problema é que Tracy está fora de si: esqueceu de tomar os remédios e agora está surtando. Cabe a Liz tentar contornar a situação, com 0% de sucesso.

8. The Break-Up

Liz rompe com Dennis, mas depois se arrepende. A nova namorada de Donoghy é ninguém mais e ninguém menos do que Condoleezza Rice. Episódio bom e com ótimos segmentos bem-humorados.

9. The Baby Show

Liz começa a refletir sobre a idade e criar uma família. Jack sofre com a persistência da mãe, que não para de ligar para ele e que está pensando em se mudar para o cafofo dele. Tracy trava uma guerra com Josh, membro da equipe de roteiristas.

10. The Rural Juror

Jenna está animada com o lançamento de "The Rural Juror", seu novo filme. Liz acaba não gostando do filme e tenta esconder a sua opinião da amiga. Tracy inventa a "máquina de carne", instrumento que promete revolucionar o consumo de sanduíches. Jack acaba aprovando a ideia e passa a estimular a imaginação de Tracy. Episódio de ouro. Um dos melhores da temporada.

11. The Head and the Hair

Liz e Jenna apelidam secretamente dois executivos do setor da General Electric: o "cabeça" e o "cabelo". É um dia especial no 30 Rock: Jack dá a oportunidade ao empregado mais baixo, Kenneth, para ser "chefe por um dia", e inverte de lugar com ele. Bom episódio.

12. Black Tie

Liz é o par de Donoghy no jantar de um príncipe austríaco. Jenna entra de penetra na festa após mostrar os peitos para o segurança e acaba atraindo o príncipe, um homem sem as pernas e os braços, pálido feito neve e deformado. Jack dá de cara com a ex-mulher, Bianca (interpretada pela Isabelle Rosselini, vejam só!). Jack conta para ela, mentindo, que Liz é sua noiva, e Bianca, numa crise de ciúmes, a ataca. O melhor episódio da temporada.

13. Up All Night

Dia dos Namorados. Liz recebe flores acidentalmente de um cara de outra divisão, cuja namorada se chama Liz Lemler (Anna Chlumsky). O grupo de roteiristas se reúne no 30 Rock para uma noitada. Episódio engraçado, um dos melhores. Curioso aquele jogo "casar, transar ou matar".

14. The C Word

A nervosa e rude Liz tenta mudar um pouco depois de ouvir certos relatos desagradáveis sobre a sua personalidade. Jack leva Tracy a um jogo de golfe, onde os dois se encontram com o "poderoso chefão" da General Electric, o C.E.O. Don Geiss. Episódio razoável.

15. Hard Ball

Jack decide usar a ideia de Kenneth sobre um programa, mas nem tudo dá certo. Liz convence Donoghy a não demitir Josh. Péssima decisão.

16. The Source Awards

Tracy Morgan entra para a lista negra de um poderoso produtor musical quando nega a ele a entrada em sua festa. Como forma de redenção, ele só vê uma saída: apresentar o The Source Awards. Liz acaba se decepcionando num encontro e tenta convencer o rapaz de que não está dando um fora nele só por causa dele ser negro. A cena final é provavelmente a mais engraçada dessa temporada.

17. The Fighting Irish

Jack reencontra o irmão, que lhe noticia que o patriarca da família Donoghy faleceu. Abalado, Jack decide reunir toda a família, e só sobra confusão pro lado dele. Ao mesmo tempo, ele comunica Liz que ela terá de demitir um certo número de empregados. Todos passam a querer agradá-la, mas ela já tem um alvo: a "outra Liz".

18. Fireworks

Jack precisa encobrir a programação da NBC com um especial quando Tracy se ausenta, mas está sem ideias. Enquanto isso, ele passa a competir com um executivo de uma filial da NBC, e que está usando Kenneth para obter informações.  

19. Corporate Crush

Liz começa um relacionamento de amizade com Floyd, que era namorado da "outra Liz", mas a largou depois que ela foi promovida por Jack. Enquanto isso, Jack se apaixona pela consultora de arte Phoebe (a sexy Emily Mortimer).

