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domingo, 10 de dezembro de 2017

DUNKIRK (2017)


Quando falamos em Christopher Nolan, falamos de uma figura que é tanto amada (excessivamente, por vezes) e odiada (até injustamente, por vezes) nos círculos cinéfilos. Fato é que ele é um dos destaques do cinema britânico contemporâneo e ganhou muito respeito com seus trabalhos desde a última década. Mas a filmografia desse diretor, do que tem de consistente, também tem de irregular. A exemplo de Interestelar, que talvez seja um dos filmes que mais me dividiu (não só da carreira do diretor em si, mas num âmbito geral), e que até hoje eu devo uma revisão para esclarecer melhor os motivos disso. Dunkirk já é um passo à frente. Não é um grande filme, mas devo dizer que gostei mais que o anterior. 

Nolan tem uma paixão pela intensidade. E pelo que a imagem pode captar com essa intensidade ou como o cinema se dá através da manipulação de recursos imagéticos e narrativos. Mais uma vez, o diretor experimenta com a relação entre tempo, imagem e linguagem ao alinhar três linhas narrativas distintas, porém próximas, num andamento paralelo, formando uma única narrativa mas que se desintegra em três veículos de tempo distintos. O experimentalismo – se podemos chamar assim – se dá não apenas nessa abordagem, mas também numa forma mais literal, a fotografia do filme é também aliada desse fator experimentalista (ao longo do filme, há transições entre proporções de tela diferentes, o que não ficou muito claro pra mim no começo, embora seja evidente que exista uma relação bem mais complexa por trás de um movimento tão simples). Ainda que seja um pouco radical apelidar tais inserções de experimentalismos, há uma clara reverberação técnica dentro dessas mudanças. Dunkirk não é um filme experimentalista de guerra, mas assume a forma e a desconstrução da imagem como o principal motor da ressignificação narrativa e visual.

Se Nolan é um experimentalista por natureza (Interestelar que o diga), seus filmes buscam mais e mais anular um certo sistema cinematográfico operando dentro desse mesmo, explorando todos os seus resquícios e detalhes, dissecando cada movimento dentro desse sistema, para poder finalmente questionar o que subexiste entre cada partícula dessa realização. Se um filme é capaz de filtrar o tempo (e ser filtrado pelo mesmo), a linguagem se transforma numa força catalisadora da essência temporal da imagem. 

Estamos na praia de Dunkerque, na França. A missão é voltar para casa. A missão. Voltar para casa. O complexo e o simples. O destino não importa mais do que o caminho até ele. O filme de guerra de Nolan, por mais complexo que possa ser subentendido, se baseia justamente na simplicidade que instala para desenrolar os eventos mais complexos de sua trama. Do simples, emerge o complexo. Não há muito o que saber sobre a trama em si: é um típico filme de guerra com todos os seus méritos técnicos (e Nolan sabe fazer isso muito bem, convenhamos, então não há surpresa quanto ao maravilhoso monumentalismo da imagem) que até pode cair nos clichês mais impulsivos desse gênero quando aborda, aqui e ali, temas já recorrentes da guerra. Seria ofensivo dizer que Dunkirk é um filme ruim? Talvez porque o fato é que ele não é um filme ruim, o problema é que Nolan imprime uma versão bem mais ambiciosa de seu filme quando, na verdade, o que ele tem de melhor está no que ele tem de simples. Seria esse o problema do cinema de Nolan? Tornar tudo mais ambicioso, gigante e complexo quando a maravilha desse trabalho está na simplicidade na qual ele atinge um plano surpreendentemente bom, uma imagem que consegue emitir tantas coisas com pouco? Em vez de perseguir essa essência, Nolan insere mais carga ao seu filme, suprindo desnecessidades e deixando passar essa efervescência repleta de potência quando ele insiste em inflar totalmente as cargas. Quando ele chega a um lugar já bom, ele acelera mais ainda.

