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segunda-feira, 21 de março de 2016

Crítica: "O VISITANTE" (2007) - ★★★★


Em virtude da vitória do filme Spotlight - Segredos Revelados em Melhor Filme na mais recente edição do Oscar, decidi rever O Visitante, dirigido e escrito pelo mesmo de diretor/roteirista do longa, Tom McCarthy. Aliás, O Visitante foi o primeiro filme do cineasta que vi. Quando vi pela primeira vez, estávamos em plena Copa do Mundo (2014) e lembro da minha tia cozinhando alguma coisa, agora não me vem à cabeça o quê, enquanto eu assistia ao filme. Era dia de jogo do Brasil, e estava a maior balbúrdia, é tanto que eu nem lembro de ter terminado o filme. O Visitante, vibrante drama de McCarthy (seu segundo longa-metragem), rendeu a Richard Jenkins, o protagonista, uma indicação ao Oscar na categoria de Melhor Ator, que foi, por sinal, uma baita de uma merecida indicação.

Jenkins encarna um professor universitário viúvo que leva uma vida vazia e sem emoções. É quando ele vai presenciar uma conferência em Nova York que sua vida muda bruscamente: o professor encontra um casal de imigrantes morando no apartamento dele. O homem fica surpreso, mas não demora muito para se solidarizar com os estrangeiros, e passa a dividir o local com eles. Inclusive, o professor faz amizade com o rapaz, que até o dá aulas de tambor, muito embora seja quase sempre visto antipaticamente pela namorada do rapaz.

O filme prossegue num ritmo calmo mas constante, sempre vigilante. É tanto que são duas, eu creio, as cenas realmente tensas que podem ser notadas durante o filme inteiro. A primeira é a cena onde o professor encontra a moça senegalesa na banheira de seu apartamento, e a outra é a cena do surto, perto do final, onde o professor, geralmente pacato, expulsa sua raiva e seu desapontamento diante de uma notícia ruim. Não por acaso, essas duas cenas são duas das melhores do filme inteiro. O drama de Tom McCarthy dá corda a uma tonelada de conflitos em torno de uma história mundana e simples, profundamente tocante e poderosa.

Discretamente, Tom põe o dedo na ferida de uma temática atual e que ainda provoca polêmica, mas sem ser necessariamente escandaloso ou impessoal. É a história sobre o encontro de dois mundos diferentes, duas culturas diferentes, hábitos diferentes, histórias diferentes, numa só. O Visitante opta por um retrato afável de uma realidade cruel. Também é sobre a esperança em um mundo perdido e desgovernado, aprender a lidar com a derrota e seguir em frente, acreditar no poder da união. 

O elenco dá um show de competência bem-sucedido e certeiro. Richard Jenkins, o protagonista sessentão do longa, é dono de uma performance irreparável, absolutamente plausível e emocionante. Além dele, também vale mencionar as atuações ainda mais inesquecíveis e bonitas de Haaz Sleiman (o imigrante sírio Tarek), Danai Gurira (a namorada senegalesa de Tarek e vendedora artesanal, Zainab) e Hiam Abbass (como Mouna, mãe de Tarek que rouba a cena nos atos finais de O Visitante com um desempenho pra lá de versátil).

Além de ser um verdadeiro gênio na área roteirística, Tom McCarthy mostra que sabe trabalhar bem com o gênero dramático e executa em O Visitante uma aquarela de emoções, diálogos e planos sensacionais que tanto contribuem para a atmosfera dramática da trama quanto à estruturação da lista de personagens. Controle e maturidade sustentam a história. É brilhante.

Bem perto do final, o filme logo se metamorfoseia de drama em filme-denúncia, quando logo se propõe sua crítica ao sistema de imigração americano e às pertinências e absurdos do governo da "maior nação do mundo". Direta e indiretamente, a dura alfinetada de Tom. É claro, no quesito filme-denúncia, Spotlight fica na frente, mas é bom observar que o diretor desde então já cultiva essa característica fílmica tão benévola e precisa. Ainda sim, O Visitante é mais drama do que filme-denúncia, enquanto Spotlight perece como mais um filme-denúncia do que um drama propriamente dito. Entretanto, ambos os trabalhos dão conta do recado e funcionam astutamente de ambas as maneiras.

O Visitante é um filme, acima de tudo, sobre a humanidade, sobre abraçar as diferenças, celebrar a união e preservar a boa vontade... É um filme espetacularmente belo e que merece uma conferida. Poderoso e sensível, O Visitante é maravilhoso, tocante, de deixar qualquer um estonteado. Por favor, vejam!

