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terça-feira, 16 de janeiro de 2018

RODA GIGANTE (2017)


Se nos últimos anos Woody Allen tem ficado mais reservado à sua "zona de conforto", sempre revisitando velhas temáticas e fórmulas, mas gerando resultados até positivos e com suas parcelas de acertos, que se sucedem nessa linha de tramas e personagens que parecem pertencer a um mesmo universo. Se alguns enxergam esse retorno como uma mera preguiça, os exercícios de Allen em revisitar esse universo e tentar aprofundar ainda mais personagens que são tão conhecidas da sua obra, vez ou outra geram um resultado que acaba surpreendendo pelos pequenos toques de originalidade que surgem nas arestas, como pequenos milagres do cinema.

É aí que entra Roda Gigante, o mais novo filme do nova-iorquino (seu 47º longa), que é um exemplar muito bem-feito dessa nova fase "digital" da carreira de Woody que começou recentemente em 2016 com o belíssimo Café Society, que me deixou nas nuvens. A partir desse filme, Allen aderiu à fotografia digital com o auxílio do sempre magistral Vittorio Storaro, parceria frutífera que está rendendo à filmografia do Allen um toque até mais sofisticado e acentuado no quesito da fotografia, que, se já tinha se mostrado perfeitamente brilhante em Café Society (filme repleto de momentos memoráveis de construção fotográfica) pode-se dizer exatamente o mesmo de Roda Gigante, cuja fotografia é daquelas que fazem marejar os olhos e nos elevar dentro da sala de cinema, transformando a experiência num belo deleite para o espectador.

Apesar da doçura do seu antecessor, Roda Gigante é um trabalho pra lá de amargo, quando Woody adentra o melodrama com traços trágicos para contar a trajetória de Ginny, uma garçonete que sonha alto que busca nos velhos sonhos e memórias e numa relação extraconjugal com um salva-vidas que também é dramaturgo (Justin Timberlake) uma fuga dos problemas do presente e de sua realidade dura (casada com um homem violento e de temperamento atribulado, um operador de carrossel, que vive a maltratando). Tudo muda quando ela recebe a visita da jovem Carolina, filha de seu marido com uma ex-mulher, que por sua vez está fugindo de um gângster perigoso com quem se casou, e encontra abrigo na casa do pai, um lugar tempestuoso que fica dentro de um parque de diversões, com vista para uma roda gigante. 

Com a pompa, a amargura e a explosiva teatralidade dos textos melodramáticos de mestres da dramaturgia como Tennessee Williams e Eugene O'Neill, e um traço cinematográfico repleto de charme e elegância reforçado pelo lindo trabalho de Storaro e pelos cenários minimalistas e que casam tão bem com essa veia teatral da narrativa, Woody Allen traz à tona esses personagens envoltos em seus dramas pessoais que acabam se alinhando graças ao destino e veem suas vidas colidirem com esses transtornos que surgem no caminho: a traição de Ginny e a paixão entre Mickey, o salva-vidas, e Carolina, e uma série de eventos que partem disso, temperam o drama e estabelecem a tragédia que enegrece os rumos da história. Os mistérios do coração... 

A casa é um ambiente frequentemente dominado pela desencanto, pelos momentos de tensão e amargura, o palco dos ataques de Ginny e Humpty, enquanto também acaba sendo o cenário que gera alguns dos planos mais belos do filme, como aquele em que Ginny está experimentando figurinos com o filho. Já a praia é um lugar associado a uma ideia de graça, de um certo encanto que acaba unindo essas personagens e dando um novo tom às suas vidas melancólicas, é lá que Ginny (e Carolina também) encontra pela primeira vez Mickey, além das meigas cenas de amor que se passam nessa locação. Há um jogo bastante autêntico com as cores e como elas acabam dialogando com a narrativa e os cenários, chegando a um nível de quase fantasia, nesse aspecto. 

É mais uma crônica sobre as eventualidades e os acasos da convivência humana e os seus vertiginosos conflitos, com aquele olhar que só o Woody sabe conferir quando se trata do tratamento de seus personagens, os sonhadores, desiludidos, perdidos e desencontrados. Tudo vai conduzindo a um final necessariamente obscuro, que se não surpreende muito, pelo menos fica marcado pela condução deliciosamente prazerosa. 

O elenco está em um estado de pura graça. Kate Winslet, que há tanto não aparecia tão bem, dá vida a uma personagem com todas as suas crises nervosas, histerias, perdições e falas neuróticas. Nesse ponto (e em outros elementos dentro da narrativa) a comparação a Blue Jasmine é inevitável, ficando até mais evidente naquela cena da epifania de Ginny durante a visita de Mickey, perto do final. Jim Belushi e Juno Temple também estão formidáveis em cena. E até o Justin Timberlake encaixou excelente no papel dele. 

Dado isso, esse melodrama que parece homenagear a Hollywood dos anos 50 pós-guerra com um visual até meio aperfeiçoado e com seus magistrais toques de artificialidade que reforçam a impressão dramatúrgica da narrativa, prova que Woody Allen consegue fazer um belo trabalho partindo de histórias amarguradas e desencantadas, que parecem encontrar justamente no que a vida tem de mais triste e melancólico um lar para depositar seus impulsos embebidos de autenticidade e pura emoção. É, sobretudo, honesto, de certa forma um caos calmo no meio de toda aquela instabilidade e frenesi, e essa ideia dramática casa muito bem com o que o filme cria para as suas personagens. 

Esperar arroubos de originalidade de Woody Allen a essa altura do campeonato é um pouco ilusório, digamos, mas ainda é muito bom ver que ele pode emergir de premissas que parecem ser tão descompromissadas e se revelam mais profundas do que o esperado. Isso é muito bom. E infelizmente Roda Gigante não será reconhecido tão cedo dessa forma por conta das acusações que estão rolando no momento e que acabaram desfavorecendo o Woody. Se isso vai afetar o trabalho dele como diretor, não sabemos ainda, mas ele está com um projeto novo que deve sair ainda esse ano (como tradicionalmente ocorre). O cinema estava vazio (seria um sinal de que ele está perdendo a credibilidade?) mas levemos em consideração que o filme estreou no circuito há mais ou menos umas três semanas (no finalzinho de 2017). É uma grande oportunidade conferir um trabalho do mestre Woody no cinema, até gratificante, digamos, em especial este aqui, que é muito bonito. 

Roda Gigante (Wonder Wheel)
dir. Woody Allen
★★★★

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

CRISIS IN SIX SCENES, a série de Woody Allen


A então primeira série de Woody Allen é um trabalho adorável, ainda que tenha seus pontos positivos e negativos. A notícia de que o cineasta estaria filmando seu primeiro seriado, ano passado, deixou muita gente animada e com as expectativas lá em cima que, de certa maneira, foram bem correspondidas, ainda que o diretor estivesse tão inseguro quanto ao resultado da série, tendo repetido muitas vezes em entrevistas que sentia um profundo arrependimento por ter aceitado fazer a série, que na verdade é uma minissérie, para a Amazon. 

O diretor teria afirmado que não haverá uma segunda temporada. E, no mais, o resultado foi tão bom que nem precisaria de uma sequência, digamos, caso houvesse necessidade. É claro, a minissérie não é algo perfeito, mas certamente satisfará os fãs de Woody, que não trabalha com TV há mais de 50 anos, desde a época em que era comediante e escrevia piadas para programas de auditório. Não é lá muito comum a gente ver o Woody trabalhando com questões envolvendo cunho político e coisas do tipo. Já por conta disso, vale-se considerar Crisis in Six Scenes um trabalho pra lá de interessante.

Nos dois primeiros episódios, somos introduzidos aos personagens, típicos cidadãos nova-iorquinos, e aos elementos centrais da trama que a locomovem e dão impulso à situação abordada. Nos anos 60, um escritor, vive com sua mulher, uma terapeuta, em pleno cenário de atrito entre os ideais políticos da população e no ápice do socialismo, levando uma vida pacata e sem muito conflito. Com a chegada de uma hóspede inesperada, uma ativista radical procurada pelo FBI, a vida dessa família muda drasticamente e toma proporções extremas.

A minissérie é estrelada por Woody Allen e Elaine May (cujo último trabalho no cinema foi justamente em um filme do cineasta, há exatos 16 anos, em Trapaceiros), que vive o casal central da história. Sidney, vivido por Woody, aquele típico protótipo neurótico dos filmes do diretor, inicialmente recusa a vinda da garota comunista, vivida por Miley Cyrus (em uma performance excepcional, por sinal), mas não consegue contrariar a esposa, que se solidariza com sua situação e lhe dá abrigo. Constantemente, Sidney reclama da presença da garota na casa, e que ela come tudo o que vê pela frente, é subversiva e esses papos que acabam não só criando uma gênese desse personagem rabugento e reclamão, mas também lhe torna crível aos olhos do espectador e diante de toda a situação.

