O mestre M. Night Shyamalan já começou a rodar seu próximo projeto, exatamente na data de hoje, 02 de outubro de 2017: Glass, a então aguardada sequência de Corpo Fechado, um dos principais trabalhos da filmografia do cineasta. Glass deve aterrissar nos cinemas em 2019, conforme as previsões, trazendo em seu elenco Bruce Willis e Samuel L. Jackson (de Corpo Fechado), Anya-Taylor Joy e James McAvoy (de Fragmentado, sua mais recente obra), Sarah Paulson, Spencer Treat Clark e Charlayne Woodard. Rumores de que James Newton Howard assinará a trilha do filme permeiam na net, mas nada foi confirmado (por enquanto). A fotografia está a cargo de Mike Gioulakis e a edição, Luke Ciarrocchi (os mesmos de Fragmentado).
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segunda-feira, 2 de outubro de 2017
terça-feira, 4 de abril de 2017
FRAGMENTADO (2016)
Fato é que Shyamalan é um dos cineastas de maior destaque do cinema americano contemporâneo. Com uma filmografia amada/odiada por muitos, é uma figura tanto controversa quanto aplaudida por seus trabalhos mais requintados e outros que muita gente faz questão de criticar, por melhor que estes são. Já não é o caso específico do novo (e aguardado) thriller do diretor, Fragmentado, clamado como seu "grande retorno" (um grande equívoco, visto que os fracassos "críticos" de Shyamalan tem uma difamação bastante subjetiva e, por vezes, até errônea, injusta e desqualificada) às telonas trata-se de um filme que coleciona muitos méritos, dentre estes um ponto que se sobressai, a arquitetação de uma atmosfera de suspense riquíssima e extraordinariamente bem elaborada.
Na trama, Kevin, um homem que sofre de um grave transtorno de personalidade, sequestra três jovens e as confina em um cativeiro pouco improvável. A história gira em torno das obsessões deste homem e suas múltiplas personalidades enquanto ele desenvolve uma relação tempestuosa com as jovens, sobretudo com Casey (a talentosa Anya Taylor-Joy, uma das mais promissoras atrizes da geração) a adolescente com quem tende a conversar frequentemente, em especial com a personalidade infantil de Kevin, um garoto de nove anos, Hedwig.
No que diz respeito à construção de uma atmosfera de suspense impecável, Fragmentado certamente não decepcionará a quem for assisti-lo com a expectativa de encontrar um thriller eletrizante, com momentos singulares e uma trama engenhosa, inteligente, do gostinho que Shyamalan sabe fazer como ninguém. Se a crítica não tem dado trégua para um dos diretores americanos mais subestimados não só desta geração mas provavelmente de todos os tempos, Fragmentado está aí, novamente, assim como muitos de seus trabalhos anteriores, para provar que o cinema de M. Night continua firme e forte.
É pelo dito fracasso de filmes excepcionais, obras, do cineasta, como A Dama na Água, Fim dos Tempos e A Vila que muitos fãs e boa parte da crítica tinha em mente a esperança deste ser o "triunfal regresso" de M. Night às telas. Como ele nunca esteve em péssima forma, não acho que o filme seja um regresso, por mais brilhante que seja, até porque o recente A Visita se saiu bem melhor que este filme em muitos pontos que neste aqui revelam irregularidades. No papel de Kevin & cia., James McAvoy, em sua primeira grande performance de destaque, entrega um desempenho tanto fenomenal quanto astuto. Taylor-Joy, a reconhecida estrela do filme de terror de sucesso A Bruxa, está excepcional.
A história é costurada com uma narrativa convencional, sem medo de exagerar em recursos que a tornem apreensiva, medonha, quão bem construída e estruturada. O roteiro é escrito com a excelência de quem sabe criar uma história de suspense de verdade. E se ainda cobram de Shyamalan um novo O Sexto Sentido, é bem provável que Fragmentado cale esses chamados tão desnecessários.
O desfecho em um dado momento atinge um clímax empolgante, quase pulsante, causando uma atração magnética do espectador pela resolução tão aguardada de uma história que se enlaça em vários contextos e se transforma em uma metáfora riquíssima sobre a natureza humana, os predadores e as vítimas, e sobre nossa própria identidade enquanto seres humanos, nosso "lado animal", a caça e o caçador. Numa história onde todos são vítimas das consequências de traumas, de passados, de feridas que não cicatrizaram, dos medos mais profundos e das vontades mais angustiadas da alma inquieta.
