Mostrando postagens com marcador 2003. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador 2003. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Mestre dos Mares: O Lado Mais Distante do Mundo (2003)


Do mestre australiano Peter Weir, que anos antes nos entregou o excelente O Show de Truman e que traz no currículo clássicos como Sociedade dos Poetas Mortos, A Testemunha e Piquenique na Montanha Misteriosa, Mestre dos Mares acompanha a jornada turbulenta e cheia de percalços dos tripulantes de um navio da marinha britânica durante as Guerras Napoleônicas (1803-1815). O elenco é encabeçado por Russell Crowe, que no começo dos anos 2000 era um dos nomes mais cotados de Hollywood, valendo lembrar suas atuações nos prestigiados Los Angeles - Cidade Proibida, O Informante, Gladiador e Uma Mente Brilhante, além dos ótimos Uma Luta pela Esperança e Os Indomáveis. 
 
Em um dos diálogos mais emblemáticos do filme, Aubrey (Russell Crowe) entra em atrito com Maturin (Paul Bettany), a respeito do propósito da missão militar em que estão, durante o qual Aubrey diz que "não há tempo para hobbies", desencorajando o cirurgião a se dedicar unicamente a seus estudos sobre biologia diante da urgência fatal da ameaça bélica imposta pela França de Napoleão, naquele momento a todo vapor em sua ambições imperialistas de conquista geográfica. 
 
Apesar do aparente abraço militarista feito pelo filme, o retrato da brutalidade da navegação em que os ingleses lutaram contra as tropas de Napoleão, no início do século 19, parece mais soar um alarme premonitório sobre as consequências nefastas da guerra. Mais tarde, o cirurgião Maturin é atingido por um tiro, acidentalmente, por alguém de dentro da própria tripulação, o que reforça o complexo dilema de que os efeitos catastróficos da guerra não se limitam ao antagonismo do campo de batalha.
 
Simultaneamente, o longa faz uma demonstração ímpar da coragem e entrega daqueles homens, que colocaram tudo a perder em nome da pátria, e uma espécie de companheirismo que nasceu entre eles naquele cenário desolador de destruição, incerteza e precariedade, com soldados-meninos obrigados a se comportar como homens antes do tempo, sendo duramente transformados pela violência extrema do embate. Dito isso, o trabalho é um título bastante competente, tecnicamente impecável e marcado por atuações brilhantes de Crowe e Bettany. Seguramente é uma das grandes obras do australiano Peter Weir (e que lhe rendeu o BAFTA de melhor direção em 2004). 

terça-feira, 4 de julho de 2023

Abaixo o Amor (2003)


Eu tinha uma cópia desse filme há tempos, e eu sempre lia elogios e comentários positivos sobre ele, mas sempre deixava pra ver em outra hora. Que filme divertido é o ABAIXO O AMOR. Desses filmes que são capazes de passar despercebidos, por não ter tido o reconhecimento necessário quando de seu lançamento, e também pelo tempo passado desde quando ele foi lançado. Porém é uma peça rara em uma Hollywood da primeira metade dos anos 2000 que estava olhando pra sua era de ouro pra encontrar inspiração pra novas produções, e essa aqui acertou em cheio apostando em sofisticação simples, uma dupla atômica de atores principais e um roteiro descontraído e afiado.
 
É uma comédia que tem o melhor do screwball e que parece saída diretamente da era de ouro desse gênero, que foi enormemente popular lá dos anos 1930, o que é uma coisa boa, inesperada de se dizer pra uma produção de estúdio com um orçamento grande, saída da indústria comercial hollywoodiana, especialmente se tratando dos anos 2000/anos 2010, que foram mais ou menos marcados por essa dificuldade latente do cinema americano de definir um novo rumo e sair da sombra das produções de comédia romântica dos anos 1990.
 
Zellweger e McGregor estão fantásticos, e o acerto é que justamente tanto a parte romântica quanto cômica da dupla funcionam muito bem. O elenco coadjuvante está nos trinques. O resultado é um filme que diverte pra caramba com umas esquetes sensacionais e com fórmulas puras, que soam clichê, mas que funcionam belamente.
 
ABAIXO O AMOR se junta a um número pequeno de trabalhos que parece que foram transportados de uma outra época, tanto na questão da qualidade quanto na questão da aura mesmo, mas que se sobressaem pela sofisticação com a qual se arriscam a ter um toque mais nostálgico, mas longe de parecer uma emulação, e isso é um elogio e tanto pra se fazer. O que me vem à mente agora é E SE FOSSE VERDADE, que tem uma química ótima da Reese Witherspoon com o Mark Ruffalo, e OS INDOMÁVEIS, que teve êxito em homenagear o western e ao mesmo tempo revitalizá-lo.

The Cooler (2003)


Não gostei tanto de THE COOLER. Não chega a ser um filme exatamente ruim, não. É bem comportadinho, mas eu não gostei do desenho da narrativa, fiquei com a impressão de que o roteiro tem umas coisas um tanto rasas. E olha que a história até é interessante, à primeira vista. Talvez não tenha gostado muito também do tratamento dado pras personagens, especialmente pro Macy, mas também pra personagens menores, como o Baldwin (que recebeu sua única indicação no Oscar até hoje por ele), e deixou aquela impressão de já ter visto ele antes, porém com outro título e outros atores. Mas mesmo assim, tem atuações boas do elenco principal. Maria Bello, que depois viria a dar um show em MARCAS DE VIOLÊNCIA, é um destaque. 

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

SOBRE CAFÉ E CIGARROS (2003)


No que diz respeito a filmar conversas regadas a cafés e cigarros, Jarmusch está um passo à frente. De uma certa maneira, todos os filmes do Jim se lembram – alguns mais, outros menos – não necessariamente por se repetirem, mas por basicamente imprimirem uma evocação muito espontânea de suas personagens e das situações calcadas na sutileza da naturalidade e da caricatura, o que surge disso é de uma beleza inexplicável. Não vou falar muito, apenas que trata-se de um filme muito delicioso, cada esquete melhor que a outra (ainda mais na companhia de uma xícara de café do lado de cá da tela) e um elenco inesgotavelmente excêntrico e gracioso que dá gosto de assistir.

Sobre Café e Cigarros (Coffee and Cigarettes)
dir. Jim Jarmusch
★★★★

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Crítica: "ALGUÉM TEM QUE CEDER" (2003) - ★★★★


Aquele momento em que você não consegue segurar o sorriso quando vê Diane Keaton e Jack Nicholson se beijando em Alguém tem que Ceder, essa comédia romântica amável que adocicou a minha quinta. Trata-se de um filme que vai além das expectativas. De uma forma ou de outra, ele acaba surpreendendo o espectador e nos brindando com uma história de amor bonita, sofisticada e inesperadamente emocionante. Excelente. Exuberante. Inesquecível. 

Erica é uma dramaturga de sucesso cuja filha, a jovem Marin, é namorada de um proprietário de uma produtora musical de rap, Harry, que tem preferência em namorar mulheres mais jovens, que nunca passam dos 30 anos. Harry e Marin vão para a casa de praia de Erica, sem saber que ela também está indo para lá. Eles tem um encontro repentino, mas todos decidem ficar para aproveitar a ocasião. Numa noite após jantar, Harry sofre um ataque cardíaco e é levado às pressas ao hospital, onde passa alguns dias. Retornando à casa de praia, ele fica sob os cuidados de Erica. Eles não se dão muito bem, mas passam a se conhecer melhor com o tempo. Em um certo ponto, eles revelam estar apaixonados um pelo outro.

Ai, eu nem sei dizer o quanto esse filme mexeu comigo. Aliás, eu também não consigo definir aquilo que mais me tocou aqui, seja nas performances maravilhosas de Diane Keaton (indicada ao Oscar em 2004) e Jack Nicholson e seus respectivos personagens estupendamente construídos, a história com appeal romântico, as cenas sempre cheias de vida e beleza, os diálogos fascinantes. Puxa... Alguém tem que Ceder é inegavelmente delicioso de se assistir. 

Aconteceu algo bastante parecido, ainda que o impacto emocional não tenha sido da mesma forma que aqui, em O Amor Não Tira Férias, que eu vi recentemente, também dirigido/escrito pela Nancy Meyers. Embora muitos clamem que seus trabalhos são pobres de estrutura cinematográfica e acusados de irregulares, há um ponto positivo bastante considerável quanto a esses filmes: o modo como eles nos afetam emocionalmente, seja para nos fazer sentir bem com nós mesmos, ou refletir sobre como o amor transforma a nossa vida de uma tal maneira que só a identificação do público com esses trabalhos românticos explica.

Nancy explora de forma convencional e criativa os conflitos da idade e os contrastes entre os personagens e as relações amorosas que se instalam, e como esses relacionamentos dizem muito a respeito de suas personalidades e seus sentimentos fragmentados, e fazem com que o espectador se solidarize com cada um deles e encontre, de certa forma, identificação. O filme termina de maneira bastante satisfatória pra quem torce para o amor entre Erica e Harry, mas de certa forma há uma sensação de que o destino do personagem de Keanu Reeves, o médico que cuida de Harry, fica um pouco incompleto, injustamente vago. Ademais, o roteiro de Nancy Meyers é excepcionalmente bem escrito. Ela é, além de uma diretora formidável, uma roteirista impecável. E, muito provavelmente, Alguém tem que Ceder é seu melhor filme.