Aliás, a relação desses dois personagens lembra bastante a síntese entre o Woody Allen e a Tracey Ullman em Trapaceiros. Em ambos os casos, a personagem feminina é mais forte, matura e pontual do que os personagens masculinos, que sempre tentam manejar o estado das coisas e se atrapalham embasbacadamente, para o consequente humor do espectador, mas não de uma forma maniqueísta. 

A partir do terceiro episódio, há uma certa tensão entre os personagens e os truques de roteiro de Woody para prender nossa atenção e criar todo um clima favorável para a história já se evidenciam, ainda que de uma maneira menos impactante de como costuma acontecer nos filmes dele. Há quem diga que os episódios baseiam-se em soluções fracas. Não é exatamente o caso, já que a fraqueza em Crisis in Six Scenes não se concentra exatamente nessas soluções, mas sim na construção dos personagens. O diretor foca bastante em como os personagens reagem aos conflitos ao redor deles, mas há uma sensação de vagueza quanto à construção mais formal de suas identidades. 

Mesmo que a minissérie termine com um fim mais aberto, talvez como se indicasse uma continuidade que seria atribuída à segunda temporada ainda incerta, a conclusão é simples e satisfatória, sem clichês ou aborrecimentos. Crisis in Six Scenes deixa a seriedade do espírito político de lado e nos convida a celebrar uma sátira bem humorada aos hábitos da população americana e ao turbulento cenário político daquela época, com um confronto acirrado entre as massas capitalistas e socialistas explicitamente expostas no contexto da Guerra Fria. O humor ajuda a suavizar a situação problemática entre os personagens e seus contrastes idealistas com um escape cômico que ao invés de vulgarizar e zombar dos eventos ocorridos, humaniza-os. Talvez esta seja uma das qualidades mais benéficas desta produção. 

Então, a minha recomendação para quem planeja ver Crisis in Six Scenes é encarar a minissérie como pura diversão, para se ver com despretensão, e não com seriedade. É apenas entretenimento, à velha moda de Woody Allen, uma comédia escapista que não necessariamente se encaixa nos padrões televisivos, e que provavelmente teria um resultado melhor do que o que já tem caso enquadrado em um filme. Crisis in Six Scenes funcionaria brilhantemente como um longa-metragem. Enfim, já está de bom tamanho assim. É bastante gratificante ter dois trabalhos tão bons do Woody em um só ano como Café Society, um dos melhores filmes do ano, e Crisis in Six Scenes.

Crisis in Six Scenes
dir. Woody Allen - 

sábado, 17 de setembro de 2016

Crítica: "CAFÉ SOCIETY" (2016) - ★★★★½


Woody Allen está de volta, com um filme que pode ser muito bem considerado um seus trabalhos mais charmosos, elegantes, requintados e apaixonantes. Café Society possui um charme próprio, que conspira a seu favor. A beleza narrativa e visual dessa crônica amorosa ultrapassa e minimiza quaisquer falhas do filme em si, que na verdade são mínimas, imperceptíveis, ininfluenciáveis à qualidade e versatilidade deste. 

Café Society é o 46º longa-metragem de Woody (sem contar com Contos de Nova York). O longa foi selecionado para abrir o 69º Festival de Cannes em maio desse ano. É o terceiro filme do diretor a realizar esse feito. Os anteriores foram Meia Noite em Paris em 2011 e Dirigindo no Escuro em 2002. O filme Contos de Nova York, que tem um segmento dirigido pelo cineasta, também abriu o festival em 1989. 

Se alguns o celebram como o melhor filme do Woody em anos (o que é um pouco controverso, já que muitos afirmam isso levando em conta a “má fama” de projetos recentes anteriores do diretor, que foram tão mal-recebidos pela crítica/imprensa, o que acabou sujando a reputação desta que está sendo pintada como a “pior fase” do cineasta – algo que pra mim não faz o menor sentido – mas de qualquer forma a afirmação de jeito algum é errônea, não deixa de ser justa, levando em conta que este é realmente um marco da filmografia dele, um destaque, digamos), o público e os fãs ficarão surpresos em constatar uma fotografia magistral, completamente incomparável a outros títulos, e que pode ser tida como a grande preciosidade deste novo filme de Allen. No entanto, não é a única. 

Kristen Stewart, fabulosa e estonteante, brilha em uma de suas personagens mais belas, a jovem Vonnie, secretária e amante de um poderoso agente de Hollywood, Phil (Steve Carell). Ela é por quem se apaixona o sobrinho novaiorquino deste agente, Bobby (Jesse Eisenberg), que se muda para Hollywood na esperança de trabalhar com o tio no ramo cinematográfico. Vonnie fica divida entre Phil, seu grande amor, e Bobby, por quem também tem sentimentos, ainda que duvidosos. O triângulo amoroso toma rumos quase que inesperados, quanto a gente vê que o agente está realmente apaixonado pela mocinha, contrariando a expectativa de que aquele romance seria algo passageiro, e que Vonnie provavelmente seria iludida por Phil.  

O elenco também traz Blake Lively, no segundo ato, na pele de Veronica. Ela está fantástica, especialmente naquela cena belíssima onde o Bobby a leva para um barzinho de jazz de madrugada, um momento de luxo e prazer que deixa o espectador nas nuvens. Corey Stoll (o Ernest Hemingway de Meia Noite em Paris) interpreta um gangster barra-dura, irmão de Bobby, e dono da boate onde este passa a trabalhar na 2ª metade do filme. Parker Posey, que esteve no anterior, Homem Irracional, interpreta uma socialite renomada.

Café Society ostenta beleza, sofisticação e riqueza técnica. Woody Allen é o narrador desta vibrante e triunfal história de amor, que nos cativa e emociona, encanta e maravilha, a todo instante. Woody mais uma vez desfrui da magia, da formosura e da sublimidade dos anos 30 como plano de fundo desse conto apaixonado e embelezado, que esbanja primor e transborda grandiosidade. É um filme enfeitiçante, gostoso de se acompanhar e que não sai da nossa cabeça. 

O visual paradisíaco do filme (a fotografia saturada, em tons nítidos, esfumados) faz referência ao cinema daquela época; aliás, não só dessa maneira Woody faz questão de relembrar e recriar os tão maravilhosos e espetaculares anos 30 e o cinema desse tempo, mas também lançando várias e diversas referências à filmes, estrelas, estúdios, e etc., projetando todo um iconismo cinematográfico em torno do longa, com um olhar de admiração e respeito ao cinema e à cultura fílmica dos anos 30.

O mais interessante é que, mesmo com uma filmografia tão diversa, com filmes tão autênticos e completos, Allen consegue se reinventar em seu 47º longa-metragem e trazer um filme tão excepcional e original como Café Society, que no quesito qualidade está um passo à frente. O filme surge com uma premissa sutil e descomplexada que se aprofunda como uma meditação válida sobre a vida, a ilusão, o amor, o tempo e as virtudes nostálgicas. 

Woody arquiteta sua trama de maneira apaixonada e ao mesmo tempo conformista, sem necessariamente ser pessimista-cético. Cada vez mais, o diretor parece certo de enxergar na beleza, no amor e no humor um sentido para a vida, vida essa que ele tanto protestava ser sem sentido, incompreensível e irreal. E no fundo, a vida é tudo isso e mais. Mas não vale a pena viver pelo amor, ou pela beleza? Qual seria a “lição de moral” de Café Society, que termina de uma forma um tanto melancólica e vaga, mas com um toque embriagado de suntuosidade?

O certo é que mesmo o amor mais profundo e verdadeiro pode ser um grande mistério. Ninguém escolhe amar – ou ser amado, ainda mais. O coração age por si mesmo. Ele está pouco se fodendo para o que a nossa cabeça quer ou está pensando. Os nossos sentimentos estão à solta. Afinal, um rostinho bonito pode ser bastante atrativo (assim como também pode enganar), mas o caráter e a personalidade contam mais. Tratando-se de um filme tão visualmente impecável (o diretor de fotografia é Vittorio Storaro, o mesmo de clássicos como Apocalypse Now e O Último Imperador), me pergunto se Woody teria proposto essa coincidência de forma a sugerir ironia? De uma forma ou de outra, Café Society é um filme brilhante. Um dos mais bonitos e delicados que eu vi esse ano. Woody Allen faz 80 anos e o presente vai para o espectador: uma obra formal, magnífica, inteligente, poética, estilosa e cheia de glamour. Impossível resistir. Lindo do começo ao fim. 

