Apesar da maior parte das críticas ao filme terem sido negativas, o filme possui seus méritos. Até que Michael Shannon como Elvis Presley é interessante de se assistir, e o Kevin Spacey como Nixon não está tão mal. Acho que é um filme que peca no andamento, mas, apesar disso, caminha com uma premissa bem-resolvida, enxuta e satisfeita com uma dinâmica sutil, contida. O filme no geral é morno, porém tem uma sequências bem legais de se assistir, e a premissa do encontro entre essas duas figuras tão marcantes da década de 1970 é bastante curiosa.
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terça-feira, 4 de julho de 2023
sábado, 17 de março de 2018
Alguns filmes da semana
Como escrever no blog está se tornando uma tarefa mais rara, decidi atualizá-lo semanalmente com curtos comentários sobre os filmes vistos durante a semana (e geralmente meus comentários também podem ser acompanhados no meu letterboxd).
Veneno (Poison, Todd Haynes, 1991) ★★★★
Primeiro filme do cineasta Todd Haynes. Uma delícia. Praticamente é como se fosse Sem Fôlego só que com três linhas de narrativa distintas intercaladas que não compartilham conexões diretas umas com as outras, embora pareçam dividir da mesma intensidade e energia ao longo do filme. Interessante é que este trabalho foi influenciado por trabalhos do escritor francês Jean Genet. Provocativo, forte e necessariamente pesado: foi um ótimo prólogo para o mestre que Haynes se tornaria alguns filmes após este. Escolhi (sem saber) uma cópia VHS e me surpreendi com o quanto isso ajudou na atmosfera perversa e bizarra do longa. Há também alguns aspectos de filme de horror, evocados em diversos momentos tensos da trama, o que influencia no fato do filme ser, no geral, um tanto incômodo quando trata da liberdade sexual, do aprisionamento, dos limites aos quais somos impostos e o quanto sofremos por eles. O impacto foi demasiado. Há grandes atuações, uma trilha inspirada e, é claro, uma condução de deixar qualquer um fora de si.
The Fits (Anna Rose Helmer, 2016) ★★★½
É muito interessante e mais interessante ainda é que se trata de um filme de uma diretora estreante. Os níveis que a mise-en-scene atinge são desnorteantes. E ainda mais quando se tem em cena uma atriz mirim tão talentosa como a Royalty Hightower, cuja brilhante atuação, na pele de uma menina que fica dividida entre as lutas de boxe e as aulas de dança no centro em que frequenta, foi tão pouco reconhecida (como o próprio filme que, embora tenha caído nas graças da crítica, teve pouca divulgação e quase ninguém fala sobre). Transita entre uma diversidade de elementos dramáticos mas nunca perdendo o próprio ritmo que a história carrega. E mesmo numa variação tão limitada de espaços, o balanço dramático e espacial que a diretora encontra é riquíssimo. Dos maiores destaques do cinema indie americano recente.
A Garota do Café (The Girl in the Café, David Yates, 2005) ★★★
Filmezinho simpático esse. Talvez eu tenha gostado mais do que eu poderia prever. Especialmente por conta da química entre os atores principais, os ótimos Bill Nighy e Kelly Macdonald, aqui fazendo um par romântico bem atípico e gostoso de se observar. Eu posso entender as intenções do roteiro de Richard Curtis até por envolver certos pontos diplomáticos em seu contexto (um filme sobre um economista que trabalha para o governo britânico indo em uma cúpula do G8 e levando em sua companhia uma mulher que ele conheceu recentemente), mas parece que as respostas dadas parecem ser tão simples para questões tão complexas, embora seja nobre o quanto são humanas as mesmas intenções que esse roteiro desenha. Enfim, eu gostei. Serve mais como uma distração romântica do que como uma crônica política.
bônus:
Roads of Kiarostami (Abbas Kiarostami, 2006) ★★★★½
Achei este curta inédito de meia hora do nosso querido Abbas Kiarostami e me deliciei com tamanha simplicidade. Temos uma série de imagens (fotografias tiradas pelo cineasta em estradas, caminhos e paisagens que ele visitou) seguidas por uma narração do mesmo e uma trilha belíssima. É a perfeita definição do que cinema poético é. Mesmo com pouco, Kiarostami extrai desses simples gestos de combinar imagens, palavras e música algo tão forte e cinematograficamente poético que nossa única reação é ficar ali, parado, abismado e encantado com a disposição. É calcado na sutileza de um olhar, mergulhado na paixão de quem encontra numa fotografia o monumento para uma vida.
quinta-feira, 7 de dezembro de 2017
EU NÃO SOU SEU NEGRO (2016)
O ano está acabando e eu fiz uma lista dos filmes que estrearam no circuito e eu ainda não assisti. A lista é grande, infelizmente, pois foram muitos os trabalhos que eu perdi nos cinemas esse ano, e tive que apelar para outras plataformas, e falta relativamente pouco para que 2017 acabe. É então que a gente é surpreendido por um ou outro trabalho bem especial, que faz a gente repensar antes de fechar a lista dos melhores do ano (é nessa época que começam a sair as abençoadas), como foi o caso de Eu Não Sou Seu Negro, documentário que já estava na discussão desde a época do Oscar e foi bastante elogiado. Não estava esperando que fosse ser assim um filme tão estrondoso e forte, sobretudo importante.
A temática da opressão racial sempre foi muito bem trabalhada e abordada no cinema norte-americano, na voz de cineastas como Spike Lee e Charles Burnett, e mais recentemente Ava DuVernay, Barry Jenkins e Jordan Peele. Em 2016, foram destaques três documentários que trataram essencialmente dessa temática e que fizeram, cada uma à sua maneira e com precisões próprias, recortes da América e da opressão racial de diferentes perspectivas. O.J.: Made In America, que foi para a TV mas na verdade foi exibido como um filme de 8 horas, talvez seja aí o mais famigerado por ter ganhado o Oscar e aparecido em diversas listas (e, de fato, foi merecedor de toda a atenção, afinal, é uma obra épica do gênero documental), tratava do forte atrito entre a lei americana e a população negra durante os anos 90, num retrato desconcertante da ascensão e queda de O.J. Simpson, jogador negro de enorme popularidade e a acusação de um brutal assassinato que chocou a nação. A 13ª Emenda trata da história negra através do passado e do presente ao analisar a relação entre o sistema carcerário e a opressão. Os três formam um grande trio.
Eu Não Sou Seu Negro, junto com os dois documentários já citados, ganhou uma indicação ao Oscar este ano, mas perdeu o prêmio para o filme do O.J.. É um dos filmes mais poderosos do ano, trata da vida e da obra do aclamado escritor e intelectual James Baldwin, através de relatos e de materiais do autor discutindo a tensão nas classes raciais na sociedade americana no século passado e as complexidades na relação entre sistema e divisão racial.
O documentário explora um discurso muito interessante sobre esses quesitos através de uma abordagem bastante objetiva e direta de um trabalho não finalizado de James Baldwin (na leitura de Samuel L. Jackson) associando-o a um acervo riquíssimo e sabiamente editado. Sobre a liberdade, sobre um sistema doentio e uma época marcada pelo conflito de ideais e pela luta pelos direitos civis.
A sutileza da técnica e da organização do material abrem espaço para uma abordagem complexa dos temas que cercam esse passado e, ademais, também oferecem uma perspectiva fruitiva do trabalho de uma das grandes figuras representativas dessa luta, que é James Baldwin. Para aqueles que não conhecem sua obra, esta é uma boa chance de adentrá-la. Raoul Peck nos entrega um dos documentários mais autênticos, impactantes e relevantes dos últimos anos, sem dúvida. Um retrato de um país e de uma época de transformações, um grito urgente de liberdade, respeito e igualdade cujo eco ainda é ouvido nos dias de hoje, em que os ideais de igualdade defendidos por figuras como Martin Luther King, James Baldwin e Malcolm X continuam sendo clamados e reafirmados. Mais interessante ainda é como um trabalho sobre o passado pode dizer tanto sobre o nosso presente e o caráter de uma sociedade fragmentada e corrompida pela injustiça, medo e a falta de humanidade. O ódio é a tragédia da civilização.
