segunda-feira, 24 de maio de 2021

Escondida


O canto que tentaram sufocar. Jafar Panahi volta ao ideário do seu filme anterior [3 FACES] para compor uma alegoria similar, um reforço ao que ele tinha trabalhado nele: é um clamor por resistir diante das barreiras. Ele acha um jeito muito bonito de filmar a dor de viver cercado das imposições e de ter sua voz calada, sejam por motivações de ordem política, social ou religiosa. Que bom que a gente ouviu essa voz aqui, e que bom que o cinema dele continua empenhado em mediar a resistência e o resgate da liberdade. É o que faz até trabalhos menores como esse curta uma verdadeira pérola. O curta integra a antologia CELLES QUI CHANTENT.

Hidden
Jafar Panahi
Irã, 2020

domingo, 23 de maio de 2021

O Encouraçado Potemkin


O nascimento da revolução. É um filme obrigatório porque tem todo esse vigor em torno do cinema que ele faz, dá pra ver que é auto-explicativo porque se diz tanto que se trata de uma obra tão importante. Inspirado em um motim que realmente aconteceu, e o massacre também, "O Encouraçado Potemkin" resgata um episódio revolucionário com paixão e também com euforia, já que ele abraça toda a sequência de eventos, e ao mesmo tempo vai desmascarando a agressividade do desenrolar deles, como tudo vai acontecendo de forma sangrenta e sofrida. O antagonismo entre opressor e oprimido, violência e violado, cada vez que o filme explora esse embate é muito ricamente, usando o máximo que ele pode do cinema pra discorrer em cima dele, com cenas que vão de raivosas a claustrofóbicas. É claro, a cena das escadas é icônica, mas me impressiona muito a força das primeiras partes, do levante no navio, de uma energia que é comovente. Talvez cinema seja isso, uma cena dando lugar à outra, preservando a mesma força, sem depender dela, cada parte da construção dilacerante por si mesma.

Bronenosets Potyomkin
Sergei Eisenstein
Rússia (União Soviética), 1925

sábado, 22 de maio de 2021

Trens Estritamente Vigiados


Fábula da liberdade/descoberta sexual em tempos de autoritarismo e barbárie. O contraste entre a repressão de costumes, o clima de perseguição e a afirmação sexual acontece, mesmo em cenas decisivas, num tom risonho e brincalhão, revelando a surpresa de comédia deliciosa que esse filme é, mesclando cenas cheias de um humor espontâneo com outras cenas carregadas: questões comportamentais, o clima da época e a intimidade das pessoas em estado de sítio. As cenas funcionam com naturalidade, os atores estão ótimos, e o humor, despudorado, é encantador. Sua sutileza em entregar, aliás, cenas que dialogam perfeitamente com suas intenções, com temas que ganham um tratamento simpático e repleto de uma ingenuidade saudável, encanta muitíssimo.

Ostře sledované vlaky
Jiří Menzel
Tchecoslováquia, 1966

Desejo e Reparação


Uma nuance dá lugar à outra, e se estabelece um diálogo entre paralelos: as consequências, e o papel que o destino vai exercer naquelas vidas, à maneira que os personagens vão se invadindo, dentro do desenrolar daquela história em particular, e como dois eventos tão distintos, um de ordem mais pessoal, familiar, o outro extremamente mais coletivo, se confundem, se alinham. É a visão de um acontecimento histórico contada através daquilo que o destino fez interromper, separar. Muito bonita a sua tentativa de incorporar, construir e reconstruir, misturar realidades, tudo de maneira muito delicada, no estilo de um romance escrito mesmo, mas em cinema.

