quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Lumière de Ouro 2017 – VENCEDORES


FILME
Toni Erdmann


DIREÇÃO
Maren Ade – Toni Erdmann


ATRIZ
Sandra Hüller – Toni Erdmann


ATOR
Peter Simonischek – Toni Erdmann


ATRIZ COADJUVANTE
Emmanuelle Riva – Perdidos em Paris


ATOR COADJUVANTE
(EMPATE)
John Lloyd Cruz – A Mulher que se Foi
Sakari Kuosmanen – O Outro Lado da Esperança


ROTEIRO ORIGINAL
Toni Erdmann (Maren Ade)


ROTEIRO ADAPTADO
A Mulher que se Foi (Lav Diaz)
adaptação do conto "Deus vê a verdade, mas a espera" de Liev Tolstói


CENA
Greatest Love of All – Toni Erdmann


ELENCO
(EMPATE)
Nocturama
Manchester à Beira-Mar


DOCUMENTÁRIO
Martírio


TRILHA SONORA
(EMPATE)
La La Land – Cantando Estações (Justin Hurwitz)
Jackie (Mica Levi)


CANÇÃO
"Audition (The Fools Who Dream)"
La La Land – Cantando Estações


FOTOGRAFIA
Bom Comportamento (Sean Price Williams)


EDIÇÃO
Toni Erdmann – Heike Parplies


DIREÇÃO DE ARTE
Personal Shopper (François-Renaud Labarthe, Martin Kurel)


FIGURINO
Frantz (Pascaline Chavanne)


SOM
Apesar da Noite


EFEITOS VISUAIS
Okja


MAQUIAGEM
Além das Palavras


DIRETOR ESTREANTE
Jordan Peele, Corra!


FILME (FORA DO CIRCUITO)
A Bride for Rip Van Winkle


Bem, aqui estão os vencedores do meu prêmio pessoal anual, o Lumière de Ouro. Lembrando que esse prêmio é estritamente particular então não levem as coisas muito à sério, eu só gostaria de reconhecer mesmo os meus filmes prediletos do ano de 2017 nessas categorias. O filme que mais levou prêmios nessa edição (e eu creio que é um recorde) foi Toni Erdmann, com um total de sete prêmios, incluindo os quatro principais (filme, diretor, atriz e ator – a primeira vez que isso acontece aqui na minha premiação). Não é nenhum segredo que eu amei este filme. 

TOTAL (vencedores)

7 PRÊMIOS
Toni Erdmann

2 PRÊMIOS
La La Land – Cantando Estações
A Mulher que se Foi

TOTAL (indicados)

10 INDICAÇÕES
Toni Erdmann

7 INDICAÇÕES
Bom Comportamento
Manchester à Beira-Mar

6 INDICAÇÕES
Corra!

5 INDICAÇÕES
Na Praia à Noite Sozinha
Personal Shopper

4 INDICAÇÕES
Fragmentado
A Mulher que se Foi

3 INDICAÇÕES
Além das Palavras
Logan
Martírio
Paterson
Z: A Cidade Perdida

2 INDICAÇÕES
Certas Mulheres
O Estranho que nós Amamos
Era o Hotel Cambridge
Silêncio
Nocturama
O Outro Lado da Esperança
Ghost in the Shell 
Lady Macbeth
Uma Mulher Fantástica
Quase 18
Em Ritmo de Fuga
John Wick: Um Novo Dia para Matar

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Lumière de Ouro 2017 – INDICADOS


Indicados ao meu prêmio pessoal de melhores do ano, o "meu Oscar", digamos: Lumière de Ouro, comemorando a sua quarta edição.

Decidi incluir nesta edição alguns filmes que foram lançados em streaming (e que aparecem, inclusive, em certas categorias) e uma nova categoria, que está indicada abaixo. Pela primeira vez neste prêmio, as categorias de atuação possuem 6 indicados cada (por motivos pessoais). Considerem essa inclusão um feito de cunho excepcional para o prêmio, que tradicionalmente (e sugestivamente) inclui cinco candidatos por categoria anualmente, salvo certas excepcionalidades, como o que aconteceu nesse ano, em que tivemos um bocado de performances boas e que mereciam ser lembradas. A categoria de "melhor cena" teve 11 indicados (à parte das categorias de atuação, cuja excepcionalidade pode ser limitada).