Eu Não Sou Seu Negro (I Am Not Your Negro)
dir. Raoul Peck
★★★★
domingo, 12 de novembro de 2017
PERSONAL SHOPPER (2016)
Demorei a falar sobre o mais novo filme do cineasta francês Olivier Assayas, um dos maiores nomes do cinema contemporâneo mundial, esta preciosa obra que é Personal Shopper. Em Cannes, no ano passado, Assayas conquistou o merecidíssimo prêmio de melhor direção (mise-en-scène), conquista essa que foi bastante questionada até porque em 2016 a entrega dos prêmios do júri foi tida como controversa, vistas as inesperadas escolhas para filmes nem tão aclamados, e grandes filmes como Elle, Toni Erdmann, Aquarius, Julieta e Paterson saíram de mãos abanando. O caso de Personal Shopper é um filme justamente grande, que está entre os maiores destaques da edição (que foi, inclusive, uma das melhores em muitos anos no que diz respeito à seleção) mas que acabou sendo desprezado pelos críticos. É uma pena, pois trata-se sim de um filmaço, e com vários motivos para sê-lo.
Kristen Stewart interpreta a americana Maureen, a personal shopper de uma badalada celebridade, vivendo em Paris, que começa a ter estranhos contatos mediúnicos com seu falecido irmão gêmeo, que acaba surgindo para ela em diversos momentos, como se estivesse tentando dizer algo à irmã. A moça, que tem o poder de se comunicar com pessoas mortas, inicialmente parece estar assustada com esse seu dom, mas aos poucos ela vai passando a entender melhor os eventos que estão acontecendo ao seu redor. Stewart, que raras vezes esteve tão bem em cena, prova que é uma atriz de grandíssimo porte, e está incrível, hipnotizante, nesta que é a sua mais extraordinária atuação (e que é só uma previsão do que ela tem a nos mostrar daqui pra frente). E vale lembrar que essa não é a primeira vez que ela trabalha com o diretor do filme (em Acima das Nuvens, ela estava brilhante, ganhou vários prêmios e quase chegou ao Oscar, pra quem não se recorda).
Assayas capricha na construção atmosférica do seu filme, temperada por uma tensão que torna os silêncios, ensurdecedores. Aliás, tensão é uma coisa muito bem administrada em diversas cenas do longa, mesmo sem se revelar prontamente, mas que está sempre ali, como se fosse o fio condutor desse ar sobrenatural do filme, como acontece na cena do trem, que deve ser uma das melhores do filme, onde a tensão concentra-se completamente na conversa entre Maureen e um "anônimo" no celular.
A personagem de Maureen em si é arquitetada com uma certa complexidade, mas ao mesmo tempo envolta no próprio espectro sombrio que tonaliza a trama. É como se fosse ela a entregue ao desfecho de uma trama cada vez mais vertiginosa. É muito curioso também quando o Assayas faz uma conexão entre o mundo dos fantasmas e a internet, talvez o filme seja mesmo sobre "coisas que não vemos mas que estão presentes", ou como a ausência pode ser uma maneira de estar presente, indiretamente, em algo, "a vida após a morte".
Por mais que muitos apontem este como um exemplar do gênero horror (o que parece muito lógico até por conta da temática do filme e do apelo comercial que um filme estrelado por Kristen Stewart pode fomentar as distribuidoras) mas pra mim é mais um filme noir do que horror propriamente dito. Muito digno comparar Assayas a um certo cinema hitchcockiano principalmente na forma como o gênero é trabalhado nos moldes da trama que investiga. É um jogo de suspense, e cada cena tem um certo valor nisso, nessa propriedade do thriller. Por mais que muitos considerem o noir um gênero morto, existem filmes dispostos a trazê-lo de volta ao primeiro plano do cinema, onde esse gênero já esteve, nos seus idos tempos de ouro, e Assayas se empenha justamente em catalisar o noir numa história sobrenatural sobre passado, descobertas, ausências, medos e recomeços, com um clima mais moderno e atual, mas sem deixar a pegada sinistra que sempre foi o grande "quê" do gênero morrer (e todo o seu universo). É essa relação de trazer o passado ao presente, os mortos ao mundo dos vivos, que rege Personal Shopper.
Personal Shopper
dir. Olivier Assayas
★★★★★
sábado, 11 de novembro de 2017
GIMME DANGER (2016)
Passou em branco este documentário de Jim Jarmusch sobre a famosa banda de rock The Stooges, Gimme Danger, pelo menos aqui no Brasil nem sequer tivemos a distribuição, e por isso tive que recorrer a meios alternativos pra conferir o tal filme. Trata-se de um documentário bastante razoável, possui uma estrutura bem convencional e típica, principalmente das produções americanas recentes, nem sei se é muito lógico ficar cobrando grandes coisas quando o documentário possui um ar bastante despretensioso e o que quer mesmo é trazer um pouco da memória da banda através de depoimentos espirituosos e um acervo no mínimo interessante, então explica-se, talvez, porque de terem optado por uma construção mais óbvia.
Vale ressaltar que o filme é basicamente a entrevista de Jarmusch a Iggy Pop, ícone do mundo do rock e líder da banda The Stooges, cuja carreira é traçada e recontada, também com foco nos demais integrantes do grupo, durante os anos 70, quando houve um estouro na produção da indústria midiática norte-americana, numa época marcada pela revolução cultural e grandes mudanças na sociedade do país. E o mundo da música também foi alvo de muitas descobertas e novas experimentações.
Eu, como conheço muito pouco do mundo do rock 'n roll (menos do que eu possa admitir) fiquei especialmente fascinado com a abordagem do documentário e principalmente as filmagens dos shows dos Stooges, e aquelas performances adoidadas e impressionantes do Iggy Pop, que se soltava (e como) no palco fazendo estripulias e impulsionando seu corpo em movimentos alucinantes. Por isso, quem gosta de rock, com certeza vai gostar bastante de Gimme Danger. É prato cheio pros admiradores do trabalho da banda e quem aprecia um bom trabalho de montagem documental. Este aqui é bem mais simples, bem à la Jarmusch, mas seu cuidado com o conteúdo, e o singelo carinho das entrevistas e do espírito selvagem e roqueiro do documentário em si, rendem elogios.
Gimme Danger
dir. Jim Jarmusch
★★★
LADY MACBETH (2016)
Os últimos dias foram um pouco turbulentos, muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo na nossa vida acaba fazendo com que a gente passe a dar mais atenção aos pequenos momentos de desfrute e prazeres simples entre outros sentimentos que na maioria das vezes nos fazem sentir muito mal em relação a nós mesmos, ainda mais quando estamos enfrentando uma situação delicada e que costuma exigir bastante da gente (sentimentalmente falando). É nessas horas que percebemos o quão importante é o cinema a ponto de, no mínimo, nos sentirmos gratificados por termos na arte um refúgio das agitações do dia-a-dia.
Eis que me surge este belo exemplar do cinema britânico, Lady Macbeth, de um cineasta de quem eu nunca tinha ouvido falar antes, William Oldroyd, e que já é um dos maiores destaques do ano. Muitas coisas me impressionaram em relação a este filme. A começar pela atuação de Florence Pugh, que está aí para ganhar muitos prêmios na awards season (bem próxima), que interpreta uma bela e jovem moça que se casa, a contragosto, com um homem bem-sucedido apenas por conta de seu renome, quando ele é, na verdade, vil e insolente. Os dois quase não se comunicam e não interagem entre si, o que acaba criando um inevitável distanciamento, até por conta das viagens frequentes dele. Numa dessas viagens, a moça acaba se relacionando com um capataz do marido, que acaba se tornando seu amante. Mas a história toma rumos inesperados, e várias pessoas acabam sendo afetadas pela relação da moça com o empregado, o que sucederá em mortes e intrigas.
É muito interessante observar esse trabalho com a influência de uma ótica Shakesperiana, é claro, de Macbeth, onde o personagem-título tem de matar várias pessoas influentes da nobreza para chegar ao trono e alcançar o poder, com a ajuda de sua infame esposa, a inescrupulosa Lady Macbeth, que o "encoraja" psicologicamente a cometer os assassinatos e até se infiltra em seus negócios para manipular o poder. Lady Macbeth apoia-se nesta mesma premissa, só que a personagem, ao invés de matar por poder, comete as mortes pelo amor entre ela e o empregado (isso pode soar romântico de primeira mão, mas a realidade é a mais anti-romântica e trágica que se pode imaginar).
É, sem dúvidas, um filme muito bem articulado e construído, destaque para o elenco estelar, com grandes performances de todos os lados (também é destaque Naomi Ackie, a empregada que acaba sofrendo pelos atos cometidos pela sua senhora) e uma narrativa extremamente meticulosa que parece ter o controle sobre cada pedacinho desta trama macabra. A fotografia também tem muitos momentos de ouro. Tecnicamente falando, é irreparável.
