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sábado, 22 de outubro de 2016

Crítica: "O VENCEDOR" (2010) - ★★★★★


Faz tanto tempo que eu vi O Vencedor (para ser mais específico em fevereiro) que nem posso confiar a essa resenha um certo caráter analítico ou dissecativo. Seria preciso revê-lo. Na época, eu tinha gostado bastante. E a sensação de que eu tinha visto um grande filme, concretizada após o fim da sessão, continua nítida e fresca na minha memória. O melhor filme de David O. Russell até agora. David, que sempre foi considerado um cineasta muito instável, tem como seu melhor filme uma obra cinematográfica dilacerante e remotamente maravilhosa, repleta de sequências preciosíssimas e com um roteiro excepcionalmente bem-escrito. 

Para se ter uma noção, o pessoal é tão duro com o David O. Russell, dizendo o quão superestimado e egocêntrico o diretor é, que parece que eles sentem prazer com esse julgamento pífio e completamente controverso, de tão frequente e comunal que é testemunhar acusações, a maioria destas injustas e incabíveis, em cima de um cara que faz filmes bons, alguns razoáveis e com certos desapontamentos, mas digeríveis, e que se esforça ao máximo para trazer um filme que cause impacto no público. Sempre retorna com algo novo e diferente em sua filmografia repleta de pérolas, como O Vencedor, seu trabalho máximo.

Até de seu menor filme, Joy: O Nome do Sucesso (que tem alguns pontos negativos) eu gosto. E olha que inicialmente eu tinha odiado o filme, mas com o tempo comecei a olhar para ele com outros olhos, e adquiri uma inusitada admiração por ele. A comédia romântica O Lado Bom da Vida foi uma experiência emocionalmente romântica (há quem não goste, mas eu simplesmente não consigo entender como alguém não pode gostar de um filme tão bom assim) numa época da minha vida em que meus sentimentos estavam mais aflorados e que qualquer filme romântico que eu via era um espetáculo de emoções e graças. Trapaça também me pegou de surpresa. A primeira vez que vi foi delicioso.

O legal de David O. Russell é que o cineasta raramente se repete. Seus filmes compartilham certas semelhanças entre si, que vão de algumas mais perceptíveis (como o visual) até outras menos visíveis, como as obsessões narrativas do diretor. Se Joy tem um roteiro extensivamente supérfluo, O Vencedor é o perfeito oposto. Consegue-se explorar as angústias, os dramas e as agonias de cada um dos personagens da multifacetada trama de O Vencedor, que gira em torno de um lutador (Mark Wahlberg) cujo irmão, consumido pelo vício (Christian Bale) outrora fora um lutador profissional, mas que perdeu a credibilidade com o tempo conforme se afundou nas drogas. 

O filme traça uma linha honesta na luta do personagem de Wahlberg contra os abusos e as manias de sua família, comandada pela matriarca instável interpretada excelentemente por Melissa Leo, na performance de sua carreira que a rendeu o merecido Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 2011. Enquanto ele tenta seguir sua vida, seus planos com a nova namorada, uma bartender (Amy Adams) mas sempre com a família no seu pé, criticando seus atos, e constantemente tentando impôr a razão. 

Ao mesmo tempo em que se acompanha o estado de divisão e dúvida do personagem de Wahlberg, que sente como se estivesse preso à família, porém mais e mais ganha espaço a necessidade dele de contornar os conflitos familiares para vencer na vida, ser alguém. Essa necessidade é justamente o produto desse peso cruel que se lança sobre o personagem, já que afeta diretamente à sua família, sempre prezando por seu melhor, mas que acaba se tornando um grande problema para ele.

O elenco, aliás, está fenomenal. Graças a ele, o filme se torna um espetáculo de atuações extraordinárias de gente talentosíssima em ótima forma. Destaque para a já mencionada Melissa Leo, Christian Bale, que venceu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante em 2011, Mark Wahlberg e Amy Adams (também indicada ao Oscar de Atriz Coadjuvante em 2011, ao lado de Leo, que venceu). 