Os vencedores serão revelados em breve. 

FILME

Toni Erdmann
Na Praia à Noite Sozinha
Manchester à Beira-Mar
Paterson
Martírio

DIREÇÃO


Maren Ade, Toni Erdmann
Hong Sang-Soo, Na Praia à Noite Sozinha
Jordan Peele, Corra!
Kenneth Lonergan, Manchester à Beira-Mar
Olivier Assayas, Personal Shopper

ATRIZ

Sandra Hüller, Toni Erdmann
Kim Min-hee, Na Praia à Noite Sozinha
Daniela Vega, Uma Mulher Fantástica
Kristen Stewart, Personal Shopper
Cynthia Nixon, Além das Palavras
Charo Santos-Concio, A Mulher que se Foi

ATOR

Adam Driver, Paterson
Peter Simonischek, Toni Erdmann
Robert Pattinson, Bom Comportamento
James McAvoy, Fragmentado
Hugh Jackman, Logan
Casey Affleck, Manchester à Beira-Mar

ATRIZ COADJUVANTE

Golshifteh Farahani, Paterson
Emmanuelle Riva, Perdidos em Paris
Lily Gladstone, Certas Mulheres
Kirsten Dunst, O Estranho que nós Amamos
Betty Buckley, Fragmentado
Carmen Silva Ferreira, Era o Hotel Cambridge

ATOR COADJUVANTE 

Patrick Stewart, Logan
Sakari Kuosmanen, O Outro Lado da Esperança
John Lloyd Cruz, A Mulher que se Foi
LilRel Howery, Corra!
Woody Harrelson, Quase 18
Christian Bouillette, Na Vertical

ROTEIRO ORIGINAL

Toni Erdmann – Maren Ade
Na Praia à Noite Sozinha – Hong Sang-Soo
Manchester à Beira-Mar – Kenneth Lonergan
Corra! – Jordan Peele
Fragmentado – M. Night Shyamalan

ROTEIRO ADAPTADO

Logan – Scott Frank, James Mangold & Michael Green
A Mulher que se Foi – Lav Diaz
Lady Macbeth – Alice Birch
Marjorie Prime – Michael Almereyda
Z: A Cidade Perdida – James Gray

CENA

Greatest Love of All – Toni Erdmann
Canção do Engate (final) – O Ornitólogo
Quebrando o feitiço – Corra!
Chat fantasma – Personal Shopper
A melodia de Younghee – Na Praia à Noite Sozinha
O reencontro – Manchester à Beira-Mar
Kukeri – Toni Erdmann
Perseguição frenética – Em Ritmo de Fuga
Visita na prisão – Loving
Em câmera lenta – Três
Contra o vento – Uma Mulher Fantástica

ELENCO

Nocturama
Toni Erdmann
Bom Comportamento
Corra!
Manchester à Beira-Mar

DOCUMENTÁRIO

Eu Não Sou Seu Negro
Martírio
Gimme Danger
Weiner
Era o Hotel Cambridge

TRILHA SONORA

Manchester à Beira-Mar – Lesley Barber
Bom Comportamento – Oneohtrix Point Never
La La Land – Cantando Estações – Justin Hurwitz
Jackie – Mica Levi
Moonlight – Nicholas Britell

CANÇÃO

"The Pure and the Damned", Bom Comportamento
"Another Day of Sun", La La Land
"Audition (The Fools Who Dream)", La La Land
"City of Stars", La La Land
"The Rules Don't Apply", Regras Não se Aplicam

FOTOGRAFIA

O Outro Lado da Esperança – Timo Salminen
Z: A Cidade Perdida – Darius Khondji
John Wick: Um Novo Dia para Matar – Dan Laustsen
Bom Comportamento – Sean Price Williams
Certas Mulheres – Christopher Blauvelt

EDIÇÃO

Toni Erdmann – Heike Parplies
Martírio – Tatiana Almeida
A Mulher que se Foi – Lav Diaz
Bom Comportamento – Ronald Bronstein & Benny Safdie
Personal Shopper – Marion Monnier