Atonement
Joe Wright
Reino Unido, 2007

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

20 descobertos em 2020

Lista atualizada. 
Título do filme/crédito de direção/ano de realização.
Grandes obras e filmes que, se não são obras, ou chegam perto ou são filmes muito bons.

dez gigantes...
12 Homens E Uma Sentença | Sidney Lumet | 1957
Playtime | Jacques Tati | 1967
O Auto da Compadecida | Guel Arraes | 1999
Minha Adorável Lavanderia | Stephen Frears | 1985
Edifício Master | Eduardo Coutinho | 2002
A Última Noite | Spike Lee | 2002
Amor Bandido | Jeff Nichols | 2012
Reino Animal | David Michôd | 2010
Eu Tu Eles | Andrucha Waddington | 2000
Coisas Belas e Sujas | Stephen Frears | 2002

e mais dez destaques...
Chi-Raq | Spike Lee | 2015
Himizu | Sion Sono | 2011
Narradores de Javé | Eliane Caffé | 2003
Gretchen Filme Estrada | Paschoal Samora, Eliane Brum | 2008
Armadilha do Destino | Roman Polanski | 1966
Essa Pequena É Uma Parada | Peter Bogdanovich | 1972
Mother | Bong Joon-Ho | 2010
Rebobine, Por Favor | Michel Gondry | 2008
Samson & Delilah | Warwick Thornton | 2009
Os Indomáveis | James Mangold | 2007

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Grandes Filmes de 2020


  1. First Cow (Kelly Reichardt)
  2. Joias Brutas (Josh & Benny Safdie)
  3. Asako I & II (Ryusuke Hamaguchi)
  4. Retrato de uma Jovem em Chamas (Céline Sciamma)
  5. Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre (Eliza Hittman)
  6. Os Miseráveis (Ladj Ly)
  7. Má Educação (Cory Finley)
  8. Adoráveis Mulheres (Greta Gerwig)
  9. Dragged Across Concrete (S. Craig Zahler)
  10. O Caso Richard Jewell (Clint Eastwood)
  11. Você Não Estava Aqui (Ken Loach)
  12. Roubaix, Une Lumière (Arnaud Desplechin)
  13. Transtorno Explosivo (Nora Fingscheidt)
  14. Peterloo (Mike Leigh)
  15. O Paraíso Deve Ser Aqui (Elia Suleiman)
  16. O Oficial e o Espião (Roman Polanski)
  17. O Preço da Verdade (Todd Haynes)
  18. Um Lindo Dia na Vizinhança (Marielle Heller)
  19. Entre Facas e Segredos (Rian Johnson)
  20. A Despedida (Lulu Wang)
  21. Honeyland (Tamara Kotevska & Ljubomir Stefanov)
Critério:
Filmes com ano de lançamento de 2018 a 2020, vistos nesse ano de 2020.

Muitos filmes deixaram de ser lançados e os cinemas estiveram fechados boa parte do ano, mas mesmo assim não faltaram filmes bons, e a gente deu um jeito de interagir com o cinema (e é isso que importa). Contou também que nesse ano tão bagunçado o cinema talvez tenha ficado em segundo plano, o que não diminuiu sua força. É só dar uma olhada nos filmes dessa (e de qualquer) lista. 

Uma nota sobre a quantidade de filmes que levam a direção (e co-direção) feminina: mais filmes dirigidos por mulheres significou maior variedade de temas e pontos de vista diferentes, mas também maiores presença e afirmação da mulher nas telas, algo que é muito caro nos nossos tempos. É bom ver que tantas obras de mulheres se destacando assim fortalece a pluralidade, não só da indústria mas das próprias produções.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

THE NIGHT OF (2016)


Catártico. The Night Of vai fundo ao examinar a injustiça e as barreiras racistas na América. Doloroso ao constatar liberdade, respeito e dignidade esmagados, e o sonho americano despedaçado em virtude da intolerância. A série me deixou nocauteado, como se cada episódio fosse um soco, despertando e depois sacudindo, para essa realidade brutal do sistema judicial, refletindo nele as feridas, heranças da segregação e o ódio presentes em uma sociedade impregnada de xenofobia e, tristemente, impunidade. Cada episódio dessa minissérie forte, intrigante e de um elenco em estado de primor, vem munido de potência, tensão e uma porrada de sentimentos, que vão da indignação, acompanhada de raiva, à ternura, acompanhada de um pouco de alívio, já que mesmo com toda a situação chegando ao limite (e todos os problemas), os personagens, como o advogado "porta de cadeia", a família, acabam agindo pra trazer esperança dentro daquela tempestade. A minissérie, brutal, dilacerante, dá um pouco de espaço pra gente respirar com esses personagens.