Oldroyd conduz seu filme com o mesmo tom trágico do começo ao fim, culminando todos os personagens a um destino trépido e insosso, costurando as tragédias pessoais de cada um ao nível quase coletivo, em que o deslize de um reflete na miséria do outro, e como cada ação acaba tendo uma reação, às vezes, bem mais forte e impactante no outro, como é o caso da relação entre quem está no poder e quem é comandando por este, a reação sempre recai ao último (e o desfecho deixa isso muito claro).
Execução primordial, com diversas sequências espetaculares e muito bem filmadas, Lady Macbeth não é filme para se perder.
Lady Macbeth
dir. William Oldroyd
★★★½
Eis que me surge este belo exemplar do cinema britânico, Lady Macbeth, de um cineasta de quem eu nunca tinha ouvido falar antes, William Oldroyd, e que já é um dos maiores destaques do ano. Muitas coisas me impressionaram em relação a este filme. A começar pela atuação de Florence Pugh, que está aí para ganhar muitos prêmios na awards season (bem próxima), que interpreta uma bela e jovem moça que se casa, a contragosto, com um homem bem-sucedido apenas por conta de seu renome, quando ele é, na verdade, vil e insolente. Os dois quase não se comunicam e não interagem entre si, o que acaba criando um inevitável distanciamento, até por conta das viagens frequentes dele. Numa dessas viagens, a moça acaba se relacionando com um capataz do marido, que acaba se tornando seu amante. Mas a história toma rumos inesperados, e várias pessoas acabam sendo afetadas pela relação da moça com o empregado, o que sucederá em mortes e intrigas.
É muito interessante observar esse trabalho com a influência de uma ótica Shakesperiana, é claro, de Macbeth, onde o personagem-título tem de matar várias pessoas influentes da nobreza para chegar ao trono e alcançar o poder, com a ajuda de sua infame esposa, a inescrupulosa Lady Macbeth, que o "encoraja" psicologicamente a cometer os assassinatos e até se infiltra em seus negócios para manipular o poder. Lady Macbeth apoia-se nesta mesma premissa, só que a personagem, ao invés de matar por poder, comete as mortes pelo amor entre ela e o empregado (isso pode soar romântico de primeira mão, mas a realidade é a mais anti-romântica e trágica que se pode imaginar).
É, sem dúvidas, um filme muito bem articulado e construído, destaque para o elenco estelar, com grandes performances de todos os lados (também é destaque Naomi Ackie, a empregada que acaba sofrendo pelos atos cometidos pela sua senhora) e uma narrativa extremamente meticulosa que parece ter o controle sobre cada pedacinho desta trama macabra. A fotografia também tem muitos momentos de ouro. Tecnicamente falando, é irreparável.
Oldroyd conduz seu filme com o mesmo tom trágico do começo ao fim, culminando todos os personagens a um destino trépido e insosso, costurando as tragédias pessoais de cada um ao nível quase coletivo, em que o deslize de um reflete na miséria do outro, e como cada ação acaba tendo uma reação, às vezes, bem mais forte e impactante no outro, como é o caso da relação entre quem está no poder e quem é comandando por este, a reação sempre recai ao último (e o desfecho deixa isso muito claro).
Execução primordial, com diversas sequências espetaculares e muito bem filmadas, Lady Macbeth não é filme para se perder.
Lady Macbeth
dir. William Oldroyd
★★★½
domingo, 29 de outubro de 2017
O ORNITÓLOGO (2016)
Talvez seja um filme mais curioso do que propriamente explicativo. Cria mais perguntas do que respostas, e isso não é necessariamente um problema para o espectador, como se cada enigma devesse ser respondido ali na hora. O Ornitólogo surge como um dos filmes mais fascinantes do cinema português recente, é destaque também seu diretor, João Pedro Rodrigues, ao "traduzir" para os tempos atuais a história de Santo Antônio, com o ator Paul Hamy interpretando um cara que está numa floresta estudando pássaros e acaba atravessando várias desventuras no caminho, se encontrando com duas mulheres orientais "sinistras" que o aprisionam, e também um estranho ritual que acontece ali naquele lugar. Não é exatamente um filme bizarro de se assistir, mas sim curioso, de uma curiosidade bastante energética, como se isso fosse o motor da trama, criar um certo interesse do público naquelas situações tão desnorteantes.
Se o cinema pode ser um veículo para essa "atração" entre o que é mostrado e a quem está sendo mostrado, toda essa intervenção, toda a relação que existe nesse meio, é uma proporção muito conveniente de estabelecer fixações, de criar relações entre filme e público, e nesse quesito João Pedro Rodrigues cria uma obra quase que fundamental nessa síntese, na complexidade desse relacionamento e do que pode surgir dele.
Pasolini está presente aqui, acho que não é segredo pra quem conhece o trabalho do diretor, e isso só torna a reforçar essa ideia de que a imagem contém uma sensualidade escondida, basta o próprio espectador adentrar o filme e redescobrir isso. O Ornitólogo, aliás, pode até não ter uma trama. Personagens que se encontram, situações esquisitas, figuras ainda mais esquisitas, é como se isso fosse o alimento da trama, o personagem principal caindo nessas armadilhas do destino.
A belíssima fotografia em scope não exatamente agrada por uma certa beleza, mas pelos ângulos inventivos, inusitados, pela captura das cenas, pelos enquadramentos ainda mais contundentes e alucinantes. Há, é claro, pitadas de comédia no meio de um suspense tão agridoce e ao mesmo tempo, desconhecido. Paul Hamy está fabuloso. A temática homossexual também entra aqui de uma maneira muito mais inesperada, para a surpresa e o deliciamento do espectador, com toques de sensualidade extremamente sólidos. A cena final, ao som de António Variações, é provavelmente a melhor sequência de encerramento do ano de 2016.
tu estás livre e eu estou livre
e há uma noite para passar
porque não vamos unidos
porque não vamos ficar
na aventura dos sentidos
tu estás só e eu mais só estou
tu que tens o meu olhar
tens a minha mão aberta
à espera de se fechar
nessa tua mão deserta
vem que amor
não é o tempo
nem é o tempo
que o faz
vem que amor
é o momento
em que eu me dou
em que te dás
tu que buscas companhia
e eu que busco quem quiser
ser o fim desta energia
ser um corpo de prazer
ser o fim de mais um dia
tu continuas à espera
do melhor que já não vem
e a esperança foi encontrada
antes de ti por alguém
e eu sou melhor que nada
O Ornitólogo
dir. João Pedro Rodrigues
★★★★
terça-feira, 26 de setembro de 2017
VOCÊ E OS SEUS (2016)
Hong Sang-Soo diz que, a cada filme que faz, é como se tivesse se livrado de um peso, "superado um obstáculo", e que espera que o mesmo aconteça a quem assiste. O sul-coreano (que mantém uma frequência de 1 filme anualmente desde 2008, tal qual um Woody Allen, e por vezes entrega dois ou três num mesmo ano, como aconteceu nesse) parece aprimorar lentamente seu estilo pacato de filmar, com planos fixos, estáticos, que raramente se permitem a movimentos bruscos ou coisas do tipo, mas que encontram justamente nessa construção plena e rígida de planos um lar para a expansão dos significados que uma imagem pode conter.
Os zooms, excessivos, fermentam a continuidade desses mesmos filmes. Hong, mestre do cinema contemporâneo, a cada trabalho que entrega parece emergir em meio às mesmas histórias, personagens, situações, lugares e sentimentos um cerne diferencial. É como se ele procurasse, incessantemente, a diferença nas repetições, sem medo de afirmá-las quando necessário (ou reafirmá-las, dados os casos) ou brincar com as muitas possibilidades que podem surgir de histórias, de construções narrativas, de pequenos detalhes, de relações humanas aparentemente simples que se fragmentam em figuras complexas, estranhas, profundas.
Os zooms, excessivos, fermentam a continuidade desses mesmos filmes. Hong, mestre do cinema contemporâneo, a cada trabalho que entrega parece emergir em meio às mesmas histórias, personagens, situações, lugares e sentimentos um cerne diferencial. É como se ele procurasse, incessantemente, a diferença nas repetições, sem medo de afirmá-las quando necessário (ou reafirmá-las, dados os casos) ou brincar com as muitas possibilidades que podem surgir de histórias, de construções narrativas, de pequenos detalhes, de relações humanas aparentemente simples que se fragmentam em figuras complexas, estranhas, profundas.