A estética documental  reforça o espírito de realidade que paira sobre o filme, além de realçar as atuações e uma especial atenção às minúcias do roteiro genial. A montagem e a fotografia são outros dois méritos indispensáveis. Por esses e outros motivos, O Vencedor é um filme precisamente necessário. David O. Russell nunca caprichou tanto em um filme sobre as relações familiares e a família americana dos tempos atuais. Mais que importante e bem-feito, a obra-prima de um cineasta que cada vez mais prova ser um dos maiores de sua geração.

O Vencedor (The Fighter)
dir. David O. Russell - 

domingo, 3 de abril de 2016

Crítica: "AMOR POR ACIDENTE" (2015) - ★


Não bastasse ter lançado o infame Joy - O Nome do Sucesso, David O. Russell também trouxe ano passado o ainda inédito nos cinemas nacionais Amor por Acidente, que demorou um tempão para ser concluído. O que acontece é que Amor por Acidente, essa descarada comédia romântica mal-feita e sem sentido, é mil vezes pior que o horrível Joy. Não me estranha o David O. Russell ter assinado a direção do filme sob o pseudônimo de Stephen Greene. Quem iria querer assumir um projeto desses? É muita coragem.

Olha só a confusão: consta-se que as filmagens de Amor por Acidente tiveram início em 2008 (sim, há 8 anos). Na época, o título da produção era Nailed. O filme foi refilmado aproximadamente 14 vezes, sendo todas essas 14 vezes cancelado, por complicações com os pagamentos do elenco e da equipe técnica. Dois anos depois, em 2010, um certo produtor pagou para reiniciarem as filmagens de Nailed, mas o Russell naquele ano desistiu de dirigir o filme. Só em 2014 foi que o Russell decidiu voltar com o projeto, depois da insistência de um produtor. O David O. Russell, espertinho como ele é, pediu para o Directors Guild of America renomear os créditos de direção e roteiro dele para Stephen Greene (ou seja, o David aceitou gravar o filme mas renunciou o seu nome diante dele -- e, acreditem, ele fez a coisa certa).

O filme é desnecessariamente frenético e esquálido Me surpreende alguém ter se interessado em produzi-lo. Amor por Acidente conta a história de uma garçonete de uma pequena cidade que, comprometida com um policial "boa-pinta" da região, vai à um encontro com um rapaz, que deseja se casar com ela, e acaba sendo acidentalmente atingida por um prego na cabeça, devido à uma reforma no lugar. Correndo diversos riscos, ela tenta fazer com que o plano cubra a cirurgia, mas o preço é altíssimo e nem o policial tampouco sua família conseguem custear. É aí que ela tem o plano de ir para Washington, onde irá solicitar a um político medidas em relação à assistência médica urgente e à saúde. 

O filme é um monte de nada, nada, nada e nada. Andaram comparando o filme com Huckabees, o que eu acho completamente vergonhoso, já que de semelhantes Huckabees e Amor por Acidente não tem completamente nada. 

No máximo, o elenco tem seus charmes, ainda que poucos. Por mais que eu nutra certa admiração pela atriz Jessica Biel, aqui ela está totalmente fora do eixo, toda enfeiada e insanamente perdida, sem pra onde ir (não entendi se isso faz parte da personagem dela ou se ela estava mesmo desorientada filmando). As participações do Jake Gyllenhaal e da Keener por pouco não passam em branco. Se salvam o Tracy Morgan, com poucas falas e o James Marsden, que faz o policial bonzão Scott. Fora isso, não vi graça em Amor por Acidente. Sem graça, uma baita perda de tempo.

Amor por Acidente (Accidental Love)
dir. Stephen Greene (David O. Russell) - 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Crítica: "JOY: O NOME DO SUCESSO" (2015) - ★★★


À exceção de O Vencedor, A Mão do DesejoProcurando Encrenca e Três Reis (filmes que não vi ainda) e de Joy, gosto bastante de todos os outros títulos da filmografia do David O. Russell, até daqueles mais esculhambados, como TrapaçaO Lado Bom da Vida e Huckabees - A Vida é uma Comédia (pra mim o melhor filme dele). E confesso que estava bastante animado pra conferir Joy: O Nome do Sucesso. Mas o longa, mesmo estrelando a bela Jennifer Lawrence e um elenco de dar água na boca, não me pegou. É o primeiro filme do diretor que eu não gosto. É sem graça, de comédia não tem absolutamente nada, desperdiça um elenco fera à toa, e faz um monte de outras deploráveis besteiras. Joy acerta em cheio nos quesitos "me tirar do sério" e "decepcionar". 

