quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Fargo


Terceira revisão. Os Coen habilidosos em destrinchar a linha tênue entre o absurdo e o banal, criando esse conto bizarro, mas ao mesmo tempo totalmente crível, do espiral de violência que se desdobra a partir de um crime (inicialmente falso) com consequências drásticas para praticamente todos os envolvidos - e a policial (McDormand, fenomenal) que resolve a situação. A ironia deste filme, coberto de imprevisibilidade, e também seu choque, porque revisto ainda é uma explosão, no sentido de ser um filme que ecoa, tem seu valor. É claro, não deve ser algo que se estende apenas a este filme, mas as revisões são muito produtivas pra um filme, do ponto de vista do espectador. 

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Uma Cidade Chamada Pânico


Que filme mais delicioso. Essa graça estranha dele na verdade é muito aconchegante, quando você se deixa levar pelo seu senso de humor fora da casinha. É um filme feliz nas suas presepadas, até porque parece que sua intenção é de brincar mesmo, ou que a gente se deixe levar pelas brincadeiras que ele faz. Desde as situações meio insanas até as piadas que surgem nos diálogos, a diversão vem de uma série de eventos caóticos e da euforia dos personagens. Um exemplar que é pra ser comemorado num gênero cujo pecado geralmente é confundir inventividade com convencionalidade. Esse aqui tem criatividade de sobra. E é divertido demais.

Panique au Village
Stéphane Aubier & Vincent Patar
Bélgica, 2009

sábado, 5 de junho de 2021

Drive


Uma revisão foi muito bem-vinda a Drive. Não me lembrava como ele conseguia equilibrar tão bem sensibilidade e adrenalina, destacando o tratamento ímpar que o romance entre os personagens do Ryan e da Carey ganha, com sentimento e honestidade. O resultado é belo. A ação funciona e se apresenta em diversas camadas, não atrapalhando as escolhas que o filme toma para contar tanto a história daquele amor, como de toda a violência ao redor dele, e o emblema que divide o protagonista, as pessoas que ele ama, as pessoas que cruzam seu caminho. Drive tem euforia, mostra que é possível fazer tanto ação quanto um filme mais particular sem chegar aos limites para impressionar. O que move o filme, entretanto, é a delicadeza com a qual ele mostra aquele motorista fechado e solitário se abrindo, abrandando a dureza que usa de figurino, ao entrar em contato com o amor. E como aqueles universos se misturam.

Mesmo sendo tão enfático nas consequências desse amor, resta ainda algo de contido, como se fosse um segredo. E acho que o filme vai tentando, em sua extensão, desvendar isso, do seu jeito. Com agressividade, amorosidade, tensão, torpor. E com muita delicadeza, parte dessa delicadeza escondida, velada, nunca exposta por completo. Talvez isso explique sua beleza, de nos instigar a ir atrás do que se esconde por trás desses personagens - e mais especificamente do motorista. Conto da solidão desse homem, e ao mesmo tempo do seu abrir pro mundo, da descoberta do seu herói interior. 

Nicolas Winding Refn
EUA, 2011

sábado, 29 de maio de 2021

Mangrove / Lovers Rock



MANGROVE é necessário. Pela indignação, mas sobretudo por seu retrato poderoso do descontentamento contra a parcialidade, e o semeio da luta pela afirmação, defesa da identidade, do ser, através da afirmação do espaço. Identidade, aliás, que as autoridades investem em reprimir. É um exemplar ativista, nada contido, da movimentação por justiça, pulsando raiva, mas também entendendo o que move seus personagens, dando um tratamento muito honesto a eles num filme cercado por pretensões bem definidas. McQueen encontra espaço tanto para um quanto para outro. Um filme feito para esses tempos, com uma urgência que transmite bem essa indignação, mas não se impregna dela. Ele quer encontrar lugar pra respirar, e o filme nunca deixa de passar essa mensagem, de reafirmar o que a luta é sobre. 

