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quarta-feira, 30 de agosto de 2017

uma palinha de cinema: bressane, sion, penn


Poucos cineastas na história do cinema brasileiro – e, porque não, mundial – possuíram um cinema tão completo como o de Júlio Bressane. É essa capacidade de transformar cada frame e cada canto de um filme em uma obra que faz dele um sui generis da sétima arte, um tesouro escondido, um mestre. Todos os detalhes são orquestrados com um olhar minucioso, atento e feroz, tornando a sessão um prato cheio para quem gosta de "contemplar a vista", ainda mais quando temos em cena uma atriz tão inigualável como Alessandra Negrini, em suas poses e gestos, mil faces e contornos, expressa uma exuberante tentação imagética, que aliada às nuances bressanianas, movimenta e ressignifica a forma da maneira mais contundente possível. Trata-se de um épico da imagem, majestoso em sua dimensão quase surrealista, delicioso de se acompanhar, tanto por seu visual quanto por um retrato no mínimo interessantíssimo de uma personagem tão adorada pela cinematografia, a Cleópatra: um mito, um símbolo ou uma farsa do imaginário histórico/cinematográfico?

Cleópatra
dir. Júlio Bressane
★★★★


Interessante estudo de personagem/desconstrução de gêneros que consegue ampliar um foco em uma mesma característica sem sair do tom, e sem medo de subverter o protagonista para fundir duas perspectivas de um mesmo espectro (ou mais, até, se formos levar em conta uma dimensão diegética). Sion Sono trabalha de forma imersiva com os elementos que cercam seu filme, uma imersão totalmente cinematográfica, e ele parece realmente acreditar neste ponto, na sua proposta, mais do que qualquer outra pessoa, o que acaba se tornando um convite agradabilíssimo para o espectador em se sentir imerso em um universo lírico inexplicavelmente imprevisível e delicioso, onde somos guiados por uma sensação de surpresa e ao mesmo tempo encantamento, diversão. A tartaruga gigante é uma das criaturas mais fofas concebidas no cinema contemporâneo. Impossível não sentir seu coração derretendo. Meu primeiro Sion Sono é arrebatador. Sem mais.

Love & Peace
dir. Sion Sono
★★★★


Não sei bem ao certo o que o Sean Penn queria ao fazer este filme, parece mais uma série de experimentalismos com a câmera (numa certa cena, vergonhosa, há um jogo de closes, fast-motion e zooms muito zoado mesmo, a intenção de tornar a sequência, talvez, agitada, acaba se tornando uma zorra) acompanhando um casal de personagens (Bardem & Theron, provavelmente nunca estiveram tão péssimos em cena) e o pano de fundo, um conflito civil na África (o backdrop humanitário mais forçado e desleixado que se pode imaginar). A mise-en-scène é equivocada em muitos sentidos, desde uma concepção arbitrária e costurada com reducionismos ilógicos até o roteiro que parece ter sido escrito em questão de minutos tal qual é a falta de interesse e qualidade que ele reproduz. Toda e quaisquer tentativas que possam ser lidas como meras "boas intenções" não passam de tentativas.

The Last Face
dir. Sean Penn

quarta-feira, 26 de julho de 2017

CONDUTA DE RISCO (2007)


As performances de George Clooney, Tom Wilkinson e Tilda Swinton (brilhantes) ainda continuam sendo os melhores motivos para se ver este filme. Se por um lado Tony Gilroy acerta ao apostar em um mecanismo de tensão que movimenta a trama e traça paralelos entre os personagens criando um ritmo de fluidez impressionante, por outro acaba desvalorizando a mise-en-scene (a fotografia, excessivamente cinzenta, é tanto prejudicada com essa manutenção constante de suspense quanto ajuda a desenvolver uma noção bastante estável de solidez visual) e acaba focando mais em um roteiro que, apesar de saber o que quer, acaba caindo na própria incerteza de polarizar as tensões entre os personagens e arquitetar uma atmosfera de thriller, mesmo que esta não se revele tão facilmente. Há um favorecimento incrível por parte do elenco e também da trilha sonora magnética de James Newton Howard. No que diz respeito a dirigir os atores, Gilroy está um passo à frente. Embora não se possa dizer que é frustrante/decepcionante o suspense que ele tenha criado dentro de uma redoma de relações elétricas e pulsantes, permanece a sensação de que esta poderia ter sido trabalhada de maneira mais densa e consistente.

Conduta de Risco (Michael Clayton)
dir. Tony Gilroy
★★★½

terça-feira, 24 de maio de 2016

Crítica: "A GAROTA IDEAL" (2007) - ★★★★


Da primeira vez que vi, em 2014, tinha ficado um pouco em dúvida no que diz respeito à qualidade e aos valores fílmicos de A Garota Ideal, talvez por ter encarado o filme exageradamente como uma comédia, o que me fez deixar de lado a seriedade da proposta e da história que o filme aborda. Pra falar a verdade, interpretei o filme de forma diferente da primeira vez que vi, e creio que isso teve influência direta na minha compreensão e digestão do longa. Especialmente o final. Na primeira vez, o final ficou muito esquisito, sem sentido pra mim e muito bobinho. Desde então, vinha sentido essa necessidade de rever o filme, com muito interesse, embora me faltasse "coragem" ou disposição para fazê-lo. Aproveitei o frio e decidi revê-lo há algumas semanas. E gostei pra caramba, até mais do que da primeira vez. Mas vale lembrar que eu era um cinéfilo completamente diferente do cinéfilo que sou hoje há dois anos... Tinha uma outra cabeça pras coisas, uma visão completamente distinta da que possuo atualmente, principalmente em relação aos filmes. 

Mas, vejam se eu tenho culpa de ter interpretado errado o filme, com base em sua sinopse: um rapaz adulto, solitário e muito tímido chamado Lars arruma uma namorada. E, para a "surpresa" de todos, a namorada do homem é uma boneca inflável chamada Bianca. E o legal do filme está justamente na maneira que você interpreta essa história, e a proposta que o filme entrega. De uma forma ou de outra, não dá pra não ficar minimamente curioso com um filme desses e com uma sinopse tão singular, inédita, digamos. 

Ryan Gosling, um ator que eu gosto bastante, ainda que não tenha visto muitos filmes estrelados por ele, na melhor atuação de toda a sua carreira. Bem estranho a Academia ter deixado ele de fora dos indicados a Melhor Ator em 2008 por um filme tão oscarizável como A Garota Ideal, que até faz o estilo do Oscar e por tamanha performance, tão exímia. A única indicação do filme ao prêmio, no entanto, foi na categoria de Melhor Roteiro Original, indicação mais que justa, levando em conta a potência e a importância do roteiro de Nancy Oliver para o longa. É basicamente a essência de A Garota Ideal. Emily Mortimer, atriz de ouro, atua como a cunhada gestante de Lars, que vive insistindo para que ele tome café ou simplesmente faça uma visita a ela e seu irmão, praticamente vizinhos dele, embora o rapaz sempre ignore os convites dela, por timidez. Aliás, o desempenho dela no filme é excelente. Esse foi o primeiro filme que vi com ela, muito embora tenha sido ao ver Match Point que instantaneamente virei fã da moça. Não creio que a atuação dela aqui seja lá algo do tipo Oscar ou grande performance, mas a presença dela agrada bastante, até porque a Emily é uma figura demasiadamente simpática, não importa em qual filme esteja.

Quem merecia uma indicação na verdade era a sempre excepcional Patricia Clarkson, na pele da psicóloga/médica de Lars. Também sempre gostei muito da Patricia e acho que ela é uma intérprete digna de nota, realmente fenomenal. Pra completar, a participação desses três atores em A Garota Ideal, atores que eu adoro de coração, já é uma coisa bem especial de se ver, totalmente maravilhoso. Ah sim, antes que eu esqueça, outra participação notável é a da graciosa Kelli Garner, que faz uma colega de trabalho de Lars que tem uma queda por ele. Me lembro que fiquei apaixonado pela beleza enfeitiçante dela em O Aviador, no papel de Faith Domergue, ainda que ela só tenha duas ou três cenas no filme todo, uma delas tentadoramente sensual,

Acho que é um filme que merecia mais atenção, mais compensação do que recebeu. Até porque se trata de um filme, lá no fundo, bem importante. Até dentro do gênero, já que renova o estilo comédia romântica com uma abordagem distinta e complexa para o que o gênero está acostumado a abrigar. E o lado cômico de A Garota Ideal paira justamente sobre a grande ironia que a trama manipula, um cara namorar uma boneca inflável a fim de fugir de relacionamentos incompletos e irregulares, a emular a "relação perfeita", a "ilusão" do relacionamento ideal que a sociedade espera de um casal nos dias de hoje. Afinal, não há um relacionamento perfeito. Essa ótica tanto critica os relacionamentos e os ideais de uma relação perfeita quanto analisa a superficialidade e a instabilidade da vida amorosa das pessoas nos tempos modernos e da dificuldade humana em se relacionar. É essa ótica que serve de base e fortalece A Garota Ideal, e o firma como um filme esteticamente essencial, e que em tantas coisas reflete no mundo dos relacionamentos e na maneira que as pessoas encaram relacionamentos e se relacionam nos dias de hoje. Muito bom. 