O Visitante (The Visitor)
dir. Tom McCarthy - 

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Crítica: "SPOTLIGHT - SEGREDOS REVELADOS" (2015) - ★★★★★


Rapaz, 2016 começou bem puxado pra mim. Agora, nem é o cansaço que me abate, como aconteceu no fim do ano passado com a sobrecarga de tarefas que me acometeu, mas sim é a minha agenda desorganizadíssima. Costumo ser bastante energético nas férias, e nem penso muito em descanso com os lançamentos, os prêmios, e afins que atolam esses três meses, dezembro a fevereiro. A questão é que fica difícil para planejar e reunir tudo isso, sem falar nos problemas pessoais que andam me assombrando.

Oito dias se passaram desde o início do ano e eu ainda não fiz nada de bom, o tempo não está a meu favor, entendem? Mas, enfim. Ainda sim, sigo à risca, esforçadamente, para não perder as estreias da comentadíssima temporada de premiações desse ano. No quesito favoritismo, o premiado Spotlight - Segredos Revelados está um passo à frente. E, tenho de confessar que tal preferência, abraçada pela crítica do mundo inteiro e pelos votantes dos principais prêmios dessa awards season, é justíssima. 

Tom McCarthy, cuja carreira é cheia de altos e baixos, tendo eu sido introduzido a ele com o belo O Visitante e me decepcionado à beça com a recente e horrenda comédia estrelada por ninguém mais e ninguém menos que Adam Sandler Trocando os Pés, surpreende com esse trabalho maturo e inteligentíssimo, seu maior filme até a data. O longa começou sua jornada na última edição do Festival de Veneza, onde foi coroado com uma chamativa comparação a Todos os Homens do Presidente e partindo desse elogio (proveniente de uma crítica positiva da revista Variety, que também frisou “soberbamente controlado, fascinante e detalhado.” [...] “uma façanha de encher cabines de cinema.”) veio colecionando uma quantidade enorme de troféus e promessa de Oscar. 

São incontáveis os motivos que fazem de Spotlight - Segredos Revelados uma experiência tão inaudita, que veio conquistando a toda gente que a testemunhou. É claro, há semelhanças que remetem a outras produções parecidas, bem como Todos os Homens do Presidente, comparação que de perto não é nem um pouco exagerada como muitos previam na época em que o filme deslanchou em Veneza. Nenhuma dessas comparações, se formos levar em consideração impacto e grandeza, são perfeitamente encaixáveis ao filme como um todo. 

E não são muitos os outros exemplares parecidos. Então, não há desculpa. Spotlight é incomparável. O filme domina uma aparência nova, um estilo novo, uma narrativa cujo ritmo e ar é diferente de qualquer outro, e isso é suficiente pra provar a força do Tom como diretor e essencialmente roteirista (ao lado do Josh Singer, que trabalha mais na TV). Nos tempos de hoje, não se vê facilmente autenticidade em qualquer lugar e tão especialmente estampada.

A premissa da trama, lenta no entanto envolvente, manisfesta, já nos primeiros momentos do longa, naturalidade, controle e coragem, indicando segurança e firmeza nos passos que dá. É visível a confiança que o diretor mantém na sua aposta, a de que seu filme funciona tanto como denúncia e, literalmente, clarão (ou, em inglês, "spotlight"), bem como o esforço para dar continuidade ao estilo que o filme cultiva, sem dar liberdade à escapismos: fechado, de pouca ação, focado nos diálogos, no movimento da investigação da equipe, na dedicação dos jornalistas. 

A trama não oferece espaço à especificações de qualquer tipo, sendo na montagem dos personagens, na esquematização dos eventos que trilha, permanecendo plana do início ao fim. É tanto que oculta-se informações pessoais acerca os personagens que participam da investigação, estando essas informações apenas restritas ao que é dito no interior do escritório sobre eles e suas vidas em especial, o que acontece com raridade, e do rol de opiniões, pouco esquematizado aqui.

A grande glória em Spotlight é a personificação desse caminhar monótono em conteúdo de interesse. Missão cumprida, assim por se dizer. É empolgante acompanhar de perto, ao longo de 120 minutos, essa rotina abarrotada de afazeres que se instala por sobre os jornalistas e a investigação que eles conduzem. O filme prende a nossa atenção. Não é maçante, nem vazio. E quem já é ligado ao jornalismo, quem trabalha no ofício ou costuma se prender à histórias do gênero, de cunho informativo, não se decepcionará em nada. 

