domingo, 11 de outubro de 2026

O Planeta dos Macacos (1968)


É difícil não lembrar de 2001: Uma Odisseia no Espaço, lançado no mesmo ano que este, e que tratava de temas bastante similares, abordando a evolução da espécie humana na Terra e o advento da exploração espacial, que nos anos 60 chegou a novos patamares com a competição entre EUA e União Soviética pela conquista espacial, e a chegada do homem à Lua em 69. O Planeta dos Macacos e 2001 tiveram um timing impressionante trazendo à tona histórias nas quais o homem expandia contra as fronteiras do espaço sideral, e ao mesmo tempo se deparava com novos dilemas com a incursão. 
 
É curioso observar como que embora ambos os filmes tivessem um forte apelo blockbuster, feitos para lotar as salas de cinema, 2001 de Kubrick se tornou o mais idolatrado dos dois, ao passo que O Planeta dos Macacos ficou mais eclipsado pelo sucesso estrondoso deste, que praticamente se tornou naquele momento a obra-prima definitiva do Kubrick, e um marco revolucionário para o gênero de ficção científica.
 
Não é inapropriado dizer, no entanto, que O Planeta dos Macacos possui muitas qualidades em comum com ele, e eu diria que merecia ser tão lembrado quanto, especialmente por ser um retrato de como uma viagem espacial e a chegada a um planeta distante causam abalos sísmicos para a humanidade. Apesar de sua narrativa ser amplamente hipotética, o filme faz comentários afiados sobre o que estava acontecendo naquele período. Por exemplo, no início, com os astronautas refletindo sobre estarem a anos-luz de distância da Terra. Eles debocham da bandeira dos EUA perto da "vastidão cósmica" do espaço, como que numa tirada sarcástica do patriotismo doentio dos norte-americanos. 
 
A chegada no planeta provoca uma reversão do status do ser humano como "criatura máxima" do lugar, posto ao qual estavam acostumados na Terra. Eles então se veem sob o domínio de criaturas mais parecidas com macacos, que agem como administradores daquele planeta, como eles eram da Terra. Ironicamente, essas criaturas se comportam de forma muito parecida com os seres humanos, sendo capazes de reflexão crítica sobre ciência, direito e até mesmo troca de afeto. A cena do julgamento, por exemplo, é muito memorável, com a discussão de valores humanos e o discernimento sobre certo e errado enquanto analisam aquela criatura de outro mundo, o homo sapiens.
 
Mesmo sendo um filme de aventura/ação, crowdpleaser, é inegável que O Planeta dos Macacos lança diversas questões filosóficas e metafísicas, sobre o evolucionismo, e em como aquela jornada espacial reflete as ambições existenciais do homem, de sua busca por respostas, provocando um debate sobre a civilização, ou a noção do ser humano como criatura civilizada, pontuando a hipótese de como esse ser humano moderno e explorador espacial se comportaria diante de uma espécie competidora extraterrestre, que tentasse dominá-lo e subjugá-lo se valendo da mesma violência que os humanos empregam uns contra os outros na Terra.
 
Nesse aspecto, o filme faz uma análise da violência do ponto de vista evolutivo do ser humano, tecendo uma reflexão sagaz sobre a dimensão contemporânea da violência, e uma crítica aos riscos do militarismo presente. O desfecho premonitório soa o alarme para o risco de aniquilação nuclear na era moderna, algo que persiste, com a escalada nas provocações militares ao redor do mundo. 
 
Por fim, talvez a grande mensagem de O Planeta dos Macacos seja sobre a resistência do espírito humano, mesmo em um ambiente inóspito e hostil, como um sinal de esperança. No longa, a simplicidade do amor terreno, que o personagem de Charlton Heston encontra naquele planeta distante na figura de sua conterrânea Nova (Linda Harrison), acaba provando ser um instrumento potente de sobrevivência, o que não deixa de ser irônico pensar que, em meio a tantos avanços tecnológicos modernos, o simples amor, por mais primitivo e analógico que seja, continua sendo a "tecnologia" mais forte nesse sentido.
 
É como se o filme fizesse um libelo do amor romântico à raça humana como uma chance de esperança para a humanidade, provando que, mesmo após tantas mudanças e transformações, o coração do ser humano ainda é movido pelo mesmo espírito de renovação presente em todas as eras, ou seja, uma força transcendental que nos acompanha desde tempos imemoriais. Com uma mensagem tão universal, eu diria que o filme cumpriu sua missão de refletir os novos dilemas daquela época de tensão espacial-nuclear, sem perder o velho bom senso crítico sobre a ingenuidade da megalomania dos homens.

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