A Garota Ideal (Lars and the Real Girl)
dir. Craig Gillespie - 

segunda-feira, 21 de março de 2016

Crítica: "O VISITANTE" (2007) - ★★★★


Em virtude da vitória do filme Spotlight - Segredos Revelados em Melhor Filme na mais recente edição do Oscar, decidi rever O Visitante, dirigido e escrito pelo mesmo de diretor/roteirista do longa, Tom McCarthy. Aliás, O Visitante foi o primeiro filme do cineasta que vi. Quando vi pela primeira vez, estávamos em plena Copa do Mundo (2014) e lembro da minha tia cozinhando alguma coisa, agora não me vem à cabeça o quê, enquanto eu assistia ao filme. Era dia de jogo do Brasil, e estava a maior balbúrdia, é tanto que eu nem lembro de ter terminado o filme. O Visitante, vibrante drama de McCarthy (seu segundo longa-metragem), rendeu a Richard Jenkins, o protagonista, uma indicação ao Oscar na categoria de Melhor Ator, que foi, por sinal, uma baita de uma merecida indicação.

Jenkins encarna um professor universitário viúvo que leva uma vida vazia e sem emoções. É quando ele vai presenciar uma conferência em Nova York que sua vida muda bruscamente: o professor encontra um casal de imigrantes morando no apartamento dele. O homem fica surpreso, mas não demora muito para se solidarizar com os estrangeiros, e passa a dividir o local com eles. Inclusive, o professor faz amizade com o rapaz, que até o dá aulas de tambor, muito embora seja quase sempre visto antipaticamente pela namorada do rapaz.

O filme prossegue num ritmo calmo mas constante, sempre vigilante. É tanto que são duas, eu creio, as cenas realmente tensas que podem ser notadas durante o filme inteiro. A primeira é a cena onde o professor encontra a moça senegalesa na banheira de seu apartamento, e a outra é a cena do surto, perto do final, onde o professor, geralmente pacato, expulsa sua raiva e seu desapontamento diante de uma notícia ruim. Não por acaso, essas duas cenas são duas das melhores do filme inteiro. O drama de Tom McCarthy dá corda a uma tonelada de conflitos em torno de uma história mundana e simples, profundamente tocante e poderosa.

Discretamente, Tom põe o dedo na ferida de uma temática atual e que ainda provoca polêmica, mas sem ser necessariamente escandaloso ou impessoal. É a história sobre o encontro de dois mundos diferentes, duas culturas diferentes, hábitos diferentes, histórias diferentes, numa só. O Visitante opta por um retrato afável de uma realidade cruel. Também é sobre a esperança em um mundo perdido e desgovernado, aprender a lidar com a derrota e seguir em frente, acreditar no poder da união. 

O elenco dá um show de competência bem-sucedido e certeiro. Richard Jenkins, o protagonista sessentão do longa, é dono de uma performance irreparável, absolutamente plausível e emocionante. Além dele, também vale mencionar as atuações ainda mais inesquecíveis e bonitas de Haaz Sleiman (o imigrante sírio Tarek), Danai Gurira (a namorada senegalesa de Tarek e vendedora artesanal, Zainab) e Hiam Abbass (como Mouna, mãe de Tarek que rouba a cena nos atos finais de O Visitante com um desempenho pra lá de versátil).

Além de ser um verdadeiro gênio na área roteirística, Tom McCarthy mostra que sabe trabalhar bem com o gênero dramático e executa em O Visitante uma aquarela de emoções, diálogos e planos sensacionais que tanto contribuem para a atmosfera dramática da trama quanto à estruturação da lista de personagens. Controle e maturidade sustentam a história. É brilhante.

Bem perto do final, o filme logo se metamorfoseia de drama em filme-denúncia, quando logo se propõe sua crítica ao sistema de imigração americano e às pertinências e absurdos do governo da "maior nação do mundo". Direta e indiretamente, a dura alfinetada de Tom. É claro, no quesito filme-denúncia, Spotlight fica na frente, mas é bom observar que o diretor desde então já cultiva essa característica fílmica tão benévola e precisa. Ainda sim, O Visitante é mais drama do que filme-denúncia, enquanto Spotlight perece como mais um filme-denúncia do que um drama propriamente dito. Entretanto, ambos os trabalhos dão conta do recado e funcionam astutamente de ambas as maneiras.

O Visitante é um filme, acima de tudo, sobre a humanidade, sobre abraçar as diferenças, celebrar a união e preservar a boa vontade... É um filme espetacularmente belo e que merece uma conferida. Poderoso e sensível, O Visitante é maravilhoso, tocante, de deixar qualquer um estonteado. Por favor, vejam!

O Visitante (The Visitor)
dir. Tom McCarthy - 

sábado, 12 de março de 2016

Crítica: "NÃO ESTOU LÁ" (2007) - ★★★★


Cinebiografia do músico americano Bob Dylan, Não Estou Lá é fascinante. Aproveitei o tempo livre e fui ver na Netflix (me surpreende, aliás, o fato do filme estar no catálogo da rede por tanto tempo - acho que já faz mais de um ano que o coloquei na minha lista), ontem à tarde. A premissa do filme é simples: 6 intérpretes diferentes representam a figura e a música de Bob Dylan em seis episódios intercalados relacionados à vida dele. Quer dizer, nem tão simples assim. A complexidade, gostosa e que distingue o projeto de qualquer outra cinebiografia (ainda mais sobre um músico), é o que proporciona magia e deleite. O formato da narrativa é original e aguçado, distante de exemplares menores e menos competentes de cinebiografias musicais recentes. E funciona.

A princípio, não há como não ser atraído pelo elenco monumental, realmente de dar água na boca: Christian Bale, Heath Ledger, Cate Blanchett, Ben Whishaw, Marcus Carl Franklin e Richard Gere representam Bob Dylan em distintas personas. Mas, também brilham: Charlotte Gainsbourg, Julianne Moore, Michelle Williams e David Cross (esses dois últimos aparecem tão raramente que mal dá pra degustar da participação deles). Quem é o melhor do elenco? Olha, não consigo ver ninguém melhor ali que a Cate. Ela está fabulosa. Quanto à indicação ao Oscar em 2008 (a única indicação do filme para o prêmio, injustamente), foi supermerecida. Pelo menos ela merecia a estatueta mais por esse trabalho do que por O Aviador (ainda que seja uma performance boa, foi superestimada ao meu ver). As semelhanças com o Bob Dylan real são muitíssimas.

Ainda acho que saber que é a Cate Blanchett em tela complica um pouco as coisas, o efeito, sem querer mexer na qualidade da atuação dela. Creio que se eu tivesse visto o filme sem saber que era ela interpretando o Bob Dylan enalteceria-a ainda mais, e seria, provavelmente, bem mais impactante e harmônico descobrir com o desenrolar do filme, já que a grande parte do tempo ela está de óculos escuro. E, ainda que ela esteja brilhante, há um equilíbrio constante entre a participação dela e dos outros atores, sem desfavorecimentos. Todos estão de parabéns, mas a Cate Blanchett está incrível de plausível. Atrás dela, ficam o Heath Ledger e a Charlotte Gainsbourg.

Como o Todd Haynes tem uma carreira pequena, fica difícil fazer comparações no quesito direção. Todos os filmes dele são bem-dirigidos. Do maravilhoso Carol ao versátil Longe do Paraíso, tudo é caprichado ao máximo, sem exceções. E não foi nada diferente com Não Estou Lá. Uma obra cinematográfica gigante, importante e muito bem-feita. O mais legal é que ninguém faz cinema como Todd Haynes. O cara é único. E é um baita prestígio ser agraciado com um filme tão excelente como Não Estou Lá, de um diretor tão impecável e talentoso.

O principal é deixar o filme te levar. Embarque na brincadeira sem medo de ser surpreendido. Alguns se emocionarão e outros coçarão a cabeça. Mas o essencial é deixar o filme te levar. Só assim você compreenderá a fórmula, a trama, os personagens... A construção é o que encanta. Não Estou Lá é inusual e recheado de coisas boas. É triunfalmente prazeroso.

A fotografia calorosa e excepcional, conduzida pelo colaborador de longa data de Haynes Edward Lachman é uma dessas coisas absolutamente especiais e incomparáveis em Não Estou Lá. O filme por si só já vale pela fotografia do Lachman. Todos os filmes do Haynes, não por acaso, possuem fotografias belíssimas, e que já fazem o filme valer por elas mesmas. É claro, Não Estou Lá não é um espetáculo visual como Carol ou Longe do Paraíso, mas carrega uma fotografia impressionante (as sequências do Jude Quinn, que lembram bastante o clássico de Fellini Oito e Meio, com diversas referências inclusive, são visualmente potentes e indispensáveis).

