domingo, 2 de outubro de 2016

Top 10 – ANOS 60


1. Oito e Meio, de Federico Fellini
2. Psicose, de Alfred Hitchcock
3. Acossado, de Jean-Luc Godard
4. Terra em Transe, de Glauber Rocha
5. Persona, de Ingmar Bergman
6. O Bebê de Rosemary, de Roman Polanski
7. 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick
8. Os Pássaros, de Alfred Hitchcock
9. Se Meu Apartamento Falasse, de Billy Wilder
10. 007 Contra Goldfinger, de Guy Hamilton

Crítica: "DEMÔNIO DE NEON" (2016) - ★★★★★


O primeiro filme de Nicolas Winding Refn que vi foi Apenas Deus Perdoa. Apesar de muita gente o considerar um de seus menores trabalhos, foi uma experiência inesquecível e estranhamente atordoante pra mim. Há algum tempo este ano, tive a oportunidade de conferir dois outros grandes filmes do diretor: o noir Drive (considerado pela maioria dos admiradores do cineasta e cinéfilos em geral seu melhor e mais famoso filme) e o espetacular Bronson, este um pouco menos popular que o anterior, embora excelentíssimo.

Demônio de Neon é o 4º filme dirigido por ele que eu vejo. É uma obra. Só perde para Drive, que continua sendo meu favorito supremo deste gênio cinematográfico. A cada filme dele que eu vejo, reforça-se a certeza de que ele é um dos cineastas mais importantes dessa geração. E Demônio de Neon é um de seus melhores, mais chocantes e bonitos filmes.

Estrelado pela beldade juvenil Elle Fanning, o filme narra a trajetória de uma jovem modelo do interior rumo ao sucesso e à fama como modelo na eterna cidade dos sonhos, Los Angeles. Enquanto todos ao seu redor estão atraídos e maravilhados pela sua imponderável beleza e inocência, aos poucos a jovem vai se dando conta dos perigos e das maldades que a cercam, e do lado negativo de ser bonita.  

Demônio de Neon é um olhar poderoso, obscuro, tentador, onírico, quase surrealista e ao mesmo tempo satírico, crítico, obsessivo sobre o impacto e a influência do mundo da moda nos dias de hoje e os padrões de beleza esculpidos pela sociedade e que transformaram a vida de várias jovens e mulheres em um verdadeiro terror.

A busca frenética e desenfreada pelo padrão ideal torna o sonho tão desejado em uma verdadeira caça animal – como o próprio desfecho do filme ironicamente sugere – de proporções desumanas e mortais. Neste mundo, mulheres são designadas como produtos da cobiça e do desejo, daquela que seria uma suposta “vida ideal” de uma sociedade atual. As jovens acabam se tornando vítimas das propostas sexuais e exigências carnais dessa convenção maligna.

Elle Fanning está absolutamente imperdível na pele da jovem Jesse. No entanto, a melhor do elenco é a Jena Malone, cuja atuação é sublime, assustadora, magistral, digna e eletrizante. Destaque para a aparição inesperada de Keanu Reeves e a rápida participação da Christina Hendricks, sem falar nas belíssimas Bella Heathcote e Abbey Lee, que estão extraordinárias.

Outra razão pela qual eu amei este filme é seu visual riquíssimo, sofisticado e sombrio. Demônio de Neon é um dos filmes mais visualmente impecáveis que eu vi esse ano, com certeza. Sua fotografia é uma coisa muito difícil de esquecer, deliciosa, cheia de energia, brilho e sangue. É uma coisa realmente linda, apesar de obscura. Natasha Braier é a diretora de fotografia de Demônio de Neon.

O filme resume-se a uma combinação de elementos visuais nada usuais, ainda que extremamente belos, que, além de embelezar, deixam a história mais cativante de se acompanhar e tenebrosa. É verdade que o estilo de Nicolas Winding Refn talvez afaste um pouco o público que não está acostumado (algumas sequências bizarras e polêmicas – como a cena de necrofilia ou a sequência final – talvez provoquem até repulsa), mas não há como negar que ele é, sem dúvida alguma, um gênio, e este é um filme brilhante.

Demônio de Neon é um filme forte, daqueles de deixar qualquer um boquiaberto, e por isso mesmo merece ser visto. É uma crítica multifacetada que ataca os abusos da indústria da moda e os padrões radicais impostos pela sociedade. As pessoas belas são as mais valorizadas, queridas, prestigiadas, cobiçadas. Mas nem tudo é o paraíso. A beleza tem seu lado ruim, como já foi descrito anteriormente.

