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terça-feira, 27 de junho de 2017

A MULHER QUE SE FOI (2016)


Lav Diaz possui um olhar bastante estrito sobre as injustiças, e seus filmes geralmente são sobre personagens lidando com as injustiças e/ou que vão em busca de justiça, motivados pela vingança. O diretor parece ter um certo fascínio pelas possibilidades que suas histórias (afinal, ele é um contador) trazem, muito no que diz respeito à abordagem, é tanto que seu cinema parte de um mecanismo aparentemente simples para, depois, se fragmentar em uma possibilidade metódica, concreta, e é justamente aí onde reside a complexidade em seu cinema – e não na duração, embora este seja um fator bastante especial nos filmes do filipino. 

Muito se diz a respeito das longas durações dos filmes de Lav Diaz, que nada mais é do que um veículo pelo qual ele estuda essas personagens e redesenha suas histórias, traça seus planos contemplativos e estabelece uma narrativa de semblante imersivo que visa, entre outras coisas, não só uma experiência quase meditativa para o espectador sobre a ação do tempo e a idiossincrasia do formalismo cronológico e da configuração estilística na linguagem cinematográfica mas sobretudo sobre essa liberdade de abordagem, de expressar-se em uma variação ilimitada, e é isso que esse cinema representa no que diz respeito à duração – que é compreendida por muitos como uma "inovação" e por outros essa ideia é rejeitada – talvez mais do que uma inovação propriamente dita essa continuidade é puramente uma explicitação estilística de Lav em sua forma de fazer cinema. O que realmente importa é o que ele faz com essas quatro, cinco, seis, oito, seja-lá-quantas-for horas e o que elas representam e, além do mais, a experiência em sua inteira composição e aspectos, e não o porquê dele fazer filmes tão longos como um artifício ressignificativo da diegese ou, pasme, uma coleção de maneirismos.

Se Lav fizesse filmes menores, talvez eles não teriam o mesmo significado, ou a experiência de vê-los, especialmente no cinema, não seria a mesma, não teríamos a mesma impressão, ou provavelmente, quem sabe, o mesmo impacto. É tanto uma característica própria, natural de seu estilo, e que deve ser encarada desta forma, antes de mais outras interpretações que busquem ler a sua utilização ou procurar algum sentido na "inclusão" de tempos mortos, e tentar explicar tal coisa é a mais falível das pretensões, cada um deve produzir a sua própria interpretação, logicamente, acerca do que é mostrado.

Ao que me parece, A Mulher que se Foi (e que ganhou o Leão de Ouro em Veneza no passado, muito merecidamente) é um dos melhores filmes de Diaz, gosto bastante de pensar do filme como uma "odisseia marginal", com a personagem de Charo Santos (em uma performance esplêndida) deflagrada em sua trajetória de vingança após a sua saída da cadeia (onde ela ficou presa por 30 anos acusada de um crime que não cometeu) e seu encontro com diversas figuras que peregrinam pelos cantos bucólicos da paisagem urbana das periferias filipinas, vivendo na sombra de seus passados e às margens da sociedade, até interessante observar esse ponto em que o Lav se dedica a humanizar as personagens tão sofridas e rejeitadas pela sociedade que cruzam o caminho da personagem Horacia.

Diaz transita com enorme naturalidade entre estas pessoas comuns, humanas, e a miséria de seus destinos, que desperta em Horacia um sentimento de simpatia e compaixão. Ela sempre está tentando melhorar suas vidas, bondosíssima que ela é, oferecendo ajuda e dinheiro a quem necessita. Lav, neste filme, aparenta estar bem mais dedicado à textura das personagens do que em estabelecer uma "crítica social foda", embora ele o faça, mesmo que numa levada bem mais dramática do que seus filmes anteriores, mas com dignidade – nenhum desses dois pontos jamais foi problema para Diaz.

A fotografia, em tons de preto em branco muito bem definidos, paira sob um espectro de tenebrosidade, que cobre o filme do começo ao fim, estabelecendo uma atmosfera de tensão, visto que boa parte das sequências são noturnas. É nesse retrato imperfeito, quebrado de um universo tão marginal que Lav encontra a afirmação de seu cinema da realidade, da imperfeição – nua e crua – em mais uma história sobre injustiças que nunca começa ou acaba bem, com algum personagem sempre sofrendo as consequências da ação de outro, a triste ironia do final é a miséria que culmina o encontro da travesti e da ex-detenta.