Enfim, Não Estou Lá é simplesmente imperdível. E a cada filme a mais que vejo do Todd Haynes, ele engrandece no meu conceito. A cinebiografia do "malabarista" que mudou o mundo da música americana em grande escala. Ah, e também tem o elenco primoroso! Não Estou Lá é um monumento fílmico imperdível. Vejam!

Não Estou Lá (I'm Not There)
dir. Todd Haynes - 

sábado, 5 de março de 2016

Crítica: "EU, MEU IRMÃO E NOSSA NAMORADA" (2007) - ★★★


A princípio achei que iria odiar mas acabei gostando dessa fofa e doce comédia romântica, estrelada por Steve Carell, no auge da sua carreira cômica, e Juliette Binoche (tendo sido a presença desta que me motivara a conferir Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada). A história? Um jornalista viúvo que se atrapalha todo tentando criar as três filhas e que parte para uma desastrosa temporada de férias em família, onde se apaixona pela ficante de seu irmão, Marie. 

É verdade que o gênero comédia romântica está bem deteriorado e são raros os exemplares de qualidade de safra que invadem o nosso circuito em tempos recentes. Apesar de não ser um grande filme, Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada, mesmo com os quilos de clichê e as bobeiras usuais convenientes às produções de fins cômicos nos dias de hoje, consegue se safar e até que, no fim, é bem-sucedido na missão "ser uma boa comédia romântica". Lembrando "ser uma BOA...". O filme não vai muito além disso. É claro, há certas exceções nesse meio, mas ele é, no mais, um filme bom.

Quem viu Um Grande Garoto ou Gilbert Grape: Aprendiz de Sonhador deve conhecer o nome Peter Hedges. Diretor de Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada, Peter lançou-se no cinema como roteirista de Gilbert Grape (ele também é autor do livro), e foi engatinhando até chegar em Um Grande Garoto, comédia romântica que lhe rendeu uma indicação ao Oscar, em 2003, em Roteiro Adaptado, e que finalmente pôs a sua carreira como roteirista, e também diretor, nos trilhos. No ano seguinte ao lançamento de Um Grande Garoto, ele lançou-se como diretor, em Do Jeito Que Ela É (não vi). Este filme aqui foi seu segundo experimento como diretor. 

Ainda que tenha se saído bem dirigindo o filme, o roteiro continua sendo seu forte. É claro, semelhanças à parte, Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada está aquém de Um Grande Garoto no quesito roteiro, mas não se pode negar que é um exercício tão comovente quanto. Hedges marca pontos por ser um diretor de elenco. Ele comanda com astúcia um elenco gigantesco e lotado de talentos que, caso em outras mãos, poderia ter resultado em algo diferente, independente de qualidade. 

Fora os protagonistas Carell (cheguei à conclusão que você chega ao fundo do poço quando começa a se identificar com os personagens losers do Steve) e Binoche, temos ao fundo Dane Cook, o irmão "toupeira" do jornalista Dan, Alison Pill (ainda jovem, num papel coadjuvante), Dianne Wiest, Amy Ryan (ela não tem nenhuma fala - até agora eu não sei porque diabos ela foi elencada), Britt Robertson (não conhecia até esse filme), John Mahoney, e por aí vai. Das melhores atuações, destacaria o Steve, a Juliette, a Alison e a Britt. 

Particularmente, todos são ofuscados pela Juliette Binoche. Já é um achado vê-la como estrela de comédia semi-besteirol com pegada romântica, e ainda não-francesa, e quando se é fã da diva, não tem como não ficar extasiado pela participação dela aqui (acho que mencionei acima que ela foi quem me levou a Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada - gostei mais desse título nacional do que do título original). Legal ficar pensando o porque ela aceitou o convite, se foi porque ela se identificou pela história, se ela foi forçada, se ela achou gostosa a narrativa, se ela achou que seria bom trabalhar em um terreno cinematográfico mais despretensioso como descontração... As possibilidades são incontáveis, bem como os motivos para dar uma chance e ir ver de Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada. O segredo é relaxar e ter a consciência de que este é um trabalho mais leve e despretensioso. Se dá pra gargalhar? Meu amigo, no quesito "se rachar de rir", Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada é nota 10 (ok, posso estar exagerando, mas é por aí: garantia de satisfação). Como diz no pôster: "espere ser surpreendido". 

Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada (Dan in Real Life)
dir. Peter Hedges - 

quinta-feira, 3 de março de 2016

Crítica: "O ESCAFANDRO E A BORBOLETA" (2007) - ★★★★★


Lá vou eu me aventurar de novo em uma revisão. Há uns dois anos, O Escafandro e a Borboleta estava passando no canal Telecine Cult. Eu parei pra ver e não me lembro se vi inteiro (acho que comecei a ver pela metade, ou parei na metade, aí depois eu voltei e vi... Sei lá, só sei que, na minha memória, desde então, trata-se de um título deprimente - e ele, de fato, continua sendo, até mais do que tinha sido na época). Produção francesa financiada com dinheiro saído de bolso americano, e dirigida por um, O Escafandro e a Borboleta é uma obra vigorosa e inesquecível, uma das biografias mais bem-feitas dos últimos tempos e certamente um deleite cinematográfico pra quem aprecia um filme de qualidade. O longa acompanha o trágico destino do jornalista francês Jean Dominique Bauby, que sofreu um derrame e após um curto período em coma, como consequência, desenvolveu a raríssima síndrome do encarceramento, mal neurológico que afeta o sistema nervoso e paralisa todos os músculos do corpo humano, à exceção das pálpebras (o intelecto, bem como a visão e a audição da vítima, permanece intacto). Confinado a uma vida hospitalar incessante, o homem logo faz amizade com uma terapeuta que, ao lado dele, pratica uma linguagem de sinais através do olhar. Das piscadelas para "sim" e "não" à esquematização de um alfabeto, Bauby logo tem uma ideia: escrever um livro. 

Julian Schnabel é um artista completo. Diretor de O Escafandro e a Borboleta, o homem só possui quatro títulos na sua filmografia (incluindo este aqui). Acontece que o diretor trabalha muito no ramo das artes plásticas e realiza diversas exposições mundo afora, e ele também já atuou dentro da música. Lembrando que esses são quatro vastos títulos, diga-se de passagem. O que essas produções tem em comum? São retratos de artistas problemáticos e complexos de coração. O primeiro filme de Julian, Basquiat, falava da vida do artista múltiplo Jean-Michael Basquiat, descoberto por Andy Warhol (interpretado no filme por David Bowie), envolvido nas artes literária, cinematográfica, musical... O segundo, Antes do Anoitecer, rendeu a Javier Bardem a primeira das três indicações do ator até hoje ao Oscar,  na categoria de Melhor Ator. O espanhol encarnou o poeta e escritor cubano Reinaldo Arenas. Como O Escafandro e a Borboleta, Antes do Anoitecer inspirou-se na autobiografia literária de seu principal. Basquiat, Arenas e Bauby. O que esses homens tem em comum? Seres humanos vivendo em prol da expressão, apaixonados pela vida e de alguma maneira aprisionados aos seus demônios e mais obscuros medos e à dor, à perdição e à culpa. Só o pouco falado Miral, o último dele, que não se encaixa nesse grupo das cinebiografias.

Não vi ainda nem Antes do Anoitecer e Basquiat, mas pretendo num futuro próximo desvirginá-los dos meus olhos. A garantia é que O Escafandro e a Borboleta é um baita de um filmaço e creio que já por este é possível desvendar, muito facilmente, a potência cinematográfica e artística de Schnabel. O filme, de veia poética, reconta a trajetória final de um homem que, impossibilitado de se movimentar, teve como único recurso a imaginação para a sobrevivência. Imaginar para viver. A beleza por trás dessa trama toda vai bem além de um puro e inocente sentimentalismo lotado de atrativos. O Escafandro e a Borboleta é também a história de um cara arrogante e que fez muita burrada aprendendo a lidar com a redenção e com os seus próprios erros num estado vegetativo profundo e abstinente. É o ser frente a frente com os seus mais sórdidos defeitos.

O Escafandro e a Borboleta tinha tudo pra ser um melodrama furado e sem vida. Felizmente, não é: passa longe da cruel possibilidade. Há um jogo tenaz de gêneros e diálogos e climas que livra do filme do pecado e da perdição de um dramalhão sem vida. O sentimento que fica é de melancolia, ao contrário daquela sensação frívola de peso dramático nas costas que geralmente vem a ocorrer ao fim de um fracasso do drama, que não é o caso aqui. Há, inclusive, a adição de humor, o que chega a ser muito bem-vindo e extraordinário tratando-se de uma história dessas, tão carregada e intensa. Mas a descontração serve, nesse caso, para degustar melhor o tom do filme em si e também como confronto à certos embates morais cabíveis ao estado do Jeando. 

