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domingo, 3 de abril de 2016

Crítica: "AMORES BRUTOS" (2000) - ★★★★★


Chega a ser engraçado ver como o cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu foi recebido com uma enxurrada de críticas boas e aclamação internacional com seu filme debut, o excepcional Amores Brutos, e veio minguando desde então aos olhos da crítica, que passaram mais a odiar o trabalho do diretor do que prestigiá-lo. E não que Amores Brutos seja um filme ruim ou superestimado: se formos fazer um ranking, é bem provável que Amores Brutos apareça entre os 3 ou 2 primeiros, talvez, ou quem sabe até em primeiro lugar. O filme me pegou de surpresa. É uma obra-prima incomparável e inestimável. Filme de estreia do Iñárritu, o filme teve uma recepção calorosa no mundo inteiro e recebeu inúmeros prêmios e indicações, muito justamente. É um espetáculo cinematográfico, completamente e absurdamente explosivo, uma obra a ser aplaudida e comemorada. Nunca se viu um filme assim, profundo na sua premissa e autêntico na sua construção e trama. Inesquecível. Imensuravelmente colossal.

A sequência que abre Amores Brutos, uma perseguição confusa e que acaba resultando num acidente de trágicas proporções, é o ponto de partida de uma trama eletrizante envolvendo um disperso grupo de pessoas, interligadas por esse acidente automobilístico, envolvendo uma supermodelo e uma dupla de amigos desesperados em fuga. É uma história sobre redenção, conflito, angústia, niilismo, e, principalmente, sobre amores e cães. Um rapaz cujo cachorro é um fenômeno em lutas de cães em um subúrbio da Cidade do México, sua bela cunhada, por quem ele é apaixonado, e seu irmão desnaturado, marido dela. Um homem que deixa a família por uma modelo, que, após um acidente, revela sua verdadeira personalidade, pondo em teste a agressiva relação deles. Um ex-guerrilheiro libertado após 20 anos na cadeia que trabalha como matador de aluguel e vive como um mendigo, tentando encontrar a jovem filha que nunca o conheceu e reatar com um passado irresolvido. 

Iñárritu dirige fabulosamente este conto moderno multifacetado com uma astúcia excepcional. No que diz respeito à direção, todos os filmes do cineasta são nota 10, mas Amores Brutos é realmente digno de nota 1.000. A estrutura é recheada de qualidades, que vão desde a fotografia inspirada de Rodrigo Prieto até a edição miraculosa. Os ângulos irregulares e tortos da câmera dão um gostinho de ação e amadorismo brilhantes ao filme. O roteiro de Guillermo Arriaga é versátil em todos os sentidos, o melhor trabalho roteirístico dele. O desenvolvimento da trama, os personagens, as temáticas que a história abraça... Só tenho elogios para o roteiro de Amores Brutos. O elenco é uma pérola. Todos estão triunfais, mas merecem menção honrosa Gael García Bernal (Octavio), Emilio Echevarría (El Chivo), Vanessa Bauche (Susana) e Goya Toledo (Valeria). Os quatro são os melhores do elenco, devastadoramente estupendos. 

Considerado por muitos o Pulp Fiction do cinema mexicano, Amores Brutos é um filme que dificilmente sai da nossa cabeça tão fácil. Algumas cenas são tão desconcertas que ficam gravadas na nossa memória. Amores Brutos, que é um drama, também guarda elementos do horror, por conta do conteúdo ultra-violento e do impacto transmitido ao espectador. Iñárritu, que filma o sofrimento como ninguém filma, fez de Amores Brutos um dos dramas mais ricos, tristes e desoladores de todos os tempos. É tentador, memorável, exemplar. A filosofia moral que se instala em Amores Brutos funde-se aos brilhos do drama dos personagens e da peripécias do roteiro de Arriaga, que empurra à trama certos pontos de vital importância para a montagem de um pensativo caleidoscópio reflexivo. Amores Brutos também é, inclusive, uma crítica feroz à desigualdade, ao perpetuar em um mesmo acidente de carro pessoas de diferentes classes, uma top model e dois jovens da periferia, que, caso não tivessem colidido, nunca iriam ter a chance de interagir em suas vidas. É uma coisa assombrosa, mas ridiculamente verídica. 