Diaz conclui mais um filme pesado, no sentido de ser tão carregado de sentimentos fortes e uma sensação de instabilidade e obscuridade que percorre pelo filme todo, dessas personagens que sofrem tanto, e que nunca parecem ter um momento de felicidade, fugindo do passado, ou regressando à ele, o inevitável é o que acontece no momento presente está ligado estritamente a uma ação do pretérito, o fator determinante dos caminhos desses seres marginais, trilhando o desespero e o silêncio da redenção, é sempre distante, inatingível – é a chama flamejante em uma infindável escuridão que, aos poucos, vai se apagando.

A Mulher que se Foi (Ang Babaeng Humayo)
dir. Lav Diaz
★★★★½

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Crítica: "DO QUE VEM ANTES" (2014) - ★★★★★


A memória de um cataclismo

Aos poucos, os filmes de Lav Diaz vão chegando ao circuito, de forma lenta e remota, e nesse mesmo ritmo o público brasileiro tem acesso à filmografia do cultuado diretor filipino que a cada filme se supera. Ano passado, quem assistiu Norte, o fim da História, cujo lançamento atrasado permitiu aos espectadores uma introdução desafiadora e essencialmente necessária ao estilo de Diaz, já pôde reconhecer desde então um traço determinante do cinema de Diaz que é tido como sua marca registrada: a duração. Nove, oito, seis, quatro horas... Seus filmes são extensivamente duradouros e requerem um certo tipo de disposição, digamos, por parte do espectador. No caso de Do Que Vem Antes, a sessão dura cinco horas e quarenta minutos.

À medida em que sua filmografia é explorada, passam a ser reconhecidos aspectos mais desenvolvidos e pungentes de seu estilo magistral, que vão desde a desconcertante maturidade dramática até a belíssima composição de planos demorados e caprichosamente marcantes, cobertos pela brilhante e complexa dimensão narrativa que o diretor ostenta, e que transforam o ato de assistir em uma experiência dilacerante, transcendente e única. 

Seu (nem tão) novo trabalho Do Que Vem Antes chegou ao circuito atrasado, em fevereiro, como aconteceu com Norte..., que demorou dois anos para ganhar uma estreia por estas bandas. Entretanto, é bastante compreensível que os filmes do filipino tardam a chegar nos cinemas. São poucos os que se dispõem a distribuir um longa seu correndo o risco de fracasso comercial, sem falar em outros problemas que acabam por acarretar nessa lenta distribuição e comprometem a chegada do filme ao público cinéfilo, e quase que logicamente sempre fica limitada ao circuito de arte quando concretizada. É uma pena, porque esses filmes foram feitos para serem vistos na telona. Visto que são pouquíssimos seus filmes disponibilizados na internet, alguns caso não forem conferidos no cinema, talvez nunca cheguem aos olhos de um cinéfilo que não possui acesso ao circuito mais afastado e restrito. 

Nas primeiras horas de Do Que Vem Antes, somos introduzidos aos personagens, moradores de um vilarejo quase isolado numa região litorânea em Filipinas. A história se passa no começo da década de 70, quando o país estava sob o rígido comando do ditador Ferdinand Marcos. Neste pacato local, coisas estranhas começam a acontecer. Vacas são misteriosamente assassinadas, as pessoas começam a ficar assustadas com acontecimentos tenebrosos envolvendo os habitantes da vila e um clima de terror é instalado, provocando tensão e medo em todos. 

Entre um plano e outro, Diaz costura vagarosamente sua genial trama, que aos poucos vai se enchendo de detalhes e elementos, enquanto os personagens ganham foco e firmeza. Cenas de um cotidiano aparentemente vazio se misturam a sequências desesperadoras, de uma força estremecedora, e que estão ali tanto para nos impactar quanto para causar um certo estranhamento àquele ambiente que transparece tranquilidade, mas na realidade é o palco de bizarrices e tormentos desta crônica hostil.

O suspense meteórico fica evidente nos atos dos personagens, suas ações e reações, verdades e mentiras, segredos que ficam cravados no tempo e no horror. Apesar das demoradas sequências que preenchem este monumento cinematográfico magistral, Diaz segue um padrão narrativo clássico. A trama é enriquecida pela excelência do roteiro, a ótima construção e análise dos personagens e do espaço onde a história se passa, bem como os acontecimentos que rondam o vilarejo e os mais exuberantes truques da linguagem cinematográfica, desfrutados com astúcia e esmero. O domínio de Lav Diaz sobre a história que ele conta é estremecedor e plausível.