Café Society
dir. Woody Allen - ★½

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Crítica: "A OUTRA" (1988) - ★★★★


Eis um dos filmes mais bergmanianos de Woody Allen, e também um de seus menos conhecidos trabalhos. A Outra é um filme excelente, que só alguém do escalão do Woody poderia realizar. Uma grande pena que tenha sido tão subestimado, já que é uma peça essencialmente importante da filmografia dele, por muitos motivos.

Num raro exercício dramático ininterrupto, ausente de piadas ou humor (o que até torna o filme um pouco mais “distante” do estilo ao qual estamos acostumados de seus filmes), Woody traz Gena Rowlands no papel de uma mulher que fica obcecada com uma paciente grávida (interpretada belamente por Mia Farrow) de um terapeuta que faz consultas em um apartamento ao lado do dela. 

A trama gira em torno da personagem de Gena, Marion, focando nas suas angústias, seus desejos, seus pensamentos e seu cotidiano – a construção e a exploração da personagem, sua personalidade e ideias intensificam e enriquecem a atmosfera bergmaniana do filme.  A narrativa, em especial, traz à nossa memória alguns trabalhos que demonstram algumas particulares semelhanças do Bergman, como Morangos Silvestres, Persona e até mesmo Face a Face.

O mais curioso deste filme de Woody Allen é a paciência, a delicadeza com a qual se costura a história, a profundidade dos personagens, a lentidão avassaladora, a atenção aos pequenos detalhes. A Outra é, sobretudo, um minucioso e intrigante estudo de personagem, e ao mesmo tempo filosófico e preciso, lento e rigoroso.

Vale comparar com outros filmes geniais do Woody, como o anterior Setembro (filme com o qual compartilha diversas semelhanças, seja no retrato rígido e frio dos personagens com tendência depressiva, digamos, ou na linha narrativa, que em ambos os filmes apresenta um forte resquício teatral em abordagem), Interiores (outro exercício dramático potente), Crimes e Pecados (revisto recentemente) e Maridos e Esposas.

Gena, Mia, Gene Hackman, Ian Holm entre outros estão espetaculares, em performances dignas e estelares, um elenco de fato excepcional. Interessante notar como A Outra é um filme, por vezes, melancólico, vazio, contemplativo, que parece emergir como um grito do fundo da alma. Não exatamente sombrio, mas obscuro, tenso, reflexivo em sua proposta. É um filme maravilhoso, atípico do Woody, e com uma grande influência do estilo fílmico de Bergman. Simplesmente ótimo. 

A Outra (Another Woman)
dir. Woody Allen - 

domingo, 7 de agosto de 2016

CRISIS IN SIX SCENES, a nova série de Woody Allen


A tão esperada série de Woody Allen acaba de ganhar um nome! O primeiro seriado do cineasta foi batizado de Crisis In Six Scenes, e a estreia está marcada para o mês que vem, setembro, dia 30. Infelizmente, a série ainda não tem previsão de lançamento aqui no Brasil. Só se sabe que ela será disponibilizada através do serviço de streaming Amazon Prime, apenas disponível nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Alemanha. 

O seriado terá 6 episódios, e contará com a presença de Elaine May, Miley Cyrus, John Magaro, Rachel Brosnahan e o próprio Woody, que vive no seriado um personagem de nome Sidney Muntzinger. Segundo a sinopse, a série se passa na década de 60 e acompanha uma família de classe média dos E.U.A. e como o cotidiano deles é afetado pela chegada de uma convidada bastante inusitada. Cada episódio terá meia hora de duração.

Por outro lado, Woody Allen revelou que a série só terá essa temporada, a primeira e a única de Crisis In Six Scenes. Aliás, quem acompanhou as filmagens e as notícias envolvendo os bastidores da série, que esteve em produção desde o ano passado, sabe que o Woody estava bem insatisfeito e incomodado com o projeto, tendo até dito que "tinha cometido um erro catastrófico ao assinar o contrato com a Amazon", numa entrevista ano passado em Cannes. 

Café Society, o mais novo filme do diretor, já estreou nos E.U.A. e teve sua estreia adiantada aqui no Brasil. Antes previsto para outubro, agora o filme irá estrear dia 25 desse mês, dentro de algumas semanas. O filme teve uma recepção bem calorosa por lá. Alguns até andam dizendo que o filme é bem melhor que alguns sucessos recentes dele, como Meia Noite em Paris ou Vicky Cristina Barcelona. Para os críticos, que nos últimos anos andaram metendo o cacete nos filmes dele, estarem gostando tanto assim, coisa boa deve ser. 

terça-feira, 12 de julho de 2016

Crítica: "SONHOS ERÓTICOS DE UMA NOITE DE VERÃO" (1982) - ★★


Fiquei sem internet por 5 dias. Sobrevivi, mas o blog ficou bem parado, e fui acumulando filmes sem escrever sobre eles. Bem, vou tentar compensar o tempo perdido nos próximos dias. Isso é, se a internet não dar pane, já que os caras agora em vez de cortarem a internet de uma vez estão reduzindo a velocidade, o que é ainda mais enervante. Será que eles fazem isso de propósito só pra estressar mais a gente? Enfim, vamos comentar o filme. Da semana passada pra cá, vi 4 filmes do Woody Allen, entre eles Sonhos Eróticos de uma Noite de Verão (visto dia 8), que é um dos títulos menos conhecidos da filmografia dele. Apesar disso, mantinha altas expectativas quanto ao filme que, infelizmente, não é lá essas coisas, o que eu jamais esperaria de um filme dirigido por alguém como o Woody. À exceção de Scoop - O Grande Furo (texto 1; texto 2), que não tinha gostado muito da primeira vez, mas quando revi adorei, não me lembro de ter desaprovado dessa maneira um filme dele. Se bem que não vi todos. 

Sonhos Eróticos de uma Noite de Verão é o filme mais fraco da filmografia do Woody. Aliás, é fraquíssimo. Quase insuportável. Começa bem, mas se perde depois dos momentos iniciais. Acho que o Woody nunca fez um filme tão confuso como esse. É sobre três casais que vão passar o fim de semana numa bela casa no campo e acabam tendo aventuras amorosas entre eles fora das relações.

É o primeiro filme do Woody contando com a Mia Farrow, sua ex-mulher, que viria a estar presente em seus próximos 12 filmes (um total de 13, contando com esse). O papel de Ariel Weymouth, interpretada por Mia, inicialmente tinha sido designado a Diane Keaton, que o recusou por envolvimento em outros projetos. Também estão no elenco José Ferrer, Tony Roberts, Julie Hagerty e Mary Steenburger. Apesar de ser um ótimo elenco, em nada livram o filme do fracasso.

Chega a ser até irônico, já que tanto o filme que antecede e o que sucede este da filmografia do Woody são grandes filmes (Memórias e Zelig, respectivamente). São poucos os momentos engraçados (para uma comédia, digo). A fotografia de Gordon Willis até é um pouco mais inspirada, ainda que deixe a desejar em certos momentos. O título e a história referenciam a adorável clássica peça de Shakespeare, apesar de quase não serem feitas referências à obra durante a trama. Na verdade, faz tanto tempo que li a peça que algumas devem ter passado em branco, embora, talvez, o desenrolar da trama seja a referência mais notável, ainda que irregular.

Sonhos Eróticos de uma Noite de Verão é maçante, confuso, entediante, deselegante... Adjetivos que eu nunca pensei que usaria para definir um filme do Woody Allen. Tem certos momentos bons, mas, como eu disse são poucos. É um filme de menos de uma hora e meia que parece que tem quatro. A premissa é bem interessante, mas o filme deixa a desejar. Como um fã do Woody, é uma grande decepção ver um filme assim.

Enfim, baixei Poderosa Afrodite faz um tempo e acho que vou ver hoje. A internet ainda está um pouco fraca, e quase não dá pra carregar vídeos online ou baixar. Mas, assim que eu tiver a chance, pretendo ver Celebridade e Simplesmente Alice, e, se possível, rever Tiros na Broadway ou Noivo Neurótico, Noiva Nervosa.

