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domingo, 5 de junho de 2016

Crítica: "ADAPTAÇÃO" (2002) - ★★★★★


Charlie Kaufman é uma figura importantíssima na minha cinefilia. Ele é quem escreveu o filme que eu considero ser um dos melhores de todos os tempos, o genial Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, pra não mencionar que também é roteirista de Quero Ser John Malkovich, considerado um dos melhores roteiros já escritos, Também vale mencionar que, além de roteirista, ele também é diretor, sendo seus dois filmes dirigidos para o cinema, Sinédoque, Nova York Anomalisa, trabalhos igualmente fenomenais, sendo o último (e mais recente) um dos melhores filmes lançados esse ano e um filme bastante especial, não só no quesito roteiro, pra mim. Dos filmes escritos por ele, agora só falta ver Natureza Quase Humana e Confissões de uma Mente Perigosa. E não é que eu me surpreendi com Adaptação, rapaz? Que filme incrível. À primeira vista, pode nem parecer tanto essa maravilha de filme que é. 

Nicolas Cage é Charlie Kaufman e Donald Kaufman. Charlie é um roteirista neurótico, que passa a metade do filme reclamando dos seus defeitos e da sua "invisibilidade" (ou seja, um típico loser). Donald, seu irmão, mora com ele e não faz nada da vida, até que um dia decide escrever um roteiro, assim como ele. Charlie enfrenta uma crise de criatividade enquanto adapta o livro "The Orchid Thief", de Susan Orlean em um roteiro, enquanto seu irmão Donald está cheio de inspiração escrevendo um roteiro de um suspense policial. 

Tudo o que Charlie Kaufman pode ser; o legado, o talento, a criatividade, as neuroses e a técnica do roteirista, o porquê dele ser um dos maiores e melhores roteiristas que já existiram, um verdadeiro gênio do cinema, está presente em Adaptação. Spike Jonze é o diretor. Nicolas Cage é o protagonista. Chris Cooper, Meryl Streep e Tilda Swinton são os coadjuvantes. Mas é Charlie Kaufman o dono, a grande estrela de Adaptação. O roteirista brinca com as frenesis da sua profissão, zomba de seus defeitos e garante o nosso entretenimento. A acidez e o tom cômico em retratar as situações, já característicos do trabalho dele, ganham uma nova camada com o toque autobiográfico e o pragmatismo que gira em torno dos personagens.

O feito de Kaufman é, no mínimo, incrível. Muito provavelmente Adaptação não seja tão bem-construído e complexamente perfeito quanto Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, muito menos possui, na mesma quantidade, a riqueza estrutural de Quero Ser John Malkovich, mas é certamente o trabalho mais inspirado e criativo dele. Quanta inspiração! Quanta criatividade!

É quase impossível não se lembrar da obra máxima do Fellini Oito e Meio, um dos meus filmes prediletos do mestre, no que diz respeito à abordagem e as técnicas do roteiro de Adaptação (teria Kaufman se inspirado de alguma forma no filme?). Se forem feitas comparações a filmes recentes, acho que Birdman é o exemplar mais recorrente, com a única diferença que a história deste faz (uma "suposta") alusão à carreira de seu protagonista, Michael Keaton.

Aliás, eu acho que nunca vi o Nicolas Cage tão feio num filme antes. Caramba. E olha que o Kaufman nem é desse jeito (prova do quão neurótico ele é, talvez). A performance do Nicolas é extraordinária. A melhor dele, provavelmente. Também gostei bastante da atuação da Meryl, especialmente no final, explosivo e desequilibrado (no bom sentido). Chris Cooper está plausível, só acho que a vitória como Ator Coadjuvante no Oscar foi um tanto exacerbada. Se bem que os outros atores na categoria estavam bem medianos, o que justifica a escolha. Tilda Swinton, Cara Seymour e outros atores aparecem raramente em tela.

O diretor de fotografia é Lance Acord, colaborador frequente do Spike Jonze. Minha cena favorita de Adaptação é aquela do pântano, onde a Susan e o Laroche começam a perseguir os irmãos Kaufman. Hilária, bizarra e preciosa, tudo ao mesmo tempo. A trilha sonora subestimada de Carter Burwell é fantástica. Deveriam ter dado mais atenção.

