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quarta-feira, 26 de julho de 2017

DANIEL & ANA (2009)


Neste filme, Michel Franco vai mais fundo ao limite do seu cinema de raízes hanekianas com uma história (real) extremamente provocadora e desconcertante, com momentos de tensão muito bem articulados e uma construção minuciosa de personagens, o foco é a relação de dois irmãos, Daniel e Ana Torres, antes e depois que eles são sequestrados e forçados a fazer sexo diante de uma câmera, vídeo esse que seria vendido através da indústria pornô. A cena em questão é desoladora, tão inquietante quanto claustrofóbica, e a observação da reação dos atores torna-se uma tarefa chocante, embriagada pela perversidade, é um momento seco e impactante, em que não sabemos muito bem o que esperar, embora tenhamos a consciência de que, de uma forma ou de outra, a vida desses dois irmãos sofrerá um forte abalo. Os laços afetivos são inexistentes, apenas restam olhares frios e embaraçosos daquilo que um dia foi uma relação entre irmão e irmã, expostos a um trauma maior. Franco filma tudo isso, o devaneio sexual, a distância, a falta de sentimentos com uma dimensão eloquente e assustadora. Os momentos finais são silenciosamente devastadores, vemos ruir aquela relação e o calmo desespero do irmão por um irmã agora vista com outros olhos, com um sentimento de confusão ou inexplicabilidade. A tonalidade áspera ajuda a compor um clima sinistro, bizarro, evocando o inesperado em uma trama ainda imprevisível.

Daniel & Ana
dir. Michel Franco
★★★

sábado, 5 de novembro de 2016

Crítica: "DIREITO DE AMAR" (2009) - ★★★


O primeiro filme do figurinista de renome Tom Ford é um trabalho muito bonito de se ver, que até um certo ponto consegue se sustentar, mas que amarga quando se aproxima do final. A verdade é que é um filme excelentemente bem fotografado e esta é a única razão pela qual deve-se vê-lo. É claro, temos a performance exuberante de Colin Firth, mas que perde um pouco da graça que ostenta nas cenas iniciais com um desfecho preguiçoso.

Claramente, há momentos extremamente bonitos e interessantes de se acompanhar. Direito de Amar não chega a ser um filme maçante por conta dos belos cenários, das cenas saturadas, dos figurinos de época, das cores sempre vívidas e da estilosa mise-en-scene de Tom Ford. Por mais que seja desleixado, é um trabalho cuidadoso, estiloso, revolto em uma camada de seda tão fina e macia que a gente sente do outro lado. É prazerosamente tenro assistir a um filme tão delicado assim e que apresenta um personagem tão enigmático. Sensibilidade e estilo definem Direito de Amar.

A estética plástica se aproxima de um retrato modernizado dos anos 50 e que também expressa as características e a personalidade de George, interpretado excepcionalmente por Colin Firth. Outra performance de destaque é a de Julianne Moore, como a ex-mulher desvairada do personagem. Aquela cena da dança é bastante curiosa justamente por conta da presença dela, que é uma atriz maravilhosa e talentosíssima, e aqui, por mais que sua participação seja pequena, deixa sua marca.

Enfim, mesmo que seja um tanto decepcionante quanto à estrutura irregular e a duração cansativa, Direito de Amar faz-se importante pela caracterização da homossexualidade de um homem e sua vida "pacata" entre amores, desilusões e desejos, e sua relação consigo mesmo e com o mundo ao redor. Firth está ótimo, só pra finalizar. Não percam essa pérola.

Direito de Amar (A Single Man)
dir. Tom Ford - 

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Crítica: "DENTE CANINO" (2009) - ★★★★



Até compreendo que o filme tem umas bizarrices malucas e absolutamente esquisitas, mas não entendo porque tanta gente diz ter odiado Dente Canino. Certo, é um filme estranho. Mas ruim? Ruim não. Eu acho que é um filme interessantíssimo, que talvez soe um pouco abstrativo ou até mesmo sem gosto, mas que vai amadurecendo na nossa mente à medida em que a gente vai pensando nele.

De uma forma geral, é um suspense excelente. A tensão é inevitável, o choque é desconcertante. O terceiro longa-metragem do cineasta grego Yorgos Lanthimos (quem eu conheci com a surpreendente obra-prima The Lobster, que pra mim continua sendo seu melhor filme) é um exercício cinematográfico cativante, que prende a nossa atenção, e surpreende por ser chocante, maquiavélico e torturador ao mesmo tempo.

Aos poucos, o filme ganha proporções de um filme de terror, com direito a uma série de sequências estranhas realmente amedrontadoras. O elenco é soberbo. As performances são incríveis, inacreditáveis de tão realistas e triunfais. É o filme mais impactante e angustiante de Lanthimos, que a cada filme vai deixando uma ótima impressão da dimensão, da força estética e do poder fílmico de seus trabalhos. Dente Canino é um filme que, no mínimo, merece ser visto. E, provavelmente, revisto. Interessante observar, mais uma vez, as pequenas e maiores obsessões desse diretor brilhante de estilo feroz e memorável, como os finais vagos.

O próximo filme desse grego excepcional, The Killing of a Sacred Deer, rodado em inglês, tem no elenco Nicole Kidman e Colin Farell (que esteve em The Lobster). Esse promete. É esperar pra ver. O lançamento está marcado para ano que vem, nos Estados Unidos, pelo menos. 

Dente Canino (Κυνόδοντας/Kynodontas) 
dir. Yorgos Lanthimos - 

Crítica: "DENTE CANINO" (2009) - ★★★★



Até compreendo que o filme tem umas bizarrices malucas e absolutamente esquisitas, mas não entendo porque tanta gente diz ter odiado Dente Canino. Certo, é um filme estranho. Mas ruim? Ruim não. Eu acho que é um filme interessantíssimo, que talvez soe um pouco abstrativo ou até mesmo sem gosto, mas que vai amadurecendo na nossa mente à medida em que a gente vai pensando nele.