DIREÇÃO DE ARTE

Silêncio – Dante Ferretti, Francesca Lo Schiavo
Personal Shopper – François-Renaud Labarthe, Martin Kurel
Z: A Cidade Perdida – Jean-Vincent Puzos, Maria Andrea Rangel, Naomi Moore
A Criada – Seong-hie Ryu
Toni Erdmann – Malina Ionescu, Katja Schlömer

FIGURINO 

Além das Palavras – Catherine Marchand
Silêncio – Dante Ferretti
Aliados – Joanna Johnston
Frantz – Pascaline Chavanne
O Estranho que Nós Amamos – Stacey Battat

SOM

Bom Comportamento
Apesar da Noite
John Wick: Um Novo Dia para Matar
Nocturama
Fragmentado

MAQUIAGEM

Além das Palavras
Frankenstein
O Outro Lado da Esperança
A Morte de Luís XIV
Ghost in the Shell – A Vigilante do Amanhã 

EFEITOS VISUAIS

Mulher Maravilha
Okja
Ghost in the Shell – A Vigilante do Amanhã
Em Ritmo de Fuga
Dunkirk

MELHOR DIRETOR ESTREANTE

Kogonada – Columbus
Jordan Peele – Corra!
Michael Dudok de Wit – A Tartaruga Vermelha
William Oldroyd – Lady Macbeth
Kelly Fremon Craig – Quase 18

MELHOR FILME (FORA DO CIRCUITO) CATEGORIA NOVA
(CRITÉRIO: filmes que não foram lançados comercialmente nos cinemas/streaming e/ou sem previsão de estreia nesses circuitos, e que foram assistidos em 2017 e lançados ou exibidos pela primeira vez entre 2014 e 2016)

A Bride for Rip Van Winkle (dir. Shunji Iwai, 2016)
National Gallery (dir. Frederick Wiseman, 2014)
A Canção do Pôr-do-Sol (dir. Terence Davies, 2015)
Não é Meu Tipo (dir. Lucas Belvaux, 2014)
The Love Witch (dir. Anna Biller, 2016)