Alguém tem que Ceder (Something's Gotta Give)
dir. Nancy Meyers - ★★★★

sábado, 5 de novembro de 2016

Crítica: "CASA DE AREIA E NÉVOA" (2003) - ★★★★


É interessante notar como alguns filmes simplesmente nos convencem por situações que englobam complexidade e atrição fervorosa entre os personagens, como bem acontece em Casa de Areia e Névoa. Este foi o primeiro filme do cineasta/roteirista ucraniano Vadim Perelman, que alguns anos depois dirigiu Sem Medo de Morrer e desde então nunca mais trabalhou em nenhuma produção americana, curioso para um cara que dirigiu um longa aclamadíssimo e que recebeu inúmeros prêmios e indicações (incluindo três justíssimas ao Oscar em 2004, nas categorias de Ator, Atriz Coadjuvante e Trilha Sonora) sumir assim do nada, praticamente.

O livro "House of Sand and Fog", que deu origem a este filme, foi disputado por diversos estúdios, até finalmente ser produzido pela Dream Works. A questão do conflito entre americanos e imigrantes do Oriente Médio, principalmente os muçulmanos, foi bastante abordada no cinema americano após o 11 de setembro, e provavelmente Casa de Areia e Névoa seja o exemplar mais completo e firme sobre essa relação tão atribulada. Didaticamente, é um filme sobre o contraste de perspectivas e visões num mundo onde a moral é controlada pela lei e a vingança é a única fonte de se obter a verdadeira justiça. 

Neste poderoso e multifacetado drama sobre questões étnicas, Jennifer Connelly interpreta uma empregada doméstica que, devido a certos problemas com o departamento imobiliário, foi tomada pelo governo para pagar dívidas acumuladas durante os anos. Morando num motel, ela decide procurar uma advogada para conseguir sua morada de volta, até que ela se torna propriedade de um imigrante muçulmano, interpretado por Ben Kingsley, que compra ela e decide morar lá com sua família. 

Não demora muito e a personagem de Jennifer se revolta contra os atos do homem e passa a se intrometer na vida da família do homem. Esse contraste cria uma divisão bastante mútua e anti-maniqueísta, enquanto divide quem assiste à situação. Rispidamente, o filme passa de drama moral para suspense megalomaníaco e se aprofunda de tal maneira que até para explicar fica difícil.

A sempre presente trilha sonora excepcional de James Horner consegue tonalizar a acidez da trama e ao mesmo tempo confere sustância ao suspense que se instala na segunda parte do filme, quando as coisas começam a ficar mais sérias e a tendência trágica se eleva. O desfecho é rico e perfeitamente representativo em muitos sentidos, seja para evidenciar que a justiça fragmentada na terra dos sonhos, ou as irregularidades no sistema imobiliário que causam tanta dor de cabeça aos americanos, e em certos casos, como acontece em Casa de Areia e Névoa, custam vidas.

O que realmente está em pauta aqui é a capacidade do ser humano de dominar e ao mesmo tempo ser dominado. Estamos cegamente suscetíveis ao controle alheio por vivermos dentro de uma sociedade manipuladora e opressora cuja lei determina o que é certo e o que é errado sem, de fato, ligar para os conceitos morais que, na verdade, deveriam ser adotados para se fazer justiça. 

O mundo é um lugar frio e cruel. As pessoas estão se matando por questões meramente banais. Os personagens de Casa de Areia e Névoa vivem num conflito inacabável centrado na diferença de opiniões, uma questão excepcionalmente abrangente para a grande parte dos conflitos dos tempos modernos. 

Casa de Areia e Névoa (House of Sand and Fog)
dir. Vadim Perelman - ★★★★

sexta-feira, 22 de julho de 2016

3 COMÉDIAS + 1 DOCUMENTÁRIO + 1 FILME SOBRE CULINÁRIA


Roman Polanski: A Vida em Filmes (Roman Polanski: A Film Memoir)
dir. Laurent Bouzereau - ★★★★

Já havia sido feito, e recentemente, um documentário sobre o querido cineasta polonês Roman Polanski (Roman Polanski: Procurado e Desejado, de Marina Zenovich, ano: 2008). Este Roman Polanski: A Vida em Filmes, lançado um tempinho mais tarde, em 2011, se baseia numa premissa um pouco diferente da versão de 2008. Andrew Braunsberg, produtor (Muito Além do Jardim, O Inquilino) e grande amigo de Polanski, é recebido na casa do cineasta na Suíça, onde ele cumpriu pena depois de ter sido preso em 2009, e o documentário se instala numa conversa entre Polanski e Braunsberg sobre a trajetória e a carreira do diretor. Trata-se de um dos documentários mais interessantes que eu vi de uns tempos pra cá, se bem que eu não ando vendo muitos documentários ultimamente. Enfim, é certamente um filme fascinante e interessantíssimo. E, para fãs do Polanski como eu, Roman Polanski: A Vida em Filmes é obrigatório. Achei muito curioso quando o Andrew perguntou qual era o filme que o Polanski considerava ser o melhor dele e ele disse que era O Pianista, que, de fato, é um dos melhores trabalhos dele. Aliás, O Pianista, apesar de ser a biografia de Władysław Szpilman, tem um toque autobiográfico por parte do Polanski, que experienciou de perto o terror e a agonia durante a guerra. Durante o documentário, ele fica emocionando inúmeras vezes, ao lembrar da família, do pai, que foi para um campo de concentração quando ele ainda era criança e quem ele milagrosamente reencontrou anos depois (Polanski chega a relatar que, depois que o pai foi levado pelos nazistas, vivia confundindo outros homens com ele, na esperança de ele continuar vivo), da ex-esposa Sharon Tate, que foi brutalmente assassinada às vésperas de dar à luz pela "família Manson" em 1969. Polanski teve uma vida muito difícil. Surpreendentemente, a carreira dele começou no rádio, beirou o teatro, até que ele se firmou no cinema, como um figurante, depois fazendo curtas, até se tornar o grande diretor que é, dono de alguns dos melhores filmes já feitos, como Chinatown, A Faca na Água, O Pianista, Tess, O Bebê de Rosemary, Repulsa ao Sexo, entre outros. Visto na Netflix (17/07).


Julie & Julia
dir. Nora Ephron - ★★★

Há quem diga que Nora Ephron era a versão feminina do Woody Allen. Aclamada pelo trabalho de roteirista (indicada 3 vezes ao Oscar de Melhor Roteiro Original por Silkwood, Harry & Sally e Sintonia de Amor, não tendo vencido nenhuma vez, injustamente e infelizmente), e mais tarde celebrada como diretora (Sintonia de Amor, Mens@gem pra Você e Bilhete Premiado estão entre os filmes que Nora assina como diretora/roteirista), Nora nos deixou cedo demais, há quatro anos. Muito triste. Julie & Julia foi o último trabalho da talentosa Nora tanto como diretora e roteirista. Não é a obra-prima dela, mas é um filme encantador. Eu diria que é quase como um feel-good, daqueles de adoçar o nosso imaginário e dançar valsa com nossas emoções. A irretocável Meryl Streep entrega uma performance deliciosa, apaixonante, brilhante, no ponto, tudo o que se espera de uma atuação dela: um espetáculo. Amy Adams, que de talentosa tem de sobra, também não está nada mal na pele de uma blogueira, Julie, que escreve sobre culinária e que idolatra a cozinheira Julia Child, sua musa e inspiração. O filme se equilibra em dois planos, o da Julie e o da Julia, duas mulheres se aventurando no mundo da culinária e compartilhando diversas coincidências e acasos, embora sejam separadas pelo tempo. O roteiro é fenomenal. Stanley Tucci e Chris Messina ganham espaço como coadjuvantes. Não dá pra reclamar de Julie & Julia. Visto em DVD (dia 24/06).


Para Maiores (Movie 43)
dir. vários - ●

Ô filmezinho ruim da bexiga! Quer dizer, ruim é pouco. Para Maiores é uma porcaria de filmes. Simplesmente um lixo. Entraria fácil numa lista de "piores filmes já feitos". É aquele tipo de filme que só os idiotas gostam. Aliás, é uma ofensa ao paladar fílmico das pessoas idiotas dizer que esse é o tipo de filme que lhes agrada. Para Maiores é um filme baixo, muito baixo. Quase odiável. A reunião de um elenco realmente invejável (Naomi Watts, Kate Winslet, Hugh Jackman, Emma Stone, Halle Barry, Liev Schreiber, Anna Faris, Chris Pratt, Richard Gere, Jack McBrayer, Uma Thurman, Katrina Bowden, Bobby Cannavale, Chloë Grace Moretz, Gerard Butler, Terrence Howard, Elizabeth Banks, e por aí vai). Na verdade, o filme é uma reunião de curtas (taí o porquê do elenco gigantesco) de diferentes diretores que os filmaram ao longo de um certo tempo para esse projeto. E, mesmo assim, isso não justifica a escolha dos atores, já que cada sequência é mais ridícula e menosprezível que a outra. Seria dinheiro? Pouco crível, já que o financiamento foi relativamente baixo (tá na cara porque ninguém quis produzir isso). Seria por entretenimento? Improvável, já que de divertido Para Maiores não tem é nada. Seria pela arte? Impossível. É vergonhoso e inútil. Dá vergonha de assistir a uma porcaria dessas. Repugnante, na mais franca das hipóteses. Visto na Netflix (16/07).


