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quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

SOB A AREIA (2000)


Quando Charlotte Rampling está em cena, algo magnífico acontece. Ela toma o controle da tela e seu público é manipulado de maneira triunfal e abismadora. Em “Sob a Areia”, a atriz nos entrega uma de suas performances mais minimalistas e bem-feitas, daquelas de dar gosto mesmo, o que principalmente torna tão especial este suspense do cineasta francês François Ozon, que três anos depois viria a dirigir a lendária intérprete inglesa novamente em outro thriller arrasador, o brilhante “Swimming Pool – À Beira da Piscina”, que guarda muitas semelhanças com este trabalho aqui, não apenas pela construção detalhada, mas pela abordagem simbólica e a forte influência hitchcockiana, que paira sobre estes dois filmes tão desconcertantes, misteriosos e BONS!

O sumiço do marido de uma mulher de meia-idade é o estopim da trama de “Sob a Areia”, que persegue a personagem de Rampling e suas angústias enquanto traça um mistério que a cada cena fica mais indecifrável. Cenas do cotidiano se misturam a sequências que carregam um gostinho surreal, que estão ali para emular um suspense sinistro. Durante a primeira metade, a câmera vagueia entre planos abertos e curiosamente amplos para, aos poucos, se limitar à takes mais intimistas e fechados enquanto acompanhamos a trajetória de Marie Drillon após o desaparecimento de seu companheiro e sua negação à realidade que a confronta. Irresoluta, ela resiste aos impulsos desta para viver a situação à seu próprio modo. O fim de um casamento e as consequências de uma ilusão que nunca aconteceu, um matrimônio consumido pela mesmice. 

Claramente, a intenção do diretor (também roteirista) François Ozon é fazer com que o espectador compreenda essa personagem tão complexa e as suas atitudes, bem como o que a leva a criar uma perspectiva tão distante frente aos eventos que abarcam em sua vida amorosa e sua relação com pessoas próximas. O desaparecimento pode ser interpretado como uma metáfora da descrença de um casamento feliz, o momento em que a personagem se dá conta da farsa impassível que se submeteu, e sua imagem da relação perfeita se desfaz, num completo e súbito “desaparecimento” do amor improvável e todas as suas condições.

Como bom realizador que é, Ozon não desaponta na direção e não deixa nenhum detalhe escapar. A complexidade que envolve este filme torna eficaz a mise-en-scene e enriquece os méritos fílmicos do cineasta por trás desse projeto. Por outro lado, é possível denotar que “Sob a Areia” depende bastante de sua narrativa. Mais interessante é perceber como a mise-en-scene realça os traços narrativos do filme e seu semblante metafórico.

Deixando as comparações de lado, Ozon sabe trabalhar muito bem elementos determinantes em um thriller, como a tensão e o clímax. Por trás dessa façanha, revela-se um dom do diretor para com o gênero suspense que poucos dominam. Charlotte Rampling esculpe uma atuação magistral, provavelmente uma das melhores dela, que atua como ninguém, e sabe dominar seus papéis (algo que é extremamente importante para a sua personagem neste suspense). Certamente está no time das gigantes. 

Sob a Areia (Sous le sable)
dir. François Ozon
★★★★

domingo, 21 de agosto de 2016

Crítica: "O TIGRE E O DRAGÃO" (2000) - ★★★★


O fim de semana não foi nada legal. Sexta acordei com uma dor de garganta extremamente irritante que piorou com a noite (era tão incômodo que eu quase não podia falar). Na manhã de sábado, o desconforto havia cessado, mas o resfriado não. Andei bastante no sábado com a minha irmã na rua e, no fim da tarde, comecei a sentir fortes dores na região abdominal, que pioraram com o passar das horas. Não resisti ao sono e acabei dormindo bem cedo, mesmo sentindo tanta dor. De madrugada, acordei enjoado e a dor persistia. O alívio veio quando botei tudo pra fora. Hoje estou um pouco melhor e até pude comer sem sentir ânsia de vômito. Não faz nem um ano que fiquei nessa mesma situação. Acho que até cheguei a comentar aqui no blog. Como eu sou uma pessoa que não gosta de ficar parada, ficar doente é sempre um caos. Acho que amanhã estarei melhor. 