domingo, 31 de dezembro de 2017

Os Melhores Filmes de 2017



30. A Tartaruga Vermelha, de Michael Dudok de Wit


29. Aliados, de Robert Zemeckis


28. Melhores Amigos, de Ira Sachs


27. O Filho de Joseph, de Eugène Green


26. A Criada, de Park Chan-Wook


25. Eu, Daniel Blake, de Ken Loach



24. Doentes de Amor, de Michael Showalter



23. O Outro Lado da Esperança, de Aki Kaurismäki


22. John From, de João Nicolau


21. Na Vertical, de Alain Guiraudie



20. La La Land – Cantando Estações, de Damien Chazelle



19. Eu Não Sou Seu Negro, de Raoul Peck


18. Além das Palavras, de Terence Davies


17. Moonlight – Sob a Luz do Luar, de Barry Jenkins


16. Z: A Cidade Perdida, de James Gray


15. Logan, de James Mangold


14. Jackie, de Pablo Larraín


13. Fragmentado, de M. Night Shyamalan


12. John Wick 2 – Um Novo Dia para Matar, de Chad Stahelski


11. A Mulher que se Foi, de Lav Diaz


10. Silêncio, de Martin Scorsese


9. O Ornitólogo, de João Pedro Rodrigues


8. Bom Comportamento, de Benny & Josh Safdie


7. Corra!, de Jordan Peele


6. Personal Shopper, de Olivier Assayas


5. Martírio, de Vincent Carelli, Ernesto de Carvalho & Tita


4. Paterson, de Jim Jarmusch


3. Manchester à Beira-Mar, de Kenneth Lonergan


2. Na Praia à Noite Sozinha, de Hong Sang-Soo


1. Toni Erdmann, de Maren Ade

HORS CONCOURS


Twin Peaks – O Retorno, de David Lynch

MENÇÕES HONROSAS

O Apartamento, de Asghar Farhadi
Um Limite Entre Nós, de Denzel Washington
A Qualquer Custo, de David Mackenzie
Detroit em Rebelião, de Kathryn Bigelow
Columbus, de Kogonada
Em Ritmo de Fuga, de Edgar Wright
Lady Macbeth, de William Oldroyd
O Dia Mais Feliz da Vida de Olli Maki, de Juho Kuosmanen
Apesar da Noite, de Philippe Grandrieux
A Morte de Luís XIV, de Albert Serra
Era o Hotel Cambridge, de Elaine Caffé
Perdidos em Paris, de Fiona Gordon & Dominique Abel
Frantz, de François Ozon
As Falsas Confidências, de Luc Bondy

TOP 10 – STREAMING/VOD


10. Os Meyerowitz: Família Não se Escolhe, de Noah Baumbach


9. Frankenstein, de Bernard Rose


8. Regras Não se Aplicam, de Warren Beatty


7. Marjorie Prime, de Michael Almereyda


6. Quase 18, de Kelly Fremon Craig


5. Três, de Johnnie To


4. Okja, de Bong Joon-Ho


3. Loving, de Jeff Nichols


2. Nocturama, de Bertrand Bonello


1. Certas Mulheres, de Kelly Reichardt

MENÇÕES HONROSAS

Menashe, de Joshua Z. Weinstein
Weiner, de Josh Kriegman & Elyse Steinberg
Rainha do Mundo, de Alex Ross Perry
A Longa Caminhada de Billy Lynn, de Ang Lee
Krisha, de Trey Edward Shults
Kumiko, a Caçadora de Tesouros, de David Zellner

TOP 10 – FORA DO CIRCUITO

bônus: Não Me Fale Sobre Recomeços, de Arthur Tuoto


10. À Sombra de Duas Mulheres, de Philippe Garrel


9. Love & Peace, de Sion Sono


8. Você e os Seus, de Hong Sang-Soo


7. Cavalo Dinheiro, de Pedro Costa


6. Office, de Johnnie To


5. The Love Witch, de Anna Biller


4. Não é Meu Tipo, de Lucas Belvaux


3. A Canção do Pôr-do-Sol, de Terence Davies


2. National Gallery, de Frederick Wiseman


1. A Bride for Rip Van Winkle, de Shunji Iwai

IMPRESSÕES

Bem, vamos aos filmes. Que ano cinematográfico tivemos, hein? Um belíssimo ano para o cinema. E temos mais é que nos sentir privilegiados de estarmos vivendo numa época tão inspirada para essa arte, num ano em que tivemos várias discussões atribuladas, e trabalhos tão desafiadores quanto originais que sempre nos fazem lembrar o quanto o cinema é gigante. Vai ser um ano lembrado com muito carinho pela minha pessoa nesse quesito, dos filmes que eu vi e do quanto eles me tocaram. 

Na minha lista tradicional de melhores esse ano, tem algumas novas mudanças, e pra quem já acompanha o blog acho que isso ficou claro acima. Pela primeira vez, decidi incluir filmes que estrearam nas telinhas via streaming/video on demand num top 10 bastante especial e também uma outra lista que contempla filmes "fora do circuito", cujo critério é trabalhos inéditos realizados ou exibidos pela primeira vez de 2014 a 2016 que não passaram nem nos cinemas tampouco nas telinhas, que tiveram que ser conferidos em meios alternativos. Essa última lista, um pouco mais radicalizada, é devida à lembrança de bons trabalhos recentes que eu tive a chance de conferir em 2017. 

Toni Erdmann encabeçou o meu ranking. Do fundo do meu coração, é um filme que eu jamais esquecerei. E deve ter sido o qual eu mais pensei sobre esse ano, pra falar a verdade. É uma linda história de amor entre um pai e uma filha se reaproximando, uma comédia dramática tão humana, deliciosa, encantadora, que eu sequer ousei escrever sobre, de tão especial que ele foi pra mim. Valoriza tanto os sentimentos que provoca, tem um trabalho tão fantástico com seus atores principais (Sandra Hüller, a filha; e Peter Simonischek, o pai). São quase três horas de puro e genuíno cinema. Nenhum outro trabalho superou este, de um brilhantismo absoluto e radiante. Me deixou apaixonado. 