O Amor Custa Caro (Intolerable Cruelty)
dir. Joel Coen, Ethan Coen - ★★★★

Os irmãos Coen são gênios. Apesar de estar longe de estar entre os melhores filmes da dupla, Amor a Todo Custo é um exemplar veemente de competência e vigor dessa incansável dupla que de filmes bons tem a filmografia lotada. George Clooney vive um advogado que come na mão de uma mulher manipuladora caçando o marido "ideal". É um de seus trabalhos mais divertidos e tenazes. Os desempenhos de Catherine Zeta-Jones e George Clooney são imperdíveis. Mesmo sendo um filme mais incomum , não deixa de ser caprichadíssimo, em especial a fotografia de Roger Deakins, sempre pulsante. O Amor Custa Caro fascina pela originalidade. Cativante, sem deixar de ser profundo. Leve, sem deixar de ser preciso. Engraçado, sem ser imaturo. Irônico, sem ser desrespeitoso. Mais uma vez, os Coen mostram que dominam o gênero comédia e são bons no que fazem. Não há razão para ser tão subestimado e ignorado. A crítica pisoteou e desperdiçou o filme. Uma pena, pois é excelente, e merecia ter um reconhecimento à altura. Visto na internet (24/06).


Procura-se um Amigo Para o Fim do Mundo (Seeking a Friend for the End of the World)
dir. Lorene Scafaria - ★★

Este eu estava devendo ver há um tempão. Na época em que o descobri, ano passado, fiquei extasiado quando soube que nele Steve Carell, um comediante que eu considero um cara fenomenal, e Keira Knightley, uma das atrizes mais bonitas e talentosas dos últimos anos, estavam contracenando. A história também é bastante curiosa. Um homem (Carell) é abandonado pela namorada, e pra completar o fim do mundo se aproxima. Ele e a vizinha (Knightley) decidem resolver alguns assuntos pendentes juntos, e partem em uma viagem bastante excêntrica enquanto um meteoro se aproxima da Terra. É um filme que tem seus pontos positivos mas que é extremamente maçante. A dupla Keira e Steve é sensacional. Inconvencional e ocioso, Procura-se um Amigo para o Fim do Mundo tem seus momentos, mas é, na maior parte do tempo, desgastante e supérfluo. Visto na Netflix (11/06).

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Crítica Combo: DOIS FILMES VISTOS NA RAPIDEZ


Só passando pra comentar rapidinho dois filmes vistos na rapidez, em sessões consecutivas no sábado passado: um suspense desconcertante e uma comédia sem emoção.


Maníaco (Maniac)
dir. Franck Khalfoun - ★★★

Pra uma produção independente, tecnicamente falando, Maníaco é um primor. Não consegue se safar de nítidas imperfeições que, visto seu poderio em aterrorizar, poderiam passar facilmente despercebidas por nós, mas é certamente um trabalho bastante interessante. Peguei pra conferir, desprevenido, no último sábado. O longa é dirigido pelo francês Franck Khalfoun, que, por mera coincidência, foi selecionado como diretor, e roteirista, de Amityville: The Awakening, que será lançado em abril. O cara é um nato especialista em terror brutal e agoniante. A cara dele não é muito confiável, por sinal. Parece aquele Tom Six, o homem por trás do repugnante A Centopeia Humana. Os dois são diretores de terror que dão medo dentro e fora das telas. Eu, hein. Mas, enfim. Digo desprevenido porque não esperava encontrar um baita horror diante de mim, congelante. 

É sobre um rapaz que trabalha na loja de manequins da família e tem dificuldade em seguir adiante com relacionamentos amorosos, tudo por conta de uma obsessão com o passado da mãe, que se prostituía na frente do garoto, e nisso lhe proporcionou um trauma irreversível, que agora é pago com a vida de jovens garotas de Los Angeles. A maior parte de Maníaco, pra não dizer o filme inteiro praticamente, creio, é feito de cortes frontais, com a visão do personagem Frank emprestada ao espectador, como se nós fossemos o personagem. Com o passar do tempo, esse formato se dissolve, mas depois retorna brevemente. Apesar de demasiadamente incômodo, serve de costura à trama assassina do filme. Somos movidos pelo instinto de descobrir o que se segue dali em frente. 

E, apesar de ser chato dizer que esse é um filme ruim, há falhas graves. O roteiro é incompleto, cheio de furos, e inerte, sem reação. O (sumido) Elijah Wood se esforça para incorporar o horror que a trama e o seu personagem exigem, mas não passa daí. Ele definitivamente fica melhor ao lado do Peter Jackson do que ao lado de Khalfoun. A prova é Maníaco. A atuação dele não dá dimensão do horror. E eu acho que é isso que mais irrita. Não sei se foi proposital da parte do diretor eclipsá-lo com a câmera sempre frontal, como se nós fossemos o tal Frank da história, mas que serviu para melhorar a situação não posso negar.

Maníaco é homenagem ao cinema B, e é aí que suas as falhas exageradas ganham importância. O filme faz conexão com diversas obras do horror, principalmente pertencentes à camada B, e até mesmo as mais primitivas, nem mesmo consideráveis cinema B, como é referenciado quando o personagem do Elijah Wood sai com a fotógrafa Anna para ver O Gabinete do Dr. Caligari. De qualquer forma, esperava ficar mais surpreendido. Ver Maníaco tem vantagens bem como desvantagens. É difícil calcular se há mais ou menos em conta ao ver o projeto. Maníaco foi lançado ano passado em DVD. Por sorte, eu tinha conseguido a cópia pouco tempo após seu lançamento. Mas só foi há poucos meses que percebi que o azar veio disfarçado como a tal sorte. O disco não rodava direito, dava solavancos, pulava as cenas, travava. Fui tirar satisfações, só que ninguém soube me explicar o que havia acontecido. O jeito foi apelar para o Telecine Play (depois de quase dois anos sem o pacote, desde que cancelei, acoplei-o à minha rede de canais pagos, com muita alegria). 


Duplex
dir. Danny DeVito - ★★

Complicado. Esses filmes Sessão da Tarde com suas levezas inexplicáveis tendem a nos conquistar sem nem ao menos nós mesmos tendo tido a experiência de vê-los por inteiro. É por comerciais, e até mesmo visitas de passagem durante as suas inúmeras sessões dentro do rol de filmes do clássico programa vespertino, que conhecia Duplex. Sem contar esta, a última vez que vi um pedaço dele foi ano retrasado, e estava (inusualmente) empolgado ao ver o filme, mesmo sem ter terminado de ver. 

Eu não sei se é mágica da equipe que monta e seleciona a grade, que, através de cortes, consegue encurtar e, quem sabe?, melhorar o aspecto dessas produções populares, ou se é meu estado de afeto com esses filminhos leves e simplistas, só sei que Duplex era, antes dessa última revisão, realizada também no último sábado (pra falar a verdade, na madrugada de domingo), um filme bom. Desceu no meu conceito, agora que o vi por inteiro, sem cortes, sem efeitos adicionais, sem porra nenhuma. Que filme chato. Não sei como não consegui dormir, ainda mais sendo de madrugada, se bem que recentemente vim sofrendo de umas crises brabas de insônia. Mas, depois de visto o filme, passei a imaginar comigo se o efeito de vê-lo não deveria ser o mesmo de ingerir litros de maracugina.

Antes de perguntarem se eu não gosto de Matilda, outro clássico Sessão da Tarde também dirigido pelo então ator Danny DeVito, já que não gostei nem um tiquinho de Duplex, digo que é o melhor do DeVito. O diretor/ator tem manha para fazer filmes com essa inspiração clássica, antiga. Não é à toa que Duplex começa com uma sequência animada à la Hanna-Barbera e a fonte dos créditos são inspiradas em título de comédias escrachadas da velha Hollywood. 

Tentei gostar, mas desde o começo fiquei enjoado. O filme é repetitivo, não tem voz, não tem graça. Tenta ser aquele tipo de filme "quebra-preceitos" mas tudo que faz é ser um "quebra-paciência". Nem mesmo a Drew Barrymore, que nunca gostei muito, mas que surpreende em certos filmes, salva. Imagine o Ben Stiller (só pra deixar avisado, também nunca fui muito com a cara do Ben). Os dois não estão totalmente péssimos, mas não passam de medianos. O grande problema é que eles conseguem embarcar na brincadeira, e ficam atuando feito idiotas (desculpem-me a expressão, mas é a única possivelmente encontrada por mim para descrever essa situação em sua absoluta paspalhice). 

