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quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Crítica: "JOVENS, LOUCOS E REBELDES" (1993) - ★★★★★


Essa semana me pegou de surpresa. As responsabilidades vão despontando e se apropriando cada vez mais de um significativo espaço da minha vida e tomando o lugar dos pequenos prazeres que cultivo. Mas há uma razão, afinal, para isso estar acontecendo. A semana está sendo extremamente exigente em diversos quesitos e a vida vem pregando peças e sustos em mim com uma frequência assustadoramente intrigante. Paranoia? Medo? Insegurança?  O bom (provavelmente) é que o ano está acabando. 2017 promete muitas coisas novas. Entretanto, foco no presente. Ainda tem um longo caminho a ser percorrido. E escrever no blog torna-se mais e mais uma missão rara e complicada com o surgimento das responsabilidades que vão se apoderando de nossas forças, tanto físicas quanto mentais. Bem, vamos falar de algo que é motivo de alegria: Jovens, Loucos e Rebeldes, um filme recentemente visto que me encantou bastante por uma série de coisas. 

É um dos primeiros filmes do gênio Richard Linklater, que dois anos após viria a dirigir Antes do Amanhecer, um de seus melhores e mais inesquecíveis longas, oriundo de uma fase mais descontraída de sua filmografia, ainda que tão potente e eloquente como qualquer outra. Já eram visíveis, lá atrás, traços marcantes que viriam a definir o estilo e o ritmo fílmico de Linklater. Popular e aclamado, Jovens, Loucos e Rebeldes marcou época. Não é o melhor filme do Richard (este posto, por sua vez, é ocupado por Antes do Pôr-do-Sol, e não me canso de repetir que é um dos meus favoritos de sempre), mas é um baita de um destaque, principalmente como um percursor do cinema independente norte-americano. Aliás, o próprio Linklater já é um veterano do cinema vanguardista e independente dos Estados Unidos. 

O longa é basicamente sobre jovens, loucos e rebeldes. Ou melhor, a sociedade dos jovens, loucos e rebeldes. Em si, é um filme de pura descontração. O público se diverte, se identifica e se maravilha com as presepadas doidas do grupo de personagens que toma a conta da trama com alma subversiva e coração rebelde deste que é um trabalho excepcional.

As referências, o contexto crítico ao padrão de vida americano e às irregularidades do sistema escolar levemente tonalizam uma certa seriedade a uma história tão despretensiosa, natural e repleta de honestidade. Não dá pra negar que o filme é um estouro de tão bom. Além de tudo isso, é revolucionário, é importante, é tudo de bom. O elenco é formado por hoje astros renomados de Hollywood que na época ainda eram pivetes, como Milla Jovovich, Parker Posey, Adam Goldberg e Shawn Andrews, sem falar nas participações de Matthew McConaughey (all right, all right, all right) e Ben Affleck, ainda um completo desconhecido àquela altura. Até Renée Zellweger esteve no filme, como figurante (vejam só!). Quentin Tarantino revelou que este é um de seus filmes prediletos à Sight & Sound. 

Brilhante. Imensamente brilhante. Richard Linklater conseguiu fazer um filme agradável de se ver, inspirador e universal. Os velhos tempos de escola que ninguém esquece. As aventuras do colegial, os amores da juventude, as festas malucas. Um retrato mais que convincente, impactante, emocionante das agitações da idade e a representação quase onírica de uma época decorada pela liberdade de expressão e pela redescoberta moral. Excelentemente bem-feito! Quanto à "sequência espiritual" Jovens, Loucos e Mais Rebeldes!!, estou doido pra conferir. 

Jovens, Loucos e Rebeldes (Dazed and Confused)
dir. Richard Linklater - 

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Crítica: "UM MISTERIOSO ASSASSINATO EM MANHATTAN" (1993) - ★★★★


O primeiro filme do Woody visto em 2016. Esse ano, tentarei quebrar o recorde de vez e ver todos os outros filmes que ainda não vi dele. Só em 2015 foram 14 novos vistos (incluindo o mais recente, Homem Irracional). Ao todo, somam 31 de 46. Faltam apenas 15. Mas, enfim, deixando essa numerologia de lado, vamos analisar Um Misterioso Assassinato em Manhattan. Como já é de costume, é mais um trabalho fenomenal do Woody, garantia de um roteiro competente, uma narrativa gostosa de se acompanhar, sem falar que simplesmente não dá pra dizer não aos sutis charmes da obra.

