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sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Crítica: "SULLY – O HERÓI DO RIO HUDSON" (2016) - ★★★★


Hoje eu vou falar um pouquinho sobre uma das estreias mais imperdíveis do ano que eu tive o prazer de conferir essa semana com exclusividade, a pouco menos de algumas semanas para que o filme entre em cartaz aqui no Brasil. Sully – O Herói do Rio Hudson é o mais novo filme de Clint Eastwood. Como diziam as expectativas, eis mais um sucesso estrondoso desse cineasta celebrado que dificilmente erra a mão.

Neste filmaço, Tom Hanks (em uma performance magnífica) vive Chesley Sullenberger, um piloto que ficou famoso mundialmente após ter feito uma aterrissagem improvisada em pleno rio Hudson, em Nova York, no ano de 2009. O filme relata a pressão enfrentada por Sully ao ter que encarar as investigações em cima desse evento milagroso. Enquanto tido como um herói pela população e por aqueles que salvou, Sully sofreu acusações de ter forjado a falha nas turbinas.

E se Sully fica aquém do sucesso anterior de Eastwood, o maravilhoso Sniper Americano, certamente merece ser reconhecido como um de seus trabalhos mais instigantes e motivados atualmente, um destaque em uma filmografia repleta de obras. Pra quem é fã do trabalho do diretor, a boa notícia é que Sully deverá agradar principalmente a quem está mais próximo do estilo do cineasta e dos elementos de seu cinema. Clint lança um olhar crítico e ácido sobre a influência da mídia americana na vida das pessoas e às irregularidades nas investigações de companhias aéreas.

Centralmente, Sully é sobre o homem comum que se depara com uma realidade completamente diferente de tudo que ele jamais pensou. Da profissão que rege com amor, surge a fama, a pressão e a inconstância. Tudo o que vemos em tela é essa desesperada luta de Sully para voltar à vida normal, à "rotina" de sempre, se livrar daquelas acusações infames e voltar para a casa, para a sua família. Voltar a ser um homem comum.

O curioso é que o "momento de fama" de Sully é retratado com bastante conformidade, sem que haja intenção de horrorizar toda a repercussão do caso e a fama nacional do piloto. Na grande parte dos planos, vemos um Sully cansado, abatido pelo acidente, ainda chocado, assustado. A exposição à pressão da mídia e as investigações atribuladas trazem ainda mais cansaço e choque a um homem que acabou de passar por uma experiência muito delicada, traumática de sua vida, e que não está conseguindo se recompor.

Aaron Eckhart, que atua ao lado de Tom Hanks como o co-piloto, está em uma atuação maravilhosa. Indignado e revoltado com toda aquela situação, o rapaz não se cansa de repetir que "as investigações não servem para nada" e que "Sully é um herói, não o culpado da história", num contexto que adere à fama popular do piloto naquela época como o cara que salvou mais de cem pessoas de um terrível acidente, e que é julgado posteriormente por fraude. A América dos justos nos dias de hoje.

A fotografia excelente de Tom Stern aposta em tons pálidos, cinzas e escuros para traduzir a seriedade e o impacto de toda a situação que cerca e amedronta Sully, a ameaça invisível de um acontecimento tão inexplicavelmente bem-sucedido e seu trágico oposto. A edição é caprichadíssima, até mesmo em algumas cenas mais discretas, como sequências de puro diálogo, há um trabalho de edição magnífico por trás delas.

Enfim, já digo que Sully é um dos melhores de 2016. A cada filme, Clint Eastwood demonstra e redemonstra a sua força por trás das câmeras ao assumir projetos decisivos e impactantes, de cunho moral elevado e potência técnica. O foco é a humanidade, o que há de mais humano em nós diante de conflitos e debates, seja com a nossa própria pessoa, com os riscos interiores ou exteriores. É mais um exemplar digno e plausível desse que cara que é um dos maiores diretores da história. Vejam!