Era até de se estranhar, faz uns meses, ver um filme do David O. Russell, um dos nomes mais extremamente superestimados de Hollywood dos últimos tempos (muitas vezes com razão, e noutras não) de fora das apostas ao Oscar, Globo de Outro, e outros prêmios no geral de suma importância à indústria cinematográfica. É verdade que a Jennifer Lawrence não parou de ser paparicada por todos os cantos pela sua atuação, mas ver o filme em si afastado dos prêmios e das apostas foi um tanto quanto esquisito. A partir daqui, nem preciso mais especificar como essa estranheza findou-se visto o resultado asqueroso de Joy. 

O filme segue aquele velho padrão de superação, com personagens vulgarmente parabenizados fortes, auto-intitulados vencedores, e etc., um padrão que, convenhamos, já encheu bastante o saco. E, na cabeça do David, Joy seria o filme que lhe consagraria premiações afora. Afinal, o homem deve ter se cansado de esperar tanto pelos troféus, em especial o Oscar, durante três edições coladinhas, isso em diferentes categorias, sem ele ter ganhado nada, apenas visto os atores de seus filmes levarem o prêmi de mão beijada (Melissa Leo, Christian Bale, Jennifer Lawrence). E, num plano pra abocanhar o Oscar de vez, lá foi ele moldar esse filme-superação batido e desinteressante, que é nota 10 em clichê e sensacionalismos baratos. Mas o filme ficou tão forçado e sem energia que nem pra conquistar a Academia com seus truques infames ele serviu. 

Sobre a Jennifer Lawrence, certamente não é a melhor performance dela. Os membros da HFPA exageraram (e muito!) ao confiar nas mãos de Lawrence a estatueta na categoria de Atriz em Comédia (já falei que Joy não é comédia) ou Musical (muito menos isso). Foi uma das seleções mais imprecisas. E não que a Jennifer não tenha bons momento aqui. Não são muitos, uma ou outra cena de destaque. À parte essas, a interpretação dela é desconcentrada, mas a beleza dela salva a gente da raiva nessas horas. E eu achando que veria o Bradley Cooper ou o Robert DeNiro firme e forte me lasquei legal. Os dois estão ainda mais aquém do que a Lawrence. Acho que a participação que mais agradou foi a da Isabella Rosselini, que nem protagonista do filme é, e consegue brilhar em certos momentos. A princípio, eu nem sabia que era mesmo ela, só estava desconfiando. 

Contudo, em meio a tanta balbúrdia e descaramento, gostei de uma cena do filme. E nem é por conta da Jennifer, mas a cena carrega um espírito tão leve e feel-good que chamou demais a minha atenção, e é a melhor do filme inteirinho. É a cena que a Joy Mangano tá no ar no programa de vendas e não sabe por onde começar, e aí o personagem business man do Bradley Cooper começa a ficar estressado. É quando a melhor amiga da Joy, e que a ajudava quando ela estava precisando vender o popular esfregão mop, sua "magnum opus", em supermercados, liga para ela no programa fingindo ser uma desconhecida, e é aí que ela se encoraja pra explicar o produto (ironicamente às avessas, em comparação ao mesmo caso da cena do supermercado, anterior, quando a Joy e a filha fingiram sair do local e deram espaço à essa amiga, quando então a Joy voltou e fingiu ser outra mulher, começando a identificar as qualidades no produto e chamando a atenção do pessoal que passava - bom truque). Amigo vem pra salvar a gente na hora do sufoco. Ótimo exemplo de como a amizade é uma coisa gostosa e pode nos livrar do fracasso, da solidão e dos apertos mundanos.