Bom, pelo menos, filme eu vi até demais. Só ontem assisti Ironweed, do falecido Hector Babenco, e O Tigre e o Dragão, de Ang Lee. Da noite de sábado para a madrugada hoje, vi Um Jantar para Idiotas e mais cedo hoje conferi Amor por Direito. Escolhi falar sobre O Tigre e o Dragão. Por ser um filme tão louvado e aclamado, vencedor de 4 Oscars e indicado a muitos mais outros, vencedor de 2 Globos de Ouro e outros inúmeros prêmios, a gente acaba criando uma expectativa bem otimista em torno do filme, que é excepcional, um trabalho muito bem-feito e extraordinariamente bem dirigido. Mas, confesso que faltou pouco para o filme ser uma obra-prima. É, de fato, um grande filme, mas que deixa a desejar em certos pontos.

Tecnicamente, é perfeito. Não me estranha o filme ter recebido todos aqueles Oscars (Fotografia, Direção de Arte e Trilha Sonora) e outras indicações técnicas. É muito justo, aliás. Tecnicamente falando, pode-se dizer que O Tigre e o Dragão é imensamente versátil, irreparável. Se a gente for comparar com outros filmes do Ang Lee, os mais próximos no quesito técnico são As Aventuras de Pi e Razão e Sensibilidade, ainda que eu não tenha conferido todos os filmes dele. Meu favorito continua sendo O Segredo de Brokeback Mountain.

As sequências de luta e kung-fu são realmente impressionantes. Os espadachins flutuando pelos ares, aqueles movimentos perigosos e tentadores. É tudo muito emocionante e bem-feito. E não é só as cenas de ação que merecem mérito. Os diálogos do filme são brilhantes, carregados de uma filosofia potencial acerca dos valores da vida e do amor. Não tem como não ficar encantado com tamanho espetáculo de reflexão, tão poderoso e marcante. 

O elenco está fenomenal. Michelle Yeoh e Zhang Ziyi (em seu filme-revelação), as protagonistas femininas, estão ótimas. O mesmo digo de Chow Yun-fat, que também está excelente. É uma lástima atores orientais serem tão subestimados. 

Tirando que eu esperava mais e algumas passagens chatinhas do filme, no fundo eu gostei bastante. Ang Lee é um diretor fantástico, o melhor dos melhores. Seu filme mais bem dirgido é O Tigre e o Dragão. Destaque para as cenas de ação riquíssimas e outras mais sequências notórias ao longo do filme. O Tigre e o Dragão é brilhante, dono de um poder próprio, de uma sofisticação épica incrível e uma atmosfera cinematográfica inesquecível. É impossível dizer não a um filme tão genial como esse.

O Tigre e o Dragão (Crouching Tiger, Hidden Dragon)
dir. Ang Lee - 

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Crítica: "E AÍ, MEU IRMÃO, CADÊ VOCÊ?" (2000) - ★★★★


Há quem diga que este é um dos melhores filmes dos irmãos Coen e outros que o apontem como o pior da dupla (particularmente, não vejo como esse filme poderia ser ruim de qualquer forma). Talvez seja porque este é um dos filmes mais subjetivos dos Coen. Não é como Onde os Fracos Não Tem Vez ou Fargo, que são frequentemente mencionados como os melhores filmes deles, e que não são tão difíceis ou esteticamente complexos, cinematograficamente falando, como E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?, que pra mim é um ótimo filme. 

A comédia é uma livre adaptação do clássico da literatura grega "Odisseia", de Homero. Apesar de ter uma cópia do livro e um enorme interesse em conferi-lo, sequer conhecia a história. Os Coen, que de bobos não tem nada, usaram e abusaram de diversas referências ao livro e da trama, principalmente. O filme até pode ser considerado uma adaptação cristalizada do livro, com alterações em tempo, espaço, personagens e estrutura narrativa. E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? se passa no Mississipi na década de 30 e conta a aventura de três homens, fugitivos, Uylisses (George Clooney, vencedor do Globo de Ouro de Melhor Ator em Filme - Comédia ou Musical em 2001, cujo personagem remete ao Ulisses de "Odisseia"), Pete (John Turturro) e Delmar (Tim Blake Nelson), que passam por poucas e boas após fugirem da prisão. Ulysses está à procura da mulher (Holly Hunter), que se casou com outro cara pensando que ele a abandonou (ou melhor -- "foi atropelado por um trem").

