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terça-feira, 27 de novembro de 2018

DESOBEDIÊNCIA (2017)

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O caso de Desobediência é especial. O filme é o primeiro falado em inglês do chileno Sebastián Lelio, recém ganhador de um Oscar pelo drama Uma Mulher Fantástica, que traz consigo a história de uma mulher trans lidando com o falecimento do namorado, deflagrada numa situação de luto e luta, literalmente, em que ela batalha para ter o direito de simplesmente sofrer pela perda, e o amor que ela sente pelo homem, apesar do preconceito e da opressão de sua ex-mulher e da família que ele tinha. O filme, que é uma preciosidade, foi aplaudido a ponto de trazer o primeiro Oscar para uma produção chilena, no reconhecimento que foi um dos mais necessários da premiação desse ano. Lelio já havia assumido a direção de Desobediência, lançado ano passado em Toronto, e que porém só obteve distribuição nos EUA em 2018, um belo drama sobre duas mulheres e um amor lentamente rompendo a barreira do segredo. 

Novamente operando no cenário das temáticas sexualidade e opressão, o novo filme de Lelio explora as tensões e as agonias do amor entre duas mulheres que pertencem à mesma comunidade judaica, mas que são impedidas de se amarem devido aos limites impostos pelo tradicionalismo daquela sociedade diminuta. A fotógrafa que foi "ser livre" em NY, e a professora que decidiu preservar sua vida no círculo em que foi criada, se reencontram quando a primeira perde o pai — o respeitado rabino da comunidade — no episódio que é o ponto de partida para o re-confinamento de uma e a reafirmação da outra. 

O registro desse reencontro é contornado pela simplicidade de um amor que vive de silêncios e de intimidades interrompidas, expresso em gestos comedidos e contidos — exceto quando as duas personagens encontram-se sozinhas, livres para abraçarem o amor e o calor de seus sentimentos longe dos olhos dos outros — e o espectador é capaz de sentir a afirmação sorrateira, silenciosa e calorosa do romance de Ronit e Esti através desses gestos, ora de controle, ora de descontrole. 

O amor é exalado em volumes distintos — os olhares secretos de um lado, e os amassos intensos e fortes de outro. Esti, que é casada com Dovid, encontra-se dividida entre uma experiência de liberdade sexual, e as restrições impostas pelos padrões. Ronit, que se manteve afastada por tanto tempo daquele reduto religioso, encara uma vida diferente da que levava com repreensão, mas logo enxerga que dentro de si feridas não cicatrizadas caminham a um expurgo, quando ela se depara com a complicada relação com o pai e a religião.

Não deixa de ser um drama competente que sabe se completar quando explora ambas as experiências de amor de personagens que, de alguma forma, parecem estar tanto à mercê da convivência com os outros quanto das imposições de uma sociedade, algo que parece estar bastante presente no cinema de Lelio, pela composição de retratos agônicos do deslocamento de identidade sexual, não apenas do ponto de vista humano, mas também como um gesto de força política e social.

A admirável consistência é um mérito compartilhado por ambas as performances da dupla de atrizes que carrega o filme com sensibilidade ímpar: Rachel McAdams e Rachel Weisz, acompanhadas pela atuação coadjuvante de um inspirado Alessandro Nivola, três atuações que, se melhor reconhecidas, poderiam levar o elenco para prêmios importantes nessa temporada que está chegando.

O retrato de amores homossexuais tensionados pela opressão talvez não seja exatamente recorrente, mas conseguiu ser abordado com primor em trabalhos do naipe de O Segredo de Brokeback Mountain, Carol, Moonlight, etc., no cinema contemporâneo. Desobediência flerta com muitos deles, e embora não seja exatamente comparável, podemos dizer que a lembrança do filme é das mais positivas, fazendo jus à associação. 

A fotografia, que pode ser claustrofóbica ou libertadora nas cenas de amor, ou nos sutis enquadramentos das personagens principais que por si só já são capazes de dar conta da expressão que um toque ou um olhar podem emanar, captura a tensão de viver um amor às escondidas, silenciado pelos cerceamentos alheios e reavivado por desejos e sentimentos mais fortes que seus limites. Assim, Desobediência vai se afirmando como um conto romântico e dramático sobre, simplesmente, amor, liberdade, fé, sexualidade e a dificuldade (ou a luta) de respeitar os quatro dentro do mesmo espaço, sem segregá-los.

Desobediência
Desobedience
dir. Sebastián Lelio
★★★★

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

UMA MULHER FANTÁSTICA (2017)



Minha primeira resenha de 2018 é justamente sobre um filme que passou nos cinemas em 2017 e eu acabei perdendo: Uma Mulher Fantástica, o prestigiado drama chileno de Sebastián Lelio que está bombando nas apostas para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Na dúvida de colocar ou não o filme na minha lista do ano passado, que eu fechei no último domingo, decidi por não incluir pra não ter que bagunçar as posições, então eu provavelmente lembrarei desse filme tão especial na minha lista de 2018. Trata-se do filme mais importante da temporada (e dos últimos anos) por uma série de razões, e acima de tudo é dos mais especiais trabalhos que o cinema chileno nos entrega, em uma de suas mais inspiradas fases.

Neste filme, Daniela Vega vive Marina, uma transsexual que mora com um homem mais velho, Orlando, e com quem compartilha um profundo amor. Inesperadamente, Orlando acaba falecendo, e Marina se encontra desolada e perdida. Ela, a única companhia dele, já na mesma noite em que ele morre, começa a ser intimidada pela polícia no hospital, que é apenas o começo de uma jornada de luto e de auto-afirmação pela qual Marina passará durante esse momento. Ao mesmo tempo em que ela enfrenta a morte da pessoa que ela ama, tem que lutar avidamente pelo direito de ser e afirmar quem é, mesmo que o preconceito alheio sufoque, aprisione e despreze a mulher fantástica numa sociedade que, à medida em que parece reconhecer mais, também parece odiar, machucar, destruir e desrespeitar mais. 

O filme é guiado por tensão, melancolia e sentimentos tão sufocantes quanto à beira do desespero. Sentimos tudo o que a angustiada personagem de Vega sente, ao ser negada e maltratada ao ver o seu grito silenciado. Em algumas cenas, isso provoca emoções tão fortes que pode levar o espectador às lágrimas, como foi meu caso, que me encontrei quase chorando numa certa cena em que Marina vai até a igreja onde está sendo velado Orlando, mas é obrigada a deixar o lugar depois que a ex-mulher dele a insulta. É de partir o coração, e revoltante também. 

A condução é primorosa, Lelio prova ser um dos mais competentes diretores do cinema chileno atual com seu retrato desnorteante e emocionante de uma mulher tentando ser quem é, e que não permitirá que os limites impostos definam quem ela é. Sobretudo, uma história de amor, uma busca por identidade e afirmação, sobre os fragmentos que surgem de quando somos deixados sozinhos com a nossa própria negação. Daniela Vega, magistral, não pensaria duas vezes antes de afirmar que é uma das mais tocantes atuações dos tempos recentes e merecedora de todo reconhecimento. Ainda que o filme seja um potente candidato ao Oscar, infelizmente Vega tem poucas chances de entrar na briga de melhor atriz (a categoria está muito acirrada). Mas que ela merece, amigos, disso eu nunca duvidarei. O filme é lindo, sua protagonista é excepcionalmente maravilhosa, e com certeza deve ser visto. Mais que obrigatório. De uma potência imbatível. 

Uma Mulher Fantástica (Una mujer fantástica)
dir. Sebastián Lelio
★★★★