Como eu disse, foi um ano de muitos filmes memoráveis e grandiosos. Na Praia à Noite Sozinha, do sul-coreano Hong Sang-Soo (que vem se tornando um dos principais nomes do cinema contemporâneo, aos poucos, com seus filmes complexos, sutis, agridoces e arrebatadores), traz uma brutal carga autobiográfica no relato pesado e denso de uma atriz atravessando as consequências de sua relação com um cineasta e as feridas que o amor deixou. Bonito, intenso e repleto de planos inesquecíveis. Do ano de 2017 em si, é o melhor lançamento. Manchester à Beira-Mar, outro filme triste e intenso, conta a fatídica trajetória de um homem lidando com suas tragédias pessoais e o peso do passado num evento do presente. Belo e amargo, o melhor filme americano do ano. 

O poético e romântico Paterson me deixou em estado de graça, fiquei arrebatado com a precisão e a minuciosidade da narrativa de Jarmusch, lembrando mais uma vez o cinema de Ozu com seu carinho pelo que filma e o cuidado que constrói cada detalhe em seu filme. É muito amor pelo cinema e pelas imagens. Martírio – o filme brasileiro mais importante do ano – é necessário e urgente, deveria ser assistido por cada cidadão desse país. A cultura indígena sendo apagada, destruída, completamente dizimada e o Brasil assiste a isso com indiferença, o trágico retrato desumano da história de uma nação refletida na urgência do presente e na desordem política. É o filme mais triste do ano, e o mais essencial. 

Olivier Assayas retornou às telas trazendo Kristen Stewart na pele de uma americana assombrada pelo fantasma do irmão gêmeo no tenso e magnífico Personal Shopper. Corra! é o filme de terror que melhor define o seu tempo e o seu gênero – uma obra inesquecível. Bom Comportamento é um filme de ação chapado que prova que os irmãos Safdie estão entre os mais importantes da nova geração.

O Ornitólogo é imprescindível nessa lista, um filme que me impressionou profundamente, com seu trabalho fotográfico incrível e uma releitura mítica que beira o surreal e atinge o torpor. A Mulher que se Foi traz de volta as ruas distorcidas e caóticas da Filipinas na visão de um dos cineastas mais importantes do nosso tempo, Lav Diaz, à história de uma mulher que, presa por um crime que não cometeu, passa 20 anos na cadeia e é finalmente libertada, disposta a consumar sua vingança pelo tempo perdido. 

Foi o ano também do retorno de diretores influentes: Martin Scorsese, com seu extraordinário Silêncio, criação épica que contorna diálogos sobre a fé e a religião, e como essas duas coisas se conectam e se divergem; M. Night Shyamalan, com Fragmentado, de uma ferocidade atônita, uma crônica psicológica sobre o impacto dos traumas e as consequências do medo. Pablo Larraín, diretor chileno que chegou à Hollywood com uma cinebiografia nada hollywoodiana que consiste num recorte vertiginoso e inusual da primeira-dama Jackie Kennedy após o assassinato de JFK. Larraín sabe trabalhar a temática política como poucos no cinema hoje em dia e esse trabalho é mais que bem-vindo em sua completude e autenticidade. James Gray e seu Z: A Cidade Perdida, bom ver que um dos maiores de sua geração tá com a bola toda e triunfa nesse épico tão bem feito que nos apresenta a jornada pelo desconhecido do seu lado mais sombrio e misterioso, e também encantador. 

Ken Loach, com seu cinema já característico, nos brindou com Eu, Daniel Blake que, se não é seu melhor filme, é digno como qualquer outro e merece respeito. Alain Guiraudie e Na Vertical, ótimo filme de um dos diretores que melhor sabe filmar o universo masculino de um ponto de vista sexual. Terence Davies, cujo trabalho eu descobri apenas em 2017, foi à America para narrar a história da poetisa Emily Dickinson, e acabou resultando num dos melhores do ano. 