20. Cleveland

Liz fixa-se com o namorado Floyd, e ambos planejam se mudar para Cleveland. Mas nada é o que parece. Tracy decide sumir do mapa quando descobre que "A Cruzada Negra" está atrás dele. Jack pede Phoebe em casamento.

21. Hiatus

Episódio final da 1ª temporada. É divertido, embora um pouco dramático. Floyd está longe da cidade e desencontros de comunicação simulam um rompimento entre ele e Liz. Enquanto isso, Liz descobre quais são as intenções da Phoebe e Jack fica doente.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

SEGURA A ONDA / 4ª Temporada


Eu era fanático por televisão bem antes de chegar e amadurecer na cinefilia, tanto que não faz cinco ou quatro anos, eu era viciado em TV americana, tendo particularmente desenvolvido esse apreço através do meu irmão mais velho, que é um grande TV buff, sendo A Teoria do Big Bang seu programa favorito. Há uma série de fatores que levaram à degradação dessa minha obsessão por TV, que hoje em dia não é mais uma obsessão propriamente dita quanto era alguns anos atrás. Diria que é mais como um hobbie, até porque hoje em dia a televisão, muito especialmente a brasileira, virou o palco do clichê e falta de originalidade. Sem contar que já é difícil pra mim acompanhar seriados e outros programas, como por exemplo a recente temporada do MasterChef, seguindo seu calendário. Só de uns tempos pra cá foi que eu voltei a me acostumar com a agenda televisiva. Acontece que a HBO Signature começou a exibir, não faz muito tempo, a série americana Segura a Onda, cujas duas primeiras temporadas perdi por desinformação. 

O programa, que está há quinze anos no ar (ainda que sua mais recente temporada tenha sido exibida em 2011), é protagonizado pelo comediante Larry David, coadjuvante de Seinfeld e que teve poucos títulos no cinema. Este trabalho, que reviveu a carreira de Larry, lhe rendeu inúmeros prêmios, entre eles o Globo de Ouro, e várias indicações ao Emmy (só pra constar, da 2ª temporada até a 8ª, a série foi indicada, em todos os anos entre esse intervalo, ao Emmy de Melhor Série de Comédia, com, injustamente, nenhuma vitória adentro essas nomeações), que no total somam 39. Inicialmente arquitetado com um especial, o contrato de Larry David foi prolongado e então deu-se a criação de Segura a Onda, que é uma comédia de humor negro que analisa cruamente a ética moral da sociedade americana, bem como seus limites e suas implicações, tendo um panorama crítico focado no tradicionalismo e no próprio diário de um azarento Larry David, visto como um cara insensivelmente irritante, pedante e desajeitado que sempre se mete em confusões. Apesar do mínimo resquício de pena que sentimos pelo personagem, dá uma forte sensação de que ele é ao mesmo tempo culpado, digamos, pelas poucas e boas que lhe são reservadas. 

Da terceira temporada, comecei vendo "Krazee-Eyez Killa", que é possivelmente um dos melhores episódios não só dessa temporada, já que os dois episódios que sucedem este ("Mary, Joseph, and Larry" e "The Grand Opening") são igualmente primorosos. "Krazee-Eyez Killa" narra a amizade íntima de Larry e um rapper, que dá título a esse episódio, que é o noivo da Wanda Sykes, amiga da esposa de Cheryl, a esposa do Larry, e que acaba resultando num contraste de situações miraculosamente bem boladas e engraçadíssimas. O último episódio, que tem Larry assumindo o comando de um restaurante, e esmagando os dedos de um crítico de culinária (o que achei fantasticamente criativo e cômico) é esplêndido. A 4ª temporada começa com Larry recebendo a proposta do Mel Brooks para fazer o papel principal de Max Bialystock na adaptação musical do clássico cinematográfico  Os Produtores. É um episódio muito interessante, mas que tem sua importância reduzida quando posto ao lado dos outros episódios que o seguem. 