O elenco está formidável, simplesmente maravilhoso. Diaz, que também é ator, prova, mais uma vez, que sabe dirigir atores como ninguém, e este é um mérito maior de seu cinema repleto de riquezas. Dentre as performances de destaque, merecem menção: Mailes Kanapi, que já havia dado um show em Norte, o fim da História; Karenina Haniel (provavelmente a melhor do elenco) que interpreta uma jovem com problemas mentais que tem o poder de curar os doentes da vila, e Hazel Orencio, que interpreta a irmã desta jovem que se esforça para cuidar dela. 

Mais uma vez, o genial Lav Diaz prova que sabe fazer cinema como ninguém. O cara foi feito para contar suas histórias e é um mestre nessa arte. As metáforas, as cenas inesquecíveis, os traços mais peculiares e minuciosos deste conto sobre uma sociedade atormentada pelo terror de uma cruel ditadura não apenas política, mas também moral e étnica, e os efeitos mais escabrosos da alienação. Lav se confirma como o cineasta filipino mais importante da atualidade, cujo cinema merece ser revisitado e apreciado em grande escala. E este filme, provavelmente seu melhor, uma obra-prima de puro êxito cinematográfico, uma meditação sobre o sofrimento, os valores humanos e a existência, é um presente para os cinéfilos.

Do Que Vem Antes ganhou o Leopardo de Ouro no prestigiado Festival de Locarno em 2014. O filme mais recente de Lav Diaz, A Mulher Que Se Foi, que conquistou em setembro o Leão de Ouro em Veneza, tem data de estreia no Brasil prevista para 2017, embora já tenha sido apresentado no Festival do Rio recentemente. Enquanto isso, o também atual Canção Para um Doloroso Mistério, que conta com uma duração de incríveis oito horas, segue sem previsão, ainda que tenha participado da Mostra de SP em outubro. 

Do Que Vem Antes (Mula sa kung ano ang noon)
dir. Lav Diaz - ★★★★★

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Crítica: "NORTE, O FIM DA HISTÓRIA" (2013) - ★★★★★


Parece que o único jeito vai ser fechar 2015 sem ver todos os títulos ainda pendentes na minha lista de desejos (só pra vocês terem a noção, ainda falta ver o primeiro volume de As Mil e Uma Noites, Straight Outta Compton, Macbeth, e uma porrada de longas). Estes últimos dias foram corridos, rapaz. Mas, enfim, um dos filmes mais importantes dessa lista, e um dos mais obrigatórios, diria, era esse maravilhoso Norte, o fim da História, que chegou do nada no nosso circuito nesse mês, depois de dois anos na espera, e já veio chegando pra ficar. Trata-se do primeiro filme do cineasta filipino Lav Diaz a ser distribuído comercialmente no Brasil. 

O nome do diretor fez sucesso ano passado durante a Mostra de Cinema de Sampa, onde o mesmo abocanhou o prêmio maior do evento com seu comentadíssimo Do Que Vem Antes. Dá até água na boca falar dessa produção, que dura quase seis horas, se eu não me engano, e tem uma sinopse bastante interessante. Enquanto este último não chegou no nosso circuito (ainda, com esperança), dá pra satisfazer a curiosidade em Norte, o fim da História. E, é claro, não dá pra esquecer a primeira vez. Fantástica. Sublime. Lav Diaz é promissor. Logo na estréia, apresenta uma obra-prima extraordinária, riquíssima em todos os sentidos, tocante por dentro e por fora. 

A filmografia de Lav Diaz tem uma marca registrada: as durações, sempre longas. Norte, o fim da História, num todo, e em relação à duração, é um desafio ao espectador. Não é todo dia que a gente encontra um trabalhão desses, de 250 minutos, mais de quatro horas de filme. É bastante admirável. Mas também diminui um pouco as expectativas. Tanto na questão de imaginar o que o filme poderia reunir, visto a sua longa duração, e o surgimento da dúvida desse longa ser ou não bom. Duração é um perigo, meus caros. Lav Diaz sabe bem o que faz em Norte, não deixa rastro algum de imperfeição e constrói uma obra extraordinária, que abraça um universo de filosofias, pensamentos acerca a sociedade contemporânea, histórias entrecruzadas, personagens fortes e um elenco mais que versátil.

A história gira em torno de três personagens, que são focalizados de maneiras distintas durante as quatro horas de filme, e o andamento vagaroso da narrativa. Fabian é um estudante de direito que deu uma pausa na universidade, homem de opinião firme e consistente, que passa um terço do longa discutindo ética, sociedade e história ao lado de professores, colegas da faculdade e amigos diversos. Esconde, por trás do seu rosto de intelectual, façanhas de gênio e a boa lábia para conversar e discutir assuntos politico-sociais, um passado turbulento e irresolvido. 