À medida em que vamos nos aproximando do fim, surgem as revelações e os emblemas. O Escafandro e a Borboleta é também um desafio ao nossos limites morais, à aceitação e à desconstrução dos erros. Todos somos humanos. Ser humano é o primeiro passo para abraçar a redenção e a liberdade de espírito.

A ciranda visual comandada por Janusz Kaminski que é a fotografia de O Escafandro e a Borboleta proporciona ao espectador uma experiência nutritiva, eletrizante e belíssima, das mais cativantes e fascinantes. A câmera brinca com as posições e muitas vezes nos põe na pele de Bauby. A pungência é delirante. A unicidade é ainda mais encantadora. Os ângulos trêmulos e planos individuais ajudam a construir o clima quebradiço e o cenário blue.

Afinal, é a superação que faz o herói? Indiretamente, o transtorno do jornalista desencadeou na auto-descoberta dele mesmo, na aceitação das decisões erradas e das feridas emocionais, de alma corrompida e moral descreditada. O filme, no geral, é crível e bem conduzido. Não há como reclamar. A pérola estonteante e maravilhosamente triunfal de Schnabel trata-se de uma obra-prima atordoante. Sua força é tocante. A performance de Mathieu Amalric, alado um elenco extraordinário, cheio de gente boa, é desoladora. Além da dupla Mathieu e Julian, temos, atrás das câmeras, o roteirista Ronald Harwood (que já trabalhou com cinebiografias anteriormente, por exemplo O Pianista, também vindo da autobiografia de um pianista polonês sobre sua trajetória em guerra), a editora Juliette Welfling (colaboradora do cineasta Jacques Audiard), e a produtora Kathleen Kennedy (sim, aquela que de algum jeito sempre aparece nos créditos dos filmes do Spielberg). O Escafandro e a Borboleta é, enfim, primoroso. Não tem como ir além disso. O filme é assim, impactante e delicioso, difícil de desapegar.

Só pra terminar, a cena mais dolorosa do filme: o derrame, ao som de "La Mer", provavelmente uma das cenas mais tristes que eu já vi em toda a minha vida. A reconstrução é épica. Posso estar enganado, mas é a melhor cena do filme.

O Escafandro e a Borboleta 
(Le scaphandre et le papillon / The Diving Bell and the Butterfly)
dir. Julian Schnabel - 

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Crítica: "JUNO" (2007) - ★★★★


É tanto filme que eu preciso rever que se mal consigo eu me recordar de seus nomes quem dirá se os vi por inteiro ou coisas do tipo (a confusão é maior com os filmes que vejo na TV, que costumam cortar muita coisa). No caso de Juno, peguei uma vez pra ver há um tempão mas deixei de lado e acabei sem terminar de ver. Fiquei evitando o filme na Netflix e decidi hoje pegar pra ver. Olha, rapaz, e não é que eu gostei de Juno? Poxa vida, que filme extraordinário é Juno. Gostei pra caramba. Um dos destaques do cinema indie mais adorados dos últimos tempos, Juno é um daqueles filmes que merecem ser vistos, de verdade. É um trabalho cinematográfico de primeira não só inesquecível como também admiravelmente doce e sensível.

No filme, a bela garota-revelação Ellen Page (no papel que a levou a uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz em 2008) interpreta Juno MacGuff, uma adolescente de 16 anos que engravida acidentalmente de um colega de classe e que decide doar o bebê a um casal bem-sucedido com condições para criá-lo. 

Jason Reitman, filho de Ivan Reitman (de onde vocês acham que ia vir o sobrenome Reitman, at all?), diretor de Os Caça-Fantasmas, fabricou uma joia rara. Quer dizer, ele fez mais do que dar ao filme um crédito de direção. A direção dele é uma das melhores coisas de Juno. O projeto, na verdade, é todo da Diablo Cody, escritora e ex-stripper que fez a sua estreia cinematográfica como roteirista com Juno, e conquistou o único Oscar do filme, de Roteiro Original. Cody deu vida ao filme.

Juno desconstrói a seriedade de uma temática tachada de tabu ainda recente e presente na sociedade e torna a jornada da brincalhona Juno em uma história avassaladora e que não busca julgar ou pintar defeitos. É apenas um filme sobre uma garota que engravida que quer viver e ser vista normalmente apesar de, e nada mais. Obstáculos morais? Nem pensar. O filme opta por um retrato mais suave, digamos, e menos condenante ou culposo. Os personagens adultos, aqui os pais da menina e o casal que quer adotar o bebê, não são envilanescados como poderia ser até previsto, mas isso não torna a trajetória dela fácil. É tudo muito fofo, muito colorido, muito macio, adocicado, mas não fácil. O filme deixa claro isso.

O humor despretensioso, piadista e irônico do filme ajuda a aliviar a tensão do drama contraído. Juno é um trabalho caprichado, não caprichoso, e simples que vai te conquistar. A leveza, o desfecho natural, os personagens... Juno é um filme maiúsculo, tocante. É pra assistir e aplaudir de pé. Simplesmente fantástico.

Juno
dir. Jason Reitman - 

sábado, 9 de janeiro de 2016

Crítica: "FALSA LOURA" (2007) - ★★★★


Às vezes, e de uns tempos pra cá não foi só algumas vezes, confesso, eu me pego pensando no quanto o cinema nacional é desvalorizado. O pessoal vive dizendo que no cinema brasileiro não tem nada, só tem filme ruim, "baixaria", produção pequena... Enfim, eu já nem mais fico perdendo meu tempo me estressando à toa com essas profanações populares sem pé nem cabeça. Mas, depois de visto um exemplar como Falsa Loura, que simboliza tão bem o melhor que há no nosso cinema, essa sensação de raiva, coisa boba minha, volta. Não chega a ser nem raiva. É mais desgosto. 

Se bem que a gente nem pode culpar o público, que muitas vezes nem tem acesso aos filmes independentes brasileiros, como este, que chegam ao circuito timidamente e vão embora da mesma forma que entraram em cartaz. E uma das coisas mais ruins é que, com o passar do tempo, esses filmes vão sendo esquecidos, e chegam ao ponto de serem inacháveis em qualquer lugar em que você os procure. É o caso de Falsa Loura. Considerei sorte achá-lo na internet, do jeito que as coisas andam. Depois que esses filmes saem das salas, fica bem difícil vê-los em outros lugares.

Mas, deixando de lado a minha inconformação quanto à essa situação em que se encontra o nosso querido cinema, que vai se desvanecendo pouco a pouco com a falta de cultura e popularidade, comento Falsa Loura, esse espetáculo nacional, filme único, o último dirigido pelo lendário Carlos Reichenbach, que nos deixou há três anos. Enigmático e sensual, o filme é um título de peso dentro da longa filmografia do cineasta, e foi bastante elogiado quando lançado. Estrelado pela belíssima Rosanne Mulholland, deusa dotada de uma beleza magicamente clássica e desconcertante, o filme narra o diário de uma jovem operária, Silmara, que sustenta o pai, rejeitado pela família, de passado tortuoso, e vai levando a vida junto às amizades e aos sonhos de mulher. 

Pela sua beleza, e condição social, volta e meia ela vive sendo praguejada como prostituta, isso das colegas de trabalho até seu irmão, tudo por conta da saúde econômica da mulher, que é paga pelo pai, que começou a realizar trabalhos para um conceituado advogado, para ir badalar com as amigas e fazer o que bem quiser. Apesar de nunca contar para a filha que tipo de trabalho realiza, ele a garante que faz tudo na honestidade e sem segundas intenções. 

Falsa Loura abre caminho para muitas discussões e diversas interpretações. O que acontece é o que filme se trata de uma pontiaguda crítica social, genial e bastante complexa, mas não difícil. Silmara, por ilusão e esperança, crê, rudemente, que a sua incomum beleza é o que faz dela exceção no espaço aonde vive, bairro de classe média baixa, e isso é o que a tira desse mundo de miséria, onde não há esperança para uma vida melhor. Ela se afoga na ilusão de que ser bela é o que a tira do sufoco rotineiro. 

O interessante de Falsa Loura é o que o suspense é costurado com tanta eficácia que chegamos a duvidar se os encontros da Silmara com seus famosos ídolos, que acontece em diferentes sequências no filme, são mesmo reais ou não passam de epifanias da personagem. O suspense fica no ar até os momentos finais, e se encerra irresolvido. O que é realmente esquisito é o que filme não falha exposto nessa vibe. Ele vai crescendo na nossa consciência. Quanto mais ele fala, mais a gente vai pensando fundo nas temáticas retratadas.

Por mais esforçada que seja na sua missão de tentar ser especial, dar fermento à dura vida que conduz, a Silmara uma hora percebe que, nem mesmo quando se é bonito, vivendo na miséria, consegue-se obter fama e melhorias. As pessoas sempre pensam a mesma coisa de você. O diretor faz dessa política de estereótipos a base do conto moral da Silmara, de que não importa quem você seja, é a origem e as suas condições que te fazem ser e viver na sociedade, e lhe reservam uma posição dentro dela. 