De uma forma geral, é um suspense excelente. A tensão é inevitável, o choque é desconcertante. O terceiro longa-metragem do cineasta grego Yorgos Lanthimos (quem eu conheci com a surpreendente obra-prima The Lobster, que pra mim continua sendo seu melhor filme) é um exercício cinematográfico cativante, que prende a nossa atenção, e surpreende por ser chocante, maquiavélico e torturador ao mesmo tempo.

Aos poucos, o filme ganha proporções de uma produção de terror, com direito a uma série de sequências estranhíssimas realmente amedrontadoras, reforçando a tensão e o pânico. O elenco está soberbo. As performances são incríveis, inacreditáveis de tão realistas e triunfais. É o filme mais impactante e angustiante de Lanthimos, que cada vez mais vai deixando uma ótima impressão da dimensão, da força estética e do poder fílmico de seus trabalhos. Dente Canino é um filme que, no mínimo, merece ser visto. E, provavelmente, revisto. Interessante observar, mais uma vez, as pequenas e maiores obsessões desse diretor brilhante de estilo feroz e memorável, como os finais vagos, como aquele de The Lobster. Tão anti-conclusivo (no bom sentido). 

O próximo filme desse grego excepcional, The Killing of a Sacred Deer, rodado em inglês, tem no elenco Nicole Kidman e Colin Farell (que esteve em The Lobster). Esse promete. É esperar pra ver. O lançamento está marcado para ano que vem, nos Estados Unidos, pelo menos. 

Dente Canino (Κυνόδοντας/Kynodontas) 
dir. Yorgos Lanthimos - 

sexta-feira, 22 de julho de 2016

3 COMÉDIAS + 1 DOCUMENTÁRIO + 1 FILME SOBRE CULINÁRIA


Roman Polanski: A Vida em Filmes (Roman Polanski: A Film Memoir)
dir. Laurent Bouzereau - 

Já havia sido feito, e recentemente, um documentário sobre o querido cineasta polonês Roman Polanski (Roman Polanski: Procurado e Desejado, de Marina Zenovich, ano: 2008). Este Roman Polanski: A Vida em Filmes, lançado um tempinho mais tarde, em 2011, se baseia numa premissa um pouco diferente da versão de 2008. Andrew Braunsberg, produtor (Muito Além do Jardim, O Inquilino) e grande amigo de Polanski, é recebido na casa do cineasta na Suíça, onde ele cumpriu pena depois de ter sido preso em 2009, e o documentário se instala numa conversa entre Polanski e Braunsberg sobre a trajetória e a carreira do diretor. Trata-se de um dos documentários mais interessantes que eu vi de uns tempos pra cá, se bem que eu não ando vendo muitos documentários ultimamente. Enfim, é certamente um filme fascinante e interessantíssimo. E, para fãs do Polanski como eu, Roman Polanski: A Vida em Filmes é obrigatório. Achei muito curioso quando o Andrew perguntou qual era o filme que o Polanski considerava ser o melhor dele e ele disse que era O Pianista, que, de fato, é um dos melhores trabalhos dele. Aliás, O Pianista, apesar de ser a biografia de Władysław Szpilman, tem um toque autobiográfico por parte do Polanski, que experienciou de perto o terror e a agonia durante a guerra. Durante o documentário, ele fica emocionando inúmeras vezes, ao lembrar da família, do pai, que foi para um campo de concentração quando ele ainda era criança e quem ele milagrosamente reencontrou anos depois (Polanski chega a relatar que, depois que o pai foi levado pelos nazistas, vivia confundindo outros homens com ele, na esperança de ele continuar vivo), da ex-esposa Sharon Tate, que foi brutalmente assassinada às vésperas de dar à luz pela "família Manson" em 1969. Polanski teve uma vida muito difícil. Surpreendentemente, a carreira dele começou no rádio, beirou o teatro, até que ele se firmou no cinema, como um figurante, depois fazendo curtas, até se tornar o grande diretor que é, dono de alguns dos melhores filmes já feitos, como Chinatown, A Faca na Água, O Pianista, Tess, O Bebê de Rosemary, Repulsa ao Sexo, entre outros. Visto na Netflix (17/07).


Julie & Julia
dir. Nora Ephron - 

Há quem diga que Nora Ephron era a versão feminina do Woody Allen. Aclamada pelo trabalho de roteirista (indicada 3 vezes ao Oscar de Melhor Roteiro Original por Silkwood, Harry & Sally e Sintonia de Amor, não tendo vencido nenhuma vez, injustamente e infelizmente), e mais tarde celebrada como diretora (Sintonia de AmorMens@gem pra Você e Bilhete Premiado estão entre os filmes que Nora assina como diretora/roteirista), Nora nos deixou cedo demais, há quatro anos. Muito triste. Julie & Julia foi o último trabalho da talentosa Nora tanto como diretora e roteirista. Não é a obra-prima dela, mas é um filme encantador. Eu diria que é quase como um feel-good, daqueles de adoçar o nosso imaginário e dançar valsa com nossas emoções. A irretocável Meryl Streep entrega uma performance deliciosa, apaixonante, brilhante, no ponto, tudo o que se espera de uma atuação dela: um espetáculo. Amy Adams, que de talentosa tem de sobra, também não está nada mal na pele de uma blogueira, Julie, que escreve sobre culinária e que idolatra a cozinheira Julia Child, sua musa e inspiração. O filme se equilibra em dois planos, o da Julie e o da Julia, duas mulheres se aventurando no mundo da culinária e compartilhando diversas coincidências e acasos, embora sejam separadas pelo tempo. O roteiro é fenomenal. Stanley Tucci e Chris Messina ganham espaço como coadjuvantes. Não dá pra reclamar de Julie & Julia. Visto em DVD (dia 24/06).