Esse novo filme do diretor, que não estreou ainda no Brasil, é um de seus mais deliciosos. Tem um quê de Esse Obscuro Objeto do Desejo, de Buñuel, no qual duas mulheres interpretavam a mesma personagem e ficavam alternando o papel ocasionalmente, de forma que tal mudança nunca era evidenciada pelo protagonista, Fernando Rey, uma vez que se tratava da mesma personagem, mas com intérpretes distintas. A mesma coisa acontece aqui, entretanto Hong é ainda mais radical: a mesma atriz interpreta duas personagens que são praticamente idênticas, mas nunca conseguimos descobrir qual é a diferença entre elas (nem mesmo os personagens, já que por repetidas vezes há confusão envolvendo seus nomes).
Esse paradoxo meio alternativo da história traça um movimento muito interessante na construção da personagem, que nada mais é do que um complemento às típicas figuras do cinema de Sang-Soo, pessoas envolvidas em relações amorosas conturbadas, e passando por "perrengues românticos". Do drama à comédia, do estranho ao casual, Hong passeia por entre esses personagens já tão conhecidos de seu cinema, mas que nunca são os mesmos, não importe o filme o diferencial está ali, podemos estar falando de histórias idênticas, mas que nunca são realmente iguais, tal como as duas personagens que estão neste filme, podemos talvez não diferenciá-las fisicamente, mas psicologicamente há distinções entre elas (nomes, personalidades, etc.).
A essência de Você e os Seus está cravada no seu frescor narrativo. Seguir a rotina do "mais do mesmo" pode parecer um desafio para o espectador, mas captar as frestas, isto é, os diferenciais de uma constante, adquire um imenso potencial quando estamos falando do cinema de Hong Sang-Soo. Ele se permite a mudanças, só que às vezes o que é frequente, o que se faz "clichê" fala mais alto, e nos deixamos levar pela mesmice, sem dar atenção ao que está transformando mesmo que evidentemente. Estamos acostumados a um cotidiano, a um certo formato de executar e enxergar as coisas, e alterar esse molde de alguma forma pode parecer uma tarefa difícil. Não é assim na vida também? E no cinema?
Os filmes de Hong, entre outros aspectos, sobressam-se pelo uso inacreditável da metalinguagem (acho que deve ser a segunda coisa que a gente mais encontra nos filmes dele além do zoom – sem querer generalizar, só tecnicamente falando mesmo) que aprofunda-se em camadas, é o ato de transpor no material artístico uma carga completamente imersiva, por vezes alusiva, mesmo que o próprio Hong afirme que "a profissão de um personagem em um filme seu nunca é mais importante que a própria personalidade do mesmo – se um tal cara é cineasta, é porque trata-se de uma realidade que está mais corrente à dele, talvez não poderia filmar alguém que ele não conhece, correria riscos de recorrer a estereótipos para esculpi-lo, mas provavelmente se ele fizesse um personagem de uma outra profissão, alguns sentimentos e sensações permaneceriam nesse corpo, a profissão acabaria subexistindo em um outro contexto, mas não necessariamente emocional"
As curiosas obras desse diretor não param de crescer na minha cabeça. É um cinema incisivo, com gosto de quero mais e que parece ir cavando mais fundo à medida em que preserva seus mesmos consensos. Há todo um cuidado reverberado por trás dessa aparente sutileza (ou como alguns críticos persistem, uma certa "preguiça"), que revela que o cinema de Hong é mais complexo do que podemos imaginar, e que ainda guarda, na sua simplicidade formal, um sabor delicioso... Embriagador.
Você e os Seus (Dangsinjasingwa dangsinui geot)
dir. Hong Sang-Soo
★★★★
Esse paradoxo meio alternativo da história traça um movimento muito interessante na construção da personagem, que nada mais é do que um complemento às típicas figuras do cinema de Sang-Soo, pessoas envolvidas em relações amorosas conturbadas, e passando por "perrengues românticos". Do drama à comédia, do estranho ao casual, Hong passeia por entre esses personagens já tão conhecidos de seu cinema, mas que nunca são os mesmos, não importe o filme o diferencial está ali, podemos estar falando de histórias idênticas, mas que nunca são realmente iguais, tal como as duas personagens que estão neste filme, podemos talvez não diferenciá-las fisicamente, mas psicologicamente há distinções entre elas (nomes, personalidades, etc.).
A essência de Você e os Seus está cravada no seu frescor narrativo. Seguir a rotina do "mais do mesmo" pode parecer um desafio para o espectador, mas captar as frestas, isto é, os diferenciais de uma constante, adquire um imenso potencial quando estamos falando do cinema de Hong Sang-Soo. Ele se permite a mudanças, só que às vezes o que é frequente, o que se faz "clichê" fala mais alto, e nos deixamos levar pela mesmice, sem dar atenção ao que está transformando mesmo que evidentemente. Estamos acostumados a um cotidiano, a um certo formato de executar e enxergar as coisas, e alterar esse molde de alguma forma pode parecer uma tarefa difícil. Não é assim na vida também? E no cinema?
Os filmes de Hong, entre outros aspectos, sobressam-se pelo uso inacreditável da metalinguagem (acho que deve ser a segunda coisa que a gente mais encontra nos filmes dele além do zoom – sem querer generalizar, só tecnicamente falando mesmo) que aprofunda-se em camadas, é o ato de transpor no material artístico uma carga completamente imersiva, por vezes alusiva, mesmo que o próprio Hong afirme que "a profissão de um personagem em um filme seu nunca é mais importante que a própria personalidade do mesmo – se um tal cara é cineasta, é porque trata-se de uma realidade que está mais corrente à dele, talvez não poderia filmar alguém que ele não conhece, correria riscos de recorrer a estereótipos para esculpi-lo, mas provavelmente se ele fizesse um personagem de uma outra profissão, alguns sentimentos e sensações permaneceriam nesse corpo, a profissão acabaria subexistindo em um outro contexto, mas não necessariamente emocional"
As curiosas obras desse diretor não param de crescer na minha cabeça. É um cinema incisivo, com gosto de quero mais e que parece ir cavando mais fundo à medida em que preserva seus mesmos consensos. Há todo um cuidado reverberado por trás dessa aparente sutileza (ou como alguns críticos persistem, uma certa "preguiça"), que revela que o cinema de Hong é mais complexo do que podemos imaginar, e que ainda guarda, na sua simplicidade formal, um sabor delicioso... Embriagador.
Você e os Seus (Dangsinjasingwa dangsinui geot)
dir. Hong Sang-Soo
★★★★
quarta-feira, 30 de agosto de 2017
uma palinha de cinema: bressane, sion, penn
Poucos cineastas na história do cinema brasileiro – e, porque não, mundial – possuíram um cinema tão completo como o de Júlio Bressane. É essa capacidade de transformar cada frame e cada canto de um filme em uma obra que faz dele um sui generis da sétima arte, um tesouro escondido, um mestre. Todos os detalhes são orquestrados com um olhar minucioso, atento e feroz, tornando a sessão um prato cheio para quem gosta de "contemplar a vista", ainda mais quando temos em cena uma atriz tão inigualável como Alessandra Negrini, em suas poses e gestos, mil faces e contornos, expressa uma exuberante tentação imagética, que aliada às nuances bressanianas, movimenta e ressignifica a forma da maneira mais contundente possível. Trata-se de um épico da imagem, majestoso em sua dimensão quase surrealista, delicioso de se acompanhar, tanto por seu visual quanto por um retrato no mínimo interessantíssimo de uma personagem tão adorada pela cinematografia, a Cleópatra: um mito, um símbolo ou uma farsa do imaginário histórico/cinematográfico?
Cleópatra
dir. Júlio Bressane
★★★★
Interessante estudo de personagem/desconstrução de gêneros que consegue ampliar um foco em uma mesma característica sem sair do tom, e sem medo de subverter o protagonista para fundir duas perspectivas de um mesmo espectro (ou mais, até, se formos levar em conta uma dimensão diegética). Sion Sono trabalha de forma imersiva com os elementos que cercam seu filme, uma imersão totalmente cinematográfica, e ele parece realmente acreditar neste ponto, na sua proposta, mais do que qualquer outra pessoa, o que acaba se tornando um convite agradabilíssimo para o espectador em se sentir imerso em um universo lírico inexplicavelmente imprevisível e delicioso, onde somos guiados por uma sensação de surpresa e ao mesmo tempo encantamento, diversão. A tartaruga gigante é uma das criaturas mais fofas concebidas no cinema contemporâneo. Impossível não sentir seu coração derretendo. Meu primeiro Sion Sono é arrebatador. Sem mais.