Enfim, Adaptação é isso aí. Um filme que desperta interesse em quem vê, com sua singularidade nata, e a feroz autenticidade de Charlie Kaufman, brilhando na autoria de um de seus roteiros mais inteligentes, prova de sua competência inesgotável. Genial como o roteirista mistura humor e complexidade e brinca com a dinâmica, o processo e tudo que engloba a técnica roteirística e a criação cinematográfica. E ainda dá uma baita "aula" sobre a adaptação, em todos os sentidos.

Adaptação (Adaptation.)
dir. Spike Jonze - 

sábado, 16 de abril de 2016

Crítica: "RABBITS" (2002) - ★★★★★


Em Império dos Sonhos, havia uma ou duas sequências retiradas de Rabbits, misturadas ao filme, que em si é a reunião de curtas-metragem do Lynch (com alguma coincidência entre eles). Desde então, meu interesse em conferir esse projeto do diretor, que inicialmente foi designado como uma minissérie de 8 episódios, aumentou. Na verdade, a versão "curta-metragem", que tem 42 minutos, são os 8 episódios juntos. Rabbits foi lançado nesse formato de minissérie no site do cineasta (hoje não está mais disponível, infelizmente), e logo depois foi disponibilizado em DVD como um curta, que é a versão mais encontrada hoje em dia do trabalho. 

Ainda nessa semana, assisti Cidade dos Sonhos e fiquei profundamente maravilhado pela obra. Foi hoje que me veio a ideia de assistir Rabbits. E olha que não foi tão difícil achar o filme. Encontrei um link em torrent, e em menos de 20 minutos o download foi efetivado. Eu estava planejando vê-lo mais tarde, à noite, mas não aguentei a ansiedade e logo coloquei o curta pra rodar. Fiquei abismado, sem chão. O curta tem umas cenas de deixar qualquer um aterrorizado. E mesmo de dia, é de deixar a gente realmente perturbado. Ainda sim, pretendo revê-lo à noite. Dizem que o medo e o choque é ainda maior se vermos no escuro e no silêncio da madrugada.

A sinopse é a seguinte: "numa cidade sem nome amaldiçoada por uma chuva contínua, três coelhos vivem com um mistério aterrorizante". O curta todo se passa num só cenário, um quarto, que está mais para uma sala, onde temos a Naomi Watts e a Laura Elena Harring, as belíssimas estrelas de Cidade dos Sonhos, fantasiadas de coelhas, e o ator Scott Coffey, também do elenco de Cidade dos Sonhos, fantasiado de coelho. Há também a Rebekah del Rio, que fazia aquela cantora do Club Silencio, que cantava aquela canção estremecedora que me deixou extasiado e comovido, "Llorando" (acreditam que a música é original do filme?) na de longa melhor cena do filme e uma das melhores e maiores que eu já vi na minha vida. Em Rabbits ela não canta, mas a presença dela é amedrontadora, sem falar naquela voz icônica e inebriante dela que faz qualquer um ficar eletrizado.

A câmera não muda de movimento, exceto por um único momento, e que não dura mais de segundos, que é quando a câmera foca num telefone que começa a tocar, perto do fim. Dá a impressão de que o curta faz referências à programas sitcom por conta das risadas, como se houvesse um público assistindo àquilo, o que é bastante comum nas produções sitcom norte-americanas, e também por conta de momentos onde um certo personagem-coelho entra e é ovacionado em off. Bem bizarro.

Também há uma baita falta de nexo entre as falas dos personagens, como se fossem diálogos picotados, entrecortados ou até mesmo misturados, sabe? Acho que isso era bastante notório na inclusão da sequência em Império dos Sonhos (a falta de sentido nos diálogos entre os coelhos -- dá a impressão de que faz sentido para eles, do jeito que eles falam como se as falas, que pra gente soam sem sentido, são completas). 

Há várias riquíssimas teorias e interpretações para o complexo e sombrio contexto de Rabbits atribuídos pelos espectadores e fãs de Lynch. Alguns dizem que os coelhos na verdade são almas de humanos que encarnaram em coelhos e que estão confinados numa espécie de Purgatório, enquanto outros dizem que os coelhos são na verdade brinquedos de uma criança, enquanto outros simplesmente contestam que o curta nada mais é que uma crítica à cultura pop moderna e ao universo do entretenimento, e também à televisão norte-americana, como se fosse uma alfinetada aos programas sitcom e reality show, que geralmente são providos desse formato. 