A trilha do filme foi lindamente composta por T-Bone Burnett, o que justifica a inclusão de tantas canções bacanas, algo raro de se ver num filme dos Coen, que "musicalizam" mais a jornada dos três fugitivos. Aliás, tocando no assunto, E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? tem até uma pinta de musical. O que me leva à questão: "como seria um musical dirigido pelos irmãos Coen"?

O clima debochado e às vezes bizarro do filme, já característicos do cinema dos Coen, reforçam a sátira e o humor descontrolado. George Clooney, quem tão raramente a gente vê em filmes de comédia, entrega uma performance incrivelmente hilária, potente, uma das melhores do ator. Destaque para o Turturro e o Tim Blake Nelson, em duas atuações ainda mais engraçadas e excelentes. A Hunter, que é uma atriz massa, aparece tão pouco tempo em tela que seu desempenho, ainda que seja cativante, é quase esquecível.

A fotografia é de Roger Deakins, fiel colaborador dos Coen, vislumbrante. A indicação ao Oscar em Fotografia foi merecidíssma. Mas, gente, pensem comigo, fotografia comandada por Roger Deakins vai sempre ser uma maravilha. Não tem erro -- é tiro e queda. Não há um filme cuja direção de fotografia leve Roger Deakins no crédito que não seja um estouro visual. E não foi diferente aqui com E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? (gosto das cenas da reunião dos membros da Ku Klux Klan, a dos presos no cinema e a da "enchente milagrosa").

Enfim, ver um filme dos Coen, ainda mais um dos bons, é sempre muito prazeroso e reconfortante. Os caras sabem fazer cinema de verdade. E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? é um dos exemplares mais divertidos e interessantes da filmografia dessa dupla. Bem filmado, bem escrito, um elenco triunfal, uma fotografia de dar gosto, uma comissão técnica que "samba na cara das inimigas"... É um filmaço. Vejam!

E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? (O Brother, Where Art Thou?)
dir. Joel Coen & Ethan Coen - 

domingo, 3 de abril de 2016

Crítica: "AMORES BRUTOS" (2000) - ★★★★★


Chega a ser engraçado ver como o cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu foi recebido com uma enxurrada de críticas boas e aclamação internacional com seu filme debut, o excepcional Amores Brutos, e veio minguando desde então aos olhos da crítica, que passaram mais a odiar o trabalho do diretor do que prestigiá-lo. E não que Amores Brutos seja um filme ruim ou superestimado: se formos fazer um ranking, é bem provável que Amores Brutos apareça entre os 3 ou 2 primeiros, talvez, ou quem sabe até em primeiro lugar. O filme me pegou de surpresa. É uma obra-prima incomparável e inestimável. Filme de estreia do Iñárritu, o filme teve uma recepção calorosa no mundo inteiro e recebeu inúmeros prêmios e indicações, muito justamente. É um espetáculo cinematográfico, completamente e absurdamente explosivo, uma obra a ser aplaudida e comemorada. Nunca se viu um filme assim, profundo na sua premissa e autêntico na sua construção e trama. Inesquecível. Imensuravelmente colossal.

A sequência que abre Amores Brutos, uma perseguição confusa e que acaba resultando num acidente de trágicas proporções, é o ponto de partida de uma trama eletrizante envolvendo um disperso grupo de pessoas, interligadas por esse acidente automobilístico, envolvendo uma supermodelo e uma dupla de amigos desesperados em fuga. É uma história sobre redenção, conflito, angústia, niilismo, e, principalmente, sobre amores e cães. Um rapaz cujo cachorro é um fenômeno em lutas de cães em um subúrbio da Cidade do México, sua bela cunhada, por quem ele é apaixonado, e seu irmão desnaturado, marido dela. Um homem que deixa a família por uma modelo, que, após um acidente, revela sua verdadeira personalidade, pondo em teste a agressiva relação deles. Um ex-guerrilheiro libertado após 20 anos na cadeia que trabalha como matador de aluguel e vive como um mendigo, tentando encontrar a jovem filha que nunca o conheceu e reatar com um passado irresolvido. 

Iñárritu dirige fabulosamente este conto moderno multifacetado com uma astúcia excepcional. No que diz respeito à direção, todos os filmes do cineasta são nota 10, mas Amores Brutos é realmente digno de nota 1.000. A estrutura é recheada de qualidades, que vão desde a fotografia inspirada de Rodrigo Prieto até a edição miraculosa. Os ângulos irregulares e tortos da câmera dão um gostinho de ação e amadorismo brilhantes ao filme. O roteiro de Guillermo Arriaga é versátil em todos os sentidos, o melhor trabalho roteirístico dele. O desenvolvimento da trama, os personagens, as temáticas que a história abraça... Só tenho elogios para o roteiro de Amores Brutos. O elenco é uma pérola. Todos estão triunfais, mas merecem menção honrosa Gael García Bernal (Octavio), Emilio Echevarría (El Chivo), Vanessa Bauche (Susana) e Goya Toledo (Valeria). Os quatro são os melhores do elenco, devastadoramente estupendos. 