Shyamalan ainda está de pé, e seu novo filme engana pelo apetite comercial, pois encontra-se envolto de uma complexidade rebuscada e perplexa. Há quem enxergue neste cinema tão potente, ainda que sejam poucos, um brilho radiante, o poder da imagem e da linguagem cinematográfica. Sim, meus amigos, este é um filme brilhante dirigido por um cara que, mais uma vez, está totalmente coberto de razão em suas abordagens e em seu estilo de fazer cinema. E o resultado é duplamente um suspense delicioso, um comovente estudo de personagem e uma paradoxal representação simbólica da ferocidade dos nossos atos e do nosso pensamento.
Fragmentado (Split)
dir. M. Night Shyamalan
★★★★
No que diz respeito à construção de uma atmosfera de suspense impecável, Fragmentado certamente não decepcionará a quem for assisti-lo com a expectativa de encontrar um thriller eletrizante, com momentos singulares e uma trama engenhosa, inteligente, do gostinho que Shyamalan sabe fazer como ninguém. Se a crítica não tem dado trégua para um dos diretores americanos mais subestimados não só desta geração mas provavelmente de todos os tempos, Fragmentado está aí, novamente, assim como muitos de seus trabalhos anteriores, para provar que o cinema de M. Night continua firme e forte.
É pelo dito fracasso de filmes excepcionais, obras, do cineasta, como A Dama na Água, Fim dos Tempos e A Vila que muitos fãs e boa parte da crítica tinha em mente a esperança deste ser o "triunfal regresso" de M. Night às telas. Como ele nunca esteve em péssima forma, não acho que o filme seja um regresso, por mais brilhante que seja, até porque o recente A Visita se saiu bem melhor que este filme em muitos pontos que neste aqui revelam irregularidades. No papel de Kevin & cia., James McAvoy, em sua primeira grande performance de destaque, entrega um desempenho tanto fenomenal quanto astuto. Taylor-Joy, a reconhecida estrela do filme de terror de sucesso A Bruxa, está excepcional.
A história é costurada com uma narrativa convencional, sem medo de exagerar em recursos que a tornem apreensiva, medonha, quão bem construída e estruturada. O roteiro é escrito com a excelência de quem sabe criar uma história de suspense de verdade. E se ainda cobram de Shyamalan um novo O Sexto Sentido, é bem provável que Fragmentado cale esses chamados tão desnecessários.
O desfecho em um dado momento atinge um clímax empolgante, quase pulsante, causando uma atração magnética do espectador pela resolução tão aguardada de uma história que se enlaça em vários contextos e se transforma em uma metáfora riquíssima sobre a natureza humana, os predadores e as vítimas, e sobre nossa própria identidade enquanto seres humanos, nosso "lado animal", a caça e o caçador. Numa história onde todos são vítimas das consequências de traumas, de passados, de feridas que não cicatrizaram, dos medos mais profundos e das vontades mais angustiadas da alma inquieta.
Shyamalan ainda está de pé, e seu novo filme engana pelo apetite comercial, pois encontra-se envolto de uma complexidade rebuscada e perplexa. Há quem enxergue neste cinema tão potente, ainda que sejam poucos, um brilho radiante, o poder da imagem e da linguagem cinematográfica. Sim, meus amigos, este é um filme brilhante dirigido por um cara que, mais uma vez, está totalmente coberto de razão em suas abordagens e em seu estilo de fazer cinema. E o resultado é duplamente um suspense delicioso, um comovente estudo de personagem e uma paradoxal representação simbólica da ferocidade dos nossos atos e do nosso pensamento.