Vi o curta com a Ana Paula, minha prima, que já tinha visto um pedaço de Império dos Sonhos comigo e que ao bater o olho identificou os coelhos de Rabbits da sequência do filme. Pra ela, os coelhos testemunharam um crime, assassinato, ou algo do tipo, o que não deixa de ser uma possibilidade, do jeito que as falas dão mesmo para algo tão obscuro como um crime. 

Seria esse mais um pesadelo de horror fabricado pela mente Lynchiana sobre os nossos medos mais cruéis e nosso imaginário sombrio? Fica no ar esse intrigante desafio do diretor, que nos faz questionar e pensar a fundo as mil e uma possibilidades que o curta de pouco mais de 40 minutos oferece e se encaixa. No entanto, dos méritos de Rabbits sobressaem-se os de nos estranhar, nos intrigar e nos assombrar com uma ferocidade avassaladora e de tirar o sono. Além do mais, por conta das teorias e desses contextos estranhíssimos e de seu formato, Rabbits também não deixa de ser um tanto interessante, antes (pra quem viu Império dos Sonhos primeiro e ficou fascinado pela cena incluída) e depois da sessão.

Rabbits 
dir. David Lynch - 

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Crítica: "CASAMENTO GREGO" (2002) - ★★★★


Comédia romântica. Eu particularmente não acho que seja um gênero complicado. O problema é que fazem muitas comédias românticas sem originalidade atualmente, que sempre acabam beirando o clichê ou se marginalizando na falta de criatividade e competência (há muitos casos, quero dizer, muito embora existam inúmeras "exceções"). Mas eu não acho tão difícil apreciar um filme romântico. O pessoal de hoje maldiz o gênero como se fosse uma praga ou algo do tipo, mas não é. Seria a leveza do gênero, minha interpretação e reação, a história, a identificação que caracteriza esse meu fraco por comédias, ainda mais românticas? Eu sei que adoro de coração o gênero. E, por mais que existam filmes ruins, não dá pra dizer não quando a gente se depara com filmes do porte e do tamanho de Casamento Grego, referência dentro do gênero que habita.

A premissa dessa comédia romântica que eu amo rever é simples: Toula, descendente de uma família grega de raiz, passa seus dias lamentando o seu destino -- aos plenos 30 anos de idade, a moça, que ainda trabalha no restaurante "Dancing Zorba's", propriedade da família, nunca teve uma experiência amorosa antes e que está sendo alvo dos pais e dos tios para ser enviada à Grécia, onde deverá se casar com um "bom e honesto rapaz grego", como reza a tradição que paira sobre a família há várias gerações. 

No anseio de começar a viver, ela decide se arriscar, pedindo permissão ao pai para cursar informática na universidade. Não demora muito e ela se apaixona por um rapaz que conheceu no restaurante da família. O único "problema" é que Ian, este rapaz, não é um grego, ele é (nas palavras do pai rigoroso de Toula) um "xeno", o que atormenta a família "barulhenta" e "gigantesca" da moça.

Prazerosamente engraçado e cheio de vida, Casamento Grego é daqueles filmes que te pegam de surpresa e encanta profundamente e ingenuamente. É tão engraçado observar o discreto choque de culturas que se instala, por vezes com um ar cômico e comichão, e noutros uma levada grandemente interessante. Há quem ache desnecessário, mas pra mim é delicioso, muito engraçado. Aliás, graça é apelido em Casamento Grego. O filme é indescritivelmente brilhante como comédia. Não dá pra resistir. 

A surpresa mais grata de Casamento Grego é a sua protagonista excelentemente talentosa, Nia Vardalos, numa performance riquíssima. O roteiro da comédia romântica, levemente baseado nas experiências da atriz, que é descendente de gregos, também é da autoria dela (Nia, inclusive, foi indicada ao Oscar de Melhor Roteiro Original em 2003). O marido dela na vida real, Ian Gomez, aliás, faz uma pequena ponta no filme, como aquele professor que é o amigo do Ian, que aparece na cena em que os dois vão lanchar no "Dancing Zorba's" e em outras cenas. Ele é o carequinha.

Se vale como um filme sobre os valores da família? Porque não? Toda família é torta mesmo, maluca mesmo, não há segredo nisso. O importante é conviver fraternalmente, cultivar o respeito, a lealdade. Em certos momentos a gente chega a perder a cabeça mesmo se a gente for se preocupar com os defeitos das nossas famílias. Mas não dá pra evitar. Isso acontece nas melhores famílias, como diria a Chiquinha. Afinal, família é tudo o que a gente tem no fim das contas. 