Sonhos Eróticos de uma Noite de Verão (A Midsummer Night's Sex Comedy)
dir. Woody Allen - 

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Crítica: "INTERIORES" (1978) - ★★★★★


Os mais chegados conhecem o Woody Allen dramático de filmes como A Rosa Púrpura do Cairo, Match Point (que -- coincidentemente? -- são os meus dois filmes prediletos dele), Crimes e Pecados, Simplesmente Alice, Maridos e Esposas, Setembro, A Outra e os recentes O Sonho de Cassandra, Blue JasmineHomem Irracional entre outros trabalhos, que são exemplares bem-sucedidos da boa manobra e concepcionalidade do diretor com o gênero drama, visto acima competentes amostras da finura e a astúcia com a qual Woody o tece nesses filmes. Interiores, talvez não tão famoso quanto estes outros títulos, ironicamente é o melhor exercício dramático do Woody. Particularmente, Match Point é meu drama favorito dele, mas Interiores é tão bem-feito nesse ponto quanto. De qualquer maneira, Interiores vale cada segundo e merece ser enaltecido como um dos melhores filmes do Woody. 

O mais provável é que o Woody tenha escrito e dirigido Interiores sob uma embriaguez braba de Bergman. Não à toa este também é seu filme mais semelhante ao estilo fílmico do mestre sueco o qual Woody é fã assumido e tem uma porção de filmes inspirados ou com algum tipo de referência nele. Homem Irracional, seu último, emula uma síntese filosófica bastante Bergmaniana, muito embora não seja comparável a nenhum filme dele ou possua um estilo minimamente assemelhável, mesmo que tenha sim uma ideologia similar. Dos recentes, é bem crível que Match Point e O Sonho de Cassandra estejam mais ligados à essa linha, não só pelo gênero, mas pela temática, pela abordagem, pela filosofia que carregam... 

Interiores é aquele tipo de filme que intimida e deprime a gente. Intimida porque põe o espectador à frente de uma trama carregada capaz de provocar as mais diversas reações, como tristeza, raiva, esperança, medo, ou sendo até mesmo capaz de nos levar à identificação e à reflexão acerca a relação dos personagens e o desfecho. 

Sei que é errado julgar, mas a maior parte do tempo senti uma raiva de dar tapa na cara daquelas duas irmãs depressivas, a Renata (Diane Keaton) e a Joey (Mary Beth Hurt) e a mãe problemática com tendência suicida (Geraldine Page, numa performance digna e excepcional). A cena em que eu mais me estressei foi naquela onde a Joey grita com a nova mulher de seu pai, uma extravagante e alegre dona de casa, quando ela derruba um vaso, artefato feito por Eve, quem Joey idolatra. Mas é bem provável que tudo dependa do meu humor. Às vezes dá uma baita raiva desses personagens caídos e sem rumo, maldizendo a vida e sempre em conflito, de mau humor, mas depois, se eu for rever o filme num dia ruim, é bem capaz de eu acabar é me identificando com elas. Vai saber. 

O elenco ajuda muito nisso. A competência desses profissionais chega a ser invejável. Geraldine Page, Maureen Stapleton, Diane Keaton, Mary Beth Hurt... Todas estão delirantes e simplesmente excelentes. 

Há três cenas em Interiores que são muito especiais para mim. [spoilers à frente] A cena da tentativa de suicídio da Eve em seu apartamento, apesar de rapidíssima, me deixou eletrizado. A sequência da igreja também é bastante impactante. E, é claro, a sequência final, irreparável. Bem filmada, bem editada, bem fotografada, os atores exalando um realismo estético avassalador... É a cena mais arrepiante do filme, a melhor de todas. Também dou destaque à cena da garagem, quando o marido de Renata, Frederick, dá em cima da belíssima irmã dela, Flyn. 

A fotografia de Gordon Willis, abusando de tons cinzas e opacos, em escalas escurecidas e amarguradas, conferindo ao filme um ar melancólico e profundamente sombrio, é sublime. Uma das mais memoráveis parcerias entre o Woody e o lendário diretor de fotografia. Se eu não tivesse me informado sobre isso antes, poderia até pensar que Sven Nykvist fosse o diretor de fotografia de Interiores. Ah, e um fato interessante é que Sonata de Outono foi lançado no mesmo ano que Interiores. Que coincidência, não?

Woody testa mais uma vez seus dotes dramáticos numa obra impecável e inesquecível, um de seus melhores trabalhos. infelizmente esquecido com o passar do tempo. Interiores, seu elenco, sua fotografia, sua trama, sua direção... Tudo funciona plenamente. Nem parece que é um filme dele, francamente. É claro, daria até pra reconhecer a overdose de existencialismo, mas o Woody de Interiores não é aquele Woody que a gente vê a cada filme, num bom sentido. É bem bacana adentrar em sua filmografia um filme tão excêntrico e inusual como Interiores, repleto de qualidades, nos surpreendendo misticamente. 

Interiores (Interiors)
dir. Woody Allen - 

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Revisão: "SCOOP: O GRANDE FURO" (2006) - ★★★★


Não sei o que deu em mim para não ter gostado de Scoop quando vi o filme da primeira vez ano passado. O filme não conseguia sair da minha cabeça. Tinha que rever. Ainda no ano passado, revi com minha irmã e apreciei bem mais do que da primeira vez. Vai saber. É cada uma que me acontece. Estava devendo de escrever sobre Scoop: O Grande Furo, há um bom tempo, muito por conta do mal-entendido com o filme. Eu sabia que era estranho demais para ser verdade, o Woody fazer um filme ruim. Corri atrás e decidi rever, e rever, e rever, para ver se o compreenderia melhor. E não é que eu simpatizei com o filme, rapaz? Puxa vida. Essas últimas revisões foram espetaculares, clarearam a minha mente e foi aí que me ocorreu de reformular a minha ideia a partir desse longa astuto e suntuoso que tanto me intrigou e encantou.

A questão é interpretação, ir além, saber distinguir a brincadeira da filosofia. Pode parecer banal, mas do que tem de cômico Scoop também é filosófico, tentador, multifacetado. É complexo, apesar das aparências. A começar pela linha tênue que separa a comédia do suspense, e que facilmente pode confundir a cabeça do espectador. Woody monta uma trama obscura, a de um serial killer à solta e uma estudante de jornalismo que, durante uma apresentação de mágica, encontra o espírito de um falecido repórter que quer que ela investigue o paradeiro do jovem filho de um rico lorde, suspeito de ser o "Assassino das Cartas de Tarô". A jovem universitária americana, com a ajuda de Sidney (Splendini, o mágico), vai atrás da história. 

Woody mistura elementos do thriller e da comédia bolando uma surpresa imediatamente estupenda. Cabe ao espectador com qual clima se identificar. Ou seja, nem vale julgar Scoop como uma comédia ou como um suspense propriamente ditos. O filme não é um e nem é outro, mas sim o derivado do mix dois, uma brincadeira ingênua e atrevida do Woody, que solidifica dois gêneros num só. A proposta do diretor é entregar uma experiência que beira o humor e a tragédia, capaz de tanto amedrontar quanto gargalhar o seu público.

Vale rir, vale questionar, vale entrar na história sem medo de ser surpreendido. O bacana é prestar atenção aos detalhes, à maneira como Woody costura a trama e apronta diante dos nossos olhos truques de mágica cinematográficos invencíveis. O que o diretor quis dizer com esse filme que tanto pode ser encarado como despretensioso e sério (ou, de um ângulo mais profano, é despretensioso, porém sério -- ou sério, porém despretensioso). 

Mas Scoop não é um filme ruim. O propício é relaxar e deixar o filme te levar. Woody faz de conta que é Hitchcock e tira sarro das empreitadas de seu suspense gritante e enigmático (embora despretensioso -- viram como é que funciona?), mas ainda sim vai levando ele sem deixar que a sátira tome conta e desvirtue os momentos mais obscuros, suspensos.

A química da "dupla de detetives" Woody Allen e Scarlett Johansson é fabulosa. Os dois funcionam plenamente. Não tem como não se deliciar diante das aventuras impagáveis deles adentro a investigação secreta que eles manejam. As participações de Hugh Jackman e Ian McShane são gloriosas. 