Para Maiores (Movie 43)
dir. vários - 

Ô filmezinho ruim da bexiga! Quer dizer, ruim é pouco. Para Maiores é uma porcaria de filmes. Simplesmente um lixo. Entraria fácil numa lista de "piores filmes já feitos". É aquele tipo de filme que só os idiotas gostam. Aliás, é uma ofensa ao paladar fílmico das pessoas idiotas dizer que esse é o tipo de filme que lhes agrada. Para Maiores é um filme baixo, muito baixo. Quase odiável. A reunião de um elenco realmente invejável (Naomi Watts, Kate Winslet, Hugh Jackman, Emma Stone, Halle Barry, Liev Schreiber, Anna Faris, Chris Pratt, Richard Gere, Jack McBrayer, Uma Thurman, Katrina Bowden, Bobby Cannavale, Chloë Grace Moretz, Gerard Butler, Terrence Howard, Elizabeth Banks, e por aí vai). Na verdade, o filme é uma reunião de curtas (taí o porquê do elenco gigantesco) de diferentes diretores que os filmaram ao longo de um certo tempo para esse projeto. E, mesmo assim, isso não justifica a escolha dos atores, já que cada sequência é mais ridícula e menosprezível que a outra. Seria dinheiro? Pouco crível, já que o financiamento foi relativamente baixo (tá na cara porque ninguém quis produzir isso). Seria por entretenimento? Improvável, já que de divertido Para Maiores não tem é nada. Seria pela arte? Impossível. É vergonhoso e inútil. Dá vergonha de assistir a uma porcaria dessas. Repugnante, na mais franca das hipóteses. Visto na Netflix (16/07).


O Amor Custa Caro (Intolerable Cruelty)
dir. Joel Coen, Ethan Coen - ★★★

Os irmãos Coen são gênios. Apesar de estar longe de estar entre os melhores filmes da dupla, Amor a Todo Custo é um exemplar veemente de competência e vigor dessa incansável dupla que de filmes bons tem a filmografia lotada. George Clooney vive um advogado que come na mão de uma mulher manipuladora caçando o marido "ideal". É um de seus trabalhos mais divertidos e tenazes. Os desempenhos de Catherine Zeta-Jones e George Clooney são imperdíveis. Mesmo sendo um filme mais incomum , não deixa de ser caprichadíssimo, em especial a fotografia de Roger Deakins, sempre pulsante. O Amor Custa Caro fascina pela originalidade. Cativante, sem deixar de ser profundo. Leve, sem deixar de ser preciso. Engraçado, sem ser imaturo. Irônico, sem ser desrespeitoso. Mais uma vez, os Coen mostram que dominam o gênero comédia e são bons no que fazem. Não há razão para ser tão subestimado e ignorado. A crítica pisoteou e desperdiçou o filme. Uma pena, pois é excelente, e merecia ter um reconhecimento à altura. Visto na internet (24/06).


Procura-se um Amigo Para o Fim do Mundo (Seeking a Friend for the End of the World)
dir. Lorene Scafaria - ★★

Este eu estava devendo ver há um tempão. Na época em que o descobri, ano passado, fiquei extasiado quando soube que nele Steve Carell, um comediante que eu considero um cara fenomenal, e Keira Knightley, uma das atrizes mais bonitas e talentosas dos últimos anos, estavam contracenando. A história também é bastante curiosa. Um homem (Carell) é abandonado pela namorada, e pra completar o fim do mundo se aproxima. Ele e a vizinha (Knightley) decidem resolver alguns assuntos pendentes juntos, e partem em uma viagem bastante excêntrica enquanto um meteoro se aproxima da Terra. É um filme que tem seus pontos positivos mas que é extremamente maçante. A dupla Keira e Steve é sensacional. Inconvencional e ocioso, Procura-se um Amigo para o Fim do Mundo tem seus momentos, mas é, na maior parte do tempo, desgastante e supérfluo. Visto na Netflix (11/06).

domingo, 24 de abril de 2016

TRÊS CURTAS DE KLEBER MENDONÇA FILHO


Abaixo, comento três curtas do cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho, diretor de O Som ao Redor.


Vinil Verde

Visto em 25/01 desse ano. Rapaz, nunca saberia que ficaria tão encantado com o lado curtametragista de Kleber Mendonça Filho, cujo longa de estreia (O Som ao Redor) é um baita de um filmaço! Fiquei mesmerizado com Vinil Verde, um dos curtas mais famosos de Kleber e muito possivelmente um dos melhores curtas que eu já vi. É a historinha de uma garota que ganha de presente da mãe um toca-discos. A mãe lhe diz que ela pode tocar quantos discos ela quiser, menos o disco verde. O filme foi realizado no formato fotomontagem, como La Jetée, e é uma maravilha estupenda. Fico imaginando o que o diretor quis passar com esse curtinha tão enigmático e tenebroso. Confesso que até eu fiquei assustado em certos momentos. De qualquer forma, é mesmo um "doce curta de horror para crianças", como o subtítulo sugere. Fiquei instantaneamente estonteado por essa pequena fábula fílmica, adaptação de um conto infantil russo conhecido como "Luvas Verdes". Bonito, estremecedor e encantador. 