A trilha sonora de Cliff Martinez, que conclui mais uma colaboração bem-sucedida com Winding Refn, arquiteta uma atmosfera de suspense e horror marcante, especial, arrasadora. O cara é um mestre das trilhas. A cada filme, uma trilha irresistível.

Estas são algumas dentre as outras mais razões para considerar Demônio de Neon não apenas um filme importante, mas também belo e essencial. É certamente uma obra, mais um exemplar fortalecido do cinema estiloso e potente de Nicolas Winding Refn. A beleza impera. “Beauty isn’t everything. It’s the only thing”.

Demônio de Neon (The Neon Demon)
dir. Nicolas Winding Refn - 

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Top 10 – ANOS 50


1. Um Corpo que Cai, de Alfred Hitchcock
2. Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder
3. Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock
4. Intriga Internacional, de Alfred Hitchcock
5. Os Incompreendidos, de François Truffaut
6. Quanto Mais Quente Melhor, de Billy Wilder
7. Cantando na Chuva, de Gene Kelly & Stanley Donen
8. Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman
9. Sindicato de Ladrões, de Elia Kazan
10. Luzes da Ribalta, de Charlie Chaplin

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Crítica: "DEMOLIÇÃO" (2015) - ★★


Depois de dois trabalhos tão interessantes e, de certa maneira, bem finalizados, o canadense Jean-Marc Vallée retorna com um filme menor, provavelmente o seu pior até agora. Que filme mais cansativo, confuso e sem sentido, viu? Uma decepção total. O filme não vale a pena nem pelo elenco. Apesar das figuraças Jake Gyllenhaal e Naomi Watts estrelarem o filme, o melhor dentre eles é Chris Cooper, para se dizer o mínimo.

O filme em si, fora isso, não dá quaisquer motivos para ser louvado ou lembrado. É fácil de esquecer. A experiência de vê-lo pode ser resumida em duas palavras: caótico e exótico. Demolição aborda a história de um cara que perdeu a esposa num acidente de carro, mas que nunca a amou de verdade, e por isso age de forma indiferente a esse acontecimento. As pessoas ao seu redor percebem essa indiferença, mas a interpretam como luto. Eventualmente, ele conhece uma mãe solteira (Naomi Watts) e seu filho (Judah Lewis), com quem faz amizade. Enquanto isso, seu sogro (Chris Cooper) passa por uma fase terrível de luto.

Sabe o que eu acho? Demolição teria funcionado perfeitamente como uma comédia negra, sabe? A história de um cara que reage indiferentemente à morte da mulher daria uma boa de uma comédia negra, ou um filme do tipo, até porque essa premissa tem ousadia de sobra, bem como as possibilidades que a seguem. E não que Demolição não tenha seu humor.

Tem duas sequências, só para citar as que eu lembrei, que são extraordinárias ao meu ver (é claro, separadas do resto do filme), que é a cena do médico, e a cena final. O filme traz diversas perspectivas curiosíssimas de se ver, mas que são incapazes de sustentar a mensagem que o mesmo quer nos transmitir – e que, ao final, não fica muito bem esclarecida –.

O filme explora as situações com um olhar distante e abafado, de forma a ser impossível identificar a síntese dos personagens e a dimensão do roteiro. Eu acho que até mesmo Livre, filme anterior de Vallée (e que muita gente detestou, pelo que eu me lembro), foi um filme melhor, digamos. Demolição é um trabalho fraquíssimo, com poucos pontos positivos. 

Demolição (Demolition)
dir. Jean-Marc Vallée - 

domingo, 25 de setembro de 2016

Crítica: "DE PALMA" (2015) - ★★★★


Muito interessante esse documentário sobre o cineasta americano Brian De Palma. Muito interessante mesmo. É raro a gente encontrar um material assim de qualidade sobre um diretor revendo a sua filmografia e comentando sobre a experiência de fazê-las e detalhando o trabalho em si. E, no caso da filmografia do De Palma, serve tanto pra gente se lembrar e celebrar alguns dos maiores sucessos da carreira dele e também para denotar a opinião própria dele quanto a esses filmes. No meu caso, há um ponto extra: como não vi nem a metade de seus filmes, essa "revisão" serviu também de introdução à sua filmografia inicial e alguns filmes não assistidos, como Carrie – A Estranha ou O Pagamento Final.

Em um certo momento do documentário, De Palma diz que como um “aluno” do Hitchcock, foi um dos poucos a conseguir fielmente emular o padrão hitchcockiano e seguir a fórmula dos filmes do mestre do suspense. Há quem diga que isso seja um tanto egocêntrico da parte do De Palma. Mas, pra mim, a questão é justamente o contrário dessa hipótese. É bastante honesto ele dizer isso, visto que o Hitchcock foi o verdadeiro e invicto mestre, e tantos outros tentaram copia-lo ou imita-lo, mas acabaram desrespeitando a filmografia e o legado do Hitch. O mesmo já não pode se dizer do De Palma, que, aluno fiel do mestre, acabou se tornando um também, à sua própria maneira.

