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sábado, 2 de janeiro de 2016

Crítica: "OS OITO ODIADOS" (2015) - ★★★★★


Mesmo com o roteiro do longa pirateado, caso que gerou uma enorme polêmica no mundo do cinema, Tarantino não desistiu da sua definitiva homenagem ao gênero western, voltando atrás, depois que ele supostamente teria oficializado o cancelamento da produção, e reiniciando as filmagens. O resultado não poderia ser outro. O filme é uma delícia. Simplesmente sensacional. Quentin Tarantino faz de Os Oito Odiados uma ode ao western, gênero que cresceu acompanhando e também serviu de plano de fundo para seu longa anterior, Django Livre. É uma homenagem bastante minuciosa, de uma perspectiva perfeccionista. Nem de longe é o melhor filme do Quentin, mas coisa boa é o que não falta em Os Oito Odiados. 

Do que Os Oito Odiados tem de referências ao western e à época na qual o filme se passa, poucos anos depois da Guerra Civil, ele também tem de auto-referências, que o interligam a diversas outras peças da filmografia de Quentin. Chega a superar À Prova de Morte, filme dele com mais auto-referências até a data. A abordagem política no filme traz à mente Bastardos Inglórios, e não apenas por isso é possível se lembrar da obra-prima, uma vez que, como no filme de 2009 (só como prévia) aqui rola um "diga adeus a suas bolas" e também temos um porão na jogada. 

Nem preciso comentar que o filme é coladinho com Django Livre, tendo muita gente até cogitado Os Oito Odiados ser uma continuação deste. É impossível não se lembrar de Cães de Aluguel, outro trabalho marcante do diretor, seu filme de estreia, por conta da trama e da reunião de personagens, espetacularmente construídos pelo diretor. Como eu sempre costumo discutir sobre os filmes aqui criticados em seus completos interiores, hoje vou começar abordando a estrutura técnica do longa, e o que o torna tão digno de um rótulo "western", começando daí.

O longa dá partida com uma sequência de créditos duradoura. A trilha de fundo abraça a nostalgia de todo um iconismo "bang-bang" que até os menos familiarizados (como eu, que lá na infância tinha uma conexão nem tão grandiosa com o estilo através de programas e até alguns clássicos) conseguem sentir o gosto. O dono desse trabalho musical, fantástico por todo o filme, e que recorda tão bem o clima do bom e velho faroeste, é o Ennio Morricone (quem não conhece ele, o cara, que recebeu um Oscar Honorário não faz muito tempo, tem mais de quinhentas produções no currículo onde é compositor, e compôs a trilha de vários filmes do Sergio Leone, outro "o cara" considerado pai do western, entre esses Por Um Punhado de Dólares e sequência, Por uns Dólares e Mais, Três Homens em Conflito, Era Uma Vez no Oeste, e por aí segue). Fica explicado o porque da qualidade.

A fotografia de peso, mais uma vez nas mãos do exímio Robert Richardson, não desaponta em nada. Ainda mais quando é bem difícil reconstruir o cenário dos antigos faroestes, enquadrá-los numa janela autenticamente cinemascope, criar o cenário, o movimento, e, além de todo esse esforço, obter sucesso na missão e conseguir ser aclamado. Se essa era a preocupação do sr. Richardson, ele já pode tranquilamente riscar essa tarefa da sua lista, porque Os Oito Odiados é um filme visualmente potente como nenhum outro, e até mesmo se sobressai na frente de alguns títulos do próprio currículo de Quentin. 

Uma pena a cópia 70mm não ter vindo para o Brasil. Se no padrão digital o filme já é uma beleza, imagine 70mm? Dá vontade de comprar uma passagem pros E.U.A. antes que a versão saia dos cinemas, já que poucas cidades no país, as well, receberam a cópia, e tem um prazo limitado para a exibição. Há uma reportagem no Indiewire sobre o trabalho que essa cópia deu, assim como o peso absurdo dela e as demandas para seu mantimento. Sem falar a nota que a filmagem em 70mm custeou aos Weinstein. 