Então, Dunkirk é um filme bom? Sim. Não é perfeito, mas é um filme com sua parcela de acertos. Nolan está no caminho certo, isso é verdade. Ele só precisa afrouxar mais – quem sabe? – para perceber que às vezes uma certa carga é necessária para imprimir no seu filme aquilo que ele tanto deseja, o significado tão almejado que ele persegue. Sim, esse significado está aqui. Há sensibilidade, há força. Mas, Nolan – meu filho – vai com calma... Um filme bom às vezes se perde quando querem colocar mais de um filme onde um só já basta. Se Nolan mira muito bem com sua perspectiva de um estado de imersão quase magnânimo e vertiginoso de três realidades de guerra e conflito – utilizando o cinema e toda a sua potência a favor desse retrato deslocado, fumegante e de certa forma solene do tempo em que está inserido – o espectador é quem sai ganhando com uma experiência poderosa, ainda que imperfeita. Nesse ponto – a experiência coletiva do cinema – o cinema do inglês é uma feliz plataforma de emoções catárticas através da materialização imagética. 

Dunkirk
dir. Christopher Nolan
★★

domingo, 20 de setembro de 2015

Crítica: "A ORIGEM" (2010) - ★★★★★


Certos títulos da carreira de Christopher Nolan são medianos e pouco inesquecíveis, embora ambiciosos (Batman - O Cavaleiro das Trevas e O Grande Truque), porém, ainda que curta, nessa filmografia aplaudida destacam-se dois títulos absolutamente invejáveis e geniais fabricados pelo cineasta inglês: o imperdível Amnésia e o mais imperdível ainda A Origem, que é muito provavelmente seu melhor longa. Um dos projetos mais complexos da história do cinema e dessa geração é uma obra que desmonta seu gênero e o reconstrói brilhantemente dentro de uma trama que diverge bastante dos comuns trabalhos atuais, num bom sentido, e marca por sua excelência e inquestionável perfeição. 

Não vejo problema algum em não entender A Origem, se bem que para um filme cujo principal alvo é a compreensão, ao contrário da beleza ou ação que também proporciona, ele até exagera um pouco - para confessar. E embora ele exagere em determinados pontos, não deixa de ser bem-filmado e muito inteligente. É necessário rever o filme mesmo para perceber e entender alguns detalhes, pois a primeira vez pode ser difícil para muita gente. E quem conhece bem Nolan sabe que o diretor não poupa esforços em encher seus filmes com uma complexidade explosiva. 

E é nesse ramo que ele funciona bem, apesar do seu último trabalho, o cotadíssimo Interestelar, tenha me desapontado demais. É algo que, caso eu não estivesse paciente hoje, poderia ter acontecido: A Origem é demorado. Vejo que Nolan parece um pouco nervoso conduzindo seu brilhante roteiro em atalhos fáceis. A certo modo, ele não confia na relação entre a duração e a ambição de seus trabalhos, fazendo assim uma mistura que resulta em cansaço, na maior parte das vezes. E feliz estou ao assistir A Origem, onde ele parece ter encontrado o exímio alinhamento entre esses dois elementos tão importantes e decisivos. 

Na história, Dom Cobb (feito por um inspirado, mas que poderia ser infinitamente melhor, Leonardo DiCaprio) é um criminoso que trabalha roubando grandes informações de poderosos homens através de sonhos. Seu complexo trabalho reúne toda uma equipe e um delicado processo, além de um material específico e tal. Quando um membro de sua equipe, um arquiteto, morre, ele vai procurar ao lado de seu pai um novo assistente, e acaba encontrando Ariadne. Dom tem como missão roubar a senha de um cofre, mas seu tormentador passado e a falecida esposa que faz de tudo para derrubá-lo em seu trabalho, faz com que ele perca a razão entre a realidade, os sonhos e seu passado. Melhor não continuar para não dar spoiler. 