Eletrodoméstica

Esse eu conferi hoje. Trata-se de um curta engenhoso e tão enigmático quanto Vinil Verde, embora, se formos ver de perto, bastante simplista e sem exageros. Outra semelhança com Vinil Verde é a qualidade. Eletrodoméstica lembra bastante uma sequência de O Som ao Redor, dando a entender que o diretor praticamente retirou aquela cena, estrelada pela dona de casa entediada (Maeve Jinkins), deste curta. Como a personagem da Jinkins em O Som ao Redor, a protagonista de Eletrodoméstica é uma dona de casa que realiza tarefas da casa durante o dia e que cultiva certas "diversões" e rituais em seu cotidiano doméstico, bem como "masturbar-se na máquina de lavar" e "baforar no aspirador de pó". É um trabalho bastante curioso e interessante, uma observação inquietante e perceptiva sobre a solidão e a rotina. Embora a Maeve não estrele o curta, temos a atriz Magdale Alves, tão talentosa e memorável quanto, no papel da dona de casa. Aliás, quem interpreta a filha dela neste curta é a mesma atriz que fez a menininha de Vinil Verde, Gabriela Souza (taí outra semelhança com Vinil Verde). A direção de fotografia do curta é extraordinária (taí outra semelhança com Vinil Verde).


Recife Frio

O melhor dos curtas de Mendonça Filho que conferi foi, certamente, Recife Frio. Ah, como eu amei Recife Frio. Um curta futurista, Recife Frio pode bem ser considerado o La Jetée nacional. Embora esteja distante do clássico quanto ao formato, Recife Frio, que já em sua introdução nos lembra La Jetée, se baseia numa premissa bastante graciosa e estranha: Recife, num futuro próximo, ser abalada por um profundo transtorno climático, que deixa o litoral de Pernambuco sob um frio intenso e incessante, extinguindo o calor e alterando a vida da população. Mas, diferentemente do que poderia se esperar, Kleber brinca genialmente com os elementos da trama, dando a ela um gostinho mais cômico e inesperadamente delicioso. Quase o curta inteiro é como se fosse uma pequena reportagem televisiva, com um jornalista hispânico (?) debatendo e discutindo a onda de frio que abala o litoral do Nordeste e que transforma os hábitos da população pernambucana, inclusive dos cidadãos de Recife, como é analisado. A maior parte do tempo a trama é explorada com um olhar afiado e minucioso, de forma com a qual o diretor aborde diversas temáticas, como desigualdade (a sequência do apartamento dos ricaços, onde um adolescente expulsa a empregada do quartinho dela, é uma das minhas sequências prediletas), turismo, choque social... A sátira e a crítica estão presentes, mas também há a impressão de que tudo seja mesmo uma grande brincadeira, uma grande de uma descontração, com momentos de comicidade excêntrica e agradáveis simbolismos, que não passam de uma grande brincadeira do diretor, uma perspectiva cômica e sarcástica sobre os hábitos e os problemas da sociedade dos tempos atuais. Ainda sim, é um filme bastante especial e que merece atenção. Eu gostei pra caramba. É pura perfeição. O formato é genial, as sacadas do roteiro são brilhantes, a direção do Kleber é formidável. Recife Frio é primoroso. Eu adorei, sinceramente. Um trabalho fabulosamente bem-feito. Ah, e só pra constar, o curta foi dedicado a Chris Marker e Terry Gilliam, o que explica um pouco as referências a La Jetée e ao trabalho do Gilliam em geral (Monty Python, Brazil, 12 Macacos...) e o climão sci-fi debochado. 

-- "Socialite revela: 'Agora os pobres estão mais 'chic' passando frio'". 

sexta-feira, 18 de março de 2016

Crítica: "UM HOMEM SÉRIO" (2009) - ★★★★


2016 está nos trilhos e eu estou mega atrasado com o calendário de estreias. Ainda bem que só estamos em março e se eu correr dá pra quitar a dívida. O problema vai ser se eu me apegar e deixar os lançamentos passarem e acumular filmes (como se já não bastasse a quantidade gigantesca de filmes que eu tenho pra ver). A anta aqui fica nessa onda de rever pra criticar e só se ferra. A culpa é da minha desorganização. Tenho que ser mais organizado. É uma questão de bem estar com o ambiente e o tempo. Otherwise, vou acumular filmes, vou me estressar e vou me atrapalhar todo com a minha rotina. Enfim, bora parar de reclamar e falar um pouco sobre Um Homem Sério, dos Irmãos Coen, que esse ano (daqui a pouquinho, pra ser mais exato) regressarão às salas de cinema com Ave, César!

Um Homem Sério é aquele tipo de filme que você vai ver desprevenido e acaba se surpreendendo além da conta. A questão nem é ir informado, mas é um filme peculiar que agrada pela peculiaridade, independente da simpatia. E isso não vai ser lá estranho pra quem acompanha os irmãos Coen, cujos projetos são bastante excêntricos por natureza, e em muitos sentidos. Neste filme, comédia de humor negro que também funciona formidavelmente como comédia dramática, ambientado na década de 60 (?) um professor de física judeu, Lawrence Gopnik (Michael Stuhlbarg), não está feliz com a sua vida e busca o auxílio espiritual de três rabinos diferentes no intuito de encontrar respostas para os seus problemas: a esposa está o deixando por outro homem, um aluno asiático está na cola dele tentando recuperar uma nota, e um turbilhão de acontecimentos seguintes inconvenientes e desprezíveis pousam no terreno de Lawrence. 

Antes de mais nada, é praticamente impossível não ficar contente com o espetáculo técnico que é Um Homem Sério. A fotografia sempre deslumbrante de Roger Deakins está presente, e em ótima forma; a trilha sonora é igualmente desnorteante; o elenco é autêntico; o roteiro é genial como nenhum outro da dupla; a direção é brilhante ao extremo... Um Homem Sério conquista fácil e, à medida em que corre, vai nos eletrizando com tamanha perspicácia que é difícil descrever. 

Ambição não é lá bem a cara de Um Homem Sério. É um filme bem despretensioso, na verdade, tratando-se dos irmãos Coen, muito provavelmente até o filme mais pessoal da dupla. O que vale é degustar a abordagem e as delícias da narrativa empenhada, que oferece muito ao espectador.