Agora sim, falemos sobre o filme. Pegando uma carona com um caçador de recompensas e sua prisioneira "pimentinha", o Major Marquis Warren, carregando três corpos no teto da carruagem privada do brutal John Ruth, se dirige rumo à cidadezinha de Red Rock na intenção de obter uma porção de dinheiro pelos três corpos, de diferentes valores, que ele conseguiu abocanhar. Devido à braba nevasca, eles fazem uma parada numa pequena cabana, a Minnie's Haberdashery (Mercearia da Minnie). É nessa cabana onde a história de Os Oito Odiados se desenrola. 

Temos em cena, partindo da entrada dos homens no bazar, além do Major Marquis, da sapeca Daisy Domergue (Quentin conseguiu enfeiar de maneira repugnante uma beldade de primeira, e ainda sim conservada na casa dos 50), do condutor O.B., do arisco John Ruth e do suposto novo xerife de Red Rock Chris Mannix, um educado carrasco, que se assemelha fielmente ao personagem do King Schultz (até mesmo a escalação e a performance do Tim Roth e o nome não-americano do personagem, Oswaldo Mobray), um empregado mexicano, Bob, que está "encarregado" da casa enquanto Minnie e Sweet Dave, os patrões, foram "visitar a mãe no alto da montanha para passar o Natal" ("meu cachorro comeu a lição de casa" nos dias de hoje, por exemplo), Joe Gage, que está apenas de passagem no local, e também usa como destino a mesma desculpa de Bob, e o general Sandy Smithers (Bruce Dern, que tinha feito uma ponta em Django Livre). 

O primeiro tempo do filme é um pouco parado, pra alguém do escalão de Quentin Tarantino, e só rolam algumas cenas de pancadaria, a grande parte dessas envolvendo John Ruth esbofeteando a Daisy, e os rapazes caindo na gargalhada. John, que diz nunca matar suas presas antes do enforcamento, se mantém acorrentado à assassina, proporcionando muita porrada à indefesa mulher. Fora isso, os três primeiros capítulos tem como base a difusão do verbal, diálogo, os personagens contando histórias, debatendo, se agredindo verbalmente, dando asas à imaginação do público. Mas sempre com aquela estima do estilo Tarantino, deixando o espectador à espera, fermentando. Por ali enquanto, as coisas vão caminhando vagarosamente. No forno, a grande reviravolta, que começa a vertiginar ali mesmo, no finalzinho do terceiro capítulo, trancada numa cabana no meio do nada, perdida na nevasca. 

Dali em diante, nos restantes seis episódios, só resta intriga. Tarantino faz de seu western um suspense à moda antiga, inventivo e exagerado, charmoso e elétrico, no seu ritmo. Depois da saída de alguns personagens, entra a narrativa flashback no seu melhor, já testemunhada no finzinho do terceiro capítulo, bombástico. Um café envenenado, a única testemunha, as divergências que vão surgindo, a suspeita, e a solução do major para evitar deslizes drásticos. Sangue é jorrado. Apenas uma garoa, nada comparado ao temporal vermelho que se segue adiante com o conflitar da situação.

O cineasta reinventa seu gênero predileto em moldes originais seus, sem deixar de fazer consideração ao velho estilo. Não é uma cópia, remake, mas sim uma testificação, uma celebração do adorado gênero, uma prova de que ele não está morto. A aglomeração dos odiados dentro da lojinha simboliza ao mesmo tempo desvanecimento e enaltecimento. Afinal, na neve, quase nenhuma gota de sangue respinga do fogarel de turbulências. É no espaço fechado da cabana que a ação ganha puramente camadas maiores. Chega a ser um pouquinho estranho, confesso, acompanhar esse caminhar comportadinho do filme, falando de Quentin Tarantino, que trabalha bastante com tramas fora da ordem cronológica, o que não acontece em Oito Odiados. 