Só pra falar, uma coisa que achei muito interessante nesse filme é como Nolan transparece utilizar duas palavras, do português, para identificar dois personagens que movem a trama: Dom (o mestre/mentor do trabalho, o que dá a perceber pelo seu nome que também o qualifica como provedor desse habilidoso jogo) e Mal (sua falecida esposa, que agora vive o atormentando em seus sonhos e o culpa por seu destino, e não por isso ela recebe esse malévolo nome, mas sim por que ela é produto da mente de Dom pra descontrolar sua noção da ilusão e reverter todo o paradigma dos sonhos: logo, um mal), sendo a segunda personagem interpretada lindamente por Marion Cotillard, num papel ótimo aqui. 

A conexão detalhista, pós-perfeccionista, dos eventos; a inteira exatidão da percepção; os personagens cuidadosamente desenvolvidos; o roteiro escrito por Christopher Nolan segue uma linha tão singular e extraordinária que não qualificá-lo por mais de uma vez dentro deste texto é do mesmo efeito de um pecado. Poxa vida, só tenho a dizer que, ademais de tudo o que sinto por Nolan, nesse exato momento impera a inveja. Que perplexo roteirista é Nolan. Que cara genial, hein! Chega a tremer. Digo o mesmo da direção, que rima toques, mesmo que fracos, de Scorsese e alta sensibilidade vinda de um Stanley Kubrick. O melhor é que tudo soa tão natural, convencional. Fica automaticamente impossível não adorar A Origem à medida em que o filme vai revelando suas cartadas e desinibindo seus segredos. 

Venceu Fotografia, Mixagem e Edição de Som e Efeitos Visuais na cerimônia do Oscar 2011, e pra mim ainda podia ter papado de boa Direção de Arte, Trilha Sonora, Roteiro Original e, porquê não?, Melhor Filme na edição, se não fosse por Alice no País das Maravilhas, A Rede Social e O Discurso do Rei. A fotografia de Wally Pfister, a melhor dele, costura minuciosamente os aspectos visuais que compõem os cenários de A Origem, e torna-se a melhor colaboração de Nolan com o diretor de fotografia. A trilha sonora de Hans Zimmer é ótima e marca mais outra memorável parceria dele com o cineasta, uma parceria que foi muito bem apelidada pelo Mau Saldanha no podcast dele sobre Interestelar como "a mesma de Steven Spielberg e John Williams", da qual eu não discordo nem um pouquinho. 

A experiência de vê-lo em DVD já é demais satisfatória e bela, mas acredito que vê-lo no cinema, lá em 2010, em IMAX, seria maravilhoso, e concretizaria a dimensão da experiência de vez. O que vale é ver. A Origem, que explora muito bem a natureza dos sonhos na sua forma mais completa, creio eu, também é a redenção de Nolan como um diretor maturo e possuído pela ambição. 

A Origem (Inception)
dir. Christopher Nolan - 

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Crítica: "INTERESTELAR" (2014) - ★★★


Não bastou Interestelar ter chegado ao nosso circuito ano passado bem adiantado. Só depois de dez meses de seu lançamento é que a minha pessoa decide vê-lo. Depois de ver a divisão causada por Interestelar, e seus pesarosos 160 minutos, perdi a coragem. E o tempo passou. Ontem, a coragem me fez agarrar a chance de ver o último longa de Christopher Nolan em vídeo, e seu mais ambicioso projeto, como se não estivéssemos falando do mesmo cara que criou o surreal universo da superprodução A Origem (que eu gosto bastante, só pra falar) além da trilogia do Batman que nos presenteou o bombástico (no bom sentido) O Cavaleiro das Trevas, além de Amnésia, filme independente que, mesmo a baixo orçamento, teve a ambição de Nolan e seu irmão Jonathan transportada para o inteligente roteiro. Isso sem falar em O Grande Truque, que também é um trabalho maior dele. No entanto, em seu maior filme - falando da dimensão da produção -, que prometia ser uma baita obra de arte, e sua mais importante realização, Nolan falha. De tanta ambição, de tanto querer ser grande - pode parecer moralista, mas no fundo não é - Nolan se perde e constrói uma trama futurista non-sense bem atrativa e inovadora, claramente inspirada no clássico genial de Kubrick, 2001: Uma Odisseia no Espaço, mas que por erros medíocres e anti-convencionais, vira de ponta-cabeça, e seus valores perdem força e desaparecem à medida que o filme vai revelando suas imperfeições. 