Algumas sequências são bem memoráveis, possivelmente concorrendo até mesmo a melhores da filmografia dos Coen, como a cena inicial, ambientada num tempo passado em um pequeno vilarejo onde um homem judeu chega em casa e relata para a esposa que se encontrou com um conhecido dela na vinda pra casa, que a moça já diz estar falecido. É aí que eles recebem a visita do tal fantasma, que foi convidado pelo marido para tomar uma sopa. A mulher o apunhala, e ele então deixa a casa, a sangrar, intrigando o casal. É um plano especialmente surreal mas delirante de curioso. O outro é a cena do bar mitzvah do filho do Lawrence, engraçada e estranhíssima. Destaco também a sequência final e algumas sequências oníricas com o o professor. 

A fábula moral-religiosa dos Coen filosofa sobre fé e validade do pensamento humano diante das expectativas do existencialismo e a nossa posição sobre o bem e o mal e como isso reflete na nossa perspectiva sobre a vida em si. A questão está em interpretar aquilo nos cerca. Tudo depende de como vemos as coisas, do jeito que interpretamos aquilo que nos acomete, como bem diz a frase que dá partida no filme: "Receba tudo o que te acontece com simplicidade". Será que a nossa posição sobre os valores da religião estão, de fato, justos? A fé implica no rumo das nossas vidas? O filme levanta diversas questões. A meditação metafórica sobre aceitação, crença e realização desdobra-se eu uma série de questionamentos saudáveis e que tendem a amadurecer no nosso consciente com o passar do tempo. É intrigante e atraente. Sem falar também que o filme mexe com diversas temáticas dentro do judaísmo (passagens, provérbios, personagens, éticas...), o que é recomendável e tanto pra quem é mais afeminado à religião, familiarizado com a cultura judaica. Ah, e eu adorei a inclusão da música-tema "Somebody to Love", da banda Jefferson Airplanes. É uma das minhas canções prediletas. Só de terem a posto aqui fiquei estonteado. 

Um dos mais recentes (e primorosos) trabalhos dos Coen é um interessante e memorável exercício de reflexão que instiga e maravilha o espectador, que abre portas para várias possibilidades e divagações. Penso e penso, e o filme vai crescendo na minha mente. É impressionante. Mais uma vez, os geniais Coen Brothers emplacam pontos com uma obra deliciosamente bem-feita e digníssima de aplausos, uma experiência única.

P.S.: Pra quem procura uma análise mais aprofundada sobre o filme, recomendo demais este endereço. Me ajudou a compreender muita coisa, mas vale lembrar que o processo de digestão de Um Homem Sério é vagaroso mesmo. O filme respira com o passar do tempo. Mas se você não viu o filme ainda, não é aconselhável visitar, já que ele contém spoilers. 

Um Homem Sério (A Serious Man)
dir. Joel Coen, Ethan Coen - 

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Crítica: "ARRASTE-ME PARA O INFERNO" (2009) - ★★★★


Nossa, fazia um tempão que tinha visto Arraste-me para o Inferno. Me lembro que uma amiga até tinha o DVD e me emprestou, mas da primeira vez que vi, lembro que foi quando passou na TV a cabo, isso em 2012, 2013 no máximo? Enfim, rever Arraste-me para o Inferno era outra coisa que eu devia fazia é tempo. O melhor de tudo é que, mesmo que eu já tenha visto o filme, ele continua do mesmo jeito. Impressionante. Talvez nesta revisão eu não tenha ficado lá muito assustado quanto da primeira vez, mas é legal rever e analisar de perto o tecnicismo e os truques do diretor Sam Raimi neste filme de terror à moda antiga, paráfrase energética do cinema B. 

O filme narra a história de uma jovem mulher que trabalha num banco e que, após um episódio tempestuoso, descobre uma maldição, evocada por uma senhora cigana, e que começa a fazer da vida dela um inferno só. A moça passa a contatar diversos médiuns, na intenção de buscar ajuda e se desviar do trágico destino que a espera.

A competência de um elenco sem igual (Alison Lohman, Lorna Raver, Adriana Barraza, Justin Long, Dileep Rao) oferece ao filme um contraponto vigoroso. Arraste-me para o Inferno é aterrorizante, de sequências hipnotizantes e singulares (a cena do estacionamento é a melhor de todas). Há uma enorme delicadeza por trás de todas as cenas. O esmerado diretor Sam Raimi capricha nos clichês adoráveis do gênero trabalhado e põe em tela a força de seu cinema e de seu talento. Os caprichos técnicos, em especial o uso de efeitos visuais baratos, reforçam a ideia de nostalgia e terror. O resultado é sublime, um dos melhores trabalhos de horror realizados nos últimos tempos. Merece ser visto, e com certeza revisto. É um primor raro.

Arraste-me para o Inferno (Drag Me to Hell)
dir. Sam Raimi - 

domingo, 31 de janeiro de 2016

Crítica: "O FANTÁSTICO SR. RAPOSO" (2009) - ★★★★


Pelo que eu me lembro, O Fantástico Sr. Raposo foi o primeiro filme do Wes Anderson que vi. Foi uma experiência memorável, faz um tempão já. E, visto o marco que foi, acho que é filme perfeito para se lançar na carreira do Wes. É uma aventura belíssima e harmoniosa, asseguradamente um dos melhores filmes dele e que reflete bem o espírito do seu estilo selvagem e calculado, preenchido pela beleza e a poesia dos detalhes. Uma animação directed by Wes Anderson, é tudo o que você precisa saber sobre O Fantástico Sr. Raposo. O resultado é fabuloso, quão admirável.