Centralizados na segunda hora do longa, os personagens Eliza e Joaquin são casados, vivem numa área pobre do país, e levam a vida humildemente, com seus dois filhos. É seguindo um ato de vingança e justiça por parte do personagem de Fabian à uma agiota suja do local que Joaquin vai preso, sentenciado à prisão perpétua, e tem de deixar sozinha a família pobre. 

Eliza segue os anos trabalhando numa barraquinha de vegetais, e sustenta pesarosamente os filhos e a irmã mais nova, chegando até, numa cena, cogitar a possibilidade de matar as crianças em fim de minimizar o sufoco da vida que leva. Ela é uma pessoa fraca, mas que segue adiante sem se lamentar ou reclamar da vida, educando os filhos da forma certa e lhes norteando a verdade e a não terem vergonha do pai, preso. 

Enquanto isso, na prisão, Joaquin, enfermeiro, cria amizade com um dos presos, e mais tarde tem de enfrentar com ele a ira de um chefão da prisão, Wakwak, que castiga até mesmo a quem o olha errado. Joaquin não escapa da punição dele, mas, mais tarde, é o único a permanecer a seu lado, quando ele se fere, oferecendo ajuda médica. É aí que notamos a humildade e a bondade no homem, de bom coração, e que reserva seu tempo na prisão a ajudar os presos doentes e seguir com as memórias da família, e a saudade. O tal chefão, Wakwak, se revela o oposto do que nos era conhecido. O cara vem se desculpar com Joaquin pelas atrocidades que fez a ele. Um sinal de redenção, e de quem ele realmente é fora dali. 

O caminhar monótono de Norte também implica na quantidade de elementos que há para absorver dentro da obra, os muitos contrastes. Nem tudo pode ser captado de uma só vez. É bom ver o filme repetidamente (se possível). Ou, de repente, pensar mais nele. Ele só tende a crescer com o tempo. Afinal, o que mais esperar de 250 minutos? Obviamente teríamos bastante para digerir. 

Às vezes natural e às vezes surreal. Após cometer um crime sangrento, Fabian entra num estado de choque profundo, atribulado, em constante perturbação. Tudo só intensifica quando ele retorna à cena, depois de algum tempo longe, com uma visita à irmã religiosa, um dos mais profundos capítulos de Norte. É aí que é revelado seu passado, a sua infância e o porquê do afastamento da família. É esse capítulo que contém uma das cenas mais intensas que eu já tive a chance de ver, em tempos, pelo menos para causar em mim um arrebatamento inevitável: a do estupro. Os gritos são atordoantes. E, mesmo que a tal cena não seja completamente exibida, é totalmente amedrontador.

O que fascina em Norte é essa sua autoridade, em ser tão ambíguo e despontar em repletos sentidos, o que faz dele uma peça mística e adorável. A vingança é uma faca de dois gumes. Nem sempre fazendo o bem se recebe o bem. Nem sempre fazendo o mal se recebe o mal. Nem sempre perdoando seremos perdoados. A cultura e o estado da Filipinas, aqui visado superficialmente pelo Lav Diaz, mas no ponto certo a fim de causar influência na história, mostra-se, em aspectos, semelhante à do Brasil. Uma cultura excessivamente religiosa, que vê em Deus a figura maior, "o pacificador e redentor, aquele que filtra os erros e tem o poder de purificar". Todos colocam tudo nas mãos desse Deus, onde buscam a realização de seus sonhos, de suas ambições em geral. Veem nessa figura um justiceiro fiel. 

Norte também é um trabalho de beleza visual irreparável e memorável. Certamente, não é o mais belo filme que vi em 2015, mas destaca-se. Lav Diaz ainda tem muito o que nos mostrar. O cara é show. Se em Norte ele já faz maravilhas, imagine daqui em diante? Mas, enfim, louvemos o presente. Norte, o fim da História é um filme inesquecível. Divaga nas profundezas da alma humana, cativa com sua simplicidade, complexa ao mesmo tempo, encontra nas suas muitas reflexões sobre a participação da reviravolta em prol da justiça o sublime.  Não dá pra reclamar. Em nada. Singular. Espetacularmente singular. Nunca visto. Lav Diaz é o cara.

Norte, o fim da História (Norte, Hangganan ng Kasaysayan)
dir. Lav Diaz -