Já LOVERS ROCK se inclina para o romance, a música, a nostalgia, os detalhes de uma noite de festa, um "baile", regado a reggae, movimento e muito amor. Se MANGROVE pulsa a energia da revolta, LOVERS ROCK pulsa muitas energias diferentes, afetuosas, rítmicas, corporais, espaciais. O filme é movido por isso, lembrando que ele gira em torno de um único dia, mais especificamente a noite desse dia, e extrai dele toda uma gama de emoções bastante ricas e particulares. É um conto de amor, conto de expurgação, conto de convergência, conto do corpo e da mente também, da dança, da musicalidade. Sempre exalando essa intensidade que é toda dele, meio que convida o espectador a se tornar íntimo dela. Provavelmente seja a melhor coisa que o Steve McQueen já fez, porque como cinema é muito verdadeiro em sua fluência, na força desprendida das sequências. Nos dois filmes, os atores dominam a cena. Ambos fazem parte da antologia SMALL AXE.

Small Axe (ep. 1 & 2)
Steve McQueen
Reino Unido, 2020

sexta-feira, 28 de maio de 2021

Antiga Alegria


Antes de fazer o belo WENDY E LUCY, Reichardt foi explorar a retirada de dois amigos para a natureza, um programa pra sair um pouco da rotina da cidade e das obrigações adultas. O contato com a natureza traz à tona a intimidade dos dois amigos, que começam a pesar o andamento de suas vidas, um está prestes a se tornar pai, o outro vai se mostrando, de algum modo, aturdido pela paternidade do amigo, mas de um jeito muito compassivo e discreto. Reichardt vai permitindo que as paisagens que servem de cenário, o diálogo entre os dois atores e a trilha, de uma ternura agridoce, preencham ANTIGA ALEGRIA com vida. Observa-se os desdobramentos do encontro, cheio de significado, e do quanto ele tem a dizer sobre a amizade daqueles dois homens. A cidade, a natureza, o isolamento, a coexistência urbana, as palavras, o filho, a parceria. Os pequenos contrastes contrastam com a particularidade da amizade, que é o grande tema do filme. O resultado é um filme que acerta em cada movimento, uma das primeiras provas das habilidades de sua diretora em tratar da vida, do comum, como fonte do cinematográfico.

Old Joy
Kelly Reichardt
EUA, 2006

No Tempo das Diligências


Um filme que, por instinto, é fundador. A viagem de diligência dos personagens, incumbidos a atravessar uma turbulência no meio da viagem, com o ataque dos apaches, mas também as próprias turbulências da interação entre eles, é costurada com muita vivacidade pelo John Ford. Cada cena se supera, nada está fora do lugar. NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS parece que descobre a grandeza do cinema dentro de suas próprias maquinações. Ele usufrui de técnicas riquíssimas, respeita a importância da narrativa, é fascinante, encantador mesmo, toda a coleção de lindas cenas, e a maneira como se filma, com uma grandiosidade natural, está ali nos lembrando as possibilidades do western. Gosto de como ele se torna uma pequena parábola das convulsões que ele testemunha e como sua premissa é, no fundo, bastante simples, mas muitíssimo bem trabalhada. Gostaria de ter mais palavras, talvez até venha a ter, mas é isso, é de uma beleza...

Stagecoach
John Ford
EUA, 1939

A Regra do Jogo


Lançado às vesperas da 2ª Guerra Mundial, eis um filme que quis dialogar com o seu tempo, mostrando as contradições de uma sociedade e de relações marcadas por regras sociais e pela fragilidade do status. Ao mesmo tempo, ele consegue ser honesto ao falar sobre as emoções de seus personagens, íntimo até. É tido como um dos grandes clássicos do cinema, e de seu diretor, Renoir, essa crônica contundente de um capítulo marcante, trágico da História e a convergência de diferentes relações interpessoais e amorosas em uma reunião burguesa marcada por desavenças, confissões, conciliações, revoltas sentimentais e intrigas. O filme é dotado de uma delicadeza que aproxima o espectador dos retratados, sendo ora cômico, romântico, violento e amargo. Deixa a gente com um sentimento estranho, mas ao mesmo tempo um sentimento de proximidade, de certa forma. Também o engrandece mais ainda seus atores, com interpretações gigantes vindo de todos os lados. Trata-se de um exemplar importantíssimo de cinema em uma época que o mundo beirava transformações sociais e políticas estremecedoras, e isso começava a se refletir até nas mais "simples" das relações pessoais, cuja aparente normalidade foi chacoalhada, sacudida. 

La Règle du Jeu
Jean Renoir
França, 1939