Quem ainda não deu uma paradinha pra conferir a sinopse do filme, é sobre a Joy Mangano, uma inventora e administradora financeira que, desde criança, costumava inventar acessórios e idealizar práticas engenhocas. Após o sofrido divórcio dos pais, ela decidiu ajudar o patriarca, interpretado pelo DeNiro, no negócio local da família. Nisso, a Joy não teve tempo para cursar uma universidade, o que implicou na sua situação e limitou seu acesso a profissões. E, mesmo após ter completamente falido, a Mangano não desistiu e deu a volta por cima, deu sua cara a tapa e fez fortuna com suas práticas invenções domésticas. Dá uma dó da personagem da mãe da Joy (curiosamente interpretada pela Virginia Madsen!), que passa o tempo inteirinho numa cama, afastada do mundo, contando apenas com as produções novelísticas e grude da TV como passatempo. 

O trio Jennifer, Bradley e Robert, pela terceira vez consecutiva unidos numa parceria com o Russell, atravessa em Joy o menor momento da carreira deles ao lado do David, comparado aos três filmes anteriores. O retrato contorcido e superficial da história real de Joy (sim, o nome da mulher é realmente Alegria, por mais incrível que pareça) Mangano não apresenta profundidade nem sentido certo, e por isso tende a deixar o espectador cansado nas muitas empreitadas da narrativa, coroada por imperfeições. No fim, O Nome do Sucesso não deixa de ter seus encantos, bem como a representação bem fantasiada do crescimento econômico e do poder cada vez maior da mulher dentro da megalomania capitalista, aqui a Joy, que vive tomando conta da casa e dos problemas de sua família, botando ordem e criando dois filhos, sustentando o marido, aconselhando e sendo aconselhada, além das suas muitas tarefas financeiras e comerciais, a maior parte do tempo realizadas autonomamente por ela, quando não na companhia da sua fiel melhor amiga.

Mas, enfim, Joy está longe de ser um filme satisfatório, mas até que chega a ser meramente suportável, em certos quesitos.

Joy: O Nome do Sucesso (Joy)
dir. David O. Russell - 

sábado, 10 de outubro de 2015

Crítica: "HUCKABEES - A VIDA É UMA COMÉDIA" (2004) - ★★★★★


Necessariamente complicado, mas brilhante, Huckabees - A Vida é uma Comédia, o melhor trabalho até o momento do David O. Russell, é uma obra constantemente desafiadora, que busca interpretar o sentido da vida humana e a nossa posição dentro de uma sociedade manipuladora e preenchida por falhas, e ao mesmo tempo pretende teorizar nossos transes de personalidade, a carência do ser por atenção, sucesso e lazer, e a falta de limites da nossa ambição particular: a ambição pelo prazer. É um filme que foi desnecessariamente ridicularizado e desperdiçado, tanto que é quase impossível encontrá-lo hoje em dia. Rende uma ótima sessão, autenticamente thought-provoking e minimalista, cheia de desafios e emblemas.

No início do filme, somos introduzidos a uma figura de comportamento melancólico e totalmente pessimista: o ativista e poeta iludido Albert, interpretado por Jason Schwartzman, que contrata um casal de "detetives existencialistas" para investigar uma coincidência estranha e quase irreal, impossível. O casal de detetives é feito por Lily Tomlin e Dustin Hoffman, que estão convencidos de que é apenas uma boba coincidência, embora Albert viva metendo na cabeça deles de que não é tão simples quanto aparenta. Tal coincidência envolve um rapaz africano, com quem Albert topou numa loja de fotos para autógrafos, mas cujo ele também voltou a encontrar na portaria de seu próprio apartamento e também quase o atropelou no estacionamento de uma das filiais da Huckabees, "a loja que vende tudo". É nessa coincidência que é germinada uma conexão existencialista e non-sense que aparentemente pode soar confusa e maçante, mas que, revista, pode mudar opiniões conforme vai se tornando a profunda raiz do longa, que é movido por essa simples coincidência.

O elenco é grande, formado por Jason, Lily, Dustin, Naomi Watts, Jude Law, (o surpreendentemente talentoso) Mark Wahlberg, Isabelle Huppert (que, ainda na faixa dos 60, continua excepcionalmente radiante, isso por que o filme é de 2004, quando a atriz estava com 51 - Huckabees também é a rara oportunidade de ver Isabelle num papel falado em inglês) entre outros, incluindo iniciantes como Isla Fischer e Jonah Hill. O elenco tem um papel super fundamental no funcionamento do filme. É a partir da elaboração destes personagens que surge toda a grande movimentação desta poderosa trama. 