Foi o ano também em que o cinema foi o canal da voz de denúncia e protesto da comunidade negra, como foi visto em Eu Não Sou Seu Negro, uma consistente análise dos turbulentos anos 60 marcados pela segregação racial. Aí entra também Detroit em Rebelião, retorno de Kathryn Bigelow, com ares documentais que capta na pele e com uma câmera que treme a todo instante a tensão e o horror vividos pelos negros em um tempo marcado por revoltas, violência policial, e um chamado de justiça. O belíssimo e intenso Moonlight, vencedor do Oscar de Melhor Filme, capta com paixão o universo de um personagem em três estágios diferentes de sua trajetória de descoberta pessoal e a dificuldade em se encaixar no mundo em que está inserido. Mais que uma celebração das diferenças, uma celebração única do amor e da liberdade. E o "ex-vencedor" do Oscar de Melhor Filme (no que é, talvez, o momento mais marcante e falado do ano), o musical La La Land, é uma celebração do cinema e, ainda mais, do amor pela sétima arte, na história de amor entre dois personagens perdidos em seus amores que se encontram perseguindo seus sonhos. 

Foi ano também em que tivemos grandes filmes protagonizados por adolescentes e jovens, o português John From, o francês Nocturama e os americanos Melhores Amigos e Quase 18, captando a essência dessa idade tão marcante, com todos os seus sentimentos e ansiedades, aflorações e tensões. Doentes de Amor é um exemplar doce e satisfatório da comédia norte-americana sobre o encontro entre dois personagens selados pela diversidade. E, por falar em diversidade, tivemos também O Outro Lado da Esperança, com seu sotaque deadpan, com o melhor do estilo de seu autor, o finlandês Kaurismäki, em plena forma, sobre um imigrante ilegal à procura de sua irmã em terras estrangeiras. 

O Filho de Joseph vai ficar lembrado pela minha pessoa por ser o primeiro (excelente) trabalho do consagrado auteur Eugène Green que eu vejo. Aliados, de Robert Zemeckis, é um remetente da velha Hollywood dos filmes de espionagem românticos e das "intrigas internacionais". Não fazem mais filmes como antigamente. E, por fim, A Tartaruga Vermelha, esta gentil animação sem diálogos que faz grande uso da linguagem cinematográfica com uma narrativa extremamente simples, sabe como construir atmosfera partindo do sutil, do mínimo, é um verdadeiro milagre do cinema, e encerra o meu ranking dos melhores lançamentos de cinema em 2017.

Na discussão se é série ou filme (o que pra mim é um tanto duvidável, já que pra mim o trabalho ultrapassa os limites de um e do outro e chega a um estado completamente único, então antes de tudo eu considero mesmo um verdadeiro milagre, seja do cinema, da TV ou do audiovisual em si) Twin Peaks – O Retorno chegou pra ficar e acabou fazendo a lista de vários cinéfilos e apareceu em diversas listas de veículos importantes da imprensa cinematográfica (Cahiers du Cinéma colocou em primeiro lugar, Sight & Sound em segundo) como uma realização fílmica (e o trabalho esbanja muitas qualidades que são puramente devidas à arte cinematográfica mesmo, nada mais justo que isso, ainda que tenha sido exibida como uma minissérie). Deixando um pouco a discussão de lado, importante mesmo é que esse ano tivemos o retorno do cineasta David Lynch com um de seus principais feitos (Twin Peaks, cujas 2 primeiras temporadas conferi ainda na primeira metade de 2017, é a maior série de TV já realizada). E trata-se da coisa mais especial que tivemos esse ano, um verdadeiro presentaço, o evento mais badalado. Espero rever em breve essa maravilhosa obra-prima, se eu ousar fazer isso. Foi meu hors concours porque é um trabalho por demais excepcional pra ser classificado em listas, nem preciso dizer que obra suprema fica à parte dos rankings competitivos (hehe). Foi bom ter o mestre Lynch de volta, já que ele estava há 10 anos sem entregar um trabalho de grande porte como esse (levando em consideração seu último longa, Império dos Sonhos). Esperamos que ele volte com mais trabalhos assim, grandiosos. 

