Meu interesse pela obra do Chaplin foi renovado depois que fiz revisões a O Grande Ditador e Tempos Modernos, em novembro de 2025. Aliás, o caso de Tempos Modernos foi bastante especial, porque a revisão teve um efeito quase pessoal mesmo. A impressão é de que o filme estava falando diretamente comigo, quando parecia que eu estava como o trabalhador da fábrica, à beira de um colapso nervoso. E o filme também me fez pensar sobre a distopia insana que estamos vivendo, com o advento da IA e o risco que isso representa para os trabalhadores, de perder seu meio de sustento para a automação. Chaplin já estava atento a tudo isso lá em 1936. Dito isso, outro trabalho dele que eu mais sentia a necessidade de rever era Em Busca do Ouro.
Trata-se de outro grande exemplar de sua filmografia, abordando a ida de Carlitos ao Alasca, na ocasião da corrida do ouro. Chegando lá, ele nada encontra e passa fome, como muitos prospectores que, sem sorte, viajaram rumo ao norte no intuito de prosperar e acabaram de mãos vazias.
Uma sequência em particular que me impressionou muito, e que eu não lembrava da força dramática que ela tinha, era a cena da comemoração do Ano Novo. Enquanto Carlitos está na cozinha da cabana, sentado à mesa sozinho, sonhando em ter um pão para comer, outros estão reunidos bebendo e festejando com toda a pompa em um salão. É incrível como o Chaplin conseguiu capturar esse contraste, e de um modo tão sutil e poético. Também são notáveis as cenas em que ele se alimenta de um sapato, ou da casa quase despencando do penhasco.
É interessante observar que quando se está retratando situações de aperto, "sufocos", as cenas são mais cômicas, escrachadas, porém o filme inesperadamente ganha um tom dramático quando se aborda a fome ou a disparidade social. É um acerto e tanto, em como ele consegue equilibrar com leveza e bom humor condições precárias (como o Carlitos colocando sal em uma vela, ou brigando com Big Jim por comida), e ao mesmo tempo tem sensibilidade para tratar das injustiças sociais.
É como se fosse uma mensagem de otimismo, para as pessoas escolherem enxergar com descontração as dificuldades dessa jornada, os apertos, de forma a amenizar a insanidade disso tudo. Afinal de contas, para Chaplin, o valor real parece estar mais na dinâmica das relações humanas, que, ainda que imperfeitas, resistem os problemas e percalços, do que no ouro material, que embrutece as pessoas e as transforma em seres irracionais, destituídos de humanismo. Que bom é termos Chaplin para nos lembrar de que ainda pode existir fé no calor humano e no riso.


