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terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Crítica: "O LEITOR" (2008) - ★★★★


Pela primeira vista, O Leitor pode parece uma obra fantasticamente suprema. Mas não é tanto, confesso. De fato, Stephen Daldry errou o ponto ao filmar a adaptação do romance alemão Der Vorleser, do escritor Bernhard Schlink. É claro, a performance de Kate Winslet não está incluída no fracasso crítico de O Leitor, que na minha opinião, é uma autêntica obra do cinema. Com a exceção de Ralph Fiennes, Kate Winslet e Lena Olin (em uma curtíssima aparição), o elenco deste filme é composto por atores alemães e/ou novatos. O elenco não é tão grande. O roteiro de David Hare não é tão "surpreendente", mas teve um rendimento excelente no desempenho de O Leitor. E sobre a direção de Stephen Daldry, dessa vez, eu concordo: a indicação ao Oscar de Daldry foi bastante exagerada, apesar dele ter dirigido o filme com coragem e talento. Existem apenas duas coisas que "salvaram" O Leitor: a performance extasiante de Kate Winslet (cuja não sabemos se é coadjuvante ou protagonista), e o roteiro magnânimo de David Hare (parceiro de longa-data de Daldry, desde a grandiosa obra-prima As Horas). 

Há pouco tempo atrás, me interessei por O Leitor. Um filme que fulminantemente despertou a minha atenção. Principalmente pela tão agraciada performance de Kate Winslet, que ganhou o (merecidíssmo) Oscar de Melhor Atriz em 2009, derrotando Meryl Streep e Anne Hathaway, as favoritas do ano. E concordo: o que realmente me surpreendeu em O Leitor foi a performance de Winslet, nunca vista. Nem mesmo em Titanic, ou Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças. Concordo que, aqui, ela deu o melhor dela a fim de poder oferecer ao filme um pouco de competência e magnanimidade.

Apesar de não chegar em duas horas de filme, O Leitor, pode cansar. Ele é terrivelmente demasiado. Este é mais um daqueles filmes que só devem ser vistos por quem entende de cinema e realmente tem visão para compreender e codificar os elementos. Caso contrário, se você não tem essa noção, é melhor nem assistir a O Leitor. Sim, é um filme demasiadamente demorado, dotado de uma imprevisível lentidão, além de ser um drama bem drama (dramalhão com toques dramáticos de um drama dramático, enfim: um drama muito dramático). Não é um drama conciliado à crises de choradeira, mas também não é um drama fraco. Neste quesito, O Leitor é um grande drama. Só desaponta em sua estrutura efusiva. O Leitor também pode ser considerado a "grande surpresa do ano de 2008" (em relação á temporada de premiações, é claro). O drama foi ignorado em diversas premiações, e sua súbita aparição em cinco categorias no Oscar (incluindo Melhor Filme) foi de um impacto imenso, porém, não deixou de ser merecida. Em minha opinião, o único erro foi indicar Stephen Daldry, que por sua vez, merecia mais ser indicado em Direção por um de seus mais recentes filmes, Tão Forte e Tão Perto. Se fosse para indicar ao Oscar, David Kross, a revelação da película, merecia uma indicação a Melhor Ator Coadjuvante. Ralph Fiennes, apesar do curto desempenho, também poderia estrelar a categoria. A trilha sonora, conduzida por Nico Muhly, também poderia garantir um espaço na premiação. Em relação á Kate Winslet, tudo o que posso afirmar é que sua performance desbravadora como a desolada e culpada Hanna Schmitz foi o que inteiramente salvou o filme. Completamente. 