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Crítica: "SIMPLESMENTE AMOR" (2003) - ★★★★★


Do variado rol de filmes com temática natalina, Simplesmente Amor figurava, até hoje, entre os que eu mais queria ver desde sempre, por interesse e simpatia, mas nunca tive a coragem de procurar, e nunca dava lá a devida atenção à essa vontade. Visto para celebrar essa que é provavelmente uma das únicas (e na minha opinião a melhor) datas comemorativas que conseguem me fazer esquecer de qualquer problema da vida e ser mais humano e gentil (não sou religioso nem nada disso, mas guardo na cabeça lembranças e impressões tão boas dessa época que quando ela chega é praticamente impossível eu não me animar), o longa é uma daquelas comédias românticas cujo efeito é remédio pra tristeza e indisposição, mesmo pra quem não está encarando alguns desses distúrbios emocionais. Tá bom que o filme, cheio de encantos e surrealidades inconvencionais para o nosso típico cotidiano, é agente da ilusão (um dos propósitos indiretos do cinema, minha gente), mas não há como fechar a cara diante de um trabalho desses, tão alegre, peculiar, imaginativo, que acolhe o público com carinho, romântico... Simplesmente Amor é simplesmente fenomenal.

Estrelando um elenco inglês de tirar o chapéu, o filme de estréia do roteirista Richard Curtis (criador da série Mr. Bean, e roteirista de bem-sucedidas produções cinematográficas como O Diário de Bridget Jones e sequência - No Limite da Razão, Notting Hill, Quatro Casamentos e um Funeral, Cavalo de Guerra e Mr. Bean - O Filme e sequência - As Férias do Mr. Bean, bem como já dirigiu algumas pérolas, incluindo Simplesmente Amor, Os Piratas do Rock e o recente Questão de Tempo) narra diferentes e entrecruzadas jornadas românticas em Londres (e parcialmente lá pro final em Portugal) partindo de um período de cinco semanas anteriores ao Natal. 

Bill Nighy interpreta um cantor de rock decadente que vê numa canção de sucesso sua re-atualizada especialmente para o Natal a chance de subir novamente depois de tantos anos sem novidades para o público. O personagem do Liam Neeson acabou de perder a mulher, e dedica seu tempo a ajudar o pequeno enteado, que está perdidamente apaixonado por uma menina da escola e não sabe o que fazer. 

Colin Firth é um escritor que, afastado da cidade grande, está escrevendo um romance policial, e tem a sua atenção desviada para a sua nova empregada, uma imigrante portuguesa que não sabe falar inglês. A Keira Knightley acabou de se casar, e é pega de surpresa pelo melhor amigo do seu marido, que está apaixonado por ela. A Laura Linney já não consegue mais esconder seu amor por um colega de trabalho, e passa a ter a sua vida amorosa atrapalhada e eclipsada pelos problemas de família. 

Hugh Grant (em mais uma parceria com o Curtis) acabou de se tornar o primeiro-ministro da Inglaterra, mas terá de enfrentar o amor por sua jovem e bela secretária. Sua irmã, Emma Thompson, parece levar a vida perfeita, se não fosse pela suspeita de traição por parte do marido (Alan Rickman). O Martin Freeman protagoniza filmagens quentes ao lado da Joanna Page, e até tenta esconder embaraço e fascínio, mas não consegue despistar o amor. E por aí vai...

Muito embora seja composto dessa trama cheia de conexões e complexas ligações entre seus participantes, Simplesmente Amor baseia-se numa ideia bastante simples, se formos ver de um ponto que visa a maneira como a história é descrita pelo roteiro. Podemos ver que é difícil descobrir detalhes além dos fornecidos do presente. O filme apenas foca no amor, na casualidade, em encontros, e faz dessa montagem seu forte, sem necessitar de julgamentos.

O grande mérito do roteiro do Richard Curtis é a ausência do clichê. Ou melhor, a reinvenção do clichê. Podemos ver que a trama, e as muitas relações entre os personagens, até podem transparecer um pouco charmosas quanto ao clichê, mas não há como autenticar a existência do elemento aqui. Curtis faz de tudo para evitar o clichê. Actually, ele recicla a trama. Filtra. E é brilhante.

Sem falar que se trata de um dos filmes mais "Natal" já feitos, muito provavelmente na história. Afinal, trata-se de uma data onde estampa-se o amor e glorifica-se a paz e a felicidade. Natal é, na verdade, o tempo de esquecer dos problemas e comemorar o que há de bom na vida. Bem como as cenas inicial e final (do aeroporto) do filme projetam, não importa o que esteja acontecendo no mundo, Natal é tempo de comemorar, e viver em constante alegria. Festejar. Reencontrar. Isso no mundo inteiro. Não só na Londres do Richard Curtis. Simplesmente Amor faz jus à fama da época natalina, e dessa data tão potente e relevante. 

Muitas cenas ficam gravadas no nosso imaginário por muito tempo após o fim do filme. É algo até fruto da qualidade do repertório musical, riquíssimo. E de outros segmentos cujo repertório imortaliza. Destaco, rapidamente, as minhas três sequências favoritas em Simplesmente Amor: em primeiro lugar, a cena que duplamente capta tanto a corrida do garotinho Sam em busca do seu amor, que irá partir em instantes (cena que particularmente lembra o icônico final de Manhattan) num avião, e entrecortando essa sequência fragmentos da corrida do personagem Jamie (Colin Firth), recém-chegado em Portugual, alado de uma grande curiosa multidão, rumo à sua grande paixão, sua ex-empregada Aurélia (Lúcia Moniz) - cena essa que é pra mim a mais engraçada do filme inteirinho;

Em segundo lugar, fica a cena onde a Keira Knightley (no papel de Juliet) é recebida pelo personagem Mark (Andrew Lincoln) com uma dedicatória na véspera do Natal, ao som de "Noite Feliz", a cena mais emocionante do filme e também romântica. E, em terceiro e último lugar mas não menos importante a cena da apresentação escolar de Natal, bastante animada e elétrica, onde somos apresentados ao grande amor do Sam.

É isso aí. Simplesmente Amor mexeu bastante comigo. É um filme imperdível quão memorável. Nos faz lembrar que, em momentos difíceis, é preciso ter amor. Ele sempre está lá. Segundo Richard Curtis e Simplesmente Amor, o amor está em todos os lugares. Em maior quantidade nuns e em menor quantidade noutros, mas sempre lá. É disso que o nosso mundo precisa para cicatrizar suas inúmeras feridas. O amor. E esse filme pra lá de otimista (e com razão) consegue não apenas nos maravilhar e deliciar, mas também causar reflexão. Toca. Inspira. E nos faz prezar mais pelo amor.

Só pra não esquecer, além do já mencionado elenco, uma reunião perfeita, é preciso deixar aqui marcadas participações importantes também, como a do Rodrigo Santoro, brasileiro, em uma de suas primeiras "fitas" no estrangeiro, Gregor Fisher, Chiwetel Ejiofor (ainda pouquíssimo conhecido), Martine McCutcheon (a "gorducha"), Kris Marshall, Claudia Schiffer (a belíssima Claudia Schiffer, quero dizer - ironicamente mencionada como ela mesma numa fala pelo personagem do Liam Neeson, e mais tarde a atriz na pele da mãe de um colega do enteado dele), Olivia Olson, Shannon Elizabeth (que aparece bem rápido perto do final). Também tem o Billy Bob Thornton, que interpreta o presidente dos E.U.A., e o Rowan Atkinson (discretamente engraçado). 

Simplesmente Amor (Love Actually)
dir. Richard Curtis - ★★★★★

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Crítica: "IGUAL A TUDO NA VIDA" (2003) - ★★★★


Pedir mais de Igual a Tudo na Vida quando o filme já é um arraso é bem feio, e sinal de ingratidão pelo conteúdo excepcional que é. Poxa vida, ainda mais nesse projeto onde o diretor tinha tudo para calar a boca dos especialistas críticos com um, praticamente, revival de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, fato que talvez poderia cessar as exigências sem cabimento à um filme maior ou igual a, que tanto veio sendo protestado pela crítica nessa fase mal falada e nas primárias obras que sucederam o clássico Alleiano no fim da década de 70 e 80, com poucos exemplares tendo satisfeito o controverso paladar para cinema dos críticos. Quanto à mim, não tenho nada a reclamar. Igual a Tudo na Vida é um primor cinematográfico. Num de seus últimos grandes longas românticos, o diretor faz bom uso de autorreferências e constrói uma trama delicada e sem nenhum grave defeito, que prioriza acima de tudo a performance dos jovens astros Christina Ricci e Jason Biggs, casal no filme, o que certamente exemplifica o espaço do elenco jovem na filmografia do diretor, muito bem vista na sua última década de trabalho e nessa também, com a passagem de Emma Stone, Allison Pill, Jesse Eisenberg, e entre muitos outros. O próprio filme mais recente dele, Homem Irracional, compartilha essa temática.

