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terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Crítica: "VIDAS AO VENTO" (2013) - ★★★★★


Hayao Miyazaki, ao filmar Vidas ao Vento, abandona todo o universo místico e espiritual presente em suas outras películas, como A Viagem de Chihiro e O Castelo Animado, para contar a vida de Jiro Horikoshi, engenheiro aeroespacial e projetista aéreo japonês. O resultado é excelente, e extremamente virtuoso. Vidas ao Vento trata-se da cinebiografia animada deste grande gênio da aviação, Jiro, que também mistura alguns elementos da ficção. 

De fato, é surpreendente. Hayao Miyazaki, em sua última película, tão ausente da fantasia e de todos esses fragmentos artificias presentes em suas obras, se afasta tão profundamente de sua zona de conforto para narrar algo tão forte, e tão diferente de tudo o que já fez, pois que além de ser uma biografia histórica, também é contada em animação. A película narra os primeiros anos de Jiro e seu interesse pela aviação, e pelo design de aeronaves, até atingir a maturidade em sua profissão e a grandiosa carreira de projetor. 

Um dos maiores focos apresentados ao longo dos 120 minutos do filme é a relação de Jiro e Naoko, uma relação tão afetuosa de amor, e ao mesmo tempo, substanciada por um plano dramático essencial. Naoko, ao se reencontrar com Jiro, que a salvou durante um sismo no Japão, se apaixona incondicionalmente por ele, e ele também, apesar de Naoko sofrer de tuberculose, a doença que cada vez mais se apodera dela. Porém, uma cena do filme que realmente me deslumbrou foi a cena em que Jiro, em um restaurante, passa a cantar juntamente á todos uma canção que suponho eu, seja o hino japonês, algo que me fez viajar e relacionar essa cena com o clássico fragmento de Casablanca, onde todos os refugiados no restaurante de Rick cantam com energia o hino francês. 

Esta animação chega a ser algo tão singular, que é quase irreconhecível a autoria de Miyazaki diante da direção. E principalmente, por este ser um filme único em toda a sua carreira. Nem mais suas grandiosas obras apresentaram as características aqui mostradas com exuberância e perfeição, que demonstram o trabalho exigido, e a monumentalidade de sua estrutura. Mesmo que a animação se distancia da provável fidelidade á obra original (de igual autoria de Miyazaki), há sinais evidentes para que a animação não se perca no trajeto.

As técnicas de Miyazaki se aprofundaram tanto desde Princesa Mononoke, que seus filmes já ganharam um substrato vivo, independente. É disso o que eu mais admiro aqui: a originalidade, algo que Miyazaki, mesmo contando algo tão diferente do comunal, conseguiu reproduzir autenticamente ao seu público.

Quanto ao retrato do roteiro, magnânimo e astuto, cheio de filosofia. A genialidade de Miyazaki é colocada ao lado da genialidade de Jiro, ambas com tantas qualidades sobrepostas e alinhadas, que é impossível não reconhecer a maioridade desta obra. Há um fato certeiro: recomendar Vidas ao Vento não é uma sugestão, e sim, uma obrigação. Oportunidades de assistir a filmes como estes surgem de tempos em tempos, e não é tão usual de se ver. Vidas ao Vento carrega consigo uma história de amor e uma história de vida puramente entrelaçadas, unidas pela força do destino. Algo que tão facilmente nos leva a consagrá-la, por ser visualmente belíssima, poética, sensível e incrivelmente fabulosa.

Vidas ao Vento (Kaze Tachinu)
dir. Hayao Miyazaki - 

domingo, 4 de janeiro de 2015

Crítica: "A VIAGEM DE CHIHIRO" (2002) - ★★★★★


O que dizer sobre A Viagem de Chihiro? Tocante. Simplesmente tocante. Maravilhoso por cada lágrima que em meu rosto escorregou, mostrando a profunda e marcante mensagem que nesta história é mostrada. Chihiro é uma garota comum: mimada, que acha que o universo gira ao seu redor, e que ainda não está acostumada com a vida. Quando se muda, Chihiro e seus pais entram em um túnel, que termina em um universo fantástico. Para salvar os seus pais, que foram enfeitiçados e transformados em porcos por uma má bruxa, Chihiro terá que se adaptar ao novo mundo que se instalou. E assim, Hayao Miyazaki consegue cativar seu público e emociona com uma das mais bem contadas histórias de todos os tempos do cinema: A Viagem de Chihiro.

