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quinta-feira, 23 de junho de 2016

Crítica: "O SÉTIMO SELO" (1957) - ★★★★★


"Bergman anseiava pela possibilidade de o filme se tornar um fenômeno religioso... Mas, no final, ele era um grande entretenimento. O Sétimo Selo prende a sua atenção. Não é como fazer uma lição de casa.", Woody Allen, 2007 ("1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer")

É tanto filme pra comentar que eu nem sei por onde começar. Mas, vamos lá. Vi ontem esse que é uma dos mais obrigatórios filmes do mestre Bergman, o admirado O Sétimo Selo. Que filmão! E ainda é pouco chamá-lo de clássico. É uma obra completa, sem igual, definitivamente um marco cinematográfico. Bergman firma-se, mais uma vez, como o eterno poeta, ilusionista, filósofo do cinema. Sua perspicácia é comovente. 

Creio que não exista nem de longe um filme no mínimo comparável a O Sétimo Selo, inclusive dentro da filmografia do próprio Bergman, no que diz respeito a qualidade, profundidade e força fílmica. É único, não há nada igual. Talvez A Fonte da Donzela, que se passa no século XIV, possa remeter um pouco quanto à época, ainda que eu não tenha tido a chance de conferir ainda. E talvez tenham outros títulos, dos quais não me recordo agora, dada a vasta filmografia de Bergman e a temática religiosa tão propagada na mesma.

Trata-de se um filme extremamente delicado e poderoso. Bergman transforma cinema em monumento, contemplando a filosofia do tempo, do espírito e do espaço, nos maravilhando com imagens e sequências tão absolutas e remotas que chegam a ser oníricas, como a famosa cena do cavaleiro jogando xadrez contra a morte com sua vida como preço caso perca a partida, ou a cena final, da "dança macabra", extremamente inesquecível. Aliás, que ótima interpretação a de Bengt Ekerot no papel de Morte. A melhor do filme. Max von Sydow (o cavaleiro) e Nils Poppe (Jof, o ator) também estão excelentes.

A fotografia de Gunnar Fischer, que trabalhou com Bergman em muitos de seus primeiros filmes, como Juventude, o sensacional Monika e o Desejo, Sorrisos de uma Noite de Verão e Morangos Silvestres, combina bem contraste, realce e proporção. Algumas das melhores cenas do filme o são em virtude do magnífico trabalho de fotografia de Fischer, exímio a cada ângulo, acompanhando bem o clima distópico que o filme inspira, a profundeza dos detalhes, a riqueza técnica e a perspectiva filosófica da trama, bem como a intensidade das atuações. A câmera capta com perfeição as características da época, a escuridão e a atmosfera metafísica. É admirável.

O Sétimo Selo navega pela tenebrosidade e pela complexidade do questionamento, conferindo sagacidade e essência moral e estética à sua audaciosa proposta. O resultado é primoroso. Não há como negar que O Sétimo Selo é um filme incrível, espetacular. Isso é que é cinema de verdade. Bergman é um gênio. E O Sétimo Selo é um presentão.

O Sétimo Selo (The Seventh Seal)
dir. Ingmar Bergman - 

sábado, 26 de março de 2016

Crítica: "NOITES DE CABÍRIA" (1957) - ★★★★★


Fellini é mais que um mestre. O homem é dono de alguns dos maiores e mais importantes filmes de todos os tempos. Sua filmografia de ouro resume-se a obras-primas escandalosamente excepcionais do cinema italiano, exemplares originais de sua autenticidade e genialidade inesgotáveis. Federico Fellini revolucionou a 7ª arte e a enfeitou com películas primorosas e inesquecíveis. É só ver um filme dele para confirmar. Não houve ninguém como ele. Fellini é único. E é em vezes em que a gente vai ver um filme seu e acaba se deliciando inesperadamente, como foi o caso de Noites de Cabíria, um dos melhores filmes dele e que o internacionalizou, levando seu nome à fama mundo afora como um dos ícones eternos do cinema, fama que vive até hoje pelas mentes cinéfilas da Itália ao resto do planeta. 

Enfim, falemos de Noites de Cabíria, essa delícia de filme que me encantou pra caramba. E muito se deve à Giulietta Masina, a Cabíria do título, uma prostituta italiana iludida pelos fracassos amorosos que vaga sensualizando pelos becos de Roma e arredores à procura do grande amor entre seus clientes, com um alto percentual de insucessos. A sequência inicial já é uma pérola: Cabíria, passeando com o "namorado", um tal de Giorgio, é trapaceada pelo rapaz, que rouba a sua bolsa e a joga num rio. Cabíria quase morre afogada, mas, após acordar do desmaio, sai toda desvairada atrás do amado ladrão. 

Esse prólogo tragicômico já diz muito sobre a nossa protagonista: uma prostituta escandalosa e iludida, sem rumo e sem expectativas, à espera do grande amor que irá tirá-la da vida de miséria que leva. Apesar de quase sempre aparecer como uma "donzela" rude, mal-humorada e barraqueira, Cabíria esconde sua personalidade ingênua, tenra e doce por trás do olhar de doida que carrega e o jeitão todo desajeitado e boçal. 

O clássico de Fellini combina romance e drama delicadamente. O desfecho é de partir o coração. Fellini decora sua fábula com sensibilidade. A jornada de Cabíria, por mais sofrida que seja, não deixa de ter seus encantos afáveis. O filme é mais drama do que comédia, mas o diretor sabe combinar as duas linguagens com uma organização tentadora. 

A performance da Giulietta Masina, uma das melhores da atriz, é uma das provas mais satisfatórias e certeiras do talento e da competência dessa intérprete magistral, num desempenho fascinante e devidamente memorável. Ela na pele de Cabíria é simplesmente delicioso, um espetáculo inexplicavelmente adorável. 

Assim é Noites de Cabíria. Fellini brinda o cinema com uma obra especial, perspicaz e muito bela. Difícil não ficar comovido, arrasado e presenteado com essa história amável, pra lá de emocionante, capaz de nos mover no demorar de um toque e no intervalo entre uma lágrima e um sorriso. 

Com estilo, Fellini apimenta com um humor próprio e elegância esse trabalho primoroso. Segmentos icônicos, personagens bem construídos... Não tem do que reclamar. Noites de Cabíria é extraordinário e ponto. Assim como é impactante, também é engraçado, verdadeiro e clemente. Noites de Cabíria é simplesmente sublime. Sublime em todos os sentidos. É uma obra inegável, plausível e prazerosa, fantástica e magicamente apaixonante. Um conto sobre amor e ilusão refrescante e intenso, um item valioso dentro da filmografia de um dos maiores cineastas da história.

Noites de Cabíria (Le notti di Cabiria)
dir. Federico Fellini -