Considerado por muitos o Pulp Fiction do cinema mexicano, Amores Brutos é um filme que dificilmente sai da nossa cabeça tão fácil. Algumas cenas são tão desconcertas que ficam gravadas na nossa memória. Amores Brutos, que é um drama, também guarda elementos do horror, por conta do conteúdo ultra-violento e do impacto transmitido ao espectador. Iñárritu, que filma o sofrimento como ninguém filma, fez de Amores Brutos um dos dramas mais ricos, tristes e desoladores de todos os tempos. É tentador, memorável, exemplar. A filosofia moral que se instala em Amores Brutos funde-se aos brilhos do drama dos personagens e da peripécias do roteiro de Arriaga, que empurra à trama certos pontos de vital importância para a montagem de um pensativo caleidoscópio reflexivo. Amores Brutos também é, inclusive, uma crítica feroz à desigualdade, ao perpetuar em um mesmo acidente de carro pessoas de diferentes classes, uma top model e dois jovens da periferia, que, caso não tivessem colidido, nunca iriam ter a chance de interagir em suas vidas. É uma coisa assombrosa, mas ridiculamente verídica. 

Aliás, o adjetivo "assombroso" define bem Amores Brutos. É um filme no mínimo chocante, intenso, espesso, pesado. Não fui às lágrimas, mas tem certos segmentos, como por exemplo a sequência final e as cenas das brigas caninas, e também a do acidente, que são fortíssimas, emocionalmente carregadas o suficiente para transtornar e perturbar a quem assiste, e até mesmo levar às lágrimas. O clima de tensão e de constante tenebrosidade nos impulsiona a acompanhar com atenção e nervosismo, num sentido de inquietude, o filme, até mesmo em momentos nem tão propícios, onde gera-se uma tensão inebriante, ora boba, ora densa. 

Iñárritu disseca com genialidade a tragédia e a plenitude do sofrimento em Amores Brutos. Há algo de muito humano em Amores Brutos também. O filme intervém a violência de uma maneira bastante rude mas humana. O filme é inteiramente cruel, mas que faz o uso de artifícios violentos para entreter ou divertir o espectador, mas sim para encarar, encurralar, pressionar, realmente emocionar. Dessa forma, a violência se materializa em rígido impacto dramático, ocasionando geralmente a humanidade, a dura reflexão.

E a cada filme que vejo, respeito e endeuso mais e mais Iñárritu. O homem mal quase completou duas décadas de carreira, sequer uma filmografia numerosa, e já beira a maestria, muito justamente. O primeiro filme dele, aliás, é uma das provas mais certeiras e dignas de seu talento e sua unicidade cinematográfica, o estilo, a forma de filmar, os personagens e as tramas sempre instigantes, apreensivas, densas e que despertam a admiração em quem vê. Discutindo a "Trilogia da Morte" do Iñárritu, Amores Brutos só perde em "sofrência" (o que talvez não seja um problema) para 21 Gramas e complexidade para Babel (é lógico!), mas é definitivamente o melhor, mais impactante, profundo e sensível filme não só dentre esses três mencionados, mas talvez de toda a filmografia do Iñárritu. Amores Brutos é magnífico, poderoso, doloroso, mais que uma obra, um filme para não se esquecer jamais. Sua força é comovente.

Amores Brutos (Amores perros)
dir. Alejandro González Iñárritu - 

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Crítica: "TRAPACEIROS" (2000) - ★★★★


Nestes últimos dias, acumulei tanto filme pra criticar que estou perdido tentando organizá-los aqui no blog. Enfim, acho que ainda falta falar sobre Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada, Longe Dela, O Impossível, O Segredo de Brokeback Mountain, Em Busca do Ouro, O Vencedor... Tô esquecendo de algum? Bem, vamos falar de Trapaceiros que depois eu vejo isso. Nesse ano vou tentar ver de vez os filmes que ainda faltam ver da filmografia do querido Woody Allen, e rever outros que estão desandados na minha memória.