O documentário abre com o Brian discutindo a intenção de Hitchcock ao fazer Um Corpo que Cai (confesso que desconhecia tal premissa, e achei curiosíssimo) que era simular o trabalho de um diretor durante um filme. Genial. E essa não é a única vez em que Hitchcock é referenciado. Muitos dos grandes trabalhos do De Palma indicam uma certa influência hitchcockiana, pra não dizer quase todos os suspenses tem uma certa marca hitchcockiana. 

Mas também tem um filme que o De Palma fez, no comecinho da carreira, que ele alega ter sido influenciado pela Nouvelle Vague, que foi Quem Anda Cantando Nossas Mulheres, quando ele e o Robert De Niro, protagonista do filme, ainda eram praticamente desconhecidos. Creio que o Baumbach, um dos idealizadores do documentário, ficou bastante entusiasmado com essa específica parte dele comentando sobre Godard e Truffaut.

Outra coisa bem curiosa é como o De Palma comenta a maioria de seus filmes visando o espírito comercial deles. Aliás, achei bastante esquisito ele comentar sobre Um Tiro na Noite, cujo eu considero seu melhor filme, com um certo ar de insatisfação, visto que o filme foi um fracasso nas bilheterias, porém é o trabalho mais potente e visionário dele.

Engraçado ele comentando sobre os bastidores de Os Intocáveis, outro filmaço, e mencionado aquela famosa sequência da escada (a melhor do filme todo) que é uma referência a uma cena em particular do clássico do cinema mudo O Encouraçado Potemkin, de Eiseinstein. Sean Connery, que interpreta Malone no filme, não gostou da cena em que metralhado, segundo o De Palma. O ator ficou bastante incomodado. Enquanto comenta, o De Palma ri, dizendo que acha irônico ele ter sido o James Bond em tantos filmes, mas se irritar ao ser baleado. E, de fato, o James Bond só foi baleado 2 vezes em toda a saga, que conta com uns 50 filmes, eu creio.

Sissy Spacek, antes de ser a Carrie no famoso filme homônimo, talvez o mais famoso do De Palma, foi assistente de figurino em um filme anterior dele, O Fantasma do Paraíso. Já o filme que De Palma considera seu melhor é O Pagamento Final. Tenho o dvd, mas nunca vi. Confesso que o interesse em conferi-lo cresceu após esse comentário.

É um pouco triste ver como o diretor olha com pesar à filmografia mais recente, que não tem sido muito bem aceita pela crítica em geral. E peculiar o fato de nenhum filme dele ser produção americana autêntica desde Missão: Marte, fracasso crítico e de bilheteria. Até mesmo Dália Negra, que se passa em Los Angeles, teve a maioria das cenas rodadas na Bulgária e na Itália, e foi financiado por uma produtora estrangeira. Embora tenham sido alvejadas pelos críticos, essas obras recentes do De Palma, como Femme Fatale, Dália Negra, Guerra sem Cortes e Passion estão entre os maiores filmes dele. Esses críticos sem alma sempre acabam com tudo!

Parece que ele não está mais filmando Lights Out, também rodado no exterior, que estava previsto para ser lançado ano que vem. Agora parece que o De Palma está focando em outro projeto, The Truth and Other Lies, adaptação de um livro. É esperar pra ver.

Enquanto seu próximo filme não vem, o documentário De Palma é uma pedida obrigatória para fãs do diretor e cinéfilos. Talvez o único ponto negativo de De Palma é a distância e a falta de intimismo. Mesmo assim, é um trabalho fascinante e que deve ser visto. 

De Palma
dir. Noah Baumbach, Jake Paltrow - 

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Crítica: "WAKING LIFE" (2001) - ★★★★★


Meu interesse pela filmografia de Richard Linklater surgiu logo após que vi Antes do Pôr-do-Sol, em 2014 (que, aliás, foi o primeiro filme dele que eu vi). Depois de Boyhood, veio a confirmação daquilo que eu já protestava ser uma certeza: Richard Linklater é um grande diretor. Um dos maiores dos nossos tempos, para ser mais exato. Seus filmes transbordam importância, criatividade, genuinidade e grandeza. Não foi nada diferente com este Waking Life, que é certamente um seus melhores trabalhos.