Se você é ou se você não é grego, é impossível não se deliciar de rir com as presepadas dos Portokalos. O filme se beneficia demais de sua abordagem narrativa equilibrada, de mãos dadas com o humor sem ser babaca ou supérfluo. O resultado é uma comédias das melhores e mais extasiantes. 

O elenco também se salva como uma das melhores coisas de Casamento Grego. A fanfarrona família de Toula, a maioria constituída por atores norte-americanos, é de fazer a gente gargalhar até molhar as calças. Não sei se é porque revi demais, mas me lembro que da primeira vez foi uma coisa mágica ter visto Casamento Grego, realmente eletrizante e muito, muito, muito engraçado. 

Casamento Grego funciona, é de qualidade, tem um elenco magistral, uma protagonista e roteirista estrondosamente engenhosa e íntegra por trás do projeto inteiro, sequências que chegam a ser marcantes de tão engraçadas e deleitosas. É simplesmente um primor de filme, genialmente excepcional. Faz um tempinho tentei procurar a série do filme, My Big Fat Greek Life, mas nada encontrei. Vou tentar retomar minhas pesquisas. E Casamento Grego 2 já está nos cinemas, trazendo o elenco original do filme de 2002 de volta após quase quinze anos desde as gravações do primeiro. Estou ansiosíssimo, muito embora o que mais andam falando da comédia é que se trata de um filme "batido" e "ultrapassado". Tomara que não seja desse jeito. Nutro um carinho enorme por Casamento Grego e espero gostar de Casamento Grego 2 tanto quanto, apesar de tais desencorajamentos. Ah, e alguém aí sabia que o diretor do filme (Joel Zwick) é também o diretor da série Três é Demais? Fato curioso.

Casamento Grego (My Big Fat Greek Wedding)
dir. Joel Zwick - 

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Crítica: "CHICAGO" (2002) - ★★★★★


Lembro de ter gostado mais de Chicago quando vi da primeira vez. Gostei pra caramba, gostar de chamar de obra-prima. Mas o trabalho foi decrescendo no meu conceito de uns tempos pra cá. E não que eu esteja dizendo que ele não envelheceu bem. O que explica é que eu já vi tantas vezes Chicago que o filme não é tão charmoso como foi da primeira vez. Não é mais tão mágico. E, mesmo assim, uma revisão não deixa de ser precisa. Por outro lado, a beleza visual do filme só tende a me impactar mais e mais com o passar do tempo. Não sei se foi porque da primeira vez vi na telinha, mas, enfim, só sei que Chicago, de umas revisões pra cá, veio me maravilhando cada vez mais no quesito beleza. Em consequência, ele não se sustenta em uma revisão.

O longa é o mais recente musical a vencer o Oscar de Melhor Filme, e conquistou uma porrada de prêmios fora o principal na mesma noite, incluindo Atriz Coadjuvante para a Catherine Zeta-Jones e outras condecorações técnicas (do tipo Direção de Arte, Figurino... Essas coisas de musical). Ainda não vi O Senhor dos Anéis: As Duas Torres, mas pra mim o Oscar naquele ano deveria ir a O Pianista, mas eu ficaria igualmente contente se fosse para ou As Horas ou Gangues de Nova York, mas Chicago foi uma vitória O.K., e justa. 

Estreia do diretor de TV Rob Marshall (que nos trabalhos seguintes não obteve o mesmo sucesso de Chicago) no cinema, Chicago obteve uma grande aclamação por parte da crítica e de público. E não me estranha em nada tal sucesso. Chicago é um musical bastante especial. Tem certas imperfeições mas é com certeza um trabalho cinematográfico de primeira. 

A começar pelo elenco triunfal, que estrela Renée Zellweger na pele da iludida Roxie Hart, Catherine Zeta-Jones como Velma Kelly, Queen Latifah como a carcereira Mama Morton, Richard Gere como o advogado Billy Flynn, e por aí vai. E como um elenco esforçado e talentoso ajuda, e em muito, num musical, hein? O que seria de Chicago sem esse elenco fenomenal, liderado pela Renée Zellweger numa performance de ouro.

Chicago esbanja em seu universo colorido e atrações musicais simplesmente divinas uma visão moral da vida que, ainda supérflua, sai ilesa. Afinal, como todo bom musical, Chicago é exagerado, elétrico e lotado de clichês. O gênero é praticamente composto dessa receita exótica.