Em certos aspectos, fica bem fácil lembrar de Gravidade. A diferença principal entre este aqui e a grande obra do mexicano Alfonso Cuarón é a qualidade, uma vez que Gravidade trata-se de uma obra fenomenal, e Interestelar uma decepção imperdoável, salvo brevemente por sua plausível excelência técnica. Na esperança de surpreender e agradar a todos com um final inegavelmente inteligente e bem-feito, e amenizar a sensação de confusão deixada pelos segmentos anteriores à ele, Interestelar e seu diretor-roteirista, Christopher, cometem um erro escabroso. O que é pior num filme? Muitas vezes, um grande final vem acompanhado de uma trama bem desfigurada, por se dizer, complicada e aparentemente irresolvível. Mas, o que dizer quando o final esclarece a boa parte de nossas duvidas, mas por outro lado só confunde mais o espectador, como um quebra cabeça que, mesmo depois de todas as peças utilizadas, ainda possui espaços vazios? Nolan cria pistas de um mistério que não existe, e, enquanto as acumula, vai divertindo o público com ensaios filosóficos sobre o ser humano e seus ângulos mais diluídos, suas perguntas mais profundas, e seus desejos virais. Não estou julgando, de modo algum, tal acomodação. Estou criticando, com base no que vi, a irresponsabilidade do método utilizado aqui por Nolan e a minha insatisfação. Respeito muito quem gostou de Interestelar. Melhor falando: os invejo. Afinal, queria ter gostado desse filme, tanto quanto gostei de outros enigmáticos e mágicos trabalhos de Nolan, que já é um ilusionista cinematográfico exímio, algo que todos seus grandes filmes provaram com sucesso, à exceção deste aqui, o primeiro grande fracasso dele.

Estamos no espaço. Na Terra, uma luta assombrosa pela sobrevivência toma conta dos humanos. De volta ao espaço, algo do gênero preocupa e promove a tensão entre os astronautas a bordo da última embarcação espacial, que buscam um novo planeta habitável para os humanos, que, a cada dia, vão sendo exonerados pela fraqueza da alma e por constantes tempestades de poeira (maléfica à saúde). Um corajoso astronauta, que está a bordo da missão, perdeu a esposa devido a um tumor, e muito recentemente teve de abandonar seus filhos na Terra com o objetivo de salvar a humanidade. Entre umas e outras, o tempo no planeta encontrado não bate com o tempo da Terra e, cada hora lá equivale a sete anos aqui. Desesperado com os problemas que acabam surgindo, domado pela angústia de estar afastado dos filhos, especialmente da filha, Murph, que acaba crescendo e virando uma pesquisadora, o astronauta se vê obrigado a enfrentar cara a cara a pressão e a responsabilidade de ser a única chave para a salvação, mesmo que isso custe sua lealdade familiar. 

Ao elenco de Interestelar, falta firmeza e dramatização. Tudo é muito supérfluo. Matthew McConaughey e seu personagem-dramalhão, que sustenta um doloroso, mas ainda dramalhão, sentimento de culpa e indecisão só tende a impulsionar a impaciência. A melhorzinha de todos, mas ainda mediana, é Jessica Chaisten, que chega bem perto do final. Palmas à desoladora trilha sonora de Hans Zimmer, que é por demais emocionante. A fotografia de Hoyte van Hoytema, que já teve uma experiência futurística com Ela, que é bem melhor, também é de se elogiar. Como não tive a sorte de ver o filme em IMAX, e muito menos em 3D, no cinema, infelizmente não posso descrever o quão bom são os efeitos visuais utilizados aqui. No mínimo pelo que vi sem a grande tecnologia visual das salas de cinema, em certos momentos é bem impactante e bonito. Interestelar termina, e eu fico sem palavras. Não no sentido de estar totalmente maravilhado e vislumbrado, mas literalmente no sentido de não poder descrevê-lo. Se cumpro esta missão aqui, foi de muito esforço. Inicialmente, não sabia o que diria dele. Estava dividido. Mas uma coisa eu estava certo: se algo escreveria sobre ele, coisa boa não era.