Fragmentado (Split)
dir. M. Night Shyamalan
★★★★
domingo, 10 de abril de 2016
Crítica: "FIM DOS TEMPOS" (2008) - ★★★★
Os filmes de M. Night Shyamalan tem algo de... huh... como descrever? Profundos? Tocantes? Tudo isso também, mas primeiramente: poderosos. Os filmes desse inigualável mestre são extremamente poderosos, potentes, firmes, chocantes (de uma perspectiva mais afetiva/humana, de romper essa casca e partir para um questionamento ainda mais aprofundado). É uma característica em comum entre os seus trabalhos. Todos eles, de uma forma ou de outra, ostentam poder e sempre transmitem um monstruoso impacto em quem vê (ou melhor, em quem sabe ver -- como A Dama na Água, o filme anterior do diretor, Fim dos Tempos do que tem de filme bom também tem, à mesma medida, de filme subestimado). O resultado é mais uma pérola grandiosamente espetacular vinda de um dos maiores cineastas do cinema contemporâneo. Fim dos Tempos é excepcional.
A cena de abertura é bizarra e ao mesmo tempo escandalosamente tenebrosa. Estamos no Central Park, em Nova York. Duas amigas estão sentadas num banco. "Esqueci onde estou", diz uma moça. Ela carrega um livro. A outra a lembra sobre o segmento ao qual ela está se referindo. Um grito fulmina e a jovem se assusta. É aí que tudo começa. A região nordeste dos Estados Unidos é tomada por um surto de um perigosíssimo vírus que afeta o sistema neurológico das pessoas, fazendo com que elas, numa reação auto-destrutiva, se matem. Não demora muito e o vírus, "transmitido" pelo ar, já predomina em vários estados e grandes cidades do nordeste do país.
Metade suspense, metade terror (em menor escala -- o clima constante de desespero inevitavelmente emula um ar de terror), Fim dos Tempos pode ser contemplado tanto como um marco na carreira de um diretor em ótima forma quanto um filme de proporções gigantescas, de mensagem estrondosa e comovente. Shyamalan faz de Fim dos Tempos seu protesto contra à destruição do meio ambiente e da degeneração da natureza pelos humanos. Ficção científica? Olha, não vale descartar. O legal é enxergar o filme do jeito que ele é. Não vim aqui pra entrar nesse território nem pra julgar, muito menos dar sermão mas, se a gente for ver bem de perto, é um dos massivos perigos dos tempos atuais [a destruição do meio ambiente]. Dá a impressão de até ser um filme pra criança (no bom sentido e tirando a violência) por conta da fórmula, só que pra adultos. Louco, né? Fim dos Tempos toca na ferida desse assunto problemático e o mais impressionante é que, mesmo radicalizando certas convicções "imprecisas", faz a gente pensar fundo a respeito dessa temática. Bem como a moça abre o filme, será que a gente "se esqueceu" de onde a gente vive -- de onde nós estamos? Essa questão da preservação ambiental é mais séria do que possamos imaginar.
A proposta é uma grande de uma contribuição fantástica. E eu não vejo sequer uma mínima existente razão para a desaprovação de Fim dos Tempos. Será que existem tantos haters assim de M. Night Shyamalan? Deve ser a teoria mais provável para tanta falta de consideração com o trabalho do mestre do suspense e das tramas easter egg.
Muito embora a atuação excelente do Mark Wahlberg seja bastante notável e considerada uma "surpresa", pra mim esse posto é ocupado pela graciosa Zooey Deschanel, que no cinema de papel conhecido só tem mesmo pela comédia romântica (500) Dias com Ela (também tem o filme Sim, Senhor!, mas não chega a ser tão popular quanto o mencionado). A performance dela é uma grata surpresa, ainda mais quando se trata de uma artista tão cultuada pelo público e que eu mesmo, quando perguntado, digo que só conheço por "reputação" e fama, já que é bem difícil vê-la nos filmes (e olha que curiosidade irônica a respeito disso: o pai dela é o grande Caleb Deschanel, diretor de fotografia do visualmente estonteante A Paixão de Cristo e também do ainda-não-conferido O Patriota, indicado ao Oscar por ambos os trabalhos e eu creio que alguns mais). Aliás, o diretor de fotografia de Fim dos Tempos é Tak Fujimoto, o mesmo de O Sexto Sentido. A trilha sonora é executada por James Newton Howard.
E é isso aí. Sou fã de Shyamalan desde a primeira vez e a cada filme do gênio que vejo a minha consideração por ele aumenta. Impossível não amar. Impossível não pedir bis. Impossível não se fascinar e deliciar com um presentão desses. Valeu, Shyamalan, por mais um filme competente e simplesmente espetacular em cada aspecto!