Sully – O Herói do Rio Hudson (Sully)
dir. Clint Eastwood - ★★★★

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Crítica: "SOBRE MENINOS E LOBOS" (2003) - ★★★★


Dois crimes. Três meninos. Futuro destruído. Passado vingado. Na década de 70, a vida de Dave Boyle sofre uma grave reviravolta quando ele é vítima de um tenebroso sequestro que, mesmo depois de trinta anos reflete no seu comportamento introvertido e personalidade problemática. Enquanto brincava ao lado dos dois amigos da vizinhança Jimmy Markum e Sean Devine, Dave foi interrompido por um carro e um homem que dele saiu, afirmando ser da polícia, deixando distintivo e algemas à mostra. O pobre garoto, sem o que fazer, obedece ao pedido do misterioso homem: entrar num carro, onde ele o conduzirá até sua mãe e a comunicará do delito cometido por ele, já que o mesmo estava terminando de escrever seu nome num cimento recém-posto com os amigos. Depois daquele dia, Dave nunca mais voltou a ser o mesmo. Aquele Dave havia morrido. O reencontro desses garotos é flechado por um bárbaro crime, que afeta Jimmy, o antigo líder do grupo.

O suspense em Sobre Meninos e Lobos é fermentado com uma delicadeza tão próspera e minuciosa que não é de se estranhar que o filme tenha conquistado um prematuro legado tão facilmente. Clint Eastwood, filmando mais uma vez o impetuoso universo em que habitamos, é brilhante, e faz a platéia se comover diante de uma de suas obras mais pesadas, bem filmadas, inteligentes e eficientes. Sobre Meninos e Lobos busca o menino e o lobo dentro de cada um de nós, preparando um ágil jogo que nos engana e nos entretém. É a mais pura reflexão já realizada por Clint, até hoje, sobre o devastador efeito do destino, e suas fatais consequências nas vidas de seus envolvidos, executados um por um na guilhotina da verdade. O poder que nos é instruído às vezes não corresponde, ou tem o azar de chegar atrasado e vincular um final diferente.

Se lá no fundo não é o melhor do Clint Eastwood, pelo menos Sobre Meninos e Lobos articula bem um roteiro profundo e excelentemente dramático, assinado por Brian Helgeland, e faz bom uso de uma turma de atores simplesmente fenomenal e imperdível, sob qualquer perspectiva que tal definição possa oferecer. Sean Penn é magistral, tenso e bem trabalhado como nunca, sem querer titular Sobre Meninos e Lobos como seu melhor trabalho no cinema, mas que sem sombra de dúvida não fica nem um pouquinho pra trás, na pele do conturbado James Markum, que revoga o mundo ao redor e suas forças quando fica ciente da morte de sua filha mais velha. O intenso Tim Robbins, nesta que é a melhor interpretação que sua carreira já nos proporcionou, uma vez que já é um pouco raro ver o ator em tela, ainda mais na atualidade, e numa pérola dessas não ousaria descartar a chance de parabenizá-lo por seu extraordinário talento e a incrível montagem e preparação que ele impôs a seu problemático personagem, um pai de família assombrado por um cruel passado. Quanto ao Kevin Bacon, não tenho o que dizer sobre ele não. É uma hora ou outra, por exemplo na cena da interrogação, que ele realmente merece ser destacado, até porque até agora me pergunto que diabos estavam pensando ao colocá-lo aqui, e talvez ele mesmo seja o particular e singular pesar do elenco. Laura Linney e Marcia Gay Harden comandam o núcleo feminino com uma singeleza versátil e que é difícil de expressar com palavras, já que é bem difícil vermos personagens femininas e suas atrizes tão bem entonadas em filmes do Clint. Não podemos esquecer do Tom Guiry, rapaz cujo papel também é estremecedor, ainda que só seja visto em poucas cenas.

Tomando como partida um cenário em comum (o antigo bairro), personagens intercalados entre si, seja laços de família ou provenientes do pretérito (o trio Sean, Jimmy e Dave), e uma complexa ligação entre esse trio e outros personagens ao redor, por sua vez pregados uns aos outros por capítulos que vão sendo relevados pouco a pouco dentro da trama, Eastwood faz do filme não só um thriller potente e que não dá ao espectador o privilégio de respirar por um segundo, quem dirá mover os olhos para outro lugar senão direcionados à tela, mas também dá um pouco de liberdade para que o roteiro de Brian vá construindo o filme sozinho, tanto que é visível que não há uso de flashback, excedendo um na sequência inicial e próximo do fim. Isso evita que o clima seja partido, e apenas alimenta nosso prazer e ansiedade em reunir as peças dessa grande conexão e então poder compreender o ver do filme, o que não depende apenas de uma grande sacada final, mas também de algumas pistas que vão sendo, de fininho, liberadas. É tudo uma questão de atenção e paciência.