De uma forma mais lúdica, Woody brinca com a morte, ao encenar o repórter Joe Strombel no barco da morte, tentando chantageá-la, típico truque de jornalista, para descobrir o destino. Essa sequência é uma das mais memoráveis do filme. O final também reflete certo otimismo acerca a misteriosa passagem. Scoop é sobre a busca pelo sentido, a tentativa de compreender e codificar os acontecimentos que nos cercam, a consequência dos nossos atos, a intriga, os porquês. O furo jornalístico da estudante Sondra, os truques de mágica de Splendini e a curiosidade sobre o pós-morte que passageiramente instiga Strombel. Todos estão à procura, tentando rastrear as respostas para as suas questões, dando corda à enigmática existência. Também merecem menção, pela construção de uma atmosfera de suspense e constante escuridão tenebrosos, que tanto contribuem para esse lado obscuro do filme, a trilha, que faz uso de composições musicais bem intensas do naipe de "In the Hall of the Mountain King" e um trecho de "Cisne Negro", de Tchaikovsky, que abre o filme brilhantemente e a fotografia de Remi Adefarasin, o mesmo de Match Point.

primeiro post: Scoop: O Grande Furo
Scoop: O Grande Furo (Scoop)
dir. Woody Allen - 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Crítica: "BANANAS" (1971) - ★★★★


Depois de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, Woody Allen nunca mais regressou às comédias escrachadas e satíricas que marcaram o início da sua carreira, e que é definitivamente uma de suas fases mais inspiradas. Até tem certos filmes que relembram a fase, mas não lá exatamente um revival. A sátira nos filmes do Woody dali a seguir ganharam um tom mais inibido ou disfarçado. É tanto que em Woody Allen: Um Documentário é mencionado que o público americano "nunca perdoou" Woody por ter abandonado o gênero pastelão, rasgado. Bananas, um dos primeiros longas do diretor, é um dos exemplares mais gostosos e engraçados dessa safra. 

Em Bananas, Woody Allen interpreta Fielding Mellish, típico novaiorquino neurótico e sem-um-parafuso que trabalha testando produtos para uma grande corporação. Tendo abandonado a faculdade, Mellish gasta seu tempo reclamando das presepadas da vida e lamentando frustrações. Até que ele conhece uma ativista (Louise Lasser) e se apaixona perdidamente por ela. Após um tempo, ela decide dar um tempo na relação, e Fielding parte para San Marcos, um pequeno país latino que atravessa uma pesada ditadura.

A cena inicial de Bananas já dá uma dimensão do que é o filme: um repórter americano cobre ao vivo o assassinato do presidente de San Marcos, com direito a "entrevista" com a vítima, detalhes da cobertura, comentário... Essa amostra é praticamente uma garantia do show de comédia que é Bananas. Woody satiriza genialmente o estilo de vida em diferentes nações e os conflitos de estado, bem como a liderança e as maluquices das relações de poder. A análise é minuciosa e excentricamente bizarra. Bananas explora e critica através do bom humor as loucuras, os hábitos, as situações e as frenesis do mundo atual e da sociedade das mais diferentes maneiras. 

O protagonista trapalhão e que se mete nas mais doidas encrencas, o amor perfeito que sempre arruma um jeito de nos atrapalhar, o espírito de leveza e ironia que nos carrega no ar, as nuances de um humor piadista livre e sensacionalista (num bom sentido). Bananas é excepcional. E muito, muito, muito engraçado. A comicidade Alleiana nunca esteve tão bem trabalhada num ritmo tão circense e brincalhão como foi em Bananas. Acho que no quesito humor, tratando-se dessa fase inicial do cineasta, Bananas só perde para Dorminhoco (levando em consideração que ainda não vi Um Assaltante Bem Trapalhão e Tudo o que Você Sempre quis Saber sobre Sexo* (*mas tinha medo de perguntar))

Woody despe a seriedade de uma temática ainda recente e polêmica para fabricar um humor limpo e intenso. Ele dá asas à sua imaginação como diretor, roteirista e também ator para dar vida à uma comédia única em toda a sua carreira, uma das melhores que ele já fez, provoco. Afinal, brincar com o cinema também é permitido, ora essa! Nesse quesito, Woody tira 10.

O iconismo das sequências satíricas agradáveis de se contemplar e marcadas pela inteligência espelha o quanto esse trabalho não soube ser apreciado e não foi reconhecido à altura, o que é infelizmente uma lástima, tratando-se de um de seus filmes mais divertidos. Citando essas cenas hilárias, estão, entre as minhas favoritas, a abertura, a operação cirúrgica, a picada da cobra (que na verdade é um pequeno fragmento), o jantar (quando a cena foi preparada para ser filmada, os instrumentos que seriam utilizados por uma pequena orquestra, alugados, não tinham chegado ainda, então Woody sugeriu que os atores apenas fingissem tocar, sem os instrumentos - essa passagem, ironicamente, é uma das mais engraçadas do filme inteiro), o treinamento rebelde, a cena do metrô (Sylvester Stallone aparece como um figurante, arruaceiro), o julgamento (aquele trocadilho com o J. Edgar Hoover me fez gargalhar alto), a da loja de revistas, a do protesto, a cena final... E por aí vai. É cada cena boa, que o filme de 80 minutos e pouco passa voando. As cenas locadas em San Marcos foram filmadas no Peru e na Costa Rica. 

Bananas
dir. Woody Allen - 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

POETS OF NEW YORK ou RAIN IN THE CITY?


Hoje foi divulgado que a Amazon Studios, subdivisão da rede de streaming Amazon, comprou os direitos de distribuição do próximo filme do Woody Allen, ainda intitulado (o diretor revelou numa entrevista que está em dúvida entre Poets of New York ou Rain in the City). 

No elenco, estão Kristen Stewart, Jesse Eisenberg, Steve Carell, Blake Lively, Parker Posey, Corey Stoll entre outros. O diretor de fotografia é o lendário italiano Vittorio Storaro. A Amazon revelou que o filme será lançado nos cinemas no verão no Hemisfério Norte (junho ou julho desse ano), e mais tarde será lançado no catálogo dos assinantes Prime do site da empresa. 

A distribuição do filme pela Amazon Studios tem seu lado positivo e seu lado negativo. Por uma via, ficará mais complicado o acesso do filme aqui no Brasil. Logicamente, isso dificultará que o longa seja lançado nos cinemas nacionais. 

A série do diretor, também intitulada, virá a público neste ano e já tem no elenco ele mesmo, Elaine May e Miley Cyrus. O seriado também está sendo produzindo pela Amazon. E Woody, num comunicado oficial à imprensa, demonstrou felicidade nessa parceria, o que pode dizer que o cineasta apreciou o resultado do filme e da série (este último projeto tão detestado antes pelo diretor, que até disse na época do acordo, ano passado, ter cometido um "erro catastrófico"). 

De qualquer maneira, vale esperar por esse novo filme e a série e o que esses dois projetos poderão trazer de diferente dentro da vasta filmografia do Woody. Inovação é o que certamente não faltará, aposto. Até lá!

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Crítica: "POUCAS E BOAS" (1999) - ★★★★


Esses dias ando muito ocupado, tanto que creio que nunca estive tão abarrotado de coisas pra fazer como estou agora. O jeito vai ser sacrificar as minhas madrugadas pra ver se dou um jeito nesse blog e quito meu débito com os filmes que ainda precisam ser resenhados. Sem falar naqueles que precisam ser assistidos. E não vai ser esse ano que vou ver todos os filmes do Oscar, de novo e infelizmente, antes do prêmio, que acontece daqui a aproximadamente uma semana. Pra animar um pouco as coisas, decidi ver um filme do Woody Allen. É um calmante embriagador. O escolhido dessa vez foi o excelente Poucas e Boas

O filme é o último da fase anos 90 do diretor, e recebeu duas indicações ao Oscar 2000, em Melhor Ator e Atriz Coadjuvante. Sabe, já que entramos no assunto, convenhamos: a Academia deve ser doida. Woody Allen recebeu mais indicações em Roteiro do que qualquer outra pessoa na história do prêmio, e isso conta desde os filmes mais conceituados dele, como Noivo Neurótico, Noiva Nervosa e Manhattan, até os menos famosos, como Simplesmente Alice, Maridos e Esposas e Poderosa Afrodite. Agora, quando vem um filme bom, e que merecia ser indicado, os caras tem a pachorra de deixar o trabalho fora da lista. E não que eu esteja dizendo que os filmes indicados não mereciam estar lá. Dá até inveja do Woody ser esse roteirista potente que parece não errar nunca a mão. Mas Poucas e Boas, embora não seja o melhor filme dele, é uma peça notável e que merecia mais consideração. 

Poucas e Boas é sobre Emmet Ray, um suposto gênio do violão que teria sido uma das maiores figuras do jazz e o possível melhor violinista de todos os tempos apenas perdendo, nas palavras dele, para "um certo cigano da França". Não sei se é spoiler o que estou a comentar, mas de qualquer maneira se você não viu o filme vá ver e depois passe aqui para se informar: Emmet Ray não existiu, foi uma invenção da mente do Woody (ou não). Há controvérsias, já que no próprio filme ele é desenhado como um artista vagabundo que só teve fama em pequenos bares e casas noturnas em Nova Jérsei, e que não foi reconhecido ou aplaudido à altura. De qualquer maneira, a história é bacana e o desenvolvimento do filme é show. A história sendo ou não verdade, vale ressaltar que há múltiplas interpretações para essa história.

