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segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Crítica: "ANOMALISA" (2015) - ★★★★★


2016 mal começou e uma porrada de filmes excelentes entraram em cartaz só neste mês de janeiro. O ano será cheio, camaradas. Filme vai, filme vem, aparece Anomalisa, esse trabalho divino, o mais novo projeto do Charlie Kaufman, aventurando-se pela segunda vez à frente da direção de um filme (já se passaram oito anos desde Sinédoque, Nova York). Porém, como é de costume o forte do gênio, que aqui compartilha o crédito de diretor com Duke Johnson, é o roteiro fabuloso, adaptação de uma peça teatral do próprio Kaufman. O fato de que Anomalisa é um filme de animação já despertava no público cinéfilo e fãs interesse e estranhamento desde que o filme fora anunciado ano passado, justamente quando ele ingressou na lista de filmes em competição da mais recente edição do Festival de Veneza. 

E, vista a maravilha que o filme é, pode-se afirmar que toda a atenção a ele concedida durante o período do festival, onde ele até conquistou um prêmio, e também nesta temporada de premiações, foi recompensada. Anomalisa é imperdível. Uma especial anomalia dentro de seu gênero, anomalia que pode ser interpretada tanto como uma amável surpresa ou como uma espécie de reforma. O certo é que o filme é inusualmente prazeroso de se ver, constituído de momentos simplesmente únicos, sem falar que é em si maximamente bem-feito, um estouro cinematográfico de primeira ordem. 

Em Anomalisa, um escritor britânico, Michael Stone (voz de David Thewlis) desembarca em Cincinnati para divulgar seu novo trabalho, um livro de auto-ajuda motivacional. Ele se hospeda em um grande hotel da cidade e logo lá inicia um romance com uma leitora sua, Lisa (voz de Jennifer Jason Leigh). 

De tão humano e profundo que é, Anomalisa deprime a gente. Chega a ser até mais melancólico do que Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, pra ser honesto. Mas por mais esquisito que soe, isso sustenta o romance entre a "Anomalisa" e o escritor. A historinha de amor entre os dois, espontânea e divertida em certos quesitos, empossa de quebra essa melancolia, e independente desse elemento funciona brilhantemente como chamariz romântico.

A estética de animação do filme, slow-motion, é minimalista e agradável de se observar. Anomalisa caminha em passos lentos, o que lhe confere naturalidade e precisão, e ainda sim nos permite analisar de perto as minúcias da técnica slow-motion, muito bem trabalhada aqui. Anomalisa, apesar das auto-referências onipresentes a Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (há uma cena onde o personagem principal, Michael, tem um pesadelo, que lembra perfeitamente de um fragmento do filme em questão), lembra mais de Encontros e Desencontros, filme que também tinha como cenário recorrente um hotel e se centrava no romance entre um ator de meia-idade (Bill Murray) e a jovem esposa de um fotógrafo (Scarlett Johansson), relação que lembra bastante a da Lisa e a do escritor aqui de Anomalisa.

Sei que ontem estava bastante emotivo, mas chorei demais na cena em que a Lisa vai até o apartamento do escritor e canta "Girls Just Want to Have Fun", onde até mesmo o personagem Michael chora. É muito bonita de se ver mesmo. Possivelmente não verei cena mais emocionante nesse ano, so far. Essa cena, embora não seja idêntica, lembra em certos aspectos a sequência final de Antes do Pôr-do-Sol (texto 1, texto 2), onde a Celine canta para o Jesse "A Waltz For a Night", também de força emocional eletrizante.

Embora não seja o melhor trabalho do Kaufman no roteiro (na direção, Anomalisa com certeza supera Sinédoque, Nova York), Anomalisa fica na frente e imortaliza como mais um estudo romântico e existencialista por sobre as relações humanas e conflitos amorosos. Anomalisa cativa porque exibe como é amor verdadeiro é e deve ser. Em Anomalisa, todos os outros personagens, à parte do principal e da Lisa, são dublados pela mesma pessoa (Tom Noonan). À procura de um amigo, Michael acaba batendo na porta errada e se encanta com uma moça recém-saída do banho, a Lisa. Ela e ele são as únicas pessoas no filme com vozes diferentes, dubladas por outros dois atores que não sejam o Tom Noonan (neste caso, Jason Leigh e Thewlis), dando a entender que é esse o visual do true love: encontrar um alguém único, diferente de todo mundo. E a gente, como o escritor entediado e desanimado de Anomalisa, vai saber quando essa pessoa vier, de uma forma ou de outra.

E, muito embora o desenrolar do filme pro final ganhe uma perspectiva diferente dessa apresentação, uma perspectiva até pessimista, porém realista, não há problema em identificar o que ele quis dizer com a representação do amor verdadeira e como isso define o que há de mais intenso e relevante em Anomalisa. Há quem se desaponte com o desabrochar da história, mas é algo infelizmente compreensível, e não dá pra negar que esse contraste é o que, de fato, movimenta a trama. Triste, porém crível. O clima monocromático da história justifica-se. É de partir o coração. Ninguém é perfeito. Todos temos defeitos.

É interessante ver como certos fragmentos do filme se comportam de maneira romanticamente densa e marcante pra gente. Gosto de pensar dessa maneira daquele segmento do pesadelo, onde o personagem do Michael começa a correr doido pelo hotel temendo perder a amada: "Eu sempre perco todo mundo. Não quero te perder". É uma das falas mais românticas do filme. [spoiler de mínimo efeito à frente] A cena que encerra o filme também é bastante emocionante e cruelmente romântica. A Lisa escreve uma carta para o amado, dizendo ter achado num dicionário de japonês a palavra "anomarisa", que significa "deusa celeste". Logo a seguir ela termina: "Não estou supondo que eu seja uma, mas é interessante... Espero que nós voltemos a nos encontrar sob melhores circunstâncias...". Essa sequência sim possui a melhor fala de todo o filme, e mais romântica.