Por outro espectro, Chicago funciona como um espetáculo inventivo e que foi feito para o entretenimento. As coreografias sincronizadas, os passos malucos, o timing meticuloso, os repertórios acalentadores... O jazz! Ah, o jazz! Meu amigo, jazz e ritmo são duas coisas que não faltam em Chicago. É contagiante. 

A historinha de crime, ódio, redenção, devoção e loucura passada na Chicago dos anos 20 é o motor da trama contrapontada de Chicago, cidade onde os crimes alimentam o imaginário da vida comum, que é capaz de transformar uma dama qualquer que sonha alto numa celebridade. Interessante descobrir que o material original, peça, foi desenvolvido como crítica ao showbiz. Chicago, entre outras, é um baita de um filme. Curioso, tocante, encantador, frenético... Ah, frenético! Se tem algo que não falta em Chicago é frenesi... E paixão à vida.

P.S.: Foi com esse filme que eu me apaixonei pelo jazz.

Chicago
dir. Rob Marshall - 

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Crítica: "EMBRIAGADO DE AMOR" (2002) - ★★★★★


O que falar de um filme que tanto me impactou em duas rápidas sessões? Essa revisão de Embriagado de Amor, um dos trabalhos mais geniais do Paul Thomas Anderson, fez muito bem pra mim, ainda mais quando da primeira vez tinha terminado encucado, com muitas dúvidas na cabeça. Alguns textos e recomendações aliviaram a pressão dessa confusão, e me ajudaram muito a compreender a proposta do simples Embriagado do Amor, um filme que dialoga sobre os efeitos insanos do amor em nosso ser, com direito a um roteiro bem construído e a mais talentosa performance de Adam Sandler (talvez a única também, levando em consideração o número de porcarias que ele fez), na pele de um tímido pequeno empresário que fica perdidamente apaixonado por uma colega da irmã, e faz absolutamente de tudo para protegê-la e ficar ao seu lado, sendo capaz de qualquer coisa para dominar esse amor. 

Muito provavelmente é meu trabalho favorito do Paul, ainda que eu idolatre Sangue Negro e Magnólia. Embora tenha me deixado um pouco zonzo na primeira vez visto, é o filme menos complicado de Paul. O falso clima de comédia romântica pode decepcionar quem esperava por algo maior. É um tremendo erro rotular Embriagado de Amor com esse gênero tão diverso, extenso e poluído (por natureza). No máximo, trata-se de uma comédia. É apenas um filme. Dá pra rir e dá pra chorar em certos momentos, mas ao certo não é nem comédia nem drama. Afinal, amor é amor independente de tais exigências, e parece que é isso que ele quer deixar inicialmente claro. É uma maneira de purificar a história, na precisa ausência dos abusivos clichês e os julgamentos inofensivos que aniquilariam o poder da narração. 

O cara de terno azul todo desajeitado a quem somos introduzidos logo na estranha cena inicial do filme é Barry Egan, tímido e pouco sociável empresário que trabalha com desentupidores e realiza suas vendas num galpão, onde se localiza o escritório dele e de seus colegas. Aparentemente sem sucesso no que faz, e também não dando a mínima para o desenvolvimento desse trabalho, Barry é atormentado por suas sete irmãs, que o traumatizaram na difícil infância que ele enfrentou, que agora estão loucas para arrumar uma pretendente para o irmão, que está farto da vida que leva e, todo reprimido, vive à beira de um ataque de nervos, e não raramente Barry tem problemáticas crises nervosas, onde ele literalmente quebra tudo, desde a cena do jantar no aniversário, onde ele arrebenta uma janela de vidro numa cozinha depois de ser insultado pelas irmãs, até a do jantar com a Lena, onde ele pede para ir ao banheiro e quebra todo o local depois de ouvir a amada falando que as irmãs comentaram com ela sobre o comportamento dele. 

Minha gente, esse é o amor. Nós achamos um pouco desconcertante e estranho o comportamento do Barry, mas, diante da paixão, quem não automaticamente vira ele? A cena inicial do acidente de carro exemplifica nossa falta de interesse no mundo ao redor enquanto apaixonados. As cenas que mostram o Adam revoltado com os insultos da irmã ou destruindo a trupe do mafioso de Utah demonstram a nossa força enquanto apaixonados. A viagem dele para o Havaí é símbolo da devoção. E a duradoura conversação dele com a mulher do sexo via telefone metaforiza nossa vontade de relatar o nosso amor para os outros. Quem não é louco, tímido, perdido, espontâneo e neurótico diante do amor? O retrato desse sentimento tão inexplicavelmente bonito e eufórico vindo de Paul Thomas Anderson, embora exale um ar meio incomodado em partes, é acalentador e belíssimo. O romance nu e cru.