Em duas horas, A Viagem de Chihiro ensina muita coisa, por ser tão simples. Vencedor do Oscar de Melhor Animação em 2003 e o Urso de Ouro no Festival de Berlim 2002, não foi exagero ter dado tanto reconhecimento á esta obra de arte sensacional. O mais incrível do filme é a delicadeza dos elementos. Muita gente irá se identificar com nossa personagem principal, Chihiro. A cada novo passo, Chihiro abandona suas manias e passa a ser independente, tomando novos rumos em sua vida. Lutando e desafiando, Chihiro cria a necessária coragem para conseguir o que quer, e aprende como se vence. Nesta animação japonesa, a história de Chihiro é espelhada numa metáfora: você não consegue nada na vida se não aprender. Não ter medo de dar o primeiro passo. Ser fiel á quem realmente te ajuda. E acima de tudo, ter amor e bondade. Saber viver num mundo cheio de pessoas ruins e ambiciosas é essencial. 

Através dessa narrativa, uma lição valiosa e inspiradora é transmitida poderosamente ao público. Ser inseguro não vai te ajudar em absolutamente nada. A vida é curta, e por isso, temos que aproveitar todas as oportunidades que nos surgem, mesmo que pequenas, é algo que pode, no futuro, engrandecer. E essa mensagem, levaremos até o resto de nossa passagem. Nossa tão longa e curta passagem. 

Hayao Miyazaki cada vez mais vem fazendo obras espetaculares. Um dos maiores mestres do cinema japonês de todos os tempos, Miyazaki mantém-se ativo. Desde esta comovente animação, sua carreira teve uma ascensão notória. Um dos exemplos é seu último filme, Vidas ao Vento, que comove ainda mais por lembrar a mesma estrutura deste filme. A animação aqui é substancialmente espetacular. O Studio Ghibli produz mais uma vez a autenticidade de um retrato magnânimo como esse. Os traços utilizados, surreais. Cada personagem é desenhado com uma certa caracterização perfeita, que tornam essa película cada vez mais memorável. 

Depois de assistir a A Viagem de Chihiro, crio a certeza de que a magia deste filme me perseguirá constantemente por muito tempo, não de uma forma negativa, mas da mais incrível forma positiva. Miyazaki demonstra sua filosofia neste filme, o melhor de toda a sua carreira, como se fosse a última vez. Realmente, poucas animações tem o teor desta: sentimentalismo dramático impecável. O filme aborda não só o que há ao nosso redor, mas a existência de um mundo secreto, e de uma pessoa diferente dentro de nós. O filme mostra que há muito a ser descoberto, apenas basta coragem e segurança. E que nunca é tarde para ser alguém melhor. Nosso mundo nos sufoca, mas temos que aprender a respirar profundo, e nunca desconcentrar aquilo que é concreto. A Viagem de Chihiro e sua reflexão poética inesquecível causam o mais intenso impacto. 

É por isso que declaro, aqui: um dos melhores filmes que já assisti na minha vida, entre eles, está A Viagem de Chihiro. Muito bem desenhado, formalmente escrito, este filme é excelente em todos os sentidos, de todas as formas, em todas as cenas. A Viagem de Chihiro é suntuosamente belíssimo, inspiradamente complexo, apaixonadamente marcante. Chihiro e sua jornada me levaram a refletir sobre tudo o que já me aconteceu, e tudo o que ainda vai me acontecer; A Viagem de Chihiro é cinematograficamente perfeito, e o melhor do universo místico e mágico de Miyazaki!

A Viagem de Chihiro (Sen to Chihiro no Kamikakushi/Spirited Away)
dir. Hayao Miyazaki -