Fim dos Tempos (The Happening)
dir. M. Night Shyamalan - ★★★★
Muito embora a atuação excelente do Mark Wahlberg seja bastante notável e considerada uma "surpresa", pra mim esse posto é ocupado pela graciosa Zooey Deschanel, que no cinema de papel conhecido só tem mesmo pela comédia romântica (500) Dias com Ela (também tem o filme Sim, Senhor!, mas não chega a ser tão popular quanto o mencionado). A performance dela é uma grata surpresa, ainda mais quando se trata de uma artista tão cultuada pelo público e que eu mesmo, quando perguntado, digo que só conheço por "reputação" e fama, já que é bem difícil vê-la nos filmes (e olha que curiosidade irônica a respeito disso: o pai dela é o grande Caleb Deschanel, diretor de fotografia do visualmente estonteante A Paixão de Cristo e também do ainda-não-conferido O Patriota, indicado ao Oscar por ambos os trabalhos e eu creio que alguns mais). Aliás, o diretor de fotografia de Fim dos Tempos é Tak Fujimoto, o mesmo de O Sexto Sentido. A trilha sonora é executada por James Newton Howard.
E é isso aí. Sou fã de Shyamalan desde a primeira vez e a cada filme do gênio que vejo a minha consideração por ele aumenta. Impossível não amar. Impossível não pedir bis. Impossível não se fascinar e deliciar com um presentão desses. Valeu, Shyamalan, por mais um filme competente e simplesmente espetacular em cada aspecto!
Fim dos Tempos (The Happening)
dir. M. Night Shyamalan - ★★★★
quinta-feira, 31 de março de 2016
Crítica: "A DAMA NA ÁGUA" (2006) - ★★★★★
Ah, os críticos não sabem de nada! Como tiveram a pachorra de ignorar um filme tão bonito e singular como A Dama na Água? Eita, viu? Mas eu não vou ficar me estressando com essas coisas não, porque gente sem cabimento é o que não falta no mundo da crítica. Em vez de gastar tempo se estressando com esses infames, bora celebrar essa delícia de filme que é A Dama na Água, enfeitiçante e maravilhoso a cada segundo. Simplesmente uma doçura. Dizer não aos gracejos e às infinitas qualidades deste trabalho é, no mínimo, insano.
Este fofo e atraente conto de fadas moderno narra o encontro de um encanador solitário que trabalha num condomínio na Filadélfia com uma jovem sobrenatural, uma moça que habita em um outro mundo, e está contando com a ajuda desse homem para voltar à sua terra e escapar de uma fera vilanesca. Os dois compartilham uma jornada de descoberta emocional enquanto vão tentando desvendar os mistérios de um enigma que transportará a moça para o seu lar.
M. Night Shyamalan é um gênio. Isso é um fato. E até hoje não tem um filme que eu não tenha gostado dele, de verdade, muito embora o cara tenha andado comendo na mão da crítica com seus filmes mais recentes. O que acontece é que desde A Vila ninguém mais gostou dos filmes dele. E olha que A Vila só perde para O Sexto Sentido como o melhor filme dele. Mas, seriamente, nenhum filme mais agradou, e nisso não apenas me referindo à crítica, mas também ao público, que não está sabendo respeitar direito o gênero e o estilo de Shyamalan (vergonhoso ficarem cobrando a cada filme que ele faz um novo O Sexto Sentido). No mais, o último dirigido por ele, A Visita, obteve boas resenhas muito embora não tenha se saído muito bem nas bilheterias.
A Dama na Água é primoroso. Eu gostei bastante. Achei simples e descomplicado, mas desenhado no estilo e no padrão Shyamalano, bem no ponto. Admirável os traços da trama e a construção interessante da lista de personagens, gente como a gente, ajudando a bela mocinha a voltar à sua terra natal e a escapar de um bicho esquisito. Pior roteiro do Shyamalan? Queridos, Shyamalan não tem roteiros ruins. Shyamalan é um roteirista nato, e até mesmo o pior de seus filmes (se é que há um filme ruim) deve, no mínimo, possuir um roteiro sadio. O idiota que disse "pior roteiro do Shyamalan" só pode estar louco. Que coisa! Ainda mais quando A Dama na Água tem um roteiro tão caprichado e colossal.