Anderson, mais uma vez, assume a liderança de um projeto sensacional, outra pérola dentro da sua carreira consistente. Como ele quase nunca erra a mão (não sei se ele já errou alguma vez, pra ser mais exato), não houve segredo em O Fantástico Sr. Raposo. Ele altera o formato (animação) e estampa certas novidades, mas pra quem o conhece nem tudo é inovação. Num bom sentido. Quero dizer, tem gente que não gosta, mas, desculpem-me os haters de Wes Anderson, eu amo o minimalismo do Wes (é praticamente a marca registrada dele). Em O Fantástico Sr. Raposo, ele exercita tão bem esse complexo que é pouco dizer que trata-se de talento. Um dos principais diretores do cinema independente americano conseguiu provar que a criatividade vale mais do que o orçamento em seu filme.

As crianças talvez não terão a mesma facilidade que a de um adulto, ou até mesmo a do espectador adolescente, para compreender a história e a estética de O Fantástico Sr. Raposo. E não é nem pela questão da abordagem de certas temáticas dentro da trama, que é existente, mas numa escala menor e desqualificável falando de compatibilidade com as exigências do público infantil. O que eu quero dizer é que Wes fez este filme não pensando necessariamente em adequá-lo à estrutura classicamente infantil que o gênero em questão comunalmente inspira. Mas é completamente compreensível se a criança não sacar o senso do desenho, por exemplo. Os crescidos saberão saborear mais o longa.

Sim, O Fantástico Sr. Raposo é um filme feel-good. Afinal, qual filme do Wes não é? O cara vive enfurnado em traminhas de aventura charmosa e antiquada de visual esplendorosamente sublime a ponto desses trabalhos serem automaticamente sustentados por esse instinto aventureiro, e certamente não seria em O Fantástico Sr. Raposo que ele viria a interromper essa sequência (só pra não esquecer, os dois trabalhos anteriores a O Fantástico Sr. Raposo são A Vida Marinha com Steve Zissou e Viagem a Darjeeling). São esses pequenos detalhes que fazem de Wes Anderson o Wes Anderson, ora essa!

O filme é adaptação do livro homônimo do Roald Dahl (autor infantil, que também escreveu Matilda e A Fantástica Fábrica de Chocolate), e a adaptação para animação fica nas mãos de Wes em parceria com seu colega indie Noah Baumbach. Por pouco os dois não foram indicados ao Oscar. Uma pena, logicamente, porque o roteiro de O Fantástico Sr. Raposo é exímio, item indispensável no bom funcionamento da produção em si.

O elenco de dubladores originais preenche um oráculo inteirinho (risos). George Clooney, Meryl Streep, Jason Schwartzman, Bill Murray, Willem Dafoe, Owen Wilson, Wally Wolodarsky, Eric Anderson, Michael Gambon, Jarvis Cocker, o próprio Wes Anderson, Hugo Guiness (co-roteirista do recente O Grande Hotel Budapeste), Brian Cox, Adrien Brody, Roman Coppola (filho do mestre do sobrenome), Garth Jennings entre outros. Uma curiosidade rápida: quem dubla o sr. a sra. Fox em francês é o Mathieu Amalric e a Isabelle Huppert (ah, a minha adorada Isabelle Huppert!), respectivamente.

A beleza inesperada em O Fantástico Sr. Raposo, que pode ser percebida tanto através do T.O.C. de Wes Anderson quanto pela emoção que nos é transmitida ao decorrer das uma hora e meia de filme, é fulminante, de deixar qualquer um vislumbrado. É mais um dos filmes em que Wes, além do ótimo diretor/roteirista que é, se mostra cuidadoso com a aparência de seus trabalhos, não só no interior mas também no exterior.

O Fantástico Sr. Raposo é, ao mesmo tempo, uma fábula divertida e uma aventura elegante. Não chega a ser maior que O Grande Hotel Budapeste mas se iguala ao igualmente temperado e leve Moonrise Kingdom. A já costumeira delicada doçura do Wes Anderson marca presença e acerta em cheio na missão "nos deliciar". Não há decepção. O Fantástico Sr. Raposo é cheio de ternura e simplicidade. Apesar da inegavelmente maravilhosa história, o que novamente volta a cativar e energizar o espectador tratando-se de um trabalho do Wes é a magistral e sem sombra de dúvidas prazerosíssima magia técnica, criativa e perspicaz ao extremo. É, enfim, pura poesia.

O Fantástico Sr. Raposo (Fantastic Mr. Fox)
dir. Wes Anderson - 

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Crítica: "UM OLHAR DO PARAÍSO" (2009) - ★


Há quem estranhe o envolvimento de Peter Jackson nesse pesado, porém fraco, drama, que marca uma das últimas recentes produções de um cineasta competente e que raramente desaponta. Bem, a raridade foi quebrada na realização deste pequeno melodrama que não convence, é total perda de tempo e, de tão sacana, desperdiça um elenco massa, que tem brilho próprio, mas é minimizado pelo desgosto e o fracasso geral dessa bomba. Mistura imprevisivelmente ruim de drama familiar, fantasia e suspense, Um Olhar do Paraíso tinha tudo pra dar certo. Só faltou mesmo qualidade. 

Os momentos iniciais do filme, que retratam o cotidiano da ainda viva Susie Salmon, suas aflições pessoais, e a vida em família, até que dá pra engolir, embora também seja, em determinadas partes pra lá de incômodo. Porém, é justamente depois de uma hora, ou menos que isso, que o filme começa a queimar, os olhos ardem e o cansaço bate. Um Olhar do Paraíso peca quando, depois de um maturo prólogo, vende uma sensibilidade batida e defeituosa que contrariam o que essa abertura justamente propôs, é tanto que eu não entendi muito o que veio sendo mostrado a partir dali, e qual era a real intenção do Peter abordando metáforas espirituais mescladas com um amargo tom de culpa e brutalidade. 

