sábado, 29 de agosto de 2026

Conspiração do Silêncio (1955)


De uma fotografia Cinemascope impressionante, por William C. Mellor (também fotógrafo de Assim Caminha a Humanidade e Um Lugar ao Sol, ambos de George Stevens), que valoriza as paisagens épicas do interior americano e ajuda a criar uma composição visual desnorteante para um longa com cenas tensas, Conspiração de Silêncio traz no elenco Spencer Tracy, Ernest Borgnine, Anne Francis e Lee Marvin. Nele, Tracy interpreta um veterano da Segunda Guerra Mundial que, retornando do combate, chega a uma cidade do interior que esconde um segredo abrasador a respeito do desaparecimento de um morador, obstinado a resolver o suspense em torno do sumiço suspeito. 
 
Ao longo do filme, o soldado, John J. Macreedy, que sofreu sequelas no conflito e perdeu o movimento de um dos braços, é recebido não como herói, como se esperaria a um veterano, e sim como forasteiro, no estilo Velho Oeste, e inicia uma verdadeira inquisição atrás do morador desaparecido, sem que saibamos exatamente o porquê dessa procura. Ao mesmo tempo, é constantemente encurralado pelos outros moradores, consumidos por uma desconfiança febril e irracional, e a violência só vai escalando progressivamente ao longo do filme. 
 
Conspiração de Silêncio é um retrato eletrizante da fragmentação e do medo nos EUA no período pós-Pearl Harbor, com seu foco sendo o clima de hostilidade em relação à população de origem japonesa, que foi sabidamente segregada pelo governo americano durante esse período conflituoso, em que os EUA entraram em atrito direto com o Japão e demais países do Eixo, com muitos cidadãos de origem nipônica sendo internados em campos de concentração no país à época.
 
Este filme, realizado anos depois, em 1955, veio num momento em que o clima político nos EUA começava a ficar impregnado pelo embate com a União Soviética, na recém-iniciada Guerra Fria, e o pânico a respeito da chamada "ameaça comunista" tomava forma com as denúncias paranoicas do senador Joseph McCarthy, que encabeçou a "caça às bruxas comunista" nos anos 50, e virou a figura central do fenômeno anti-comunista. A repercussão dessa época é sentida até os dias de hoje, em que o medo do socialismo tornou-se um tópico bastante polêmico em eleições e debates políticos, sendo um dos pivôs da chamada "polarização" atual que é sentida globalmente entre esquerda e extrema-direita.
 
O tom crítico do filme parece denunciar justamente uma certa tendência dos americanos de se apressarem em condenar quem percebiam como comunistas, do mesmo modo que se apressaram em condenar cidadãos americanos apenas por terem descendência japonesa, na época de Pearl Harbor. Vale lembrar que o filme foi realizado dois anos após a execução controversa do casal Julius e Ethel Rosenberg, sob a acusação de serem espiões para os comunistas soviéticos.
 
Dito isso, Conspiração de Silêncio é um estudo angustiante sobre os ecos da perseguição, e o efeito que a política do medo tem sobre uma população, que, na base do pânico, provoca linchamentos e perseguições gratuitas em nome do ódio e do medo do desconhecido. Ele chega a ser quase profético, ao refletir a que nível de violência e desagregação essa caça às bruxas insana, baseada em convicções políticas cegas, pode chegar. É um exemplar fascinante de um cinema americano maduro, da década de 50, e com atuações inspiradíssimas de grandes lendas, como Spencer Tracy e Ernest Borgnine, que chegam a protagonizar uma sequência de briga arrasadora. A direção é de John Sturges, que viria a dirigir o igualmente excelente Sete Homens e um Destino. 

Tributo a Dolly Parton


Presto meu tributo à grande Dolly Parton, uma artista completa, fenomenal, e que realizou sucessos marcantes da música, como intérprete e como compositora também. Em 2016, fiquei maravilhado com a letra de "Travelin' Thru", a canção que ela compôs para o filme Transamérica, e que a rendeu uma indicação ao Oscar de canção. Em 2018, fiquei comovido com o trabalho de Parton na música country, através das faixas feitas entre os anos 1970 e 1980, como a incisiva "9 to 5", uma crítica bem-humorada aos conflitos de classe do capitalismo, e as românticas "Jolene" e "Islands in the Stream". Vale também mencionar a clássica "I Will Always Love You", cuja letra ela escreveu, e que nos anos 1990 viria a ganhar uma versão aclamada na voz de Whitney Houston (e muito provavelmente é a canção que definiu a carreira desta artista). Entre 2020/2021, durante a pandemia, ouvi a belíssima "Coat of Many Colors", que remete às origens humildes da artista no Sul dos EUA, e uma de suas composições mais sensíveis e profundas. Também vale mencionar "Here You Come Again", e dois duetos de que eu gosto muito: "Creepin' In", com Norah Jones, e a charmosa "Baby, It's Cold Outside", com Rod Stewart. Enfim, apenas uma amostra da genialidade desta artista única e cujas músicas fazem parte da trilha sonora de muita gente, e uma perda bastante sentida para o mundo da música. 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Grandes Filmes (2023-2025)


Grandes filmes (lançamentos entre 2021 e 2025) conferidos no período de 2023 a 2025 