Mas nem tudo é tiro, porrada, bomba e sangue em Os Oito Odiados. Tarantino contextualiza, na versificada variedade de classes reunidas entre os personagens da trama, preconceitos, admissões, restrições, advertências e os muitos embates em torno de posições e gêneros sociais. O estrangeiro, a mulher, o negro, o idoso, o fora da lei, o homossexual. Mas Tarantino não deixa rastros de heroísmo, ou de preferência por determinado personagem, de forma a gravar benevolência.

Ninguém ali é inocente. É um ringue altivo de injustos e bárbaros, um atropelando o outro em busca da salvação. O diretor combina western a tabus presentes na sociedade de hoje ainda invisíveis na sociedade do século 19, encobertos, motor de provocação, tudo isso falando dos Estados Unidos recém-saído da escravidão, o que justifica o espanto e o desgosto dos personagens em torno do personagem do L. Jackson, um major. E para isso há um envolvimento histórico. A aceitação, o tradicionalismo, a hierarquia, a divisão da sociedade. Tudo compõe os problemas atuais quanto ao preconceito, a liberdade da mulher, o respeito com os estrangeiros, de culturas e hábitos diferentes. É a autópsia histórica de Tarantino. 

De forma indireta, o diretor, na manipulação de uma crítica social sofisticadamente épica, também protesta contra a glorificação da política de seu país, emancipando elogios e cultos à organização política da época, à Guerra Civil, e a relação do povo com os governantes. Os Oito Odiados, abandonando um pouco sua estrutura western, remete às principiações do terror e da comédia. O filme termina com um look de embriaguez humorística, mas seu segundo tempo é coroado por sangue, estilhaços e perfurações de toda a espécie. Cabeças explodem, corpos triturados a pistola, bem do jeito Tarantinesco de ser. Isso cativa o público, e ao mesmo tempo dá ideia de tortura, porque não temos ninguém para torcer, não há um herói, apesar da simpatia que cultivamos por certos personagens, como a Daisy Domergue, mas nenhum desses se safam do culturismo vilanesco. Riscos à parte, estão todos se perseguindo, caça e caçador, mentindo, atirando, julgando, e é delicioso. 

É interessante ver como o Tarantino consegue fazer um equilíbrio perfeito entre o cinema clássico e o seu cinema, mistura que raramente consegue ser efetuada com sucesso, ou com a devida manejação, por outros exemplos de outros autores. E isso agrada tanto a quem vai ao cinema ver o filme como fã do diretor, como fã do western ou como fã de ação (no meu caso, cabe às três validações, em especial a primeira, minha atração), de diferentes maneiras. O efeito conclusivo pode desapontar a quem esperava algo mais explosivo, como é típico, mas Tarantino dá o seu melhor para garantir risadas, maravilhamento e banho de sangue desproporcionalmente interminável. Ou seja, é impossível reclamar. 

Na vértice de uma narrativa colossal, os atores caem no embalo fenomenalmente, na presença de um elenco de viagem já costumeiro de seu estilo e trabalho, como Tim Roth, Michael Madsen, Kurt Russell, Samuel L. Jackson e Zoë Bell, e de outros, iniciantes, que souberam embarcar bem na brincadeira, como Jennifer Jason Leigh, Walton Goggins, Demián Bichir, James Parks e Channing Tatum. Um elenco grandioso. Não é o mais grandioso, mas certamente fica entre os. Apeser de não fazer nenhuma ponta aqui, o Quentin trabalha como narrador em certos capítulos, surgindo aleatoriamente de surpresa, como naquela sequência das fitas de Bastardos Inglórios. 

É claro, a salvo algumas performances merecem ressalto: Kurt Russell, incrivelmente excepcional, numa atuação digníssima e estonteante, e seu par, a Jennifer Jason Leigh, que entrou no páreo da temporada de premiações mirando o Oscar. E, pelo visto, o prêmio a ela merecido é. A garota está realmente de parabéns. Na pele da Daisy, minha personagem predileta dentre os odiados, ela está incomparavelmente talentosa.