Love & Peace
dir. Sion Sono
★★★★
Não sei bem ao certo o que o Sean Penn queria ao fazer este filme, parece mais uma série de experimentalismos com a câmera (numa certa cena, vergonhosa, há um jogo de closes, fast-motion e zooms muito zoado mesmo, a intenção de tornar a sequência, talvez, agitada, acaba se tornando uma zorra) acompanhando um casal de personagens (Bardem & Theron, provavelmente nunca estiveram tão péssimos em cena) e o pano de fundo, um conflito civil na África (o backdrop humanitário mais forçado e desleixado que se pode imaginar). A mise-en-scène é equivocada em muitos sentidos, desde uma concepção arbitrária e costurada com reducionismos ilógicos até o roteiro que parece ter sido escrito em questão de minutos tal qual é a falta de interesse e qualidade que ele reproduz. Toda e quaisquer tentativas que possam ser lidas como meras "boas intenções" não passam de tentativas.
The Last Face
dir. Sean Penn
●
quarta-feira, 9 de agosto de 2017
uma palinha de cinema: frears, burton, uziel
Um apelo de criatividade para um roteiro desinteressante, ou "como mudar a ordem de seu filme para deixá-lo tediosamente bagunçado". Incrível é como uma hora e vinte aqui parecem três (e não, eu não tô exagerando). "Shimmer Lake" roda em círculos, tentando encontrar respostas para a sua própria mesmice. A tentativa de acoplar humor negro a suspense, num intuito óbvio à la "Fargo", desastrosamente forçado, piora toda a situação. Compra-se a ideia de reverter toda uma lógica (e que até torna o filme bastante curioso num sentido mais narrativo), e que é posteriormente estragada por uma tendência suspense/comédia que acaba fugindo do controle da maneira mais irresponsável possível.
Shimmer Lake
dir. Oren Uziel
★★
Burton fazendo o que sabe de melhor. No geral não há coisa nova, mas sempre tem algo que deixa cada filme seu mais fascinante que o outro, é o olhar dele nesse contraste entre o inocente e o estranho, que apenas ele sabe conferir e manusear (e talvez não exista outro diretor nos dias de hoje mais qualificado para fazer isso do que ele), delicadíssimo e sombrio ao mesmo tempo. Efeitos visuais podem não enganar, mas o filme encontra seu charme justamente nisso (o que eu particularmente acho incrível).
O Lar das Crianças Peculiares (Miss Peregrine's Home for Peculiar Children)
dir. Tim Burton
★★★
Frears já fez filmes melhores. Uma cobrança meio desnecessária de quebra de expectativas (principalmente na personagem da Rebecca Hall) compromete a narrativa, com reforços que soam excessivos demais para um grupo de personagens tão limitado. Os que acabam prejudicados com esse tratamento são os secundários, que parecem estar presentes ali apenas para reavivar e dar continuidade ao plano dos principais sem nenhum compromisso diegético, uma relevância frouxa (com personagens pra lá de irregulares) num filme que não sabe muito bem o que quer. Na primeira metade, parece progredir nesse quesito, porém desanda justamente no momento em que acredita estar no controle de tudo, desmascarando a aparente estabilidade.
O Dobro ou Nada (Lay the Favorite)
dir. Stephen Frears
★★
quinta-feira, 20 de julho de 2017
NÃO ME FALE SOBRE RECOMEÇOS (2016)
A imagem e suas infinitas possibilidades. Cada frame é uma realidade. Cada palavra é o receptáculo de uma abstração. A desconstrução de uma linguagem – os sons, as cores e as formas que habitam nesta – e a renovação de tudo que a subverte como o impulso de uma comunicação inevitável de sensações resultantes do choque entre duas realidades ambivalentes, o sensível e o efêmero. Desse choque aflora, enfim, o cerne da emissão imagética, da ilusão e da realidade fundidas num corpo só, o milagre da produção audiovisual.
Onde morre uma imagem, nasce outra: um ciclo de recomeços (ou cinema, simplesmente cinema). Trata-se de um trabalho muito especialíssimo, uma experiência inusual e bastante tentadora, que nos convida a contemplar a imagem e suas admiráveis funções e contextualizações dentro da atmosfera cinematográfica, a serviço de uma configuração quase irreal de realidades, de subtextos e experimentalismos.
Não Me Fale Sobre Recomeços
dir. Arthur Tuoto
★★★★
sábado, 15 de julho de 2017
Z: A CIDADE PERDIDA (2016)
James Gray voltou às tela, em plena forma. Se Z: A Cidade Perdida, o seu mais novo aguardadíssimo filme, não se trata de seu melhor trabalho, e fica bem longe de ser até comparável aos últimos filmes do diretor, uma safra de trabalhos especialíssimos, tais como Os Donos da Noite, Amantes e Era Uma Vez en Nova York, nos revelaram um dos mais prolíficos diretores do cinema americano contemporâneo. Mas a espera valeu a pena, mesmo depois de tantas expectativas frustradas em relação ao seu lançamento, se Z: A Cidade Perdida custou a chegar nos cinemas, pelo menos depois de vê-lo podemos ter a certeza de ter testemunhado um grande trabalho, mesmo que não esteja à altura do que Gray sabe fazer de melhor.
Estão presentes o classicismo, uma das características principais do estilo de Gray, o foco nas relações de pai e filho e nos círculos familiares, o que não está presente neste trabalho, e apenas, é Joaquin Phoenix, o ator que melhor se encaixa nos filmes do Gray e que fez trabalhos tão dignos nos três longas anteriores do cineasta, mas aqui está ausente. Temos em tela Charlie Hunnam, vivendo um explorador que enfrenta diversas dificuldades em sua jornada pela floresta amazônica à procura da "cidade perdida", "Z", que perdura toda uma vida, nessa busca incessante e incerta por uma civilização escondida no meio das matas profundas da Amazônia.
É um filme bastante interessante, consegue extrair momentos de grandeza dessa jornada de aventura e redescoberta entre dois mundos completamente distintos, duas civilizações, duas culturas. É justamente nessa questão da dualidade, de estar dividido entre esses dois mundos, o trabalho e a família, a Amazônia e a Inglaterra, que o protagonista é posto à prova por diversas vezes durante o filme, inclusive por sua esposa e seus filhos, que cobram presença paternal e na família inclusive.
O desfecho é um pouco intrigante, duro, talvez um pouco triste, melancólico, embora não intencionalmente. Gray e a arte de transformar imagens em monumentos, frames em quadros, a maneira meticulosa como ele filme cada movimento, cada gesto, cada jogada de seus personagens, é realmente a maior prova da força das imagens que compõem seu filme como um todo.
Assim como Era Uma Vez em Nova York remete a Coppola, Amantes remete a Allen e Os Donos da Noite remete a Scorsese, Z: A Cidade Perdida remete a David Lean. A estruturação épica de uma narrativa cinematográfica, a cultura desse subgênero captada em todos os seus máximos e mínimos luxos, remetem ao vigor do cinema de Lean, completando mais uma vez essa linda filmografia classicista de James Gray, que cada vez mais nos surpreende, cada vez mais trazendo cinema do bom e do melhor.
Z: A Cidade Perdida (The Lost City of Z)
dir. James Gray
★★★★
Estão presentes o classicismo, uma das características principais do estilo de Gray, o foco nas relações de pai e filho e nos círculos familiares, o que não está presente neste trabalho, e apenas, é Joaquin Phoenix, o ator que melhor se encaixa nos filmes do Gray e que fez trabalhos tão dignos nos três longas anteriores do cineasta, mas aqui está ausente. Temos em tela Charlie Hunnam, vivendo um explorador que enfrenta diversas dificuldades em sua jornada pela floresta amazônica à procura da "cidade perdida", "Z", que perdura toda uma vida, nessa busca incessante e incerta por uma civilização escondida no meio das matas profundas da Amazônia.
É um filme bastante interessante, consegue extrair momentos de grandeza dessa jornada de aventura e redescoberta entre dois mundos completamente distintos, duas civilizações, duas culturas. É justamente nessa questão da dualidade, de estar dividido entre esses dois mundos, o trabalho e a família, a Amazônia e a Inglaterra, que o protagonista é posto à prova por diversas vezes durante o filme, inclusive por sua esposa e seus filhos, que cobram presença paternal e na família inclusive.
O desfecho é um pouco intrigante, duro, talvez um pouco triste, melancólico, embora não intencionalmente. Gray e a arte de transformar imagens em monumentos, frames em quadros, a maneira meticulosa como ele filme cada movimento, cada gesto, cada jogada de seus personagens, é realmente a maior prova da força das imagens que compõem seu filme como um todo.
Assim como Era Uma Vez em Nova York remete a Coppola, Amantes remete a Allen e Os Donos da Noite remete a Scorsese, Z: A Cidade Perdida remete a David Lean. A estruturação épica de uma narrativa cinematográfica, a cultura desse subgênero captada em todos os seus máximos e mínimos luxos, remetem ao vigor do cinema de Lean, completando mais uma vez essa linda filmografia classicista de James Gray, que cada vez mais nos surpreende, cada vez mais trazendo cinema do bom e do melhor.