É muito bom ver o filme de uma perspectiva mais impessoal. Spotlight é, muitas vezes, uma espécie de homenagem ao profissional que atua dentro do jornalismo, desencobrindo os fatos e expondo a realidade, fazendo o bem. São os heróis esquecidos, cobertos. E, de um olhar profano, é um ataque à religião, e à cultura da religião, mostrando o jornalismo partindo ao meio essa imagem de que se deve sempre enaltecer os membros da Igreja Católica, falando de padres, bispos, membrados das dioceses em geral e por aí vai, e que muitas vezes se faz errado ao compará-los com a representação de Deus, como se sempre devesse segui-los e obedecer às suas demandas, mesmo que esquisitas, um perigo enorme para as crianças, que sempre veem a igreja, a religião, sob um olhar sério, rígido, dotado de unicismo (a cena da primeira visita do Phil Saviano à redação é marcada por ótimos argumentos dentro desse território). 

E muito pelo contrário do que se possa pensar, Spotlight não desvirtua a Igreja Católica, não a desfaz ao ponto de minimizá-la, ou a desapoderar, mas expõe a verdade com o objetivo de alertar que a fé, na sua mais pura vértice, tornou-se o instrumento de criminosos, o que faz muito sentido. Pra falar a verdade, é um filme bastante recomendável para religiosos. 

Não é o bloquinho de notas versus crucifixo. É o bloquinho de notas preservando esse crucifixo, cultuando o direito humano de ter fé, independente isso sendo ou não a predileção dos jornalistas que investigam o caso. Não há sensacionalismo em Spotlight. O filme é direto, só tem um caminho, uma regra. Não há alusão de caráter opinativo. Não desvia seu rumo. É uma só mão, sem rodeios.

O filme chega a um ponto em que chega a ser agoniante ver como as investigações obtém tão pouco resultado, isso fazendo menção à persistente negação dos advogados, que sempre usam como desculpa a possibilidade deles perderem o cargo (o nome de Eric Macleish é tortuosamente ligado à essa complexidade).

Mas, com paciência e muito trabalho, os profissionais do The Boston Globe vão redigindo a matéria e mantendo pressão na investigação, sem deixá-la de lado nem mesmo nos momentos mais apertados, como é exemplificado quando os jornalistas são quase obrigados pelo editor-chefe do jornal a abandonar a matéria quando as Torres Gêmeas são atacadas pelos terroristas (é justamente dentro desse episódio que vemos o quão dedicado é McCarthy no direcionamento da história e no seu andamento petrificado e direto, que não se dá ao luxo de desviar a atenção do caso nem mesmo por conta desse evento, que só é analisado como barreira à velocidade da investigação).

Spotlight, filme independente, termina sendo mais um filme que conversa com o espectador do que um filme apropriadamente técnico, mesmo que ele não seja nem um pouco fraco nesse aspecto. O elenco dribla a pressão arrastada da trama, com atores já excelentes em performances exímias. Destaque para o Mark Ruffalo, provavelmente o melhor do elenco, numa atuação brilhante. Ele e a Rachel McAdams, que mais conquista pela seriedade da sua personagem, sempre muito concentrada. O Michael Keaton também não está tão ruim não. Enfim, todos estão de parabéns.

Tom McCarthy cumpre com sua palavra e passa o filme todo sob o mesmo espectro e com um clima que nos energiza e excita. O elenco também faz a sua parte, pondo em tela soberania e talento. Spotlight é surpresa e filme de poder, cuja marca registrada é essa levada de material singular e precioso. O filme só tende a melhorar à medida em que a gente vai pensando no que é exibido em tela. Cada cena mais chocante que a outra. Mediante a isso, é bem tenebroso pensar que nem tudo que sabemos é completamente verdadeiro, e que ainda há muito o que descobrir. Como registro, como exploração da verdade e como cinema, Spotlight - Segredos Revelados é mega importante. Uma obra deliciosamente bem construída e genial, primoroso, visionário, magnífico. Grandiosamente inteligente e cativante (sem precisar ser apelativo), protesto certeiro e que prova a força do cinema como motor da verdade e do desmascaramento. Um marco vigoroso!

