Obra única na filmografia de um exímio diretor, Mike Leigh, Mr. Turner, além de ser um dos filmes mais belos e completos já feitos pelo britânico, é igualmente um filme de análise e observação ofegantemente ímpares, de tão perfeccionistas e admiráveis que são, bem-feitos por excelência e competência, esmero de sua desbravadora equipe de trabalho. E é desse tipo de filme que eu esperava de Leigh desde que fora anunciado Mr. Turner, no final de 2013. É um filme que resume-se na glória poética. Poesia sublime e afável, autoria inconsolável da genialidade de Mike, assinando direção e roteiro da película.
Logicamente, nem todos gostaram de Mr. Turner (prevejo bárbaras acusações do gênero "demorado demais" ou "exageradamente chato"), pois é um filme cuja pretensão não é agradar o espectador, mas sim fazê-lo refletir a partir da jornada e da vida de um dos maiores representantes artísticos ingleses da história, J.M.W. Turner. Feito por um extraordinário Timothy Spall (mais tarde voltarei no assunto), o personagem pintor que viveu na Londres dos séculos 18/19 é traçado inspiradamente no contexto de Mr. Turner como uma lenda história da pintura, cuja fértil e ambiciosa obra serviu de base para a construção de toda uma estruturação artística que até hoje consegue enfeitiçar seu público e acumular admirados elogios.
Mr. Turner ainda não foi lançado no Brasil e nem tem chances de ser lançado em nosso circuito (a possibilidade mínima do filme chegar aqui é em V.O.D.). No entanto, não significa que só por que a distribuidora e sua inconsciente irresponsabilidade com o acervo cinematográfico não trouxeram a película aos nossos cinemas eu vou deixar de então dar uma boa olhada no filme. Ano passado, fui convidado por um amigo e vi Mr. Turner numa raríssima exibição fora de circuito, e este ano volto a vê-lo por outras vias, só para não dizer que não o vi por conta de sua não-exibição no país. Enfim, deixando isso um pouco de lado, vamos falar do que realmente traz aptidão. Eu gostei de Mr. Turner. Não pretendo teorizar muito sobre o filme até por que não há essa possibilidade e nem essa necessidade, já que a obra bem não é lá tão revolucionária a ponto de gerar tanta comoção a partir do quesito e também não precisa de tanta teoria a fim de explicar os bons motivos para vê-la. Sendo dirigida por Mike Leigh, tendo um estrondoso elenco e um pessoal que capricha incessantemente para fazer o filme uma verdadeira obra de luxo e beleza, e ainda por cima tratando-se da cinebiografia de Turner, não é lá tão preciso enfatizar mais a partir do filme e garantir a compra de seu ingresso (ou neste caso, ver o filme fora do circuito - enfim: assisti-lo).
Mr. Turner é, através da primeira concepção, o retrato de um artista - suas peculiaridades, seus gostos, seus desejos, seu diário, suas relações, suas inspirações e sua conexão com a arte. Tratando-se do artista, Turner, em questão, Leigh remonta a metade de sua vida partindo da metade dela até o fim, traçando diversos episódios de sua vida, alguns nem tão desconhecidos assim do espectador mais disponibilizado de conhecimento. Traços fiéis e inteiramente reconstrutores da original vivência do pintor inglês fazem de Mr. Turner uma experiência singular e de uma perspectiva aguçada. E alguns elementos "extras" a tornam ainda mais memorável e rica de unicidade: a trilha sonora efusivamente cativante e bela de Gary Yershon, o mesmo de Mais um Ano, aqui sensacionalmente ótimo. A fotografia - sempre instigante e marcante - de Dick Pope, nunca errando, em mais uma simbólica colaboração com Mike, que iniciou lá na década de 90 com Nu. O roteiro de Leigh, um dos melhores já feitos pelo cineasta, levemente complexo e ao mesmo tempo desolador e contemplador, buscando em seu todo conceber a filosofia e a arte de J.M.W. Turner em cenas harmoniosas e diálogos brilhantes, quão fortes e formosos.