A estética subversiva da trama, o elenco empenhado e seus respectivos personagens otimamente construídos, a inspiração clássica, a exótica comicidade que por cenas funciona como epicentro da trama, o olhar histórico, o mar de sangue que nos afoga, a tensa tenebrosidade que se instala por sobre a obra, a diversão como escape da seriedade de certas temáticas, o ligeirismo das sequências... Tarantino continua forte como nunca, ótimo na sua premissa de encantar o espectador com um trama afiada, sanguinária e deliciosamente prazerosa, em todos os sentidos. 

É certo que há imperfeições na montagem e na estrutura de sua trama, que não é aquela trama que se esperaria do Quentin, já que há determinadas insolências e algumas insatisfações quanto à mesma, mas nada que possa derrubar o efeito avassalador do filme sobre nós, efeito que apaga qualquer imperfeição, e torna o filme conteúdo cadente e espetacular, digno de bis. O impacto, de qualquer maneira, mantém-se presente. Não do jeito de sempre, mas ele continua aqui. Que filmão, Tarantino! Que filmão! Trabalho de mestre. Indubitavelmente primoroso e magnífico. Impressionante e impactante na sua dedicação, nas suas minúcias. 

De dentro de um bazarzinho by the road, uma trama fabulosamente rica em criatividade e emoção, sangue pra tudo que é canto. Sangue! O motor da nossa adoração. Personagens de tamanha complexidade e ambiciosidade, à la Tarantino. Tudo bom demais. Tudo caprichado demais. Que presente e sorte, hein? Já começar o ano com um trabalhão desses. É uma experiência sublime. Permanece a autoridade do Quentin em ser um cineasta de primeira grandeza, único.

Os Oito Odiados (The Hateful Eight)
dir. Quentin Tarantino - ★★★★★

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Crítica: "À PROVA DE MORTE" (2007) - ★★★★★


Para um filme que se afasta um pouco do clássico estilo de Quentin Tarantino, abarrotado de referências e narrativas complexas, À Prova de Morte é uma obra inesquecível. Se há o uso de referências num dos últimos filmes do cineasta é em menor quantidade, uma vez que a boa parte dessas referências, incluindo um personagem, estão destinados à Kill Bill. Uma sequência e outra remete a filmes de velocidade, tanto que é algo escancarado na montagem e na fotografia do filme que lembram mesmo antigos clássicos esquecidos hoje. Para alguns, À Prova de Morte é uma fonte inesgotável de nostalgia. Para outros, é a reinvenção de um gênero e a genialidade de sequências de ação de tirar o fôlego. E ainda para outros o filme é a mera mistura desses dois pontos, como eu acredito. Em todos os sentidos, À Prova de Morte é com certeza uma experiência deliciosa e espetacular.

Muito provavelmente À Prova de Morte poderia muito bem dar em Kill Bill. Pra mim, este filme não chega aos pés das duas outras grandes obras-primas do diretor, mas a forma e a edição da narrativa lembram muito, sem falar nas já mencionadas referências. A ideia é que Tarantino, no fim de economizar dois filmes, fez em À Prova de Morte a junção de duas aventuras de um maníaco das estradas. O filme é divido em duas partes. E em ambas essas partes somos apresentados a um dublê, cujo carro que era antigamente utilizado em filmagens é "à prova de morte". O grande prazer desse excêntrico maníaco podólatra (quem conhece bem Tarantino sabe que o diretor é podólatra - tem fetiche por pés - e isso vira e mexe é referenciado em seus filmes, desde Pulp Fiction até Kill Bill) é observar de perto a vida de jovens garotas da estrada e frequentadoras de bares. Em dois capítulos sangrentos, de finais distintos, e preenchidos com uma adrenalina do cão, Tarantino até foge de seu frequente estilo, mas o filme continua sendo seu, e a maestria continua muito evidente apesar das diferenças, que não são muitas.


