quarta-feira, 23 de setembro de 2026

O Mercador de Veneza (2004)


Adaptação da peça clássica de William Shakespeare, O Mercador de Veneza traz Al Pacino como Shylock, usurário judeu no centro de uma intriga envolvendo a dívida não resolvida de Bassânio, jovem cristão de Veneza. Shylock faz um acordo com Antonio (Jeremy Irons) que, caso a dívida não for quitada no prazo, ele lhe cobrará a taxa de uma libra de sua carne. Antonio consente, e o desfecho do caso é crítico. Enquanto isso, a filha de Shylock foge, deixando-o ainda mais possesso e vingativo. 
 
O filme é uma adaptação competente de uma das obras mais famosas de Shakespeare, com um elenco de atores inspirados, destaque para Joseph Fiennes (no papel de Bassânio), e Lynn Collins, no papel de Pórcia. Em geral, o longa segue uma linha mais tradicional das adaptações shakespearianas, respeitando a característica formal da dramaturgia do autor, e de uma obra que originalmente foi pensada para o teatro, de um texto denso e que navega entre o trágico e o cômico. 
 
São várias as cenas marcantes observadas no longa, como a cena que mostra as diferentes reações dos homens decepcionados ao abrir a caixa do tesouro e não encontrar ouro. Enquanto um fica mais triste e chora, o outro explode de raiva e indignação, ao passo que o terceiro, poeticamente, se comove ao encontrar o retrato de Pórcia no baú, conferindo à arte o status de verdadeiro tesouro. 
 
Também é interessante observar os comentários a respeito do tratamento dado aos judeus naquela época, lembrando que no período medieval o antissemitismo atingiu proporções dramáticas na Europa, e em vários momentos do longa, como nos diálogos com Shylock, há a inserção de questionamentos a respeito do sofrimento imposto ao povo judeu, quando Shylock acusa a hipocrisia dos cristãos ao se referirem a ele como "cão" quando o viam na rua, mas depois pediam clemência ao sofrerem com dívidas e juros (algo que ecoa o famoso diálogo que abre O Poderoso Chefão). 
 
Aliás, uma das grandes discussões a respeito de O Mercador de Veneza é justamente se Shakespeare foi ou não antissemita em seu retrato do personagem Shylock. No entanto, trata-se de um texto com camadas de complexidade, e que no geral desenvolve uma fábula sobre as falhas humanas tanto da parte de Shylock, que, ao se projetar como um imperador, acaba encontrando na lei um entrave às suas ambições vingativas, como também da parte dos cristãos que, ao perseguirem e difamarem os judeus, caíam em contradição quando estavam em necessidade e recorriam justamente a eles para alívio. 
 
Clemência, justiça e vingança são temas bastante evocados ao longo do texto, que atinge um grau mais filosófico com a agoniante sequência do julgamento de Antonio, em que, momentos antes da sentença ser proferida, ele é intercedido pelas figuras de um advogado e seu assistente (que são Pórcia e Nerissa disfarçadas de homens) para ajudá-lo a sair daquela situação drástica, em uma tirada conhecida das obras de Shakespeare, em que ele dissemina o caos invertendo os gêneros das personagens. A direção é de Michael Radford, que dirigiu 1984 (adaptação de Orwell) e O Carteiro e o Poeta.