Interestelar (Interstellar)
dir. Christopher Nolan - ★★

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Crítica: "BATMAN - O CAVALEIRO DAS TREVAS" (2008) - ★★★★


Nunca pensei que gostaria de Batman - O Cavaleiro das Trevas como eu gostei. Nunca fui muito fã do personagem, e mesmo assim, sem ser um ávido fanático, o considero o melhor de todos esses heróis fantásticos da ficção, embora sequer tenha o acompanhado muito de perto. E este Batman - O Cavaleiro das Trevas é uma surpresa deliciosa. Não é aquele filmaço que tanto prometeu ser, mas é um filme muito bom. O segundo e mais popular filme da trilogia Batman, de Christopher Nolan, possui pontos fortes e pontos fracos. Surpreende por muitos motivos. Um deles é a sua sobrevivência intacta do mal dos filmes de seu gênero, que muito tendem a ser demais repetitivos, exagerados e antipáticos. Também se livra da insegurança e dos possíveis atalhos pseudo-climáticos, que poderiam destruir a perspectiva dramática da trama do filme por inteiro. E, por que não dizer que O Cavaleiro das Trevas é um filme, finalmente, maturo, a certo modo? 

Ação pra cá, e ação pra lá, Christopher Nolan presenteia o espectador com um original e espetacular trabalho de arte. Não é "apenas" um filme de super-herói. Engloba todo um significado por trás de tal rótulo e acaba tornando-se algo maior. O som repetitivo que o filme logo de cara aparenta, na verdade é um falso cognato por trás do sucesso astronômico que esconde em si. E isso nada mais é o que O Cavaleiro das Trevas representa: uma bomba, que logo mostra-se efetivamente desarmada. Decerto há algumas imperfeições e indecifráveis incógnitas em O Cavaleiro das Trevas. Mas, por favor, primeiro vejamos o que o filme traz de bom, a real inovação - que é rara -, e depois analisamos os erros, que são mais comunais aos outros filmes, mas aqui não são grande coisa - que também é raro -. Afinal, why so serious

O moralismo perfeccionista de O Cavaleiro das Trevas é o menor dos problemas. O que realmente conta é a novidade. O que é melhor, de fato, em um filme senão sua inovação? O bom deste é que, principalmente, os clichês são reduzidos microscopicamente, e as muitas inovações são gigantes. Contemos primeiro com tal avanço para chegar à conclusão final. A primeira grande inovação de O Cavaleiro das Trevas é seu elenco, extraordinário. Se isso era preocupação, aliviados saímos do cinema em tal ponto. Heath Ledger explica tudo. A competência e versatilidade do ator são colocadas à prova aqui neste filme, e, como resultado, recebemos uma atuação maravilhosa. Não foi em O Segredo de Brokeback Mountain, nem em Casanova, muito menos em Não Estou Lá, mas aqui, em O Cavaleiro das Trevas, que Ledger concebeu a sua melhor performance, e talvez a maior de todas, mesmo que poucas, delas. O Oscar póstumo foi mais que merecido para Ledger. O prêmio nem consegue simbolizar ao todo o grande talento de Heath no papel do Coringa. Elogiar sua performance não é suficiente. Ela é totalmente indescritível.