A síntese filosófica de Huckabees gira em torno da nossa própria identidade, relacionada com o mundo ao redor. Será que estamos no papel certo? Não será essa vida uma grande falácia? É tudo mesmo um acaso? As questões estão aqui para serem desvendadas. E o filme justamente por isso gera múltiplas interpretações. Talvez o que eu tenha visto aqui não seja o mesmo que você viu, até porque o filme, além de debater essa reflexão ideológica sobre o nosso ser trabalhando dentro de um círculo social compulsivo e cada vez mais imprevisível, também busca compreender os limites da corporação e do sistema capitalista na atualidade, tal como os efeitos desse sistema em nossa vida pessoal quanto a sua influência na construção das nossas ideias e, consequentemente, nas ações. 

A figura do homem dentro desse sugador plano é de uma ciência duvidosa e que exige certos cuidados, uma vez que nele é tudo muito avulso, com caminhos cruzados e estratégias alternativas. O que, de fato, explica sua maior expansão e ocupação de espaço em nosso cotidiano é a isolação dos recursos e a exatidão da tecnologia, que torna mais viável a conquista de quaisquer bens. Dawn Campbell, a garota-propaganda da Huckabees, é uma pessoa que esconde por trás de um rostinho bonito, um corpo sensual e malhado, o sorriso atraente e o olhar charmoso uma angustiada tensão, acumulada em excesso no seu subconsciente, que, quanto mais alto grita, menos frequentemente é ouvido. Consequências de um vício que, à medida que enfraquece nossa estima, vai se tornando mais irreversível. É aos poucos que Dawn, claramente perturbada emocionalmente, percebe a farsa que sua vida se tornou, e o quanto ela foi batizada com mentiras para se iludir com uma vida que posa com o sucesso, mas não engana um astral corrompido e traumatizado.

Albert, de tão solitário que é, não vê uma razão para sustentar a sua vida, até por que seus protestos ambientalistas já não mais correspondem à busca dele por esse sentido. É nessa coincidência, efeito colateral de seu espírito fragilizado pelo destino, que ele vê a chance de mudar de vez a sua vida, a chance de encontrar o real significado dela, e de poder se conectar com os outros ao redor. E, ao mesmo tempo, ele procura ser visto, ser percebido. A falta de alguém já é bastante intolerável. A falta de algo, então, só ajuda as coisas a piorarem. É nesse distópico fundo do poço, num lugarzinho grotesco e curioso chamado Huckabees, é que ele finalmente vai escalando para o topo, pela primeira vez. E, quando ele vê a queda de seu arqui-inimigo Brad Stand, o ricaço e bem-sucedido funcionário da loja, é aí que cai a ficha. Ele retorna ao topo do poço. Afinal, é nesses momentos mesmos, observando o próximo falir, que vemos refletido ali naquela desgraça nossa própria jornada, e uma identificação. Afinal, somos todos iguais. É o que o lençol metaforiza. Tudo na vida é a mesma coisa. Mas, naturalmente, vemos tudo distorcido, diferente da realidade estética. 

O personagem do Mark, um bombeiro que, após os atentados terroristas às torres gêmeas em 2001, ficou neurótico e obcecado com o episódio a fim de maldizer o petróleo, indo trabalhar até de bicicleta. Na cena em que ele anda de carro com o Albert, vemos que nem sempre, no nosso mais profundo instinto, é possível segui-lo até mesmo cegamente, e nesses contrapontos somos enganados por nós mesmos, do nada. É a auto-ilusão, uma ação quase auto-imune. A figura do bombeiro representa o ser em foco, caminhando na escuridão na intenção de encontrar uma faísca de luz que lhe guie por meio de toda uma onda de dúvidas. 

