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domingo, 22 de abril de 2018

YOU WERE NEVER REALLY HERE (2017)


Joaquin Phoenix (vencedor do prestigiado prêmio de atuação masculina no último Festival de Cannes) pode ter perdido a chance de ganhar um Oscar, mas o que importa é que a atuação dele é um tesouro, com ou sem um. Um Taxi Driver moderado, com doses bem definidas de tensão e equilíbrio dramático. Ramsay acerta os momentos que filma, e a essência desse trabalho é toda calcada em uma condução que assume riscos sem ter medo de enfrentar os perigos que surgem com eles (e esse é, ao meu ver, o melhor filme dela).

A câmera de Ramsay está inspiradíssima: não há um momento sequer em que é perceptível que ela não esteja segura do resultado que obterá com esse ou aquele plano, e isso é suficiente para criar momentos desnorteantes em que não é precisa muita manipulação para se atingir um determinado estado, ou um sentimento de vibração, que ajuda a construir e elaborar toda uma atmosfera dramática. 

É na capacidade da diretora de se infiltrar delicadamente nesses personagens para enxergar e explorar o que há de mais obscuro e dilacerante neles, que vemos quanta humanidade está concentrada, seja nas cicatrizes deixadas pelo tempo, nas tentativas de se superar através da superação do outro, na identificação com os traumas alheios. É um filme essencialmente doloroso na maneira como finca esse retrato, esperando que sua crueldade, de alguma maneira, se encaixe no desfecho dinâmico e poderoso, ali naqueles personagens, finalmente unidos pelo destino, pelas suas dores, pelas imagens cravadas em suas cabeças, pelo que nem mesmo o tempo poderá apagar. Amor? Ódio? Amor e ódio? 

You Were Never Really Here
dir. Lynne Ramsay
★★★½

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Crítica: "PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN" (2011) - ★★★★


Precisamos Falar Sobre o Kevin é uma obra intensamente desoladora e sensacionalmente extraordinária. Muito bom ter visto o longa e, consequentemente, a melhor performance de uma das atrizes mais talentosas que o cinema já viu: Tilda Swinton, no papel de Eva, a protetora mãe de um pequeno "capetinha" chamado Kevin, que a nenhum instante dá paz para a matriarca, que endoida com os endiabrados atos desumanos do filho, desde a infância até a juventude.

A cada cena, o espectador se vê cada vez mais próximo ao tremendamente assustador destino de Kevin e de Eva. E, mesmo que exista uma hora e quarenta minutos nesse intervalo, é impacientemente maravilhoso ver o crescimento de Kevin e sua relação conflituosa com a mãe, Eva, cuja única saída é apenas servir de "escrava" ao primogênito, que sempre a humilha e maltrata. Lynne Ramsay mostrou que, quem sabe contar boa história faz Precisamos Falar Sobre o Kevin: uma trama que, com estilo e inovação, mantém o público atento aos detalhes e ao desenvolvimento instigante de sua história macabra. Técnica cuja faz de Ramsay uma diretora exímia e que, possivelmente em um breve futuro, estará apta a mostrar ao mundo cinematográfico mais obras como estas.

As comparações deste longa com o clássico de Polanski O Bebê de Rosemary são bem válidas, apesar da própria obra de Polanski ser bem mais amedrontadora, já que é puro terror em si. Não sei se posso dizer que Precisamos Falar Sobre o Kevin é um longa de terror. Está bem mais para suspense do que para terror, apesar de ser um suspense inusualmente perturbador e peculiar. Nisso, posso até concordar que o filme desapontou, se relacionado ao que eu esperava. Não reclamem do final, por favor. Nem sempre o filme tem que deixar todos os detalhes de prontidão para o espectador se deliciar e sair pacientemente intacto do cinema (resumindo: espectadores, sem querer ofendê-los de preguiçosos, mas é preciso ser atencioso por que nem sempre terão tudo mastigado). Precisamos Falar Sobre o Kevin nos faz pensar muito e até por um tempo nos deixa bem inquietos e "paranoicos". Pode-se dizer que a ambiguidade de Precisamos..., num bom sentido, nos faz refletir sobre questões que, talvez, um filme "comum" (sim, entre aspas) de seu gênero nunca poderia talvez reproduzir. E essa ambição é arriscada, por que o espectador, além de ter altas chances de não entender algo do real objetivo do filme, ainda sim poderá culpá-lo de fracasso justo pela ausência de justificativas aos meios apresentados nele. Mas, raspando, Lynne soube arriscar triunfalmente e, como isso poderia se tornar, não foi um desastre. 

Faz bem lembrar que Precisamos Falar Sobre Kevin é um filme que não nos é tão incomum, falando de sua história. Apesar de que aqui no Brasil tudo, comunalmente, resolve-se na pancada/porrada/chicote/chibata/chinelo/tapa (uma educação que, apesar de nos últimos tempos ter sido significantemente diminuída e criminalizada em virtude dos problemas éticos e tal, é a forma mais justa e correta existente de se educar uma criança na forma de incentivo e castigo - digo isso sem medo algum de estar fazendo apologia ao crime -), sabemos muito bem que mundo afora existem pais que não utilizam e nem pretendem utilizar esse método como forma de repreensão, tais como aqui mesmo no Brasil. E Kevin é o melhor exemplo a ser visto de uma criança que não teve surras em sua infância, cujos pais não se ousaram e deram-se a liberdade de dar umas boas palmadas em seu filho. Resultado: o "diabinho" cresceu e virou um delinquente maquiavélico. Por isso, qual é a moral deste filme? Pais, por favor, não deem uma de "politicamente corretos" e evitem repreender seus filhos sob nenhuma circunstância aparente. Batam em seus filhos caso eles mesmos sejam antiéticos e imorais em suas presenças ou não. Essa forma de educação deve ser preservada por várias gerações adiante. Não tenham medo sob nenhuma hipótese. Medo eu teria caso meus filhos crescessem e tornassem a me maltratar e abusar constantemente da boa vontade de minha esposa e eu. Isso sim seria um fatal medo. Batam e batam. Violência pode ser doloroso, insensível e cruel, mas é a forma de repreensão mais eficaz. Pensem nisso.

Pensem como Tilda Swinton, que não pensou duas vezes ao ser convidada para interpretar Eva Khatchadourian, mãe que sofreu muito e pesarosamente foi maltratada no período de criação do jovem Kevin. Como resultado de sua lendária e majestosa interpretação, indicações ao Globo de Ouro, BAFTA, SAG, Critics Choice Awards e tudo o mais, exceto o Oscar (uma das mais imperdoáveis esnobações). Assistam Precisamos Falar Sobre o Kevin pensando em Tilda Swinton, e garanto que não estarão arrependidos de forma alguma. Ela é excepcional. A culpa de sua personagem é transmitida a todo vapor em dor, fúria, desespero, impulsão e tragédia em sua encarnação absolutamente brilhante.

Precisamos Falar Sobre o Kevin (We Need to Talk About Kevin)
dir. Lynne Ramsay -