Ironicamente, o membro do elenco que mais me desapontou foi Christian Bale. E não é a primeira vez. Bale, naturalmente, tem um ar frágil, fraco, meio sem graça, vazio, frio. Mesmo que seu currículo seja preenchido por grandes filmes, e indicações ao Oscar por longas como O Vencedor Trapaça, Bale só consegue surpreender pela facilidade surreal de fazer tão diversos papéis, e encarná-los de forma tão inusual, quebrando, não raramente, seu lado natural. Se por um lado Bale soa muito parado, no outro quem ganha espaço é essa sua capacidade de camaleão, que sempre positivamente nos agrada, e rebeldemente ataca sua personalidade comunal. Não entendam mal. Gosto dele. Possui um dom único, e incrível para atuar. Só que pra mim, Bale funciona como o Harvey Dent: é um duas-caras. Num lado é um tanto vazio, por que assim foi assim que ele nasceu, afinal, não é possível escolher nossa cara, e no outro é fascinante, por que é dedicado e tem um enorme talento. Em O Cavaleiro das Trevas, o lado vazio é quem constantemente toma conta da tela. Afinal, o sujeito anda o tempo todo com uma máscara enquanto encarna o Batman, e enquanto Bruce, que já é bem friozinho, a confusão bate. Fica difícil de saber se é ele ou se é um dublê. E fica difícil saber se é o Batman ou se é o Bruce Wayne. Essa parte aí é meio complicada, viu.

Mas, digo com certeza, se O Cavaleiro das Trevas fosse um céu, não seria nada difícil enxergar brilhantes e incontáveis estrelas nele. Além de Heath e Christian, ainda temos a ótima performance de Aaron Eckhart, Morgan Freeman, Michael Caine, Maggie Gyllenhaal, Gary Oldman, Cillian Murphy (coadjuvante em Batman Begins, aqui mais coadjuvante do que nunca, aparecendo em pouquíssimas cenas). É muita gente. E Nolan? O que dizer de Nolan? Qual é o papel de Nolan em O Cavaleiro das Trevas? É um papel desleixado? Ou bom? É um papel bem silly? Ou um papel bem strong? Christopher Nolan, um dos diretores mais desafiadores e divididos dessa geração talvez também seja como Harvey Dent. Seja, não: é. Foi excelente em A Origem, excepcional em Amnésia, talvez seu melhor filme, e ambicioso em O Grande Truque (e em todos os outros filmes de sua carreira, incluindo este, mas O Grande Truque foi o auge). Não vi ainda Interestelar (não, eu não tô brincando), mas pelo que eu vi é bem mediano. E como Nolan é em Batman - O Cavaleiro das Trevas, e nos outros dois filmes da trilogia? Ele é grande. Muito grande. Gigante, o que funciona de uma forma um pouco diferente de ambicioso. Gigante no sentido de verossímil, esforçado. A audácia também é grande, mas não no sentido dessa giganteza que vos apresento. Detalhista? Duvido muito. Algumas cenas de O Cavaleiro das Trevas, muito nitidamente, fornecem imperfeições catastróficas. Não acredito que detalhista seja a melhor coisa a se dizer de Nolan em O Cavaleiro das Trevas. Ele é grande, e ponto.

E, sendo grande ambiguamente na direção e no roteiro, poderosíssimos, Christopher acaba fazendo desta película uma grandiosidade peculiar. E isso é bom. Como em Chicago: "and that's good, isn't it grand? Isn't it great? Isn't it swell? Isn't fun, isn't it?". O Cavaleiro das Trevas é definido por tal adjetivo: grande. E isso, minha gente, é o que faz dele uma pérola preciosa. Um tremendo sucesso (não só de bilheteria, digo). Levem em consideração que este filme me agradou apesar de seu gênero, que não excede nem um pouco horríveis fracassos. E acabou abrindo a minha mente e mudando minha ideia sobre ele. Me fez ver que nem toda produção de seu porte é um lixo, e que no fundo tudo o que me afetava sobre elas era um preconceito ávido. No final, O Cavaleiro das Trevas, dentre as várias morais que fabricou, fez uma que em sua concepção é totalmente especial para mim, e que é a responsável por esta opinião: why so serious?

Batman - O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight)
dir. Christopher Nolan -