Sobre Meninos e Lobos dialoga sobre o passado, e como ele é onipresente e importantíssimo para o trio, de diferentes formas. O sequestro na infância para o Dave, a prisão e alguns pequenos fragmentos instalados em torno desse plano para o Jimmy, e o afastamento da mulher, que permanece até o fim sem respostas, para o Sean. Outra coisa interessante é a forte sede por vingança que preenche o enorme vazio instalado em Dave e Jimmy. Enquanto um busca a redenção através da libertação de uma vítima, o outro procura limpar seus pecados com o sangue de quem lhe causou tanto infortúnio. Seus caminhos, nessa passagem, se cruzam, como um simultâneo piscar de olhos. Porém, aqui (mérito novamente para o essencial roteiro, que é adaptação do romance Mystic River, de Dennis Lehane) há uma estratégia muito bem arquitetada no intuito de evitar a vulnerabilidade e falta de sentido no final. E o caminho encontrado para unificar de vez as peças soltas da trama não muda em nada a percepção quanto à competência da construção. O Clint cria um clima perfeito, obscuro e perverso, e atinge o máximo na exploração marcante da tragédia dentro da história, auxiliada pela fotografia do Tom Stern e a excelente edição do Joel Cox. Gostei muito de Sobre Meninos e Lobos, ainda que tenha ficado desapontado com relação a certas coisas. Sinto que, de alguma forma, o capítulo final, mesmo que glorioso e bem-feito, não consegue compensar por completo o desfecho. Há um desencontro. Achei que ficaria mais chocado, impactado, do que fiquei. Faltou muito pouco mesmo.

Sobre Meninos e Lobos (Mystic River)
dir. Clint Eastwood - ★★★★

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Crítica: "ALÉM DA VIDA" (2010) - ★★★★


Está longe de ser um grande longa do velho Clint, mas é um trabalho maior na carreira dele e não só apenas por isso merece respeito. Trata-se de uma das únicas concepções cinematográficas que eu já tive a oportunidade de ver que é totalmente convincente abordando um assunto complicado e bem divido. Nunca pensei que Clint Eastwood me faria duvidar do meu ateísmo incontrolável, mais uma vez. Encarar o vazio que todos nós estamos destinos ao fim deste jornada é demais melancólico e abalador, mas de vez em quando é bom fugir da realidade e abusar de novas experiências, na busca de um novo significado. E não mentirei não: apesar de ainda continuar cético após a sessão, Clint mostra seus poderes de ilusão mais uma vez numa história espírita profunda e muito tocante, que é capaz de levar qualquer um aos prantos. 

Na verdade são três distintas histórias, unidas por um laço triangular entre os três personagens protagonistas: uma jornalista francesa, um vidente ocasional americano e um garoto inglês, cuja mãe, apesar de amar a ele e seu irmão gêmeo, é uma viciada em drogas. Logo na cena inicial a jornalista, na Tailândia, vivencia um catastrófico tsunami, onde, após ficar morta por um tempo, retorna à vida. O vidente, que vive em São Francisco, teve uma doença na infância e morreu durante uma cirurgia, mas voltou à vida. O menino enfrenta a perda súbita do irmão e procura ajuda espiritual, na esperança de contatá-lo. Três diferentes vidas. Um só destino. 

Embora a religião católica seja abordada pelo diretor de diversas maneiras em sua variadíssima filmografia, que de uns tempos pra cá foi se concretizando em sensíveis e intensos dramas de sucesso, como o vencedor do Oscar Menina de Ouro e Sobre Meninos e Lobos, é a primeira vez que o diretor lida com o espiritualismo, nu e cru. Mais uma vez com sucesso. Além da Vida está em algum lugar entre um de seus antecessores, Gran Torino, cuja força dramática não demorou para me deixar completamente maravilhado, e A Troca, que teorizou bastante sobre a perda em seu magnífico roteiro. Creio que aqui também não se ausenta características de Menina de Ouro, uma vez lembrando da relação conflituosa entre o padre e Frankie Dunn. 

Em Além da Vida não vi sequer uma gota de sangue à exceção da cena do acidente, o que talvez possa ser bem estranho para alguém do gênero de Clint Eastwood, cuja filmografia, mesmo distinta, não dispensa a presença de violentos choques e uma tensão acentuada - aqui também ausente -. E se por um lado Além da Vida apresenta esse Clint mais "suavizado", apostando certeiramente num drama carregado por uma fotografia desoladora (Tom Stern) e uma linda trama com mensagens emocionantes, o mestre continua genial, ainda sim deixando de lado tiro, porrada e bomba.