Muito provavelmente pela idade, ou experiência, Woody veio abordando a juventude bem explicitadamente em suas últimas produções. E, nesse meio, Igual a Tudo na Vida pode ser visto tanto como o ponto de partida para esse idealismo quanto um bem-concluído destaque. O longa gira em torno de um iniciante escritor de piadas e humorista, Jerry Falk, cuja atual namorada, a espontânea e culta/"melindrosa" Amanda (por sinal admiradora de jazz, mencionando Cole Porter e Billie Holiday em um certo momento do filme, e também de literatura, dando de presente no aniversário de namoro com Jerry um livro de Sartre), só tira proveito, negativamente, de sua boa vontade e fascinação/ingenuidade fazendo com que ele seja humilhado, rejeitado, chifrado e pisoteado por ela sem descanso, e ele permanece indiferente diante de tais atos. Nem no sexo ele tem paz com as frescuras da mulher, apesar dela mesma não aguentar se afastar dele. É na vinda da mãe de Amanda, Paula Chase, que as coisas deslancham. Na tentativa de integrar o showbiz teatral com apresentações musicais, Paula passa a ocupar o tão adorado escritório do comediante e também atrapalhar a sua concentração com ensaios 24 horas num piano locado bem na meio do apartamento. 

Sem falar no agente anti e inadequado do rapaz, interpretado por Danny DeVito, com quem ele tem certos problemas com a renovação de um contrato que durará 7 anos. O receio de Jerry com a consumação desse contrato é que sua carreira poderá ir por água abaixo, e muito possivelmente não sairá do lugar. Mesmo assim, ele sente que deve agradecer, com esse contrato, aos anos de dedicação do homem à ele. Nesse cenário, surge a cômica figura de David Dobel, também escritor de piadas que, apesar de ser ateu, é fanático pela religião e violentamente contra o antissemitismo, como o filme bem deixa claro em cenas únicas, como a onde o diretor espatifa o automóvel de dois rudes caras que tomaram a sua vaga. Definitivamente engraçado. 

Apesar do amalucado trânsito de emoções e das poucas e boas, o casal se entende e é justamente nesse ponto onde o romantismo atinge seu auge, na beleza de um disparate de visões e num furacão hormonal incessante, que perdura por todo o filme, com a Amanda vira e mexe se autointitulando gorda - o que, acreditem, não é pra menos, quando o personagem é mesmo um saco sem fundo, e o Jason Biggs, na insegurança de sua vida amorosa jovial, incapaz de encerrar relacionamentos, o que talvez bem seja a razão para ele aturar o filme todo calado as patifarias da amada.

Do elenco, a dupla protagonista, os talentosíssimos prodígios Christina Ricci e Jason Biggs, já conseguem comandar o filme com certa maturidade, mas Woody Allen, aqui coadjuvante, consegue falar mais alto com um personagem incomum e nunca visto em sua carreira, que já foi bem definido anteriormente. Quero dizer, é um pouco estranho vê-lo num personagem da altura, ainda que o mesmo esteja adepto aos sensacionalismos neuróticos típicos à Allen. Mas o mesmo é preenchido por uma coragem, uma personalidade psicótica e certeira tão intensa, que acaba assustando. Mas vale pelas piadas excelentes, como sempre. Só de exemplo, a na qual ele fala que aprecia a masturbação mais do que o próprio sexo, visto que ele, uma vez, fantasiou um ménage à trois entre ele, Sophia Loren e Marylin Monroe. Posso parecer normal, mas ri feito um condenado nessa parte. 

O final, confesso, decepciona, mas não por isso deixa de ter sua parcela de qualidade, até porque tem vezes em que o amor é difícil de se controlar, imprevisível (ou não) à sua maneira, e nem sempre dá pra sair ileso de seus conflitos. Igual a Tudo na Vida, apesar de ter sido financiado pela Dream Works, produtora do Spielberg, e também ser si próprio um trabalho mais popular, de clima cool de Sessão da Tarde, não conseguiu chamar a atenção em seu lançamento, que resultou em apenas 13 milhões. Vai entender. Afinal, para um Woody Allen não é um filme tão existencial ou intelectual como é de costume. 

A leveza de Igual a Tudo na Vida concentra-se na sua rica filosofia que projeta o romance jovial em seu melhor, o amor que não depende de estereótipos inflados para fazer sentido e que consegue vencer as pretensões da idade de tão mágico que é. Um amor verdadeiro, quando sua força aniquila segundas intenções. Talvez nem tão correspondido assim, mas que deixa sua marca por autenticidade, por ser, de fato, uma experiência desconcertante. Ele até pode ser visto como um retrato anti-machismo, com a mulher fazendo a cabeça do rapaz, o traindo e até mesmo o minorizando, relevando outros elementos além dele, e sequer atestando a existência do amor na relação, o que vai contra a frequente imortalização feminina. É uma pena que não foi (surpreendentemente) visto, ainda mais pelo público juvenil e povão, o qual este é direcionado, muito menos aceito tanto pela crítica e público no geral. Consiste numa ideia tão simples e divertida, contagiosa. Maravilhoso, ao meu ver.

Igual a Tudo na Vida (Anything Else)
dir. Woody Allen - ★★★★

domingo, 1 de novembro de 2015

Crítica: "SWIMMING POOL - À BEIRA DA PISCINA" (2003) - ★★★★


François Ozon é um cineasta interessantíssimo. Dele, vi esse ano Uma Nova Amiga e mais outros dois ou três filmes, já que não sou bem familiarizado com a sua filmografia, mas estou aqui no computador com uma cópia de 8 Mulheres, considerado seu maior filme, e que estrela um elenco feminino esplêndido (que conta com a participação da co-protagonista deste aqui, a inesquecível Ludivine Sagnier) e a Isabelle Huppert, que pra mim já faz toda a diferença com a sua presença no filme, sem falar na Catherine Deneuve, e cujo pretendo ver muito proximamente. Tive um estranho sonho no meu último descanso. Envolvia o Oscar, e sonhei neste que era uma chuvosa tarde e eu acabara de receber uma lista contendo os indicados ao prêmio, com o Lars Von Trier e o François Ozon indicados. Bem estranho. O sonho não me saiu da cabeça por nada, o que é ainda mais estranho, e decidi ver Swimming Pool carregado pelos instintos da última noite em relação à Ozon. E eu gostei. Muito (o que eu não esperava).

O filme é um suspense cuja trama gira em torno de duas intensas personagens femininas, sendo a principal uma escritora de romances policiais inglesa, Sarah Morton (interpretada com força pela Charlotte Rampling, numa das melhores atuações da sua carreira), autora de uma sucessiva franquia, que por alguma razão não está conseguindo se concentrar em meio ao turbilhão londrino e à frenesi que a persegue, tipicamente sucessora do lançamento do novo livro estrelando sua grande criação. Seu editor, John, sabendo disso a envia para a sua casa de veraneio na França, onde a mulher tem um inusitado encontro com uma jovem chamada Julie, a filha de Paul que veio passar uns dias no local, e onde tem vários encontros com os mais diversos homens, o que destrói o sossego de Sarah, que no local começa a escrever dois livros, sendo um sequência da sua famosa série e o outro sobre a visitante com quem ela compartilha a casa. Não demora para que uma porrada de intrigas tomem conta do clima de À Beira da Piscina. 

François Ozon dispõe muitos artifícios no intuito de fazer com que o espectador se conecte à história, que naturalmente carrega um ar meio estressado, que, com o passar dos tempo, nos leva à conclusão de que estamos vendo a um thriller, que no início até não pode soar como um. O início de Swimming Pool é bem monótono. Mas esse estado é crucial para a abertura e o desenrolar da história, e a análise minimalista dos detalhes faz com que essa entrada represente um "aquecimento", onde determinadas importantes informações devem ser absorvidas pelo espectador com muito cuidado. Um típico suspense. Sem falar na brilhante trilha sonora de Phillipe Rombi, que desde o começo já começa a aparelhar o filme com uma delicada aparência Hitchockiana. François Ozon, que outrora já tinha demonstrado ser um aprendiz incólume do Pedro Almodóvar, muito notório até mesmo na sua mais nova produção, agora aprofunda seus conhecimentos em torno de estilos cinematográficos e nos apresenta uma mistura contundente de Alfred Hitchcock e Brian De Palma, considerados os mestres do gênero aqui explorado com uma enorme sutileza e ao mesmo tempo grandeza pelo Ozon. 

Se bem que seu filme anterior, de uma forma nem tão dramática, já tinha sinalizado toques conectados ao suspense, uma vez que 8 Mulheres relata um determinado número de mulheres reagindo a um assassinato, isoladas dentro de uma mansão enquanto tentam amenizar o perigo da situação. E, de fato, é uma trama meramente similar à Festim Diabólico (de Hitchcock). A presença da belíssima Ludivine Sagnier é motivo de alegria, de diferentes formas, em ambos os filmes, sendo aqui a alegria redobrada. A tímida proporção de femme fatale característica de sua personagem soma-se a sua desnorteante beleza, que ritmiza seu sexy caráter e estimula uma desenfreada sensualidade, que aproxima o público dos resultados finais desta. 