A satisfação de assistir á O Leitor foi Kate Winslet, felizmente, e um pouco, da direção de Daldry. Apesar de ter merecido uma indicação por Foi Apenas um Sonho, aqui, a atriz também está formalmente excelente. Apenas um erro da Academia desviou sua chance de levar dois Oscars. A atriz, originalmente, deveria ser indicada em Melhor Atriz Coadjuvante por O Leitor, porém, os produtores decidirão substituir Foi Apenas um Sonho, candidatando-a em Melhor Atriz Principal, o que foi um erro desconcertante. Mesmo se indicada em Atriz Coadjuvante, e vencendo, Kate também seria indicada (e em minha opinião, venceria) por Foi Apenas um Sonho. No final, O Leitor, apesar de não ser nem um pouco parecido ás minhas expectativas, foi bom, parcialmente. Para ser sincero, Kate Winslet foi o melhor de tudo em O Leitor, um drama histórico que repete uma fórmula, mas mantém a originalidade de uma comovente e realista obra do cinema.

O Leitor (The Reader)
dir. Stephen Daldry - ★★★★

sábado, 20 de dezembro de 2014

Crítica: "AS HORAS" (2002) - ★★★★★


O que mais me fascinou em As Horas é como os detalhes são meticulosamente cuidados por Stephen Daldry, um diretor metódicamente fantástico, cujo trabalho admiro desde Billy Elliot. Apesar de poucos filmes em sua filmografia, Daldry se consagra no universo cinematográfico como um dos maiores diretores do cinema contemporâneo. E As Horas, em minha completa opinião, é seu melhor filme. Protagonizado por um elenco de alta escala, a história avança os mais diferentes ângulos, observa cada personagem de uma maneira arrebatadora. Fiquei sem palavras diante dessa magnânima obra-prima. 

No ano de 2002, outro filme semelhante á As Horas foi lançado. De Almodóvar, Fale com Ela me comoveu substancialmente. Ambos tratam de histórias que acompanham um determinado número de personagens e o desenvolvimento de suas vidas conforme os acontecimentos. Assim ocorre com As Horas. Três mulheres distintas, de diferentes épocas, relacionadas ao clássico romance inglês de Virginia Woolf (também personagem no filme) Mrs. Dalloway. Anos 20. Virginia Woolf, escritora depressiva e melancólica, descontente com sua doença, escreve Mrs. Dalloway. 1951. Laura Brown, dona de casa indecisa sobre sua vida e a família, lê Mrs. Dalloway. Tempos atuais. Clarissa Vaughan, editora de livros conceituada, cuida de um escritor renomado, também seu ex-amante com AIDS. Clarrisa Vaughan vive Mrs. Dalloway. Há uma grande relação entre essas três mulheres. Cada momento reflete, suas vidas são um espelho aberto. Ambas enfrentam as mesmas situações, de diferentes pontos de vista. É assim que Daldry conduz essa jornada espirituosa e emocionante.

A cada novo passo, algo é interrompido. Algo é inventado. Algo acontece. Algo desaparece. A trama de As Horas não gira em torno de apenas um núcleo, mas sim, de núcleos. A trilha sonora, por Philip Glass, autêntica e maravilhosa, dá vida a As Horas. O elenco, indescritível. É claro, em destaque as performances totalmente desoladoras de Nicole Kidman (vencedora do Oscar por uma performance absolutamente impecável), Meryl Streep (atuando fielmente no papel de Clarissa Vaughan) e Julianne Moore (um destaque insubstituível). As três atuam formidavelmente no conflito da trama do filme. O roteiro de David Hare, profundo e marcante. A adaptação do romance de Michael Cunningham (vencedor do Prêmio Pulitzer por este trabalho) é ótima e perfeccionista, realmente, uma obra original e compulsivamente complexa. O filme mantém a fidelidade á obra de Cunningham, e constrói uma memorável película, quão simbólica. Um retrato nunca visto, profundo, que embarca na inspiração dramática de Bergman. As Horas é uma obra-prima belíssima. Um retrato poético e realista da ação do tempo e do ciclo da vida, recheada de uma rara sensibilidade, e uma notória importância cinematográfica.

As Horas (The Hours)
dir. Stephen Daldry - ★★★★★