Deixando de lado o thriller, mas sem abandonar o suspense, Shyamalan abraça uma história repleta de humanidade e sensibilidade, afeição e emoção. Não à toa A Dama na Água é seu filme mais tocante. O drama de um homem tentando se afastar do passado e ajudando uma jovem de outro mundo que acha que não faz nada certo é crível e extremamente emocionante. A Dama na Água é também a chance de ver o cineasta, sempre tão assombroso e tenso, se permitindo a sequências cômicas, o que é bastante lisonjeiro.
O elenco é demais. Paul Giamatti, como de costume, nos presenteia com uma performance excepcional e irretocável. Bryce Dallas Howard, que estava estupendamente ótima em A Vila, é a dona de um desempenho ainda mais esmerado e talentoso em A Dama na Água. M. Night Shyamalan, que geralmente faz pontas em seus filmes, aqui aparece como coadjuvante. Deplorável terem indicado ele ao Framboesa de Ouro de Pior Ator Coadjuvante.
Christopher Doyle, que é muito certamente um dos maiores diretores de fotografia que já viveram, e que raramente é visto em colaborações internacionais (Doyle geralmente, pra não dizer "tradicionalmente", trabalha em filmes orientais, e por isso não é lá comum ver ele trabalhando em produções não-orientais), é o dono de um trabalho de fotografia belíssimo, belíssimo e belíssima. A aquarela, o posicionamento da câmera, aqueles takes desconcertantes... Que fotografia, meus amigos! Também vale mencionar a trilha sonora eletrizante do James Newton Howard.
A Dama na Água é tudo isso e mais. Adorável. Mais que uma obra lindíssima, uma fábula contemporânea humana e singelamente afável, de morais mundanas e fortes emoções. Indescritivelmente belo. Ao meu ver, é quase um crime dizer que se trata de um filme ruim, ora essa! Rapaz, A Dama na Água é um filme maravilhoso.
A Dama na Água (Lady in the Water)
dir. M. Night Shyamalan - ★★★★★
quinta-feira, 26 de novembro de 2015
Crítica: "A VISITA" (2015) - ★★★★
Com o excepcional A Visita, M. Night Shyamalan - depois de um escasso intervalo de sete anos - regressa ao gênero que o imortalizou como um dos diretores mais versáteis e íntegros dessa geração, numa obra tenebrosa e bem feita que simboliza tanto a re-ascensão deste que é possivelmente o mestre do terror alternativo contemporâneo, cujos últimos trabalhos foram recebidos com certa repulsa e dureza pela crítica americana e internacional, quanto reestruturação do estilo, convertido a um pseudo documentário, fórmula que remete ao recente A Forca, em conjunto de A Bruxa de Blair, e, dado o sucesso que experiência gerou a Shyamalan, promete desembocar, no futuro, em uma maior expansão e produtividade, ainda que a estética desse estilo provindo da indústria independente seja intensamente contestada e pouco apoiada.
Confesso que me surpreendi quando fiquei à par da informação de que o filme tinha sido financiado com apenas cinco milhões, orçamento que, apesar de não proliferado, teve como reação a distribuição da Universal Pictures (que de uns tempos pra cá passou a oferecer suporte para produções de baixo custo), contribuindo para a sua chegada à outros países ao redor do mundo, isso contando com o cedo lançamento dele em nosso circuito, que sempre teve muito carinho pela filmografia do diretor, sem que nenhum longa seu jamais tenha sido lançado com atraso no Brasil, tendo apenas Corpo Fechado sido recebido com frieza nos cinemas nacionais.
É excelente ver que diante de condições mais limitadas ele soube conduzir com criatividade seu projeto, reinventando o gênero sem que isso alterasse o diagnóstico do filme em si, quando a maioria dos diretores enfrentam uma decaída assim que expostos a orçamentos apertados. Se isso tem uma porrada de pontos positivos, os pontos negativos se instalam justamente nesse quesito da recepção comercial internacional, que, felizmente, não é o caso de A Visita.