É uma pretensão ingênua e egoísta por parte da personagem. Mas todo mundo tem o direito de sonhar e ir atrás do que quer. O difícil é ser aceitado e reconhecido do jeito que é. Isso chega até ser pessimista, como se iludir-se fosse a única saída para a realidade. Se formos pensar direito, é bastante coerente. Quem não tem pra onde correr, conta com os sonhos pra sobreviver. 

Numa saideira ao lado das colegas operárias, a Silmara acaba ganhando a atenção de um vocalista de uma banda de rock, a Bruno e os Andrés, durante uma visita a um clube conceituado. Ela acaba dormindo com o cara, e nisso acaba se tornando a estrela do trabalho, sendo idolatrada pelas amigas, que veem nela a esperança e a ilusão do almejado mundo melhor, a aspiração da rápida ascensão social. Num segundo encontro, ela é maltratada pelo homem, que usa drogas e a usa como objeto, e vive sendo menosprezada, e isso acaba machucando o imaginário dela. É nessa segunda visita, quando ela perde a cabeça ao ver um incêndio (outro elemento misterioso do passado do pai dela) na TV e tenta convencer o cantor a levá-la para casa, que ela vai percebendo a sua realidade mostrando as garras contra a sua grande ilusão, dentro dela, dentro do seu imaginário. 

Se você busca erotismo em Falsa Loura, não se decepcionará. O filme é nota 10 nesse quesito. Embora as cenas de sexo da Rosanne sejam poucas, é possível se deliciar e muito com a nudez dela em outras cenas ademais as que ela tem as supostas epifanias ao lado de seus dois ídolos musicais prediletos, o Bruno de André e o Luís Ronaldo, ambos fictícios. Belíssima. Simplesmente bela e sensual sob todos os aspectos imagináveis. 

A performance da atriz, pouquíssimo conhecida na época, é invejavelmente primorosa, isso deixando de lado seu fogoso teor erótico e a força das cenas de nudez que ela aparece em. Também merece destaque a interpretação Djin Sganzerla, que faz no filme a colega de fábrica da Silmara, a Brida/Briducha vulga "Bruxinha", que bem no início do filme recebe uma repaginada no visual por iniciativa da moça. E fica bonita, apesar do look acabado do dia-a-dia fabril. No elenco, além dos conhecidos "galãs" globais da época Cauã Reymond e Maurício Mattar, também estava a Maeve Jinkings, hoje musa do cinema nacional, o Léo Aquilla (antes de se tornar um trans), a Luana Piovani (ela faz uma dançarina na pista do clube - nem vi), e até mesmo a Mamma Bruschetta tá aqui (na verdade o Luís Henrique, intérprete da Mamma, que faz o dono do clube). 

Falsa Loura
dir. Carlos Reichenbach - 

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Crítica: "O NEVOEIRO" (2007) - ★★★★


De um texto arrasador vindo da poderosa mente de Stephen King, surge uma das realizações cinematográficas mais provocantes, mobilizantes e desesperadoras dos últimos tempos, um filme que dispensa limites e choca, demais. Aonde chegamos? É esse o nosso fim? O ponto final? Ou o recomeço? O Nevoeiro, sinistro, consegue traduzir os emblemas da nossa fraqueza diante dos momentos mais obscuros e instáveis. O Nevoeiro debate a nossa insegurança com nós mesmos e o mundo ao redor. Os inesperados rumos que os episódios tomam, e nossas ações, refletidas no tenebroso espectro da verdade. A nossa falta de esperança e confiança. A nossa salvação contrastada com a nossa perdição. É a vida, companheiros. O Nevoeiro faz questão de filmar nossos lados mais selvagens colocados em prova, a intimidade do medo e da fúria, e como diante da ameaça tudo pode mudar. 

O filme começa aparentemente comum, com um sucessivo designer de pôsteres em trabalho, quando começa uma tempestade. No dia seguinte, tudo está destruído. Ele, o filho e o vizinho, com quem ele teve uma briga, vão até um supermercado para saber o que se passa. É lá onde o misterioso nevoeiro ganha destaque: todos são obrigados a permanecerem no interior do local até o fim de um turbulento nevoeiro que esconde gigantescas feras animais. As mortes, o desespero e a ausência de opções cresce, à medida em que a situação, num piscar de olhos, vira um caos. 

O desenvolvimento de uma atmosfera perfeita também é plausível, e move o terror da trama, enquanto vai alimentando a nossa ilusão de que a história continua apenas ali naquele ponto, sem evoluir para nenhum outro sentido. É desconfortável circular nesse ar, e ao mesmo tempo fica impossível desgrudar os olhos da tela. Um clima muito convencional, mesmo com os quilos de efeitos visuais notavelmente artificiais que são inseridos nas cenas. A tensão é constante, de forma com que esse medo contagie fácil o espectador, horrorizado com a situação. Bum. O alvo é atingido. 

A grande parte dos méritos de O Nevoeiro vai para um elenco mais que especial, formado por Thomas Jane, (a espetacular e inesquecível) Marcia Gay Harden, Laurie Holden, Andre Braugher, Jeffrey DeMunn, um elenco menos Hollywoodizado, talvez por opção do próprio diretor, como forma de desertar quaisquer comparação ou até mesmo recriar com exatidão o texto de King, inegavelmente muito bem adaptado por Frank, que presentou-nos com outros dois filmes vindos do trabalho literário de Stephen: Um Sonho de Liberdade e À Espera de um Milagre

A trilha sonora de Mark Isham e a fotografia de Rohn Schmidt são contribuintes imprescindíveis na elaboração desse clima genial que constitui O Nevoeiro, uma experiência atordoante que mostra a nossa realidade e sobretudo, num final precioso e único, a verdade que tanto nos é vedada. Acordar é o primeiro passo. Quando menos se espera, nunca se sabe o que pode acontecer. Não somos nós que estamos no controle - nunca. O Nevoeiro é simplesmente memorável. Engana o espectador com o abraço, mas no fim revida com um doloroso, mas preciso, tapa na cara. O medo é capaz de qualquer coisa. Nós somos, quer dizer.

O Nevoeiro (The Mist)
dir. Frank Darabont - 

domingo, 27 de setembro de 2015

Crítica: "A FAMÍLIA SAVAGE" (2007) - ★★★


Bom ver essa comédia dramática familiar de tom cinzento sucedendo Pequena Miss Sunshine, outro grande filme indie que aborda o mesmo tema e ainda foi financiado pela Fox Searchlight, que também produz este aqui, sem falar que ambos os filmes foram indicados consecutivamente na mesma categoria do Oscar, Roteiro Original. Embora não seja melhor do que o anterior, A Família Savage, talvez uma versão mais madura, depressiva e Alleiana do longa de sucesso de 2006, é incrivelmente realista e maneja uma abordagem convencional e deliciosa por cima dos casos de família. Ora humor negro, ora drama amargo, A Família Savage é um filme pra lá de encantador, muito embora seja o mesmo do mesmo - e por aí vai.

Se por um lado é repetitivo e desestruturado, devemos ao menos respeitar a qualidade da película favorecendo principalmente seu roteiro equilibradíssimo e inteligente, o elenco inspirado (nele, temos um trio contundente e sensacional formado por Laura Linney, Philip Seymour Hoffman e Philip Bosco) e o clima indie perfeccionista, que não escapa do talento de Tamara Jenkins, nome pouco conhecido, talvez apenas conhecido por esse título, já que ela não trabalha no cinema, e rima prazerosamente com a intensidade da história. 

É sobre aquela típica família com o/a patriarca/matriarca adoecendo, ou largado, e os filhos, distantes, demais ocupados com trabalho, suas famílias ou outros afazeres para se preocupar, mesmo que apresentem certo incômodo com a situação. É sobre a nossa família, afinal. Não é muito difícil se identificar com a história dos Savage. Eu mesmo, quando a minha vó ficou doente ainda nesse ano, em junho, e veio a falecer, semanas depois de seu internamento devido a complicações por conta da diabetes, acompanhei o estado dela de longe, já que ela morava no Maranhão, e nisso me comunicando com a minha prima de lá, a única disponível para me informar, e alguns colegas. Mas minha vida prosseguiu, tanto que, no dia da morte dela, eu estava estudando para cinco provas que teria no dia de amanhã. Toda família passa por uma situação semelhante, seja com qualquer membro dela. E não é só uma vez. É como um choque. Cada alarme é um susto. Mas, a vida segue em frente. É um ciclo, não? E o primeiro passo para enfrentá-lo é aceitar. 