Aliás, o adjetivo "assombroso" define bem Amores Brutos. É um filme no mínimo chocante, intenso, espesso, pesado. Não fui às lágrimas, mas tem certos segmentos, como por exemplo a sequência final e as cenas das brigas caninas, e também a do acidente, que são fortíssimas, emocionalmente carregadas o suficiente para transtornar e perturbar a quem assiste, e até mesmo levar às lágrimas. O clima de tensão e de constante tenebrosidade nos impulsiona a acompanhar com atenção e nervosismo, num sentido de inquietude, o filme, até mesmo em momentos nem tão propícios, onde gera-se uma tensão inebriante, ora boba, ora densa. 

Iñárritu disseca com genialidade a tragédia e a plenitude do sofrimento em Amores Brutos. Há algo de muito humano em Amores Brutos também. O filme intervém a violência de uma maneira bastante rude mas humana. O filme é inteiramente cruel, mas que faz o uso de artifícios violentos para entreter ou divertir o espectador, mas sim para encarar, encurralar, pressionar, realmente emocionar. Dessa forma, a violência se materializa em rígido impacto dramático, ocasionando geralmente a humanidade, a dura reflexão.

E a cada filme que vejo, respeito e endeuso mais e mais Iñárritu. O homem mal quase completou duas décadas de carreira, sequer uma filmografia numerosa, e já beira a maestria, muito justamente. O primeiro filme dele, aliás, é uma das provas mais certeiras e dignas de seu talento e sua unicidade cinematográfica, o estilo, a forma de filmar, os personagens e as tramas sempre instigantes, apreensivas, densas e que despertam a admiração em quem vê. Discutindo a "Trilogia da Morte" do Iñárritu, Amores Brutos só perde em "sofrência" (o que talvez não seja um problema) para 21 Gramas e complexidade para Babel (é lógico!), mas é definitivamente o melhor, mais impactante, profundo e sensível filme não só dentre esses três mencionados, mas talvez de toda a filmografia do Iñárritu. Amores Brutos é magnífico, poderoso, doloroso, mais que uma obra, um filme para não se esquecer jamais. Sua força é comovente.

Amores Brutos (Amores perros)
dir. Alejandro González Iñárritu - 

domingo, 24 de janeiro de 2016

Crítica: "O REGRESSO" (2015) - ★★★★★


Alguns filmes são desprezados e minorizados por bobeira. Esse é o caso de O Regresso. Sem querer tirar a razão de quem achou de O Regresso um trabalho menor (até porque o filme tem sim certas imperfeições, pra ser honesto). E da mesma forma vejo a relação do público e da crítica com o cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu. Um dos maiores diretores em atividade dos últimos tempos, Iñárritu tem mais haters do que seguidores. Isso é fato. E uma pena também, tratando-se de um diretor talentoso, com filmes bons (e raros; no bom sentido) no currículo, uma ideologia miraculosa e bem-vinda. Só é mal-compreendido e subestimado. 

Na melhor das hipóteses, o diretor, mesmo já tendo trago ao mundo tantos títulos apetitosos e primorosos, tais como o maravilhoso Birdman (yeah, bitches, eu gostei sim de BatBirdman, viu?), o profundo 21 Gramas, os da terra natal, Amores Brutos e Biutiful, e também o do Planeta Terra inteiro, o razoável porém potente Babel, ainda tem mais a nos mostrar. Ele ainda está engatinhando. O Regresso não é seu melhor filme, mas não deve e sequer pode passar despercebido na sua filmografia. É poderoso e bonito pra cacete e, vencedor ou não do Oscar, resplandece como definitivo merecedor da estatueta, ainda que não seja o melhor filme dentre os candidatos desse ano.

Depois de um ano de muitos sucessos, Iñárritu nos presenteia novamente com um filmaço estremecedor, fortemente delicado e intenso ao mesmo tempo. O Regresso não supera Birdman, mas acho que não era pra superar mesmo, sabe? A gente costuma achar à toa que todo filme novo de um diretor tem como objetivo ser melhor do que o anterior. E, em partes, isso é verdade. Afinal, é com os erros que se aprende. E a carreira do Iñárritu é principalmente caracterizada por essa ordem evolucional. Ainda que este seja o provavelmente filme mais ambicioso dele, lá no fundo O Regresso é regado a modéstia. O longa se sustenta numa premissa despretensiosa, e com ela consegue reverter audácia em naturalidade. Iñárritu passa a impressão de que modelou O Regresso na singeleza de uma obra de arte, uma pintura, de veia complexa e multifacetada.