O filme começa com uma garota filmando um documentário, onde a mãe é entrevistada e revela detalhes de seu relacionamento com um professor, mais velho, na escola, homem que é pai dessa garota e de seu irmão mais novo, que são enviados pela mãe, à pedido dos avós, com quem ela nunca teve uma relação saudável, para a pequena cidade de campo onde ela cresceu no interior da Pensilvânia. As crianças são bem recepcionadas, mas não demora para que estranhos eventos agitem essa visita, que vem seguida de uma perturbadora avalanche de conflitos familiares e emocionais, que aterrorizam os dois adolescentes de diferentes maneiras. Mas o que primitivamente já indica a presença do peculiar nessa acomodação é a regra que dita que eles não devem se deitar às 21:30, como é, para os avós, de costume, regra que ativa incômodo em qualquer jovem nos dias de hoje. Movidos pela curiosidade em saber o porque daquela regra "habitual", ainda mais depois que a avó, Doris, começa a aparentar uma doença mental frágil e grave, assim como o próprio avô, que também tem seus episódios de demência, como começar a brigar com desconhecidos na rua ou temer a imagem de um vulto branco de olhos amarelos.
Se você aguarda mais um daqueles finais mindblowing, pode vir preparado para sair do cinema vidrado, porque aqui esse "elixir" pode ser visto em bom grado. Não é nada comparado a O Sexto Sentido e A Vila, mas representa com grandeza o talento primordial de M. Night Shyamalan para seus finais, marca registrada de suas tramas embaralhadas e minuciosas, e bem pode sim ser comparado, em menor potência, aos grandes finais citados. Shyamalan prioriza o contato entre suspense, drama e comédia, todos bem colocados na medida certa, sem pecar no exagero. Prova suficiente de competência.
A desenfreada busca por redenção, perdão, reaproximação, identidade, libertação e revolta, tão almejados pelos personagens deste filme, tempera o núcleo protagonista, formado pelos irmãos Rebecca e Tyler, que vão aos poucos perdendo o controle de suas aversões quando a situação degringola. Tyler, o imaturo irmão atravessando a identidade vê, na sua inocência, um fracasso numa partida de futebol americano como agente danificador da sua relação com o pai. A irmã, Rebecca, crescida, não possui vaidades e por isso na sua ausência liga isso a uma ocultação com ao pai; A mãe, no entanto, é a que mais sofre. Tem de aturar a pressão vinda de todos os cantos, com os "pais" a culpando pela distância, o ex-parceiro a maldizendo, e o trauma nas crianças. Diante do medo, da ameaça do mal e do corrosivo, a união é selada, o passado é perdoado e contas são pagas.
Embora tenha vaiado nos Estados Unidos, com uma aprovação crítica morna, A Visita é sublime, interessante, o retorno impecável de um visionário. E as expectativas para o próximo projeto do cineasta, estrelado pelo Joaquin Phoenix, só cresce. Bem escrito, bem dirigido, bem fotografado (pela esplêndida Maryse Alberti - virei fã), bem atuado... É um baita filme. É uma pena que a crítica "especializada" esteja tão enferrujada e mal frequentada a ponto de estar direcionando A Visita ao fracasso. Que fracasso? Eu, hein. Bem, o importante é prestigiar o trabalho, a qualidade da volta, seus detalhes e seu efeito.
A Visita (The Visit)
dir. M. Night Shyamalan - ★★★★
terça-feira, 25 de agosto de 2015
Crítica: "A VILA" (2004) - ★★★★★
Uau. Mesmo que eu idolatre freneticamente O Sexto Sentido como o melhor filme de M. Night Shyamalan, tal posto muito bem pode ser ocupado por A Vila, que me deixou bem mais surpreso e mobilizado, apesar do final surreal que o grande clássico do cineasta leva. E os motivos são muitos. A Vila não só capricha num roteiro extraordinário, que tende a ser a marca registrada dos filmes de Shyamalan, como também é um trabalho máximo da curta filmografia do diretor, que em outubro nos apresentará mais um filme, A Visita.