Isso aconteceu em 2010 com minha vó paterna (bisavó paterna - nunca conheci minha avó paterna, apesar dela estar viva), quando ela quebrou o fêmur e, após a cirurgia, apresentou problemas, foi internada, e durante o leito contraiu pneumonia. Fiquei uma semana sem estudar com a notícia, já que a visitava frequentemente na busca de resultados, e nisso acompanhava minha mãe e meus outros familiares. A Família Savage reconta todos esses episódios. Se neles há humor, se neles há tragédia, sempre são episódios.

Aqui temos Wendy Savage e seu irmão, Jon Savage, que viajam até o Arizona para buscar o pai que apresenta alguns sinais de demência quando passa a se comunicar com um enfermeiro domiciliar através de suas fezes. Com o passar do tempo, as vidas pessoas de Wendy e Jon vão sendo pressionadas quando eles não apresentam nenhum sucesso em seus novos trabalhos, o que faz com que se sintam oprimidos e depressivos. Eles internam o pai, Lenny Savage, num asilo próximo ao trabalho de Jon. Wendy, sentido-se culpada, quer mudar o pai para outro lugar, um melhor que aquele, apenas para dizer que "fez a sua parte", mas o irmão, Jon, já inconformado e sem esperanças, vive debatendo com a irmã, superficialmente insatisfeita com a situação do pai, e intrigada com o namorado, que é casado, enquanto tenta estabelecer uma vida amorosa saudável e evitar preocupar-se com o surgimento da meia-idade, e as precariedades de seu fracasso. 

A Família Savage prioriza a natureza loser em seu caráter representativo, e faz dessa interpretação loser sua passagem para a estabilidade dramática. Felizmente, isso ajuda na construção dos personagens e na efetividade de uma narrativa evoluída. É, afinal, a cópia de uma vida debilitada sem muitas opções, restrita à escolhas, mas que necessita dessa decisão e da nossa paciência para a chegada de tempos melhores. Esses somos nós. Ou melhor, eu. Um loser que não quer crer tão cedo que é um loser, mas, quando chega no fundo do poço e revê tudo pelo que já passou até ali e ainda vai passar, assume sua posição e um pouco mais, como tendências depressivas e auto-destrutivas. Essa é a vida, camaradas. A vida loser, recheada com melancolia, desgraça e, na maioria das vezes, esperança.

A Família Savage (The Savages)
dir. Tamara Jenkins - 

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Crítica: "À PROVA DE MORTE" (2007) - ★★★★★


Para um filme que se afasta um pouco do clássico estilo de Quentin Tarantino, abarrotado de referências e narrativas complexas, À Prova de Morte é uma obra inesquecível. Se há o uso de referências num dos últimos filmes do cineasta é em menor quantidade, uma vez que a boa parte dessas referências, incluindo um personagem, estão destinados à Kill Bill. Uma sequência e outra remete a filmes de velocidade, tanto que é algo escancarado na montagem e na fotografia do filme que lembram mesmo antigos clássicos esquecidos hoje. Para alguns, À Prova de Morte é uma fonte inesgotável de nostalgia. Para outros, é a reinvenção de um gênero e a genialidade de sequências de ação de tirar o fôlego. E ainda para outros o filme é a mera mistura desses dois pontos, como eu acredito. Em todos os sentidos, À Prova de Morte é com certeza uma experiência deliciosa e espetacular.

Muito provavelmente À Prova de Morte poderia muito bem dar em Kill Bill. Pra mim, este filme não chega aos pés das duas outras grandes obras-primas do diretor, mas a forma e a edição da narrativa lembram muito, sem falar nas já mencionadas referências. A ideia é que Tarantino, no fim de economizar dois filmes, fez em À Prova de Morte a junção de duas aventuras de um maníaco das estradas. O filme é divido em duas partes. E em ambas essas partes somos apresentados a um dublê, cujo carro que era antigamente utilizado em filmagens é "à prova de morte". O grande prazer desse excêntrico maníaco podólatra (quem conhece bem Tarantino sabe que o diretor é podólatra - tem fetiche por pés - e isso vira e mexe é referenciado em seus filmes, desde Pulp Fiction até Kill Bill) é observar de perto a vida de jovens garotas da estrada e frequentadoras de bares. Em dois capítulos sangrentos, de finais distintos, e preenchidos com uma adrenalina do cão, Tarantino até foge de seu frequente estilo, mas o filme continua sendo seu, e a maestria continua muito evidente apesar das diferenças, que não são muitas.


O que mais provoca em relação à À Prova de Morte são as ambíguas versões que cada episódio da antologia apresenta. Se por um lado isso cria falsas esperanças no público em relação ao segundo episódio, conforta e mostra uma determinada evolução/mudança de Quentin. O universo machista e femininista (justamente o propósito dessa segunda parte, já que são as mulheres que vencem - nisso, Tarantino representa o enaltecimento das personagens femininas dentro do cinema em geral, e em especial o gênero ação) estão quites em À Prova de Morte. E isso não é o melhor. Não estranhem os longos diálogos femininos apresentados no longa, que são mesmo bem duradouros. Se Quentin ali evita a ação, reserva tudo para o final, e lhes garanto que trata-se da melhor parte. Embora eu creio que a melhor sequência de ação seja o final do segundo episódio, mais longo e mortífero, há quem diga que os deslizes rápidos, mas eficientes, de ação do primeiro episódio também sejam de tirar o fôlego. 

A fotografia temática assumida por Quentin Tarantino oferece um clima mais brusco e variado à imagem. A edição de Sally Menke é de uma proficiência exata e única. Isso pra não falar da trilha sonora que também é maravilhosa. O elenco que não é tão famoso à exceção do sempre brilhante Kurt Russell dá conta do recado, pelo menos o suficiente para acompanhar o clima do estilo de Tarantino, aqui levemente desfigurado mas nunca ausente. À Prova de Morte talvez mesmo seja um de seus filmes mais elétricos. Não no sentido de testemunharmos a todo instante uma ação típica e destruidora dele, mas sim na questão desse clímax perfeito que a trama atinge em tanto pouco tempo. Isso é Tarantino. E, é claro, como eu poderia esquecer do charme irresistível da estética exploitation aqui minuciosamente observada por ele em ambos os episódios?

À Prova de Morte (Death Proof)
dir. Quentin Tarantino - ★★★★★

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Crítica: "ZODÍACO" (2007) - ★★★★★


Hoje estava muito confiante em relação à Zodíaco. Queria ver muito o filme. Faz uma semana, comecei a vasculhar meus arquivos para ver se achava uma cópia que meu irmão possuía do filme e ano passado eu tinha pego para ver. Depois de tanto procurar, acabei ali mesmo me convencendo de que tal cópia estava perdida. Foi ontem que a achei no mesmo lugar que já havia antes procurado, talvez desatento. Reservei esta tarde especialmente para ver Zodíaco. E, em resumo, é um ótimo filme. Talvez, a narrativa medianamente lógica possa ter atrasado a resolução do crime em tela, mas é inegável dizer que trata-se de uma obra extremamente valiosa e importante. 

Há muita gente que andou falando por aí que Zodíaco tem uma história confusa. Pensando bem, eu mesmo não posso negar isso. As idas e vindas da investigação que Zodíaco investiga, em determinados momentos, confunde a cabeça do espectador. Sendo tal confusão proposital ou não, pouco creio que ela é prejudicial para o entendimento da proposta e trama apresentadas no longa. O que realmente vale em Zodíaco é a fórmula conduzida por David Fincher a fim de conseguir recriar a época e as dimensões existentes no contraste entre o crime e as investigações em cima do ainda irresolvido caso do Zodíaco. Ainda essa semana, vi outro filme bem semelhante à Zodíaco, sobre um caso criminal irresolvido, mas cujo título e fama leva o nome de sua vítima: Dália Negra. Lá, no entanto, a realidade foi transformada pela ficção, já que o próprio filme do De Palma tratava-se da adaptação de um romance que se inspirou no fatídico crime no objetivo de recriar uma outra atmosfera para ele, desta vez onde o mesmo fosse resolvido. Aqui em Zodíaco, que também trata-se de uma adaptação, tal resultado é obtido de duas maneiras, se bem que o próprio final fica bem ambíguo, inexplicado.

O conto, que analisa os passos de uma investigação criminal com base no tenebroso caso de um misterioso serial killer, auto-apelidado de "Zodíaco" em uma de suas mensagens aos jornais de São Francisco, e os crimes que precedem um segundo evento, cujo um jovem casal sofreu tentativa de assassinato, tendo a mulher morrido e o outro jovem sobrevivido. Isso em 1969. O primeiro evento, o assassinato de um casal, tendo ambos morrido, aconteceu no natal de 1968. Quem diria, ali naquele tempo, que a investigação ultrapassaria um limite absurdo de tempo, tendo durado vinte anos e alguma coisa? E o pior é que o caso é de uma profusão tão assombrosa e incompreensível que ver os esforços de Robert Graysmith (autor do livro que originou este filme) e sua obsessão constante em buscar as respostas para o crime, mesmo anos depois de sua origem, chega a perpetuar o próprio espectador a uma tortura silenciosa e invisível, mas que causa certo desconforto, já que a certa altura nos encontramos tão perdidos quanto essas respostas. Chega em um ponto que parece impossível descobrir quem é o assassino, logo que o suspeito idêntico (que no final volta para assombrar as nossas expectativas) é dispensado por falta de provas. 