Spotlight - Segredos Revelados (Spotlight)
dir. Tom McCarthy - 

sábado, 30 de maio de 2015

Crítica: "TROCANDO OS PÉS" (2015) - ★★


Tom McCarthy é um excelente diretor/roteirista, tanto que muitos não acreditam no fato dele ser um ator. Entre meus filmes favoritos que foram de sua autoria, estão o belíssimo e profundo O Visitante O Agente da Estação, com Patricia Clarkson e Bobby Cannavale. Confesso que possuo dúvidas quanto a seu novo filme, Trocando os Pés. Mesmo possuindo um roteiro bem criativo e bem desenvolvido, arrisco: um dos melhores trabalhos escritos de Tom (se não fosse pelo final sem razão), ainda sim ausenta no filme um certo charme, uma certa característica, que faz com que seu desfecho fique demasiadamente vazio e sem graça. Trocando os Pés acerta na tentativa de ser cômico e arrancar umas boas gargalhadas do espectador, mas é confuso, por que, uma hora diz algo e a outra desmente. Ele arrisca demais nos elementos sem causar nenhum efeito.

O primeiro grande erro de Trocando os Pés é querer se achar mais inteligente que o público. Não há coisa mais fatídica em um filme do que isso. O desenvolvimento dos elementos foi muito rápido, tanto que mal é possível notar o desenvolvimento caracterial dos personagens. O personagem Max Simkin, interpretado por Adam Sandler, apesar de ter uma certa diferença se comparado à maioria dos personagens feitos pelo comediante, no final apenas se parece com mais um personagem de Sandler. Ou seja, Max passa em branco. Torna-se apenas mais um personagem feito por Sandler, comunal à ele. Arrisco que até pode ser um de seus melhores (o personagem), mas não é, por exemplo, um Barry Egan (Embriagado de Amor), que é, na minha mais certa opinião, o melhor personagem até o momento feito por Adam. Além disso, neste longa, Adam parece estar desinteressado, pois não há intensas reações em sua interpretação. A todo momento, ele anda com uma cara fechada de "cansaço", "fraqueza". Enfim: Max Simkin é encarnado por Adam com muito "Sandlerismo", digamos, o que justamente faz com que não haja proporções maiores no resultado final da caracterização.

É tudo muito confuso. O filme é humano, possui alma e consegue ser uma ótima comédia, mas é muito confuso. O final não esclarece, apenas avança, como se o próprio quisesse "encerrar" de vez o filme. Não confundam minha opinião, por favor, neste bolo de confusão: a ideia do filme é perfeita, maravilhosa e genial, mas o desfecho é confuso, não bate com a criatividade proporcionada pela ideia, e cansa o espectador, apesar de ser bem engraçado em certas partes. O drama do personagem não o salva da completa ilusão que se torna. Preciso confessar aqui que, nos primeiros momentos, tinha certa esperança de ver em Trocando os Pés o mesmo que vi em Quero Ser John MalkovichFeitiço do Tempo, Mais Estranho que a Ficção, só que, depois que o personagem descobriu a capacidade de poder se transformar em outras pessoas apenas por calçar os sapatos delas, se costurados/consertados na anciã e mágica máquina de sua família, algumas coisas começam a desapontar. Causa e efeito não batem, tornam-se imensamente desproporcionais e confundem a todo momento o público. É lógico, o público simpatizante nato de Adam Sandler, que não se preocupa nem um pouco em aplaudir os fracassos do ator e que quase sempre é ganhado por comédias pastelão, amará Trocando os Pés. Como eu não possuo quase nenhuma das características citadas acima, eu não simpatizei nem um pouco com esta comédia dramática de pontos altos e fracos: a maioria fracos.

No entanto, não deixo de elogiar o formidável elenco de figurantes deste filme. Mesmo que as proporções tomadas pelo filme sejam fraquíssimas, a história torna-se tão real pela participação sensata do elenco de figurantes que é quase impossível não identificar sua mera importância neste longa. Tom McCarthy assume o roteiro de maneira apaixonada, implorável, quando o mesmo torna-se belamente poderoso e criativo, apesar de frequentes erros. Trocando os Pés poderá te garantir boas risadas, mas logo perderá a graça quando assumir um papel menor no desfecho da trama, tentando usar elementos clichês no intuito de ganhar sua aclamação. Na tentação, não se surpreenda se o filme tentar te parecer humano e inusual, pois de fato ele é, mas de forma pouco sustentável.

Trocando os Pés (The Cobbler)
dir. Tom McCarthy -