Sem esquecer da performance estrondosa de Adam Sandler, certamente a melhor já feita pelo ator no cinema, até o momento. Quem diria que um sujeitinho do porte de Adam teria talento o suficiente para trabalhar ao lado de Paul Thomas Anderson em um personagem tão complicado como o Barry. Quem mesmo sonharia que Adam ingressaria a tão rica lista de protagonistas masculinos da carreira de Anderson, ao lado de Mark Wahlberg, Daniel Day-Lewis e Joaquin Phoenix? Fica até difícil reconhecer Sandler num papel tão estrondoso como esse. É raridade, pessoal. A presença da (ainda) tocante Emily Watson, torna essa jornada amorosa ainda mais deliciosa. Philip Seymour Hoffman, perto dos minutos finais, rouba a cena, de leve. A fotografia de Robert Elswit, que no início soa um pouco nervosa devido aos excessivos contrastes, capta a particularidade da nossa loucura em prol do amor, e a instabilidade de Barry, à mercê do desastre e do sucesso em sua missão. Ser apaixonado exige demais da conta. Mas, em compensação, o resultado vem como num sonho perfeito. Embriagado de Amor talvez não seja a mais completa, mas é uma experiência única e lindíssima. Está aí: a "porrada-bêbada de amor"!

Embriagado de Amor (Punch-Drunk Love)
dir. Paul Thomas Anderson - 

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Crítica: "DIRIGINDO NO ESCURO" (2002) - ★★★


Enquanto aguardo impacientemente pela estreia de Homem Irracional, assisto a um dos longas mais engraçados e divertidos já feitos por Woody Allen: Dirigindo no Escuro, um filme fabuloso e extremamente memorável, além de ser um dos longas mais perspicazes feitos recentemente por Woody, que não só dirige e escreve o filme, mas também atua, impecavelmente, fazendo do longa uma pérola autêntica, que agora vale por três. 

Dirigindo no Escuro foi recebido com muitas críticas negativas em sua estreia em Cannes. Bem, o motivo de tais críticas negativas desconheço. Dirigindo no Escuro é sim um dos melhores filmes já feitos por Allen e uma de suas obras mais deliciosas. Minto ao dizer que desconheço o motivo. Talvez, o filme tenha sido mal-recebido devido às suas críticas que tiveram certa ligação ao 11 de setembro, um evento ainda quente à data da estreia do longa. Como o filme foi feito bem antes do acontecimento, tanto que é possível em uma das cenas, perto do final, ver as torres gêmeas de pé, foi um azar inesperado para Allen, já que no final (lá vem spoiler) ele faz uma crítica aos americanos quando seu filme faz um baita sucesso na França, e fracassou nos E.U.A., daí ele diz que "ama os franceses", se muda para Paris com a ex-mulher, e faz outros sarcásticos comentários que apenas não convieram à situação, mas deixaram o clima ainda mais negativo (na cabeça da crítica, deve ter sido: 'Woody Allen, que sempre idolatrou a cidade de Nova York, a troca por Paris no final de seu filme, logo em um momento tão necessitado como esse?'). Mas nada tão grave, se visto do ponto de vista cinematográfico. Apenas uma coincidência. Foi um azar acidental da parte dele o evento ter acontecido e a relação entre os americanos e os franceses terem se agravado tanto em um curto período de tempo. E, afinal, quem é que disse que os personagens de Woody Allen são Woody Allen? Bobagem. Sempre acontece coisas do tipo. Foi até bem irônico, pra ser sincero. Deixou o filme mais desafiador, de certo ângulo.

Mas, enfim, Dirigindo no Escuro é uma comédia sensível, que possui uma pitada de drama e que deixa o público anestesiado, praticamente. Não é um filme lá comum de Woody. Certo que é uma comédia, mas o lado emotivo da trama tem certo ressalto, mesmo que pequeno. E o filme ainda sim engraçadíssimo, deliciosamente romântico e inesquecível também serve de crítica ao mundo tresloucado e excessivamente comercial, como o mesmo protesta, de Hollywood. Vira e mexe a tela é preenchida por críticas geniais à cidade do cinema (bem, dizem né?), por exemplo: "Mande as flores para o Haley Joel Osment por seu prêmio do conjunto da obra" (essa eu ri pra caramba). 