Das minhas novas listas que fiz à parte, os filmes que ficaram no topo são pra lá de excepcionais. Certas Mulheres, visto em casa, é lindíssimo e só essa palavra basta. Tem o melhor elenco feminino do ano e uma construção de imagens que simplesmente me abisma. Loving, a beleza do amor e a monstruosidade dos homens. Okja, o filme que mais me fez chorar em 2017, sobre a inocência corrompida num mundo destruído. Três, um filme de ação/suspense que se passa dentro de um hospital – e dirigido por Johnnie To (= um puta filmaço). 

É claro, sempre tem aqueles filmes que acabam esquecidos, deixados de lado, mas que sempre estão disponíveis por aí, seja nos torrents da vida ou em outras cópias, e esse ano tivemos pelo menos uma grande obra-prima do cinema oriental que deveria ser reconhecida devidamente: A Bride for Rip Van Winkle, o filme que melhor diz sobre as mentiras nas quais acreditamos e no mundo de farsas em que estamos inseridos. É de uma excelência arrebatadora. National Gallery, do documentarista veterano Frederick Wiseman, é um épico documental que discute a arte e dispensa conceitos para isso, e faz melhor que qualquer filme desse ano que talvez o tenha tentado (e provavelmente como pouquíssimos essa década). A Canção do Pôr-do-Sol (olha o Terence Davies aí de novo!) sobre uma mulher marcada pelo seu tempo e pela sociedade em que vive, e a chegada do amor, é dos mais notáveis do cinema britânico recente e foi muito pouco lembrado. 

Mais um ano chega ao fim. 2017 passou, e ainda que no final sempre pareça que foi rápido demais, deixou muitas lembranças. Foi um ano complicado pra muita gente, é verdade. Talvez foi um ano mais confuso do que propriamente bom, digamos, mas foi tempo de muitas mudanças (e descobertas). Pelo menos pra mim, foi um ano importante justamente por conta disso. Quando a nossa vida se transforma em algum aspecto, quando a nossa rotina é modificada ou alterada em algum ponto, ficamos expostos a um mundo desconhecido que, aos poucos, vai se tornando o nosso mundo. Começamos a enxergar e dar atenção a algumas coisas que passavam despercebidas, e a vida ganha novas cores, traços próprios. 

Não foi um ano perfeito, é claro. Mas teve seus pontos positivos. Suas memórias marcantes, as pessoas que conhecemos e com quem interagimos, as histórias que ouvimos (e que transmitimos), que testemunhamos, as que assistimos nos filmes, as que lemos, e – claro – a história que vivemos. Porque essa é a nossa história. Estamos aqui e agora, vivendo essa vida. E nós só temos uma. Então, antes de reclamar ou perder tempo com preocupações banais, precisamos olhar para isso como se cada dia fosse um novo começo, porque a cada instante estamos mudando e nada volta. Não temos controle do tempo, não podemos antecipar o que está por vir e apagar ou modificar o que já aconteceu. Vivemos nesse pequeno vão que existe entre passado e futuro, e é nele que imprimimos todas as nossas emoções e depositamos as esperanças, os sonhos, os sentimentos. 

Um ciclo se encerra, e outro começa. E nesse ciclo que está se fechando, enclausuram-se momentos, instantes, memórias das quais eu posso ou não me orgulhar, o que eu poderia mudar (e que eu me arrependo) e o que eu queria viver de novo só pra sentir aquele gostinho. E, no final das contas, a gente sempre retorna pra esse ponto, pra desejar coisas boas e novos votos para o ano seguinte, olhando pra trás e analisando, seja com um olhar repreensivo ou bondoso, os dias anteriores que vivemos nesse período que se esvanece.

Por isso, o importante é continuar desfrutando o melhor que a vida pode oferecer, as coisas que estão escondidas nos menores detalhes, na beleza do que a gente não vê, o sublime. E tudo o que eu desejo para 2018 é que eu, você e todos nós possamos desfrutar do sublime da vida. E, acima de todas as coisas, tudo o que eu desejo é amor. Um grande abraço a todos os meus leitores, que tem me acompanhado aqui, e é sempre ótimo compartilhar sobre o cinema com vocês, e a vida, de certa forma. Que sejamos felizes nesse próximo ano que chega. 

FELIZ 2018!!!