O que mais provoca em relação à À Prova de Morte são as ambíguas versões que cada episódio da antologia apresenta. Se por um lado isso cria falsas esperanças no público em relação ao segundo episódio, conforta e mostra uma determinada evolução/mudança de Quentin. O universo machista e femininista (justamente o propósito dessa segunda parte, já que são as mulheres que vencem - nisso, Tarantino representa o enaltecimento das personagens femininas dentro do cinema em geral, e em especial o gênero ação) estão quites em À Prova de Morte. E isso não é o melhor. Não estranhem os longos diálogos femininos apresentados no longa, que são mesmo bem duradouros. Se Quentin ali evita a ação, reserva tudo para o final, e lhes garanto que trata-se da melhor parte. Embora eu creio que a melhor sequência de ação seja o final do segundo episódio, mais longo e mortífero, há quem diga que os deslizes rápidos, mas eficientes, de ação do primeiro episódio também sejam de tirar o fôlego. 

A fotografia temática assumida por Quentin Tarantino oferece um clima mais brusco e variado à imagem. A edição de Sally Menke é de uma proficiência exata e única. Isso pra não falar da trilha sonora que também é maravilhosa. O elenco que não é tão famoso à exceção do sempre brilhante Kurt Russell dá conta do recado, pelo menos o suficiente para acompanhar o clima do estilo de Tarantino, aqui levemente desfigurado mas nunca ausente. À Prova de Morte talvez mesmo seja um de seus filmes mais elétricos. Não no sentido de testemunharmos a todo instante uma ação típica e destruidora dele, mas sim na questão desse clímax perfeito que a trama atinge em tanto pouco tempo. Isso é Tarantino. E, é claro, como eu poderia esquecer do charme irresistível da estética exploitation aqui minuciosamente observada por ele em ambos os episódios?

À Prova de Morte (Death Proof)
dir. Quentin Tarantino - ★★★★★

domingo, 8 de março de 2015

Crítica: "KILL BILL - VOLUME I" (2003) - ★★★★★


É quase impossível descrever o quão gratificante é chegar ao final de um filme dirigido por Quentin Tarantino. Kill Bill é um daqueles filmes que a gente nunca esquece. Um dos filmes cult mais apreciados pelos cinéfilos contemporâneos, Kill Bill merece não só tal honra mas também reconhecimento por envolver toda uma significância nos seus padrões cinematográficos. 

As cores, as luzes, os cenários, os figurinos... Tudo conspira tão profundamente para que a película consiga fisgar do público a emoção mais extrema, mesmo nas cenas mais fracas. Esse clima inusual de calor com ação maravilha os olhos do espectador. Até o mais inexperiente na área consegue aplaudir Kill Bill pelo seu feito universalmente reconhecível. Qual é o truque de Tarantino, que a cada obra, arrecada os mais efetivos elogios? Qual é o mistério deste gênio? Seguir seus passos é de uma coragem elusiva. Só mesmo Uma Thurman, Samuel L. Jackson, John Travolta e Kurt Russell a aceitarem a difícil, mas ambiciosa chance de interpretar, ou até melhor, protagonizar, um filme deste ícone.


Kill Bill é simplesmente uma lenda. Talvez, vá bem mais além disto. Kill Bill é impressionante. Kill Bill, desde a primeira vez visto, me conduziu a um ilustre universo sangrento e feroz que até nunca conhecido. Essa unicidade reproduz a minha paixão por esta obra. Uma paixão quase a ponto de entrar na cena e contracenar com A Noiva. Foi em Kill Bill que percebi meu amor por esta dama fatal, Uma Thurman, por quem eu já tinha ficado de boca aberta em Pulp Fiction.

Importa lá toda a ficção do filme, quando este induz ao bem mais afortunado limite do gênero, quase chegando a atravessá-lo? Kill Bill é mágico, principalmente. Mágico por que encanta. Mágico por que apaixona. Mágico por que seduz. Mágico por que ilude, mas realiza. Mágico e transcendente. Mágico, transcendente e vivaz. Mágico, transcendente, vivaz e poético. Um elenco que consegue matar a fome por satisfação de quem o assiste.


Resumindo: na sexta vez que o assisto, Kill Bill não perdeu a graça. Manteve o mistério, conduziu a eletricidade e concretizou aplausos. Aplausos altos e longos, à Thurman, à Tarantino, à Richardson, à Liu, à Madsen, à Carradine, e à merecida vingança de Beatrix Kiddo.

