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terça-feira, 13 de outubro de 2026

Em Busca do Ouro (1925)


Meu interesse pela obra do Chaplin foi renovado depois que fiz revisões a O Grande Ditador e Tempos Modernos, em novembro de 2025. Aliás, o caso de Tempos Modernos foi bastante especial, porque a revisão teve um efeito quase pessoal mesmo. A impressão é de que o filme estava falando diretamente comigo, quando parecia que eu estava como o trabalhador da fábrica, à beira de um colapso nervoso. E o filme também me fez pensar sobre a distopia insana que estamos vivendo, com o advento da IA e o risco que isso representa para os trabalhadores, de perder seu meio de sustento para a automação. Chaplin já estava atento a tudo isso lá em 1936. Dito isso, outro trabalho dele que eu mais sentia a necessidade de rever era Em Busca do Ouro.
 
Trata-se de outro grande exemplar de sua filmografia, abordando a ida de Carlitos ao Alasca, na ocasião da corrida do ouro. Chegando lá, ele nada encontra e passa fome, como muitos prospectores que, sem sorte, viajaram rumo ao norte no intuito de prosperar e acabaram de mãos vazias. 

Uma sequência em particular que me impressionou muito, e que eu não lembrava da força dramática que ela tinha, era a cena da comemoração do Ano Novo. Enquanto Carlitos está na cozinha da cabana, sentado à mesa sozinho, sonhando em ter um pão para comer, outros estão reunidos bebendo e festejando com toda a pompa em um salão. É incrível como o Chaplin conseguiu capturar esse contraste, e de um modo tão sutil e poético. Também são notáveis as cenas em que ele se alimenta de um sapato, ou da casa quase despencando do penhasco. 

É interessante observar que quando se está retratando situações de aperto, "sufocos", as cenas são mais cômicas, escrachadas, porém o filme inesperadamente ganha um tom dramático quando se aborda a fome ou a disparidade social. É um acerto e tanto, em como ele consegue equilibrar com leveza e bom humor condições precárias (como o Carlitos colocando sal em uma vela, ou brigando com Big Jim por comida), e ao mesmo tempo tem sensibilidade para tratar das injustiças sociais.

É como se fosse uma mensagem de otimismo, para as pessoas escolherem enxergar com descontração as dificuldades dessa jornada, os apertos, de forma a amenizar a insanidade disso tudo. Afinal de contas, para Chaplin, o valor real parece estar mais na dinâmica das relações humanas, que, ainda que imperfeitas, resistem os problemas e percalços, do que no ouro material, que embrutece as pessoas e as transforma em seres irracionais, destituídos de humanismo. Que bom é termos Chaplin para nos lembrar de que ainda pode existir fé no calor humano e no riso. 

domingo, 23 de outubro de 2022

Casamento ou Luxo? (1923)

 
Um dos primeiros filmes de Chaplin fora do gênero da comédia, e na qual ele também não estava presente no elenco, em que se constrói um comentário social sutil sobre costumes morais, em torno dos dramas dos personagens envolvidos na trama de uma mulher que troca o campo pela cidade. Interessante que é um filme muito bom, e ao mesmo tempo um dos menos falados de sua autoria, se comparado a TEMPOS MODERNOS, O GRANDE DITADOR e até MONSIEUR VERDOUX, para citar um que sai um pouco do eixo das comédias pelas quais ele se popularizou. É um filme inspirado que não é em nenhum momento piegas, mas consegue emocionar e tocar. Merecia ser mais mencionado, pois ele é bom até em como Chaplin consegue equilibrar momentos de humor e seriedade, flertando com o suspense, lembrando até alguns trabalhos do Hitchcock no começo da carreira.

domingo, 5 de abril de 2015

Crítica: "O GRANDE DITADOR" (1940) - ★★★★★


"Lutemos por um novo mundo! Um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice... Lutemos por um mundo de razão, em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados! Em nome da democracia, unamo-nos... Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontrares, levanta os olhos! O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz. Vamos entrando num mundo novo, um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade... Ergue os olhos, Hannah!" - O Barbeiro (Chaplin).

É neste emocionante discurso de O Grande Ditador onde encontra-se minha paixão e minha gratidão pelo enorme trabalho de Charles Chaplin, cidadão do mundo, irmão da humanidade, solidário e gentil homem que tanto nos fez rir e chorar, não só neste filme, mas em outras obras suas que exploram a humanidade e a bondade. Essencialmente nesse filme, um dos mais eternos deste gênio cinematográfico. 

Risos e lágrimas são produtos de O Grande Ditador, clássico da década de quarenta dirigido, atuado e escrito pelo indubitável Chaplin, autor de maravilhosas películas cujo principal objetivo é criticar o mundo atual (quer dizer, o mundo da década 20-50, mas que não diferencia-se tanto da atualidade). Mas o que há de tão especial em O Grande Ditador para que se torne um figurável destaque dentre todos os outros? O que há, afinal, de tão exclusivo? A resposta é o filme. Não sei dizer se é o charme, a inteligência, o poder, a comicidade, a sátira... São tantos os motivos que a resposta mesmo é o filme. 

E que admirável destaque é O Grande Ditador... Memorável destaque, que tanto nos faz refletir sobre os paradigmas e as fronteiras das guerras, não só as antigas primeira e segunda guerras mundiais, mas a Guerra Fria, a Guerra ao Terror, a Guerra Civil Americana, então: as guerras! O Grande Ditador leva o expectador a experienciar com seu afeto e seu espírito as cenas e as consequências de uma das mais brutais guerras: a Segunda Guerra Mundial. Só que, em vez de fazer um retrato original desta guerra, o genial Chaplin a traduz para seu gênero, transformando o sangrento capítulo em um episódio utópico protagonizado por Adenoyd Hynkel (Adolf Hitler), o sádico e hilário ditador da Tomânia (Alemanha), a mais poderosa potência de guerra européia, que briga pela ocupação da pequena e livre república Osterlich (França) com a igualmente grande potência de Bactéria (Itália), liderada por Benzino Napaloni (Mussolini). Só que neste contexto fictício-histórico, entra a estrelar um barbeiro judeu amnésico, ex-combatente da primeira guerra, vivendo no gueto ao lado de Hannah, seu par. 

É tudo tão simpático e ao mesmo tempo triste e melancólico; Não deixa de ser, entretanto, O Grande Ditador uma visionária observação da vida que uma guerra oferece, e dos extremos impactos que causa. Resumindo: mais uma revolucionária obra de arte do grande pai do cinema. Mesmo após tantos anos desde seu lançamento, O Grande Ditador não é clichê, e até sim bastante original, complexo, divertido e autêntico (tudo bem Chaplin), com direito a grandes performances do próprio Chaplin (em uma das maiores de sua carreira), Paulette Godard e o excelente Jack Oakie.

O Grande Ditador (The Great Dictador)
dir. Charles Chaplin - ★★★★★