O seguinte, "Ben Birthday's Party", que denota ainda mais a participação de Ben Stiller, convidado nesta temporada, merece destaque. Já indica certo afastamento entre Larry e Ben, cotados para fazerem os papéis principais de Leo e Max, rivais. E também entra para a coleção das mancadas mais hilárias do David, com ele quase cegando o Ben Stiller na própria festa de aniversário dele, com um espetinho. Em "The Blind Date", Larry estampa uma grave crítica à América, em pleno pós 11 de setembro, com o comediante tomado por uma vontade incessante de urinar, bem enquanto dirige. Ele desce do carro e passa a bater em portas, sendo rejeitado por todo mundo. Quando ele bate na porta de uma muçulmana, ela atende. Severo. Não achei muita graça de "The Weatherman", embora a cena do jantar seja uma pérola dessa temporada. E nem do próximo, "The 5 Wood". 

"The Car Pool Lane", onde Larry vai à um jogo de baseball com uma prostituta, é bem especial e exoticamente cômico, tanto pela participação da atriz Kym Whitley quanto pela sua estrutura natural e que reflete as condições da série quanto ao humor mega extrapolado e divertido. Soube mais tarde que também é considerado o episódio mais contestado da série, isso sem qualquer envolvimento do Curb Your Enthusiasm. Na gravação dele num estádio em Los Angeles, na platéia foi filmado um dos suspeitos de ter cometido um assassinato. O corpo da pessoa encontrava-se a poucos metros do local. Houve uma grande repercussão.

Porém, creio que nenhum deles supera o último, que tem quase uma hora de duração, "Opening Night", no qual Larry David vai à Nova York para apresentar o musical. Embora não seja tão engraçado quanto muitos outros, é o melhor e vale pelas várias reviravoltas em torno de sua trama. Vale aplaudir as performances do próprio David, excepcional a cada episódio, com seu personagem à la Woody Allen, Cheryl Hines, Wanda Sykes (que faz uma pequena participação na 4ª temporada em "The Surrogate", outro episódio maravilhoso), Susan Essman, entre várias outras celebridades que passam de fininho pelas temporadas, como Ted Danson, David Schwimmer, Jerry Seinfeld, Cady Huffman, e por aí vai. E que cara competente é o Larry David. Puxa vida. Que humorista!

4ª TEMPORADA: 
MELHOR EPISÓDIO: Opening Night (E10) - 
MENÇÃO HONROSA: The Car Pool Lane (E6) - 

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

PARKS AND RECREATION / 1ª Temporada


Uma das maiores decepções do Emmy desse ano foi a Amy Poehler não ter ganhado Atriz em Comédia por Parks and Recreation, que teve sua última temporada lançada esse ano. E o pior é que ela tinha tudo para ganhar num ano sem a Tina Fey muito menos a Lena Dunham, que certamente seriam tarjadas como vencedoras do prêmio. Só mesmo a Edie Falco. E, é lógico, a Julia Louis-Dreyfus, que já tava na cara que ia vencer o prêmio, mais uma vez. Injustiças de lado, decidi ver Parks and Recreation e suas sete temporadas totais como forma de relembrar o seriado, que acabou de acabar, e também a Amy Poehler e seu trabalho televisivo mais aplaudido. 

Para a minha surpresa, a primeira temporada de Parks and Recreation (2009) é bem rápida, tem apenas seis episódios com vinte minutos cada. Em compensação, é uma temporada engraçadíssima. Pra quem não conhece muito a Amy Poehler ou só teve a oportunidade de ver a atriz em trabalhos menores como o Saturday Night Live ou as três edições passadas do Globo de Ouro (como eu) poderá gostar bastante de Parks and Recreation, que leva o personagem da atriz no nome, uma inusitada e excêntrica co-diretora do setor de parques e recreação de uma pequena cidadezinha no Indiana que arruma as maiores confusões em seu trabalho pouco agradável que tanto idolatra. Tentando seguir a pose de certinha e organizada, Leslie Knope arranca gargalhadas, ainda mais quando tenta trajar um caráter femininista na política e só consegue se sair como uma criança. Outra coisa que me fez rir pra caramba foi a falta de familiaridade e postura da mulher com discursos.

Parks and Recreation faz uma boa dobradinha com Veep. Ambas as séries discutem o papel feminino dentro da política e a satirizam. Falando em sátira, aí estão dois exemplos de comédia satírica boa. E duas atrizes talentosas. Julia e Amy. Não é por acaso que Parks and Recreation lembra tanto The Office, mockumentary de sucesso, uma vez que elas duas tem como criador Greg Daniels (no caso de The Office, Greg adaptou para a TV americana, o que dá no mesmo), mesmo que Parks and Recreation esteja longe de ser um The Office.