Kill Bill - Volume I (Kill Bill - Volume I)
dir. Quentin Tarantino - ★★★★★

sábado, 27 de dezembro de 2014

Crítica: "DJANGO LIVRE" (2012) - ★★★★★


Não é surpresa que Quentin Tarantino é um grande fã de western e tem uma grande influência do cineasta italiano Sergio Leone, um mestre do gênero. E realmente, o diretor bem que nos devia um western há tempos. E aqui, está. Django Livre é puro western, de uma forma mais moderna, mas que ainda mantém características fiéis ao gênero. E assim é Tarantino, a cada filme, uma surpresa. Em Bastardos Inglórios, Tarantino me mostrou o melhor de seu universo, do melhor ângulo. E aqui, ele surpreende novamente, mostrando seu poder extraordinário de extrair o melhor das histórias.

Em Django Livre, somos introduzidos á Django, um escravo negro que é salvo por um caçador de recompensas alemão, King Schultz (interpretado cautelosamente por Christoph Waltz) que busca a ajuda do escravo e também promete sua liberdade e o resgate de sua esposa, Brunhilda. Pois é. Alguns de vocês já puderam ter a mais eficiente ideia da gigantesca película que o filme deu. Django Livre é assim, cheio de aspectos antiquados, mas ainda mantém a alma do Tarantino moderno dentro de si. E desde Cães de Aluguel, Tarantino não erra no ponto. Talvez, houve um pequeno desequilíbrio em Jackie Brown, mas nada tão sério.

A cada filme, Quentin Tarantino parece estar mais decidido sobre o que quer. Assim, ele atinge a maturidade cinematográfica, se libertando dos fatídicos rótulos dos filmes independentes e fabricando grandes produções. Uma delas é Django. Outro filme de Tarantino que é capaz de despertar os mais alternos sentimentos. No meu caso, foi preciso assistir mais de uma vez a Django Livre. Sim, concordo que é um dos melhores filmes de Quentin Tarantino, (arrisco) ao lado de Pulp Fiction e o recente Inglórios Bastardos. Também relacionei Django Livre á Kill Bill, outro clássico do diretor. Acredito que essa associação não tenha muito sentido, mas as duas obras tem um teor mais violento e personagens mais fortes.

 Em Django Livre, o público presenciou o melhor de todo o talento agressivo de Tarantino, nem mesmo visto em obras maiores como Pulp Fiction. O filme mais longo de Quentin Tarantino também poderia ser o mais curto. Acredito que esse seja o único erro de Django Livre: contar uma história relativamente curta em tão severos minutos. Acho que Tarantino apenas desapontou nesse quesito, e todos os filmes, de fato, são longos. Também acredito que muitos já tenham sonhado com esse momento. 

O momento de Quentin Tarantino filmar uma obra baseada na escravidão. Aliás, por que não? As características violentas de uma das épocas mais sangrentas da história poderia ser um grande tema para o novo filme de Tarantino. Essa previsão surgiu em Bastardos Inglórios, quando o diretor decidiu filmar seu primeiro (100%) filme de época. A direção, suprema como sempre, usando e usufruindo das melhores técnicas para surpreender o público (e a crítica). O roteiro, original e astuto como sempre, detalhado e complexo, você sabe, no estilo de Tarantino (quem não torceu para o diretor conseguir seu segundo Oscar em Roteiro Original?). O elenco, simplesmente surpreendente. Jamie Foxx se revelou aqui. Mostrou em Ray seu talento para interpretar um grande símbolo, com um talento incrível. 