Há muito o que ver em Um Olhar do Paraíso, mas é tudo muito confuso para ser tragado de uma só vez. Tudo vem misturado, como numa avalanche. A hipocrisia do roteiro, tremendamente ruim (para alguém do nível de Peter Jackson, acompanhado da esposa Fran Walsh e Phillipa Boyens) confirma essa falta de precisão, adequamento e sentido dele. Um Olhar do Paraíso, na pior definição do termo, é um drama poser. De tanto explorar vida após a morte, assassinatos diabólicos, delegação filosófica e superação inconsequente, não satisfaz a fome das expectativas, e uma desgraçada desnutrição nos abate, junto da certeza da porcaria que é, após um final desolador que mesmo assim não consegue pagar o estrago - a mesma situação do elenco e de outros elementos, por exemplo técnicos, aqui membrados. 

Digo, ainda que seja um lixo, não deixa de ser escassamente apreciável, na existência de uma bela fotografia do Andrew Lesnie, colaborador de Peter e o responsável pelo brilhante visual épico da trilogia O Senhor dos Anéis, a grande obra-prima do Jackson; uma trilha sonora que funciona perfeitamente no fundo das cenas passadas no paraíso da garota morta, comandada por Brian Eno; um elenco mais uma vez excelente, que re-revela o poder de Saoirse Ronan, famosa por Desejo e Reparação, e ainda sim fabrica, por mais incrível que soe, a melhor performance cinematográfica do Stanley Tucci, na pele do sádico e monstruoso serial killer George Harvey, embora até mesmo nessa sucessiva performance que levou Stanley à várias premiações seu personagem seja muito mal escrito. Ou melhor, adaptado, já que o filme vem do best-seller The Lovely Bones, da Alice Sebold, romance elogiadíssimo, ao contrário do seu desastroso filme. Sem falar no Mark Wahlberg, Rachel Weisz, Susan Sarandon, entre outros que compõem esse rico pessoal. E, mesmo assim, tão bem financiado e com uma equipe fera, Um Olhar do Paraíso mostra mesmo que Peter, mesmo tendo no currículo um drama acentuadíssimo, o glorioso Almas Gêmeas, não deveria ter trocado o universo fabuloso que lhe rendeu O Senhor dos Anéis e O Hobbit, desperdiçando energia num trabalho asqueroso desses, mais um exemplar do mal que acomete os filmes modernos, que, com tanto potencial, desanda por desordem. E que título nacional ferrado, não? Parece nome de livro da Zíbia Gasparetto, cara. Não sei as outras plateias que viram, mas o chamariz dele em favor à abordagem do filme não conseguiu me pegar não. Mas, afinal, é a distribuição no Brasil.

Um Olhar do Paraíso (The Lovely Bones)
dir. Peter Jackson - 

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Crítica: "IN THE LOOP" (2009) - ★★★★


Taí um grandioso exemplo de sátira política, que soma toques exagerados de humor negro, a competência de um elenco e o controle de um gênio absolutamente imprescindível, Armando Iannucci. Inspirado no seriado britânico The Thick of It, In the Loop, estreia cinematográfica de Armando, típica comédia sorriso-canto-de-boca, não vai provocar altas gargalhadas nem nada do estilo, apesar da acirrada verborragia que acaba, por vezes, penetrando no imaginário cômico do público, mas capricha num humor de qualidade raramente visto, ainda mais num filme que dribla política e um gênero tão complicado de se trabalhar. O filme não passa de takes locados em gabinetes, prefeituras, departamentos, aeroportos, comitês, focados num inusitado personagem, o ministro Simon Foster, enquanto tenta amenizar os efeitos de um catastrófico, acidental e polêmico depoimento que gera consequências inimagináveis.

Na Inglaterra, Foster enfurece Malcolm Tucker, o diretor de comunicações do primeiro-ministro, seu colega sarcástico e boca-suja que parece não suportar o trabalho de tanto reclamar e maldizer os tropeços da trupe dele. O novato Toby Wright passa a acompanhar Simon em suas viagens, frequentes, e reuniões, e especificamente vivenciar a tensão de trabalhar ao seu lado. Nesse depoimento "fatal", Foster citou uma "imprevisível guerra", algo que alerta os E.U.A. de um possível conflito e gera o maior tabu.

Em outro ponto, Simon volta a citar tal guerra usando um confuso exemplo de um avião, um congestionamento, e uma montanha, o que novamente é motivo de falatório. Entre comitês que não resultam em nada e furos confidenciais, a trama explosiva de In the Loop ganhou minha aprovação, até porque fica bem ridículo exigir de um filme sem ao menos ter o visto e receber como resposta uma revanche bem justa à essa expectativa com diálogos inteligentes e passagens divertidíssimas, e ainda não gostar do filme. Certamente, In the Loop fez por merecer. 

A comédia desmascara de vez a política e a despe numa vertiginosa jornada adentro seus personagens eufóricos e suas manias de autoridade impulsivas, o que é extremamente delicioso. Enfim, é Armando Iannucci. Tudo lembra mesmo um pouco de Veep, ainda mais o núcleo americano, que ainda tem a Anna Chlumsky roubando a cena. O Zach Woods, do The Office, também deixa In the Loop com um arzinho meio pseudo-documentário, embora não seja (oficialmente). O uso de contextos simbólicos e piadas infladas fortificam o senso hilário de toda a história, estrategicamente falando.

Afinal, como eu mesmo vivo proclamando, política posa de séria, mas no fim é um monte de nada. No fim, só nos resta rir das situações constrangedoras que essa área vitimiza. E quem é melhor do que Armando Iannucci para fabricar comédias tão boas como essa? Tão sarcásticas e malévolas, mas no fundo humanas, que tentam racionalizar a esperança e o comportamento humano dentro de um setor que porta um caráter tão nervoso, rígido por natureza, mas que na verdade não passa de uma enorme brincadeira. Política é isso, minha gente. A intenção não é entendê-la, mas sim desfrutar da confusão que ela é. In the Loop, por essas e outras mais razões, é uma obra sinceramente engraçadíssima e versátil, e com certeza merece ser vista, ainda mais em virtude da situação atual da política brasileira.

