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sábado, 22 de julho de 2017

TWIN PEAKS – OS ÚLTIMOS DIAS DE LAURA PALMER (1992)


Twin Peaks voltou com tudo em 2017, a tão esperada 3ª temporada, cogitada e tão sonhada através dos anos desde que a série original fora cancelada na década de 90 (e desde então passaram-se 25 anos – see you again in 25 years – desde que a segunda temporada foi dada como a última, e Lynch anunciou que a Showtime voltaria a produzir uma sequência da série, uma nova Twin Peaks, e sua terceira temporada). Foi uma notícia recebida com muito amor pelos carinhosos fãs de David Lynch, um dos mais importantes diretores da história do cinema e que também revolucionou a TV com sua criação (em parceria com Mark Frost, é claro) Twin Peaks, cujo sucesso foi tamanho que até levou Lynch a dirigir um filme sobre a personagem Laura Palmer pouco tempo depois que a série foi dada como terminada.

Trata-se de Os Últimos Dias de Laura Palmer, de co-produção francesa, que debutou em Cannes em 92 e recebeu elogios de sobra, embora tenha sido um fiasco comercial (o que chega a ser um pouco esquisito, dado que o seriado tinha atingido tanta fama e uma legião de fãs). É neste filme que conhecemos de perto a personagem Laura Palmer, o pivô das duas temporadas iniciais de Twin Peaks, a jovem assassinada que todos na pequena cidade tinham tanto carinho e amor por, de tal forma que a notícia de sua morte abalasse a todos, seus colegas de classe, familiares, moradores, conhecidos e etc. Mas a jovem, se era tida como um "exemplo", não era uma moça tão exemplar como tantos achavam que era. 

Afinal, foram os problemas com as drogas e a prostituição que levaram Laura Palmer ao caminho da perdição, da corrupção dos valores de sua juventude – mas acompanhamos também os problemas em família de Laura, o pai problemático, e um espírito – Bob – que a atormenta e transtorna e é a motivação de sua decadência moral e psicológica – assim como podemos ver também a relação de Laura com outros dois personagens da série, seus amantes da escola: James Hurley e Bobby Briggs, assim como seu envolvimento com os negócios ilegais dos irmãos Renault e também com Leo Johnson. 

Apesar da maioria do elenco estar presente no filme, até mesmo Kyle MacLachlan (embora apareça como personagem secundário), a única surpresa é a ausência de Lara Flynn Boyle, a Donna Hayward da série, aqui substituída por Moira Kelly (a atriz teria recusado fazer o filme por conta de sua agenda), que é, digamos, uma versão mais "inocente" de Hayward, no que diz respeito à aparência física e imatura da jovem atriz.

Sheryl Lee, que na série aparecia em poucos episódios, e na maioria das vezes em flashes (isso falando dela como Laura Palmer, e não como a Madeleine, sua prima distante) aqui tem uma ênfase bem maior – e a performance dela é devastadora, inigualável – tanto no desenvolvimento quanto na caracterização em si da persona pela qual ela ficou tão reconhecida na criação de Twin Peaks;

Lynch parece estar seguro de inserir certos enigmas e entregá-los ao espectador conferindo um astral surrealista que seria bastante esperado do diretor, e no que diz a isso, se Os Últimos Dias de Laura Palmer é um de seus trabalhos cinematográficos mais convincentes (no que diz respeito à forma como ele costura a narrativa) ele não tem medo de anular as convicções deste filme na intuição de desmoralizar uma atmosfera de tensão, de horror. 

É claro, o filme em muito depende da série original, principalmente nos personagens, mas Lynch dá um passo à frente quando se dedica a não apenas referenciar a sua criação televisiva e sim complementar a imaginação do espectador a respeito da personagem da qual a série gira em torno de, que é Laura Palmer. Além dessa questão da complementação, o filme traz uma compreensão maior acerca de certas relações entre os personagens (excepcionalmente entre Laura e seu pai, Leland).

Enfim, é como se fosse um spin-off da série e que, dessa dependência tão grande de signos e contatos diretos com o trabalho realizado nesta, o filme se sobressai em uma independência enorme de fatores e realiza desta conexão uma sutil metalinguagem. Lynch sempre foi genial em seu estilo tão único de fazer filmes, tão surreal, e desta vez, acreditem, ele não decepciona em nada. 

Twin Peaks – Os Últimos Dias de Laura Palmer (Twin Peaks: Fire Walk With Me)
dir. David Lynch
★★★★★

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Crítica: "CÃES DE ALUGUEL" (1992) - ★★★★


Com uma dose "a mais" de violência do que seus outros filmes, Tarantino é surpreendente em Cães de Aluguel (sem dúvida, um de seus melhores filmes). Ágil, cômico, sangrento, inteligente e e memorável, Cães de Aluguel é um prato cheio na carreira de Tarantino, e marca o estilo ultra violento e moderno de Tarantino de fazer filmes. 
               
A história começa com uma conversação entre um grupo de homens dentro de um restaurante. A cena é simples, e logo é precedida pelos créditos. Após estes, a história segue diferentes rumos, e somos apresentados formalmente à situação: durante um roubo a uma joalheira, um grupo de criminosos é descoberto pela polícia, e ao mesmo tempo, os criminosos desconfiam de um intruso dentro do grupo devido a súbita aparição da polícia na joalheria, o que torna a  narrativa mais intensa e apreciativa. Outro ponto interessante é o uso de codnomes para seus personagens, o que a transforma numa apropriada e sensível marca autêntica e original do filme, que a todo ponto, nos surpreende e nos eleva em seu roteiro. 
                   
Em seu primeiro filme, Tarantino já consegue causar efeitos semelhantes aos próximos que viriam: a violência degenerativa, a verborragia, o humor sádico e é claro, a narrativa não-linear, que dá um tom marcante de neo-noir ao filme, causando mistério e ao mesmo tempo, relevação dentro da história bem-estruturada, que cada vez mais segue por diferentes caminhos dentro de seu pretexto um tanto figurativo, um tanto "louco". 
                    
O elenco, formidável. Tarantino faz uma pequena ponta no filme como Mr. Brown, que tem poucas e rápidas aparições durante o filme. Harvey Keitel, Steve Buscemi (o único sobrevivente do grupo criminoso) e Tim Roth (numa performance desvairada e progressiva) merecem um destaque especial dentro da película. O roteiro de Tarantino é bem feito e emocionante, em termos característicos definidos entre a violência e a inteligência do filme (já introduzidos). Pode-se afirmar que o roteiro de Cães de Aluguel é um labirinto complexo construído profundamente por Q.T. apesar de não ser um de seus melhores trabalhos quando comparado á Pulp Fiction ou Inglórios Bastardos, mas Cães de Aluguel é um marco na carreira de Tarantino, seu primeiro filme e sua primeira obra-prima. Majestoso e memorável, Cães de Aluguel, com uma certa totalidade, é um dos clássicos dos filmes violentos, e um símbolo do cinema independente eterno!

Cães de Aluguel (Reservoir Dogs)
dir. Quentin Tarantino - ★★★★