É um filme muito bom mesmo. Vale ver. Me deixou encucado com algumas coisinhas, mas é inegavelmente uma pérola. Huckabees - A Vida é uma Comédia, o horrendo título que as distribuidoras nacionais tiveram a pachorra de dar a I Heart Huckabees (Eu Coração Huckabees), rima filosofia e comédia no ponto perfeito. E tenho a coragem de dizer que é o melhor filme do Russell, que só agora veio a ter o devido reconhecimento, com a realização de bons longas como O Lado Bom da Vida, O Vencedor Trapaça, nenhum deles grande o suficiente quanto este aqui, creio. É maravilhoso. Tem a fotografia inspirada do Peter Deming, que trabalhou com David Lynch no que é considerado um dos filmes mais complexos da história do cinema, Cidade dos Sonhos, o roteiro excelente do David com a parceria de Jeff Baena. Esse elenco, demais. Pra quem for ver, recomendo também a revisão, nem tudo pode ser digerido num só gole. Afinal, entre umas e outras, a vida é literalmente uma comédia. Uma experiência mais que devastadora e maravilhosa. 

Huckabees - A Vida é uma Comédia (I ♥ Huckabees)
dir. David O. Russell - ★★

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Crítica: "TRAPAÇA" (2013) - ★★★★


Intento que o título de Trapaça, traduzido literalmente do inglês, me atraiu bastante. Farsa Americana ou Fraude Americana talvez pode até não mudar tanto, mas soa bem. Por isso, quero tratar de Trapaça como American Hustle, já que "discordei" do título oficializado pelas produtoras brasileiras aqui no Brasil. Assisti o último filme de David O. Russell exatas seis vezes. A primeira foi em dezembro de 2013, e a última, neste ano. E no final, gostei da comédia, mesmo que muitos já tinham me advertido que a mesma resumia-se em "sem-graça", "baixo" e "irrelevante". Gostei do elenco, gostei da direção, gostei da caracterização (o que na minha opinião é o melhor). Gostei de tudo. Tive que contrariar as opiniões de fracasso e abraçar os elogios. Esse disco misturado com jazz, e as cores vivas me deixaram enfeitiçado. Resumindo: American Hustle é um filme embriagador.

Amy Adams e Christian Bale formam um casal como nenhum outro. A bela e sexy dama e o gordo e romântico vagabundo. É lógico, dando uma ênfase à poderosa transformação de Bale, velho coadjuvante de O Vencedor, em Irving Rosenfeld, cuja merecia, se não fosse por Matthew McConaughey em sua desoladora atuação dramática em Clube de Compras Dallas, uma vitória no Oscar. Adams também se deu bem, com suas Sydney e Edith, que tanto me apaixonaram. Jennifer Lawrence estava fantástica, como de costume. Claro, a segunda parceria da atriz com David O. Russell implicou em algo bem mais maturo do que O Lado Bom da Vida ao colocá-la na personagem de Rosalyn, uma vulgar desvairada atrevida que apela para uma vilã insolente. Eu até poderia pensar, se fosse aprofundar mais uma expectativa prévia do filme, que Lawrence não se sairia bem, e eu com certeza me enganaria. Bradley também ganhou minha aprovação. Há momentos de conflito em que seu personagem "viaja" na proporção da estabilidade e da razão, cenas das quais surgiram os instantes mais espetaculares do épico. Ou seja: o elenco está de parabéns.

David O. Russell e Eric Warren Singer são autores de um roteiro complexo e cativante, a base do filme. Qualquer caso, quem tiver a oportunidade de ler, é só pesquisar a cópia legal em pdf disponível do filme online. De forma certa, será bem experiencial lê-lo, intencionalmente os diálogos, onde instala-se um clima onipresente de tensão e ao mesmo tempo humor, o que simbolicamente é reproduzido no filme. Quem prestar a atenção, vai conseguir codificar. 

Em American Hustle, nem a fotografia (belíssima) e nem a trilha sonora (sublime) receberam o prêmio de destaque, mas sim, dois outros elementos técnicos essenciais para a montagem do clímax romântico: a direção de arte e os figurinos. Detalhes profundos e sensíveis que o transforma num clássico instantâneo, e afinal, por que não? Não vi motivos para discordar da oração. American Hustle é um trabalho de arte excelente, exercido com uma maestria singular da parte de Russell em seu melhor filme até agora, uma surpresa para alguém como eu que só o tinha visto até O Lado Bom da Vida: uma fase criativa, porém extremamente limitativa. Muito bom. Tremendamente bom. Recomendo. Reassistível.

Trapaça (American Hustle)
dir. David O. Russell - ★★★★