Z: A Cidade Perdida (The Lost City of Z)
dir. James Gray
★★★★
domingo, 2 de julho de 2017
terça-feira, 27 de junho de 2017
A MULHER QUE SE FOI (2016)
Lav Diaz possui um olhar bastante estrito sobre as injustiças, e seus filmes geralmente são sobre personagens lidando com as injustiças e/ou que vão em busca de justiça, motivados pela vingança. O diretor parece ter um certo fascínio pelas possibilidades que suas histórias (afinal, ele é um contador) trazem, muito no que diz respeito à abordagem, é tanto que seu cinema parte de um mecanismo aparentemente simples para, depois, se fragmentar em uma possibilidade metódica, concreta, e é justamente aí onde reside a complexidade em seu cinema – e não na duração, embora este seja um fator bastante especial nos filmes do filipino.
Muito se diz a respeito das longas durações dos filmes de Lav Diaz, que nada mais é do que um veículo pelo qual ele estuda essas personagens e redesenha suas histórias, traça seus planos contemplativos e estabelece uma narrativa de semblante imersivo que visa, entre outras coisas, não só uma experiência quase meditativa para o espectador sobre a ação do tempo e a idiossincrasia do formalismo cronológico e da configuração estilística na linguagem cinematográfica mas sobretudo sobre essa liberdade de abordagem, de expressar-se em uma variação ilimitada, e é isso que esse cinema representa no que diz respeito à duração – que é compreendida por muitos como uma "inovação" e por outros essa ideia é rejeitada – talvez mais do que uma inovação propriamente dita essa continuidade é puramente uma explicitação estilística de Lav em sua forma de fazer cinema. O que realmente importa é o que ele faz com essas quatro, cinco, seis, oito, seja-lá-quantas-for horas e o que elas representam e, além do mais, a experiência em sua inteira composição e aspectos, e não o porquê dele fazer filmes tão longos como um artifício ressignificativo da diegese ou, pasme, uma coleção de maneirismos.
Se Lav fizesse filmes menores, talvez eles não teriam o mesmo significado, ou a experiência de vê-los, especialmente no cinema, não seria a mesma, não teríamos a mesma impressão, ou provavelmente, quem sabe, o mesmo impacto. É tanto uma característica própria, natural de seu estilo, e que deve ser encarada desta forma, antes de mais outras interpretações que busquem ler a sua utilização ou procurar algum sentido na "inclusão" de tempos mortos, e tentar explicar tal coisa é a mais falível das pretensões, cada um deve produzir a sua própria interpretação, logicamente, acerca do que é mostrado.
Ao que me parece, A Mulher que se Foi (e que ganhou o Leão de Ouro em Veneza no passado, muito merecidamente) é um dos melhores filmes de Diaz, gosto bastante de pensar do filme como uma "odisseia marginal", com a personagem de Charo Santos (em uma performance esplêndida) deflagrada em sua trajetória de vingança após a sua saída da cadeia (onde ela ficou presa por 30 anos acusada de um crime que não cometeu) e seu encontro com diversas figuras que peregrinam pelos cantos bucólicos da paisagem urbana das periferias filipinas, vivendo na sombra de seus passados e às margens da sociedade, até interessante observar esse ponto em que o Lav se dedica a humanizar as personagens tão sofridas e rejeitadas pela sociedade que cruzam o caminho da personagem Horacia.
Diaz transita com enorme naturalidade entre estas pessoas comuns, humanas, e a miséria de seus destinos, que desperta em Horacia um sentimento de simpatia e compaixão. Ela sempre está tentando melhorar suas vidas, bondosíssima que ela é, oferecendo ajuda e dinheiro a quem necessita. Lav, neste filme, aparenta estar bem mais dedicado à textura das personagens do que em estabelecer uma "crítica social foda", embora ele o faça, mesmo que numa levada bem mais dramática do que seus filmes anteriores, mas com dignidade – nenhum desses dois pontos jamais foi problema para Diaz.
A fotografia, em tons de preto em branco muito bem definidos, paira sob um espectro de tenebrosidade, que cobre o filme do começo ao fim, estabelecendo uma atmosfera de tensão, visto que boa parte das sequências são noturnas. É nesse retrato imperfeito, quebrado de um universo tão marginal que Lav encontra a afirmação de seu cinema da realidade, da imperfeição – nua e crua – em mais uma história sobre injustiças que nunca começa ou acaba bem, com algum personagem sempre sofrendo as consequências da ação de outro, a triste ironia do final é a miséria que culmina o encontro da travesti e da ex-detenta.
Diaz conclui mais um filme pesado, no sentido de ser tão carregado de sentimentos fortes e uma sensação de instabilidade e obscuridade que percorre pelo filme todo, dessas personagens que sofrem tanto, e que nunca parecem ter um momento de felicidade, fugindo do passado, ou regressando à ele, o inevitável é o que acontece no momento presente está ligado estritamente a uma ação do pretérito, o fator determinante dos caminhos desses seres marginais, trilhando o desespero e o silêncio da redenção, é sempre distante, inatingível – é a chama flamejante em uma infindável escuridão que, aos poucos, vai se apagando.
A Mulher que se Foi (Ang Babaeng Humayo)
dir. Lav Diaz
★★★★½
Se Lav fizesse filmes menores, talvez eles não teriam o mesmo significado, ou a experiência de vê-los, especialmente no cinema, não seria a mesma, não teríamos a mesma impressão, ou provavelmente, quem sabe, o mesmo impacto. É tanto uma característica própria, natural de seu estilo, e que deve ser encarada desta forma, antes de mais outras interpretações que busquem ler a sua utilização ou procurar algum sentido na "inclusão" de tempos mortos, e tentar explicar tal coisa é a mais falível das pretensões, cada um deve produzir a sua própria interpretação, logicamente, acerca do que é mostrado.
Ao que me parece, A Mulher que se Foi (e que ganhou o Leão de Ouro em Veneza no passado, muito merecidamente) é um dos melhores filmes de Diaz, gosto bastante de pensar do filme como uma "odisseia marginal", com a personagem de Charo Santos (em uma performance esplêndida) deflagrada em sua trajetória de vingança após a sua saída da cadeia (onde ela ficou presa por 30 anos acusada de um crime que não cometeu) e seu encontro com diversas figuras que peregrinam pelos cantos bucólicos da paisagem urbana das periferias filipinas, vivendo na sombra de seus passados e às margens da sociedade, até interessante observar esse ponto em que o Lav se dedica a humanizar as personagens tão sofridas e rejeitadas pela sociedade que cruzam o caminho da personagem Horacia.
Diaz transita com enorme naturalidade entre estas pessoas comuns, humanas, e a miséria de seus destinos, que desperta em Horacia um sentimento de simpatia e compaixão. Ela sempre está tentando melhorar suas vidas, bondosíssima que ela é, oferecendo ajuda e dinheiro a quem necessita. Lav, neste filme, aparenta estar bem mais dedicado à textura das personagens do que em estabelecer uma "crítica social foda", embora ele o faça, mesmo que numa levada bem mais dramática do que seus filmes anteriores, mas com dignidade – nenhum desses dois pontos jamais foi problema para Diaz.
A fotografia, em tons de preto em branco muito bem definidos, paira sob um espectro de tenebrosidade, que cobre o filme do começo ao fim, estabelecendo uma atmosfera de tensão, visto que boa parte das sequências são noturnas. É nesse retrato imperfeito, quebrado de um universo tão marginal que Lav encontra a afirmação de seu cinema da realidade, da imperfeição – nua e crua – em mais uma história sobre injustiças que nunca começa ou acaba bem, com algum personagem sempre sofrendo as consequências da ação de outro, a triste ironia do final é a miséria que culmina o encontro da travesti e da ex-detenta.
Diaz conclui mais um filme pesado, no sentido de ser tão carregado de sentimentos fortes e uma sensação de instabilidade e obscuridade que percorre pelo filme todo, dessas personagens que sofrem tanto, e que nunca parecem ter um momento de felicidade, fugindo do passado, ou regressando à ele, o inevitável é o que acontece no momento presente está ligado estritamente a uma ação do pretérito, o fator determinante dos caminhos desses seres marginais, trilhando o desespero e o silêncio da redenção, é sempre distante, inatingível – é a chama flamejante em uma infindável escuridão que, aos poucos, vai se apagando.