O roteiro, assinado por François em parceria com Emmanuelle Bernheim, toma rumos que podem transparecer confusos para o espectador quando colocados em prática no final que certamente provoca dúvidas, mas é um deleite. [spoiler] Há varias teorias para Swimming Pool, sendo uma delas (levemente contestada pelo diretor) e a mais aceita de que a personagem de Julie estaria apenas na cabeça da escritora, fruto de sua imaginação, e seu isolamento só reforçaria isso, uma vez que o final recria a personagem de Julie como Julia, filha de Paul e britânica. Eu já sigo a versão de que a Julie seria a filha bastarda de Paul, já que ele tivera um caso com uma francesa e então a engravidado no pequeno vilarejo, que não foi reconhecida por ele. Como forma de silenciá-la, provocou um acidente de carro, citado pela moça perto do final. Mas sempre há controvérsias. Além disso, muitos contestam que a Julie seria uma espécie de invasora, que não era a filha de Paul mas se passava por ela como forma de retardar a profundidade das mágoas do assombroso passado envolvendo sua mãe. O que é certo é a inteligente construção da narrativa, forte deste suspense que mixa com perfeição Hitchcock e uma dose fatal de sensualidade que acaba por contagiar o espectador, em muitos aspectos, e então nos proporciona a fugir do superficial, com uma figuração complexa e que nos deixa pensando por um tempão, nas inúmeras possibilidades oferecidas pelo mesmo. Verdades e segredos transbordando numa onda assassina, misteriosa e erótica.

Swimming Pool - À Beira da Piscina (Swimming Pool)
dir. François Ozon - ★★★★

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Crítica: "SOBRE MENINOS E LOBOS" (2003) - ★★★★


Dois crimes. Três meninos. Futuro destruído. Passado vingado. Na década de 70, a vida de Dave Boyle sofre uma grave reviravolta quando ele é vítima de um tenebroso sequestro que, mesmo depois de trinta anos reflete no seu comportamento introvertido e personalidade problemática. Enquanto brincava ao lado dos dois amigos da vizinhança Jimmy Markum e Sean Devine, Dave foi interrompido por um carro e um homem que dele saiu, afirmando ser da polícia, deixando distintivo e algemas à mostra. O pobre garoto, sem o que fazer, obedece ao pedido do misterioso homem: entrar num carro, onde ele o conduzirá até sua mãe e a comunicará do delito cometido por ele, já que o mesmo estava terminando de escrever seu nome num cimento recém-posto com os amigos. Depois daquele dia, Dave nunca mais voltou a ser o mesmo. Aquele Dave havia morrido. O reencontro desses garotos é flechado por um bárbaro crime, que afeta Jimmy, o antigo líder do grupo.

O suspense em Sobre Meninos e Lobos é fermentado com uma delicadeza tão próspera e minuciosa que não é de se estranhar que o filme tenha conquistado um prematuro legado tão facilmente. Clint Eastwood, filmando mais uma vez o impetuoso universo em que habitamos, é brilhante, e faz a platéia se comover diante de uma de suas obras mais pesadas, bem filmadas, inteligentes e eficientes. Sobre Meninos e Lobos busca o menino e o lobo dentro de cada um de nós, preparando um ágil jogo que nos engana e nos entretém. É a mais pura reflexão já realizada por Clint, até hoje, sobre o devastador efeito do destino, e suas fatais consequências nas vidas de seus envolvidos, executados um por um na guilhotina da verdade. O poder que nos é instruído às vezes não corresponde, ou tem o azar de chegar atrasado e vincular um final diferente.

Se lá no fundo não é o melhor do Clint Eastwood, pelo menos Sobre Meninos e Lobos articula bem um roteiro profundo e excelentemente dramático, assinado por Brian Helgeland, e faz bom uso de uma turma de atores simplesmente fenomenal e imperdível, sob qualquer perspectiva que tal definição possa oferecer. Sean Penn é magistral, tenso e bem trabalhado como nunca, sem querer titular Sobre Meninos e Lobos como seu melhor trabalho no cinema, mas que sem sombra de dúvida não fica nem um pouquinho pra trás, na pele do conturbado James Markum, que revoga o mundo ao redor e suas forças quando fica ciente da morte de sua filha mais velha. O intenso Tim Robbins, nesta que é a melhor interpretação que sua carreira já nos proporcionou, uma vez que já é um pouco raro ver o ator em tela, ainda mais na atualidade, e numa pérola dessas não ousaria descartar a chance de parabenizá-lo por seu extraordinário talento e a incrível montagem e preparação que ele impôs a seu problemático personagem, um pai de família assombrado por um cruel passado. Quanto ao Kevin Bacon, não tenho o que dizer sobre ele não. É uma hora ou outra, por exemplo na cena da interrogação, que ele realmente merece ser destacado, até porque até agora me pergunto que diabos estavam pensando ao colocá-lo aqui, e talvez ele mesmo seja o particular e singular pesar do elenco. Laura Linney e Marcia Gay Harden comandam o núcleo feminino com uma singeleza versátil e que é difícil de expressar com palavras, já que é bem difícil vermos personagens femininas e suas atrizes tão bem entonadas em filmes do Clint. Não podemos esquecer do Tom Guiry, rapaz cujo papel também é estremecedor, ainda que só seja visto em poucas cenas.

Tomando como partida um cenário em comum (o antigo bairro), personagens intercalados entre si, seja laços de família ou provenientes do pretérito (o trio Sean, Jimmy e Dave), e uma complexa ligação entre esse trio e outros personagens ao redor, por sua vez pregados uns aos outros por capítulos que vão sendo relevados pouco a pouco dentro da trama, Eastwood faz do filme não só um thriller potente e que não dá ao espectador o privilégio de respirar por um segundo, quem dirá mover os olhos para outro lugar senão direcionados à tela, mas também dá um pouco de liberdade para que o roteiro de Brian vá construindo o filme sozinho, tanto que é visível que não há uso de flashback, excedendo um na sequência inicial e próximo do fim. Isso evita que o clima seja partido, e apenas alimenta nosso prazer e ansiedade em reunir as peças dessa grande conexão e então poder compreender o ver do filme, o que não depende apenas de uma grande sacada final, mas também de algumas pistas que vão sendo, de fininho, liberadas. É tudo uma questão de atenção e paciência.

Sobre Meninos e Lobos dialoga sobre o passado, e como ele é onipresente e importantíssimo para o trio, de diferentes formas. O sequestro na infância para o Dave, a prisão e alguns pequenos fragmentos instalados em torno desse plano para o Jimmy, e o afastamento da mulher, que permanece até o fim sem respostas, para o Sean. Outra coisa interessante é a forte sede por vingança que preenche o enorme vazio instalado em Dave e Jimmy. Enquanto um busca a redenção através da libertação de uma vítima, o outro procura limpar seus pecados com o sangue de quem lhe causou tanto infortúnio. Seus caminhos, nessa passagem, se cruzam, como um simultâneo piscar de olhos. Porém, aqui (mérito novamente para o essencial roteiro, que é adaptação do romance Mystic River, de Dennis Lehane) há uma estratégia muito bem arquitetada no intuito de evitar a vulnerabilidade e falta de sentido no final. E o caminho encontrado para unificar de vez as peças soltas da trama não muda em nada a percepção quanto à competência da construção. O Clint cria um clima perfeito, obscuro e perverso, e atinge o máximo na exploração marcante da tragédia dentro da história, auxiliada pela fotografia do Tom Stern e a excelente edição do Joel Cox. Gostei muito de Sobre Meninos e Lobos, ainda que tenha ficado desapontado com relação a certas coisas. Sinto que, de alguma forma, o capítulo final, mesmo que glorioso e bem-feito, não consegue compensar por completo o desfecho. Há um desencontro. Achei que ficaria mais chocado, impactado, do que fiquei. Faltou muito pouco mesmo.

Sobre Meninos e Lobos (Mystic River)
dir. Clint Eastwood - ★★★★

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Crítica: "21 GRAMAS" (2003) - ★★★★★


"Dizem que você perde 21 gramas no exato momento da morte". 21 Gramas não se distancia tanto dos outros dois colegas Amores Perros e Babel, já que os três filmes juntos constituem a Trilogia da Morte, mas se destaca por ser o mais dramático e intenso dentre todos eles. Com um elenco arrasador, um roteiro forte e bem-escrito e a direção empenhada de Iñárritu, 21 Gramas reflete sobre os altos custos da culpa, da superação e da esperança que recaem sobre nós em momentos de tensão e conflito. É verdade que é mais semelhante a Amores Perros do que Babel, já que 21 Gramas remonta em sua trama a história do primeiro, que unia um grupo distinto de pessoas a um acidente de carro. Porém, quando digo que se trata de um filme forte, 21 Gramas, por exemplo, não consegue superar a densidade do anterior, Amores Brutos, embora seja um filme mil vezes melhor do que Babel, um trabalho menor do Alejandro. 