O interessante é que se trata de uma animação filtrada, com aspectos que lembram o formato live-action, como a câmera trêmula, a expressão das personagens, os movimentos, a sincronia. Provavelmente a única coisa realmente estranha nessa animação é que os cenários e as pessoas ficam balançando, tremendo, chacoalhando, sem um motivo aparente, independente de emoção, tom de voz ou coisas determinantes do gênero. Será que o diretor propôs essa experiência a fim de tentar minimamente expressar ou indicar a agitação do ser, a inconstância do espírito humano, da fragilidade emocional? É bem interessante perceber essa técnica e o efeito dela no espectador. As interpretações, é claro, variam de pessoa para a pessoa.

Uma das minhas partes favoritas de Waking Life é justamente uma sequência “spin-off” estrelada pelo casal Jesse e Celine. Eles estão num quarto de hotel, eu creio, e dialogam e refletem sobre a natureza surreal dos sonhos, lembrando até mesmo algumas das mais inspiradas conversações da dupla nos filmes da trilogia “Antes”. Tem uma cena, inclusive, que uma parte do filme Antes do Amanhecer é exibida num cinema.

Waking Life é um filme sobre realidades e ilusões. Sonhos e desesperanças. A vida e o mundo ao redor. As pessoas. Os sentimentos. As situações. Nas mais diversas sequências do filme, há um teor de profundo existencialismo pairando sobre as conversas entre os personagens, referências filosóficas, citações, e etc..

Waking Life explora a metafísica dos sonhos, a linguagem do subconsciente onírico, chegando a apresentar perspectivas bastante interessantes sobre o que acontece nos nossos sonhos e as mais distintas conexões com o nosso dia-a-dia, com as nossas emoções e impressões sobre o que acontece diante de nós.

É o sonho uma explicação para a realidade? Sonho e realidade são as mesmas coisas? Nós realmente estamos vivendo aquilo que pensamos, que defendemos ser a mais pura e indestrutível verdade? O que é sonhar e viver? A gente sabe sonhar? A gente sabe, então, viver? Waking Life é um filme que tende a amadurecer conosco com o passar do tempo. Na verdade, não há uma explicação certa sobre o que acontece no filme, ou a sequência de cenas exóticas. A interpretação individual, nesse caso, é a resposta, porque o efeito dos diálogos, dos pensamentos emitidos no filme tem um impacto diferente em cada um que vê. E isso é o que torna Waking Life uma maravilha de filme existencial. Linklater é um cara genial. Waking Life é um filme inesquecível. Acordar para a vida. Sonhar para a vida. Viver os sonhos, os sonhos que consomem nossa destrutibilidade. Dream is destiny.

Waking Life
dir. Richard Linklater - 

2 ANOS DE LUMIÈRE & CIA.

 

Nem parece, mas hoje completam-se 2 anos desde que eu abri esse blog. O tempo passa rápido. Sei que é um clichê, mas não há como negar a veracidade dessa sentença. Ultimamente ando postando pouco, comparado aos anos anteriores, quando eu tinha tempo de sobra para escrever diariamente sobre filmes e com uma frequência abismadora. Hoje em dia, a justa ausência de tempo e o cansaço reduziram a minha atividade aqui no blog. Mas estou tentando colocar tudo em dia, digo logo. Acho que pra quem já acompanha o blog há algum tempo não é novidade que eu sou completamente fascinado por esse espaço. Sei que não escrevo tão bem como outros críticos e cinéfilos da web (aliás, eu mesmo acho que minha escrita é irregular, tenho que melhorar em muita coisa), mas tento fazer o possível, e peço perdão se alguns textos soam incoesos ou repetitivos. A euforia ao escrever é tanta que eu mal consigo me conter e ainda mais evitar certos erros gritantes como esses. 

Nada seria possível sem vocês, leitores. Eu agradeço enormemente à vocês pelas visitas, pela atenção, pelo carinho e pela consideração com este que eu gentilmente apelidei de "meu cantinho especial" para comentar sobre filmes e a sétima arte em geral. O blog faz 2 anos e a sensação é a de que ele foi criado ontem. O primeiro post, inclusive, a gente nunca esquece. Olho para dois anos atrás com satisfação e carinho, ainda que apto das minhas falhas. A iniciativa de criar esse pequeno portal cinéfilo foi uma coisa surpreendentemente espontânea. Meu desejo é de que ele continua no ar por mais e mais anos... E, mais uma vez, obrigado à vocês, meus caros leitores! Até a próxima.

P.S.: Os bolos acima eu peguei no Google Imagens. Achei vários bem criativos, mas gostei demais desses três. Fiquei indeciso sobre qual eu deveria escolher, aí postei logo esses juntos. O segundo é o meu predileto, diga-se de passagem (acho que é artificial, mas será de bom grado se alguém se dispor a preparar um desses pra mim heheheh).