Em O Regresso (que titulozinho mais horrendo, hein? Traduzido do original, ficaria mais ou menos O Ressuscitado ou O Renascido), Hugh Glass (o homem existiu de verdade, foi um explorador de descendência irlandesa que realizava expedições em territórios indígenas) deseja fazer fortuna caçando e conquistando territórios no indócil oeste americano, até que é gravemente ferido por um urso numa floresta e fica à beira da morte, com seus companheiros de caça cogitando sacrificá-lo para evitar o sofrimento (a tão comentada cena do ataque do urso é excepcionalmente eletrizante). 

Após uma decisão, o capitão da trupe desiste da missão e recruta três membros de sua equipe para tomar conta do moribundo Glass até a sua partida. Entre esses três homens, está o filho de Glass, de origem nativa, um outro membro da turma de exploradores (Jim Bridger) e o carrasco vilão John Fitzgerald, que trabalha na expedição e vive reclamando e confrontando Hugh. 

Por conta do diretor de fotografia Emmanuel Lubezki, O Regresso é um filme que lembra distintamente de diversos filmes oriundos do diretor Terrence Malick, entre eles Além da Linha Vermelha, O Novo Mundo e A Árvore da Vida. Indiretamente, O Regresso adquire esse ar Malick que perdura até o final. Entre semelhanças e diferenças, O Regresso se assemelha bastante a O Novo Mundo, muito até pela temática quase que gêmeas dos dois, o Lubezki, e por aí vai. O filme fica até mais confortável de se ver com essa referência muito justa à Malick.

Leonardo DiCaprio declarou recentemente que O Regresso foi o filme mais difícil que ele já fez na sua vida. Quem dera ele dissesse que foi o mais fácil! A performance do DiCaprio é realmente uma joia rara. Um dos prazeres mais colossais de O Regresso fica por conta da sua atuação estrondosa, capaz de silenciar a voz de até mesmo outras performances da carreira do intérprete. Quem vê pensa que é exagero, mas essa é realmente a melhor performance do Leonardo. Diga-se de passagem (pelo menos), já que ainda estou digerindo o efeito avassalador da obra, assim como o do desempenho do Leo, e isso meio que ofusca a minha memória quanto às demais grandes performances que ele já nos brindou.

Se em Birdman tínhamos como protagonista um ator iludido e perdido em seus devaneios sem rumo e sem enxergar uma razão para continuar a viver em meio ao fracasso, e que justamente mantinha nesse contexto angústia, depressão e tortura, o Hugh Glass de O Regresso, no que diz respeito à esse contexto, supera bastante o Riggan Thomson de Birdman. E eu não tô brincando não, cara. Até parece que o Alejandro convidou o Lars Von Trier pra co-dirigir o filme. O sofrimento do explorador no filme é sem tamanho. Ele fica praticamente confinado a um coma depois de um perverso ataque por uma fera, depois disso volta a se acidentar e assustar o espectador novamente numa sequência de perseguição adrenalística, sem contar no final e, enfim. Sofrimento é o nome de Hugh Glass. Mas o cara permanece fiel ao seu lema (Enquanto você continuar respirando, você continua lutando) desde o primeiro momento de vida de O Regresso até a mortífera sequência de combate que encerra o longa, a melhor cena de todas do filme, particularmente. 

Salvo pelas cenas de ação bem filmadas e pelos cenários, O Regresso foi relacionado ao gênero faroeste, o que ele em partes surpreendentemente é. Muito embora seja adepto deste, O Regresso é mais um drama do que um faroeste em si. E, tratando-se de um western, isso pode desapontar muita gente, ainda que o filme seja um exemplar dilacerante do gênero. Um olhar renovado, digamos. O diretor enquadra O Regresso no seu padrão estético visual e o resultado é admirável. Essa atenção especial com o visual se conecta perfeitamente à autenticidade western que o filme assina. Tudo a partir daí só passa a conspirar mais para o sublime. 

O Regresso mexe muito com os nossos sentimentos. Isso meio que faz parte da natureza do filme, então não é bizarro se emocionar diante dos belos momentos que a câmera capta, sendo estes os surreais landscapes que enchem os olhos ou até mesmo um rápido fragmento (exemplo disso é a cena em que um pombo branco sai de dentro de uma perfuração no peito de uma mulher indígena morta, perfuração provocada por um tiro). A narrativa de O Regresso estuda e reflete sobre o luto, as faces da coragem, o instinto de sobrevivência, a adrenalina, espíritos que rondam a perplexa jornada de Glass. Todos esses elementos somados sintetizam numa química brilhante e abismadora.