A Mulher que se Foi (Ang Babaeng Humayo)
dir. Lav Diaz
★★★★½
domingo, 25 de junho de 2017
ALÉM DAS PALAVRAS (2016)
Muito interessante essa oportunidade de assistir a uma cinebiografia da poetisa americana Emily Dickinson, ainda mais quando o filme em questão leva a assinatura de um dos diretores britânicos mais conceituados, embora subestimado, dos nossos tempos: o brilhante Terence Davies, que realiza mais uma obra carregada de delicadeza, sensibilidade, um dos melhores trabalhos desse cineasta com certeza, e o público brasileiro teve o privilégio de receber esse trabalho nos cinemas este ano.
O andamento do filme exala uma certa neutralidade, em suas duas horas, de peregrinar por momentos tão marcantes da vida de Emily Dickinson, uma das poetisas americanas mais aclamadas, embora seja tão pouco conhecida aqui no Brasil, e é sempre bom assistir a um filme que nos faça reviver a jornada dessa artista e conhecer melhor a sua arte, a sua poesia, bem como sua personalidade bastante determinada, de difícil domação, visto que ela, uma mulher tão independente, tinha perspectivas tão fortes e próprias sobre o mundo ao seu redor, tentando abordá-lo através da poesia, das palavras.
Sem sombra de dúvidas, foi um grande ícone, mas também o filme busca abordar alguns dos problemas da vida pessoal de Emily, sua dificuldade em lidar com a vida amorosa, sua melancolia em ver a vida, a tristeza... O que a alegra são as amizades, os momentos em família, mas ao mesmo tempo ela não deixa de ser irônica, sarcástica, ácida quando é necessário (ou às vezes não), características de seu humor quase intrépido, corrosivo.
Ao longo de duas horas, Terence consegue falar mais do que algumas das cinebiografias recentes e já por isso merece ser relevado. Da vida até a morte, dos momentos mais complicados de sua vida, da difícil relação com o universo religioso e as imposições da família quanto à religião, à qual ela tentava manter certa distância em relação à compactuação.
A performance de Cynthia Nixon, que vive Emily Dickinson na maior parte do filme, é realmente admirável, já que conheço muito pouco do trabalho de Nixon, embora ela seja bastante famosa por ter atuado na série Sex and the City, e essa chance de melhor vê-la em cena é muito única, até porque a interpretação dela é um espetáculo. Entre os destaques desse elenco tão prestigioso, estão Jennifer Ehle, que vive a irmã de Emily e uma de suas principais companheiras ao longo de sua vida, e Catherine Bailey, que vive uma amiga intelectual muito próxima da poetisa.
A trilha sonora é dotada de uma beleza extrema, que consegue definir e tonalizar muito bem alguns dos melhores momentos deste filme, cuja delicadeza dramática abraça uma força totalmente instigante, maravilhosa, até. A fotografia também acaba por ter reservado algumas das sequências mais visualmente exuberantes e belas do longa.
Além das Palavras (A Quiet Passion)
dir. Terence Davies
★★★★
O andamento do filme exala uma certa neutralidade, em suas duas horas, de peregrinar por momentos tão marcantes da vida de Emily Dickinson, uma das poetisas americanas mais aclamadas, embora seja tão pouco conhecida aqui no Brasil, e é sempre bom assistir a um filme que nos faça reviver a jornada dessa artista e conhecer melhor a sua arte, a sua poesia, bem como sua personalidade bastante determinada, de difícil domação, visto que ela, uma mulher tão independente, tinha perspectivas tão fortes e próprias sobre o mundo ao seu redor, tentando abordá-lo através da poesia, das palavras.
Sem sombra de dúvidas, foi um grande ícone, mas também o filme busca abordar alguns dos problemas da vida pessoal de Emily, sua dificuldade em lidar com a vida amorosa, sua melancolia em ver a vida, a tristeza... O que a alegra são as amizades, os momentos em família, mas ao mesmo tempo ela não deixa de ser irônica, sarcástica, ácida quando é necessário (ou às vezes não), características de seu humor quase intrépido, corrosivo.
Ao longo de duas horas, Terence consegue falar mais do que algumas das cinebiografias recentes e já por isso merece ser relevado. Da vida até a morte, dos momentos mais complicados de sua vida, da difícil relação com o universo religioso e as imposições da família quanto à religião, à qual ela tentava manter certa distância em relação à compactuação.
A performance de Cynthia Nixon, que vive Emily Dickinson na maior parte do filme, é realmente admirável, já que conheço muito pouco do trabalho de Nixon, embora ela seja bastante famosa por ter atuado na série Sex and the City, e essa chance de melhor vê-la em cena é muito única, até porque a interpretação dela é um espetáculo. Entre os destaques desse elenco tão prestigioso, estão Jennifer Ehle, que vive a irmã de Emily e uma de suas principais companheiras ao longo de sua vida, e Catherine Bailey, que vive uma amiga intelectual muito próxima da poetisa.
A trilha sonora é dotada de uma beleza extrema, que consegue definir e tonalizar muito bem alguns dos melhores momentos deste filme, cuja delicadeza dramática abraça uma força totalmente instigante, maravilhosa, até. A fotografia também acaba por ter reservado algumas das sequências mais visualmente exuberantes e belas do longa.
Além das Palavras (A Quiet Passion)
dir. Terence Davies
★★★★
quarta-feira, 21 de junho de 2017
NA VERTICAL (2016)
Alain Guiraudie já tinha provado, com Um Estranho no Lago, ser um dos mais promissores cineastas da França, e ele volta a provar a força de seu cinema tido como promissor há alguns anos em seu mais novo trabalho, um pouco menos instigante e tenso do que o anterior, mas que volta a trabalhar com temáticas semelhantes seguindo à risca um estilo bastante próprio de filmar, e as marcas do diretor, seu trabalho com um linha espinhosa, temas de difícil abordagem e personagens em situações pouco convencionais, até fantásticas, como chegam a ser algumas das sequências deste filme que beiram a fantasia, fora da lucidez, embora seus personagens sejam pessoas comuns, do cotidiano.
A provocação é uma constante no cinema de Guiraudie, e ele volta a trabalhá-la de maneira excepcional neste Na Vertical, com traços parecidíssimos ao de Um Estranho no Lago, seu thriller hitchcockiano/homoerótico que já era um primor. Aqui, há um cuidado bem maior nesta questão da provocação, embora o resultado não seja necessariamente tão satisfatório e magnífico como o do anterior. São dois filmes que se encontram em perspectivas semelhantes, e o erotismo homoerótico passa a ser uma espécie de marca registrada na filmografia deste diretor.
Se no suspense de 2013 o diretor ousava inserindo uma tensão sexual bastante explícita, até mesmo na imaginação dos personagens que permeiam uma praia nudista frequentada assiduamente por homossexuais, com direito a muita nudez, neste aqui Alain vai além, inserindo ao menos duas sequências ainda mais ousadas e provocativas que certamente ficarão gravadas na memória do espectador: a cena do parto e a cena de sexo gay, pra mim duas sequências extremamente bem concebidas e realizadas, que estão entre as melhores do filme, que por si só já é bastante memorável por uma série de fatores.
A lástima é o filme ter tido uma recepção tão breve e pouco calorosa após sua estreia em Cannes, onde foi tido como controverso e polêmico, mas depois do festival quase não se comentou sobre o filme e nem chegou a ter, digamos, uma recepção internacional tão famigerada, ainda que tenha aparecido na conceituada lista de fim de ano da revista Cahiers du Cinema. Por isso, a estreia deste filme tão provocador e único aqui no Brasil já é de uma grandeza única.
As performances de Damien Bonnard (excelente), India Hair e Raphael Thierry merecem ser relevadas. O filme dialoga com temáticas bastante interessantes, inclusive na questão da paternidade, que parece ser o cerne da trama, e também da tensão sexual que é evocada em diversas cenas, de forma direta (ou indireta). O que importa é que o filme, em todo o seu significado e sua austeridade, utiliza toda uma cultura erótica a seu favor, e na construção de temáticas e conclusões que, mesmo nem tão tangíveis, estão bastante próximas da subjetividade. Alain Guiraudie é definitivamente um diretor a ser acompanhado, um dos nomes de peso do cinema francês recente.
Na Vertical (Rester Vertical)
dir. Alain Guiraudie
★★★★
FRANTZ (2016)
Confesso que esperava mais do novo filme de François Ozon. Não, não é um filme ruim. Muito pelo contrário, se trata de um trabalho bastante plausível, com muitos pontos relevantes, mas não me pegou da forma que eu esperava, talvez por ser um dos filmes menos provocativos de Ozon, um diretor que sempre soube trabalhar muito bem a provocação em seus filmes, este aqui tem um tom dramático mais elevado, centrado em uma personagem dividida entre dois amores. O interessante deste filme é como a história trata de eventos passados e a influência destes no presente, e até mesmo o personagem que já morreu é um dos principais cernes da trama, estando até mais presente, digamos, do que as personagens principais viventes.