In the Loop
(título não-oficial no Brasil: Conversa Truncada)
dir. Armando Iannucci - 

domingo, 26 de julho de 2015

Crítica: "INIMIGOS PÚBLICOS" (2009) - ★★★★


O mais triste deste domingo é que começa a última semana de minhas férias. Na verdade, os últimos dias dela, já que quinta-feira retornarei à ativa. E, mesmo que eu tenha visto uma porrada de filmes nesse intervalo, não acredito que o recesso foi tão bom assim. Fiquei gripado logo no meio dele, e em seguida, veio a bronquite. Fiquei em casa o tempo todo, e não saí para quase nenhum lugar, à exceção do cinema, ainda tendo visto pouquíssimos filmes que entraram em cartaz ultimamente. Bem, em comparação com as férias de junho/julho do ano passado, esta vence, já que na época, em virtude da Copa, as férias não duraram nem ao menos um mês. Mas eu queria ter saído mais. No fim de tudo, passou tão rápido. Enfim, foi o que teve pra hoje. Espero que o próximo recesso de dezembro/janeiro, que é bem mais longevo, me renda o mesmo que as últimas férias de dezembro/janeiro renderam, já que foram ótimas. Elas sempre são. 

E chegamos ao segundo semestre de 2015. Tomara que ele passe bem rapidinho. Mas, mesmo nesse melancolia toda, até que fico feliz por voltar ao meu cotidiano. Mesmo que as férias sejam tão ótimas, se afastar do dia-a-dia não é a minha pretensão, e talvez nem será. Fechando as minhas férias, que ainda não se encerraram ao todo, vejo este belo drama estrelado por Johnny Depp, e dirigido pelo grande Michael Mann, cheio de atrativos e uma natural competência, mas que não escapa das imperfeições. Inimigos Públicos, filme que há muito tempo andava em meus pensamentos, de todo não é um filme ruim. Até que é legalzinho. As sequências de ação são lindíssimas, as performances, manejadas e feitas por um elenco afiadíssimo, são graciosamente espetaculares, e a reprodução técnica da época em que o filme ambienta-se não pode, ao todo, ser resumida num único adjetivo senão relatada meticulosamente, o que eu farei em breve.

A história real do assaltante de bancos John Dillinger é recontada com maestria em Inimigos Públicos. Desde a planejada-com-esperteza fuga da prisão de John até os momentos finais de sua carreira como assaltante, Inimigos Públicos faz uma detalhada e sensível revisão. O que se ausentou aqui em Inimigos Públicos, especialmente na hora da narração, foi o clímax. Quando ele surge, surge do nada e às vezes causa transtornos para o espectador, criando confusão e, em seguida, caos. Os movimentos ágeis e repentinos da câmera também contribuem para esse clímax invertido, algo que, se por um lado contribui, dando ao filme um aspecto mais realista, por conta da dimensão fotográfica, até "futurista", nesse outro nem tanto. 

Embora não seja superficial, Inimigos Públicos deixa uma impressão de que é. E isso incomoda um pouco, por que no fundo não é um filme ruim, mas parece que ele mesmo se esforça ao máximo para ser, e não consegue, o que é bem estranho, convenhamos. Tiro, porrada e bomba mata a sede do público por ação e adrenalina, mas não cala o desejo de ver uma trama de qualidade na tela. Não que Inimigos Públicos não tenha uma boa trama. Mas eu sinto que falta só um pouco de força nela - a timidez da narrativa, que aparenta estar apenas destinada a tomar conta dos fragmentos estéticos do longa, complica -. 

Bem, pra quem desconhece o paradeiro de Dillinger, como eu, que até ver o filme igualmente não sabia nada sobre o caso, o desfecho da história e o final, centralmente, poderão ser bem intensos e surpreendentes. Johnny Depp tem uma baita participação nisso. O ator, em uma performance desoladora e realmente corajosa, vence mais uma vez os obstáculos existentes em fazer personagens históricos (clichês, falta de retrato e conexão com a realidade, superficialidade) e nos convence, como sempre, da autenticidade de seu talento e sua unicidade artística. E, como descontração para a extrema violência do trabalho de John e seus audaciosos e perigosos planos, temos a lindíssima Marion Cotillard contracenando com ele, fazendo seu par romântico perfeito, que oferece à criminosa história um quê amoroso, que conforta e, por sua vez, simboliza a única paz de John.

A trilha sonora do vencedor do Oscar Elliot Goldenthal, sem medo, traça um clima de fúria e tensão a todo instante no longa. Isso contribui para a profundidade épica do filme, que toma espaço nos arredores de Chicago da década de 30, durante a Grande Depressão. A fotografia de Dante Spinotti, que, como eu já descrevi, tem uma baita importância aqui em Inimigos Públicos, e coloca o público à frente da situação, como se nós estivéssemos presenciando cada segundo, cada movimento, cada tiroteio, gravado pela película. E isso é o melhor dessa fotografia empenhada e fabulosa. Os figurinos, os cenários, o som... Tudo é controlado com cautela e talento pelas mãos excepcionais de Michael Mann, que já apresentou trabalhos maravilhosos como Fogo Contra Fogo, Miami Vice, Falcão Negro em Perigo O Informante, traz na tela mais um trabalho prazeroso que, se não corresponde totalmente às expectativas quanto à ele, pelo menos é um retrato bem feito de um crime e o homem por trás dele, Dillinger.

Inimigos Públicos (Public Enemies)
dir. Michael Mann -