Nesta série, Leslie Knope, filha de uma política da pequena cidade de Pawnee, Indiana, é uma mulher esperançosa, que apoia ideias femininistas na política e luta por mais direitos, além de ter uma enorme vontade de promover o bem-estar da comunidade, raramente sendo sucessiva nesse quesito. Convocada para uma reunião, ela descobre um buraco no meio de uma construção que foi desativada há algum tempo, e que acidentou o namorado de uma enfermeira chamada Ann Perkins. Decidida, Leslie propõe que aterrará o buraco, e nele construirá um parque. A promessa satisfaz a plateia, que fica estonteada com a ideia. A tarefa de Leslie é, então, cumprir essa promessa, algo que não será tão fácil quanto soou.

Pelo que vi, a série julga o papel feminino dentro da política como desvalorizado e extremamente útil, embora as coisas ainda estejam um pouco complicadas e o assunto, mesmo depois de tanto tempo, continue gerando certas polêmicas. A figura da personagem de Leslie Knope, atrapalhada e maluca, mas ainda sim cuidadosa e trabalhadora, certamente não é a completa definição da mulher política, porém é justamente nesse personagem onde essa temporada foca seus objetivos: convencer-nos de que a mulher é uma peça importante no conturbado tabuleiro da política, e que a política é uma total bagunça. Vi trechos das outras temporadas, e por isso não tive a experiência de ver se esses objetivos se prolongam por todas elas também, algo que já virou missão pra mim. Pelos menos, já tenho a certeza da proficiência desta primeira, que nos introduz muito bem o universo de Knope e reflete com perspicácia Amy Poehler e seu talento extraordinário para a comédia.

1ª TEMPORADA: 
MELHOR EPISÓDIO: The Banquet (E5) - 
MENÇÃO HONROSA: Pilot (E1) - 

domingo, 12 de julho de 2015

VEEP / 4ª Temporada


E Veep continua daquele mesmo jeito. É uma série muito inteligente e fabrica humor de primeira, mas não raramente termino episódios com a cara fechada. Gostei da primeira temporada. Sutil, bem-resolvida e interessante, além da apresentação impecável da história da Selina, ainda sendo introduzida naquela época. A segunda temporada, também foi bem divertida (é claro, a maior parte do sucesso de Veep se dá graças ao talento incomparável de Julia Louis-Dreyfus), com uma entonada ênfase ao elenco sensacional. A terceira temporada me agradou - nem tanto, mas também não foi ruim. Nesta quarta temporada, o estado delicado de Veep retorna ao consagrado estado estável, talvez o mais estável possível desde a 1ª temporada, já que ambas 2ª e 3ª temporadas terminaram bem medianas, em especial esta última.

Mas nunca fui fã de Veep. Adoro, mas não como fã. Não gosto tanto por que exagera em certos quesitos, tal mesmo como a sátira, mesmo que ótima, política, às vezes aborrece o público e não gera qualidade. Isso me deixa irado. Mesmo que essa sátira oscile, o sarcasmo afiado e a benevolência da narrativa ganham fácil a aprovação do público, e nisso é impossível negar que Veep capricha, prazerosamente. A 4ª temporada é, embora bem-feita, repetitiva. Ganha meu voto por que ainda sim permanece excelente, e nisso não desanima, e faz jus ao talento ascendente do comediante Armando Iannucci, criador da série. Não escapa de alguns erros, mas seu humor salva o Titanic do náufrago.