Mas é coisa de Woody. Ele gosta de criticar, fazer sarcasmo. E aqui o neurotismo do protagonista é elevado ao nível máximo. Val Waxman, um velho cineasta que foi descartado de Hollywood há muito tempo, é convidado, graças à sua ex-esposa, para dirigir o remake de um filme de sucesso dos anos 40. Val, encurralado, aceita a proposta com vigor, ainda sim com um enorme receio de ter que trabalhar com a ex-mulher, que o largou há tempos atrás para viver com um outro homem: o mesmo que agora é produtor do remake. No entanto, tal receio, obviamente neurótico e desnecessário da parte de Val, não é nada à frente do que vem para ele. Pouco tempo antes do início das filmagens, Val, um hipocondríaco desvairado, fica cego, de repente, e ele fica louco, pensando que está com um tumor e que o projeto fracassará e ele nunca mais poderá voltar a dirigir alguma produção em sua vida. Com a ajuda de seu agente, Al, e do tradutor do diretor de fotografia chinês, ele é guiado no set de modo ao qual ninguém descubra sua cegueira temporária, psicossomática. 

O resultado é burlescamente cômico e espirituoso. Gargalhei demais. Não duvido muito que talvez seja um dos filmes, se não é "o filme" de Woody Allen que eu mais gargalhei. Gargalhar de gargalhar mesmo, já que muitos dos outros filmes de Woody contam com aquelas piadas mais entonadas, sarcásticas, irônicas, que apenas colocam em nossa face um risinho impressionado e emocionado, diferente daqui, onde a situação é duplamente sarcástica e também pastelão, algo que, cá entre nós fãs e fiéis cinéfilos que acompanham a carreira do diretor, não é muito a praia de Woody não, mas que funcionou, e prova a integridade e a competência desse homem absolutamente incomparável para com o humor. Mesmo que não seja lá um grande filme, ou uma obra magnífica e tal. Não discordo caso falarem que trata-se de um filme pequeno na filmografia de Woody. É sim. Tem erros? Muitos. Mas também tudo não é desastre. Afinal, nesse náufrago, o bote do humor é o herói. 

Dirigindo no Escuro (Hollywood Ending)
dir. Woody Allen - 

sábado, 7 de março de 2015

Crítica: "GANGUES DE NOVA YORK" (2002) - ★★★★★


Puxa vida, que filme! Que direção! Que elenco! Que história! Que versatilidade notória! Gangues de Nova York é um baita espetáculo, e sem sombra de dúvidas, um dos maiores e melhores filmes dirigidos pelo mestre Scorsese. Dono de uma beleza visual incrível e uma jornada ainda mais eletrizante, Gangues de Nova York não poupa esforços para conseguir levar o público ao instinto mais instabilizante possível na poltrona do cinema. Isso por que até mesmo conduzir seu retrato é algo que necessita coragem, talento e dedicação. 

Entrou na lista dos filmes que veria de novo. Filmes que rendem seu tempo. Filmes que rendem processo. E são desses filmes que nascem os clássicos. Inevitavelmente, diria eu, Gangues de Nova York é um clássico cinematográfico, por mais contemporâneo que seja. E afinal, por que não? Há muitas produções atuais pagando esse tão querido título. Várias produções, para ser mais categórico. Gangues de Nova York não só tem a bravura de maravilhar o público como também consegue ser maximamente emocionante, cativante, purificante. Dentre a atual carreira de Scorsese, Gangues de Nova York perde apenas para Taxi Driver, Os Bons Companheiros, Touro Indomável e A Invenção de Hugo Cabret como melhor filme, respectivamente. Ou talvez, essa lista nem exista, por que como Scorsese literalmente nunca falha, essa comparação nem seja tão precisa. 

Esta película trata-se de uma das maiores aulas de história que eu já tive. Um professor que soube ensinar ao seus alunos muito bem a significância dela, por meio de um caminho bem complexo cheio de tramas e reviravoltas de um clímax absurdo. E é lógico, o conteúdo é ainda melhor. 