Mais uma vez, Lubezki capricha no visual, e vem nos encantar com esse vendaval de emoções que é a fotografia de O Regresso, a cada passo, a cada movimento uma paisagem do paraíso no inferno, um céu lilás cobrindo uma superfície branca de neve. É impossível não amar. Visualmente falando, O Regresso é um estrondo, uma experiência exótica e fabulosa, rara vez em que se vê na beleza de um cenário, de um reflexo, a perfeição aos olhos. É uma magia tão poética e tocante que não consegue ser descrita em palavras. Só vendo é que se percebe. Mítico.

Algumas sequências chegam a ser tão inacreditáveis (como a já icônica cena do ataque do urso), falando em tecnicismo, que a gente, tentando encontrar uma resposta na mente, se perde. É tão inexplicavelmente certinho, no bom sentido. Não há erros, nada parece falso em O Regresso. E não é pecado imaginar, diante da já mencionada cena do urso, que realmente colocaram a fera em cena para lutar com o DiCaprio. Vai saber, não? O Regresso carrega nitidamente uma inspiração revolucionária, lotada de detalhismos. Tão natural e realista, inimaginavelmente criativo, que não há como se sentir, mesmo aqueles que não gostaram do filme, presenteado, privilegiado. O Regresso contribui imensamente à arte que serve, em diversos formatos, sob muitos ângulos. Iñárritu conclui mais um trabalho firme e sadio, primoroso e sem igual, selvagem ao máximo, ricamente emocionante. O espetáculo da vida em forma de aventura. Plausível. O Regresso é demais. Não ousem perder por nada.

O Regresso (The Revenant)
dir. Alejandro González Iñárritu - 

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Crítica: "21 GRAMAS" (2003) - ★★★★★


"Dizem que você perde 21 gramas no exato momento da morte". 21 Gramas não se distancia tanto dos outros dois colegas Amores Perros Babel, já que os três filmes juntos constituem a Trilogia da Morte, mas se destaca por ser o mais dramático e intenso dentre todos eles. Com um elenco arrasador, um roteiro forte e bem-escrito e a direção empenhada de Iñárritu, 21 Gramas reflete sobre os altos custos da culpa, da superação e da esperança que recaem sobre nós em momentos de tensão e conflito. É verdade que é mais semelhante a Amores Perros do que Babel, já que 21 Gramas remonta em sua trama a história do primeiro, que unia um grupo distinto de pessoas a um acidente de carro. Porém, quando digo que se trata de um filme forte, 21 Gramas, por exemplo, não consegue superar a densidade do anterior, Amores Brutos, embora seja um filme mil vezes melhor do que Babel, um trabalho menor do Alejandro. 

Comentar a sinopse de 21 Gramas é uma tarefa que de longa já cheira a spoiler, uma vez que o desenvolvimento da narrativa é todo dispersado, desmontado. O filme é basicamente um quebra-cabeça de cem peças pronto para ser arquitetado. A figura só é descoberta perto do final da montagem. Por isso, evitarei abrir qualquer notificação sobre o argumento do filme aqui. Prefiro apenas falar sobre o filme e o quanto profundamente me deixou depressivo e pensativo. E confesso que não sou fã de Alejandro González Iñárritu, nem um pouco, mas 21 Gramas até despertou curiosidade em mim sobre a carreira dele, algo que nunca veio tão disparado como hoje. 

O que, de fato, é o mais interessante e inteligente sobre 21 Gramas é sua estrutura narrativa não linear, que na época do lançamento tinha sido merecidamente comparado a filmes como Pulp Fiction, e Amnésia, embora a comparação ao primeiro tenha sido inicialmente atribuída ao também genial Amores Perros, já que essa ausência de ordem cronológica é característica da trilogia inteira. O roteiro é assinado brilhantemente por Guillermo Arriaga, que soube trabalhar com eficiência numa trama complicada cujo nível dramático ultrapassa os limites de um filme normal do gênero, tanto que não tão cedo voltarei a assisti-lo, e olha que ele é um sujeitinho em quem eu não tão facilmente confiaria o roteiro de um filme meu, diríamos, mas que soube criar toda uma teia complexa e cativar o espectador com uma história que, embora já venha rotulada com o típico chamariz dos conflitos dramáticos, é inegavelmente dedicada e esplêndida.