E que venha mais filmes dele do mesmo patamar de Além da Vida, e ainda maiores do que este. Filmes convincentes, firmes e que não desistem de tocar o espectador, deixar o recado. É até uma forma do diretor de simbolizar nossos preconceitos em relação ao assunto, como muitas vezes descartamos importantes posições diretamente relacionadas à religião, e como somos juízes da nossa própria ignorância... É preciso saborear a ideia para sentir de perto o que Além da Vida tenta nos comunicar. Não seria incrível poder contatar entes queridos, já falecidos? Ou então parentes que nem ao menos nós tivemos a oportunidade de conhecer bem, o que não falta pra mim. Embebido da ilusão, é até crível confiar em tais circunstâncias. Chega a ser mágico. 

Matt Damon, que estava em Invictus, retorna melhor aqui do que estava no longa anterior, em boa forma e praticamente intacto, exibindo sua positiva química com Eastwood, que funcionou muito bem em ambos os filmes. A excepcional participação de Cécile de France mexe muito também. Bryce Dallas Howard, que aparece em poucas cenas, brilha à seu jeito. A trilha sonora assinada por Clint Eastwood, primorosa como sempre. O rico roteiro original de Peter Morgan. Chega a ser interessante ver como Além da Vida foi rapidamente esquecido, e como se trata de um grande trabalho do cineasta, mas que não soube ser aproveitado pelo público com o tempo. Além da Vida me fez pensar e re-questionar o sentido da minha existência, que tanto venho investigando e tentando encontrar as respostas corretas, e confesso que até agora não obtive muitas. O melhor é aproveitar a vida, enquanto tudo continua bem controverso e é impossível ficar de um lado sem se preocupar em estar no outro. As possibilidades são inevitavelmente infinitas. Ver Além da Vida, esse show de humanidade imperdível, ajuda a acalmar, e evitar a (maioria) desnecessária tensão. É bom saber que não estamos sozinhos. 

Além da Vida (Hereafter)
dir. Clint Eastwood - 

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Crítica: "GRAN TORINO" (2008) - ★★★★★


Por influência dos velhos tempos do western, talvez, os filmes e até mesmo o caráter de Clint Eastwood nos lembram um jeito bem durão, machão de ser, mas neles concentram-se, mais intensamente, os elementos de uma sensibilidade ávida e emocionante. Gran Torino e Menina de Ouro são os melhores exemplos da filmografia bem sentimentalista de Clint, recentemente preenchida por produções aclamadas como Além da VidaA Troca e Sobre Meninos e Lobos. Mas um inevitável destaque, e um dos maiores, da filmografia deste nosso velho patriota amigo é Gran Torino. A experiência de vê-lo é por demais grandiosa e impressionante. Clint começa com o típico ranzinza, mas, com o passar do tempo, vai "amadurecendo" e deixando essa rígida posição pra trás, enquanto ao mesmo tempo prova sua compaixão em um ato desolador. Chorar, ao final de Gran Torino, não é uma missão nada impossível. Vou parar bem por aqui para evitar spoilers.

Pode parecer bem avesso e meloso o que digo e direi sobre Gran Torino, mas é a verdade, e mesmo que pareça, visto o filme o contrário se mostrará. Fazia um tempão que eu tava querendo ver Gran Torino. Passou mil vezes na TV, eu tenho o próprio DVD, e nunca tinha assistido. Decidi vê-lo hoje, em minha folga. E eu gostei muito. É um drama bem pesado, mas talvez seja o primeiro grande filme de Clint Eastwood onde seu protagonista revoga seu patriotismo e dá boas-vindas à aceitação das diferenças culturais. Inicialmente a ideia era bem ambiciosa, já que até então era praticamente negável ver Clint fazendo algo do gênero. Mas ele foi lá e o fez. Embora seu personagem proteste a todo momento a favor do patriotismo, com bandeiras nacionais enfeitando a fachada de sua casa e tudo o mais, além mesmo da própria participação desse personagem na Guerra da Coréia, o que fala mais alto aqui em Gran Torino é essa predileção inter-racial, em nome das diferenças culturais, algo que muito é simbolizado de diversas maneiras neste filme.