Trapaceiros era o último filme que faltava ver do ciclo anos 2000 do cineasta. Consegui uma cópia em DVD e tive de me contentar com o áudio dublado, a única opção da cópia. Quando eu tiver uma brecha, vou tentar rever legendado na internet (Trapaceiros está na Netflix), ainda que ver o filme dublado não tenha sido uma experiência tão desagradável quanto eu pensava que seria. 

Nesta comédia, Woody Allen faz um lavador de pratos que também tem um pé no crime e que já ficou detrás das grades por um tempo. É aí que Ray Winkler tem uma ideia (quase) genial: roubar um banco através de um túnel. Para o projeto, Ray, com a ajuda da estressada mulher Frenchy (Tracey Ullman), aluga um estabelecimento frente ao banco, com a intenção de cavar um túnel e chegar até um cofre no local. Para o espanto de todos, o "negócio temporário" da Frenchy, que trabalharia por um tempo cozinhando e vendendo biscoitos para não chamar a atenção enquanto o plano do roubo engatinhava, tem mais sucesso que o tal plano do furto ao banco.

Há quem diga que o final adiantado de Trapaceiros seja incômodo, mas é a partir da surpreendente reviravolta que se dá à altura dos quarenta ou trinta minutos de filme que o filme começa. Dá pra perceber claramente que Trapaceiros foi idealizado como uma comédia, pura e genuína, como aquelas primeiras do diretor, que tanto contribuíram para o sucesso entre a crítica e o público e levaram o nome do então comediante às telonas. Falando nisso, se há alguma semelhança entre Trapaceiros e outro trabalho do diretor, diria que este faz um par perfeito com Um Assaltante Bem Trapalhão, onde Woody fazia um ladrão e se metia nas mais incrivelmente cômicas situações. 

Só pra brincar, um filme que funciona brilhantemente ao inverso de Trapaceiros, tanto na questão do gênero e da própria trama, é Blue Jasmine, que filma uma dondoca de Nova Iorque empobrecendo e indo à loucura com a mudança para a casa da irmã em São Francisco. Aqui, Woody explora a história de um casal de pobretões que faz fortuna. O cineasta está ao lado de Tracey Ullman. Os dois encarnam marido e mulher que, mesmo após saírem da pior, continuam incessantemente em pé de guerra, entre tapas e beijos. 

A crítica de Woody à high society é benéfica apesar da superficialidade, que realmente nem importa muito aqui. Oferece um contraponto ao humor e ao mesmo tempo o ajuda. A lista de personagens é pra lá de criativa e estimulante. Acho que a decepção foi mesmo pelo personagem do Woody. Muito embora ele mostre um pouco dos seus dotes como ladrão lá perto do final na cena do roubo à joia e também um pouco durante as tentativas de perfuração no subsolo do negócio de Frenchie, gostaria de ter visto mais da persona criminosa dele. Acho que ele até tentou no filme que sucede TrapaceirosO Escorpião de Jade, onde o personagem dele é um detetive particular que é hipnotizado e passa a, inconscientemente, roubar para um enigmático ilusionista. Também tem Igual a Tudo na Vida, onde ele faz um professor "psicótico" que tem repúdio a antissemitas.

As performances da Tracey e do Woody são formidáveis. Os dois conseguem sustentar os personagens e a trama do filme, bem como a comédia exalada, com perfeição, em especial a Tracey, que já havia trabalhado com Woody em Balas sobre a Broadway, mas não como protagonista. Acho que o Woody aqui se encaixa mais como coadjuvante do que propriamente como personagem central. A Ullman foi indicada ao Globo de Ouro pelo seu papel aqui. Merecia uma indicação ao Oscar, na minha humilde opinião, se bem que 2000 foi um ano impressionantemente bom para atrizes principais, no geral.

Trapaceiros é um trabalho bastante despretensioso, e que não deve ser levado a sério. Se a crítica captou bem e aceitou esse filme do Woody, fez errado ao enlamar as produções que seguiriam esta, que também são comédias leves e no mais despretensiosas, mas que foram seguidamente rejeitadas, tanto pela crítica quanto pelo público, o que é deplorável.