Emmet Ray é pintado como um homem egoísta, engolido pela sua própria ambição e talento, que rejeitava a todos ao seu redor, se embebedava e, após longas noitadas, acordava em outros estados (tem uma cena em que ele está em Chicago, se eu não me engano, e acorda na Pensilvânia); era arrogante, egocêntrico, trabalhava como cafetão nas horas vagas (a cena inicial mostra ele discutindo com uma prostituta sobre a morte de um dos clientes durante o ato sexual, por conta de um ataque cardíaco) e que sempre fazia o máximo para alcançar o tão almejado sucesso não importando a quem ele fosse machucar. Apesar do dinheiro, ele nunca foi além dos clubes noturnos quanto à expansão da sua arte.

Ray manteve um relacionamento por um longo tempo com uma jovem muda e deficiente mental/psicológica, Hattie (interpretada belamente por Samantha Morton, na performance de sua carreira), típica jovem garota comilona dos filmes do Woody. Emmet, em prol do seu lado artístico, se privava do amor, temendo que qualquer relação amorosa poderia destruir sua carreira e consequentemente o poder da sua arte. 

Embora na época tenha sido aclamado como comédia, Poucas e Boas termina como um drama, algo que está até mesmo concentrado na própria premissa deste, que é a de retratar a vida de um artista e o árduo caminho que ele tem de encarar, bem como seus demônios e suas vaidades, para trilhar a fama e o reconhecimento. Se Emmet existiu, fica uma ironia bem atribulada: um artista de peso, um possível ícone do jazz, que perdeu tudo, a sua arte, sua fama, seu amor e sua própria existência pelas vaidades e pela irresponsabilidade, em não saber lidar com o seu talento e com a pose de artista. Foi tão insucessível no seu sonho que acabou como estrela de um filme dado como pseudo-biográfico. Ou não, é lógico. Que mistério gostoso esse. 

Levemente baseado em A Estrada da Vida, de Fellini, Poucas e Boas conta com um elenco primoroso e esforçado. Sean Penn não mediu esforços para encarnar o fictício (ou não) Emmet Ray, tendo tido por um bom tempo aulas de violão para poder realizar no filme aquelas sequências deslumbrantes que lembram da trilha sonora de Vicky Cristina Barcelona, visto primeiro. A performance de Sean é uma pérola, um dos itens mais valiosos deste filme e da que tornam de Poucas e Boas um trabalho singular na filmografia do Woody. 

O diretor capricha, mais uma vez, num retrato bonito e divertido dos anos do jazz e da boêmia, tudo dedicado à grande paixão do cineasta fora o cinema, que é o jazz. Tiros na Broadway também se equilibrava no empenho técnico por trás de um retrato absurdamente bom de uma época legendária, mesmo que esteja distante de ser um filme sobre jazz. Poucas e Boas marca a parceria de Woody que durou três anos com o diretor de fotografia chinês Zhao Fei, que viria a trabalhar nos seguintes Trapaceiros e O Escorpião de Jade, consecutivamente. Poucas e Boas é o melhor falando de fotografia.

E, vejam só, que coisa interessante: o Woody Allen, que já demonstrou preferência em trabalhar com diretores de fotografia estrangeiros, só trabalhou, ao longo de toda a sua carreira cinematográfica, com apenas 5 diretores de fotografia americanos em 10 filmes (Gordon Willis, Lester Shorr, Harris Savides, Andrew M. Costikyan e David M. Walsh). O resto é tudo forasteiro. Já que tocamos no assunto fotografia, o lendário italiano Vittorio Storaro (o mesmo cara de Apocalypse Now, O Último Imperador, Último Tango em Paris, Reds, O Conformista e Dick Tracy) é o diretor de fotografia do próximo filme dele, ainda intitulado (numa entrevista, o cineasta revelou estar em dúvida entre Poets of New York e Rain in the City). 

Poucas e Boas seduz o espectador, um misto intenso de música, romance e filme de época. Sean e Samantha, inesquecíveis. Woody fabrica um longa memorável e elegante, cheio de momentos brilhantes. Também merecem menção Uma Thurman (linda, como de costume), Anthony LaPaglia e o cineasta John Waters, num papel pequeno, e Gretchen Mol. Woody Allen, apesar de não atuar, aparece comentando em rápidos depoimentos ocasionais sobre o músico. Poucas e Boas (esse título nacional é tão charmoso!) marca a primeira parceria de Woody com a produtora Sony Pictures Classics. O cineasta só viria a trabalhar novamente com a empresa dez anos depois, em Tudo Pode Dar Certo. Desde então, os últimos seis filmes dele também foram assinados pela produtora.

Poucas e Boas (Sweet and Lowdown)
dir. Woody Allen - 

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Crítica: "TRAPACEIROS" (2000) - ★★★★


Nestes últimos dias, acumulei tanto filme pra criticar que estou perdido tentando organizá-los aqui no blog. Enfim, acho que ainda falta falar sobre Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada, Longe Dela, O Impossível, O Segredo de Brokeback Mountain, Em Busca do Ouro, O Vencedor... Tô esquecendo de algum? Bem, vamos falar de Trapaceiros que depois eu vejo isso. Nesse ano vou tentar ver de vez os filmes que ainda faltam ver da filmografia do querido Woody Allen, e rever outros que estão desandados na minha memória.

Trapaceiros era o último filme que faltava ver do ciclo anos 2000 do cineasta. Consegui uma cópia em DVD e tive de me contentar com o áudio dublado, a única opção da cópia. Quando eu tiver uma brecha, vou tentar rever legendado na internet (Trapaceiros está na Netflix), ainda que ver o filme dublado não tenha sido uma experiência tão desagradável quanto eu pensava que seria. 

Nesta comédia, Woody Allen faz um lavador de pratos que também tem um pé no crime e que já ficou detrás das grades por um tempo. É aí que Ray Winkler tem uma ideia (quase) genial: roubar um banco através de um túnel. Para o projeto, Ray, com a ajuda da estressada mulher Frenchy (Tracey Ullman), aluga um estabelecimento frente ao banco, com a intenção de cavar um túnel e chegar até um cofre no local. Para o espanto de todos, o "negócio temporário" da Frenchy, que trabalharia por um tempo cozinhando e vendendo biscoitos para não chamar a atenção enquanto o plano do roubo engatinhava, tem mais sucesso que o tal plano do furto ao banco.

Há quem diga que o final adiantado de Trapaceiros seja incômodo, mas é a partir da surpreendente reviravolta que se dá à altura dos quarenta ou trinta minutos de filme que o filme começa. Dá pra perceber claramente que Trapaceiros foi idealizado como uma comédia, pura e genuína, como aquelas primeiras do diretor, que tanto contribuíram para o sucesso entre a crítica e o público e levaram o nome do então comediante às telonas. Falando nisso, se há alguma semelhança entre Trapaceiros e outro trabalho do diretor, diria que este faz um par perfeito com Um Assaltante Bem Trapalhão, onde Woody fazia um ladrão e se metia nas mais incrivelmente cômicas situações. 

Só pra brincar, um filme que funciona brilhantemente ao inverso de Trapaceiros, tanto na questão do gênero e da própria trama, é Blue Jasmine, que filma uma dondoca de Nova Iorque empobrecendo e indo à loucura com a mudança para a casa da irmã em São Francisco. Aqui, Woody explora a história de um casal de pobretões que faz fortuna. O cineasta está ao lado de Tracey Ullman. Os dois encarnam marido e mulher que, mesmo após saírem da pior, continuam incessantemente em pé de guerra, entre tapas e beijos. 

A crítica de Woody à high society é benéfica apesar da superficialidade, que realmente nem importa muito aqui. Oferece um contraponto ao humor e ao mesmo tempo o ajuda. A lista de personagens é pra lá de criativa e estimulante. Acho que a decepção foi mesmo pelo personagem do Woody. Muito embora ele mostre um pouco dos seus dotes como ladrão lá perto do final na cena do roubo à joia e também um pouco durante as tentativas de perfuração no subsolo do negócio de Frenchie, gostaria de ter visto mais da persona criminosa dele. Acho que ele até tentou no filme que sucede TrapaceirosO Escorpião de Jade, onde o personagem dele é um detetive particular que é hipnotizado e passa a, inconscientemente, roubar para um enigmático ilusionista. Também tem Igual a Tudo na Vida, onde ele faz um professor "psicótico" que tem repúdio a antissemitas.