Aqui, Foxx fez o mesmo feito, e com dignidade, soube conduzir o papel. Uma lástima Jamie Foxx não ter sido indicado ao Oscar de Melhor Ator (Hugh Jackman não era, lá, grande coisa). Christoph Waltz, sem palavras. O alemão, que em 2009 intepretou consagradamente Hans Landa em Bastardos Inglórios, repetiu a mesma interpretação: pobre de falhas, rica de genialidade. Com alguns toques óbvios, o segundo Oscar dado a Waltz não foi surpresa. Leonardo DiCaprio, conseguiu cinco estrelas na primeira aparição. Um dos motivos da suficiência de sua interpretação foi o fato do qual, mesmo tendo um corte na mão esquerda durante uma das gravações, o ator continuou atuando, como se nada houvesse acontecido. DiCaprio, mostrou-se mais uma vez em Django Livre, ser um ator consistente, e um dos melhores. 

Django Livre, enfim, é tudo isso. É bem mais que um filme. É uma obra que surge autenticamente por tempos, e que consegue transformar tudo o que vai bem mais além dela. Tarantino soube transmitir seu ponto de vista sobre a escravidão aqui de maneira fantástica, bela. E mais uma vez, mostrou que sua visionária percepção continua viva, intacta e poderosa. Ao criar essa memorável fábula cinematográfica recheada por sua clássica personalidade vingativa, Tarantino automaticamente cria uma obra-prima!

Django Livre (Django Unchained)
dir. Quentin Tarantino - ★★★★★

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Crítica: "CÃES DE ALUGUEL" (1992) - ★★★★


Com uma dose "a mais" de violência do que seus outros filmes, Tarantino é surpreendente em Cães de Aluguel (sem dúvida, um de seus melhores filmes). Ágil, cômico, sangrento, inteligente e e memorável, Cães de Aluguel é um prato cheio na carreira de Tarantino, e marca o estilo ultra violento e moderno de Tarantino de fazer filmes. 
               
A história começa com uma conversação entre um grupo de homens dentro de um restaurante. A cena é simples, e logo é precedida pelos créditos. Após estes, a história segue diferentes rumos, e somos apresentados formalmente à situação: durante um roubo a uma joalheira, um grupo de criminosos é descoberto pela polícia, e ao mesmo tempo, os criminosos desconfiam de um intruso dentro do grupo devido a súbita aparição da polícia na joalheria, o que torna a  narrativa mais intensa e apreciativa. Outro ponto interessante é o uso de codnomes para seus personagens, o que a transforma numa apropriada e sensível marca autêntica e original do filme, que a todo ponto, nos surpreende e nos eleva em seu roteiro. 
                   
Em seu primeiro filme, Tarantino já consegue causar efeitos semelhantes aos próximos que viriam: a violência degenerativa, a verborragia, o humor sádico e é claro, a narrativa não-linear, que dá um tom marcante de neo-noir ao filme, causando mistério e ao mesmo tempo, relevação dentro da história bem-estruturada, que cada vez mais segue por diferentes caminhos dentro de seu pretexto um tanto figurativo, um tanto "louco". 
                    
O elenco, formidável. Tarantino faz uma pequena ponta no filme como Mr. Brown, que tem poucas e rápidas aparições durante o filme. Harvey Keitel, Steve Buscemi (o único sobrevivente do grupo criminoso) e Tim Roth (numa performance desvairada e progressiva) merecem um destaque especial dentro da película. O roteiro de Tarantino é bem feito e emocionante, em termos característicos definidos entre a violência e a inteligência do filme (já introduzidos). Pode-se afirmar que o roteiro de Cães de Aluguel é um labirinto complexo construído profundamente por Q.T. apesar de não ser um de seus melhores trabalhos quando comparado á Pulp Fiction ou Inglórios Bastardos, mas Cães de Aluguel é um marco na carreira de Tarantino, seu primeiro filme e sua primeira obra-prima. Majestoso e memorável, Cães de Aluguel, com uma certa totalidade, é um dos clássicos dos filmes violentos, e um símbolo do cinema independente eterno!