Gosto de pensar em uma versão brasileira de Veep. É uma ideia acalentadora e extremamente virtuosa. Pena que, como andam as coisas por aqui, tal versão mesmo poderia causar "polêmica" ou até mesmo ser censurada pelos ignorantes irracionais, e, por quem sabe, os mesmos que governam este país, iguais ignorantes irracionais? Veep, série americana que no final tem um gostinho bem doce de humor inglês é uma das melhores séries de comédia atuais. Traz consigo Selina, que antes era vice-presidente, ocupando o cargo de presidente, tornando-se a primeira mulher a ser eleita e designada a tal posto nos EUA (algo que futuramente poderá se tornar realidade para os americanos, já que Hillary Clinton é uma das mais fortes candidatas à eleição presidencial do país, que acontecerá ano que vem. Rezemos, é claro, para que tal futuro de Hillary não seja "amaldiçoado" pelo insensato presente que acomete ao nosso povo brasileiro, tendo em nosso cargo uma decepção atordoante, para ser sincero, que destruiu muito as perspectivas e esperanças da reeleição ano passado, cuja escolha foi certamente errada e realizada às cegas).

O brilho desta quarta temporada é, como em todas as outras três, Julia Louis-Dreyfus, a talentosa ex-estrela de um seriado que eu gostava bastante, o engraçadíssimo As Novas Aventuras da Velha Christine, que deu a Julia seu primeiro Emmy de Melhor Atriz Principal em Comédia, prêmio que nos últimos três anos a rendeu outras três estatuetas da categoria por sua performance como Selina Meyer aqui em Veep, cuja não muito dificilmente a poderá render mais um Emmy este ano. Julia, como Selina, enquanto veste uma carapuça séria, distinta, sempre muito rígida, mandona - de fato - e cautelosa, é indubitavelmente muito engraçada, atrapalhada e tresloucada. E, de fato, todo o elenco está meramente maravilhoso. Talvez a pressão da eleição de Selina tenha dado aos personagens um empurrão ameaçador e provocante, que os deu uma porção maior de intensidade. Aí está a quarta temporada de Veep: suavemente clichê, profundamente interessante e cômica. Afinal, toda política é superficialmente austera. Leis, presidência, promessas, economia... Tudo não passa de uma baita brincadeira. Assim é a política, seja nos E.U.A., aqui ou na China, a política foi criada mesmo para fazer a gente rir. Veep é uma prova disso.

4ª TEMPORADA
MELHOR EPISÓDIO: East Wing (E2) - 
MENÇÃO HONROSA: Election Night (E10) - 

domingo, 14 de junho de 2015

ORANGE IS THE NEW BLACK / 3ª Temporada


Finalmente! Depois de muita ansiedade, a 3ª temporada de Orange is the New Black foi disponibilizada na última sexta-feira pelo canal pago Netflix. E, como eu esperava, o resultado foi tremendamente positivo, como os obtidos anteriormente com a primeira e a segunda temporada. Só que não esperem demais, se forem comparar este temporada com as duas primeiras. Essa é mais suave. Não verão muitos aspectos da primeira e da segunda aqui. Essa terceira temporada fala muito sobre a fé, a família, além de explorar mais afundo as relações entre as prisioneiras, nos sentidos afetivos e emocionais. Talvez seja bem estranho ver esse temporada sucedendo a segunda, a mais violenta já registrada na série, devido aos eventos causados pela detenta Vee, o personagem-central daquela temporada.

Aqui, as tramas estão focadas em outros pontos. Acho que é mais como uma forma de diminuir a tensão provocada pelos eventos já citados ocorridos na 2ª. O bom e, com certeza, o mais interessante a ser visto nessa 3ª temporada é a evolução de identidade dessas personagens. É bom ver que o clima na prisão se alastra, desta vez, para o barco dos funcionários, deixando o barco das detentas mais leve, de fato. Devido às constantes crises no setor, e problemas que levam à prisão de Litchfield à alguns ajustes que acabam favorecendo conflitos econômicos, alguns deles não tão prejudiciais às prisioneiras, mas principalmente aos funcionários.

(Lá vem spoiler) O anúncio (alarme-falso) do fechamento de Litchfield pode causar um pouco de desconforto ao espectador, mas é passageiro, mesmo que as coisas na administração de lá ganhe proporções mais preocupativas. É possível dizer que esta temporada talvez também esteja priorizando o papel e a função deles lá. Muitos tornam-se infelizes com a situação. Outros, extramente preocupados. Enquanto alguns procuram ajudar, outros apenas tendem a complicar, como a chegada de um diretor barra-pesada que causa inusitadas dores de cabeça em Joe Caputo.