Eu pareço normal, mas gargalhei em Trapaceiros. Gargalhei mesmo. Não sei se é porque sou besta e costumo ir além no quesito rir de piadas-de-sorriso-de-canto-de-boca, mas gargalhei pra caramba, e dá pra se satisfazer com o conteúdo cômico aqui apresentado. A personagem Frenchy (Frances Fox-Winkler, por Tracey Ullman), por exemplo, lembra sutilmente do Stanley de Magia ao Luar. Ambos são tão parecidos comicamente falando. Dá até do personagem do Woody (risos), que vive sendo rebatido pela Frenchy, de veia sarcástica salteada. A cena inicial é um bom exemplo. A protagonista chega a ser até identificável com algumas figuras da vida real, com seu jeito escandaloso e desbocado.

Trapaceiros é aquele tipo de filme que a gente nunca quer ver acabar. É um trabalho muito especial vindo do Woody. Pode ser até menor, mas é excelentemente engraçado e bem-feito. O elenco, primoroso. A fotografia de Zhao Fei, chinês que trabalhou com Woody no anterior a este Poucas e Boas e no seguinte, O Escorpião de Jade, também merece destaque (puxa, queria eu ser pobre em Nova Iorque, e assistir àquele sublime espetáculo ao pôr-do-sol - que vida, que vida!). A construção da trama é delicada e a fermentação dos personagens é aguçada. Woody recheia Trapaceiros com ironia, humor escrachado, diálogos hilários e sempre brilhantes. Resumindo, não dá pra reclamar, ou até pedir mais. Trapaceiros é maravilhoso e ponto final.

Trapaceiros (Small Time Crooks)
dir. Woody Allen - 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Crítica: "CÓDIGO DESCONHECIDO" (2000) - ★★★★


Como qualquer outro filme do austríaco Michael Haneke, Código Desconhecido requer de uma predisposição especial por parte do espectador. Até mais do que certos exemplares da filmografia de Haneke, pra ser mais específico. E essa predisposição não é nem por conta do filme ser complicado em certos aspectos, mas sim porque há muito o que digerir. Se por um lado Código Desconhecido é um dos trabalhos mais inteligentes e interessantes do diretor, por outro trata-se de seu filme menos conhecido e popular. Uma teoria provável para esse esquecimento é a vinda de A Pianista no ano seguinte à estreia de Código Desconhecido, um eclipse. O que conta, no entanto, é que Michael Haneke mantém a pose num de seus longas mais enigmáticos e desconcertantes, uma análise minimalista dos preconceitos invisíveis a uma sociedade moderna. 

Código Desconhecido abre com uma cena particularmente estranha. Uma garotinha surda faz mímica, e seus colegas tentam codificar a atividade. A cena se dissolve rapidamente. O subtítulo de Código Desconhecido é também um achado: "História incompleta de diversas viagens". E, apesar de não ser um filme perturbador (do jeito Haneke de ser, quero dizer) as cenas de Código Desconhecido trazem ao espectador aflição e peculiaridade, mas não são perturbadoras. Pode-se afirmar que esse é o filme menos perturbador do Michael. Em contrapartida, é um filme de muitos questionamentos e morais, uma real denúncia, mas que raramente é vista dessa forma, até mesmo pelo acusado.

Assim como Caché, Código Desconhecido é focado num dos problemas sociais mais graves e ocultados do continente europeu nos últimos tempos: a xenofobia. Utilizando como arma em sua denúncia afiada uma inventiva crônica recheada de emblemas e simbolismos, Haneke é fabuloso na construção de uma trama que reflete bem nesse complexo trânsito e ainda sim desponta para situações semelhantes no resto do mundo, de forma com que a universal história seja facilmente identificável para o público que não vive na Europa e não é tão intensamente familiarizado com a xenofobia como o longa de Haneke esteticiza no desencontro de personagens estrangeiros, imigrantes e de diferentes classes sociais.

Ano passado, eu adquiri duas cópias de Haneke, a de Código Desconhecido e a de O Tempo do Lobo, dois filmes pouco conhecidos dele e atuais (2000 e 2003, respectivamente). Escolhendo Código Desconhecido, creio que fiz o melhor. E isso não é nem por conta da qualidade do filme, mas é incrível ver que o mesmo faz-se atual e muito essencial por mexer num assunto bastante comentado e debatido nos dias de hoje: a imigração. Vira e mexe, notícias dos refugiados sírios entrando na Europa em busca de abrigo e proteção são manchete e capa de jornal. Código Desconhecido não é auto-explicativo, mas é por si só um retrato pleno do preconceito esquadrando imigrantes e estrangeiros no continente europeu inteiro. Afinal, não é só na França que este caso se faz presente, e próximo.