Clint encarna Walter Kowalski, um veterano da guerra que passa seus dias solitário, sem se ocupar de nada. Com a morte da esposa, ele se vê obrigado a aceitar a nacionalidade de seus novos vizinhos, que são asiáticos. Confrontando o passado, e lidando de uma maneira bem cruel com o presente, Walt, como é chamado, vai aos poucos se adaptando com a presença dos vizinhos, e até vai se familiarizando com um jovem anti-social chamado Thao, descendente de Hmongs. Thao, que já tentou roubar o carro Gran Torino de Walt para entrar na gangue de seu primo, inicialmente é rejeitado pelo velho, mas que, depois de alguns favores e um pedido de desculpa forjado por sua família insistente, que obrigou Walt a dar tarefas para Thao, que é bem bondoso e afável, os dois, bem lentamente, criam laços afetivos, e vão construindo uma relação. O grande problema são as gangues, que passam a interferir na vida de Thao e seus familiares. Isso causa fúria em Walt, que busca uma limpa vingança, enquanto Thao, depois de um trágico episódio, apenas quer terminar de vez e executar a vingança da mais horrível forma possível.

Em Gran Torino, vemos a presença da religião, aqui o catolicismo, como chave para a salvação, o que novamente me remeteu à Menina de Ouro, uma vez que o treinador Frankie Dunn vivia se consultando com um severo padre, algo que muda aqui, já que Walt passa a ser uma tremenda pedra no sapato do padre Janovich, já que ele rejeita firmemente a tarefa que lhe é designada pelo padre, de se confessar. Walt, que não é tão religioso assim, não muda de opinião tão facilmente, e ignora a promessa da falecida mulher, que queria que o marido se confessasse. Walt é assim com todo o mundo em Gran Torino. Até temos a sensação de que o padre é o personagem que ele pega mais leve nessa questão, apesar de, numa cena, ele ter respondido à ele com uma valentia quase reprimível. 

Gran Torino também explora, além dessa difusão de culturas (Walt é metade polaco) a parceria pouco comum hoje entre idosos e jovens, mas que é existente, apesar de tudo. Até numa cena é possível ver a reação de Walt ao descaso dos mais jovens com a terceira idade, com uma senhora pedindo ajuda a um pequeno grupo de adolescentes, depois que suas sacolas caem no chão, e eles passam a zombar dela, sem mais nem menos. Nesse mesmo conflito, vemos a noção caridosa de Thao, quando o mesmo vai até o local ajudar a idosa a carregar as suas compras. A face de impressão de Walt é bem evidente. E essa relação vai costurando o filme, dando gosto, e temperando a conexão dos pontos. Velhos e novos, grandes e pequenos. Isso meio que acalenta Walt, e nos lembra muito de um relacionamento avô-neto, que Walt nunca pôde ter, já que não tem um pingo de afinidade com os netos, que vivem afastados dele, e também o ignoram.

A trilha sonora, da autoria do próprio Clint, que também compôs e cantou a bela canção final "Gran Torino", é excepcional. A fotografia de Tom Stern, o mesmo de A Troca, reproduz o clima ácido e tenso da jornada de Walt. O roteiro, do iniciante Nick Schenk, é brilhante e absolutamente marcante. Abordando com muita seriedade a trama e os conflitos ao redor dela, com um final desesperador e triste, o roteiro é um trabalho digno e bem-feito. A montagem de Joel Cox e Gary D. Roach é muito boa, também. E o elenco, bem internacionalizado por conta do núcleo asiático, simboliza mais uma performance de sucesso de Clint Eastwood, tão forte e memorável como nunca, é o que move Gran Torino, essa obra precisa e absolutamente linda. Carrega consigo um significado tão profundo, que descrevê-lo torna-se desnecessário, uma vez que tal excelência é indescritível!

Gran Torino
dir. Clint Eastwood - 

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Crítica: "SNIPER AMERICANO" (2014) - ★★★★


Sinceramente, não vejo o por que de implicar com o patriotismo de Clint Eastwood. O que salvaria a obra toda dele senão seu patriotismo? Que mania. Deixa o tio Clint viver a vida em paz, estampando bandeiras americanas nos posters de seus filmes. Ouvi (e vi) muita gente criticando sua mais recente obra-prima. Sniper Americano é maravilhoso. Mais um filme de destaque para a carreira de Eastwood, um professor de história que a cada aula torna-se mais eficiente e vitorioso. Para aqueles que se "enojaram" de Sniper Americano, apenas saibam que não viram nada para alguém que já dirigiu outras obras bem mais pesadas do que estas, como Os Imperdoáveis e J. Edgar. De fato, é controverso e apológico, mas seu significado vai bem além destas proporções preconceituosas dos espectadores dele.

