Hayao Miyazaki, ao filmar Vidas ao Vento, abandona todo o universo místico e espiritual presente em suas outras películas, como A Viagem de Chihiro e O Castelo Animado, para contar a vida de Jiro Horikoshi, engenheiro aeroespacial e projetista aéreo japonês. O resultado é excelente, e extremamente virtuoso. Vidas ao Vento trata-se da cinebiografia animada deste grande gênio da aviação, Jiro, que também mistura alguns elementos da ficção.
De fato, é surpreendente. Hayao Miyazaki, em sua última película, tão ausente da fantasia e de todos esses fragmentos artificias presentes em suas obras, se afasta tão profundamente de sua zona de conforto para narrar algo tão forte, e tão diferente de tudo o que já fez, pois que além de ser uma biografia histórica, também é contada em animação. A película narra os primeiros anos de Jiro e seu interesse pela aviação, e pelo design de aeronaves, até atingir a maturidade em sua profissão e a grandiosa carreira de projetor.
Um dos maiores focos apresentados ao longo dos 120 minutos do filme é a relação de Jiro e Naoko, uma relação tão afetuosa de amor, e ao mesmo tempo, substanciada por um plano dramático essencial. Naoko, ao se reencontrar com Jiro, que a salvou durante um sismo no Japão, se apaixona incondicionalmente por ele, e ele também, apesar de Naoko sofrer de tuberculose, a doença que cada vez mais se apodera dela. Porém, uma cena do filme que realmente me deslumbrou foi a cena em que Jiro, em um restaurante, passa a cantar juntamente á todos uma canção que suponho eu, seja o hino japonês, algo que me fez viajar e relacionar essa cena com o clássico fragmento de Casablanca, onde todos os refugiados no restaurante de Rick cantam com energia o hino francês.
Esta animação chega a ser algo tão singular, que é quase irreconhecível a autoria de Miyazaki diante da direção. E principalmente, por este ser um filme único em toda a sua carreira. Nem mais suas grandiosas obras apresentaram as características aqui mostradas com exuberância e perfeição, que demonstram o trabalho exigido, e a monumentalidade de sua estrutura. Mesmo que a animação se distancia da provável fidelidade á obra original (de igual autoria de Miyazaki), há sinais evidentes para que a animação não se perca no trajeto.
As técnicas de Miyazaki se aprofundaram tanto desde Princesa Mononoke, que seus filmes já ganharam um substrato vivo, independente. É disso o que eu mais admiro aqui: a originalidade, algo que Miyazaki, mesmo contando algo tão diferente do comunal, conseguiu reproduzir autenticamente ao seu público.
As técnicas de Miyazaki se aprofundaram tanto desde Princesa Mononoke, que seus filmes já ganharam um substrato vivo, independente. É disso o que eu mais admiro aqui: a originalidade, algo que Miyazaki, mesmo contando algo tão diferente do comunal, conseguiu reproduzir autenticamente ao seu público.
Quanto ao retrato do roteiro, magnânimo e astuto, cheio de filosofia. A genialidade de Miyazaki é colocada ao lado da genialidade de Jiro, ambas com tantas qualidades sobrepostas e alinhadas, que é impossível não reconhecer a maioridade desta obra. Há um fato certeiro: recomendar Vidas ao Vento não é uma sugestão, e sim, uma obrigação. Oportunidades de assistir a filmes como estes surgem de tempos em tempos, e não é tão usual de se ver. Vidas ao Vento carrega consigo uma história de amor e uma história de vida puramente entrelaçadas, unidas pela força do destino. Algo que tão facilmente nos leva a consagrá-la, por ser visualmente belíssima, poética, sensível e incrivelmente fabulosa.
Vidas ao Vento (Kaze Tachinu)
dir. Hayao Miyazaki - ★★★★★
Vidas ao Vento (Kaze Tachinu)
dir. Hayao Miyazaki - ★★★★★