Se no fim A Vila não é tão tenebroso ou assombroso como as expectativas já protestavam, guarda consigo uma mensagem muito profunda e bem feita. Mas visto de um ponto mais literal A Vila não foi feito para assombrar. Certo que em determinados momentos do filme dá um medo lascado, só que não é por muito tempo. É só pra dizer que teve um pouco. Como já é conhecido da parte do diretor, A Vila usufrui do inteligente twist ending, a especialidade do mestre em questão, já experimentada em O Sexto Sentido e outros. O twist ending especificamente de A Vila não só abrange um amplo significado em sua inteira composição, de uma forma distinta dos outros filmes do diretor quero dizer, como é uma espécie de evolução. A decisão do diretor diz muito pelo filme, e isso é uma das melhores coisas dele. Bem, vou parar de falar por aqui para não dar um spoiler attack.
E vocês não imaginam a minha luta para achar essa cópia de A Vila... Tenho uma sorte incrível para achar filmes impossíveis de se achar. Embora seja muito fácil encontrar A Vila na internet, todos os sites em que achei o filme é dublado e sou bastante enojado com isso. Encomendei com um amigo que trabalha numa locadora para ver se ele podia achar o filme pra mim e passá-lo para um DVD virgem, isso há aproximadamente um mês (ainda estava de férias). Foi nesse sábado ele me contatou pela rede social e me disse que tinha achado a bendita cópia com outro amigo, e tinha feito outra no DVD virgem que lhe dei. A sensação de alívio e prazer que te invade nesses momentos é de uma perfeição surreal e indescritível. E não é a primeira vez não. Olha, há razão em falar que eu tenho alguns momentos de azar em minha vida, mas é raro em minha cinefilia. Se há algo faltando em minha cinefilia é azar (e que continue faltando, por favor).
O maior televisor aqui da minha casa é ainda de tubo, Philips, que fica no quarto dos meus pais. Não estou cego nem nada do tipo (a correção da minha miopia está em andamento) mas acredito que a qualidade desse televisor médio, que não é nem tão grande assim, é excepcional. O modelo é o "Power Vision Stereo", e sem dúvidas funciona perfeitamente. Enquanto isso, meu novo aparelho de DVD, que foi trocado, fica com uma qualidade horrível no televisor LCD (vai saber porque!). Certamente ver este filme no cinema resultaria numa belíssima experiência, mas não torna dispensável a sessão dele na TV tubo, que foi incrível. Nunca fui de confiar nesses padrões da TV, mas ajustei em "cinema" e a imagem ficou maravilhosa. O imbatível Roger Deakins melhor como nunca, dando-nos uma prova simples e justa de seu incalculável legado. A câmera não se movimenta muito. Baseia-se em um ou dois enquadramentos no máximo por cena, com breves exceções em outras. Alguns ângulos, a maioria deles frontais e de cenário, limitam inicialmente alguns segmentos do enquadramento perfeito, mas o final responde por esses enquadramentos de uma forma brilhante. Seria um erro catastrófico deixar de reconhecer a visionária perspectiva e direção de M. Night Shyamalan (hoje eu tô spoilerento que só!).
O "elenco de primeiro mundo" também recebe a autoria dos méritos de A Vila: a protagonista Bryce Dallas Howard, naquela época com pouquíssimos papéis no cinema, é certamente a grande revelação de todo o filme, e sua atuação é de uma riqueza tão natural e indestrutível que emociona lembrar dela em ação. Adrien Brody, um formidável e competente coadjuvante (agora sim, spoiler) no papel mais arrasador da trama, e sem dúvida vilanesco. Joaquin Pheonix também não está de se jogar fora. William Hurt, em uma ou duas cenas, dá um show também. Certamente esperava mais da Sigourney Weaver, que aparece pouco nos tão poucos mas suficientes 100 minutos deste longa. Ah, a história? Moradores de uma vilinha isolada temem por um monstro que habita uma mística floresta, a única coisa que destrói a segurança do local. Até que dois moradores, em uma simples busca, iniciam uma jornada adentro à floresta. Simples não? Pois é. A complexa e multifacetada fábula metafórica que se esconde por trás dessa simples sinopse é delirante e surpreendente, e transforma A Vila num dos melhores filmes dos últimos tempos e um trabalho miraculosamente bonito. E, em consequência, seu criador é quem recebe todo o crédito por seu esmerado e genial talento.
A Vila (The Village)
dir. M. Night Shyamalan - ★★★★★
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