Mas, como eu disse, há algo de especial nessa nova temporada: a fé. Li um artigo, não lembro aonde, que dizia que essa nova fase da série exibiria a presença da religião, da fé em geral e da crença em Litchfield, principalmente nas prisioneiras. E é algo onipresente, sim. A 3ª temporada, essencialmente durante os famosos flashbacks da vida pré-prisão das detentas, examina, no estilo de cada uma, o papel da fé. Não a importância, não é esse o objetivo. Mas apenas a fé. Ou então o quanto a fé afetou a jornada daquelas mulheres. O quanto aquilo transformou suas vidas dentro e fora da prisão, ou até mesmo na atualidade. Por que, afinal, a fé é algo que geralmente encontra conexão na prisão. Já vi, por se dizer experiencialmente bem de perto, casos do tipo. A religião é uma fortaleza para algumas devotas que encontram-se por trás das grades e, a maioria delas, busca a salvação por meio de cultos, rezas, promessas e tudo o mais possível.

Piper engrandece sua popularidade nessa temporada. No meio da temporada, uma reviravolta no setor alimentício causa um terrível problema para todos. Com isso, Piper cria um novo plano: esvazia o estoque de macarrões instantâneos da "lojinha", com o fim de lucrar com uma troca, criada por ela: o tempero do "miojo" é capaz de disfarçar o ruim gosto das novas refeições oferecidas pela prisão. Com isso, ela pretende lucrar nesse ramo pedindo as calcinhas das detentas, como modo de fornecer à elas os milagrosos temperos. Com as calcinhas, Piper decide fazer um esquema com seu irmão de levá-las para fora da prisão, através do novo guarda, para que ele possa vendê-las pela internet à tarados (quem viu a 2ª temporada vai lembrar que, no primeiro episódio dela, Piper, em Chicago para o julgamento, tratou um esquema com um detento, e com isso, deu a sua calcinha à ele em troca de um favor). E, no fim das contas, o negócio de Piper lucra imbativelmente. 

Essa 3ª temporada, além de conter essas e muitas outras mais mudanças significativas, também explora a vida de outras mais detentas nos flashbacks. As chamadas secundárias. Muitas delas, principalmente algumas das que surgiram na 1ª temporada (ex. Alex, Suzanne, Taystee, Poussey, Daya, Gloria, Tiffany, Nicky, Lorna, Cindy), agora nesta terceira temporada são protagonistas. No entanto, a série oferece justiça às novas, e algumas antigas, secundárias que não tiveram a chance de integrar o grupo acima.

E, como a própria Alex diz num dos episódios, é tanta confusão que mal quase você tem a oportunidade de ver as outras detentas, já que Piper fica confusa e surpresa por ver a quantidade de detentas à sua frente que há pouco tempo a era desconhecida. Algumas dessas secundárias estão na série desde os primeiros episódios (ex. Sophia, Flaca, Big Boo, Norma, Leanne, Yoga Jones), e que ganharam certo apoio na segunda, mas nessa terceira atuam não mais como recorrentes, mas sim como efetivas (o que é verdade). E é bom ver essa evolução, digo, de caracterização da série. O elenco, que já era grande, ganha reforços e fica bem melhor (na minha percepção).

O drama tem pouco espaço nessa temporada. Mesmo que alguns traços, como a triste mudança da "querida" detenta Nicky para a segurança máxima e a gravidez conflituada de Daya, que há tempos nos vem deixando com rugas na testa, reforcem o cunho dramático da temporada, a comédia mostra-se mais forte, algo que era visto nas duas primeiras temporadas, mas talvez com bem menos amplitude, tanto que eu anteriormente via Orange is the New Black mais como um drama do que como uma própria comédia. Vale ressaltar esses detalhes. Vi muita gente disfarçando desgosto pela série dizendo que era um "pseudo-drama" (nem sei de que lugar essa expressão emergiu). Enfim, só sei que estou muito feliz com a chegada dessa terceira temporada. E, mal posso esperar pela quarta, que promete vir com tudo em 2016. 

3ª TEMPORADA: 
MELHOR EPISÓDIO: Fear and Others Smells (E8) - 
MENÇÕES HONROSAS: Mother's Day (E1) - / Don't Make Me Come Back There (E12) -