Comentar a sinopse de 21 Gramas é uma tarefa que de longa já cheira a spoiler, uma vez que o desenvolvimento da narrativa é todo dispersado, desmontado. O filme é basicamente um quebra-cabeça de cem peças pronto para ser arquitetado. A figura só é descoberta perto do final da montagem. Por isso, evitarei abrir qualquer notificação sobre o argumento do filme aqui. Prefiro apenas falar sobre o filme e o quanto profundamente me deixou depressivo e pensativo. E confesso que não sou fã de Alejandro González Iñárritu, nem um pouco, mas 21 Gramas até despertou curiosidade em mim sobre a carreira dele, algo que nunca veio tão disparado como hoje. 

O que, de fato, é o mais interessante e inteligente sobre 21 Gramas é sua estrutura narrativa não linear, que na época do lançamento tinha sido merecidamente comparado a filmes como Pulp Fiction, e Amnésia, embora a comparação ao primeiro tenha sido inicialmente atribuída ao também genial Amores Perros, já que essa ausência de ordem cronológica é característica da trilogia inteira. O roteiro é assinado brilhantemente por Guillermo Arriaga, que soube trabalhar com eficiência numa trama complicada cujo nível dramático ultrapassa os limites de um filme normal do gênero, tanto que não tão cedo voltarei a assisti-lo, e olha que ele é um sujeitinho em quem eu não tão facilmente confiaria o roteiro de um filme meu, diríamos, mas que soube criar toda uma teia complexa e cativar o espectador com uma história que, embora já venha rotulada com o típico chamariz dos conflitos dramáticos, é inegavelmente dedicada e esplêndida.

21 Gramas, além de ser um sinal de maturidade e estabilidade cinematográfica para diretor e roteirista Alejandro e Guillermo, também simboliza, junto a outros filmes que se dispõem dessa mesma espécie de narrativa, uma significante evolução na linguagem dos filmes e na construção das tramas. Afinal, este estilo narrativo não é mais novidade para muitos uma vez que nossa indústria celebra vários longas de sucesso que usufruem dessa mesma edição construtiva, embaralhada (a dobradinha Kill Bill), de ângulos multifacetados (Pulp Fiction, Interestelar), time loops (Feitiço do Tempo, Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças), escolha múltipla (Caché, A Origem), simbolismo "easter egg" (Cisne Negro, O Homem Duplicado), e por aí vai, filmes com segredos escondidos em si, e que convidam o público a desvendá-los. 

No fundo, o filme é um retrato sobre o horripilante desencadeamento das tragédias em nossas vidas, e a nossa defesa contra elas, seja contraindo mais tragédia ou buscando um novo caminho para seguir, encarar de frente a dor do passado e dos episódios que não podem ser apagados de nossa lembrança, e o quanto esse passado, essas tragédias, nos perseguem até o último momento, mesmo contra vontade, mesmo com a reza mais braba, ou a tentativa mais poderosa possível, o passado sempre estará ali, e ele nunca desaparecerá. É um tumor maligno. E o que fazer quando mais desgraça sucede essa desgraça? Poxa vida, hein. É aí que a gente para e pensa que não tem como ficar pior. O fundo do poço. E tem como cavar mais ainda dentro desse buraco infeliz? Até quantas vezes o ser humano consegue superar as perdas que surgem? É uma visão pessimista das nossas escolhas e do mal, nos aprisionando. Ou é melhor chamar essa praga de azar?

E esse elenco, simplesmente arrebatador e inigualável? Sean Penn encarna um dos melhores personagens de sua carreira numa performance única, mas incrivelmente subestimada. Naomi Watts, que aceitou a proposta de filmar o longa sem ao menos ter tido a oportunidade de ler o próprio roteiro de Arriaga tem uns momentos de tensão pesados, e o talento da atriz é explorado ao máximo, no limite, por Alejandro, e é provável que esse seja mesmo o melhor trabalho dela. Benicio Del Toro, de derrotado a crente, é inteiramente memorável (eu só acho que o personagem dele, incluindo a vida criminal, poderia ter sido melhor explorada, embora eu acredite que esses detalhes foram intencionalmente explicitados por Arriaga na montagem do roteiro), e o mesmo digo da Melissa Leo, em uma das primeiras grandes atuações de sua carreira. E, falando em montagem, só pra concluir o texto, também vale lembrar do Stephen Mirrione, que colaborou Iñárritu em outros filmes, como Babel, e aqui é um contribuinte nato num filme totalmente dependente de uma edição afinada.

21 Gramas (21 Grams)
dir. Alejandro González Iñárritu - ★★★★★

domingo, 2 de agosto de 2015

Crítica: "DOGVILLE" (2003) - ★★★★★


Rever Dogville era pra mim, até o momento, uma espécie de obrigação, já que da primeira vez o tinha visto na TV e nem tive, acredito eu, um grande prazer em vê-lo. Estava muito acelerado/atarefado naquele dia e só queria que o filme acabasse, algo que cortou a minha apreciação, e complicou minha compreensão. E, embora eu possa estar sendo um tanto quanto superficial dizendo que a primeira sessão não chega aos pés desta segunda, uma vez que nem mesmo duas sessões são suficientes para você conseguir fisgar de Dogville todo o seu contexto, digo que tudo ficou muito esclarecido pra mim desta vez. Na primeira, uma pequena faísca de desinteresse, emergida logo nos primeiros momentos, resultou num catastrófico incêndio. Lembrando que eu odiei a sessão, mas não o filme (tal missão, em meu caso, é impossível de ser realizada).

Embora muita gente tenha odiado Dogville, sob acusações de incompreensão e "demais filosofia para de menos resultado", eu, muito inusualmente, gostei demais dele. Talvez, empatando com Dançando no Escuro e Ondas do Destino, seja o filme de Lars Von Trier que mais gostei. E os motivos são infinitos. Aposto muito na força do caráter provocante e incisivo de Dogville, sua mensagem inteligente e medonha, que reserva múltiplas interpretações ao espectador. E se isso é problema? De modo algum. Tais quesitos só tendem a reforçar o pensamento e criar mais perguntas em nossa cabeça, sobre o assunto que nos é entendido aqui. Além de tudo isso, Dogville, um primor cinematográfico excelente, é uma baita obra, com um baita elenco e com mais uma condução competente de Von Trier, esse homem que sempre nos deu do bom e do melhor, disponível a provocar em nós os mais inquietantes sentimentos, em prol de um cinema melhor, e uma contribuição válida e muito bela, e com certeza não é aqui em Dogville que tal caracterização é rompida.

O prólogo, parte inicial deste longa, nos introduz Dogville, uma pequena cidadezinha escondida entre montanhas, aparentemente deserta, que leva à uma estrada seu fim, e seus habitantes, segundo o narrador pessoas honestas, de bom coração, mas que possuem um terrível problema de aceitação. Já no primeiro capítulo, um jovem escritor chamado Thomas Edison acaba encontrando Grace, uma bela e suntuosa mulher que, aparentando estar fugindo do nada, busca abrigo e esconderijo na pequena cidade. No começo, é bem tratada pelos moradores, recebida com muito carinho e amor por todos, aos poucos. Até que não vai demorando para a má fama de Grace se espalhar entre os cidadãos, e uma nuvem negra instala-se por cima dela, forçando-a a fazer escolhas perigosas, e até mesmo se submeter à fúria, à satisfação e à insensibilidade dos moradores de lá, o que faz com que Dogville transforme-se num inferno para ela. 

Afinal, o que é tão bom em Dogville? O que mais nos encanta nessa intrigante e exímia história? Há uma mensagem escondida por trás da enigmática jornada de Grace? Ela representa algo ou alguém, e a história possui contrapontos que indicam relatos históricos? Exemplos de algumas das questões mais frequentes na mente do espectador, antes de ver Dogville, e ciente da espécie e da seriedade do filme que verá à frente. Depois de visto o filme, algumas das questões vistas são não muito desvairadamente respondidas, com êxito. O certo é que Dogville é um filme que tende a exigir mais. É preciso focar, prestar atenção em detalhes, recolher informações. Talvez o que eu tenha reconhecido em Dogville não seja a mesma coisa que você viu no filme. Acontece. Essa parte de dividir opiniões e acentuar o auto-questionamento soa muito como um propósito de Lars. Afinal, o que no começo parece muito simples ganha dimensões redentoras e com diferentes portas, diferentes chaves e diferentes caminhos por trás delas. Basta o espectador, em sua noção, ir cavando mais fundo para buscar aquilo que o filme mais parece estar centralizado.