21 Gramas, além de ser um sinal de maturidade e estabilidade cinematográfica para diretor e roteirista Alejandro e Guillermo, também simboliza, junto a outros filmes que se dispõem dessa mesma espécie de narrativa, uma significante evolução na linguagem dos filmes e na construção das tramas. Afinal, este estilo narrativo não é mais novidade para muitos uma vez que nossa indústria celebra vários longas de sucesso que usufruem dessa mesma edição construtiva, embaralhada (a dobradinha Kill Bill), de ângulos multifacetados (Pulp FictionInterestelar), time loops (Feitiço do TempoBrilho Eterno de uma Mente sem Lembranças), escolha múltipla (CachéA Origem), simbolismo "easter egg" (Cisne NegroO Homem Duplicado), e por aí vai, filmes com segredos escondidos em si, e que convidam o público a desvendá-los. 

No fundo, o filme é um retrato sobre o horripilante desencadeamento das tragédias em nossas vidas, e a nossa defesa contra elas, seja contraindo mais tragédia ou buscando um novo caminho para seguir, encarar de frente a dor do passado e dos episódios que não podem ser apagados de nossa lembrança, e o quanto esse passado, essas tragédias, nos perseguem até o último momento, mesmo contra vontade, mesmo com a reza mais braba, ou a tentativa mais poderosa possível, o passado sempre estará ali, e ele nunca desaparecerá. É um tumor maligno. E o que fazer quando mais desgraça sucede essa desgraça? Poxa vida, hein. É aí que a gente para e pensa que não tem como ficar pior. O fundo do poço. E tem como cavar mais ainda dentro desse buraco infeliz? Até quantas vezes o ser humano consegue superar as perdas que surgem? É uma visão pessimista das nossas escolhas e do mal, nos aprisionando. Ou é melhor chamar essa praga de azar?

E esse elenco, simplesmente arrebatador e inigualável? Sean Penn encarna um dos melhores personagens de sua carreira numa performance única, mas incrivelmente subestimada. Naomi Watts, que aceitou a proposta de filmar o longa sem ao menos ter tido a oportunidade de ler o próprio roteiro de Arriaga tem uns momentos de tensão pesados, e o talento da atriz é explorado ao máximo, no limite, por Alejandro, e é provável que esse seja mesmo o melhor trabalho dela. Benicio Del Toro, de derrotado a crente, é inteiramente memorável (eu só acho que o personagem dele, incluindo a vida criminal, poderia ter sido melhor explorada, embora eu acredite que esses detalhes foram intencionalmente explicitados por Arriaga na montagem do roteiro), e o mesmo digo da Melissa Leo, em uma das primeiras grandes atuações de sua carreira. E, falando em montagem, só pra concluir o texto, também vale lembrar do Stephen Mirrione, que colaborou Iñárritu em outros filmes, como Babel, e aqui é um contribuinte nato num filme totalmente dependente de uma edição afinada.

21 Gramas (21 Grams)
dir. Alejandro González Iñárritu - ★★

domingo, 2 de agosto de 2015

Crítica: "BABEL" (2006) - ★★★★


Babel nem é tudo aquilo que o Roger Ebert disse, mas também não é toda aquela desgraça que muita gente enfatizou ao filme de Alejandro González Iñárritu. Fica num lugar exatamente no meio disso. E nessa afirmação encontra-se também uma grande ironia a partir deste filme, já que ambiguamente seu grande problema e seu grande acerto é o roteiro de Guillermo Arriaga, antigo colaborador de Iñárritu. É um trabalho bem mediano, resumindo, que se salva pelo admirável e talentoso elenco, e da direção arrebatadora de Alejandro. O roteiro de Arriaga, com seu estrago catastrófico e sua sensível importância, também é mediano. Como eu mesmo já falei antes, tem seus estragos e seus bons acertos.

Afinal, o que há de tão certo e de tão errado no roteiro indicado ao Oscar de Guillermo Arriaga. Olha, confesso que gostei mais de 21 Gramas, caso comparado à Babel. Uma das últimas colaborações cinematográficas de Arriaga e Iñárritu não foi lá uma das mais bem resolvidas. Mesmo que esse roteiro possua bons pontos, e um ótimo enredo, não é possível salvá-lo através deles. Posso dizer que é confuso demais, ou muito artificial, rarefeito. Muitas das cenas de Babel são desfiguradas por um clima dramático intenso, que ora acerta e ora erra. Isso meio que me irritou, por que, a cada cena que surgia, havia um desespero interno por não saber o que ali se sucederia. É uma tensão muito estranha, entre cada cena que entra e sai. Em outros filmes, essa tensão funciona como a base do clímax, mas aqui atrapalha, de alguma forma, por que promove a confusão. Porém, se tem uma coisa que o roteiro de Babel não é, é incoerente. Talvez no início, onde os segmentos das histórias narrados em diferentes planos, e em ordens de cronologia diferentes, a incoerência talvez fale mais alto. Mas é muito passageiro, pois à frente, as peças vão sendo conectadas e um grande resultado nos aguarda. Infelizmente, tal resultado não se prolonga justo por conta do intrigante clima que acelera o ritmo da narrativa, que por sua vez é devagar, citando a formação da história.