As performances da Tracey e do Woody são formidáveis. Os dois conseguem sustentar os personagens e a trama do filme, bem como a comédia exalada, com perfeição, em especial a Tracey, que já havia trabalhado com Woody em Balas sobre a Broadway, mas não como protagonista. Acho que o Woody aqui se encaixa mais como coadjuvante do que propriamente como personagem central. A Ullman foi indicada ao Globo de Ouro pelo seu papel aqui. Merecia uma indicação ao Oscar, na minha humilde opinião, se bem que 2000 foi um ano impressionantemente bom para atrizes principais, no geral.

Trapaceiros é um trabalho bastante despretensioso, e que não deve ser levado a sério. Se a crítica captou bem e aceitou esse filme do Woody, fez errado ao enlamar as produções que seguiriam esta, que também são comédias leves e no mais despretensiosas, mas que foram seguidamente rejeitadas, tanto pela crítica quanto pelo público, o que é deplorável.

Eu pareço normal, mas gargalhei em Trapaceiros. Gargalhei mesmo. Não sei se é porque sou besta e costumo ir além no quesito rir de piadas-de-sorriso-de-canto-de-boca, mas gargalhei pra caramba, e dá pra se satisfazer com o conteúdo cômico aqui apresentado. A personagem Frenchy (Frances Fox-Winkler, por Tracey Ullman), por exemplo, lembra sutilmente do Stanley de Magia ao Luar. Ambos são tão parecidos comicamente falando. Dá até do personagem do Woody (risos), que vive sendo rebatido pela Frenchy, de veia sarcástica salteada. A cena inicial é um bom exemplo. A protagonista chega a ser até identificável com algumas figuras da vida real, com seu jeito escandaloso e desbocado.

Trapaceiros é aquele tipo de filme que a gente nunca quer ver acabar. É um trabalho muito especial vindo do Woody. Pode ser até menor, mas é excelentemente engraçado e bem-feito. O elenco, primoroso. A fotografia de Zhao Fei, chinês que trabalhou com Woody no anterior a este Poucas e Boas e no seguinte, O Escorpião de Jade, também merece destaque (puxa, queria eu ser pobre em Nova Iorque, e assistir àquele sublime espetáculo ao pôr-do-sol - que vida, que vida!). A construção da trama é delicada e a fermentação dos personagens é aguçada. Woody recheia Trapaceiros com ironia, humor escrachado, diálogos hilários e sempre brilhantes. Resumindo, não dá pra reclamar, ou até pedir mais. Trapaceiros é maravilhoso e ponto final.

Trapaceiros (Small Time Crooks)
dir. Woody Allen - 

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Crítica: "SETEMBRO" (1987) - ★★★★


Não ser amado pode doer. Mas não ser correspondido dói mais.

Foi da curiosidade de que Setembro é o filme que menos faturou nas bilheterias em toda a carreira do Woody Allen que me surgiu a curiosidade em ver o tal longa e se havia um porquê para tal feito. Que nada! Um dos trabalhos mais primorosos dele ser também o mais desprezado (desta vez tanto por crítica e público) e menos visto, bem irônico. O filme, livremente inspirado na peça Tio Vanya, de Anton Chekhov, foi pensado como um filme teatral pelo Woody, e de fato ele carrega um ar bastante teatral, isso até mesmo por conta da montagem do filme e do estilo narrativo assumido (acho que já do fato dele ter filmado o longa duas - quase três - vezes, dá uma noção do "teatro" que ele quis fazer).

Setembro se passa dentro de uma casa de veraneio em Vermont, e sua trama é centrada em duas irmãs, Lane e Stephanie (Mia Farrow e Dianne Wiest, respectivamente), que estão hospedadas no lugar e nutrem um carinho muito especial por um convidado da casa, o escritor Peter (Sam Waterston). Ainda temos em cena a extrovertida mãe (Elaine Stritch) que esconde um passado amargo e tem uma relação conflituosa com a filha Lane, que passou por poucas e boas ao lado dela num episódio fatal do pretérito. Desencontros vão e vem, um professor de francês, Howard (Denholm Elliot), que também se encontra no casarão, está perdido de amor por Lane.

Pouquíssimos filmes do Woody são tão dramáticos a ponto de excomungar a comédia, o forte do cineasta. Nem mesmo dois dos seus melhores filmes de drama, Crimes e Pecados e Blue Jasmine, são 100% dramas. Nesse quesito, é fácil comparar a totalidade genérica de Setembro a Interiores ou Match Point, pra não esquecer também de O Sonho de Cassandra que, apesar de ser suspense (e também drama, no fundo) erradica a comédia. São estes três filmes os filmes do Woody Allen em que rir é praticamente improvável, se eu não estou me esquecendo de algum (ainda não vi Mulheres e Maridos, pra constar).

Deixando um pouco de lado a questão do gênero, Woody conduz bem o filme e constrói um clima de tensão e desconforto que contribui na maior parte do tempo ao conflito entre os personagens e fortalece a contextualização das relações abordadas. A melancolia é quase uma marca registrada do filme em si, e tanto contribui para o estilo assumido, o andamento da trama e o esculpimento dos personagens. Os diálogos são pungentes e geniais (Woody Allen, né?) O desfecho e um tanto depressivo é salgado deliciosamente com uma pitada de suspense.

O elenco é primoroso, em especial o trio feminino Mia Farrow, Dianne Wiest e Elaine Stritch, três performances valiosíssimas. O filme inteiro foi filmado nos interiores do estúdio Kaufman Astoria (o mesmo estúdio que onde viria a ser filmado, mais tarde, Neblina e Sombras), e junto a isso vem o reconhecimento do trabalho do pessoal da direção de arte e da decoração do set e também da fotografia (Carlo Di Palma, em mais uma colaboração fantástica com Allen).

Woody discute a esfera do amor em um de seus filmes mais multifacetados e interessantes, que pode despertar as mais distintas interpretações no público. A trama inquietante e de fundo teatral desconstrói os valores da família e do amor incorrespondido. O filme também abriga questões como solidão, culpa e traição. Setembro é a tragédia dos sentimentos, a roda viva das desilusões e das frustrações amorosas. É um drama romântico/familiar incrível e thought-provoking, um trabalho mais que excepcional do nosso querido mestre Woody. Ah, e outra coisa: esse é um dos meus posteres favoritos de todos os tempos!

Setembro (September)
dir. Woody Allen - 

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Crítica: "UM MISTERIOSO ASSASSINATO EM MANHATTAN" (1993) - ★★★★


O primeiro filme do Woody visto em 2016. Esse ano, tentarei quebrar o recorde de vez e ver todos os outros filmes que ainda não vi dele. Só em 2015 foram 14 novos vistos (incluindo o mais recente, Homem Irracional). Ao todo, somam 31 de 46. Faltam apenas 15. Mas, enfim, deixando essa numerologia de lado, vamos analisar Um Misterioso Assassinato em Manhattan. Como já é de costume, é mais um trabalho fenomenal do Woody, garantia de um roteiro competente, uma narrativa gostosa de se acompanhar, sem falar que simplesmente não dá pra dizer não aos sutis charmes da obra.

A câmera trêmula de Um Misterioso Assassinato em Manhattan acompanha um típico casal nova-iorquino dos filmes do Woody, que vive de briguinhas mas que não conseguem ficar separados nem sequer por um minuto. Larry e Carol Lipton se espantam com a notícia da morte espontânea de uma recém-conhecida vizinha, que teve do nada um infarto e veio a falecer. O marido nem dá tanta importância, mas a esposa fica obcecada pelo caso, não se dando por satisfeita com os resultados da investigação policial. Ela própria inicia uma investigação quando passa a dar conta de certas estranhezas no caso, começando pelo marido da falecida, cuja reação à morte da mulher é indiferente demais pra ser altruísta.

Esta é a quinta e última parceria em tela como casal do Woody Allen e da Diane Keaton. O reencontro dos dois é divino, muito embora a Diane Keaton apareça bem mais do que o Woody, que é praticamente um coadjuvante na história, o que não é nem um pouco problema. É muito interessante ver como, mesmo depois de tanto tempo, a química dos dois permaneceu firme e forte, de fato viva.

Keaton faz o papel dessa dona de casa, Carol Lipton, cuja vida desinteressante logo se agita diante do misterioso caso da vizinha, que logo desperta nela interesse. Ela traça uma minuciosa investigação ao lado do amigo próximo Ted (Alan Alda), um escritor ocasional que está ajudando ela a organizar um restaurante, e que logo se apega ao suspense do caso que ela persegue. Lá pro meio do filme, a coadjuvante Anjelica Huston, no pele da escritora Marcia Fox, vem pra roubar a cena, novamente, como em Crimes e Pecados.