Eu mesmo não vejo esse objetivo de Dogville como uma notável ambição, se bem que há um quê pretensioso nisso. Acredito que desafiador, ou quem sabe inovador, seja a palavra certa para definir o que Dogville, em seu completo conceito, reúne. Chega de produções com intenções óbvias e fracas demais para nossa surpresa e igual contento. Que venham mais filmes como Dogville, pérolas da reflexão, que colocam à prova nossa própria opinião e posição moral. Com outros olhos, e em novas lentes, um mundo distinto nos é apresentado. E, até então, era bem desconhecido, ou pouco usual, mas que, depois de visto o filme, não sai da nossa cabeça. É esse mundo real? O retrato de Dogville é o retrato do nosso mundo, e a decadência que estamos beirando? Moralismo cheira mal ou cheira bem? Será que tudo está certo quando tudo aparenta estar em seu respectivo lugar? Se Grace é Jesus ou não, se Dogville e sua cidade-título representam, em uma maneira bem reduzida, o mundo, e os E.U.A. ou não, e se bem mesmo (spoiler) há uma ligação apocalíptica no final desta película, Dogville, de tão impaciente e incontrolavelmente provocador (no bom sentido), acaba nos levando ao delírio e ao deleite. E aí é que me pego em um pensamento bem doido, porém possível: como seria um debate meu com Lars Von Trier, especificamente em relação à Dogville, e o tempo que esse negócio valeria? Puxa, a ideia me assombra e ao mesmo tempo é divertidíssima.

A conclusão que chego, depois de tanto coçar a cabeça, é a seguinte (mais spoilers a seguir): Dogville representa os Estados Unidos, e Grace, recém-chegada no lugar, é uma imigrante, forasteira. Maltratada e desdenhada pelos moradores do local, ela é abusada sexualmente, acusada de diversas coisas, feita de palhaça, enganada e crucificada. Inicialmente fugindo de seu pai, mafioso, ela agora só tem a ele como recurso para fugir dessa desgraça de vida que é em Dogville. É aí que entra um sublinhamento do 11 de setembro: no fim, a família de Grace chega ao local e realiza uma enorme carnificina, assassinando toda a população da vila. A América não é tudo isso, minha gente. "Terra dos pesadelos", na aguçada percepção do Lars Von Trier.

É incrível como tudo conspira ao favor de Dogville. Ainda com um valor textual e interpretativo impagável e absolutamente genial, temos em campo um elenco pra lá de fera e uma equipe técnica liderada pela bravura. A única frase que me vem à mente é: "como não amar Dogville?". Mesmo que tenha uma atmosfera teatral muito firme, Dogville, salvo algumas contribuições técnicas, digamos "raspando", é cinematográfico. Por exemplo, acredito que nenhuma peça poderia ter a grande contribuição do norueguês Anthony Dod Mantle, cuja fotografia é maravilhosa. Não que eu diga que é impossível, logicamente, mas os efeitos da fotografia de Dod Mantle certamente não teriam a mesma reação numa produção teatral (muito obviamente, tá na cara).

A edição, a direção de arte, e enfim... Talvez os cenários, do ofício da direção de arte, bem lembrem um teatro, e talvez por isso é que tanto se saiam bem. O elenco de Dogville, que vai da premiada e famosa Nicole Kidman à uma das musas de Bergman, Harriet Andersson, é brilhante em todos os ângulos possíveis. Começo falando de Kidman, cuja performance me impactou por todo o filme e, em certos momentos, me emocionou bastante. Paul Bettany engana muito pouco, mas não deixa de ser um bom ator, e sua performance permanece intacta. Patricia Clarkson se sai muito bem apesar de estrelar tão poucas cenas, sendo ainda uma coadjuvante. Chloë Sevigny e Stellan Skarsgard estão também ótimos.

Dogville, de suas três horas, rende cada segundo. Lars Von Trier, mais polêmico, triunfal e imperdível do que nunca. Muito fiel à condução dos elementos, e aos traços que vão automaticamente construindo o roteiro do filme. Como era de se esperar, Von Trier conclui mais outra obra marcante, um drama que possibilita uma porção de indagações, dignas de barulhentos aplausos. Dogville resume-se em uma experiência delicada, tocante e muito, ferozmente excepcional.

P.S.: Muito em breve tentarei procurar o documentário Dogville Confessions, sobre o filme, que relata as filmagens do longa e as reações do diretor e do elenco. Vi um trecho faz tempo, mas infelizmente perdi a talvez única oportunidade de vê-lo. Aguardarei indicações nos comentários.

Dogville
dir. Lars Von Trier - ★★★★★

sábado, 25 de julho de 2015

Crítica: "À FRANCESA" (2003) - ★★★


À Francesa, por um lado, pode ser um filme bem tosco, mas pelo outro é sensato, intenso, simpático, bem-contado e belíssimo. Se, de tudo, não conseguiu agradar nem um pouco a crítica em seu lançamento (o filme, que relata de modo forte e profundo a relação entre franceses e americanos, não foi bem recebido à altura, lembrando do conflito que França e E.U.A. travaram devido ao 11 de setembro no tempo), pelo menos não é tão enfadonho quanto eu pensava que seria, na questão da história, que pelo enredo já soa demais problemática - o que, para a minha surpresa, não é, não -. Afinal, é doce, tenro, gostoso de se ver. O filme oscila entre o drama e a comédia, mas a todo instante, mesmo em cenas tensas, a pureza e a beleza da vista não deixam de ser radicalmente apreciáveis e enternecedoras. 

Descartado em Cannes, mas aceito em Veneza, este filme, pelo incrível que pareça, se salva do cansaço e da mesmice, e do possível fracasso, ao dissolver minuciosamente as diferenças existentes entre duas culturas tão distintas de uma forma que não é ao certo nova, mas também não é nada tão ruim como muita gente andou protestando por aí. À Francesa, logicamente, não tenderá a agradar todo um público da mesma forma. É um filme que, sim, depende do olhar. Desastroso? Devagar? Inútil? Decepcionante? Perda de tempo? Que nada. Desculpa velha de quem não entendeu ou não teve a intenção de interpretar os objetivos da narrativa por preconceito ou falta de aptidão. Bem, como eu mesmo disse: nem todos gostarão de À Francesa.

Até eu entrei no ritmo, já que detesto Kate Hudson, mas aqui a graça da bela atriz é inegável. E de Naomi Watts, então, nesse papel delicado e bem sutil, que carrega a melhor atuação deste filme, que possui um grande número de estrelas. À Francesa conta a chegada de uma moça americana, chamada Isabel Walker, em Paris, que está na cidade para cuidar da irmã grávida, uma poetisa chamada Roxeanne, e também para encontrar um trabalho. No dia de sua chegada, Isabel descobre que o parceiro de Roxeanne está a deixando por um motivo desconhecido. Isabel tenta reanimar a irmã, enquanto ela permanece tristonha e tensa o tempo todo, ainda mais quando descobre que o amado sacana armou um plano com o advogado para tirar dela uma valiosa pintura.

O maior e fatal erro de À Francesa é o roteiro de Ruth Prawer Jhabvala, vencedora de dois Oscars por trabalhos anteriores com James Ivory, diretor de épicos fabulosos como Vestígios do Dia e Retorno a Howard's End. O roteiro, enquanto apresenta inúmeras falhas, quão absurdas, ainda sim comete o inaceitável desfeito que coloca o próprio roteiro na frente do público, como se o público fosse uma opção descartável para o roteiro, e que ele não dependesse da compreensão do público para a sua própria compreensão. À Francesa faz questão de deixar tudo mastigado por nada. Nesse ponto, o filme perde a graça, por que o conflito abandona a oportunidade de submeter-se à dimensões maiores. Ruth, aqui em À Francesa, autoria um trabalho deteriorado e repleto de imperfeições. Embora tais erros acometam na resolução final do roteiro, as sacadas criativas que Ruth introduz durante o filme, como forma de lesionar ainda mais a aproximação cultural entre França e Estados Unidos, são simplesmente geniais.

Sem fazer um filme desde 2009, James Ivory conquista o coração e dança com nossas emoções num tango agitado e contorcionado neste filme lindíssimo. À Francesa, embora não seja um filme femininista, chega bem perto de tal identificação, já que é mesmo um filme destino à plateia feminina. A aventura das irmãs numa Paris romântica e encantada apenas tende a aumentar tal destinação. O público masculino, bonachão, achará de À Francesa um filme besta, ruim, sem quaisquer perspectivas de sua própria história, e ridiculamente meloso - o que é uma baita mentira -. Por um lado, o público feminino, aceitará sem reclamar os segmentos preenchidos pelas paisagens francesas líricas e audaciosamente versáteis, e por sua vez criará certo laço de reconhecimento com as personagens principais, seja com Isabel ou com a Roxeanne. O certo é que as damas apreciarão a bom porte À Francesa. Meu conselho aos machões em particular é que procurem uma obra de Sergio Leone para substituírem por À Francesa, por que o tempo de vocês será perdido em tal sessão. À Francesa, no entanto, apesar dos erros fatídicos do roteiro, possui performances plausíveis e acalentadoras, em especial a da Naomi Watts, aqui mais linda e triunfal do que nunca, e uma direção dedicada, embora não seja perfeita pelas inadequações, de James Ivory, e não deixa de ser em nenhum momento um bom filme, que emociona, faz rir e encanta. Só digo uma coisa sobre como achei À Francesa: não foi nem um pouco fácil. Por uma sorte lascada, cuja até agora me é totalmente bizarra, achei esta cópia de À Francesa dando sopa numa banca de jornal, pouco tempo depois de ter procurado o filme para ver em torrent. Pois é... A coisa é do mal!

À Francesa (Le Divorce)
dir. James Ivory - ★★★