terça-feira, 13 de outubro de 2026

Mortalmente Perigosa (1950)


Hoje considerado um clássico do gênero noir, Mortalmente Perigosa, de Joseph H. Lewis, à época foi recebido como um filme escandaloso. É um exemplo notável da aurora do cinema independente americano, que até então, em 1950, ainda era dominado ostensivamente pelo sistema de grandes produções saídas da máquina hollywoodiana, e havia bem menos espaço para produções de baixo orçamento em comparação com a atualidade.

Com roteiro de Dalton Trumbo, que, na época, estava banido de trabalhar em Hollywood após ser incluído na infame blacklist dos acusados de serem afiliados comunistas, Mortalmente Perigosa aborda o envolvimento de Bart (John Dall) com uma mulher de meios suspeitos, típica femme fatale, Laurie (Peggy Cummins), quem ele conhece em um festival de atrações. Após entrarem em atrito com o chefe do festival, eles partem e dão início a uma verdadeira jornada criminosa, começando a assaltar bancos e trocar tiros com a polícia. Inicialmente temeroso de manipular armas, por conta de um trauma de infância, Bart se vê seduzido pela agressividade de Laurie que, nas palavras dela, "só aprendeu a matar".

A história assume contornos de Bonnie e Clyde, com o casal delinquente levando uma vida louca, só querendo saber de cometer roubos e infringir a lei. Mortalmente Perigosa foi controverso por colocar como protagonistas dois jovens transgressores, numa época em que o cinema era mais conservador ao retratar marginais fora-da-lei, levando em conta como os costumes morais eram estritamente rígidos nos anos 50. Aqui, temos um filme de ação que nos coloca no calcanhar desses dois personagens, nos forçando a acompanhar do ponto de vista deles essa odisseia delinquente, bem como seu envolvimento romântico. 

A obra tem uma visão trágica do casal, mostrando que a vida desses personagens é permeada por um senso de urgência constante e calamidades. Eles sempre estão em fuga, sempre "no corre", e se por um lado a adrenalina é disparada a todo instante, pelo outro nunca encontram um momento de sossego.

É interessante traçarmos paralelos com outros filmes, como Scarface, de Howard Hawks, que também revolucionou ao colocar o bandido no centro da história, Bonnie & Clyde, de Arthur Penn, que mais tarde seria considerado o estopim do movimento da Nova Hollywood, que lançou as carreiras de gente como Scorsese, Coppola, Spielberg e Bogdanovich; e por fim Inimigos Públicos, de Michael Mann, que traz no centro da narrativa a figura emblemática de John Dillinger, gangster que tocou o terror na era da Grande Depressão com seus assaltos a banco e confrontos agressivos com a polícia. 

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