Timothy Spall, em uma gratificante e impressionante atuação, arranca do público a mais solene espécie de emoção. Com certeza, é a melhor performance dele, ao lado das outras feitas pelo ator em Agora ou Nunca e, é claro, Segredos e Mentiras, ambos filmes já dirigidos por Leigh. Destaco, entre outras, Ruth Sheen - atuando maravilhosa na pele de Sarah Danby, ex-amante e mãe das duas não assumidas filhas de Turner; Dorothy Atkinson, brevemente lírica e talentosa como Hannah Danby, fiel serva e empregada de Turner e sua temporária amante; e Marion Bailey como Mrs. Booth, Sophia, esmerada esposa do pintor que o acompanhou e cuidou dele até a sua morte, em 1851.
Então, os aconselho, por tudo o mais que vi aqui, e acabei por achar espetacular: vejam, de qualquer forma possível, Mr. Turner, pois o filme rende as duas horas e meia que gasta. Ele, provavelmente como já foi dito, tem pouquíssimas chances de vir ao Brasil. É melhor, antes que esse tempo se esgote e a obra se perca no tempo, vê-la em outros meios. Seja lá a internet, exibições anônimas, vídeo, ou qualquer outra forma. Dessa vez, é urgente fazer com que o filme não seja esquecido, por que de valioso ele tem até demais. Procurem, por favor, e assistam a Mr. Turner, uma película sem igual, que, de todas as formas possíveis, consegue ser mágico, sombrio, atordoante, melancólico, impressionista e sensível, sem deixar de ser minimamente interessante e obrigatório.
Mr. Turner
dir. Mike Leigh - ★★★★★
Mr. Turner é, através da primeira concepção, o retrato de um artista - suas peculiaridades, seus gostos, seus desejos, seu diário, suas relações, suas inspirações e sua conexão com a arte. Tratando-se do artista, Turner, em questão, Leigh remonta a metade de sua vida partindo da metade dela até o fim, traçando diversos episódios de sua vida, alguns nem tão desconhecidos assim do espectador mais disponibilizado de conhecimento. Traços fiéis e inteiramente reconstrutores da original vivência do pintor inglês fazem de Mr. Turner uma experiência singular e de uma perspectiva aguçada. E alguns elementos "extras" a tornam ainda mais memorável e rica de unicidade: a trilha sonora efusivamente cativante e bela de Gary Yershon, o mesmo de Mais um Ano, aqui sensacionalmente ótimo. A fotografia - sempre instigante e marcante - de Dick Pope, nunca errando, em mais uma simbólica colaboração com Mike, que iniciou lá na década de 90 com Nu. O roteiro de Leigh, um dos melhores já feitos pelo cineasta, levemente complexo e ao mesmo tempo desolador e contemplador, buscando em seu todo conceber a filosofia e a arte de J.M.W. Turner em cenas harmoniosas e diálogos brilhantes, quão fortes e formosos.
Então, os aconselho, por tudo o mais que vi aqui, e acabei por achar espetacular: vejam, de qualquer forma possível, Mr. Turner, pois o filme rende as duas horas e meia que gasta. Ele, provavelmente como já foi dito, tem pouquíssimas chances de vir ao Brasil. É melhor, antes que esse tempo se esgote e a obra se perca no tempo, vê-la em outros meios. Seja lá a internet, exibições anônimas, vídeo, ou qualquer outra forma. Dessa vez, é urgente fazer com que o filme não seja esquecido, por que de valioso ele tem até demais. Procurem, por favor, e assistam a Mr. Turner, uma película sem igual, que, de todas as formas possíveis, consegue ser mágico, sombrio, atordoante, melancólico, impressionista e sensível, sem deixar de ser minimamente interessante e obrigatório.
Mr. Turner
dir. Mike Leigh - ★★★★★