Acho fofo o grande "quê" do título "Anomalisa", que na verdade é o apelido que Michael dá a Lisa depois que eles se conhecem. A moça, que trabalha como telefonista num setor de vendas, e se hospedou no hotel mirando nessa visita uma espécie de férias, já que ela alegava não ter nem mesmo dinheiro para pagar a hospedagem junto à amiga, tem uma cicatriz no rosto, que sempre costuma cobrir com uma mecha do cabelo. Ela, já no quarto do Michael, diz que a todo momento lia o livro agarrada a um dicionário, já que desconhecia a existência de certas palavras ali colocadas. Numa parte, ela menciona o Brasil, mencionando um fato sobre o nosso país, dele ser o único país do continente americano a falar português, muito desconhecido pelos americanos. Ela diz isso depois de mencionar o português como uma de suas línguas favoritas, afirmando gostar de alguns cantores nacionais. É aí que, após mencionar essa curiosidade sobre a nossa língua, ela define essa "preciosidade" como "anomalia". O escritor, romanticamente, a apelida de "Anomalisa". É muito lindo. Também gostei muito da parte onde ele pede a ela permissão para beijar a cicatriz que ela tem na testa.

Sensibilidade e delicadeza romântica é o que não falta em Anomalisa. Eu gostei pra caramba. Só sei disso. Me emocionou profundamente, lá no fundo. Digo isso com toda a certeza do mundo. Belíssimo. Belíssimo. E mais belo ainda do que isso. Tocante como nenhum outro. Enfim, folks, isso é Anomalisa. A ótica Kaufmaniana tarda (como dito, são quase dez anos desde o último trabalho do roteirista) mas nunca falha. Nesta animação adulta (até cena de sexo explícito e nu frontal tem; pais, essa animação não é para os pequeninos, mas para vocês), Charlie redesenha seu complexo universo lotado de simbolismos filosóficos e paradigmais numa história simples e emotiva, um romance energético e fabuloso. Anomalisa é tudo isso, um amor de filme!

Anomalisa
dir. Charlie Kaufman, Duke Johnson - ★★★★★

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Crítica: "SINÉDOQUE, NOVA YORK" (2008) - ★★★★


Fabulosa obra de arte, Sinédoque, Nova York é uma colossal e furiosa crítica à sociedade e uma revisão existencialista sobre a vida de uma forma jamais vista. Em sua estreia na direção, Kaufman, anteriormente aclamado por trabalhos como Quero Ser John Malkovich e Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, destaca-se triunfantemente tanto na direção quanto no exímio roteiro da película.

Às vezes, um filme é de um luxo tão grande que ele mesmo exige um certo tempo para ver-se. Por isso, se você procura algo fácil, compreensível, coisas do termo digerível, não assista a Sinédoque, Nova York, pois o filme é um conteúdo bem complicado. Complicado no sentido de necessário, virtuoso. Não é um filme qualquer. Ele requer um senso apurado tanto de humor quanto de drama; Num estilo bem tragicomédia e ao mesmo tempo irreal, Sinédoque, Nova York conta a história de um diretor teatral que após ser abandonado pela esposa e pela filha, decide dirigir uma peça autobiográfica, que demora uma eternidade para então, digamos, ser "finalizada".

A ideia, como visto, é muito boa. Propõe uma série de segmentos tresloucados, surrealistas e complexos, ou seja, tudo bem à Kaufman. Eu diria, no entanto, que Sinédoque, Nova York é um trabalho mais charmoso, concentrado, digamos então, do roteirista/diretor. O pós-moderno drama que a intensa trama oferece pode servir de caminho tanto para uma excelente narração futurista, tanto quanto uma excelente jornada de vida. Sem errar o feitiço, Kaufman consegue dispôr-se de todos os elementos à sua volta, incluindo uma maravilhosa direção de arte e um maravilhoso elenco, para então criar o universo de Sinédoque, Nova York, um universo pós-moderno, revolucionário e peculiar.

Destaque para a plausível performance de Philip Seymour Hoffman, que mais deveria ter sido indicado por esta atuação do que pela que o indicou a Melhor Ator Coadjuvante no Oscar 2009, por Dúvida (bom filme, mas que não amplifica o talento de Hoffman tão quanto este filme conseguiu). Afinal, de se estranhar que Sinédoque, Nova York, tão inteligente, sofisticada e oscarizável aclamada obra, tenha sido esquecida na premiação, logo quando Charlie Kaufman é uma pessoa tão amada pela A.M.P.A.S. Morton, outra que deu uma de coadjuvante e até se saiu bem, foi outra esnobada cuja performance é tão igualável quanto as cinco indicadas ao prêmio aquele ano.

Enfim, sendo ou não indicado ao Oscar, Sinédoque, Nova York não deixa de ser imperdível. Direção brilhante, roteiro brilhante, atuação de Hoffman brilhante... É tudo seletivamente brilhante nesta obra, que acaba sendo confuso retratá-la em texto. Só posso então dizer que esse fabuloso conto é um lindíssimo resultado da maestria de Kaufman. Muito bom!

Sinédoque, Nova York (Synecdoche, New York)
dir. Charlie Kaufman - ★★★★