E, embora a confusão e a duplicidade do roteiro sejam problemáticas e um pouco dolores, Zodíaco, sob nenhum pretexto sequer, deixa de ser um filme extraordinário, e simplesmente marcante. Não chega a superar, por exemplo, Seven - Os Sete Crimes Capitais, mas é um trabalho muito bem feito, e um dos melhores de Fincher, que, pelo incrível que pareça, não possui nenhuma aparente ou gritante falha até o momento em sua filmografia. A influência de Hitchcock, aqui novamente presente, não deixa de provar mais uma vez aquilo que, praticamente, tá estampado na cara: a competência de David com o suspense, e sua tão cedo maestria. Além disso, como não esperar de Zodíaco, um thriller excepcional, certa inspiração de Alfred Hitchcock, ainda mais quando seu próprio diretor foi um dos alunos mais dedicados dele? Muito provável que David Fincher seja, em uma pequena partezinha, nosso mais novo Hitchcock. A fotografia do falecido Harris Savides, colaborador de Gus Van Sant, é tremendamente bela e ágil, uma vez que ela penetra de uma forma tão esplendora nos cenários e os transporta para as suas respectivas épocas num piscar de olhos. A trilha sonora de David Shire é outra dádiva a ser comemorada. E o elenco é um espetáculo. Jake Gyllenhaal, como protagonista, mostra-se, como de sempre, um ator excelente, sendo o melhor membro deste grande elenco. Robert Downey Jr., aqui testando seu talento dramático, não se livra do ar meio bonachão que sua face tanto lembra. Mark Ruffalo, cuja voz me é um pouco desconcertante, e Chloë Sevigny também possuem performances fortes.

Zodíaco (Zodiac)
dir. David Fincher - ★★

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Crítica: "UM BEIJO ROUBADO" (2007) - ★★★★★


Eis outro filme que há tempos estava escondido na  minha prateleira e só agora me veio à cabeça a brilhante ideia de vê-lo. Comprei Um Beijo Roubado e nem lembro mais quando. Só sei que fiquei tão impressionado por ver a cópia deste longa no supermercado que acabei levando sem pensar duas vezes. Lembro que ano passado até tinha colocado pra ver, só que acabei dormindo, não por chatice (olha que uma coisa que Um Beijo Roubado não é é ser chato), mas acredito que por que estava cansado aquele dia. Coloquei só pra provocar. Como incentivo, o filme estava em português (não gosto de filmes dublados). E o bom dessas férias que chegam é que elas me trazem uma porrada de filmes para ver (e isso inclui uma lista ferozmente cheia no Netflix). 

Começo este novo semestre falando de Wong Kar-Wai, um cineasta que muito admiro por sua capacidade excelente de combinar com absoluta perfeição modernidade e epicismo, algo que não nos é desconhecido: é motivo de fracasso para muitos cineastas. Gostei bastante de longas como Amor à Flor da Pele, 2046, (o fantástico) Amores Expressos e seu último, O Grande Mestre. E esse gosto imediato não foi diferente enquanto assistia à Um Beijo Roubado, que já nos primeiros minutos me cativou intensamente. A estreia de Kar-Wai em um filme de língua inglesa não poderia ser melhor, na minha opinião mais sincera. Além disso, o diretor trouxe consigo nessa estreia um baita elenco, que também inclui uma estreante de mão cheia: Norah Jones, que, tendo me fascinado inúmeras vezes com seu talento para a música, incluindo o jazz, nesta comédia romântica me deixou ainda mais encantado, mostrando ser uma atriz absolutamente formidável, em par com Jude Law, que aqui aparece bem mais como coadjuvante, e Natalie Portman, em uma plausível performance mais ainda sim detalhada por pequenas falhas. 

Gostei da Rachel Weisz... Essa sim me deixou de queixo caído no papel desolado da ex-esposa orgulhosa e maluca de Arnie, um policial de coração partido que vive se embebedando, e faz amizade com Lizzie (Elizabeth, feita com glamour por Norah), enquanto a moça, que se identifica com ele por também ter tido um capítulo bem semelhante (Lizzie foi traída por seu namorado com outra, algo que ela descobre na primeira cena, onde entra no bar sofisticado de Jeremy buscando notícias dele, e deixa uma chave). Arnie vive sendo humilhado pela espalhafatosa Sue Lynne, que vive tendo diversos casos e só vem se redimir na última inconveniente hora.

Um Beijo Roubado é um mix bem generalizado de romance, drama, comédia e road movie, quando ela se encontra com a jogadora de cartas Natalie Portman, que a faz uma proposta bem tentadora, mas legível, que acaba ganhando a moça, enquanto as duas partem numa viagem para Las Vegas onde Portman pretende arranjar mais dinheiro para realizar mais jogos. E no final, o romance entre Lizzie e Jeremy imortaliza num estilo bem "à distância", já que a moça estava em Memphis trabalhando como garçonete e o rapaz em Nova York, impossibilitado de conseguir qualquer informação vinda dela, já que não sabe nem onde ela trabalha e nem como contatá-la, tendo, em uma das cenas, ter que ligar para noventa bares de Memphis no intuito de conseguir ligar para ela. Mas tudo funciona nos "mínimos detalhes", mesmo que algumas imperfeições tenham impedido o filme de alargar sua trama.

Digo isso, a única coisa que impediu o filme de ter uma trama de qualidade foi o fato de que o roteiro reservou demais os elementos e deixou tudo prontamente para o espectador, sem deixar pistas. Ou seja, no final, tudo saiu "mastigado". Não deu nem pra sentir o gosto da emoção. Talvez esse seja o grande problema de Um Beijo Roubado: tudo muito livre, "fácil". No entanto, não há quem discorde do trabalho magnífico e perfeccionista do diretor de fotografia iraniano Darius Khondji. Um Beijo Roubado torna-se um filme bem mais agradável por um lado pelo tamanho da beleza que nos é destinada nas cenas em tons bem nítidos de vermelho, azul, roxo, preto, e muitas outras cores que apenas destinam nossa atenção à mais poética visualização. Se não fosse a beleza impecável da fotografia, Um Beijo Roubado, ou melhor, o título em inglês My Blueberry Nights (Minhas Noites de Blueberry/Mirtilo) seria um filme com o gosto bem diferente do visto aqui. E essa é a coisa boa dos filmes de Kar-Wai: a cor, que quase sempre combina com a beleza, e nos faz perder o medo de ver um conteúdo meramente imprestável ou inválido.

Um Beijo Roubado (My Blueberry Nights)
dir. Wong Kar-Wai - 

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Crítica: "PIAF - UM HINO AO AMOR" (2007) - ★★★★


Do tresloucado submundo parisiense aos luxuosos palcos do Carnegie Hall, Edith Piaf - cujo centenário celebra-se em dezembro deste ano -, uma das maiores lendas de todos os tempos da música, e a maior representante feminina do music hall francês, possuiu uma história de cunho tão comovente e forte que por si só já é bastante fantástico ver um filme onde ela é encenada. E lindamente aqui, sua história entona-se perfeitamente na melancolia e no talento de Marion Cottilard ao encarná-la.

Piaf - Um Hino ao Amor pode parecer à primeira vista um filme exageradamente belo, colorido, vivo, passional e doce... Na realidade, não é totalmente assim. O filme parcialmente é triste, cinza, dramático, monótono, rigidamente doloroso e depressivo. Ele analisa categoricamente a tortura que a vida de Piaf foi, tal como também aprofunda o calor de sua pessoa diante das diversas situações. Desde a pobre e suja infância até a agoniada e solitária morte. No entanto, ainda sim não deixa de ser um filme belo, para se dizer a verdade. A beleza encontra-se na caracterização, que por sinal, é excelente. Só que devo, primeiramente dizer que o filme sobressaí-se mais por conta da querida Cottilard, vencedora e indicada a inúmeros prêmios, incluindo o Oscar e o Globo de Ouro, dos quais venceu, pela sua fabulosa atuação, até agora a melhor de toda a sua curta carreira.

Na dor, no sofrimento, no pânico, na doença, no desespero, na ingratidão, na infelicidade... Piaf cantou. Cantou com o coração, a cada vez como se nunca mais iria fazê-lo. Cantou a paz, a paixão, a ilusão, uma vida melhor, enfim... Admiro muito essa dama, e principalmente guardo um fascínio incandescente por sua jornada nada fácil de vida. Aprecio o modo de como ela lhe deu àqueles à sua volta que a desprezaram e não acreditavam que ela então um dia alcançaria o sucesso, e até mesmo o estrelato. Non, je non regrette rien, dizia a cantora, corretíssima na afirmação que diz "não volto atrás". Até hoje, me inspiro nas canções interpretadas pela voz da lendária Edith, de personalidade firme e consciente, fraca por miséria e confusa por erros acometidos por todo um caminho. E mesmo carregando consigo o deplorável passado que tanto a sufocou, não perdeu a graça, o estilo e a alegria de viver, celebrando cada minuto, como se fosse o último. 