Anatomia de uma Queda, de Justine Triet
Apresentando os Ricardos, de Aaron Sorkin
Babilônia, de Damien Chazelle 
Os Banshees de Inisherin, de Martin McDonagh 
Barbie, de Greta Gerwig
Elvis, de Baz Luhrmann
Entre Os Templos, de Nathan Silver 
A Esposa de Tchaikovsky, de Kirill Serebrennikov
Ferrari, de Michael Mann 
Golpe de Sorte em Paris, de Woody Allen 
Lingui, de Mahamat-Saleh Haroun
Nada de Novo no Front, de Edward Berger
Materialistas, de Celine Song 
Oppenheimer, de Christopher Nolan
Pobres Criaturas, de Yorgos Lanthimos 
RRR, de S.S. Rajamouli 
Spencer, de Pablo Larraín
Tudo Que Imaginamos Como Luz, de Payal Kapadia 
Zona de Interesse, de Jonathan Glazer

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Uma Noite na Ópera (1935)


Dá para entender porque o Woody Allen homenageou tanto os irmãos Marx nos filmes dele, com sequências memoráveis de filmes como BananasHannah e Suas Irmãs e Todos Dizem Eu Te Amo sendo inspiradas nos filmes do grupo. Os filmes desses caras são extremamente inteligentes, sagazes, em termos de humor e cinema, e Uma Noite na Ópera representa bem a verve humorística e a criatividade da trupe. A dose de humor subversivo, escrachado, sem nenhuma vergonha, é fatal. A risada é certa. Cada ideia apresentada parece se superar. Cada gag é uma obra individual. Uma Noite na Ópera encontra um equilíbrio muito genuíno, puro, entre o humor e a emoção. Muito provavelmente entra na minha lista de comédias favoritas, já que se trata de um exemplar definitivo do gênero. 

segunda-feira, 30 de outubro de 2023

Titane (2021)


Talvez o que eu achei mais genial em Titane seja o mais óbvio. O potencial incendiário desse filme reside no fato de que ele é, antes de mais nada, muito simples na sua premissa. Eu não vejo com maus olhos a tentativa da diretora de mexer com as expectativas do público com uma narrativa que está em constante mutação.

O que chama atenção é que há, certamente, um tom dominante ao longo do filme de recusa em se desculpar, o que parece refletir até mesmo a própria rebeldia da personagem principal, que comete vários atos criminosos e segue para o próximo de forma quase inabalável, como se não fosse nada. É como se essa "delinquência serial" contaminasse até mesmo a própria condução da narrativa. 

Para todas as discussões que Titane levantou, eu acho que ele surge num momento em que há uma grande ressignificação acontecendo do cinema, da experimentação com a linguagem e com o gênero. É interessante porque, na mesma medida em que a diretora tenta dar conta de um mar de convergências, e ela o faz com certo sucesso, fica muita coisa em aberto. O que pode ter um efeito positivo, porque o filme fica na nossa cabeça depois da sessão.
 
É interessante voltar a Raw, tão perigosamente carnal e "gore" quanto Titane, e que guarda tantas semelhanças com ele, especialmente por ser um filme que trabalha elementos do gênero horror com temáticas sexuais. Eu diria que Julia Ducournau, que ganhou a Palma de Ouro por esse filme, é um nome para ficar de olho. 

sexta-feira, 7 de julho de 2023

Um Casamento à Indiana (2001)


Sucesso do cinema indiano, vencedor do Leão de Ouro, narra os acontecimentos dentro de uma "família moderna" de Nova Delhi na ocasião de um casamento. Tem tudo o que se permite a uma típica comédia romântica, e é interessante no geral por conta do elenco, que está ótimo, ao mesmo tempo em que faz uma série de comentários sobre as diferenças culturais entre americanos e indianos, e parece estar bastante consciente desse dimorfismo cultural existente em praticamente todo lugar do mundo com a influência da globalização, mas, também possui seu interesse em contar a história e acentuar a essência própria da Índia, da cultura indiana. Pra mim o filme deixou a desejar em alguns aspectos, muito embora a narrativa seja bastante enxuta. É inegável que ele funciona bem de maneira geral, e é um destaque na filmografia de sua diretora, a aclamada Mira Nair. 

O Congresso Futurista (2013)


Do israelense Ari Folman, um filme um tanto antecipatório, que estava bastante adiantado ao refletir preocupações dentro da indústria do cinema americano, em especial a respeito da representação da mulher, e que se ampliaram com o #MeToo, e também sobre outros adendos como os serviços de streaming, o CGI. No geral, aqui se fala sobre um mundo em transformação, em mudança, e o que isso significa para quem já estava aqui antes. O filme tece uma série de comentários a partir da narrativa emblemática do envelhecimento de uma atriz e, como pano de fundo, a mutação pela qual passa a indústria do cinema, e o planeta em uma escala maior, com as mudanças climáticas, em paralelo. Seu tom distópico, carregado de pessimismo e um certo desconforto que fica evidente pela personagem da Robin Wright, criam uma atmosfera de melancolia e frieza, e reforça os comentários que o diretor parece querer fazer de que a indústria do cinema e o mundo caminham rumo ao cataclismo.