Cães de Aluguel (Reservoir Dogs)
dir. Quentin Tarantino - ★★★★

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Crítica: "BASTARDOS INGLÓRIOS" (2009) - ★★★★★

 

Tarantino está mais genial do que nunca! Bastardos Inglórios consegue ter o equilíbrio entre a sua violência e o humor ácido e irônico, sempre presentes nos filmes de Quentin Tarantino, que nos brinda com o sucesso e a originalidade de sua mais nova obra-prima. Após não ter nos surpreendido tanto em Death Proof, Tarantino retorna com todo o fôlego neste filme, que logo pelos momentos iniciais exala uma significância bem mais clara recuso aos outros filmes do diretor, e isto é propriamente lógico: a implosiva violência. E é claro, não deixaríamos de falar de Quentin Tarantino sem mencionar o roteiro brilhante por trás de cada uma de suas grandes obras. Em Bastardos Inglórios não é diferente. A violência e o humor irônico são os dois elementos mais vibrantes e emocionantes do filme, que a cada cena, a cada situação, nos causam um choque, um sentimento breve, mas marcante, gravados peculiarmente na complexa trama que se instala entre os personagens deste drama neo-guerra. É essa a sensação de assistir a um filme de Quentin Tarantino: um "choque" visual, porém poético e livre, como todo filme dirigido por ele.
      
Exibido em Cannes, indicado a oito Óscars, Bastardos Inglórios é um dos melhores de Tarantino. Pode até não fazer o estilo próprio do diretor, por relacionar algumas personalidades históricas (Hitler) em suas histórias, mas o roteiro é brilhante, a direção é magnífica e o elenco, sensacional. É claro, quando se fala no elenco, é quase obrigatório destacar e mencionar as performances de: Christoph Waltz, vencedor do Óscar, Globo de Ouro, BAFTA e SAG Award de Melhor Ator Coadjuvante por seu papel como o general Hans Landa, que nos embate e nos emociona com seu característico e rude personagem, um cruel general nazista, mais conhecido como "O Caçador de Judeus". Brad Pitt, em seu personagem irreverente, violento, bem-humorado e irônico como Aldo Raine, um tenente americano judeu líder de um grupo que caça e assassina os nazistas. Melánie Laurant, que entra numa performance emblemática, porém objetiva e talentosa, que pode desprender alguns pequenos encaixes literais do foco, já que a francesa é um tanto inexperiente.

De maneira contrária como muitos pensam, Bastardos Inglórios não subtrai a guerra, e nem adiciona o requisito ficcional, mas os divide. Para evitar a linguagem matemática, pode-se afirmar: Bastardos Inglórios inversamente reutiliza os dois padrões para recriar a Segunda Guerra Mundial conforme o roteiro planeja. Como visto, nada no filme é ao acaso. Sempre aqui ou ali, instala-se um clímax genuíno e excitante, que deixa o público com um gostinho de "quero mais". Tarantino é um velho conhecido. Faz filmes por temporadas, o que nos atrai ao seu conhecido método verborrágico e universal de fazer cinema e ainda por cima exige um pouco mais de nós a cada dois ou três anos quando lança um novo filme. Bastardos Inglórios é um presentão desse mestre. Dane-se a duração duas horas e meia, e também toda a trupe alemã no elenco! Bastardos Inglórios já impressiona por sua pureza gradativa. Alguém me mostra qual é o defeito de Bastardos Inglórios? Nenhum. 

O filme é danado de bom! Por isso, eu lhes asseguro: quando tiverem a oportunidade de assistir a este filme, assistam. Se já tiveram, assistam de novo. Seria impassível ou decepcionante rejeitar esta obra. É livremente essencial. Por mim, já pode ser qualificado como um dos melhores filmes já feitos na história, e isto por que ainda tem Kill Bill e Pulp Fiction antes dele. Apesar de não ser o melhor filme do diretor, para ser mais técnico e crítico, Bastardos Inglórios mantém o estilo original de Tarantino de fazer filmes com essa temática bem agressiva, mas não "clichê". Tudo o que se pode resumir do filme é uma obra-prima característica e essencial do diretor Quentin Tarantino: revoltante, vivaz, pungente, cheio de ação e sangrento, com um elenco majestoso (uh... That's a Bingo!)

Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds)
dir. Quentin Tarantino - ★★★★★