Ainda que não seja seu filme mais cruel e perturbador, Código Desconhecido é lotado de provocações, desafios que nos instigam e só vão nos deixando mais curiosos, tudo à la Michael Haneke. Quem codifica essa mensagem que o Haneke deixa à mostra é o espectador ele mesmo. O enigma está nas nossas mãos. Dependendo da nossa exposição, admiração e intimidamento pelo filme, a interpretação nascerá conforme formos o adequando às nossas premissas particulares da presença da xenofobia nos dias atuais na sociedade e do racismo.

A Juliette Binoche, aqui na pele da atriz Anne Laurent (engraçado como o Michael Haneke sempre usa o mesmo nome para seus personagens em todos os filmes que faz; ex.: Georges, Anne...), pediu para o assessor do Haneke uma fita de Violência Gratuita na época em que o filme saiu. A atriz, encantada com o longa, logo telefonou ao diretor lhe indagando uma possibilidade de trabalho. Haneke não pensou duas vezes e escalou a atriz como protagonista de Código Desconhecido, onde ela faz o papel de uma intérprete namorada de um fotógrafo de guerra. O desempenho da atriz aqui a a rendeu espaço num longa adiante do cineasta, o já mencionado Caché (onde ela interpreta, novamente, a tal da Anne Laurent).

A sequência que segue os créditos iniciais é sufocante (a justa cena onde os três núcleos principais da trama, o núcleo da imigrante, da família negra e do casal high society, se interconectam). Um rapaz (Jean), recém-saído da fazenda do pai, procura a namorada do irmão para se estabelecer em Paris na fuga. A namorada o oferece lugar no apartamento, mas não garante tempo nem espaço suficiente no cafofo. Com as chaves da casa na mão, ele segue pelas ruas de Paris, até que se depara com uma senhora mendigando num pequeno beco. Ele retira uma nota do bolso e a lança contra o colo da mulher. Em seguida, um jovem negro vem tirar satisfações com o moleque por ter humilhado a senhora (uma imigrante armênia) daquela forma, insinuando que ela fosse repugnante. Inicia-se uma briga, e Anne surge para apartar a discussão. O rapaz negro vai preso, e seu pai, um taxista, é informado. Nessa cena, o taxista começa a acelerar a velocidade do veículo, e nisso começa uma briga com o passageiro, que passa a reclamar do taxista e da atitude dele. O homem termina por deixá-lo num ponto de táxi, e segue para a delegacia, onde pretende buscar o filho.

Numa outra cena, bastante chocante, esse mesmo taxista, que vive com a família numa pequena quitinete nos subúrbios, trava uma discussão com o neto, uma criança. O menino teria sido acusado pela professora na escola de estar usando maconha durante a aula. O garoto contraria a palavra da professora, e diz que foi ameaçado por um outro menino da sala, que teria lhe pedido uma determinada quantia de dinheiro para não acusá-lo falsamente de portar maconha. Código Desconhecido levanta muitas questões e intriga o espectador com a injustiça e os paradigmas de um mundo moderno dominado pelo caos, pela desonestidade e pelo preconceito. Cabe ao espectador ir reimaginando o que lhe foi apresentado em tela tempo após o filme visto, já que, como eu bem lhes expliquei, há muito o que refletir sobre Código Desconhecido. É um prato cheio, um trabalho de arte idealista e necessário, pérola da carreira de um diretor importante, visionário e único, sempre genial nas películas que traz.

Código Desconhecido (Code Inconnu: Récit incomplet de divers voyages)
dir. Michael Haneke - 

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Crítica: "DANÇANDO NO ESCURO" (2000) - ★★★★★


Um musical de Lars Von Trier. É dessa inusual ideia que surge Dançando no Escuro, muito provavelmente o melhor filme do diretor dinamarquês. Último filme da trilogia "Golden Heart", de Lars (antecedido por Os Idiotas e Ondas do Destino), o intenso drama Dançando no Escuro não só me deixou completamente desolado como também me fez enxergar que, assim como outros filmes do cineasta, a América não é toda essa beleza que imaginamos não. Talvez, nessa questão, não seja tão forte e intrigante quanto Dogville ou Manderlay, mas dá conta do recado e deixa bem nítido seu protesto contra o estereótipo que eleva a nação americana a "terra dos sonhos", o que talvez possa ser verdade. Até a página 2. Lars Von Trier explica porque tal alcunha é de moral duvidosa.