O Woody repetiu essa mesma combinação de suspense + comédia mais à frente com Scoop - O Grande Furo O Escorpião de Jade (tem uma cena em particular, quando a Carol invade o apartamento do homem viúvo, que lembra bastante do filme de 2001), em partes bem-sucedidas, mas não tão quanto Um Misterioso Assassinato em Manhattan, isso lembrando que revi recentemente Scoop, trabalho que não tinha gostado nem um pouco da primeira vez que vi, e confesso que o filme subiu significantemente no meu conceito. Dá até pra citar outros exemplares fora da filmografia do Woody, que tematizam o suspense e a comédia como um só, mas nenhum deles é tão bem construído como os dele, que consegue extirpar até mesmo dos menorezinhos façanhas gigantescas.

Fica apenas atrás de Tiros na BroadwayDesconstruindo HarryTodos Dizem Eu Te Amo e Simplesmente Alice, mas se sobressai como um dos melhores filmes da fase anos 90 do Woody. O roteiro, pelo menos, é sensacional. É incrível como o trabalho foi ignorado no Oscar, em especial na categoria de Roteiro Original. Allen volta a trabalhar com Marshall Brickman, o co-autor do roteiro de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa. O surpreendente é que o filme consegue surpreender por ser recheado de reviravoltas tão facilmente. A gente acaba caindo na brincadeira à la Sherlock Holmes deles, inocentemente. E é tudo muito prazeroso.

O resultado é triunfal. Woody Allen mistura ele mesmo, Hitchcock, Scooby-Doo e Sherlock Holmes e dá no que dá. A brincadeira de investigação do quarteto de personagens formado pelos Lipton, Ted e Marcia Fox agrada e cativa. O desfecho da narrativa é decorado por surpresas e formosidades. A fotografia do Carlo Di Palma proporciona ao público a experiência única de ver um filme do Woody Allen num posicionamento alternativo pouco usado por ele (acho que só dá pra comparar com Desconstruindo Harry). Como o tema musical dos créditos sugere, Woody também encontra espaço para expressar seu amor, mais uma vez, a Nova York, a cidade das mil e uma aventuras, de ritmo constante e incansável, de encontros e desencontros. Não dá pra deixar Um Misterioso Assassinato em Manhattan passar em branco.

Um Misterioso Assassinato em Manhattan (Manhattan Murder Mystery)
dir. Woody Allen - 

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Crítica: "IGUAL A TUDO NA VIDA" (2003) - ★★★★


Pedir mais de Igual a Tudo na Vida quando o filme já é um arraso é bem feio, e sinal de ingratidão pelo conteúdo excepcional que é. Poxa vida, ainda mais nesse projeto onde o diretor tinha tudo para calar a boca dos especialistas críticos com um, praticamente, revival de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, fato que talvez poderia cessar as exigências sem cabimento à um filme maior ou igual a, que tanto veio sendo protestado pela crítica nessa fase mal falada e nas primárias obras que sucederam o clássico Alleiano no fim da década de 70 e 80, com poucos exemplares tendo satisfeito o controverso paladar para cinema dos críticos. Quanto à mim, não tenho nada a reclamar. Igual a Tudo na Vida é um primor cinematográfico. Num de seus últimos grandes longas românticos, o diretor faz bom uso de autorreferências e constrói uma trama delicada e sem nenhum grave defeito, que prioriza acima de tudo a performance dos jovens astros Christina Ricci e Jason Biggs, casal no filme, o que certamente exemplifica o espaço do elenco jovem na filmografia do diretor, muito bem vista na sua última década de trabalho e nessa também, com a passagem de Emma Stone, Allison Pill, Jesse Eisenberg, e entre muitos outros. O próprio filme mais recente dele, Homem Irracional, compartilha essa temática.

Muito provavelmente pela idade, ou experiência, Woody veio abordando a juventude bem explicitadamente em suas últimas produções. E, nesse meio, Igual a Tudo na Vida pode ser visto tanto como o ponto de partida para esse idealismo quanto um bem-concluído destaque. O longa gira em torno de um iniciante escritor de piadas e humorista, Jerry Falk, cuja atual namorada, a espontânea e culta/"melindrosa" Amanda (por sinal admiradora de jazz, mencionando Cole Porter e Billie Holiday em um certo momento do filme, e também de literatura, dando de presente no aniversário de namoro com Jerry um livro de Sartre), só tira proveito, negativamente, de sua boa vontade e fascinação/ingenuidade fazendo com que ele seja humilhado, rejeitado, chifrado e pisoteado por ela sem descanso, e ele permanece indiferente diante de tais atos. Nem no sexo ele tem paz com as frescuras da mulher, apesar dela mesma não aguentar se afastar dele. É na vinda da mãe de Amanda, Paula Chase, que as coisas deslancham. Na tentativa de integrar o showbiz teatral com apresentações musicais, Paula passa a ocupar o tão adorado escritório do comediante e também atrapalhar a sua concentração com ensaios 24 horas num piano locado bem na meio do apartamento. 

Sem falar no agente anti e inadequado do rapaz, interpretado por Danny DeVito, com quem ele tem certos problemas com a renovação de um contrato que durará 7 anos. O receio de Jerry com a consumação desse contrato é que sua carreira poderá ir por água abaixo, e muito possivelmente não sairá do lugar. Mesmo assim, ele sente que deve agradecer, com esse contrato, aos anos de dedicação do homem à ele. Nesse cenário, surge a cômica figura de David Dobel, também escritor de piadas que, apesar de ser ateu, é fanático pela religião e violentamente contra o antissemitismo, como o filme bem deixa claro em cenas únicas, como a onde o diretor espatifa o automóvel de dois rudes caras que tomaram a sua vaga. Definitivamente engraçado. 

Apesar do amalucado trânsito de emoções e das poucas e boas, o casal se entende e é justamente nesse ponto onde o romantismo atinge seu auge, na beleza de um disparate de visões e num furacão hormonal incessante, que perdura por todo o filme, com a Amanda vira e mexe se autointitulando gorda - o que, acreditem, não é pra menos, quando o personagem é mesmo um saco sem fundo, e o Jason Biggs, na insegurança de sua vida amorosa jovial, incapaz de encerrar relacionamentos, o que talvez bem seja a razão para ele aturar o filme todo calado as patifarias da amada.

Do elenco, a dupla protagonista, os talentosíssimos prodígios Christina Ricci e Jason Biggs, já conseguem comandar o filme com certa maturidade, mas Woody Allen, aqui coadjuvante, consegue falar mais alto com um personagem incomum e nunca visto em sua carreira, que já foi bem definido anteriormente. Quero dizer, é um pouco estranho vê-lo num personagem da altura, ainda que o mesmo esteja adepto aos sensacionalismos neuróticos típicos à Allen. Mas o mesmo é preenchido por uma coragem, uma personalidade psicótica e certeira tão intensa, que acaba assustando. Mas vale pelas piadas excelentes, como sempre. Só de exemplo, a na qual ele fala que aprecia a masturbação mais do que o próprio sexo, visto que ele, uma vez, fantasiou um ménage à trois entre ele, Sophia Loren e Marylin Monroe. Posso parecer normal, mas ri feito um condenado nessa parte. 

O final, confesso, decepciona, mas não por isso deixa de ter sua parcela de qualidade, até porque tem vezes em que o amor é difícil de se controlar, imprevisível (ou não) à sua maneira, e nem sempre dá pra sair ileso de seus conflitos. Igual a Tudo na Vida, apesar de ter sido financiado pela Dream Works, produtora do Spielberg, e também ser si próprio um trabalho mais popular, de clima cool de Sessão da Tarde, não conseguiu chamar a atenção em seu lançamento, que resultou em apenas 13 milhões. Vai entender. Afinal, para um Woody Allen não é um filme tão existencial ou intelectual como é de costume. 

A leveza de Igual a Tudo na Vida concentra-se na sua rica filosofia que projeta o romance jovial em seu melhor, o amor que não depende de estereótipos inflados para fazer sentido e que consegue vencer as pretensões da idade de tão mágico que é. Um amor verdadeiro, quando sua força aniquila segundas intenções. Talvez nem tão correspondido assim, mas que deixa sua marca por autenticidade, por ser, de fato, uma experiência desconcertante. Ele até pode ser visto como um retrato anti-machismo, com a mulher fazendo a cabeça do rapaz, o traindo e até mesmo o minorizando, relevando outros elementos além dele, e sequer atestando a existência do amor na relação, o que vai contra a frequente imortalização feminina. É uma pena que não foi (surpreendentemente) visto, ainda mais pelo público juvenil e povão, o qual este é direcionado, muito menos aceito tanto pela crítica e público no geral. Consiste numa ideia tão simples e divertida, contagiosa. Maravilhoso, ao meu ver.

Igual a Tudo na Vida (Anything Else)
dir. Woody Allen -