Estrelando o elenco de mão cheia, temos um Daniel Day-Lewis patriota e racista, opositor do governo de Abraham Lincoln e da imigração irlandesa, o que acaba resultando em uma dupla ironia, pois Day-Lewis é irlandês, e a exatamente dez anos depois do lançamento desta obra viria a interpretar Lincoln, numa das performances mais belas já vistas: uma prova do talento esmerado deste ator contundente, que não é por surpresa, também é brilhante aqui. Em sua primeira colaboração com Scorsese, DiCaprio também conseguiu atuar vivamente, o que de uma forma, resultou numa bela esnobação por todo o seu trabalho, já que o reconhecimento recaiu mais à Day-Lewis, elogiadíssimo e igualmente premiado por este filme. Cameron Diaz na sua interpretação mais matura também não é de se jogar fora. Jim Broadbent ainda dá um brilho com uma atuação instintiva, mas um pouco em off

Como já é de ver, a garantia que se tem de ver Gangues de Nova York bem mesmo é uma eufórica obra-prima do cinema, uma competente aula de história americana. Uma importante peça cinematográfica. Uma valiosa direção, um artimanhoso elenco, um genial roteiro, uma atroz trilha sonora... E outras mil e uma qualidades que até podem deixar o espectador desapontado, mas satisfeito. 

Gangues de Nova York  (Gangs of New York)
dir. Martin Scorsese - ★★

sábado, 20 de dezembro de 2014

Crítica: "AS HORAS" (2002) - ★★★★★


O que mais me fascinou em As Horas é como os detalhes são meticulosamente cuidados por Stephen Daldry, um diretor metódicamente fantástico, cujo trabalho admiro desde Billy Elliot. Apesar de poucos filmes em sua filmografia, Daldry se consagra no universo cinematográfico como um dos maiores diretores do cinema contemporâneo. E As Horas, em minha completa opinião, é seu melhor filme. Protagonizado por um elenco de alta escala, a história avança os mais diferentes ângulos, observa cada personagem de uma maneira arrebatadora. Fiquei sem palavras diante dessa magnânima obra-prima. 

No ano de 2002, outro filme semelhante á As Horas foi lançado. De Almodóvar, Fale com Ela me comoveu substancialmente. Ambos tratam de histórias que acompanham um determinado número de personagens e o desenvolvimento de suas vidas conforme os acontecimentos. Assim ocorre com As Horas. Três mulheres distintas, de diferentes épocas, relacionadas ao clássico romance inglês de Virginia Woolf (também personagem no filme) Mrs. Dalloway. Anos 20. Virginia Woolf, escritora depressiva e melancólica, descontente com sua doença, escreve Mrs. Dalloway. 1951. Laura Brown, dona de casa indecisa sobre sua vida e a família, lê Mrs. Dalloway. Tempos atuais. Clarissa Vaughan, editora de livros conceituada, cuida de um escritor renomado, também seu ex-amante com AIDS. Clarrisa Vaughan vive Mrs. Dalloway. Há uma grande relação entre essas três mulheres. Cada momento reflete, suas vidas são um espelho aberto. Ambas enfrentam as mesmas situações, de diferentes pontos de vista. É assim que Daldry conduz essa jornada espirituosa e emocionante.

A cada novo passo, algo é interrompido. Algo é inventado. Algo acontece. Algo desaparece. A trama de As Horas não gira em torno de apenas um núcleo, mas sim, de núcleos. A trilha sonora, por Philip Glass, autêntica e maravilhosa, dá vida a As Horas. O elenco, indescritível. É claro, em destaque as performances totalmente desoladoras de Nicole Kidman (vencedora do Oscar por uma performance absolutamente impecável), Meryl Streep (atuando fielmente no papel de Clarissa Vaughan) e Julianne Moore (um destaque insubstituível). As três atuam formidavelmente no conflito da trama do filme. O roteiro de David Hare, profundo e marcante. A adaptação do romance de Michael Cunningham (vencedor do Prêmio Pulitzer por este trabalho) é ótima e perfeccionista, realmente, uma obra original e compulsivamente complexa. O filme mantém a fidelidade á obra de Cunningham, e constrói uma memorável película, quão simbólica. Um retrato nunca visto, profundo, que embarca na inspiração dramática de Bergman. As Horas é uma obra-prima belíssima. Um retrato poético e realista da ação do tempo e do ciclo da vida, recheada de uma rara sensibilidade, e uma notória importância cinematográfica.

As Horas (The Hours)
dir. Stephen Daldry -