O espectador é colocado em teste diante do amor materno em sua forma mais pura e autêntica possível. Há quem estranhe Dançando no Escuro vir de alguém justamente do escalão de Lars Von Trier, uma pessoa cuja filmografia é considerada, por muitos, polêmica e excêntrica. Assim foi, também, em Ondas do Destino. E o melhor é que ele funciona trabalhando com um drama tão pesado como esse, que necessita de cuidados especiais. Não é à toa que ele se transforma em seu melhor filme. E não é só isso. É um musical também - fenômeno mais extraordinário ainda - e funciona brilhantemente. Ou seja, não duvidem caso ouvirem que Dançando no Escuro é o melhor e mais impactante filme de Lars.

De fato é um filme que anda muito esquecido, mas é definitivamente o melhor longa dele. Recheado com uma perplexa e apaixonante eletricidade, e com uma atordoante sensibilidade, Dançando no Escuro é ambientado nos anos 60-70, creio eu, nos Estados Unidos, onde uma imigrante da Checoslováquia, Selma, vive com o filho de doze anos num trailer no terreno da casa de um policial, e trabalha numa fábrica. Apaixonada pelo gênero musical, a imigrante veio para os E.U.A. na intenção de dar uma vida melhor ao filho, e consequentemente viver em boas condições, mesmo que não luxuosas. Selma trabalha duro para economizar dinheiro com o fim de pagar a cirurgia de seu filho, que sofre de uma doença hereditária que afeta a visão, e vai deixando a pessoa cega aos poucos (glaucoma?), patologia que também acomete a mãe, que apenas se preocupa com o filho, que nem sempre obedece à mãe ou reconhece seu esforço. Porém, Selma, ao lado da amiga Kathy (a.k.a. Cvalda), passa por poucas e boas em uma jornada desesperadora, depressiva e automaticamente desgastante, no espírito mais trágico e menos defeituoso que a palavra traz.

Dá dó ver Dançando no Escuro. Talvez seja o filme do Von Trier que mais dê dó. A doçura de Selma, sua luta pela salvação do filho e o sofrimento dela são todos intermináveis (o próprio final, talvez um dos mais abaladores e desconcertantes que eu já assisti na minha vida). E a gente fica emocionado com a persona dela, justo por todas essas aquisições. Afinal, a vida é feita de injustiça, sempre. Até mesmo nos Estados Unidos, a "terra dos sonhos". E, mesmo que o filme sirva de crítica com geniais protestos no fundo, é a sua expressão exterior que vence. É a construção do inimaginavelmente perfeito e inteligente roteiro, a performance catastrófica e bondosa de Björk, os segmentos musicais que aquecem a alma. A beleza da história. Quem diria que dentro de um ser revoltado como Lars, simpatizante de Hitler e ex-adepto do Dogma 95, entre outros, havia esperança e amor? Puxa vida, hein... É mais que um presente.

Os clipes musicais de Dançando no Escuro, gravados simultaneamente por múltiplas câmeras, o que fortalece a linda edição, menção honrosa a "I've Seen It All" (canção que indicou Björk e Lars Von Trier, pela única vez, ao Oscar em 2001) e "Cvalda". O bom é que o filme abriga consigo um significado importante, necessário. Ouvir o coração é essencial. Enxergar com ele, mais ainda. E quem não chorar depois das duas horas torturadoras e íntegras desse longa muito provavelmente não é um ser humano.

Mas em cena temos a Björk, que revelou: "Dançando no Escuro é o meu primeiro e último trabalho como atriz", um desperdício imperdoável da parte da cantora que já é maravilhosa nos discos, e na película nem se fala, se bem que ela e Lars Von Trier tiveram algumas desavenças no set, mas vale lembrar que o Lars é bem complicado mesmo, e trabalhar ao lado dele deve ser um tanto puxado.

Co-produção entre 13 países, Dançando no Escuro é uma obra mais que memorável, com um elenco excepcional (destaque a Björk e Catherine Deneuve, também ótima) e uma mensagem infeliz e verdadeira, repleta de realismo, remontada por um dos autores cinematográficos contemporâneos mais controversos e deliciosos. Embora não seja o típico do diretor, a presença de Lars aqui é notória e precisa.

Dançando no Escuro (Dancer in the Dark)
dir. Lars von Trier -