Chris Kyle é o maior franco-atirador do exército americano de todos os tempos. O "mito" da Guerra do Iraque, Kyle matou mais de 150 pessoas dentre crianças e mulheres durante sua jornada no Oriente Médio. No filme, ele é um herói. Capaz de atropelar a própria família para salvar sua honra, Kyle é um mito, talvez, questionável. Não é possível que tudo no filme seja real. É bem provável que o tio Clint ajudou com um pouco de ficção para quebrar a imoralidade do personagem e da história. 

Sniper Americano, para muitas pessoas, pode ser uma completa confusão. Pra mim, foi fácil compreende-lo por que a experiência que ao público é mostrada já foi vista em muitos outros filmes, não só de Clint. Quem conhece o cineasta de perto vai se lembrar (sim) de Gran Torino. Não vejo muita diferença entre esse sniper americano com o ranzinza e frio veterano da Guerra da Coréia memoravelmente interpretado pelo diretor em 2008. Há cenas que me lembraram muito Guerra ao Terror, apesar do drama de Katheryn Bigelow ser bem mais profundo e amplificado do que este quando o assunto é "falar da guerra".

Aliás, há quem diga que Chris Kyle é só mais um personagem assemelhável a todos os outros mais de filmes anteriores dele: Frankie Dunn em Menina de Ouro; Will Munny em Os Imperdoáveis; J. Edgar em J. Edgar; Jimmy em Sobre Meninos e Lobos; Todos os filmes de Clint tem um pouquinho (e um tantão) de patriotismo. E só alguém bem pobre de conhecimento sobre ele para dizer que Sniper Americano é uma película inferior. De modo algum. 

Se alguém aqui que merece ser reverenciado e aplaudido por seu trabalho é Clint. E Bradley, afinal, ser indicado pela terceira vez consecutiva ao Oscar não é para qualquer um. Bradley Cooper é um dos atores mais badalados dos últimos tempos. Desde sua indicação em 2013 por O Lado Bom da Vida, o mesmo conseguiu outras duas até agora: Ator Coadjuvante por Trapaça e novamente Ator Principal por Sniper Americano. Mesmo tendo tomado o lugar pertencente à David Oyelowo (Selma) ou Jake Gyllenhaal (O Abutre), o desempenho de Bradley neste drama é igualmente impecável se comparado às duas performances citadas acima. 

Além de responsabilidade, Bradley mostra certa maturidade e envolvimento neste filme mais do que os outros dois pelos que recebeu suas duas primeiras indicações ao Oscar. Esforçado e digno, Bradley é insuperável neste filme. Sienna Miller também tem seus momentos como coadjuvante, mas não chamou minha atenção tanto quanto Bradley. 

Clint e o roteirista Jason Hall se esforçam para manter fiel o filme à vida de Chris Kyle. Não tive a oportunidade de ler a autobiografia que baseou a película, à venda na Livraria Cultura, por isso, não posso realmente dizer que tudo o que foi apresentado em Sniper Americano é o que realmente aconteceu, mas como já falei antes, a presença de elementos ficcionais aqui é basicamente existente. Se fosse uma ficção, talvez não gerasse tanto conflito quanto gerou. Mas a questão aqui, o que ainda quase ninguém principalmente conseguiu perceber, não é a moralidade que muitos buscam sem vitória, mas sim o retrato da influência e a natureza da guerra na vida das pessoas que atentamente acompanharam o doloroso e triste 11 de setembro. Mas, se no fundo a reflexão surgir: não foi algo justo o feito dos americanos contra os terroristas? Afinal, vamos lá Beatrix Kiddo: "a vingança é um prato que se come frio". A maioria das pessoas ignora essa possibilidade e apenas encaram a consequência como dado. É recomendável conhecer um pouco sobre a história realantes de assistir ao filme, que além de proporcionar instantes de tirar o fôlego, quão perplexos, ainda é uma instigante aula de história. E Clint, mais uma vez, mantém seu legado e importância para o cinema.

Sniper Americano foi indicado ao Oscar em Melhor Filme, Melhor Ator (Bradley Cooper), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Edição, Melhor Mixagem de Som e Melhor Edição de Som.

Sniper Americano (American Sniper)
dir. Clint Eastwood -