E minha admiração pela cantora só mesmo ajudou na boa recepção desta película, ainda quando em equipe temos Piaf sendo interpretada por outra grandiosa artista, Marion Cottilard, de quem sou fã. Piaf - Um Hino ao Amor é uma obra que impossivelmente ou raramente deixará seu público insatisfeito, afinal, não vejo o por que. A película nos envolve tão singularmente na história que a emoção acaba por tomar conta de nós mesmos. Há cenas aqui que, tanto nos fazem refletir quanto nos deixam esmagados de tristeza, como o segmento onde Piaf descobre a morte do prezado amante, ou então uma das últimas - me emociono só de lembrar - que reporta a última noite de Edith. Cada cena perfeitamente filmada; cada take cheio de trunfo. 

E olha que, garanto, não precisa ser um tal lá mestre da área musical ou coisa do tipo para conseguir fisgar do filme o mais assombroso e elegante impacto. Compreendo aqueles que consideram a biografia chata, cansativa e parada, mas não há como não assumir que talvez tenha alguns momentos que conseguem falar mais alto e quebrar então esse preconceito do espectador em acompanhar filmes mais complexos do que o normal, talvez mais intelectuais ou impopulares. E olha que sendo sincero, Piaf é um filme bem pra lá de universal. A dor é universal. O amor é universal. A esperança é universal. A musica - por favor! - é universal. Se seu medo é esse, perca-o, por que esse filme é uma boa oportunidade de adquirir conhecimento sobre a cantora, além de também fornecer um ótimo contento cinematográfico. 

Piaf - Um Hino ao Amor (La Môme / La Vie en Rose)
dir. Oliver Dahan - 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Crítica: "VIOLÊNCIA GRATUITA" (2007) - ★★★★


Louco. Obsessivo. Gratuito. Violência Gratuita é assim. Pode ser traduzido para a sensação mais eufórica em pouquíssimas palavras, isto por que trata-se da análise da refilmagem do mesmo filme de 1997. Tudo bem que é um remake, mas desde que seja escrito e dirigido pelo mesmo autor da versão original, aqui Michael Haneke, que depois de dez anos do lançamento de uma de suas obras mais cordiais, decidiu revendê-la ao público com um elenco americano, é totalmente aceitável.

Confesso que Violência Gratuita me superou. Só pelo elenco, Naomi Watts, Tim Roth e Michael Pitt, já tinha uma noção do que seria, mas não pensei que Michael levaria tão á sério a questão da "fidelidade", entende? De qualquer forma, Violência Gratuita é uma das melhores refilmagens que eu já vi, sem medo e sombra de dúvida. Todo o impacto que envolve a trama de 1997 é presente, reprodução magnífica! Não irão se surpreender muito com relação ao que é contado, por que a história, pra quem assistiu ao original, é a mesma, em tudo, até nas cenas, nos detalhes das cenas, com pouquíssimas (mesmo) mudanças. Na verdade, pra ser bem sincero, os dois filmes são idênticos. É quase surreal. É claro, trabalhos vindos de um mestre incomparável como Haneke, não há como duvidar da excelência. 

Achei que nessa refilmagem do suspense austríaco para o cinema americano, Michael poderia aproveitar a oportunidade e colocar Isabelle Huppert, sua musa, no papel principal, o que eu acharia esplêndido. Naomi, no entanto, conseguiu encantar aqui como protagonista solenemente. Ela e Tim Roth. Ela, Tim Roth e Michael Pitt. Estão todos bravíssimos. 

E pensar que esta história poderia acontecer a qualquer um em qualquer lugar... É uma coisa esquisita, e ao mesmo tempo, carente de perspectiva: os dois jovens, aparentemente do nada, instalam um pânico viral contagioso. E no final de tudo, Violência Gratuita espelha mais uma vez a grandiosidade da obra de Haneke e sua genialidade cinematográfica. De tudo, acharia que este, de 2007, não funcionaria se não fosse por ele. Mas isso questiona, afinal, se tivéssemos nas mãos uma obra-prima valiosa e inteligente que no lançamento não teve reconhecimento suficiente, não poderíamos muito bem refilmar cena por cena, diálogo por diálogo, mudando apenas os atores? Esperto foi Haneke. Sete milhões a mais rende bastante. Resumindo: é a tradução de uma bem-feita, mas subestimada, obra-prima. E o mais audacioso desta versão se encontra justamente na proposta de refilmar quadro a quadro o anterior, com um sucesso tão extenso quanto.

Violência Gratuita (Funny Games)
dir. Michael Haneke - ★★★★½

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Crítica: "ONDE OS FRACOS NÃO TEM VEZ" (2007) - ★★★★★


Há duas coisas que eu admirei bastante ao assistir Onde os Fracos Não Tem Vez: a utilização de metáforas no roteiro e as cenas de violência extrema. Algo bem familiar das obras de Joel e Ethan Coen, mas que aqui sofrem um destaque notório. Um dos filmes mais aclamados dos últimos tempos, Onde os Fracos Não Tem Vez me chamou a atenção bastante de um curto tempo pra cá depois de ler em algum lugar um elogio a partir da performance de Javier Bardem. Um elogio bem chamativo, que utilizou adjetivos como "estrondosa", "memorável", "astuta" e "talentosa". que confesso, me deixaram curioso para então assistir. Não resisti e procurei-o, encontrando em DVD. E ao fim da exibição, tais adjetivos foram cabíveis tanto á atuação de Bardem, cuja comentarei a pouco, quanto ao filme em si.

Mas esta é uma obra tão boa que mal consigo descrever como foi a experiência de vê-la, o que não me impossibilita de fazer uma boa revisão dela a partir do que achei. O que mais posso fazer senão elogiar, como o próprio texto que me sugeriu a procurá-la? Com certeza, é um dos melhores filme dos Irmãos Coen. Não sendo o melhor, em minha opinião, talvez um segundo melhor, perdendo para Fargo. Tem uma audácia cativante, exuberadamente passível, quase atormentadora. Inicia-se as razões de ter adorado-a, mais precisamente são cinco, equivalentes a cada estrela que o filme fez por merecer:

Onde os Fracos Não Tem Vez conta com um elenco pequeno, a maioria personagens masculinas, porém fortes, novamente citando Javier Bardem. Eletrizante. Monumental. Agressivo. Íntegro. Nunca vi algo tão bom na carreira dele quanto ao que ele fez neste filme. Aliás, este foi o filme que o introduziu no cinema americano, pois atualmente, o vi bastante nos filmes da indústria. De passagem na fase espanhola, dos melhores dele vi o clássico de Almodóvar Carne Trêmula e o vencedor do Oscar Mar Adentro

A direção magnânima e equilibrada dos irmãos Coen. A ambição em dirigir um drama tão necessitado de competência e audácia. Uma adaptação tão corajosa, e tão difícil, no fim, conseguiu ser realizada graciosamente por eles. Tudo conclui-se em formalidade.

Com uma certa ligação ao filme, é digno e preciso reconhecer o trabalho magnífico de Cormac McCarthy em escrever a base, afinal este filme não seria nada, literalmente, sem ele: o livro No Country for Old Man. Ainda vou procura-lo. 

O estilo. Outra vez é preciso autenticar os Coen. Num nível de violência categoricamente falando alto, Onde os Fracos Não Tem Vez possivelmente não seria tão emocionante se o estilo do qual ele foi filmado, um obscuro faroeste da atualidade, se ausentasse. Desculpem se descordarem disto, mas a partir do meu ver, a graça desta película se centralizou clima que ela reproduziu. É inevitável para quem assiste. Não confundir isto com ação. Estou falando de sangue, e é bem diferente, apesar dos dois, aqui combinados, serem belíssimos.

E por fim, a excelência técnica. Em tudo, principalmente o elenco, destacando desta vez um Josh Brolin plausível e meticuloso (good job!) e um Tommy Lee Jones versátil e humano (good job!). A fotografia de Roger Deakins: good job! A edição de Roderick (irmãos Coen): good job! O roteiro dos irmãos Coen: fucking great wonderful job! Mesmo sem ter lido o romance de McCarthy, já confesso aqui minha preferência de elogiar desde já o script do filme. Vencedor de 4 Oscars em 2008, Onde os Fracos Não Tem Vez é sim um dos melhores finalistas a Melhor Filme, premiado com justiça, num título muito viável para este recheado western moderno.

Resumindo tudo: nota 10!

Onde os Fracos Não Tem Vez (No Country for Old Man)
dir. Joel Coen & Ethan Coen -