O cuidado técnico é invejável, a fotografia, belíssima. Os momentos que alternam entre o P&B e o colorido são realmente fantásticos, funcionam até mais que a própria ideia, o realce quase modesto que essas sequências propulsionam é de uma delicadeza notável. Entre os grandes destaques do filme, está Paula Beer, em uma grande interpretação, talvez a maior da atriz até hoje, com momentos dramáticos bem pesados e tensos neste filme.
Pierre Niney, que interpreta Adrien, o ex-soldado de guerra, é outro grande destaque, dono de uma performance inspirada. Seu personagem vive um dilema extremamente delicado ao estar apaixonado pela mulher do soldado inimigo que ele assassinou em tempos de guerra. O desfecho é ainda mais carregado, vale frisar cenas magníficas que surgem dele, como a cena do assassinato, que ao meu ver é uma das mais impactantes do filme (não acho que seja possível manter segredo a respeito dessa parte, já que desde o começo essa informação nos é introduzida, então...).
Ozon está em boa forma, Frantz está longe de ficar entre seus melhores filmes, mas com certeza trata-se de um exemplar seguro de seu cinema arrebatador, com uma influência dos tempos de outrora do expressionismo alemão, e, é claro, o cinema de Ernst Lubitsch, mais especificamente, do qual este filme parece beber da fonte.
Frantz
dir. François Ozon
★★★
quinta-feira, 8 de junho de 2017
ANIMAIS FANTÁSTICOS E ONDE HABITAM (2016)
Spin-off da franquia Harry Potter, Animais Fantásticos e Onde Habitam traz o mesmo cara que dirigiu a maioria dos filmes da série em questão, David Yates, e roteiro que é assinado pela própria J.K. Rowling, a escritora inglesa que deu vida aos personagens de uma das franquias literárias mais vendidas e famosas de todos os tempos. Como resultado deste trabalho, cinemas lotaram de fãs e seguidores da franquia e do trabalho de Rowling, e pode-se dizer que o filme foi feito para estes – assim como muitos filmes da franquia do Harry Potter também se dirigiam a um certo público-alvo – serão feitas cobranças em relação à obra original, mas pouco realmente se releva diante destes filmes, cinematograficamente falando.
Por outro lado, embora seja cansativo e muitas vezes tedioso, Animais Fantásticos e Onde Habitam tem um cuidado bastante satisfatório com seus aspectos técnicos, transformando cenários e locações em verdadeiros monumentos, problematizados pela séria artificialização, e talvez esse seja outro motivo pelo qual é tão difícil seguir a substância que este filme evoca. A fotografia – excessivamente artificial, fake, computadorizada – reflete o mais incômodo dos deslizes deste filme. A criação reverbera um cuidado magnânimo, mas desnecessariamente excessivo e artificializado.
Eddie Redmayne nunca esteve tão bem em um filme antes, por mais que ele seja um intérprete mediano, limitado, ele se saiu muito bem, até mais do que nos seus dois outros papéis pelos quais foi indicado ao Oscar. Pra mim ele não é nada convincente, mas o personagem lhe caiu como uma luva. Quem merece destaque é Katherine Waterson, que mesmo coadjuvante, consegue surpreender, e Dan Fogler. Aparecem pouco, mas merecem ser relevados: Samantha Morton e Colin Farrell.
Animais Fantásticos e Onde Habitam (Fantastic Beasts and Where to Find Them)
dir. David Yates
★★★
segunda-feira, 5 de junho de 2017
A CRIADA (2016)
Um dos filmes mais falados e adorados de 2016 só chegou aos cinemas brasileiros esse ano, trata-se de um controverso romance de época de aproximadamente duas horas e meia de duração que foca em duas mulheres que mantém uma relação amorosa, mesmo diante de uma relação de dominação e submissão de empregada-patroa em que, durante a trama, invertem-se os "papéis" das duas mulheres, estabelecendo um jogo fatal de manipulação e dominação entre elas e os homens que estão envolvidos nessa relação.
Sem dúvida é um dos filmes mais audazes, tecnicamente exuberantes e complexos (bem complexos) que o ano passado nos trouxe. E seu diretor, quando o assunto é complexidade, sabe bem o que faz: Park Chan-wook, o mesmo que outrora dirigiu o sucesso do cinema sul-coreano Oldboy. O plot twist é, mais uma vez, uma constante neste novo filme de Chan-wook que brinca com a questão da perspectiva em torno das personagens centrais da trama quando manipula suas intenções e tateia possibilidades inexploradas, reservando mistério, tensão e um pouco de caos para o espectador.
Lá para os últimos quarenta, trinta minutos de filme, a trama sofre uma reversão quase desesperada. E se o filme fica um pouco suspenso entre o que diz uma hora e o que diz depois, há uma intervenção quase maluca de sequências bizarras e metaforicamente ricas que preenchem o quê de complexidade do longa, filme este que prova a potência do cinema sul-coreano em uma de suas melhores fases.
O elenco, magistral, está sob a regência atenciosa de Park Chan-wook, que consegue estabelecer ligações esplêndidas entre os momentos de tensão e a crise de seus personagens. A dupla de protagonistas, as ótimas Kim Min-Hee (musa do diretor Hong Sang-Soo, hoje um dos mais aclamados cineastas da Coreia do Sul) e Kim Tae-Ri, dão um show de interpretação. Difícil esquecer o desempenho dessas duas intérpretes excelentes, que dão vida e costuram a trama principal deste filme sensual, visualmente exuberante, vibrante e tensamente erótico, um dos melhores suspenses dos últimos anos.
A Criada (Ah-ga-ssi)
dir. Park Chan-wook
★★★★½
domingo, 4 de junho de 2017
ARMAS NA MESA (2016)
Jessica Chastain já provou, diversas vezes, em tela, que é uma atriz fenomenal – e ainda assim a cada filme novo a atriz nos surpreende mais, entregando personagens excepcionalmente bem delineadas e costurando suas nuances com uma incrível naturalidade, seus gestos e suas faces sempre acabam nos fazendo pedir por mais, sua sensualidade provocativa também ajuda a compor mulheres fortes e determinadas – ela é justamente o grande potencial do novo filme do cineasta John Madden, e provavelmente a única razão pela qual este realmente merece ser visto, pois o filme em si não faz jus à brilhante performance que ela aqui nos apresenta.
O roteiro é de Jonathan Perera – seu trabalho de estreia no cinema e seu único roteiro até então, um ato raríssimo na indústria cinematográfica – que exagera bastante em diálogos que parecem lutar para serem no mínimo desconcertantes e coerentes, talvez encobrindo uma ligeira falta de inspiração para algumas sequências um pouco desajustadas, que acabam se perdendo nesta falta de fluidez, mesmo aquelas de duração mínima, passando por algumas mais significantes e tensas que sofrem com essa abordagem meio evasiva, indireta.
O que salva o filme mesmo é o charme de Chastain, cuja personagem é uma mulher cuja função está estritamente ligada ao poder, e como o próprio título sugere ela está lidando com questões de cunho delicado relacionadas ao armamento. Elizabeth, que é contra o idealismo pró-armas, é intimidada pelos que apoiam e sua profissão é posta em risco, afetando drasticamente sua vida profissional e seus ideais políticos.
A atriz foi indicada (merecidamente) ao Globo de Ouro por sua atuação neste longa que, apesar de fraquinho, ostenta uma das melhores interpretações da carreira da atriz, provando que sabe emergir em uma outra pessoa e ainda sim captar cada movimento e cada retoque que surge desta criação. Pena mesmo é que sua personagem seja tão mal escrita e desenvolvida, e sofra tanto com diálogos irregulares e um roteiro com muitos furos e a forte evidência maniqueísta presente no desfecho bagunçado que estraga o clima que Madden cautelosamente elabora para a trama.
Jess é a atriz perfeita para os papéis envolvendo política e diplomacia (A Hora Mais Escura deixa isso bem claro) mas quando ela está em um filme que não sabe o que quer dizer e ainda por cima trata muito mal da sua personagem principal, o resultado é desinteressante, irrelevante e maçante. Armas na Mesa é desastroso, não justifica a presença de uma atriz do naipe de Chastain em um longa tão descaradamente mal feito.
Armas na Mesa (Miss Sloane)
dir. John Madden
★★½
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