Embora esses encontros e desencontros logo causem transtornos e influenciem a qualidade de Babel, sua dramatização é, devidamente, insuperável. Difícil não se emocionar em determinadas partes. E o ótimo elenco tem uma participação muito especial nisso. Babel é um conto bem universal, narrada em quatro diferentes países, três continentes e um só condimento: a dor, o sofrimento. Tudo parte de uma cena locada no Marrocos, onde um senhor faz negócios com outro a fim de conseguir um rifle, com o objetivo de entregá-lo a seus filhos, e ensiná-los a caçar e matar animais prejudiciais às suas cabras. Os filhos, desconfiados da distância que a bala do rifle, se disparada, percorre, começam a testar a arma em pedras, carros, e num ônibus. Depois que a arma é disparada, os irmãos se convencem de que as balas realmente não prestam, até que o ônibus para no meio da estrada, indicando que algo grave ali se sucedeu. Esse ponto de partida desencadeia numa série de conflitos, que atinge bruscamente à todos os seus envolvidos, os mais distantes e os mais próximos. 

Em Babel, o uso de uma inteligente e atrativa trama cheia de interconexões, e uma linha cronológica bem desconfigurada, não são novidade, porém dão charme ao filme e o transformam numa peça única. Dirigido por Iñárritu, a sensação que levemente temos - se não fosse a qualidade bem média do filme - de Babel é que ele é um filme dirigido por Quentin Tarantino. Se Babel não fosse tão concentradamente moralista e firmemente abusivo, tal comparação muito poderia ter cabimento. E o mais bizarro de tudo isso é que eu me lembro que tinha gostado demais de Babel da primeira vez que o tinha visto. Achei-o excelentemente emocionante. Mas agora, as recordações estão tão embaraçadas. Desta vez, perdi uma boa parte da apreciação da primeira sessão. Vi as imperfeições de Babel, e me surpreendi por não tê-las notado antes. Muito estranho.

E, se em Babel falta controle e percepção, a consistência satisfaz e traz uma baita alegria, ainda mais para quem tinha a esperança de ver um conteúdo bom em Babel, como eu. Inegavelmente, há exageros, mas a consistência aperfeiçoa a mínima hipocrisia da jornada. Babel faz mais sucesso como metáfora, já que o filme faz uma alusão geográfica à países menores (México, subdesenvolvido, e Marrocos, acredito eu que seja emergente, ou não-desenvolvido) e aos países maiores (E.U.A. e Japão, ambos atualmente pertencentes ao grupo dos países de primeiro mundo), mas que também não escapa da mesmice, ou, mais comunalmente, dos estereótipos inventivos. 

O elenco de Babel é dotado de uma extraordinária força. Atores, a maior parte deles, desconhecidos, dando um incrível show de competência, cada um deles, em suas performances. Um elenco que vai da premiada Cate Blanchett à, naquele tempo, nunca vista Rinko Kikuchi, na virada de sua carreira, na, talvez, maior atuação de Babel, da adolescente surda-muda do núcleo japonês, órfã de mãe, e que, devido às suas condições, é frequentemente rejeitada por outros garotos de sua idade, algo que a priva de ter uma sexualidade e limita sua vida em sociedade. Vale citar também Adriana Barraza, indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 2007 ao lado de Kikuchi, na performance da babá Amelia, que me deixou muito impactado e emocionado. A trilha sonora, da autoria de Gustavo Santaolalla, é fantástica. A fotografia do mexicano Rodrigo Prieto é igualmente desoladora e eletrizante, que capta muito bem a fogosidade e o desfecho ágil de Babel. Palmas à meticulosa edição de Stephen Mirrione e Douglas Crise, uma das melhores dos últimos tempos, arrisco.

Babel 
dir. Alejandro González Iñárritu - ★★