A câmera trêmula de Um Misterioso Assassinato em Manhattan acompanha um típico casal nova-iorquino dos filmes do Woody, que vive de briguinhas mas que não conseguem ficar separados nem sequer por um minuto. Larry e Carol Lipton se espantam com a notícia da morte espontânea de uma recém-conhecida vizinha, que teve do nada um infarto e veio a falecer. O marido nem dá tanta importância, mas a esposa fica obcecada pelo caso, não se dando por satisfeita com os resultados da investigação policial. Ela própria inicia uma investigação quando passa a dar conta de certas estranhezas no caso, começando pelo marido da falecida, cuja reação à morte da mulher é indiferente demais pra ser altruísta.

Esta é a quinta e última parceria em tela como casal do Woody Allen e da Diane Keaton. O reencontro dos dois é divino, muito embora a Diane Keaton apareça bem mais do que o Woody, que é praticamente um coadjuvante na história, o que não é nem um pouco problema. É muito interessante ver como, mesmo depois de tanto tempo, a química dos dois permaneceu firme e forte, de fato viva.

Keaton faz o papel dessa dona de casa, Carol Lipton, cuja vida desinteressante logo se agita diante do misterioso caso da vizinha, que logo desperta nela interesse. Ela traça uma minuciosa investigação ao lado do amigo próximo Ted (Alan Alda), um escritor ocasional que está ajudando ela a organizar um restaurante, e que logo se apega ao suspense do caso que ela persegue. Lá pro meio do filme, a coadjuvante Anjelica Huston, no pele da escritora Marcia Fox, vem pra roubar a cena, novamente, como em Crimes e Pecados.

O Woody repetiu essa mesma combinação de suspense + comédia mais à frente com Scoop - O Grande Furo O Escorpião de Jade (tem uma cena em particular, quando a Carol invade o apartamento do homem viúvo, que lembra bastante do filme de 2001), em partes bem-sucedidas, mas não tão quanto Um Misterioso Assassinato em Manhattan, isso lembrando que revi recentemente Scoop, trabalho que não tinha gostado nem um pouco da primeira vez que vi, e confesso que o filme subiu significantemente no meu conceito. Dá até pra citar outros exemplares fora da filmografia do Woody, que tematizam o suspense e a comédia como um só, mas nenhum deles é tão bem construído como os dele, que consegue extirpar até mesmo dos menorezinhos façanhas gigantescas.

Fica apenas atrás de Tiros na BroadwayDesconstruindo HarryTodos Dizem Eu Te Amo e Simplesmente Alice, mas se sobressai como um dos melhores filmes da fase anos 90 do Woody. O roteiro, pelo menos, é sensacional. É incrível como o trabalho foi ignorado no Oscar, em especial na categoria de Roteiro Original. Allen volta a trabalhar com Marshall Brickman, o co-autor do roteiro de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa. O surpreendente é que o filme consegue surpreender por ser recheado de reviravoltas tão facilmente. A gente acaba caindo na brincadeira à la Sherlock Holmes deles, inocentemente. E é tudo muito prazeroso.

O resultado é triunfal. Woody Allen mistura ele mesmo, Hitchcock, Scooby-Doo e Sherlock Holmes e dá no que dá. A brincadeira de investigação do quarteto de personagens formado pelos Lipton, Ted e Marcia Fox agrada e cativa. O desfecho da narrativa é decorado por surpresas e formosidades. A fotografia do Carlo Di Palma proporciona ao público a experiência única de ver um filme do Woody Allen num posicionamento alternativo pouco usado por ele (acho que só dá pra comparar com Desconstruindo Harry). Como o tema musical dos créditos sugere, Woody também encontra espaço para expressar seu amor, mais uma vez, a Nova York, a cidade das mil e uma aventuras, de ritmo constante e incansável, de encontros e desencontros. Não dá pra deixar Um Misterioso Assassinato em Manhattan passar em branco.

Um Misterioso Assassinato em Manhattan (Manhattan Murder Mystery)
dir. Woody Allen -